revista bula
POR EM 25/11/2008 ÀS 09:53 AM

A falência do racismo. E só

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A eleição de Barack Obama deve ser festejada, sim, mas apenas como ato simbólico de uma falência: o racismo. Não que ele tenha sumido, mas foi vencido, está em baixa. E só
 

Que desde já me perdoem todos os otimistas de todos os matizes, mas não entro mais nesta, de esperar as mudanças, de contar com as transformações que farão do planeta Terra um lugar menos irrespirável. Já vi esse filme, e até mais de uma vez. Nova-mente otimista, me consideraria apenas tolo.

Se você percebeu que estou falando da eleição de Barack Obama para o governo dos Estados Unidos, você é uma pessoa plugada, com sensibilidade bastante para se deixar penetrar pelo mundo e suas realidades. Acho que você vai entender meu ponto de vista.

Para que não haja desvios de interpretação, declaro desde já: não sou profeta, não quero ser profeta, não acredito em profecias. E nisso me saio melhor do que o padre Antônio Vieira, da Clavis Prophetarum, que se proclamava profeta. Não, se alguma coisa aprendi, e juro que aprendi muito pouco, foi na base da porrada, puro conhecimento empírico.

A eleição de Barack Obama deve ser festejada, sim, mas apenas como ato simbólico de uma falência: o racismo. Não que ele tenha sumido, mas foi vencido, está em baixa. E só. E não estou querendo dizer que nada vá mudar.

A política interna dos Estados Unidos muda a partir de janeiro. Haverá, de agora até o fim do mandato do presidente eleito, uma maior preocupação com a distribuição da renda, sobretudo no que diz respeito aos salários indiretos, como educação, saúde, seguridade social. E isso não é uma grande coisa? Claro que é, mas isso é o que mudaria com qualquer presidente do Partido Democrata. É sua diferença do Partido Republica-no. Aliás, diferença presente e bem clara em todos os discursos de campanha.

No mais, o vergalho continuará nas mãos do império até que ele deixe de o ser.

É muito fácil confundir governo com poder e imaginar que um presidente, por ter sido eleito, e por contar com o apoio da maioria da população, esteja investido de poder. Ele é pago para administrar, para fazer tudo para que a máquina funcione. Ora, os fal-cões não fugiram para as florestas. Estão lá, atentos, manobrando os executores de seus interesses. As companhias de petróleo, as grandes corporações econômico-financeiras, todos eles, se bem que meio machucados pelas besteiras que eles mesmos andaram fa-zendo, continuam com a mesma força que já detinham e não se creia (pois seria ingenuidade) que eles abdicaram do poder. Deram uma folguinha ao governo, mas não soltaram as rédeas do poder. 

Se alguma coisa mudar é porque o mundo mudou, é porque a lógica ditada pelo equilíbrio de forças mundial assim exigiu.

Não que me desagrade o Barack Obama presidente dos Estados Unidos, isso não. Pelo contrário, desde o início vi nele, muito mais do que em seu adversário, o perfil de um estadista. Mas a lógica do império continuará imperando, e isso até que os novos bárbaros invadam a nova Roma. Barack Obama não se parece a Rômulo Augusto, muito menos a Odoacro, que, em épocas remotas da história da humanidade, desmontaram ou participaram do desmonte do maior império que já existiu.


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POR EM 17/11/2008 ÀS 04:46 PM

Paisagem do pequeno rei

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Mastigando ainda restos do desjejum, sem pensamento nenhum em sua cabeça, Juninho levantou-se da mesa e grudou a testa no vitrô fechado: seu modo de espiar aquele mundo que se mantinha escondido por trás das paredes. Pela boca aberta em cilindro, divertiu-se algum tempo expelindo o bafo quente com que embaçou pequeno círculo na vidraça transparente. E meio que riu, satisfeito com tal poder, o de cobrir a parte que quisesse do terreiro com sua cerração, aquele bafo que lhe subia do peito. Para além da janela, no fundo, a inundação de azul de um céu despenhadeiro: uma vertigem. Bem ao fundo, a inundação de azul, onde um rebanho de alvos cirros se deixava singrar por alguns pontos pretos movediços - pequenos e trágicos pontos finais - que, uns atrás dos outros, desenhavam largos e lentos círculos. Alheio ao significado do que ultrapassava os muros de seu terreiro, o menino desenhou, com a ponta do dedo, um grande jota arredondado: exercício necessário da própria afirmação. No gancho da letra, seus olhos enquadraram, no recanto mais afastado do terreiro, o imenso flamboiã de tronco rugoso, já meio decrépito, no exato momento em que um bando de maritacas marulhentas alçou vôo e mergulhou no céu, deixando a árvore, com seus galhos retorcidos, inteiramente desfolhada.

