revista bula
POR EM 24/06/2008 ÀS 03:12 PM

As palavras e os sentidos da vida

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Não lembro mais que idade eu tinha. Me parece agora que andava aí pela casa dos oito a dez anos. Sei, a meu respeito, algumas coisas daquele tempo. Não muitas. Sei, por exemplo, que nunca tinha ouvido falar em radical, afixos, desinências, essas coisas que fazem hoje as minhas delícias e que, mesmo sem conhecer os nomes, já faziam naquela época. Meu companheiro de então era um irmão cerca de dois, três anos mais velho que eu, e que, além de uns corretivos muito doloridos na cabeça, me dava uma amizade de que me orgulho e que me faz muito bem até hoje.
           
Meu irmão e eu gostávamos muito de brincar juntos, e uma das brincadeiras que às vezes nos deixavam horas e horas esquecidos da vida, era a invenção de palavras. Tenho certeza de que a palavra gramática não tinha entrado em meu dicionário ainda, muito menos radical e sufixos. Mas era assim que nós inventávamos palavras. E competíamos: quem inventar a palavra mais feia, fica de rei da tarde. E rei existia para ser servido. Estou com sede, vai buscar um copo dágua pra mim. Aproveita e traz uma laranja, mas descascada, ouviu?
           
Numa daquelas manhãs, falou-se de pesca e um de nós dois propôs o radical. Pescaria, pescatura, pescamento, e, por fim, a mais feia, a que me deu todos os privilégios da tarde, foi pescação.
           
Continuei, pela vida a fora, mexendo com as palavras. Não naquele mesmo nível de ruptura, em que só valiam palavras recém-inventadas. Claro que, de vez em quando, uma transgressãozinha aqui, outra lá, que movimentar-se pelo mundo onde tudo esteja catalogado é chatice muito grande.
           
Aposentado há vários anos, meu irmão, inconformado com o mundo como o mundo está, vem inventando uma língua. Passa algumas horas, todos os dias, mexendo no computador, onde já tem milhares de arquivos com palavras inventadas por ele, numa escrita que só ele conhece, mas que, segundo sua opinião, é muito mais racional, muito mais fácil e eficiente do que tudo que até hoje se inventou. Mais que isso: sua língua, com vantagens imensas sobre o esperanto, pode ser falada por pessoas de todas as nacionalidades. É uma língua perfeita. Tão perfeita que talvez seja impraticável para seres imperfeitos, como somos nós.
           
Não acredito na praticabilidade da língua de meu irmão. Mas acredito em meu irmão. O mundo, para ele e pessoas como ele insatisfeitas, não está pronto, acabado. O mundo tem que melhorar. E há muito que fazer para que melhore. Conheço pessoas que perguntariam logo: Quanto eu ganho nessa? E passam pela vida ganhando tudo o que perdem ainda em vida ou pelo menos com a vida. E ganham tanto que não conseguem ganhar a própria vida. São aquelas pessoas que visitam uma cidade e dizem que não a viram, porque existiam edifícios muito altos que a escondiam.
           
Nem sempre sabemos onde e como agir para que o mundo se torne mais habitável, mas um bom começo é perceber que ele vai-se tornando irrespirável.
           
Boa pescaria para todos nós.

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POR EM 19/06/2008 ÀS 07:01 PM

Uma parede toda azul

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Criança o velho nunca tinha desenhado. Um pouco por causa de certo pudor inexplicável, seu pudor de velho, que desde sempre sentira, mas também porque criança não sabe dizer muita coisa além de criancices.

Então aconteceu ter acordado naquela manhã achando que estava na hora de conversar com alguma criança. Sua memória não o ajudaria muito - não vira uma só que fosse nas últimas décadas. Mesmo assim estava decidido a tentar ainda que não passasse de um esboço sem muitos detalhes, com traços bem simples e alguma delicadeza. Principalmente na voz. Retivera na memória, este tempo todo, a lembrança de algumas palavras ouvidas em voz infantil. Uma sonoridade que se aproximava da voz do flautim, quando as palavras eram proferidas aos borbotões da raiva, mas podia parecer de veludo, como o som da clarineta, sempre que estivesse na hora de dormir.

Levantou-se da mesa do café com muita esperança, apesar do corpo um tanto curvado. Tinha algumas idéias, que não queria extraviadas, por isso evitou sair ao quintal, onde costumavam enganchar-se nos galhos mais baixos dos maricás os melhores pensamentos que concebia. Urgia registrar as idéias que lhe afloraram à medida em que ia engolindo seu desjejum. Nem trocou de roupa, convencido de que nas dobras do próprio pijama escondiam-se recordações provavelmente indispensáveis.
  
A banqueta de três pernas estava no lugar de onde nunca saía, em frente à parede azul. A seu lado, quase muda, a caixa de giz à espera de novas criações. O velho, condescendente, olhou-as com olhar macio – suas companheiras de muito tempo. Ele mesmo, muitas vezes, confundira-se naquele cenário, por não saber onde ficavam seus limites, o recorte que o deveria fazer distinto do ambiente onde se movia.

Com calma resignada começou a limpar melhor a parede, onde não apareciam traços físicos de personagens anteriores, mas tão-somente manchas brancas do giz apagado. Depois de considerar com atenção o espaço vazio na parede, o espaço azul a ser preenchido, achou que estava tudo bem, sem, contudo, iniciar imediatamente sua obra. Era um tempo que não lhe fazia falta, um tempo indiferente que não chegava a ser um desperdício. Para os solitários bem treinados no exercício da solidão, o tempo é apenas uma invenção proposta por algum delírio.

