revista bula
POR EM 09/03/2009 ÀS 11:13 PM

Uma dor atravessada no peito

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E o que é mesmo que o senhor está sentindo?, foi como a recepcionista me assustou, porque aquilo, na frente dela, era uma ficha que ela estava preenchendo, minhas respostas se era minha primeira consulta, meu nome completo e onde poderia me encontrar em caso de necessidade, como se eles, todos eles da clínica, pudessem ter um caso de necessidade. E também a quem deveriam avisar em caso de, porque enfim, se eu vivia sozinho, nenhum parente?

A pergunta me pareceu fora de um contexto apropriado e ficou algum tempo sem resposta porque nome de rua e número de telefone não precisam de interpretação e têm enunciados prontos, bastando abrir uma boca automática e mover queixo e lábios, mas agora não, agora era preciso procurar atalhos na linguagem, veredas pouco usadas, agora eu dependia de invenção para enunciar uma realidade que a mim mesmo parecia extremamente escorregadia, podendo ser mais ou podendo ser menos, que os limites oscilam sem parar, dançando sobre a superfície das significações.

Minhas mãos, minhas duas mãos, apoiavam-se no tampo da escrivaninha, mas de maneira muito leve, que é assim minha timidez: nunca me deixa usar completamente qualquer conforto. Enquanto a recepcionista digitava meus dados, eu permanecia sentado à frente de sua escrivaninha, o corpo teso e respeitoso em ângulo de noventa graus, com as duas mãos, ou melhor, com as pontas dos dedos das duas mãos apoiados no tampo envernizado da escrivaninha, eu era quase um teorema pitagórico, bem rígido.

Mas então por que uma pergunta assim tão insólita quando feita por uma recepcionista? Estávamos os dois envolvidos naquela conversa burocrática, uma conversa que não me causava esforço algum, que de tão asséptica eu podia dedilhar-me inteiro sem encontrar saliências ou reentrâncias, meu corpo envolto por uma pele apaziguada. Por quê? A recepcionista falou sem levantar a cabeça como se a pergunta estivesse registrada na ficha que ela preenchia. E o que é mesmo que o senhor está sentindo? Não respondi logo, tendo chegado à conclusão de que fora um ataque inesperado.

A sala da recepção era um quadrilátero com duas portas e duas janelas. Por uma das portas, saía-se para a calçada, presumo que muitas vezes com o veredicto na mão, adeus esperanças, projetos jogados no quarto de despejo, adeus futuro. A segunda porta, que ficava ao lado da recepcionista, era o início de um corredor um pouco escuro, talvez uma lâmpada muito velha tentando cumprir até o último alento. A sala do médico ficava escondida atrás de uma porta na parede do corredor. Havia cadeiras pretas, na sala da recepção, uma ao lado da outra em duas fileiras perpendiculares à parede da frente e à escrivaninha da recepcionista. Contei os quadros pendurados por cima das cadeiras e eram sete, um número que nunca me assustou porque não sou supersticioso e não acredito em cabala. Eu apenas me sentia doente e vim em busca de auxílio. Entre os quadros, os mais bonitos refrescavam a sala, pois eram montes cobertos de neve. Suíça, pensei, sem muita convicção, de qualquer forma me senti muito bem por achar que eram os Alpes.

Então, sem levantar a cabeça, a moça da recepção perguntou e o que é mesmo que o senhor está sentindo? Ela já sabia minha profissão, meu estado civil desolado de homem com muito mais solidão do que idade. Eu precisava ganhar tempo, por isso perguntei como?, e ela repetiu e o que é mesmo que o senhor está sentindo? Não que eu seja mais agressivo do que a normalidade dos humanos, mas a primeira coisa que pensei em dizer foi que aquela era, se eu não estava equivocado e com idéias inteiramente quadradas, que aquela era uma pergunta pertinente ao exame clínico a que me submeteria o médico. Talvez me tenha salvado minha timidez porque não disse nada do que pensei. Apenas perguntei como? Foi então que ela ergueu a cabeça e perguntou pela segunda vez.

