revista bula
POR EM 08/09/2008 ÀS 06:30 PM

Verba volant

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Quando sentei aqui em frente ao micro pensando em escrever minha crônica da semana, já vinha com uma história montada, mas, como sempre, começou a tortura do título. Conheço um jovem escritor que jorra títulos da melhor qualidade com a mesma fluência com que se alivia no mictório. Outros, como o Caio Porfírio Carneiro (foi ele quem me confessou – e não pediu segredo), perdem noites de sono atrás de um título que valha a pena. Estou incluído entre os últimos. Me lembrei, então, estimulado pela natureza da história que pretendia escrever, de minha velha professora de latim. Também mandei bilhetinhos clandestinos em sala de aula, no meu tempo, e um dia fui pego pela professora de latim. Leu o bilhete, sacudiu a cabeça e me disse: “Preciso falar com o senhor na saída.” Não preciso dizer que perdi o restante da aula. Os colegas todos, quando por fim trocou a sirene, saíram olhando para trás, gozando meu vexame. Sozinhos naquela imensa e vazia sala, dona Ilse (cara de valquíria e língua de tribuno romano) me disse que alguns assuntos nunca devem ser escritos. Scripta manent, verba volant, ela repetiu. Tinha lá meus treze anos e nunca mais me livrei da sentença de dona Ilse.
           
O incidente acima me ocorre, e hoje é um dia de recordações, porque um fato que vivi pela manhã me jogou dentro de uma crônica de mestre Rubem Braga, mestre de todos nós que fazemos de nós mesmos a matéria da distração alheia.
           
Nem todos vocês conhecem o Vital. Eu também, até pouco tempo não tivera este prazer. O Vital, com seu jeito de bicho-grilo, um cara muito na dele, me contou hoje de manhã que antes de me conhecer tinha lido alguns textos meus. Acho que há muita gente, neste exato momento, correndo os mesmos riscos: o mundo anda cheio de textos. Depois de vários comentários (ele é estudante de jornalismo e tem opinião), fez uma revelação que me deixou sobressaltado. Afirmou que sua vida começou a mudar depois de uma afirmação que fiz em uma crônica. Pois posso devolver, e publicamente, a revelação: isso que você me contou, Vital, pode mudar inteiramente o que daqui pra frente vou dizer. Saber que as palavras voam, a gente sabe. O que não se sabe é onde elas vão pousar. Isso não pode jamais ser esquecido por quantos têm o ofício “de viver em voz alta.”
           
Não resisto, a esta altura, à tentação de transcrever um trecho do mestre, retirado de sua crônica “A palavra”.
           
“Tanto que tenho falado, tanto que tenho escrito - como não imaginar que, sem querer, feri alguém? Às vezes sinto, numa pessoa que acabo de conhecer, uma hostilidade surda, ou uma reticência de mágoas. (...)
           
Às vezes, também a gente tem o consolo de saber que alguma coisa que disse por acaso ajudou alguém a se reconciliar consigo mesmo ou com a sua vida de cada dia; a sonhar um pouco, a sentir uma vontade de fazer alguma coisa boa.”

Que me perdoe o mestre Rubem Braga, se não foi dos melhores o uso de seu texto, mas era impossível evitar a lembrança depois do que ouvi. Prometo pensar melhor nas palavras que, daqui pra frente, soltar por aí a voar.

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POR EM 26/08/2008 ÀS 08:41 AM

Vou-me embora pra Pasárgada

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Toda vez que, ao ligar a televisão, sou assaltado pelas futricas eleitorais; e, abrindo o jornal, fico exposto, mesmo sem querer, aos ínvios caminhos de nosso processo democrático, me bate uma baita vontade de falar de jardinagem. Se você, caro leitor, pensa que as calças não têm nada a ver com tudo o mais, desculpe-me a crueza da revelação, mas você permanece ainda no rol dos seres ingênuos. Tenho dois bons motivos para discordar de você, meu caro e incauto leitor. As plantas, eis o primeiro dos motivos, segundo se aprende em botânica, não têm a propriedade da locomoção de moto próprio, isto é, sua motilidade reduz-se ao crescimento. Vegetativo, evidentemente E sendo assim, são inculpáveis de qualquer uma de nossas misérias políticas. O segundo motivo, prefiro deixá-lo para o encerramento desta crônica.
           
Políticos, cientistas políticos, juristas e até mesmo filólogos tentam impor-nos um conceito enganoso do que seja a nossa democracia. Os gregos, inventores de muitas coisas, praticavam-na na modalidade "direta". Todo mundo (um galicismo) aparecia na ágora e se manifestava. Todo mundo? Bem, escravo não era gente, como é o cachorro do Rogério Magri, para que não nos esqueçamos do ilustre Ministro de nossa república em passado recente. Democracia pra quem, então? Qualquer dicionário etimológico informa que demokráteia (de demo, povo e krátos, governo, poder) significa " poder do povo". Então anunciam do alto de sua ciência que democracia direta não é mais possível, e que temos de praticá-la em sua forma indireta, ou seja, a democracia representativa. Aí é que a coisa pega.
           
Você alguma vez já escolheu um representante? Não, não falo do voto, porque votamos em alguém que nos é imposto, como candidato. Eu digo escolher quem vai ser candidato. Não escolheu? Claro, os candidatos são escolhidos por umas poucas pessoas que detêm algum tipo de poder. Que povo? Não são cidadãos, como você e eu, cujo poder não vai além de nosso quintal. Isso na melhor das hipóteses, porque muitas vezes o candidato, ele mesmo, se escolhe. Se não há partido que o acolha, funda seu próprio PRN. Alguém, contudo, contra-argumenta que qualquer cidadão pode participar da vida política, habilitando-se a escolher democraticamente quem vai ser o candidato. E isso também faz parte do grande circo em que se tornaram as eleições.
           