Grupo remanescente de andorinhas sobrevoou o terreiro - as claras penas do peito quase roçando os galhos mais altos da árvore praticamente nua. Talvez uma despedida, véspera da grande viagem. O menino olhou as andorinhas, o flamboiã, olhou as maritacas, distante e indiferente. Ele olhava com a boca aberta, olhava com as mãos espalmadas na vidraça, com os olhos, olhava com o corpo todo, mas nada entendia, porque tinha o olhar bronco de quem ainda não aprendera a possuir as coisas a distância.

Só ao ver o passarinho pular do nada para o meio da galharia é que se agitou um pouco mais. Como um chumaço de algodão embebido em mercúrio cromo, saltitando com vivacidade de um galho a outro, ágil, certeiro, encheu os olhos do menino, que, deslumbrado, apressou-se a limpar com as duas mãos a vidraça embaçada. Mas o que era aquilo, aquela pequenina bola púrpura, tão cheia de vida e de vontade própria? Gritou com estridência, chamando o irmão, para que viesse ver o que nunca tinham visto nem sabiam que em algum lugar existisse. O irmão terminava calmamente de tomar seu café com leite e não se moveu na cadeira. Juninho insistiu, aflito, parecendo-lhe aquela uma oportunidade única na vida, primeira e última. O pensamento foi-se, então, formando devagar, um grande círculo, como um remanso do ar em volta do terreiro, das árvores, um remanso lento, mas irreprimível. Um espetáculo que era seu, tão-somente seu. Além do irmão, a mais ninguém permitiria seu desfrute. Mas aquilo não chegava a ser um pensamento, porque ele apenas o sentia, embora com o corpo todo.

- Mas onde?!

Dois vidros acima, o irmão, impaciente, nada via além do que sempre ali estivera: as árvores, a pequena horta, um galpão coberto com folhas de zinco, uma gangorra e alguns trastes inumeráveis e invisíveis, de tão fixos na paisagem.

O menino gritou que no flamboiã, cada vez mais aflito, porque agora ele também nada via e relampejou-lhe a sensação quase insuportável da perda mesmo antes da posse. E sacudia as mãozinhas gordas preparando o choro.

Como se o mundo, de repente, estivesse a se apagar, o menino pensou com urgência.

- Lá!

Ele gritou com o dedo teso, quase furando a vidraça. Tinha acabado de rever, fascinado, a pequena bola vermelha a saltitar. Então, em pânico, vislumbrou o perigo: o passarinho não estava preso dentro daquela cena, que, de um momento para outro, poderia dissolver-se. - Eu que vi primeiro. Ele é meu!

O irmão não percebeu logo o sentido daquelas palavras proferidas com tamanha veemência e confirmou que sim, que era dele, e que ninguém, por enquanto, ameaçava privá-lo do que era seu. Ele não sabia que o pequeno jamais aprenderia a dispor de tudo com todos, pois era do tipo que só consegue sentir que é seu quando possui sozinho, sem partilhar com mais ninguém. E por não conhecer o próprio irmão é que tentou ainda por algum tempo mostrar-lhe o quanto é de todos aquilo que, a princípio, parece de ninguém.

Mas não é isso, foi a resposta exasperada que o som estrepitoso do sapateado abafou. O cabelo empastado na testa suarenta era sua irritação com a conhecida conversa de enganar, que já adivinhava: depois ele esquece. Não é isso. Meu é o que minha mão segura, seus membros agitados como em espasmo, por causa do medo.

Só aos poucos a compreensão foi-lhe penetrando venenosa. Suas propostas não demoviam o menino, cujo torvo olhar ameaçava sorver a paisagem toda: meu é na minha mão. Nem o canarinho da terra, estralando na gaiola, nem o hamster acrobata, que tanto o encantava. Nada. Quase certo que já os considerava seus. Necessidade nenhuma de barganha. Meu é na minha mão. E esperneava barulhento.

O corpo tenso ligeiramente inclinado para a janela, estúpido e esperançoso, Juninho acompanhou o imergir de seu irmão na loira claridade do terreiro. A expectativa machucava-lhe os músculos, mas a dor não o distraía. Sentia-se ligeiramente compensado das aflições ainda há pouco vividas, ao enquadrar na mesma cena o passarinho vermelho, nos galhos do flamboiã, e seu irmão, gestos atávicos de caçador, esgueirando-se rente ao muro, corpo em arco, longas esperas de cócoras - o estilingue preso pelas extremidades. Compensado, mas temeroso, ainda, com a possibilidade de uma fuga repentina, definitiva. O suor, por isso, porejava-lhe no buço, na testa, empastava-lhe o cabelo da nuca. Meu é na minha mão, sentia cansado mais do que pensava. Mas é meu, parecia responder seu olhar vitorioso, logo depois, ao olhar acusador do irmão, quando este, assomando à porta da cozinha, entregou-lhe nas mãos o passarinho. É meu. E reparou, enquanto lhe assoprava as penas, que visto de perto era ainda mais belo do que de longe, apesar da flacidez do pescoço de onde pendia inerme uma cabecinha inútil.


