revista bula
POR EM 12/04/2011 ÀS 09:55 PM

Mate-se a vaca

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Meus quatro ou cinco leitores, quase sempre leitores contingentes, fortuitos e aleatórios, já sabem que no me gusta mucho hablar de política. É minha maneira de respeitar a opinião alheia. Nestas questões de paixão ou de fé, como religião, futebol e política, é difícil que alguém se convença de que a opinião dos outros pode ser melhor do que a sua. Prefiro, por isso, ficar calado. Mas não entenda que não tenho opiniões a respeito de religião, de política, e não tenha o meu time do coração.

Bem, o assunto é o modo como algumas nações, na atualidade, agem para impor seus próprios pontos de vista, como se fossem os donos da verdade. Falta-lhes qualquer senso autocrítico. Resumindo, são povos que não conseguem ver o próprio nariz, mesmo diante dos melhores espelhos.

E a vaca?

Meu amigo Adamastor, um gigante em pecuária, me contou outro dia a história de um conhecido seu, famoso fazendeiro pecuarista, homem poderoso, que não admitia ser contrariado em coisa alguma. Como a maioria dos homens poderosos. Um dia, no meio de seu rebanho, apareceu uma vaca coberta de carrapatos. Ela definhava de tanto sangue os bichinhos lhe sugavam. Ora, perder uma vaca para esses artrópodes é humilhação que um fazendeiro de sua estatura não poderia aceitar. E não aceitou.


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POR EM 01/04/2011 ÀS 11:05 AM

Das diferenças

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De meu falecido pai aprendi algumas lições. Hoje penso que nem todas foram muito importantes, pois nós tínhamos nossas diferenças que deveremos carregar para o reino de Hades. Uma delas, contudo, a do respeito pelas diferenças, veio-me dele. Apesar de que, na prática, muitas vezes, ele tenha deixado de aceitar opiniões minhas diferentes das opiniões dele. Só bem mais tarde aprendi que discurso pode ser intenção, e que intenção pode não corresponder ao ato. 

Tempos atrás um jovem repórter me pediu uma entrevista, e tenho por norma jamais me recusar, mesmo sob condições adversas. Tenho consciência do que representa a mídia para mim e aprendi a respeitá-la.

Como fecho da entrevista, o jovem me pediu a indicação de algum livro, com algumas palavras sobre ele. Se desde muito cedo vivo entre livros, e os manipulo diariamente, não foi difícil escolher um, cuja leitura me parece fundamental para uma pessoa culta. Mas o repórter não estava satisfeito. Acabou pedindo a indicação de um DVD. Arregalei os olhos, e ele, gentilmente, explicou: algum show que o senhor recomende. Quando percebeu minha atrapalhação, olhou-me com sorriso sardônico: — Mas nenhum? O senhor, então, não gosta de música?


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POR EM 20/03/2011 ÀS 02:10 PM

Consumo involuntário

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Estou pensando seriamente em viajar semana que vem. Mas viajar para muito longe, provavelmente para alguma região da Amazônia, lá onde se pode ficar a cem quilômetros de qualquer outro ser humano senão da família. Trocar buzinas pelo canto do uirapuru, o concurso de aparelhos de som automotivos pelo marulho de algum córrego entre as pedras.

Disse ontem exatamente isso ao Adamastor e ele me olhou muito espantado. Sei muito bem o sentido de seu olhar: ele acha que estou ficando louco. E ele tem razão. A vida entre seres humanos invasivos vem corrompendo meu juízo. Todos os habitantes de qualquer cidade, ou quase todos, expõem seus ruídos despudoradamente, tornam-se produtores públicos de barulho, certos de que temos necessidade deles.

Vivemos, sobretudo nos centros urbanos, mesmo os mais suburbanos, a falta de respeito que tem caracterizado nossa época. Ninguém mais se lembra de que a vida em sociedade só foi possível até hoje porque existiam normas de conduta em que um respeitava o espaço do outro. Hoje, qualquer um chega e vai entrando em sua casa, sem pedir licença, sem perguntar se você, o eventual ocupante daquele lugar, está a fim ou não de consumir o que ele vai impingindo, queira-se ou não.


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POR EM 03/03/2011 ÀS 01:55 PM

Confissão de um fraco

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Nunca me imaginei tão fraco como agora me descubro. Sem querer imitar o Estrangeiro que não parava de fazer perguntas ao Teeteto, para que entre ambos houvesse comunidade de entendimento, preciso começar determinando com mais clareza que tento me referir. É claro que existem muitos tipos de fraqueza e só me confesso fraco para alguns dos tipos. Se me ausculto, por exemplo, procurando fraquezas físicas, não encontro grande coisa. O desgaste natural da máquina, lógico, vai-se tornando evidente. Também não tenho mais dezenove anos. Um joelho perrengue, já farto de tanto trabalho e exigindo sua aposentadoria, uma vista da qual as principais virtudes debandaram, o ouvido que fica procurando lábios alheios com a insistência de quem gostaria de não perder o que se diz, e por aí vai. Nada que um bom geriatra não consiga lenir. E, se não conseguir, devo encarar como natural a curva descendente.