Grande circo, eis a que foram reduzidas nossas escassas possibilidades de determinar nosso próprio destino. Participar da vida política para quê, se não existem partidos políticos no Brasil? Aqui não se vota em programa, não se escolhem idéias, plataformas. E não é verdadeiramente ridículo um processo de escolha pela marca da gravata e a cor dos olhos? Pois é, meu caro, se os últimos presidentes deste País tivessem vergonha na cara, entregariam o cetro aos marqueteiros que os puseram no trono. Engolimos presidentes como escolhemos a marca do sabonete. Com a mesma irresponsabilidade. No Brasil, é presidente o candidato que consegue contratar a melhor equipe de propaganda, o que me parece calhordice política. Tou fora. E em níveis inferiores nada muda. Sem dinheiro, e muito dinheiro, não se consegue contratar um marqueteiro desses top de linha, capazes de emplacar até o Presidente da ONU. O marketing político está em franco crescimento. Hoje, vereador que se preze, deve entregar sua campanha a um profissional de marca. O que, diga-se de passagem, aumenta o prestígio do candidato. O eleitor vota em quem teve a competência de escolher o melhor comunicador. Continuo fora.
           
Faz algum tempo, plantei um cipreste, muda pequena, em frente de casa onde morava. Três dias depois o buraco amanheceu vazio. Comprei outra muda, pouquinho maior, e enterrei no mesmo buraco, acreditando na pedagogia do saco inflável. Durou duas semanas. Voltei à floricultura e trouxe uma senhora muda de quase dois metros de altura. Era um cipreste já com cara de cipreste, e amarrei por baixo da terra suas raízes a traves de madeira. Agora quero ver!, pensava sorrindo e quase vingado. Quinze dias depois apareceu com o tronco quebrado a uns cinco palmos do chão. Hoje, aquele cipreste parece uma tuia comum: gordinho como um castrado, baixinho e arredondado. Não posso dizer que ele esteja feio, mas me dói o coração saber que foi frustrado em sua vocação para as alturas.

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POR EM 19/08/2008 ÀS 12:00 PM

De volta para o passado

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Um parente de meu vizinho aqui da esquerda recebeu uma visita indesejada numa noite qualquer do mês passado. Dois indivíduos armados pularam-lhe o muro e entraram pela porta da cozinha. Por isso, uma semana depois, ele, o meu vizinho aqui da esquerda, apareceu cá por casa (coisa que não fez durante os anos em que vizinhamos) para se despedir. Ele tinha o olhar apreensivo e irrequieto de quem vê uma ameaça debaixo de cada folha. Estava de mudança para um condomínio fechado. Soube, também, que aderiu ao teletrabalho: não precisa mais sair de casa nem pra ganhar o pão-nosso-de-cada-dia.
 
Ontem parou aqui ao lado um destes caminhões que a gente chama de baú, porque carregam nossos móveis e nossos segredos. Logo depois uns nem sei quantos automóveis e congêneres. Foi um movimento de formigueiro. Camas e vasos, caixas de papelão lacradas, sei lá, toda esta bugiganga sem a qual uma casa não fica com a cara dos donos. Poucas horas depois, ouvi batidas das portas do caminhão ? baú, para que não nos esqueçamos ? de alguns automóveis e congêneres, e a curiosidade me mordeu: fui espiar. Os móveis já haviam sido engolidos pela casa e os segredos jamais nos serão revelados, pois se o forem deixarão de sê-lo.
 
Voltei para minha cadeira preguiçosa onde um livro me esperava com sisuda paciência . Mal sentei, o susto: dois homens faziam buracos em cima do muro, enfiavam nestes buracos pequenas hastes de ferro que chumbavam lá no alto com cimento. Uma operação rápida, verdadeira blitzkrieg, e aquilo me assustou um pouco. Nem me levantei, para perguntar irritado o que era que faziam ali, quase dentro do meu quintal.
 
O patrão mandou eletrificar, respondeu-me o que já vinha trabalhando mais perto. A resposta, primeiro, me deixou pasmo porque entendi, não sei por que livre associação, "eletrocutar". E realmente antes que caíssemos todos nós, eu na preguiça e o dia nas sombras, corriam quatro fios que se ligavam às hastes por cima do muro, que estava devidamente eletrocutado. Depois, mercê do que vira, caí novamente, mas desta vez caí do livro em cima de uma reflexão. De queda em queda fui percebendo que o homem não consegue andar em linha reta. Há de fazer sempre seus círculos. Alguns acreditam que a história se desenvolve em círculos; outros acreditam que se desenvolve em espiral, voltando sempre ao mesmo ponto, mas alguns furos acima. Seja como for, percebi que voltáramos à Idade Média.
 
O medo tomou conta de nossa civilização. O mesmo medo que assaltou os ingleses do século XV e que Thomas Morus descreve em sua Utopia. Depois de criar bandos imensos de miseráveis, a nobreza britânica resolveu enforcá-los porque se tornaram uma ameaça aos seus produtores. Reeve, em sua History of Law, conta que foram enforcados 70.000 nos últimos 14 anos do reinado de Henrique VIII. No Brasil, se tivéssemos de enforcar os ladrões, bem, isso já é outro assunto.
 
Estou convencido de que a história se desenvolve em espiral. As muralhas dos castelos medievais, hoje, foram transformadas em condomínios fechados ou naqueles quatro fiozinhos que vejo daqui passando por cima do muro aí do lado. E o trabalho em casa, dos mestres artesãos e seus aprendizes, não é mais distribuído por um mercador, mas por outro fio, o telefônico. Alguns furos acima.

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POR EM 12/08/2008 ÀS 04:07 PM

O centro do mundo

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Se você não sabe o que é o centro do mundo, então é porque não conhece algumas cidades de porte médio, mas de auto-imagem gigantesca. Eu também não conhecia e, quando conheci, não me dei conta imediatamente do fenômeno.

Estávamos alguns amigos a jogar conversa fora ali no bar do Oripão, o maior colecionador de latinhas de cerveja que conheço, e não me lembro por que império freudiano das livres associações chegamos ao conceito de bairrismo. Meus amigos, todos eles dignos exemplares da flor local, sucediam-se em exaltações argumentativas para me provar que eles não eram bairristas.

Pedi meia hora de ausência e fui até minha casa, ali na vizinhança do Oripão, e de lá trouxe, bem antes da meia hora concedida, dois exemplares de jornal, porque, se não coleciono latinhas, mantenho meus jornais arquivados em ordem de data.

Pedi uma lata de cerveja, dessas bem comuns, sem pedigree nenhum como gostam de pedir os freqüentadores do Oripão. Enquanto tomava minha cerveja, mostrei o primeiro exemplar do jornal, com entrevista dada por célebre concertista de piano, que se apresentaria naquela mesma noite.