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POR EM 03/11/2008 ÀS 11:42 PM

Arrependimento não mata

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Estas coisas costumam acontecer com quem de vez em quando desentoca e sai pelo mundo cumprindo seu destino. Por diversos motivos, tenho saído da toca ultimamente, estando, portanto, sujeito a chuvas e trovoadas.

Numa dessas saídas (isso aconteceu em setembro deste ano tenebroso de 2008) descobri que arrependimento, desmentindo a língua de muitas comadres que andam por aí, não mata.

Uma repartição pública estadual precisou de meus serviços em uma cidade do interior de São Paulo e resolveu encarregar-se do meu transporte. Na hora marcada, sem atraso de um só minuto, o motorista anunciou-se pela campainha e cinco minutos depois já estávamos na estrada. Foram os cinco minutos em que um olha disfarçadamente a cara do outro para avaliar seu caráter e descobrir sua índole.

Meia hora de viagem e já éramos amigos de infância. É meu jeito, porque acredito no mal só como um bem que falhou (e tem falhado muito ultimamente). Por isso tenho a tendência a considerar, em princípio, a humanidade toda formada por amigos potenciais.

Algumas horas mais tarde, e para não faltar com a verdade, já tarde da noite, chegamos a nosso destino. Tínhamos o endereço do hotel onde havia uma reserva em meu nome. O preenchimento da ficha (o check in, pois vai-se tornando muito reles falar na língua de Camões) pouco demorou. Enquanto me ocupava da identificação, percebi o motorista ao telefone. Ele estava suando e com um ar desolado.

Não havia mais vagas na cidade. Um evento, que nem me lembro de que tipo, havia lotado a cidade de forasteiros. Perguntei-lhe se a empresa para a qual trabalha não havia providenciado uma reserva e fui informado de que ele mesmo deveria tê-lo feito, mas havia esquecido.

O motorista estava com uma cara muito próxima do mais sentido choro. Então, segurando as lágrimas, disse-me que teria de dormir dentro do automóvel. E isso me comoveu. Enfim, ajudou o bell-boy (Perceberam  por que tenho dito que sofremos uma invasão consentida?) a subir com as malas até meu quarto. Quando vi pela porta aberta, as duas camas de solteiro com suas colchas lisas e as belas dobras que as camareiras fazem como ninguém sabe fazer, hesitei. Meu amigo de infância esperava dormir dentro do carro, com as pernas encolhidas, o pescoço torto, o barulho do entorno. Ele me olhou e senti que seu olhar era de esperança.

Não precisei oferecer uma segunda vez. Ele só me perguntou qual das duas eu preferia e jogou-se com o total de seu peso sobre a outra. Tudo bem, avisei, mas não estranhe se me vir trabalhando até tarde, que este é um hábito antigo.

Casualmente a viagem me havia exaurido de boas idéias e resolvi dormir cedo. Resolvi, porque não dormi. Cansado como deveria estar, o motorista dormiu em menos de três minutos. Não se haviam passado dez quando fui acordado por seu ronco. Levantei-me, fiz barulho arrastando os chinelos no piso, tossi, pigarreei, por fim, puxei um de seus pés. Ele serenou.

Deitei novamente e já estava assistindo à abertura das portas celestiais quando um trovão, vindo da cama ao lado, me fez pular na minha. Arrastei os chinelos, tomei água, abri a torneira do banheiro, pigarreei, tossi, assoviei uma valsinha das poucas que conheço até arrancar-lhe de cima a colcha com que se cobrira.
Passei a noite sem dormir ou dormindo muito mal e em fatias.

De manhã, ele se levantou faceiro, lampeiro e pensou que estivesse me acordando ao pronunciar meu nome. Eu estava apenas com os olhos fechados, vivendo de tanto arrependimento.  


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POR EM 03/11/2008 ÀS 09:39 PM

O neoliberalismo agachado ou algumas idéias de quatro

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Na França do século XVIII, um comerciante de nome Gournay levantou a bandeira do laissez-faire, que os fisiocratas empunharam imediatamente. Estava inaugurado o liberalismo.

