revista bula
POR EM 02/04/2008 ÀS 08:05 AM

O medo do Honório

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O escuro está debaixo de seus olhos – escuridão, mas Honório não quer ver. Não quer claridade nenhuma porque todos os detalhes foram planejados no silêncio de seus pensamentos, mesmo os mais tenebrosos. Afasta o cobertor e move simultânea e lentamente as duas pernas, sentando-se na beirada da cama. Faz cinco anos que enterrou Irene, mas isso não é motivo para que não tome todas as noites as maiores precauções para não perturbar a esposa.

Conhece de cor os caminhos e suas encruzilhadas, sabe como dar cada um dos passos que devem levá-lo ao fim do medo.

Concebeu a idéia ao abrir os olhos em uma manhã de inverno. Primeiro ocorreu-lhe o pensamento não muito claro, por causa dos restos de sono, segundo o qual estava vivo e acordando. Mantinha ainda os olhos fechados. Uma ponta do edredom cobria-lhe uma parte do rosto, e Honório percebeu que o ar expelido pelas narinas criava uma pequena zona de calor na ponta da coberta com que, de madrugada, provavelmente, protegeu-se do frio. Parou de respirar alguns segundos para descobrir quão próximas caminham a vida e a morte. Qualquer movimento, pensou, e mesmo dos mais sutis.

 Com os pés plantados no piso do quarto, Honório vai-se desdobrando até ser um homem inteiro com sua altura. Faz rapidamente a checagem de suas últimas decisões e conclui que está tudo perfeito, como se a vida, então, começasse a arredondar.

Enquanto não abrisse os olhos, poderia considerar-se em total repouso, o que lhe pareceu conveniente em uma manhã fria de inverno. Afastou a ponta do edredom e permitiu que o ar entrasse e saísse com total liberdade. De olhos fechados, a respiração era saudável – um ar sem os sobressaltos da noite.

Já vinha carregando há vários anos o medo de alguma surpresa. Sim, porque, enquanto dormia, era um corpo inteiramente desprevenido. Não exercia controle sobre o ambiente nem podia saber o que ocorria ao redor, quando estava dominado pelo sono. Honório, ultimamente, detestava ter de dormir e desligar-se, entregue por completo às ameaças de um mundo hostil.

Uma noite acordou com o vento que entrava pela janela do quarto, sacudindo as cortinas e levantando o lençol. Ficou imóvel na cama, os sentidos abertos, totalmente abertos para descobrir de onde e como se desencadearia a agressão. Apenas seus olhos moviam-se em todas as direções, mudos e grandes. Minutos de silêncio absoluto e dolorida tensão. Alguém abrira a janela enquanto ele dormia? Seus ouvidos engatilhados não registravam nada além do farfalhar das cortinas e da luz azulada que entrava com o vento. Aos poucos o dia amarelava sem que nada acontecesse. Honório, finalmente, levantou-se com o pijama ainda impregnado de medo e seu cheiro ácido.

Aquele foi um dia estragado por pesquisas e suposições. Procurou rastros no jardim, examinou o portão, imaginou escadas e desconfiou dos vizinhos. Não chegava a uma conclusão e justo por não chegar a uma conclusão as ameaças tornavam-se maiores. Tudo pode ser, murmurava com a testa enrugada. Tudo pode ser.

No fim daquela semana, quando o pensamento começava a ocupar-se de coisas mais amenas e corriqueiras da vida, Honório sentiu uma pontada do lado esquerdo, pouco abaixo do mamilo. Isso foi logo depois do jantar. Imóvel, com os olhos muito abertos, auscultou-se durante quase meia hora. A pontada retornou mais forte ainda. Desligou a televisão para observar melhor o que estava acontecendo. Aguda e forte, a pontada, rápida como deveria ser um colapso cardíaco. Fulminante. Embrulhada nesse pensamento chegou a sensação de desconforto: suas mãos suavam. Seria o caso de internar-se num hospital? Melhor esperar um pouco mais. Mas era preciso estar atento, caso contrário não teria como pedir socorro. Resolveu sentar-se na poltrona ao lado do telefone. Ao primeiro sinal, decidiu.