Não dou os nomes do jornal nem do concertista que é para ninguém sentir-se difamado. Além do mais, parece-me que toda cidade de porte médio poderia estar inscrita na mesma categoria ufanista de gigantesca auto-imagem.

Meus comparsas daquela noite leram a matéria e sentiram quão importante é sua cidade, pois tratava-se de um dos maiores pianistas do mundo.

Então mostrei o segundo exemplar, datado de mais ou menos duas semanas depois. Havia lá, na página dupla central de seu caderno de cultura, o resultado de uma pesquisa que não deve ter custado pouco ao jornal. Com fotos, transcrição de arquivos, fac-símiles de documentos, tudo prova provada, sem deixar a menor dúvida, a história de um velho barbudo, que, no século XIX (fins do século) viajando com a família por estes brasis, fizera pouso exatamente em uma estalagem de beira de estrada, em torno da qual se formou um povoado, gênese da cidade onde moramos.

A que vem a história do velho? Pois foi a descoberta do jornal, a grande descoberta. Um dos maiores pianistas do mundo tinha um bisavô que já passara por estas plagas. E isso era motivo de grande orgulho para todos nós, que moramos no centro do mundo. 

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POR EM 05/08/2008 ÀS 12:23 PM

Oh, dúvida cruel

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Tenho vivido um estado de angústia permanente de uns tempos para cá. Antes o assunto não entrava nas minhas cogitações, que são, geralmente, umas cogitações muito simples, que consigo resolver sem grande esforço mental. Sabia, de forma bastante vaga, tratar-se de um ano eleitoral, mas isso, até certo ponto, não me dizia respeito. Não sou contra as eleições, que os deuses todos do Olimpo me livrem dessa falha. Mas no momento tinha outras preocupações, todas de naturezas bem diversas, e a eleição ficava parecendo-me uma coisa muito remota.

Então aconteceu. O jornal veio parar na minha escrivaninha e estampava, em sua terceira página, a fotografia de seis candidatos à chefia do executivo municipal. Reparei bem nas fotografias aqueles rostos de feições agradáveis a inspirar a nossa confiança. Pronto: acabou o meu sossego. Qual deles escolher? Todos eles bem nascidos e bem lavados, pessoas da mais alta respeitabilidade cada um deles. Eis a origem da angústia em que tenho vivido.

Conheço os seis candidatos, mas não via em que um poderia ser melhor do que o outro, e isso me impedia de fazer uma escolha consciente, para o exercício sagrado da cidadania. Plagiando o bruxo do Cosme Velho, moro longe e saio pouco. Uma vez, numa homenagem de alunos, me deram de presente um tatu de madeira que balança a cabeça. Mantenho esse tatu sobre minha escrivaninha até hoje. Não saio muito da toca.

Pois bem, nesses últimos dias de férias, vi-me obrigado a sair várias vezes de casa. Pagamento de um boleto no banco, visita periódica ao dentista, passagem pelo médico, uma carta no correio. Essas coisas todas que nos atrapalham a vida, mas que todo mundo faz. E sem reclamação, a não ser quando se é ranzinza.

Na segunda-feira da semana passada, ia passando pela avenida quando uma janela de automóvel baixou rapidamente. Quem eu vi lá dentro que me via cá fora? Isso mesmo. Um dos seis candidatos. E ele me cumprimentou com um sorriso tão simpático, tão amigo que na mesma hora pensei: é ele. Dormi melhor na noite de segunda pra terça do que vinha dormindo as noites anteriores. Um sono sem a angústia de não saber a quem dar meu voto.

Na terça tive de sair novamente. Eu estava na fila do banco, sossegado, quando alguém me deu uns tapinhas nas costas. Qual não foi minha surpresa ao descobrir que outro candidato me reconhecia. Não só isso. Apertou com afeto minha mão e me teceu uns elogios com tanta ênfase na frente de outros da fila que fiquei encabulado. Ele fez questão de me dar um abraço. E abraçado fiquei. Horas depois, já em casa (o melhor lugar do mundo), ainda sentia o aperto de seus braços em minhas costelas. Mas ele demonstrou tal felicidade ao me ver que não tive mais dúvidas: é este.

Do terceiro ao sexto, todos eles me abanaram a mão, sorriso com extrema simpatia, me ofereceram cargo na prefeitura, prometeram fazer tudo que eu quisesse. Quando escolhi o sexto foi que me dei conta. Eu tinha passado pela lista inteira.

Minha angústia agora voltou e mais forte do que antes. São todos eles pessoas tão simpáticas, todos eles demonstram ter-me em tão alta consideração que a escolha se tornou novamente impossível.  

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POR EM 29/07/2008 ÀS 08:23 AM

Torcidas

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Não tenho certeza de que o fenômeno da depuração ocorra com outras pessoas como ocorre comigo. Depois de ter observado por longuíssimos anos que não sou diferente da maioria dos seres humanos, estou inclinado a crer que ocorre. Desde o penta que venho pensando em minha condição de brasileiro, um contínuo processo de autoconhecimento, verdadeira depuração.

Ser brasileiro, sem torcer por futebol, de repente me pareceu o mesmo que ser alemão e falar apenas o francês, morar em Paris e odiar chucrute. Nunca fui muito do futebol, já devo ter dito isso em tudo que é lugar, mas não abro mão de minha brasilidade. É a razão por que desde o penta não perco jogo pela televisão.

Entre as constatações que tenho tido ocasião de fazer, existe uma que em certo sentido me entristece. Ou enternece. As pessoas em geral, os assim chamados torcedores, orgulham-se de coisas negativas. Melhor exemplo é o fanatismo. Desde quando fanatismo é virtude? Fanatismo é estreiteza, cegueira, para não dizer coisas piores e menos abonadoras. Mas ser tachado de fanático só enche de orgulho um torcedor. Tudo o que o time dele faz é certo; tudo o que fazem os outros é errado. Se o juiz apita contra seu time está roubando, se apita a favor, é o roubo mais honesto do mundo. Sentido crítico nenhum, muito menos autocrítico. Uma pena.