Não era todo dia que o velho forjava suas criaturas na parede. Apenas quando sentia necessidade de conversar sentava-se na banqueta, aguçava o pensamento e começava a dar forma a seu companheiro. Tinha preferência por homens, pois com eles entendia-se bem, sem ser preciso explicações tortuosas. Às vezes criava mais de uma pessoa. A conversa animava-se, havia divergências, enfim, os assuntos voavam.

Na semana anterior, inventara de construir um casal. Então tivera de passar o dia inteiro na frente da parede, porque conversava uma hora com o marido, então tinha de dizer alguma coisa à esposa. Voltava ao marido, que reclamava das interrupções e assim o tempo foi passando, e só abandonou o parlatório no início da noite, quando apagou o casal para dormir.

Sua melhor criatura, ainda lembrava, tinha sido um homem de óculos com lentes bastante grossas e olhar cândido, um olhar minúsculo e brilhante. Ele se apresentou como um sábio antigo, filósofo cujos escritos foram queimados em Roma, num incêndio de proporções gigantescas. O mundo, disse-lhe o filósofo, o mundo teria sido outro, não fosse a desfaçatez daquele maluco. Deu conselhos com voz calma, enunciou alguns princípios pausados e luminosos, por fim despediu-se fechando os olhos antes de ser apagado.  

O velho sentia um pouco de ansiedade ao começar os primeiros traços de uma nova personagem por não saber de antemão a quem estava dando vida. Suas criaturas eram sempre surpresas para ele mesmo, que odiava ser surpreendido, amante como era de sua rotina. Quando sentia o giz tocar na superfície lisa da parede, sua mão estremecia com uma vibração tão sutil como aquela do corpo do passarinho, que um dia pretendera salvar no quintal, por baixo dos maricás.

Criar uma criança, então, passou a ser uma pressão desafiadora. Podia dizer que inventava o mundo sem necessidade de abrir os olhos, mas não podia saber qual o resultado de tal aventura. Isso era o que o velho entendia por uma pressão.

Suas mãos estavam úmidas e ele as enxugou no jaleco sujo de giz. O suor umedecia-lhe também a raiz da barba cinza. Mas ele não cogitou de secar a pele do rosto, pois vinha chegando a imagem dos cabelos de uma criança e não podia perder tempo com o supérfluo. Era um cabelo castanho e liso, de um menino, de um menino com a idade das crianças. Uma idade em que se canta para chamar alegria.   

Gravado o primeiro traço na parede, o velho entrefechou o olho esquerdo, enrugado, para imaginar as dimensões. Jamais cometera uma desproporção. De suas mãos era impossível aceitar que saísse qualquer forma que não fosse perfeita. Aproximou-se um pouco da parede com as mãos trêmulas de carícia. Uns tantos gestos rápidos e retos, alguns ondulando curvas suaves e o esboço de uma cabeça estava pronto.

Passando pelo pescoço, relutou em lhe dar uma garganta por não saber o tipo de pigarro usado normalmente por uma criança. Então secou novamente a mão para não molhar o giz, para não ter dificuldade de apagá-lo mais tarde, quando fosse a hora de dormir. Enquanto não se resolvia sobre a garganta, dedicou-se a trabalhar nos olhos. E os fez com uma habilidade majestosa iguais aos seus próprios olhos, que via com freqüência no espelho. Usou sua própria imagem como modelo.

Um pouco mais e a fisionomia foi-se delineando: um ar de quem acaba de se descobrir muito cansado. Tentou corrigir o paradoxo, mas os retoques acentuavam cada vez mais os cantos caídos da boca e dos olhos. Parou de trabalhar, afastou-se para examinar melhor o que estava feito. Havia grossura de giz nos traços que se cruzavam. Mas não havia mais remédio, as formas dadas teimavam em não se desmanchar.

No desenho do corpo, um corpo infantil enroupado, não houve dificuldade. Apesar disso, quando chegou ao desconforto – agachado para desenhar os pés – por causa de uma vertigem, o velho sentou-se no chão, imóvel.

O menino pela primeira vez sorriu e cumprimentou seu autor com voz de flautim. Que sono, ele demorou-se dizendo. Então bocejou com amplitude e estirou os braços. Ao sair da parede, não encontrou mais o velho, que havia desaparecido, por isso tirou o jaleco sujo e foi dormir.   

 

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POR EM 09/06/2008 ÀS 06:43 PM

À sombra das sibipirunas

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Hoje meu sono promete ser muito bom. Leve, não porque esteja muito próximo da vigília, mas porque devo sonhar com aquela brisa azul que me lambe a face, faceira, e foge nas alegres cores de seu par de asas quase transparentes.

 
Continuo fazendo heroicamente minha caminhada diária sempre que posso e sei que posso menos do que seria necessário. Uma hora batidinha no relógio. O homem já foi à Lua e até hoje não inventou uma pílula que substitua essas caminhadas! Espero que o Dr. Alcyr Barbin Filho, meu cardiologista e algoz, pois foi ele quem me prescreveu esta tortura, não seja muito afeiçoado a crônicas. Ele não me imagina um rebelde. Hoje eu podia e fui caminhar. À sombra das sibipirunas, como já avisei lá no alto. E as sibipirunas me protegiam do restinho de sol existente.
 