Leu enquanto seus olhos conseguiam decifrar aqueles sinaizinhos. Então fechou o livro e seus braços distendidos bocejaram querendo adormecer. Conferiu a hora no relógio da parede. Não tinha feito nem meia volta. Foi à cozinha e tomou um copo de água. Apalpou-se com método, reconheceu reentrâncias e protuberâncias, esfregou as mãos nos braços nus. Voltou à poltrona ao lado do telefone. A noite era lenta, seus ruídos cada vez mais distantes. Lembrou-se de Irene, então, e achou que não faria mal nenhum chorar pela esposa. Com isso sentiu-se um pouco mais reconfortado, com forças para enfrentar a noite.   

Passou toda aquela madrugada bem desperto, esperando o primeiro sinal, que não veio mais. E a manhã o iluminou sentado na poltrona, com os olhos ardendo e injetados de sangue.

Depois dessa noite em claro, nunca mais teve sossego o Honório, desconfiado que andava de que em tudo escondiam-se ameaças. Não dormia sem examinar uma última vez todas as portas e janelas, mesmo assim, muitas vezes depois de deitado tornava a levantar-se, pois não tinha certeza de haver examinado direito a porta da cozinha. No quarto, novamente, ajoelhava-se ao lado da cama, afundava a cabeça até a testa encostar no piso para que nenhum desvão debaixo da cama restasse livre de seu exame. Só então deitava-se para descansar. Mal fechava os olhos, contudo, lembrava-se das torneiras, do registro do gás, e voltava, já no fim das forças, a verificar os mil esconderijos das ameaças potenciais.

O sono, por fim, aproximava-se lento e silencioso, e Honório fechava os olhos sem perceber que o cansaço não era maior do que o medo. Então, um gato que miava no jardim, uma garrafa que um bêbado quebrasse na calçada, um estralo de uma viga no telhado, qualquer coisa punha-o outra vez desperto.  

As noites, de olhos abertos e ouvidos atentos, eram noites muito escuras, muito lentas, e em geral as manhãs encontravam Honório exausto, exalando aquele mesmo cheiro de medo, com que não se acostumava.

Finalmente, ao abrir os olhos naquela manhã fria de inverno, percebeu subitamente que não havia muita diferença entre sono e vigília. Se mantivesse os olhos fechados, podia fingir que estava dormindo. Quando abriu finalmente os olhos de maneira muito dissimulada, inventando em tudo aquilo um fingimento, imaginou que poderia enganar também os perigos de que se via cercado. Depois de muitas noites fechadas, naquele momento ele sorriu.

De pé, ao lado da cama, primeiro estabelece o equilíbrio, e com as pontas dos dedos mede a distância em que fica a parede. São quatro passos para a direita. Está descalço e seus pés gozam por instantes o contato do piso frio. Pára e pensa. As duas janelas são manchas na parede oposta, são dois quadriláteros de uma tênue claridade leitosa. Tão fraca, a claridade, que não é suficiente para que ele consiga distinguir os móveis com os olhos. Na fotografia do pensamento, contudo, sabe a exata posição de cada objeto com seus contornos e quinas.

Honório avança lentamente porque agora não há mais razão nenhuma para pressa. Na casa toda ele é o único ser que se move, mas se move como se não existisse, um corpo sem os limites de seu território, um silêncio que ultrapassa a porta da sala e chega à cozinha.

A cozinha é um conjunto articulado a dormir à espera da manhã. Em pouco tempo também ele vai poder repousar quieto, muito quieto e sem medo ao lado de Irene, que continua dormindo.    

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POR EM 25/03/2008 ÀS 11:07 AM

A escada que leva ao céu

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Pessoa de minha total confiança foi quem me contou. Uma dessas loiras contratadas por canais de televisão para divertir e instruir o povo brasileiro foi pega cometendo o que mais elas cometem: uma gafe dantesca. São esses os momentos em que mais sentimos a falta do Stanislaw Ponte Preta. Sentimos nós, os que tiveram a sorte de viver numa época em que ele vivia. E escrevia. Seu Festival de Besteiras que Assolam o País, além de fazer as delícias de uma geração inteira, era uma válvula na panela de pressão, que foi a ditadura de 1964, mas não eram besteiras apenas de políticos. Uma de suas frases mais célebres - “Televisão é máquina de fazer doido” - comprova a abrangência de seu olhar arguto e caberia muito bem neste caso relatado por meu amigo.