Outra característica geral do ser chamado de torcedor é a incapacidade de um amor maior, mais diverso, abrangente. O torcedor de um time é incapaz de amar seus semelhantes que se declarem torcedores de outros times. Sua capacidade de ódio é infinitamente maior do que sua capacidade de amor, pois ama apenas um enquanto deve odiar todos os outros.

Foi refletindo sobre assuntos assim transcendentais que cheguei a uma postura neo-platônica, que hora proponho como o protótipo do torcedor do futuro. Todo ele estruturado em qualidades positivas. Primeira qualidade: altruísmo. O torcedor ama o futebol, não apenas uma pequena parcela do futebol (seu time), além disso, detesta ver a infelicidade alheia. É o futebol como virtualidade, potência, ou seja, o futebol como idéia pura que pode ser perfeito, portanto passível de ser amado.

O torcedor que tenho a honra de ser o primeiro humano a propor, vai a todos os jogos que pode. E torce. Não comparece ao estádio apenas quando um dos times (o seu) joga. E torce pelo futebol. Não pelo Inho, Zinho, Rinho, Vinho, esses diminutivos todos que andam por aí na moda. Ele torce para que ninguém se machuque, para que todos sejam cavalheiros de verdade, para que o futebol seja um espetáculo belo e civilizado. Quando deixa o estádio, vem abraçado com seus companheiros de torcida, todos felizes, todos sorridentes, sem necessidade nenhuma de agressão.

Alguém, como sempre, há de objetar que isso tira o interesse do jogo, cuja essência é a disputa. Não considero o argumento inteligente muito menos civilizado. Futebol é espetáculo e ninguém deixa de ir, por exemplo, assistir a um espetáculo de balé porque bailarinos e bailarinas não se engalfinham aos tapas sobre o palco. Ninguém vence, nesse caso, portanto todos vencem.

Agora, se para você, que teve a curiosidade de ver aonde chegariam as elucubrações de um demente e me acompanhou até aqui, se para você o amor tornou-se uma coisa ridícula, então, meu amigo, não temos base mínima comum para uma discussão. O melhor é um ponto final.

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POR EM 22/07/2008 ÀS 01:12 PM

Tarde da noite

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Uma noite, ao chegar da rua em cima de suas pernas dormentes, a cunhada a segurou na cozinha e com a voz escurecida de aspereza disse que assim não dava mais: reclamações dos vizinhos por causa de estripulias dos dois meninos, a reforma da casa interrompida há mais de um ano, e as despesas excedentes, que vinham pesando muito no orçamento. Que desse um jeito em sua vida. Aproveitou esperta a ausência do marido, ele no banho, e disse tudo que vinha guardando há muito tempo como veneno espalhado por dentro das veias. Sua pele úmida exalava sem muita intensidade o cheiro azedo do ódio contido, aquela sua pele de plástico, mas os olhos chegavam bem perto do rosto da cunhada e a verberavam flamejantes. Houve um silêncio áspero em que muita coisa começou a estragar. 

Os dois meninos na sala, com os primos, na frente da televisão. Era neles que a mãe pensava aflita, quase desesperada. Na cozinha pequena, as cunhadas frente a frente, muito existentes dentro da luz fria das duas luminárias, mudavam o futuro de lugar empurrando a vida com um ombro duro e pesado. Foi por causa dos meninos que sua boca se manteve escondida por trás de lábios secos e fechados, incompetente para as palavras. Então levantou-se muda e arrancou, com os dedos em gancho, tufos de cabelo que branqueavam no alto de sua cabeça baixa. Esparramou os fiapos aos pés da cunhada, como o primeiro ato de seu sacrifício: o holocausto. A outra talvez não tenha entendido o gesto, quando seus olhos vazios cresceram cegos, e ela foi tateando as paredes do corredor com as mãos estreitas em fuga para seu abrigo.

Naquela noite, ninguém, além da dona da casa, sabia por que Letícia tinha ficado no quarto sem querer jantar. E mesmo ela, Márcia, usando uma voz inocente, por várias vezes durante a refeição tinha perguntado a um e a outro por que será? As sobrancelhas erguidas repetiam a pergunta com admiração.

Os dois meninos comeram em companhia dos tios e dos primos aquela comida emprestada, sem nada perguntar.

Na manhã seguinte, as duas mulheres se avistaram de longe. Uma tomava conta do que era seu, mexendo em sua pia, preparando no fogão o café de seu marido. A outra saía mais cedo, carregando consigo uma dor nojenta: o asco pela vida. Os filhos continuavam dormindo no colchão posto ao lado de sua cama, e estavam entregues a si mesmos, os meninos, com pouco arrimo. Bem pouco arrimo. Como seria viver seu dia debaixo dos olhos da tia? Olharam-se apenas de relance, que é um modo enviesado de olhar, para evitarem um choque mais violento. Márcia não estranhou os olhos brancos de cega da cunhada, convencida de que deveria ser assim mesmo.

Elas não se cumprimentaram porque agora estava declarado com palavras de ácido o rancor que as unia.

Através da vidraça da sala, os olhos de verruma de Márcia acompanharam o afastamento das costas da cunhada. Estava ainda escuro como um luto e logo depois do portão seu vulto deixou de ser parente. O que faria aquela mulher na rua assim tão cedo? Saía à procura de uma casa para morar? Seria muito bom. Seria bom demais. Mas não acreditava. De onde ela ia tirar o dinheiro do aluguel? Talvez estivesse disposta a procurar serviço com mais empenho. Bem, mas isso sim já seria sinal de que a conversa da noite começava a ter resultados.

Quando o marido, esfregando o sono dos olhos, entrou na cozinha com o cheiro da pasta de dente na boca, Márcia estava tensa porque guardava um segredo. Levantou-se e trouxe do fogão o café quente. Depois de servir seu homem, sentou-se para servir-se também. Já estava clareando, mas não havia atraso. A Letícia, ela começou, a Letícia já saiu. Estava escuro ainda quando ela saiu. O irmão mastigava com movimentos firmes de maxilar e os olhos quase fechados pareciam não ouvir nada. Sei lá o que ela anda fazendo na rua, Márcia ainda provocou, mas sem resultado. Seu marido esvaziou a xícara e só então falou. Está na hora, ele disse, como se alguém tivesse perguntado alguma coisa. Levantou-se, beijou a testa de plástico morno da mulher e saiu com suas costas nítidas pelo mesmo portão por onde, ainda escuro, saíra sua irmã.
 