Tinha percorrido pouco mais da metade de meu trajeto quando vi. Lá estava o menino de shortinho e sem camisa, com a franja espessa a esconder-lhe os olhos. Ele tinha o braço direito um pouco levantado, e na mão, no polegar de sua mão, uma cigarra, que ele mostrava com orgulho a dois amigos. Uma cigarra dessas grandes, maior do que a mão dele. Então ele alçou a mão direita como se estivesse dando um impulso, e a cigarra abriu suas asas imensas e sumiu na copa de uma árvore. Uma sibipiruna com uns restos de flores amarelas. Os três meninos pularam de alegria, gritando e batendo palmas.
 
Se a cigarra voltou para o polegar do menino, se não voltou, não sei. Nem importa saber. Porque quando não se sabe, se tem o direito de imaginar. E o que sei é que houve um momento em que uma cigarra e um menino se encontraram num canteiro de avenida. Para a cigarra, o menino pode ter representado um gigante benfazejo com um dedo polegar muito apropriado a alguns instantes de repouso. Aquela cigarra, para o menino, não pode ter sido senão um fantasma diáfano e cheio de liberdade ou um espírito sutil capaz de o levar a mundos muito distantes.
 
Você, caro leitor, tem todo o direito de discordar, de supor que nem ele era um gigante nem ela um espírito. Seja lá qual for sua suposição, todavia, você há de concordar comigo que houve um instante em que entre os dois se estabeleceu algum tipo de relação. Qual? Também não sei, mas me parece que um precisou do outro, e os dois se fizeram poesia.
 
Depois de assistir a esta cena, continuei minha caminhada, como sempre, mas sorrindo, com uma cara que alguns podem ter pensado que era de bobo. As pessoas se proíbem de sorrir quando sozinhas. As pessoas gostam muito de proibições. E dormem com sono leve entre sonhos pesados.

 

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POR EM 02/06/2008 ÀS 05:47 PM

Síndrome da competição

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O homem, que sobreviveu a todos os cataclismos que em milênios se abateram sobre nosso pequenino e azul planeta, sobreviveu ao ataque furioso de todas as feras para as quais sua mesquinha carne seria o alimento salvador; o homem superou secas inclementes e dilúvios devastadores; o homem conseguiu tais façanhas porque era um ser social. Do grupo lhe vinham as forças para resistir. E a vida em sociedade, nascida antes de sua fraqueza e da necessidade de sobrevivência do que de uma deliberação, só foi possível graças a um sentimento hoje escasso no mercado: o espírito de solidariedade.

Paul Swezzi, pensador norte-americano, em seu livro Capitalismo monopolista*, no décimo nono capítulo, afirma que o capitalismo, desde seu nascimento, vem-se entranhando na própria carne do ser humano, a ponto de transformar tudo (inclusive sua vida afetiva) em valor de troca. E ao transformar assim o ser humano, incute-lhe uma outra necessidade: a eficiência como condição para a vitória.

Todos os meios de transmissão de conhecimento e valores são mobilizados para a defesa da idéia de que o homem vale na proporção do sucesso que obtenha. Somos medidos invariavelmente pelo número de derrotas que impomos a nossos adversários. Sim, porque aquela velha expressão “nossos semelhantes” já está há algum tempo fora de moda.

E se o mundo e sua infeliz humanidade são divididos entre vencidos e vencedores, então que vençamos. Esse é o pensamento dominante. E é assim que entramos em estado permanente de campeonato. Minha cidade tem um edifício de dez andares, e a sua não tem. Nós temos três shoppings, e vocês só têm um. Então não se pára mais de concorrer. Existem campeonatos de edifícios altos e campeonatos de número de shoppings. Tudo é competição.

Na sociedade da competição, ninguém mais fala em ser bom; é necessário ser o melhor. E isso, mesmo que o melhor seja de baixa, baixíssima qualidade. Estar por cima, ser o primeiro, eis o que interessa.

Nesse tipo de sociedade, a criança ainda tem algum valor, que é o investimento de risco. Ela é vista como o produtor e consumidor do futuro. Para isso é preciso prepará-la, ou seja, para que seja eficiente produtor e ótimo consumidor. Os velhos, bem, que fazer com esses trastes que não produzem mais nada e só consomem remédio?

É com apreensão que se volta nosso olhar para o futuro. Se a sociedade humana sobreviveu graças ao espírito de solidariedade, extinto esse, pode-se ter muita esperança quanto ao futuro? Se vivemos no meio de adversários, que precisamos eliminar para vencer, vamos conquistar um mundo deserto.
 
*BARAN, Paul. SWEZZI, Paul. Capitalismo Monopolista. 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1964. 

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POR EM 20/05/2008 ÀS 11:31 PM

Um segredo

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Todos reunidos em volta da cama com seus olhos abertos resplandecentes de esperteza, todos fechando em círculo as saídas com seus corpos grandes, à espera. Um muro de músculos e hálitos plantado em sua volta. Eles sabiam de tudo. Então eles sabiam de tudo. Completaram suas idades, desde o início, sabendo de tudo, mas sem coragem de revelar que sabiam.