Raras vezes ouvi falar, em minha juventude, neste nome: neoliberalismo. Os economistas, a mídia, as pessoas ligadas ao assunto, se não me engano (e costumo me enganar) começaram a usar a palavra e os conceitos com certa insistência há coisa de uns vinte, vinte e poucos anos para cá. Isso no Brasil.

A defesa do neoliberalismo resultou algumas atitudes até meio furiosas. Às vezes ridículas. O Estado, diziam e dizem os neoliberais, não têm nada que se meter na economia do país. Banqueiros, industriais, fazendeiros e seus asseclas sem poder, mas com vocação para puxar o saco de quem o tenha, organizaram um coro bem afinado para cantar um hino à liberdade total do mercado para resolver seus próprios problemas. As leis do mercado passaram a ser exaltadas, glorificadas. E o hino era de tal maneira belo que acabou encantando a todos. Ou quase todos.

Nos Estados Unidos da América, a segunda pátria do liberalismo (agora renovado), a coisa pegou de maneira brutal. E isso que por lá se apregoa o fim das ideologias. Qualquer interferência do Estado nas atividades econômicas sempre foi, no Tio Sam, taxada de atitude comunista. Os mecanismos do mercado sabem melhor do que nós como resolver os problemas. No verdadeiro capitalismo, o Estado deve ser diminuto, barato, e deve ficar fora das questões de produção, distribuição e consumo.

Bem, parece que as coisas andaram mudando por lá. A crise dos bancos hipotecários, a série de falências sucessivas mandou que os economistas por lá começassem a teorizar de maneira diferente. Os economistas daqui, depois de lerem o que disseram os economistas de lá, acho que também vão assimilar novas teorias.

Houve uma época em que os bancos especularam, esbanjaram, ganharam muito dinheiro. Bem como a agricultura brasileira. Nessas circunstâncias o Estado era um demônio que melhor mesmo seria nem existir. Lá como aqui. Novela vista vezes sem conta. Agora entraram em crise. Ficaram nervosos.

Sim, porque o mercado de vez em quando apresenta-se com uns chiliques de neurastenia que dá vontade de interná-lo na Casa Verde, do Machado.

E de demônio, que era, o Estado passa a anjo salvador. Ora, pra que tanto cinismo? Então isso não é pura e simplesmente a ação da ideologia? O que é bom pra mim, é bom pra sociedade. Em 1700 e nada a Inglaterra, a França e outros países mais já conheciam esse tipo de pensamento.

Lembro-me de um livro que li, do Celso Furtado, de que pouco entendi, mas de onde aprendi algumas lições. Falando dos cafeicultores brasileiros, Celso Furtado diz que eles sempre privatizaram os lucros. Isto é, no tempo das vacas gordas, ninguém mexesse no lucro deles. Era o sagrado direito à propriedade privada e seu uso livre de qualquer ingerência. Mas vinha o tempo das vacas magras, então a gritaria era grande, clamando pelo socorro do Estado. Ou seja, socializavam-se os prejuízos.

Ah, sim, porque uma empresa não pode falir. Se ela tem uma função social, como deixá-la ir à bancarrota?

Se os bancos, as lavouras, as indústrias só se lembram de sua função social quando estão no vermelho, exigindo que todos nós os socorramos, proponho que se estenda essa função social também para os períodos em que estão no azul, socializando igualmente seus lucros.

Não seria mais justo?  
 


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POR EM 27/10/2008 ÀS 01:30 PM

Atordoamento

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Um dia cansativo, hoje eu tive um dia cansativo. Onde? Um dia extremamente cansativo. Eu sou um corpo enterrado numa poltrona deste ônibus que transporta um corpo enterrado. Onde? Hoje eu tive um dia cansativo. Mal sinto um corpo enterrado numa poltrona sem conforto de um ônibus: este. Depois de um dia cansativo, preciso atravessar a cidade e onde? Meus dias são todos. Meu corpo, que não trago agora comigo por questão de esquecimento, sacoleja no banco sem conforto de um ônibus, depois de um dia cansativo, este.

Um corpo enterrado numa poltrona. Eu sou um corpo enterrado numa poltrona deste ônibus que transporta um corpo enterrado numa poltrona. Onde? Hoje eu tive um dia muito cansativo. E tedioso. Os postes e fios derramando luz sobre as ruas. E os ônibus sacolejantes. Meu corpo. Como chuva de claridade do céu. A luz que escorre dos postes entra pela janela do ônibus cansativo. Preciso atravessar a cidade antes. Dos postes ainda escorre uma luz por cima das ruas. Onde? Ônibus sacolejantes e automóveis.