O dia inteiro arrastando sua sombra nas calçadas da cidade, Letícia segurava muito firme no pensamento os dois filhos de cujas estripulias registravam-se queixas por cima do muro. Eles agora eram sua família. Só eles. Distraiu-se um pouco, descansando o pensamento pesado, apenas durante as entrevistas, umas poucas em que, por razões fortuitas, foi recusada. Ao meio-dia comeu um ovo cozido ao balcão de uma espelunca e pediu um copo de torneirol para lavar a boca. Então voltou a caminhar com pressa como se estivesse atrasada para o encontro com seu destino.

Só pensou em voltar para a casa do irmão quando notou a iluminação no alto dos postes. Seu rosto enrugava-se com o movimento das pálpebras, que se abriam e se fechavam muito mecânicas, mas não inteiramente metálicas.  

Depois de informada sobre sua verdadeira situação naquela casa, não teve mais vontade de respirar o mesmo espaço da cunhada, então, se pudesse, se não fosse pelos dois meninos, passaria o tempo todo na rua. Mesmo à noite, com toda a falta de boa iluminação nos becos da cidade, era neles que jogaria o corpo para que descansasse. Só a idéia de atravessar novamente o portão para pedir emprestado um lugar onde dormir com os filhos já lhe dava uma fraqueza nos pensamentos e uma ardência no estômago.

Empurrou o portão de ferro com cuidado para não fazer barulho. Ao perceber que a família estava reunida na sala para exercitar as emoções com a novela da tevê, ela contornou a casa, rente à parede através da qual os diálogos eram filtrados e vinham até ela. Não conseguia entender as palavras, que não chegavam nítidas, mas ouvia voz humana distorcida pelo alto-falante. Vozes conhecidas e diárias, aquelas vozes. O corredor entre o muro e a parede estava frio, talvez úmido. Letícia enfrentou a escuridão sem titubear, sentindo-se quase em estado de heroína ao evitar daquele jeito a passagem pela sala, recusando seus cumprimentos à família do irmão. A porta da cozinha estava aberta e a mulher foi silenciosa direto para o quarto onde dormia. De humanos, só tinha vontade de ver os filhos, mas sabia que teria de esperar algum tempo, por isso aproveitou para se trocar e deitar-se com as pernas, toda ela estendida na cama. Fechou os olhos e respirou muito até sentir que os músculos não estavam mais apodrecidos. Arrancou mais um tufo de cabelos para sentir que estava viva, convencida de que só a dor é a real medida do ser humano.

Um atrás do outro, o mais velho à frente abrindo caminho com a vantagem de sua altura, os dois irmãos atravessaram a cozinha quieta de tanta penumbra. Não falavam, ao atravessar a cozinha, mas sabiam ambos que estavam com os corações espremidos por terem passado o dia todo sem notícias da mãe e agora tinham de se arrumar sozinhos para dormir. O mais novo ensaiava o choro quando, abrindo a porta, a luz bateu-lhes no rosto e o irmão que seguia à frente, porque era o mais alto, gritou É a mãe. E correu a seu encontro. Seus olhos brilhavam como se tivessem descoberto alguma maravilha. Os dois disputaram espaço para seus abraços, de repente sentindo uma alegria que nem imaginavam tão possível.

Depois dos relatórios do dia, como é que passaram, se não tinham incomodado a tia, se tinham comido direito, o filho mais velho, com seus olhos cheios de dó, olhou de perto para o rosto de Letícia e disse Mãe, eu acho que seu rosto quer dormir, porque seus olhos estão vazios. 

Apesar da pouca luz, os meninos perceberam que faltavam cabelos na cabeça da mãe e que em seu rosto sulcos muito fundos desciam diagonalmente, em fuga. Mas ela inventou um sorriso para os beijar e pô-los a dormir.

Madrugada escura, no dia seguinte, quando Letícia saiu. Márcia já abandonara o marido no último sono e fora preparar seu café. Cedo era, muito cedo, mas ela não queria perder a saída da cunhada, mesmo que fosse para vê-la apenas pelas costas. Depois poderia passar o dia todo perguntando aos filhos dela o que faz sua mãe tão cedo na rua? Iluminou a cozinha com a fluorescência da luminária e sorriu com antecipação para sua própria imagem que saltou na vidraça, muito fiscalizadora. Os ruídos que fez foram suavizados por sua vontade de ouvi-la abrindo a porta do quarto.

Letícia enfrentou aquele resto de noite para botar-se para fora, pois queria abrir padarias, levantar a porta dos bares, oferecer-se para a limpeza das lojas, quando estivessem abrindo, queria terminar de dormir num banco de praça, em companhia dos cachorros de rua. 

Bem mais tarde, ao ver as costas quase ensolaradas do marido atravessando o portão, Márcia concluiu que a cunhada pusera-se doente, mas de pura mentira, só para passar o dia na cama. De pura manha, aquela, a irmã de seu marido. E por causa da idiota, tinha levantado meia hora mais cedo. Os olhos queimando e a boca aberta cheia de bocejos, e a fulana nem aí, estarrada debaixo do edredom!

Quando os dois irmãos, em fila, desentocaram seus ruídos infantis para escovar os dentes, a dona da casa sentiu uma necessidade terrível de orgasmo e foi espiar o interior do quarto pela porta que eles tinham deixado aberta. Só conseguiu uma decepção com os olhos, pois a cama estava lisa e fria, uma cama com toda sua impessoalidade como um ser inútil.

Então era vítima de mais uma das traições daquela: a que horas poderia ter saído? Por não ter surpreendido a cunhada em casa, Márcia passou o dia sentindo-se derrotada, por isso não comentou o assunto com ninguém. Mas à noite, durante a novela, repartiu os ouvidos entre a televisão e o portão da rua. Nos intervalos, corria a perscrutar a rua pelo postigo. Inutilmente. As emoções da novela não tiveram concorrência.