Lívia, de frio, encolhe-se por baixo do edredom e puxa o lençol para esconder o rosto. A luz, ah, esta luz a incomoda. A luz e os olhos que a vida toda se mantiveram mudos, enquanto espreitavam cada canto e seus segredos. Três pares de olhos amoitados ali mesmo, dentro de casa, da sua casa, a caverna que julgava ser indevassável.

Por que fingiam acreditar, se já sabiam, então, que não era verdade?

O desejo de sumir num desmaio está preso à língua como um frio, um frio grosso que a imobiliza. Não há mais o que dizer, e mesmo a confissão não a pode redimir ou salvar da vergonha. Seus filhos, então, podem fingir, mas é impossível não perceber acusação em seus olhos. E por que tanta luz, quem teve a idéia desta iluminação toda?

No quarto, no ar do quarto, respira-se o cheiro do suor que os lençóis absorveram enquanto a febre ainda renitia. Ninguém ousaria acusá-la, naquele entanto, com a morte em revoada silenciosa ali no pequeno espaço entre o céu e a terra. Antes embarcar naquele coche escuro e definitivo a sofrer as agruras da vergonha.

Beatriz, a sua Beatriz, principalmente ela, deve orgulhar-se, neste momento, da vitória. No transcorrer de seu crescimento, todos os dias, quantas e quantas palavras foram-se acumulando, que agora jazem inúteis no monturo das mentiras! Não foi o que disse o brilho de seus olhos pontiagudos tão logo ela chegou? Não, jamais poderá dirigir-lhe novamente qualquer palavra, pois tornaram-se todas suspeitas de inutilidade.  

O frio entra pelos interstícios abertos entre o edredom e o lençol. Lívia sente-se desprotegida, mesmo procurando prender com pés e pernas a orla de sua coberta. Ela se concentra na operação com muito método, prendendo primeiramente os panos com firmeza por baixo dos calcanhares; manobrando em seguida para que as pernas estiradas enrolem-se nas laterais, com cuidado para que não restem frinchas por onde possa passar o frio, e com ele a vida que o marido e os dois filhos trouxeram-lhe em oferta. Ela os quer fora, livres de seu contato e do suor que cheira mal. Pensa apenas em ficar só, seu corpo e suas culpas, para poder descansar.

Muitas vezes tivera de afastar as suspeitas sobre o comportamento de Armando. Ele, o mais quieto, quem mais examinava os cantos da casa, principalmente os cantos que luz nenhuma conseguia iluminar. Armando observava a teia de uma aranha como se estivesse pensando em lhe copiar o modelo. Atento. O último espaço de uma gaveta, a paisagem cheia de penumbra por trás da geladeira, a poeira acumulada por cima dos armários, de tudo tinha ciência, mas uma ciência calada que lhe vinha morrer no alto da garganta. Atrapalhava-se um pouco ao ser surpreendido em alguma empresa de que só ele tinha conhecimento. Mas isso por pouco tempo. Mudava de posto, escolhia atividade diferente, e nada se arrancava de suas descobertas.
  
Sua respiração úmida e quente é um barulho ritmado que o lençol abafa subindo e descendo. O ar, cada vez mais insuficiente. Pensa em mostrar o rosto debaixo de toda aquela iluminação, entretanto reluta, pois não quer suas lágrimas expostas como um pedido de piedade.

Finalmente, o que já vinha temendo desde que se formaram em barreira ao seu redor. Leonardo senta-se à beira da cama e uma de suas mãos enfia-se por baixo das cobertas à procura de Lívia. Ela encolhe-se mais, agarrando-se aos próprios ombros e enfiando o queixo entre os seios e a interseção dos braços em cruz. Violada a vida inteira em suas intimidades pela própria família, sem que o soubesse, não permitiria, agora, contato algum. A cama, Leonardo, a cama é meu último reduto. Não tente, meu pobre marido, dar prosseguimento a esta comédia. Por que a deixaram pensar estes anos todos que estava a salvo da bisbilhotice alheia? Que os filhos se fechassem mudos, ainda relevava. Chegava quase a entender. Ah, não, mas Leonardo, com seu ar sempre alheado de tudo, colhendo da vida apenas recortes e beiradas, Leonardo não pode ter o silêncio perdoado.

Ouve o cochicho dos filhos, percebe algumas sílabas isoladas e consegue apenas supor que seja ela mesma o assunto dos dois. Então se aflige ao concluir que não é mais do que um objeto familiar, um objeto neutro já, e em cuja presença não é preciso manter qualquer discrição. Sente raiva na garganta entupida de impotência e nas veias da garganta que se estufam de um sangue grosso de veneno. E por que não vão embora, não vão conversar sobre o que quiserem à beira de seu próprio túmulo?

 

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POR EM 13/05/2008 ÀS 02:11 PM

Um zero à esquerda

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Foi mais ou menos como me senti por alguns minutos em uma das viagens que andei fazendo no ano passado. Cheguei à cidade cheio de empáfia, pois era a atração daquela noite. Um dos organizadores do evento me tratou cavalheirescamente, providenciando lugar onde poderia descansar algumas horas, informando-me da programação, pondo-se a meu dispor para qualquer necessidade. Depois de me fornecer o número de seu celular, o telefone do escritório onde se concentravam os organizadores, e o celular do motorista, que a qualquer hora eu poderia chamar, retirou-se com muitos salamaleques.
 