A dita loira, interrogada por alguém sobre A divina comédia, de Dante (mas isso também já é crueldade), não teve dúvida e lascou, com a maior cara-de-pau, que tinha rido do início ao fim do livro.  Pobres meninas, obrigadas que são, no fogaréu de programas ao vivo, a fingir o que não são porque não podem decepcionar seu público sempre ávido por heroínas.

Conheço muita gente que nos continua merecendo o maior respeito e que confessa honestamente não ter lido A divina comédia. Pode ser uma deficiência cultural,jamais um defeito humano. Mas nossas apresentadoras, as tais heroínas, não sabem disso.
 
A palavra “comédia”, nos séculos XIII e XIV, quando Dante viveu, não significava o mesmo que hoje. Transcrevo de um prefácio de Hernâni Donato para uma edição brasileira da Divina Comédia, o seguinte: “’cômico’ designava o estilo preferentemente adotado para tratar assuntos em que ao sublime se combinasse o trivial; o religioso ao profano; o alento ao desalento, enfim a contradição que é o homem governado por sentimentos e paixões”. Em outros autores encontra-se a palavra “comédia” com o sentido de narrativa com final feliz em oposição à tragédia, invariavelmente com final catastrófico.

Ora, minha cara apresentadora, ninguém ri das terríveis descrições do inferno, sobretudo nesta, que é a primeira concepção concreta, visual, do lugar que, segundo alguns, está cheio de boas intenções. E que dizer do purgatório, ou limbo, para onde, entre outros, foram enviados todos aqueles que viveram antes do cristianismo? Você riria do paraíso ao ver o êxtase em que mergulha o poeta ao subir até o último círculo, onde se depara com a luz perfeita, com a bondade sem mácula?

Não, por aqui, na Botocúndia temos o hábito de rir de tudo. Rimos até do céu e do inferno, principalmente quando queremos fingir que lemos um livro.

Só pra terminar, e lembrando uma entrevista recente de Umberto Eco: o inferno é infinitamente mais interessante do que o purgatório e o céu. No inferno nos identificamos, lá se encontram nossos vícios, os vícios humanos. E quem não os tem? A coisa amarela no limbo e se santifica no céu. A Beatriz, como imaginá-la a mulher amada, aureolada de luz da santidade? Com o rosto geralmente voltado para o alto e os olhos cravados no Ser Perfeito? E os círculos de anjos luminosos que ora dançam, ora cantam, tudo sem defeito algum?   

Não tenho notícia a respeito das convicções do Umberto Eco (assim mesmo, sem o “h”, como se escreve em italiano) a respeito de religião. Talvez seja ateu e, por isso, não deseje o céu nem tema o inferno. Lembro-me de que declarou sua preferência com um sorriso bastante malicioso. O que me parece indiscutível, entretanto, (pelo menos foi a impressão que me causou) é que o julgamento do mestre prende-se apenas a uma avaliação poética.

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POR EM 19/03/2008 ÀS 11:51 AM

Frente a frente

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A ruptura não tinha sido percebida de imediato. Apesar de instalada entre eles, bem durante, Anselmo e Joana continuavam acreditando poder salvar alguma coisa do que fora seu amor, razão daquele casamento. Por dez anos, desde o nascimento do primogênito até a chegada da caçula, estiveram sempre empenhados na aprendizagem de alguma espécie de dor. A lenta aprendizagem que só é possível graças ao hábito de sofrer como se não houvesse outra saída. Foi aos poucos a descoberta do rancor que os unia. Devagar. 

Houve fraldas e óleos e conta-gotas, nesses dez anos. Dor de ouvido, diarréia, coqueluche e sarampo.  
 
O nascimento de Aninha marcou o último ato conjunto do casal. Já dormiam, então, em camas separadas. Fruto derradeiro.
 
– Nosso dever já está cumprido – repetiu Joana como um desabafo que pudesse sal-var suas vidas.
 