Naquele segundo dia, sua sorte não foi completa, mesmo assim conseguiu limpar um jardim coberto de ervas e folhas secas até o meio-dia e, à tarde, lavou a louça de um restaurante. Então voltou a arrastar a sombra nas calçadas até o início da noite, quando se sentou num banco de praça para descansar, vizinha de um mendigo habitante daquela paisagem, com quem ficou de conversa até bem tarde. .

Letícia, durante aquela semana, tinha percorrido os quatro pontos principais de uma cidade: norte, sul, leste e oeste. Sem vislumbre de emprego com que manter uma casa com dois filhos dentro. Por fim, conversando muito, uma conversa cheia de perguntas e pedidos, acabou descobrindo a possibilidade de alguns bicos.

A louça de um restaurante, os vidros de um sobrado, a roupa de uma família, a limpeza de um quintal. O dinheiro que recebia mal dava para enxugar o suor.

Na última noite daquela primeira semana, ficou até tarde lavando uma pilha de pratos. De longe, ao ver a fachada da casa do irmão, Letícia sentiu-se tonta e abraçou um poste que estava ali parado. Enxugou a testa com a manga da blusa, respirou fundo, atravessou o portão e esgueirou-se entre o muro e a parede, aquele corredor úmido e frio, como se aquele espaço já fizesse parte de seus direitos. Era o caminho que lhe tinham deixado. Estranhou a presença dos meninos no quarto, àquela hora, pois o ruído azul da televisão continuava na sala. Os dois estavam acordados de tanto aborrecimento. Ao perguntar o que era aquilo, aquele ar tristonho, o mais velho se queixou da tia, que no almoço tinha xingado os dois de esganados, porque não deixavam nada para os outros comerem. E ainda disse que eram dois sanguessugas devoradores da comida dos outros.

Os três choraram abraçados até o mais novo dormir. Letícia então recomendou que nunca mais saíssem do quarto. Só até o banheiro, nem um passo a mais. O filho, que estava com a garganta cheia de revolta, compreendeu a mãe e prometeu cumprir seu regulamento. Mas então, enxugando os olhos com as costas de uma das mãos, quis saber por que apareciam tantos ossos no rosto da mãe. Sem ter resposta satisfatória, a mãe o repreendeu e mandou que fosse dormir.

A cada dia, Letícia suicidava-se um pouco nas ruas, procurando trabalho. Márcia já parecia ter desistido de assistir à saída ou chegada da irmã de seu marido. Concentrava-se de ouvidos a postos, no que presumia serem os horários da cunhada, mas ela entrava e saía como se já se tivesse desfeito de toda matéria visível e que costuma provocar ruídos.

Em obediência à recomendação da mãe, os meninos não saíam mais do quarto. Não é que Márcia não estranhasse aquela ausência, mas não vê-los mais a sua frente era um conforto que ela não ousava atrapalhar.

Quando, tarde da noite, Letícia entrou flutuando no quarto, como vinha fazendo há alguns dias, o menino mais velho não se conteve: Mãe, ele disse, a senhora não tem mais cor na pele. O sorriso de cera com que ela respondeu, parecia de uma santa empalidecida, um registro velho colado na parede. É que nem todos os dias ela conseguia trabalho e, à noite, quando chegava, oferecia os seios flácidos para que os dois se alimentassem. Mas os seios também, mal alimentados, aos poucos murchavam. Algumas vezes teve de suportar muda o choro do menino mais novo, que se queixava de fome.

Letícia foi-se tornando transparente. Já se viam suas veias azuis, algumas vísceras e até as duas clavículas fechando o peito cheio de costelas podiam ser vistas. Os dois irmãos, que não saíam mais do quarto, a não ser para o banheiro, seguiam o modelo da mãe. Passavam o dia quietos na cama e já estavam quase invisíveis de tanto dormir. 

Fazia uns dois meses que Letícia só entrava e saía daquela casa escondida pela escuridão da noite, quando os irmãos, uma manhã, estranharam sua voz, mesmo depois de terem escovado os dentes. De seu corpo nem se lembravam mais, contudo sabiam que ela estava na cama porque ela falou com eles. E sua voz era trêmula e tão fraca que os dois começaram a ficar assustados. Letícia então os chamou para mais perto e cochichou-lhes aos ouvidos que não, não se assustassem. Ela tinha ficado em casa para preparar a retirada dos três. A vida aqui, ela disse já em seu último fio de voz, a vida aqui nesta casa não é mais possível. Nós vamos embora ainda hoje.

Naquela mesma tarde, quando a dona da casa estranhou o silêncio e empurrou a porta bruta do quarto, espantou-se com a colcha lisa, o travesseiro frio e o colchão dos meninos escondido debaixo da cama. O único vestígio deles que descobriu foram os três retratos na parede.    

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POR EM 14/07/2008 ÀS 09:46 PM

Adagio appassionato

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Sua mão estremece sábia e desconfiada após o afago. Corpo estranho, este corpo crescido, ela tateia: fora de seu controle. Contorna com os dedos o lóbulo da orelha, flácida curva. Definitivamente, com exceção do corpo, a mesma Estela que subia das ondas do mar, aureolada de sol, e vinha correndo ao seu encontro, aspergindo areia e o doce perfume de seu hálito infantil, e, cheia de inquietação, de longe, ainda, perguntava mãe, foi mesmo Deus quem salgou a água do mar?, e ela respondia que sim, minha filha, por saber que a menina em tudo dependia dela e isso a fazia sentir-se forte. Vê-la era sempre como um susto, por gosto. Com uma ponta do lençol, seca o rosto da filha, suavemente, porque mais que isso ela sabe que não conseguirá fazer.
 
Conhecera-lhe o corpo, saliências e reentrâncias, cada espaço, porque em si a tinha gerado. Apenas o corpo, que estava em si controlar. Você, pensa Lígia quase envergonhada, vinha correndo de dentro do mar, banhada de luz, respingada de água e areia e então eu a reconhecia. Como era bom aquele tempo em que eu a sabia uma parte de mim.
 
Há mais de meia hora a claridade azulada se esvai lenta e resig-nadamente pelas cortinas cerradas, abandonando o quarto. A cama, colcha repuxada, perdeu a aspereza das formas exatas: ninho de nuvens, agora. O Cristo da parede, coração exposto, não aparece mais na paisagem que até há pouco o sustentava. Lígia olha para o Cristo e para a janela, olhar duro e reto, irritada com a impotência dos dois. Então olha para o vulto impreciso de Estela sem saber mais nada, seu mundo vazio.
 