Depois de um banho rápido, tentei dormir. Quem disse! Com tratamento VIP como aquele, minha excitação foi tanta que Morfeu, espantado, fugiu para muito longe. Eu estava deslumbrado.  
 
Trinta minutos antes da hora marcada para o início da palestra, lá estava eu no recinto do evento, muito provavelmente atrapalhando os organizadores que a todo custo tentavam esconder-me de quem ia chegando. Por fim, com muita delicadeza, entregaram-me a um professor que estava por ali sem fazer nada e que foi instruído a me fazer companhia numa lanchonete vizinha.
 
Depois de sentados, feitos os pedidos, meu guardião não se sofreu e tentou satisfazer a própria curiosidade.
 
- O senhor é o escritor? - me jogou a pergunta na cara.
 
Respondi que sim, que viera até sua cidade a convite dos organizadores. Ele continuou encarando-me.
 
- Mas como é mesmo seu nome? - ele perguntou assim que fiz uma pausa.
 
Declinei meu nome lentamente, quase escandindo as sílabas, com medo de que ele não entendesse. Depois de uns momentos com a testa enrugada e os olhos revirados para o alto, como quem escarafuncha na memória, olhou-me alvarmente e afirmou:
 
- Nunca ouvi falar.
 
Não era aquela a primeira vez que me sentia um zero à esquerda. Engoli uma empada inteira, com azeitona e tudo, empurrei a gororoba para baixo com tremendo gole de refrigerante, mastiguei, pensei, fiquei quieto por algum tempo.
 
Lá pelas tantas ocorreu-me restabelecer um pouco de meu amor próprio, que àquela altura latia por baixo da mesa. Então perguntei, sem tirar os olhos do rosto do professor:
 
- Conhece muitos escritores brasileiros?
 
Ele me olhou surpreso, como se aquilo não fosse pergunta que se fizesse a um guardião. Mas não desgrudei os olhos, e isso significava que estava esperando uma resposta, qualquer que fosse.
 
- Alguns, respondeu-me depois de alguma relutância.
 
Parece-me que eu estava muito ofendido, porque insisti:
 
 - Pode me citar cinco nomes?
 
Ele citou o Machado de Assis, olhou para as pontas dos dedos, cinco, reparou que as unhas estavam crescidas, ah, sim, o Graciliano Ramos, aquele de Vida Secas, não é este mesmo o nome dele?, voltou a encarar o teto com rancor, então levantou-se.
 
-  Eu acho que estão chamando a gente!

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POR EM 29/04/2008 ÀS 06:43 PM

Os óculos

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Entrou na cozinha com pernas atrasadas de tanta pressa e o suor alagando-lhe a testa, onde sentiu a explosão. Sua cabeça fez menção de voltar sozinha e sem óculos. Dedos trêmulos tatearam seu rosto à procura de sangue, mas assim no escuro era impossível distinguir a vida do esforço, tudo líquido e viscoso, uma coisa só. Então seus dedos nervosos descobriram a ausência dos óculos.

A porta aberta do armário? A porta aberta do armário. Que mais poderia estar com a altura de sua testa no caminho entre a porta da cozinha e a chave, além da porta do armário?

De lábios abertos e dentes cerrados, aspirava um ar com ruído fricativo para expressar a dor que vinha chegando. A mão esquerda, apalpando o ar vazio, obstinada, procurava obstáculos. Com a testa doendo, qualquer objeto era obstáculo, porque estava noite.
 
Deu o primeiro passo em alguma direção, mas parou temeroso porque não ver era causa de muita insegurança. Arrastou o pé de volta e descobriu satisfeito que o pé não tinha roçado sequer nos óculos. Chegou a pensar que essa era uma boa razão para ficar alegre, mas não teve tempo de usufruir da alegria apenas prometida porque olhou para baixo, onde supunha o piso, e olhou com todo esforço de seus olhos de pupilas redondas e azuladas sem ver nada além de grandes manchas leitosas mergulhadas em trevas densas. Só então percebeu suas pernas trêmulas, como atacadas por algum cansaço.

Seu olhar quase parado, inútil, não lhe concedia um conhecimento, a noção da distância entre a altura em que se mantinham seus pensamentos e o piso de ladrilho onde por certo estariam agora seus óculos. Mas que sei eu de distâncias?, pensou ele sob o peso do isolamento em que se via agora submerso. Como conhecer qualquer espaço sem conceber o infinito, a não-forma, a abertura para o inexistente?

Era turvo seu pensamento sobre as distâncias, porque sem luz não existem cores e sem elas deixam de existir as formas. A distância, não a distância abstrata que só existe como conceito, na mente, mas a distância concreta, individualizada é uma dádiva da visão.

Quando lhe bateu o arrependimento por ter começado a pensar, tentou concentrar-se nas pernas, que tremiam, contudo, tê-las apenas como constatação das duas mãos, era como se se tratasse de um objeto qualquer, vivo, mas alheio a seu próprio corpo. Então agachou-se até assegurar-se com as mãos espalmadas que não sentaria sobre seus óculos. E sentou-se com seu pequeno peso e sem medo no piso da cozinha.

Ao lembrar-se de que viera com pressa atrás da chave, voltou a ter pressa. Agora, entretanto, inutilmente, pois estava sentado sobre si mesmo no piso frio de ladrilho da cozinha. E sem noção exata do que havia em sua volta. Desde criança não via mais o mundo daquela altura em que agora mantinha os olhos, mas agachar-se também não lhe concedia um novo ponto de vista a respeito do mundo. Sentiu no peito o galope da pressa, mas conteve-se, exercitando seu autodomínio.