Não, não é na carcaça que encontro a fraqueza, mas em órgão que geralmente não se mostra em público, e que, às vezes, quando cheio, ameaça estourar. Enfim, ainda não se fabricam de aço. E um presidente da república, um dia, disse que o tinha roxo. Mas a cor não interessa, no caso, e sim sua resistência. Do meu já anda perto do fim.


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POR EM 20/02/2011 ÀS 12:58 PM

Companheiras inseparáveis

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Chavão, para o que nos interessa, não é aumentativo de chave. Uma chave muito grande. Segundo mestre Aurélio, chavão é a “Sentença ou provérbio muito batido pelo uso.” Existem palavras que parecem não conseguir sobreviver sem alguma companheira. São as companheiras inseparáveis, aquelas que deslustram o estilo e enfraquecem a eficácia do texto. Esse título, aí em cima, pode ser usado como exemplo. É um clichê. Se você duvida, preste atenção, entre outras coisas, às entrevistas de jogadores de futebol. Pelo menos da maioria. “Vamos dar uma alegria à torcida”, “Vamos fazer o que o professor mandar” e assim por diante. Caramba, “assim por diante” é mais um chavão.

Você já viu, por exemplo, na descrição de uma pessoa, a qualificação de “frio” sem que viesse acompanhada de “calculista”? Parece que toda pessoa fria deve também ser calculista. Você, é claro, conhece o adjetivo “ingente”, mas já encontrou alguma vez tal palavra no plural sem que viesse antecedida pelo substantivo “esforços”?

O mesmo acontece com “abalizada”, que logo chama sua companheira “opinião”. É claro que não se precisa falar dos “com certeza” da vida, ou os “por conta de”, modismos que a televisão se encarrega de divulgar, e que as pessoas de escasso vocabulário têm necessidade de copiar. É muito tentador, mas não vou falar daquela aberração que é a estrutura “amanhã vamos estar enviando”, cópia horrorosa que algumas secretárias treinadas nos Estados Unidos fizeram do “tomorrow we ara going to send”, que é um tipo de futuro correto em inglês ou qualquer coisa semelhante. Felizmente a fase de macaquice de algumas pessoas vai arrefecendo, e já pouca gente, exceto vendedores, telefonistas e recepcionistas, continua usando essa fórmula indecente.


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POR EM 15/02/2011 ÀS 06:25 PM

Como se fazem os heróis

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Nunca dou muito crédito às histórias que o Adamastor me conta, mas algumas delas são interessantes. Esta que aí vai é exemplar. E as histórias exemplares tanto podem ser verdadeiras como ficção que isso pouco importa. O Aristóteles já dizia que o poeta está mais próximo da filosofia do que o historiador. Não sou ninguém para duvidar do Aristóteles.

Na cidade onde o Adamastor nasceu, ele me conta que conheceu um vizinho, bombeiro, homem pacato, sem vocação nenhuma para gestos grandiosos, altos cometimentos. Um bombeiro que não se tratava propriamente de um gigante. 

Uma tarde terrivelmente quente de verão, a corporação de seu conhecido foi convocada para debelar as chamas de um incêndio e tentar, ao mesmo tempo, o resgate de duas, três pessoas que ainda permaneciam lá dentro, por trás do fogo, o que era mera ilação justificada pelos gritos que se ouviam e que pareciam vindos do inferno.

Sob o comando de um sargento, alguns bombeiros começaram a jogar água no prédio em chamas, enquanto outros entravam desassombradamente pelos corredores escuros de fumaça. A multidão, em volta, olhava pasma para tudo aquilo, sem nada poder fazer. Alguns, para chegar um pouco mais perto, traziam lenços molhados com que aliviar o calor do rosto e evitar muita fumaça nos pulmões. 


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POR EM 08/02/2011 ÀS 07:26 PM

Cidade à noite

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Na sacada aqui de casa, fiquei parado contemplando a cidade à noite. Há muito tempo não fazia isso: contemplar. Nossa visão torna-se veloz como os meios de comunicação, e o muito que vemos é pouco mais que o nada que sabemos. Perdemos o hábito de olhar, e ver já nos basta. Mas eu estava com calor e não tinha nada de urgente com que me ocupar. Por distração, fui acabar na sacada. À noite. Vultos distantes, luzes que hesitavam, sombras sobre a Terra. Aos poucos fui perdendo o sentido do aqui, numa espécie de vertigem, como estar solto no espaço, como ter desenterrado os pés do barro em que geralmente os mantemos. E, na medida em que desaparecia qualquer ligação com a proximidade, com o entorno que nos corporifica, mas que também nos aprisiona, nesta mesma medida o agora foi perdendo sua lógica.