Nada, então, a solução de tudo? Por mais que se desespere tentando resolver a questão, apenas uma fina camada de suor no buço e as palmas das mãos frias e úmidas. Não está preparada para as transformações nem as deseja.
 
Às vezes tem a impressão de que Estela dorme, por isso torce bruscamente os dedos, temendo o impasse.
 
Com a mão trêmula e gasta de vida, sacode de leve o ombro da filha. Seu pai, Estela, daqui a pouco em casa. E a filha a encara, os olhos vermelhos ainda. E inchados. E eu, que faço de mim, desorientada? Lígia volta a olhar para a janela, em fuga, agora, para não se machucar naquelas duas brasas que a perscrutam. A janela é mancha azulada que nada diz.
 
Aguda e travosa, uma coisa arranhando o interior de sua garganta - a consciência da perda. E antiga. Não pode desvencilhar-se da idéia de que abdicara de alguma coisa sagrada no deserto instante em que recebia nos braços o corpo molhado de Estela. Que sim, sua resposta invariável, que Deus. Que outra coisa poderia responder, se ela era tão pequena e sua cabeleira loira empastada de água salgada nada revelava sobre o futuro?
 
No ar morno do quarto protegido, convidou Lígia. Assuntos de alcova. Estela estava tensa, o semblante destruído. Mas então, o que é isso? Não que ignorasse totalmente por que caminhos perigosos andava a filha. Não ignorava. Mas havia sempre a esperança de que não passasse tudo de boatos. Essa maldade que nos faz destruir com certo gosto. Mesmo, entretanto, tendo já tido notícias, precisava ouvir da própria boca, a boca de Estela, com a força de seu hálito, para então acreditar. Quando ouviu sua voz pelo telefone, logo depois do almoço, meu Deus do céu, uma voz assim, e achou que havia fundamento nas histórias.
 
No ar morno do quarto protegido, Lígia pensa horrorizada que o silêncio a vai estrangular. Então não eram mentiras, dizia o olhar com que recebeu na sala, logo depois do almoço, a filha desesperada. No ar morno do quarto protegido, ela convidou, porque dividia sua casa por assuntos. Tenta com afinco encontrar a Estela que emergia das ondas, mas só a encontra perquiridora refazendo as significações. Sem auréola de sol - tenebrosa. Bem mais fácil enlaçar-lhe o corpo quando molhado, apesar do sal e do frio. Conhecia-lhe, então, todas as curvas existentes e as que apenas se prometiam.
 
De repente, aproveitando-se de um dos muitos momentos de silêncio que se estabelecem no quase impossível diálogo, Lígia arrepende-se de ter trazido a filha para seu quarto. E é com horror que pensa nisso, porque aquela é a filha que criou, tentando todos os dias educá-la, fazê-la igual a si mesma. Tê-la agora deitada em sua cama, com a cabeça abandonada em seu regaço, é uma espécie de conivência indesejada. Há pecados contagiosos como doenças. Mesmo sem vê-lo, ela sabe que o coração exposto do Cristo vela acima da cabeceira. De súbito lhe vem à mente a palavra violação: seu significado perigoso. Se já estava há algum tempo aflita com a falta de progressão da entrevista, agora está convencida de que não deveria tê-la começado. Pelo menos ali, no quarto do casal.
 
O que de certa maneira abranda a cumplicidade entre mãe e filha, ela descobre, são as sombras que silenciosamente foram diluindo todas as formas nítidas. Não ver alguma coisa pode significar sua anulação. E Lígia, então, volta a sentir-se calma e segura. Mesmo assim, contudo, é com alguma relutância que seu dedo desenha no escuro o rosto de Estela, numa carícia tão antiga quanto dissimulada.
 
Estela retrucava, às vezes, o coração cheio de suspeitas, mas como é que você sabe?, querendo descobrir as razões que se escondiam nas respostas da mãe. Ora, porque sempre foi assim. Cansada ou incrédula, sentava-se na areia e construía castelos de curta vida. Mas eles eram reais e decifráveis. Às vezes espichava os beiços e enrugava a testa, significando sua discordância. Era assim que costumava encarar os adultos, seu modo de ser insolente, de os considerar sempre culpados.
 
Ao fecharem sem ruído a porta do quarto, apesar da penumbra em que imergiam, por causa das cortinas, Lígia percebeu que era ainda dia claro. Examinou a janela, sem muita atenção, entretanto, pois sabia que a tarde vagava ainda entre sexta e noa. Antes que pudesse proferir uma única palavra, Estela jogara-se na cama, de bruços, engasgada em seu próprio choro. E assim ficara, por mais de meia hora. Entre soluços e suspiros, ao final de muito tempo, contou indignada a decisão do marido. Irrevogável. Ele, um advogado com seu vocabulário. Assim mesmo dissera: irrevogável. Afinal, quais são os limites do amor?, fitando a mãe, a interrogação naquela mesma cara com expressão de areia e mar. Por que há de ser o coração tão estreito que nele caiba apenas um amor?
 
Horrorizada, Lígia fizera o sinal da cruz. Que Deus, o mesmo que salgara o mar, perdoasse aquela menina pelo nonsense do que dizia. E tentou afastar-se, mas era-lhe impossível sem que empurrasse a cabeça da filha em prantos. E apesar do horror, e do suor, e do olhar manso e puro do Cristo de coração exposto, afagou com suavidade a cabeça jogada em seu colo. Que Deus nos perdoe a todos nós, humildes pecadores.
 
Volta-lhe o sentimento da violação, cujo zumbido, aliás, não tinha deixado de ouvir num espaço por baixo da consciência. E observa, então, como naquele momento se arrependera de ter trazido a filha para seu quarto. Nunca se pensara capaz de sentimento tão mesquinho. E este arrependimento do arrependimento anterior, que é negação por fechar o círculo, ele é que a impulsiona a curvar-se e, lábios tateantes, procurar a face da filha. Difícil entender a vida, minha filha. Há muito renunciei a qualquer entendimento. E no escuro do quarto, sente-se por momentos enternecida. Estela, ao jogar-se em seus braços - encharcado, seu maiô azul salpicado de estrelas - está entanguida de frio, a pele arrepiada. Ao enlaçá-la pela cintura, aquela mesma sensação de que a está perdendo. Já não sei quem foi, minha querida, não sei quem foi que salgou a água do mar. Mas onde foi isso, quando? Lígia olha para o Cristo de coração exposto, olha para a janela, como se fossem mais do que apenas duas direções, suas formas desfeitas na escuridão, e lhe pudessem sugerir alguma resposta.
 