Numa fulguração da pressa, teve o relume, incerto e instantâneo, pensando que poderia guiar-se pela memória, e chegou a ver a mesa com suas cadeiras, no lado esquerdo e, vizinha dois passos, no lado oposto, a pia com a louça da véspera. Ao lado do bebedouro, pendurado na parede, o molho de chaves, que viera procurar, depois de ter descido até o térreo, acossado pelo atraso. Mas foi apenas um relume, como um suspiro que se interrompe no meio, pois ficou em dúvida sobre os pontos cardeais. A memória já não lhe informava em que posição estava seu corpo, que relação espacial ele mantinha com as quatro paredes da cozinha. Como saber se o fogão ficara-lhe às costas, como parecia, ou à frente, como poderia ser? Então resolveu desbravar o ladrilho todo com as mãos, confiando apenas no faro de seus dedos, que saberiam distinguir um par de óculos de qualquer outro tipo de objeto.

Sentado sobre os calcanhares, primeiro apalpou os joelhos, minucioso, os joelhos que mantinha colados ao piso frio. Depois de certificar-se de que estava pronto, lançou-se à aventura de esquadrinhar metodicamente cada centímetro daquele imenso campo invisível. Será isso a morte, esse imenso nada? ele perguntou-se num susto. Mas sua mão esbarrou em algo liso e duro, que lhe pareceu o pé da mesa, e a sensação, por um instante, garantiu-lhe a vida.

Sentou seu peso sobre os calcanhares para descansar e novamente seus dedos, ainda mais nervosos, foram perscrutar a testa e as faces, onde voltou a descobrir uma umidade viscosa, que talvez fosse sangue misturado ao suor. Limpou os dedos na calça e acalmou-se um pouco. Não saber a natureza da umidade já era o limiar de uma solução.

Quando se lançou, pouco depois, em uma direção ainda inexplorada e bateu com a cabeça no assento de uma cadeira, pela primeira vez teve vontade de chorar. Mas continuou, porque o sentido de urgência, impulso inicial, latejava em suas têmporas.

Seu atraso já era agravado por minutos em que ele estava perdido, sem saber quantos eram. Estar à beira do desespero confrangia-lhe o coração.

Na extensa e fria superfície do piso, além do pé da mesa e das pernas de uma cadeira, nada mais suas mãos conseguiam encontrar.

Arrastando-se em volta e por baixo da mesa, convenceu-se finalmente de que seu par de óculos voara para outro lado qualquer. Mas que lado? Mesmo sem muita certeza, quando iniciou a busca, tinha uma vaga idéia de como se distribuíam as paredes da cozinha pelos quatro pontos cardeais. Agora estava confuso, sem conseguir orientar-se com segurança. Quando bateu pela segunda vez com a cabeça no assento da cadeira, descobriu com raiva que andava em círculos, repetindo as áreas por onde já passara. Mas então é isso, indignou-se, a linha reta então é isso, não passa da ilusão do progresso?

Tirou a gravata com cuidado depois de esfregar as mãos novamente na calça. Mas, ao tirá-la teve o súbito pressentimento de que era um gesto inútil, pois nada mais poderia ser feito. Parou com a cabeça erguida e a testa enrugada, como se bastasse essa atitude para ter uma noção aproximada do tempo gasto na procura dos óculos. Desistiu de continuar tirando a roupa. O dia já andara mais do que a distância entre a porta e o armário: não existia mais atraso.

Resolveu então continuar sentado no piso frio para descansar. 

 

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POR EM 27/04/2008 ÀS 10:59 AM

Paraíso S. A.

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Não me agrada muito a prática do que, sobretudo no jargão político, se convencionou chamar de denuncismo. Apesar de minha postura geralmente cética em relação ao homem e à sociedade (ou à cause delle même), prefiro falar das amenidades da vida. Prefiro, mas tem hora que não se pode calar, tamanho o descalabro.

As ONGs estão constantemente na mídia e é preciso dizer alguma coisa. ONG é a sigla que se usa para designar um tipo de instituição civil e privada, a Organização Não Governamental, que o Terceiro Setor engendrou para dar organicidade a uma série de atividades a que se dedica. Por definição, as ONGs não têm relação com o setor público, ou, pelo menos, relação de dependência. E isso é muito claro, pois se elas existem justamente para suprir, corrigir ou complementar ações públicas em que o governo é ausente, devem manter sua independência. Isso em geral e teoricamente.

Que o Brasil é o país do jeitinho, todos nós estamos cansados de saber. A lei, segundo alguns, nasce para ser burlada. Jocosamente alguém já disse que a norma é uma donzela que nasceu para ser estuprada. É nosso ethos. Todos nós nos sentimos espertos, muito vivos, por tirarmos vantagem de alguma coisa. Entre nós, não avançar em farol vermelho é sinônimo de panaquice. A lei suprema, a única que conta quase que com unanimidade nacional, é a lei de Gerson.

Comentando, um dia, com um concidadão o fato de determinado ex-prefeito estar terminando sua vida na pobreza, fui surpreendido pela opinião do fulano, para quem o indigitado político não passava de um incompetente, pois não tinha dado o jeitinho de arrumar sua família.