Na rua, além do jardim, o trânsito se aproximava da noite nos postes e nos faróis dos automóveis. Na lenta passagem do ônibus, difícil e sofrida por causa da ladeira, perderam o ritmo de sua respiração, como se estivessem de pulmões parados. Por isso, conferiram-se com olhos tímidos, quase extraviados, sem, contudo, se encontrarem. Joana, quando o ônibus desapareceu com seu fragor, ambos anoitecidos, recomeçou a respirar como sabia, que era de forma lenta e profunda, uma respiração que a defendia dos achaques e das manias do marido. Portanto, Joana respirava em sua própria defesa. Diferente de Anselmo, que tinha uma respiração curta e rápida e respirava para atacar.  
Dever cumprido.
 
Os quatro filhos cresceram em caldo azedo, onde todos os dias. E seu crescimento era o próprio ácido que se despejava no caldo. A vida estragava-se lenta sem atender aos apelos das idades sucessivas que se passavam irreversíveis. Foi assim que chegaram as rugas e os cabelos brancos e esmaeceram todos os cheiros e perderam o brilho todas as cores. Foi assim que o corpo começou a responder com dificuldade aos prazeres que a memória continuava teimando em manter vivos.
 
As estações se passavam, mas havia os filhos para criar, e criar os filhos era deixá-los formar suas próprias famílias. Dever de pais. Aninha, principalmente, parecia não ter pressa. Era a caçula, e o silêncio dos dois não conseguia perturbá-la. Acostumada ao caldo em que se criara, dele parecia não ter vontade de sair.
 
A varanda não era mais que um lugar, o lugar onde estavam. Os vasos de antúrios já não existiam àquela hora porque as sombras se apoderavam de tudo. Joana recolheu as mãos e cruzou os dedos no regaço. Além dos vestígios do trânsito ? ruídos e luzes ? ela não via nem ouvia mais nada. Então suspirou com o corpo todo para sentir que atingira totalmente a velhice. Seu peito murcho estremeceu, mas apenas uma vibração bem leve, porque já lhe faltava o vigor para os grandes gestos. Anselmo estava com o rosto mar-cado por vincos. Sua testa, suas faces, as crateras de seus olhos, lugar algum que não trouxesse as marcas impuras de uma vida sendo aos poucos desperdiçada em favor dos filhos: aquela idéia do dever. Sua respiração, com a lenta chegada da noite, começava a serenar como chaga em busca de cicatriz. De fato ele não estava agitado como era seu costume. Vontade nenhuma de dizer fosse o que fosse naquela primeira noite só deles, sem encargos, sem filhos por que responder. Estendeu os braços ainda cabeludos sobre a mesa, uma espécie de dominação territorial, mas então não os moveu mais, como se estivessem ali aguardando, um ao lado do outro, quase paralelos. 
 
Anselmo levantou-se como um vulto escuro e ficou parado, talvez esperando alguma pergunta, uma observação qualquer, que o ajudasse a decidir. Não foi muito o tempo que esperou, pois fazia trinta e tantos anos que já conhecia o resultado. Com a chave na mão deu o primeiro passo.
 
 Bem, está na hora de fazer minhas malas.

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POR EM 11/03/2008 ÀS 02:34 PM

No último domingo do mês

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Levantamos um pouco mais cedo no último domingo de fevereiro, pois não podíamos perder o encontro do Grupo Dom Quixote. A manhã era chuvosa e fria, com um vento oblíquo a sacudir os ramos mais altos das sibipirunas. Nos olhamos sem dizer nada, mas podíamos adivinhar o pensamento um do outro.

Na saída, minha mulher perguntou:

-Você acha que vai aparecer alguém?

Não que seja um otimista de carteirinha, mas prefiro tentar. De fato, o dia não começava com cara de quem convida para uma reunião para discutir determinada leitura. Nosso encontro, todo último domingo de cada mês, atualmente acontece no Templo da Cidadania,
em Ribeirão Preto. E fomos os primeiros a chegar.

Quando estava abrindo a boca para dar resposta àquela pergunta da Roseli, eis que o portão se abre e aparece um guarda-chuva apontado contra nós. Bem, pensei, sozinhos não vamos ficar.

A idéia de formar um grupo de leitura de literatura, surgiu-nos durante uma visita que fizemos, em
2002, a nosso amigo Luiz Cruz, escritor de Franca. Fomos encontrá-lo reunido com um grupo de umas quinze pessoas, todos eles com papel na mão acompanhando a leitura de uma integrante do grupo. Ficamos sabendo que se reuniam periodicamente para ler e discutir textos (contos e crônicas) produzidos por eles mesmos.