A cidade que tenho de atravessar antes lateja. O rumor. Só meus olhos e meus ouvidos? Latejante. Mal sinto um corpo enterrado numa poltrona sem conforto de um ônibus, apesar da claridade que chove dos postes, que desce do céu, mas sinto bem perto o cheiro forte do calor que exala das axilas. O cheiro da cidade no fim do expediente. Latejando? Algumas janelas fechadas impedem a entrada do ar e a saída do cheiro forte do calor que exala das axilas da cidade latejante.

Só chego em casa depois de atravessar a cidade. Preciso atravessar a cidade antes. Duas vezes. Na ida, a luz chove dos postes e o ônibus transporta meu corpo ainda quente do sono enterrado num banco sem conforto. Na ida, a cidade boceja com frio porque a aragem desce das montanhas de escuridão e cai sobre a luz que chove dos postes sobre as ruas. Ônibus e carros sacolejantes. Na ida, o frio. Na volta, o cheiro que exala das axilas da cidade no ônibus com várias janelas fechadas. Tem gente que viaja de pé porque precisa atravessar a cidade antes.

Em casa tem banho e jantar. O vapor sobe do prato. Mas preciso atravessar a cidade antes. Meu corpo viaja enterrado num banco sem conforto. Não sei onde fica meu corpo.

Um dia cansativo. Hoje tive um dia extremamente cansativo. O dia desce dos postes sobre a rua por cima de carros e ônibus. O dia. Um dia latejante, de calor e cheiro. O banco, debaixo de meu corpo, sacoleja por causa do ônibus.

A moça, de calça jeans e blusa de malha, quer descer e pede licença. A blusa azul tem manchas escuras na região das axilas. Ela pede licença e avança enfiando a cara e os braços pelas fissuras entre os passageiros. Pede licença e avança. Um pé, depois o outro, os braços e o corpo. A moça puxa sua mochila que também tem de descer e pede licença. Ela atravessou a cidade e precisa chegar em casa. Tem banho e jantar: o vapor sobe do prato. Ela avança devagar, mas não a vejo mais. Apenas seu pedido de licença dá existência à moça, de calça jeans e blusa de malha, que quer descer.

O ônibus parou e a moça deve ter descido para enfrentar a aragem da cidade latejante no fim do expediente, porque de sua voz só ficou um eco pedindo licença. .

Talvez eu não seja mais do que um corpo enterrado num banco sem conforto de um ônibus: este. Onde? Mas um corpo dotado de pensamento, capaz de em si mesmo, para si. Um corpo sendo carregado através da cidade latejante no fim do expediente. O calor e o cheiro. E meus dias todos. Na ida, a claridade chove dos postes sobre as ruas: ônibus e automóveis. E o frio. Na volta, a claridade chove dos postes sobre as ruas: ônibus e automóveis. E o calor. O calor e o cheiro que exala das axilas. Talvez.

O motor ronca. O motor que puxa o ônibus que me carrega ronca sua melodia. Meu corpo enterrado num banco sem conforto mergulha na melodia do motor e fica sonolento. O ronco do motor sacoleja na cidade latejante. É um rumorejo quente, com cheiro, que escurece o interior do ônibus. Onde? O banco debaixo de meu corpo ficou apenas como uma lembrança, um ser imaterial, evanescente. Na subida da ladeira o ônibus canta mais forte, oscilando. Esta ladeira está colocada antes, por isso é hora de pedir licença.

Um dia cansativo, hoje eu tive um dia cansativo.


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POR EM 20/10/2008 ÀS 03:40 PM

Para que serve um ombudsman

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Não conheço a teoria do ombudsman, se é que ela existe. O que conheço, e muito bem, é minha experiência pessoal toda vez que tento me socorrer dessa coisa esdrúxula, que, na minha opinião, só serve para que uma empresa se apresente como sendo moderninha porque pensa, acima de tudo (de tudo, entenderam bem?), no cliente. Só. E para mais nada.

Algumas pessoas têm o péssimo hábito de fazer julgamentos apressados, por isso já estou ouvindo uns resmungos em que sou acusado de radical. Então preciso continuar explicando meu pensamento. E isso com o auxílio de fatos.

Andei tendo problemas (muito sérios, aliás) com a banda larga. Vocês não imaginam como a inteligência dos meus dedos (que entendem muito mais de datilografia do que eu) que depois da letra “b” próxima passada puseram outra vogal. Como sou de família séria e não quero ser sua degeneração, tive de voltar e corrigir o que estava escrito.