O caso acima é exceção, aquilo que se pode chamar de estatisticamente desprezível.

Entre as ONGs devem também existir exceções, claro. Mas o que vem dando matéria para a mídia, são algumas (a maioria) que resolvem não ser entidades independentes e penduram-se nas tetas governamentais, que são fartas e generosas. E o nome transforma-se num paradoxo, porque “não governamentais” é que elas não são. No ano de 2007, foram muitos milhões de reais que as ONGs receberam. Porque dinheiro, pelo que se vê, é o que não falta.

Se os recursos entregues a tais entidades são bem ou mal empregados, isso já é outro capítulo. Ainda ontem ouvi a notícia de que uma delas (e por certo não é a única) foi agraciada com uma soma que me faria independente financeiramente pelo resto da vida. Detalhe: seu projeto nem chegou a ser avaliado. Outro detalhe: o prazo para prestação de contas ao governo é de trinta dias; pois bem, passados três anos, perceberam?, passados três anos alguém da área de fiscalização do governo teve a idéia de procurar a tal ONG para completar seus formulários, pois a burocracia não pode deixar de preencher seus papéis.

Para surpresa do funcionário com o papel na mão, no endereço indicado não havia nada que se parecesse com uma Organização Não Governamental. Mas alguém, sem dúvida nenhuma, estava deitado em alguma rede, entre coqueiros de nossas formosas praias, achando que o Brasil é mesmo um paraíso.   

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POR EM 15/04/2008 ÀS 04:22 PM

Estátua de barro

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No fundo do espelho, entre taças de cristal e xícaras de porcelana, o olhar de soslaio, severo, inspeciona a pose. Retoca. Este queixo, um pouco mais erguido, excelso, quem sabe, apontando para o horizonte, o espaço das aventuras. Assim. A sobrancelha esquerda, arqueada, assimétrica como um ponto de interrogação, talvez uma dúvida; e os lábios, ah! os lábios, mais firmes, entre cínicos e imperiosos, sem esta lassidão úmida de adolescente. Pronto, só faltava agora um bigode como o dele. Farto, dominador.
 
Preso entre os dedos, o cigarro aceso sobe até a boca apenas entreaberta, e a fumaça envolve-lhe a cabeça, em torvelinho, até dissipar-se, esgarçada, na lâmina de sol que penetra no aposento através da cortina deflorada e onde minúsculos pontos luminosos gravitam sem peso.
 
Reabre os olhos machucados pela fumaça, examinando-se, e descobre que, apesar das lágrimas, e do susto, levara sua experiência ao limiar de uma vitória. Recompõe-se. Fascinado pelo som marcial dos próprios passos, dá uma volta em torno da mesa, estufa o peito, ergue os ombros, tenta preencher os vazios que lhe impõe a idade. Um pouco largo, sobretudo nos ombros, o paletó exala um cheiro agridoce: os suores da vida, fumaças (noturnas?), perfumes proibidos. Leve tontura ao tirá-lo ainda há pouco e furtivamente do guarda-roupa dos pais - arca sagrada - e vesti-lo sobre o pijama, excitado pelo cheiro intenso e o sentimento da violação. Sente-lhe agora o peso de armadura, muito mais das histórias que já testemunhou e esconde do que da casimira inglesa de que foi confeccionado. Pára outra vez na frente da cristaleira e, com a mão direita espalmada, quase trêmula, afaga a lapela, onde coloca um cravo imaginário.
 
Senta-se à cabeceira da mesa de mogno, lugar do patriarca, o cigarro simuladamente esquecido em um canto da boca e o ar compenetrado de quem não se ocupa mais de pequenos vícios, assim como os heróis do faroeste que vê na televisão. Sufocado, porém, não resiste por muito tempo ao desconforto. No banheiro da escola, um dos pirralhos de vigia na porta, ninguém senão o Leonardo - olheiras profundas, sorriso sarcástico e histórias escabrosas - conseguia fumar assim, sem o auxílio das mãos. A tosse irrompe incontrolável e as duas mãos se cruzam violentas afastando a fumaça e desfazendo a estátua recém-composta no espelho.
 
Quando abre por fim os olhos, a pureza do ar restabelecida, sente um vazio no estômago, esta sensação de se estar a ponto de desertar do próprio corpo sem ter onde se refugiar: da porta inexplicavelmente aberta, descobre que o pai o observa - olhar em chamas - mas não sabe há quanto tempo. Tenta inutilmente esconder o cigarro. Inutilmente, pois já não tem o comando dos dedos, de nenhum centímetro do corpo, muito menos dos dedos. Também não consegue virar o rosto, apagar a paisagem enquadrada na porta: seu corpo imenso, feito de sombra e névoa. Toda vez que atravessava a praça - caminho da escola - a mesma vertigem ao passar olhando o duque enorme montado em seu corcel, com a espada erguida comandando o ataque. Quando as nuvens, no alto, serviam-lhe de fundo, então, tornava-se maior a certeza de que ele se movia, de que poderia precipitar-se daquela altura a qualquer momento para esmagá-lo. Sentia-se aterrorizado, mas não conseguia evitar o caminho nem o olhar. Não sabe se o cigarro continua a consumir-se nem tem coragem para conferir. O paletó está muito quente, o sol que penetra por uma frincha da cortina incendeia o ar da copa. Sozinho em casa, nem a mãe nem os irmãos que aparecessem para acordá-lo do pesadelo. No tempo congelado, em que mesmo a tênue escada azul de fumaça já não leva a lugar algum, ele espera, mas parece que entrou numa cena de caça de uma tapeçaria antiga em que o caçador, de arco retesado, aponta para um touceira espessa. O tempo esmaece o verde do bosque, o chapéu do caçador perde o brilho, mas lá está ele, apontando para um coelho amedrontado. Se o vento, se pelo menos o vento levantasse uma ponta da cortina cor-de-palha. Poderia ser o fim, mas também poderia ser o sinal de que chegara o momento da fuga.
 