No último domingo de janeiro de 2003, lá estávamos nós, com cerca de mais umas dez pessoas, discutindo a formação de um grupo que se dedicasse a ler textos literários. Essa primeira reunião, assim como todas do ano de 2003, foi feita no ateliê da Jair Yanni, poeta e artista plástica.

Depois de algumas adaptações no modelo herdado do grupo de Franca, escolhemos o primeiro livro a ser lido. Ah, sim, porque nessa primeira reunião ficou estabelecido que leríamos textos fundamentais da literatura universal alternadamente com livros de escritores brasileiros. E a primeira escolha recaiu sobre o Dom Quixote. Ninguém conseguiu terminar a leitura em um mês, por isso tivemos de fazer novas adaptações no formato que adotamos. Teríamos sempre uma leitura anual paralela às leituras mensais.

Desde então (janeiro de 2003) até hoje, o grupo se reúne todos os últimos domingos de cada mês por cerca de duas horas: das 9h às 11h. O respeito pelos compromissos familiares é um dos ingredientes que nos tem mantido em atividade por mais de cinco anos.

Foram por volta de sessenta autores que visitamos, com suas sessenta visões de mundo diferentes, vazadas em sessenta estilos diversos, tratando de sessenta dramas humanos. Dante, Thomas Hardy, Stendhal, Cervantes,
Dostoiévski, alguns dos estrangeiros; Machado, Alencar, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Graciliano Ramos, Carlos Herculano Lopes e tantos outros, autores da literatura brasileira.  

Em cada reunião, começa-se marcando o dia do próximo encontro, e se escolhe o livro a ser lido no mês seguinte.

Pois bem, e como ainda festejamos aniversários, damos e ganhamos muitos livros durante o ano.

Nem todos os integrantes iniciais continuam ainda hoje, mas um núcleo de aproximadamente dez pessoas é formado por membros fundadores. Procuramos nunca ultrapassar os 15 integrantes, porque cada um deles deve ter a oportunidade de expor suas impressões da leitura. E é dessas impressões que todos nós vamo-nos enriquecendo, pois sempre aparece um detalhe que passara despercebido, uma interpretação em que não se tinha pensado, a descoberta de uma jóia que havia ficado soterrada.

Depois do primeiro guarda-chuva, em questão de cinco minutos apareceram quase todos os membros atuais.

A discussão de dois sermões de Vieira foi muito rica, pois somos de profissões variadas, com opiniões políticas e religiosas diversas. O Sermão da Sexagésima e o Sermão do Bom Ladrão foram esmiuçados até às 11h da manhã. O Padre António Vieira deve ter-se virado na sepultura, com tudo que ouviu.

Para o último domingo de março, precisamos ler Reparação, de Ian McEwan. Preciso começar logo porque tem mais de 450 páginas.

Vamos nessa?!

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POR EM 06/03/2008 ÀS 10:28 PM

Excesso de peso

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As três notas curtas e uma longa, da Quinta: torpedo. Gonçalo segura o volante com a mão esquerda, liberando a direita para ver que porra de mensagem é esta agora: não esquecer a recepção logo mais às cinco. Joga o aparelho no banco do carona e bate com a mão es-palmada na testa: droga, droga, droga! Mais de uma hora pajeando o diretor da Região Sul no aeroporto.

É a terceira vez que manuseia o celular no trajeto curto até o escritório. O aniversário da filha, não se atrasar. A menina em crise, Gonçalo, qualquer hora escapa do controle. Desde quando esta náusea por ouvir a voz da mulher? Depois a secretária. O pessoal da Espanha, doutor Gonçalo, na sala da recepção olhando para o relógio. Muito sérios estes espanhóis, com suas pestanas bastas e as caras de toureiros. Não, medo não, mas eles disseram que embarcam ainda hoje, o senhor está entendendo, doutor Gonçalo? Ainda hoje, e não param de olhar para seus relógios suíços.
Não esquecer a recepção logo mais às cinco.