Pois bem, depois de passar dez dias ligando para aquelas vozes que sabem o manual de cor, mas mentem tudo que dizem, porque o manual nunca dá as respostas satisfatórias, inventei de me queixar para um ombudsman. Quem disse que consegui? Ele, o ombudsman, é tão fantasma quanto essas vozinhas que servem de pára-choque para a empresa a que servem.

Tenho alguns amigos com mais sorte do que eu. Corrijo: a maioria de meus amigos têm mais sorte do que eu. Sem querer plagiar o Álvaro de Campos (Pessoa), não conheço ninguém que tenha levado porrada. Só eu, que nesta vida apanhei muito mais do que bati. Pois um desses amigos sortudos me contou que um dia conseguiu falar com um ombudsman. E me relatou sua experiência.

O ombudsman, contou-me o amigo, tem uma voz que não é mole não, uma voz daquelas de levar qualquer mulher séria, porém incauta, pra cama. Veludo puro, mas com potência bem equilibrada. Ah, sim, e sabe falar. Tem uma fluência, uma pureza de raciocínios, ele tem um modo especial de te fazer pensar que está vendo aberta a porta do céu. Isso tudo foi opinião do meu amigo.

Quando você desliga o telefone e sente-se nos braços de Cristo, aconchegado a seu peito, toda sua aspereza, brabeza, insatisfação somem milagrosamente.

Só alguns dias depois, com os ouvidos retornando a suas funções diárias, e com seu problema, miseravelmente, sem solução, é que você vai pensar: Caramba, mas então pra que serve um ombudsman?  

Você, que é muito novo, talvez não conheça a expressão “sem cuspe”.


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POR EM 06/10/2008 ÀS 05:58 PM

Ainda uma vez: maniqueísmo

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O maniqueísmo começa como doutrina religiosa na Pérsia, séc. III da era cristã, e foi fundado por Maniqueu, também conhecido como Mani ou Manes. A doutrina baseava-se na convicção de que o Universo fora formado por princípios antagônicos e irredutíveis. Deus x Diabo, bem x mal, luz x trevas, espírito x matéria etc. De corrente religiosa, que dura mais de oito séculos, o maniqueísmo acaba impregnando a visão de mundo de grande parte da população.

No séc. XIX, sobretudo, o pensamento dominante ocidental era maniqueísta. O mundo está dividido em seus extremos. O herói romântico está do lado da luz, só pratica o bem, despreza a matéria. O antagonista, seu opositor, não tem o menor traço de bondade. Vilão é vilão. Vocês estão lembrados dos faroestes? Mocinho nunca tem um pensamento mau, pois ele é mocinho.

Depois de umas tantas descobertas, começamos a relativizar verdades até então intocáveis, e começou-se a entender o homem moderno, aquele em quem convivem mal e bem, luz e sombras.

Ninguém está livre de cometer um assassinato quando deita e encosta a cabeça no travesseiro. Este ser complexo, que vive todas as mediações entre os extremos, eis o homem moderno.

O maniqueísmo como forma de ver o mundo está hoje ultrapassado, mas sobrevivem seus traços, e muito fortes, em algumas modalidades culturais e principalmente em alguns países.

A Federação dos Cegos dos Estados Unidos move atualmente furiosa campanha contra o filme Ensaio sobre a cegueira, baseado em obra homônima de José Saramago. Dirigem-se ruidosamente para a frente de cinemas onde o filme esteja sendo exibido, tentando evitar a presença do público. Por quê?

Segundo eles, que não viram o filme, os cegos são apresentados como maus, degenerados. E os há.  Aparecem aqueles que procuram tirar proveito da situação. Mas há também os cegos que praticam o bem, que procuram unir-se para resistir aos maus e existe ainda a maioria, que em gradação vai de um extremo ao outro.

Quando se vive em uma sociedade que desconhece coisas tão simples como são as metáforas, a mesma sociedade que divide o mundo entre o bem (lado de cá) e o mal (os outros), que acredita em seus próprios faroestes e super-heróis, que incute o maniqueísmo no pensamento infantil utilizando historinhas para imbecilizar crianças, quando se vive em uma sociedade assim, vive-se exatamente na sociedade metaforizada por José Saramago em seu livro.


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POR EM 29/09/2008 ÀS 02:58 PM

Privado ou privada

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Um dia ainda escrevo uma crônica que comece assim: Um dos mais graves problemas do Brasil é que grande parte de seus políticos transformaram a coisa pública em privada.

Depois de um sorriso mordaz, que é o meu, cometida alguma traquinagem, continuaria por aí em fora. Então, para minha surpresa, receberia uma carta comentando um aspecto da crônica e confesso aos leitores que isso se daria pela primeira vez, ou seja, receber uma carta comentando uma crônica minha.