Enquanto a recepcionista repetia sua pergunta, consegui ver seus olhos, consegui vê-los completamente, pois ela não estava usando máscara nenhuma. Seus olhos, como descrever uns olhos que me fizeram mudo, tão mudo como se estivesse à beira de um susto? Ela piscou, escondendo-os um leve instante e suas longas pestanas moveram-se para mim. Ah, bem percebi, naquele instante, que as pestanas me acenavam prometendo alguma coisa que era necessário buscar, com urgência, sem medir distâncias ou obstáculos. Seus olhos tinham uma sombra fresca que oferecia repouso e paz.

Depois dos olhos, passei aos lábios, ao rosto todo, e subi para os cabelos, que brilhavam de tanta seda que eles eram. No meio da pergunta que ela fazia pela segunda vez, a recepcionista sorriu sem que os outros pacientes, que esperavam nas cadeiras pretas, percebessem o calor que emanava de nossos olhos.
 


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POR EM 09/03/2009 ÀS 05:57 PM

Gladiadores modernos

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Se o canal de televisão que assola o país quiser mesmo bater todos os recordes de público, tem de botar mais um pouco de sangue nas cenas. O público continua o mesmo. Lá se vão dois mil anos, mas continuamos os mesmos animais sedentos de sangue

“Indivíduo que nos circos romanos combatia com outros homens ou com feras, para divertimento público.”

Para quem escreve, é sempre bom ter ao lado um bom dicionário. O Aurélio, de que me vali, dá conta do recado. Então já sabemos quem são os gladiadores: o que faziam e para quê.

A coisa empaca é com o segundo termo do título, porque “moderno”, o que seja, quando e onde, já renderam toneladas de papel e tinta de discussão. Por exemplo, essa última oração não pode ser considerada moderna porque meu avô já a usava? Não, caro leitor, não vou entrar na discussão do que seja moderno, nem onde ou quando. Moderno, aqui e para o que nos interessa, vem com a acepção de contemporâneo, atual. Algum leitor mais atento e mais crítico dirá: por quê, então, já não usou um desses termos no título? Ora, e que maneira melhor teria o cronista para levantar um assunto que talvez nunca tivesse ocorrido a muitos leitores?

Os gladiadores contemporâneos (viu como dá?) lutam de maneira diferente e não era em uma arena. Ou seja, a arena, hoje, não tem arquibancadas, como naqueles antanhos romanos. Hoje se usa uma casa, com muito lazer, muita cama e um pouco de piscina. As roupas é que continuam semelhantes: quase nenhuma. E a arquibancada, nos dias que correm, é o sofá de sua casa.

Há algumas diferenças que não se podem esquecer: as armas, por exemplo, não ferem tanto e tão fundo como era no tempo dos Césares. A espada já não é do mesmo aço, nem tem o mesmo fio.

Pois meus caros, os gladiadores atuais já vêm perdendo a popularidade. E isso em detrimento dos lucros de seus patrões. Em estudo recente encetado por meu amigo Adamastor, o anão, ele chega a várias conclusões. Uma delas, e a primeira, é que as asneiras não têm sido suficientemente asnáticas para encantar e educar nosso respeitável público. Propõe-se, como solução, que se consulte, lá no além, o Stanislaw Ponte Preta, aquele que organizou o FEBEAPÁ (Festival de besteiras que assola o país). Não que ele dissesse besteiras, mas ninguém como ele sabia onde elas se escondem.

Outra proposta é que o sexo seja menos explícito. Isso causaria um efeito de estranhamento e poderia atrair mais público.

Agora, se o canal de televisão que assola o país quiser mesmo bater todos os recordes (recorde, minha gente, palavra paroxítona, certo?) de público, tem de botar mais um pouco de sangue nas cenas. O público continua o mesmo. Lá se vão dois mil anos, mas continuamos os mesmos animais sedentos de sangue. Como é que até hoje ninguém, entre tantos gênios da tv, teve a idéia de usar um paredão real, com tiros reais, ou facadas, tudo dependendo da vítima e do dia da semana? Morte por afogamento, por exemplo, jamais. É cruel e não derrama sangue.