Desligado, por fim, de minha condição de um ser envolvido pela concretude da existência, pareceu-me poder ouvir simultaneamente cada suspiro, cada gemido produzido no interior dos milhares de casas de que se compõe a cidade. Senti que havia um pulsar de vida em cada uma das janelas que se recortavam na escuridão, que ali, onde a vista percebia apenas pequena mancha de luz, existiam sonhos e planos e desilusões e frustrações, acertos e erros, maldade e bondade, que tudo junto é a massa de que somos formados.


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POR EM 25/01/2011 ÀS 10:45 PM

Carta às icamiabas

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Não sei onde foi, que ultimamente ando bastante desatento, mas li qualquer coisa sobre as icamiabas. Ora, só conhecia essa palavra em apenas um contexto,  não houve como escapar ao humor marioandradino, que só não o teve bom quando brigou com o Oswald, o debochado.

Em sua conhecida “Carta às icamiabas}”, capítulo do romance “Macunaíma”, que ele preferiu chamar de rapsódia, Mário de Andrade critica o fato de se falar uma língua e se escrever em outra. Bem, naquele estádio, quando se iniciavam os estudos linguísticos, pareceu uma crítica aceitável. Mas hoje, depois dos estudos das linguagens, depois de Saussure, Martinet e todos que lhes seguiram os passos, tenho certeza de que o autor teria outra visão dos fatos. A verdade é uma donzela, às vezes bela, às vezes horrorosa, e que, camaleoa, nunca é hoje o que foi ontem nem o que será amanhã.

A presença física tem um grau de riqueza na comunicação que jamais será alcançado pela escrita. A voz, suas intenções, os gestos (quem disse que mão não fala?), as expressões faciais, o mover dos olhos, enfim, uma infinidade de detalhes que enriquecem o ato da comunicação oral que não são encontrados na língua escrita. A oralidade é por natureza, senão por necessidade, reiterativa, redundante.


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POR EM 18/01/2011 ÀS 01:12 PM

Carne levare

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Ainda não descobri se vai ser em fevereiro ou março. Até hoje não sei o mecanismo da alegria que às vezes cai num mês e no ano seguinte temos de nos alegrar em mês diferente. Sei que alguém tem firme e seguro o calendário nas mãos e exerce o controle sobre nossa alegria, mas também não sei quem tem esse poder.

É provável que dessa expressão aí acima tenha vindo a palavra carnaval. “Afastar a carne” seria seu significado. E carne, aqui, com toda certeza no sentido de corpo, nesta dualidade que nos impuseram: o corpo em oposição à alma. O carnaval tem sua origem provavelmente nas celebrações ao deus Dioniso, na Grécia, ou Baco, em Roma. Tais celebrações tinham a forma de festas orgiásticas em que o vinho liberava os costumes e tudo era permitido. Afirmam os estudiosos do assunto que era uma válvula de escape para o peso da civilização.

Quanto mais desenvolvida a civilização de um povo, maiores serão os impedimentos, as proibições, os encargos. Quanto mais civilizado um ser, mais preso fica a regulamentos, a imposições de toda ordem. A duplicata no banco, o aniversário do filho do amigo, os beijos nas faces, as frases convencionais. Sua memória fica entupida de números e senhas, de procedimentos adequados ou não. Nostálgico de sua vida primitiva e livre, o homem tinha necessidade de deixar-se conduzir pelos instintos vez por outra para não arrebentar. A embriaguez era o caminho mais rápido.


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POR EM 05/01/2011 ÀS 02:50 PM

Cara de tacho

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Se você nunca se sentiu com cara de tacho, não precisa ler esta crônica até o fim, pois quem não passou por tal experiência não vai entender o que certa vez se passou comigo. Esta é uma história que ninguém me contou. Eu a vivi ao vivo com as cores do rubor da face.

Era a década de setenta e eu já andava com mania de escrever. Mania que me vinha de longe e de que não consegui até hoje me desfazer. Descobri, já nem me lembro como, lá perto da PUC de São Paulo, uma livraria frequentada, principalmente, por escritores e aspirantes. Estar entre eles, pensei, me fará não um igual, que não tenho tanta pretensão, mas, pelo menos, e num grau mais baixo, um assemelhado. Comprei alguns livros, fiz amizade com o Wladyr Nader, dono da livraria e hoje professor de jornalismo na PUC de São Paulo, tomei algumas cervejas com famosos e outros nem tanto num barzinho ao lado da livraria.

Quase todo sábado, meu dia de folga, marcava ponto na Livraria Escrita. Foi lá que conheci o João Antônio, num lamentável lançamento de livro (chovia canivete de ponta naquela sexta-feira tenebrosa); o Dyonélio Machado, de passagem por São Paulo bateu papo com a gente; o Jamil Almansur Haddad, depois de ter lançado na França, veio à livraria do Wladyr lançar o “Avis aux Navigateurs”.


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