E a carta, escrita naquele modo antigo, em letras finíssimas e bordadas no papel, me diria: "Meu caro senhor colunista: Ontem à noite, estando eu no apartamento de um jovem erudito, e ao ler-lhe sua coluna, fez-me ele parar a leitura e, com ar de deboche, disse-me que este calembur já é bastante antigo."

Para não cansar os leitores, interrompo aqui a carta, apesar dos florilégios com que termina.

Uma semana mais tarde (minha coluna é hebdomadária), voltava eu ao assunto, mas por vias tortas, que a retidão de há muito parece-me quebrada. E voltava com a evidente vantagem de responder-lhe por via pública, com a força que tal via me oferece, enquanto aquela boa senhora, talvez senhorita, ou quiçá ainda "amiga de um erudito" (mordacidade com o fito de desqualificar minha oponente), como dizia, enquanto minha oponente utilizara-se da via privada.

"Minha cara e insolente missivista: Que o trocadilho é velho, sei-o eu muito bem."

(E aqui uma pausa para explicações: primeiro, ao imitar o estilo de minha leitora, saiu-me este hiato horroroso - "sei-o eu"; segundo, "calembur" é uma palavra de origem francesa, razão por que alguns esnobes a consideram mais nobre do que nosso velho "trocadilho".)

E continuaria:

Mas exatamente por ser velho, não me ocorria o nome de quem primeiro o usou no momento em que me pressionavam por telefone desde a redação para que entregasse minha crônica. E por não me lembrar do autor, também não lhe deixei expresso meu profundo reconhecimento pela colaboração."

E mais uma vez interrompo a missiva com o único propósito de não entediar o leitor.

Entretanto, devemos continuar, caso contrário não chegaremos à moral da história. Pois aquela senhora virtual (vamos chamá-la assim por absoluta ignorância de quem possa ela ser) apesar de apenas amiga de um erudito, simboliza uma boa parcela de nossa intelectualidade. Tão apegados à forma que esquecem o conteúdo, a ponto de muitas vezes confundirem o acessório com a essência.

O pior de tudo é que enquanto alguns ficam descobrindo o plágio de um calembur, grande parte dos políticos continua fazendo suas necessidades na privada em que eles transformaram a coisa pública.


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POR EM 22/09/2008 ÀS 06:36 PM

Em que espelho ?

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Nenhum de nós, do internato, podia dizer de onde caíra aquela figura singular, o nosso professor de Português. O professor Brandão (ou, como preferia o Diretor do colégio, o doutor Brandão) falava com esses e erres muito diferentes dos nossos, andava com passos mais curtos do que nós e tinha um ar sofrido que nós, entre os dez e os quinze anos, ainda não tínhamos razão para ostentar.

Algumas informações, finalmente, vazaram. Por exemplo, que nosso professor de Português era advogado. E a imaginação da rapaziada excitava-se em exercícios que justificassem aquele súbito aparecimento. Um dia, o pai de um aluno, em visita ao colégio, abordou nosso professor e perguntou se poderia assumir uma causa no fórum local. O professor Brandão ergueu para o céu seus dois olhos negros e redondos e, depois de um suspiro, afirmou em voz abafada que advogar, não, jamais voltaria a fazê-lo. Sua expressão, então, foi de profunda dor.

Nunca ficamos sabendo por que o doutor Brandão abandonara a profissão para a qual se preparara. Muitas pessoas, mais tarde aprendi, cometem o equívoco de levar um curso até o fim pela única razão de o haver começado. As vocações nem sempre se manifestam muito cedo. Mas o caso do doutor Brandão, que supúnhamos ter exercido a advocacia por muito tempo, parecia bem mais tenebroso. Algum deslize, uma escorregadela, coisa nem sempre provável mas quase sempre possível para um ser que luta pela sobrevivência neste conturbado mundo de Deus? Não sabíamos, mas conjeturávamos. Alguém trouxe de fora a informação de que se apossara, nosso cândido professor, de todos os bens de duas crianças órfãs. Foi quase uma semana de ódio e rancor. Ele não podia entrar na sala de aula sem que rosnássemos de cabeça baixa. Por uma série de detalhes, descobrimos, à luz de velas em nosso esconderijo, que era uma informação falsa. Ah, sim, porque também havia os alunos que o admiravam.

O professor Brandão era casado, e sua esposa, uma normalista, como então eram chamadas as professoras primárias, dava aulas nas séries anteriores ao ginásio. Eles não tinham filhos, e esse era outro motivo de assombro para nós, tão acostumados a famílias de proles numerosas, pois era assim que Deus mandava e o Brasil queria.