A tarde foge rápida e quente deixando as marcas de suas patas largas sobre a cidade. Gonçalo pega do porta-luvas a caixa de lenços de papel para limpar o suor da testa. E amanhã? Começava o dia estudando as propostas de revisão dos preços. Depois o discurso na Câmara do Comércio. À noite. Redigir quando, senão quando os ou-tros seres humanos dormem? E o restante do dia, na agenda da se-cretária, déspota pouco esclarecida na distribuição de seus minutos.

O farol fecha e os pneus guincham. Gonçalo bate com as duas mãos no volante. No final do mês: os objetivos estavam superdimensionados, não acham? Olha ao redor. A cidade parada à espera da vida. A vida parada à espera da morte. Não pode abrir o vidro, mas o calor entra por seus olhos. Seus olhos parados à espera do nada. 

Às cinco.

São três e quarenta e cinco. Há três espanhóis vestidos de toureiros sentados nas poltronas macias na sala da recepção. Pelo menos o ar condicionado. Antes das cinco. Uma nuvem, por um momento, esconde o sol e o semáforo aproveita para ficar verde.

Há quantos séculos paga o clube sem poder usufruir?

A avenida se move, primeiro lenta, então acelerando aos poucos. Há carros na frente e atrás. Na faixa da esquerda, como na direita, passam carros, ônibus e caminhões transportando seus rugidos à vista e seus passageiros suados, que sonham com um destino. Todos têm pressa de chegar.

Cancelar não, que a família. Principalmente o Júnior. Melhor do que ficar puxando fumo.  Hoje em dia.

A avenida corta o parque e Gonçalo enche-se de verde. Então respira fundo, examinando atento seus pulmões desabituados.  Ah, sim. Hoje em dia.

Não esquecer a recepção logo mais às cinco.

O celular chama-lhe a atenção. Alguém vai dizer alguma coisa so-bre seu rumo, seu caminho, sua vida. Gonçalo chega a soltar a mão direita, que volta a segurar rudemente o volante. Não, ainda não. Tenta manter-se consciente para anular os gestos reflexos. Olha-se no retrovisor. O telefone insiste. Está com ar de muito cansado. O telefone insiste. Estas manchas roxas por baixo dos olhos podem significar alguma coisa. Brusco, desaperta o nó da gravata e desabotoa o colarinho. Sente-se vivo e cheio das sombras do parque. Está deci-dido a não atender a porra do celular. Que toque o resto do dia, que berre o resto da vida, que desembeste a gritar histérico, não vai mais comandar sua vida com suas exigências ridículas.

No centro de um grande círculo gramado, a estátua de bronze não se move. Gonçalo diminui a velocidade e entra por uma rua marginal de pouco trânsito. Por fim ele pisa no breque com uma urgência des-conhecida porque o coração pulsa-lhe muito cabrito na caixa do peito. Como é que passando por este mesmo caminho quase todos os dias nunca tinha visto aquela índia de bronze, uiraçaba pendente do om-bro e arazóia presa na cintura? Ah, que vida!, ele suspira.

Fora do carro o calor é agressivo e forte, robusto, e Gonçalo de Azevedo Rodrigues saca o paletó com alívio. Duas meninas passando dão risadas por causa do gesto irresponsável do homem jogando um paletó sobre a grama.

De dentro de automóveis invejosos, os motoristas ainda não reparam muito em Gonçalo porque ele é, por enquanto, apenas um ho-mem sem camisa e pele muito alva. Quando começa a abrir a braguilha, um casal de velhos, vexados com o gesto livre de qualquer pudor, olha para outro lado, temendo que ele mije ali mesmo à vista de todos e à beira de uma avenida movimentada. O rosto de Gonçalo resplandece por causa da alegria concentrada que durante tantos a-nos vinha recalcando.

Algumas pessoas param em meia-lua observando a coragem daquele homem, até onde é que ela vai. Eles querem saber. E conver-sam entre si com muitas risadas de entremeio, pois não é cena de ver-se todo dia, um homem que traz a pele muito clara por baixo da roupa, dando pulos em volta de Iracema, só de cuecas.  

Quando a polícia chega com seus cassetetes à mostra, o povo abre espaço e deixa que o sargento junte a roupa do doutor. Ele, o doutor Gonçalo, já está de pé sobre o pedestal, no mesmo nível da índia. Ela ainda reluta, tanta gente assistindo, mas Gonçalo já a enlaça pela cintura para retirar-lhe a arazóia.