Lígia não sabe mais se a filha vela - debruçada sobre sua dor - ou dorme, finalmente aliviada. Sacode-a com delicadeza e cheia de medo do que poderá estar acordando.
 
- Estela, minha filha. Agora temos de levantar. Já ouço os passos de seu pai.

 

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POR EM 09/07/2008 ÀS 06:04 PM

Imperialismo juvenil

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Não sei se vocês já se deram conta: vivemos sob o império da juventude.

Que a idéia da beleza tenha estado sempre, ou quase sempre, relacionada ao viço da vida, isto é, à juventude, isso é compreensível. Adônis provocou as paixões de Afrodite e de Perséfone, por ser belo. Ele é a primavera, quando a vida se renova. Todo ser vivo descreve uma curva que se inicia ascendente, fase em que se junta o máximo vigor, e as formas físicas atingem seu clímax.

O mercado, que é muito esperto, há algum tempo descobriu que, além da beleza, a juventude acumulava outro poder: a decisão das compras. Ser ou parecer jovem é a ordem atual. E o mercado especializou-se para poder explorar este filão novo.

Houve um tempo, não muito distante, em que os pais determinavam o que podia ou não podia ser comprado. Isso não acontece mais. O filho escolhe e o pai desembolsa. Tenha ou não saldo na conta do banco. Existem famílias no vermelho, outras pagando empréstimo, algumas privando-se de coisas básicas e necessárias, tudo isso porque não aprenderam a impor limites à sanha consumista dos filhos.

O gosto dos jovens, o direito dos jovens, a vontade dos jovens, seus costumes, é com isso que nos bombardeiam diariamente os mass media.

Começaram seu império nas compras, depois, sentindo que havia espaço para maiores avanços, começaram a impor seus hábitos. Os shows atravessam as noites indiferentes à vizinhança, que pode ser constituída de crianças doentes, convalescentes idosos, trabalhadores com necessidade de repouso. Torna-se consenso que os jovens são livres e alegres, são belos, e ninguém tem o direito de perturbar sua necessidade de diversão. Ah, sim, porque os jovens se divertem.

“Os incomodados que se mudem”, foi a resposta de um jovem a um ancião que o interpelava dizendo-se incomodado pelo barulho exagerado do show.

Mas mudar-se para onde, se eles estão em toda parte?

Me parece que os jovens sempre foram barulhentos. É próprio de sua natureza. Mas houve um tempo em que os pais ensinavam a seus filhos que o respeito pelos direitos alheios era uma das condições da vida em sociedade. E os jovens entendiam. Se não entendiam, pelo menos respeitavam seus pais. 

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POR EM 01/07/2008 ÀS 11:25 AM

Não morri de tédio

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Eu disse que me ia embora para o interior e todos, entre incrédulos e surpresos, pararam para me examinar com mais atenção. O fim do ano estava próximo, eu estava cansado, os colegas ficaram atônitos. Estávamos na sala dos professores de uma faculdade em São Paulo , e, para descansar, jogávamos conversa fora durante o intervalo entre as aulas.
 
Suportei o silêncio e os olhares pesados. Em volta da imensa mesa no meio da sala, todos me olhavam um pouco abismados porque eu havia dito que com tanta correria a vida acabava passando sem ser notada. Eu queria mais tempo para mim, para fazer um monte de coisas ou apenas para não fazer nada, mas um tempo que fosse meu, porque o tempo, segundo filósofos menos aparelhados que Bérgson para falar do assunto, o tempo é a medida da vida. De onde posso concluir que na verdade era uma parte maior de minha própria vida que eu reivindicava.
 
Uma colega me olhou penalizada como se eu fosse merecedor de sua piedade. Ah, não, não faça isso. Então nos contou que já tivera sua experiência de fuga para o interior. Foram cinco anos, ela repetia com alguns traços de histeria na voz na medida em que desenvolvia seu pensamento. Contou-nos que nas duas primeiras semanas sentiu-se encantada com a vida simples e livre do interior. Nas duas e apenas nas duas primeiras semanas. Fora disso, ela me ameaçou, fora disso foram cinco anos de um tédio insuportável. A vida era uma estrada de terra com vento levantando poeira.
 
A cigarra, no corredor, interrompeu a discussão, e fui ainda alvo de comentários que me advertiam ou me consolavam. A sala esvaziou-se, e as últimas aulas me viram distraído, sem muita convicção de que tomava o caminho certo.
 
A cena acima me veio à memória hoje de manhã, quando levantei pensando que teria o dia todo disponível para não fazer nada. Isso não me acontecia há vários meses, em que andei de agenda lotada todos os dias. Depois do café, entrei no Outlook, não fosse algum maluco ter enviado um emeil em plena madrugada. Não é freqüente, mas acontece, porque tenho alguns amigos que de vez em quando são atacados pela insônia. Como estivesse com umas fotos recentes sobre a bancada, resolvi escanear duas ou três, que me pareceram merecer uma viagem eletrônica.
 
Só então voltei ao Saramago que estivera lendo até a meia-noite. Em companhia da senhora morte, com seus problemas insolúveis, como a necessidade de matar um violoncelista, fiquei até perto do almoço. Almoçado, resolvi ouvir novamente um oratório de Bach, cujo quarto movimento é uma das páginas mais tristes e mais belas de toda a música universal. Ach, bleibe doch, mein liebstes leben. Sem aquelas maiúsculas deles, que usam para substantivos, mas se não sei alemão, como saber quais são os substantivos?
 
Estou no interior há dezenove anos e não morri de tédio. Gostaria de saber como estão vivendo meus colegas, a quem tanta lástima causou meu destino de trânsfuga. Ah, sim, e uma reflexão final: morre-se de tédio em qualquer lugar, porque ele não está fora, mas dentro de cada um.

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