O que mais nos espantava, entretanto, era o ar de grande sofrimento de nosso professor quando tentava explicar as diferenças entre um verbo e um advérbio. Ele segurava o giz sem muita convicção, enrugava a testa, sacudia a cabeça e botava algumas palavras na lousa (que chamávamos de quadro-negro, porque o era realmente). Mas ele gostava de ler. E trazia poemas para que lêssemos e perguntava quem freqüentava a biblioteca, o que encontrávamos lá. Ouvíamos algumas histórias e às vezes contávamos algumas também.

Até o fim do primeiro ano, ninguém mais queria saber a origem do professor Brandão, nem por quais mistérios da vida um homem tão diferente dos outros que conhecíamos viera parar ali. Meu entusiasmo pelas fórmulas da matemática arrefeceu em favor de Mário de Andrade e Cecília Meireles. Nunca entendi por que essa aproximação em suas preferências, mas isso pouco ou nada me preocupou.

Quarenta anos mais tarde fui fazer uma visita ao colégio onde estudei interno. O prédio principal era ainda o mesmo, apesar da cor horrível com que o disfarçaram. Fui apresentado a outros prédios mais recentes. Uns intrusos. Os professores todos pareciam tão estranhos quanto nos parecera, no início, o professor Brandão. E ele, onde estaria? Ninguém sabia de sua existência. Não desisti enquanto não o encontrei. Ele estava colado, muito miúdo e assustado, em um quadro de formatura. Quanto a mim mesmo, descobri que não havia deixado o menor vestígio de minha passagem por lá. Em que espelho, Cecília, ficou perdida minha face?


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POR EM 15/09/2008 ÀS 05:32 PM

E agora, José ?

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As cidades nasceram sob o signo da insegurança. As feras atacavam impunemente este serzinho desprotegido, sem presas nem unhas que prestassem, que era o homem. Nasceram e logo depois foram muradas. Claro, não contente com os ataques ferozes, isto é, das feras, o homem inventou os ataques ferozes, isto é, do homem. As feras queriam fazer dos homens seu repasto ( não é preciso escamar nem depenar) e alguns homens a todo custo queriam tomar posse do que outros homens tinham. O remédio foi mesmo criar os muros.

Então veio o fim da Idade Média e os modos de ganhar o pão-nosso-de-cada-dia foram-se transformando. Depois do artesanato veio a manufatura. Depois da manufatura veio a indústria, e na era da sociedade industrial tudo foi racionalizado. As poucas e pequenas cidades começaram a inchar porque uma das leis do processo de industrialização era a concentração. Os custos caíam quando homens-produtores, máquinas, matérias-primas, homens-consumidores se aglomeravam.

Em nome dos baixos custos, ou seja, da maximização dos lucros (o economês é assim mesmo), criaram-se os grandes edifícios, as megalópolis cercadas de seus bairros populares, de suas fábricas e favelas.

Os problemas apareceram como subproduto da acelerada e tumultuada urbanização. Subproduto indesejável e de solução às vezes quase impossível. Onde arranjar escola para tanto bacuri, dizia o alcaide coçando a cabeça de ralos cabelos. E onde jogar tanto dejeto? Bem, alguns jogavam-se no rio, ou no mar, ou sabe-se lá onde. As cidades não davam conta de criar tantas veias pelas quais deveria circular nosso almoço de ontem antes de desaparecer. Os rios e os mares, então, arcaram com o sacrifício: foram poluídos. A saúde, ora a saúde, e muito bom tecnocrata raciocinava como verdadeiro Malthus. Mas nem todos eram malthusianos e o prefeito arrancava os fios restantes de cabelo.

Ora, em nome do lucro se tinha criado uma solução e um problema. Em nome do lucro criou-se também um outro tipo de sociedade: a sociedade de consumo. Sem consumo não há lucro. Então toca consumir, porque esse verbo passou a ser fundamental para a vida das cidades. No meu tempo de criança, íamos à padaria com uma garrafa de boca mais larga, conhecida como a garrafa do leite. Esta garrafa, depois de bem lavada voltava à sua nobre função, e isto por um, dois anos. Com sorte, ela durava uma geração toda. Hoje o leite nos chega num saquinho plástico que, depois de usado, vai fazer parte do lixo urbano. São milhares e milhões de casas em que se consomem mercadorias e se produz lixo.

Nós, os que não somos malthusianos, estamos escandalizados. A Cetesb (organismo que vigia o meio ambiente em São Paulo ) fez um levantamento e chegou à triste conclusão de que 50,4% das cidades paulistas jogam seu lixo em lixões a céu aberto, sem tratamento de resíduos, como deveria ser. Destes novos inimigos, quase sempre invisíveis, não há muro que nos defenda.
 


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