Não se dá perfeita conta do que acontece ao levantar-se de um salto, derrubando a cadeira onde estivera sentado e interrompendo no ar o punho fechado. E ainda encara?, ele repete entre dentes, tem coragem de ficar encarando? Sem tempo ou coragem para dizer que não, que apenas não tem força para desviar os olhos. Ao aparar com a mão livre o segundo golpe, tropeçam ambos na cadeira caída e rolam no chão, esmagando o cigarro aceso e mergulhando na pequena lagoa de claridade que o sol desenha no assoalho. Alguma coisa se quebra: em seu peito ou nos bolsos do paletó. Os rostos se aproximam e se afastam, mudamente. O mesmo cheiro, agora mais forte, mais vivo, o mesmo cheiro do paletó. O esforço do pai para libertar os pulsos aprisionados dilata-lhe as narinas e as veias do pescoço. Há quanto tempo não vê assim de perto este rosto? Não se lembra mais de algum dia ter visto estas asperezas na pele, estes fios brancos no bigode.
 
Mera tentativa frustrada de resolver o mistério da caça e do caçador, ambos presos em uma tapeçaria antiga, coberta de poeira, que o tempo descolore mas não liberta. A respiração ofegante se acalma e, em suas mãos vigorosas, apenas dois pulsos inusitadamente frágeis e sem resistência. Ao levantar-se, prefere não se voltar mais para o espelho da cristaleira, pois percebe aterrado que todas as estátuas são feitas do mesmo barro.

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POR EM 08/04/2008 ÀS 10:40 AM

Dos estereótipos

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Nosso conhecimento tem como um de seus alicerces o estereótipo. No afã de conhecer, classificamos, agrupamos, estereotipamos. Quando se fala de alemão, pronto, lá vêm aquelas idéias de frieza, de competência tecnológica, de arrogância e amor pelo totalitarismo. E pensar que o Romantismo, não só como tendência estética mas também como corrente de pensamento, é produto alemão. 

Essa idéia me ocorreu na semana passada quando um amigo meu voltou do Rio Grande do Sul. Ele sabe que nasci em Taquara, cidade que fica a cerca de 73 km de Porto Alegre. Meu amigo, que é uma pessoa muito gentil (não sei se é paulista, goiano ou espanhol, só sei que é gentil), resolveu fazer-me um agrado que era ao mesmo tempo uma surpresa. Chegou aqui em casa, para trocarmos impressões sobre o que ele vira em minha terra, com um pacote na mão. Um pacote na mão e um sorriso enigmático no rosto. 

Depois de falarmos sobre diferenças que ele descobriu no Rio Grande, fez um longo silêncio, cravou-me os olhos, provavelmente auscultando meus sentimentos, e lascou a primeira pergunta:
 
- Você pode adivinhar o que tem dentro deste pacote?
 
Não, nunca fui muito bom de adivinhações. Foi o que eu disse para sua decepção. Fez outra pausa, provavelmente, agora, escolhendo outro flanco por onde me atacar.
 
- Pense bem, é uma coisa de que todo gaúcho gosta.
 
Pensei muito, por isso também descobri muita coisa. Mulher, churrasco, música, futebol, passeios no campo, andar a cavalo, dançar a chula (nem me lembro mais se é assim mesmo). Então olhei para o pacote na mão de meu amigo. Mulher e churrasco não caberiam ali, claro, nem futebol, cavalo ou dança. Então me senti iluminar: música. Um aparelho minúsculo de som, uma série de CDs, qualquer coisa assim.
 
Ele me olhou abismado como se estivesse perante um monstro desconhecido. Pelo menos foi o que senti em seus olhos abismados.
 
- Qual a coisa de que mais o gaúcho gosta?
 
- Da vida - respondi na lata.
 
Sua decepção não podia aumentar, por isso ele resolveu entregar-me o pacote, pedindo para que eu o abrisse.
 
Era um quilo de erva mate, uma cuia e sua respectiva bomba. Consegui fazer um ar de surpresa que muito bem poderia ser confundido com um ar de alegria. Um belo presente, agradeci. E que delicadeza a sua, trazer de tão longe algo que é símbolo de meu estado. Ele ficou mais contente, e acho que até pensou que, por não ter adivinhado, minha surpresa foi ainda maior.
 
Tive muita sorte, pois ele não me pediu para fazer uma demonstração de como se toma chimarrão. O pacote de erva, a cuia e a bomba serão troféus na minha estante, para que jamais esqueça que todo gaúcho gosta da infusão de erva mate, sorvida por sucção através de um canudinho metálico.
 
Não resisto à tentação de perguntar: Todo brasileiro gosta de futebol, de carnaval? Toda brasileira mora em Ipanema e é linda, cheia de graça?
 
Ah, os estereótipos! 

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