O povo aplaude. Os guardas exigem que o povo se disperse, mas exigem cheios de convicção de que é uma exigência inútil. Cada vez que empurram para fora do gramado uma ala, a outra torna a invadir o espaço mais próximo da cena. Ouvem-se brecadas e arrancadas barulhentas, as buzinas incendeiam o ar. Até pode um desastre, grita o sargento, os braços ocupados em proteger aquela roupa cara do doutor.

– Ninguém vai calar a boca desta merda de celular?!, berra o comandante.

Por fim, sob vaias, o sargento aproxima-se do monumento e grita para que o doutor desça daí. Mas Gonçalo acaba de empurrar para os pés sua cueca e olha com malícia para o policial. Nem às cinco nem nunca mais, ele canta, o braço direito erguido como um tenor no auge da euforia.

Desça já daí, ruge novamente o sargento, para alegria do povo, que se esmera em apupos e risadas. 

Então, para o pasmo de todos, Gonçalo e Iracema, abraçados e fe-lizes, pulam do pedestal e começam a dançar. Ninguém se move, ninguém comenta nada. As fisionomias começam a inventar uma inveja pura, uma saudade de viver, mas tão indefinida que chega a escurecer o céu.

Com passo leve, talvez uma valsa, Gonçalo e sua amante invadem a avenida parando totalmente o trânsito. Entre os carros atônitos, eles seguem valsando até perderem-se no horizonte. 


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POR EM 01/03/2008 ÀS 06:20 PM

Morte e Vida Severina

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Não foi no sertão pernambucano, não. Foi aqui mesmo, em Serrana. Um menino de quinze anos matou outro menino de quinze anos. Não conheço os detalhes da história, as razões que levaram uma criança a tirar a vida de outra criança. Não tive a curiosidade mórbida de procurar saber. A notícia, vazia das motivações e revestida apenas dos aspectos trágicos do ato final, me fez lembrar do João Cabral de Melo Neto. Severino, retirante, tenta explicar o que é morte severina e diz:

 

morremos de morte igual,

mesma morte severina:

que é a morte de que se morre

de velhice antes dos trinta,

de emboscada antes dos vinte,

de fome um pouco por dia  

 

A notícia do jornal, sumária, quase impassível, informa sem comentários que a vítima, depois de atingida por dois dos cinco disparos de um revólver, cambaleante andou cerca de oitenta metros e procurou abrigo em uma escola antes de morrer. Já lecionei nessa escola e, apesar do tempo que já faz, isso me atingiu. Querendo ou não, estou envolvido em um crime. Em um crime juvenil.

 

Estes dois garotos poderiam estar ainda na escola, competindo com seres imaginários, consumindo seus ódios em situações e competições com seres formados de palavras. Se isso tivesse acontecido, provavelmente estariam passando agora por aquele portão de ferro, conversando como amigos, sonhando com um futuro que não fosse assim tão severino.

 

Me ocorre, então, um conceito que o Pedro Bandeira vive afirmando. A literatura é exercício de emoções. Com o livro na mão, ama-se, odeia-se, cometem-se as mais cruéis vinganças, mas sem vítimas reais.

 

Há um outro ingrediente nesta história absurda, que, este sim, me perturba. A vítima andou cerca de oitenta metros e procurou abrigo em uma escola. Dá pra perceber? Foi uma morte emblemática. Em seus momentos de agonia, o garoto vislumbrou onde poderia ser salvo. Infelizmente viu isso já tarde demais. Também não sei se estar com o corpo dentro de um edifício faz alguma diferença. Acho que não. Nem toda escola oferece a oportunidade de contato com a literatura.

 

Não conheço os detalhes da história, mas sei algumas coisas que me pesam. Sei que os dois estavam competindo. Qual o objeto da competição? Isso não importa. Desde cedo aprende-se que vivemos em um mundo competitivo. E somos induzidos a competir. Por tudo. Essa é a palavra de ordem da civilização que estamos preparando para os pósteros. Se você não aprende a competir, se você não se prepara para enfrentar a competição, não está preparado para a vida. Deve ser exterminado. A exaltação do vencedor, em tempos de competição, levou o exercício da competição daquelas duas crianças até o extremo: a eliminação física.

 


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