Nada melhor do que uma degola ao vivo para alegrar nosso respeitável público.  
 


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POR EM 02/03/2009 ÀS 06:51 PM

Elefante azul

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O imenso dorso dobrado sobre a bacia de alumínio, dentro da qual, calada, prende meus pés cobertos de barro, ela me esconde os olhos úmidos e vermelhos, bem os vi há pouco, de relance, quando foi à porta me chamar e me recebeu resmungando contra a vida miserável que se leva por causa de crianças que passam o dia a chafurdar na terra do quintal. Não chegava a ser uma repreensão, me parece, aquela voz inusitadamente grave, talvez rouca, livre, entretanto, de qualquer aspereza, e a suavidade do gesto com que me fez entrar, embora o rosto esquivo, como se não me visse, apenas mais uma das sombras que, à noite, costumam vir esconder-se aqui dentro de casa.

É fraca, muito fraca mesmo, esta luz amarela que, silenciosa, desce do teto e escorrega pelas paredes nuas, ricocheteando sem alvoroço nos ângulos mais salientes de nossos parcos móveis de cozinha. Tão fraca que daqui mal distingo a cor da cristaleira e do elefante azul de tromba erguida e orelhas alceadas, inutilmente tentando fingir um aspecto selvagem que nunca teve ou terá, prisioneiro de sua imobilidade. Sobre a mesa, ao lado, os pratos emborcados e mudos são duas renúncias em que a luz finalmente pousa e se acomoda.

A vida miserável que se leva por causa de crianças que passam o dia a chafurdar na terra do quintal. Não sei se ela volta a resmungar, compelida pela necessidade de interromper tamanho silêncio, ou se é apenas o eco retornando de suas viagens. Me aguço por inteiro na ânsia de compreender e só consigo me sentir estúpido, tronco seco arrastado pela enxurrada. Também não ouso responder, enredado em fios que não enxergo, e me eriço, engatilhado, pois só disponho de reações físicas. O ritmo de sua respiração se altera, eu ouço, então me agarro às bordas da cadeira para manter os pés mergulhados na água e não atrair atenção alguma sobre mim. Suas mãos, excessivamente brancas, sobem e descem pelas minhas pernas, lentas, mãos em cujas conchas tantas vezes me protegi, subitamente trêmulas, hesitantes, adejando lívidas pouco acima das ondas. Tento concentrar-me na sensação ambígua que me causa o contato da água morna escorrendo-me pelas pernas, antes que se precipite ruidosa na superfície do mar encapelado onde a lua fraca, muito fraca, e amarela, se estilhaça em estrelas e se recompõe ao ritmo das mãos, que sobem e descem, lentamente. Por alguns momentos perco o sentido de mim mesmo e dos perigos amoitados nas sombras que passeiam livremente pela cozinha. Nada existe além do gorjeio prateado da água e destas mãos excessivamente brancas.

Percebo afinal que cessaram seus movimentos e me preparo para encará-la, para ouvir-lhe as revelações, mas ela continua dobrada sobre a bacia de alumínio, penedo imóvel sobre o abismo, o coque a esconder-lhe a nuca e o dorso imenso e frágil coberto de musgo. Como se não me visse, apenas mais uma das sombras que, à noite, costumam vir esconder-se aqui dentro de casa.

Neste estado de sustos e esperas tenho vivido as últimas horas, sem saber o que é, de fato, e o que me invento para tentar entender os significados. Desde hoje cedo, quando acordei para mergulhar num pesadelo: seus gritos e ameaças, seus rancores expostos qual feridas negras. Interromperam-se para me poupar, talvez, quem sabe apenas para recompor as forças e os argumentos. Mas foi de pouca duração a trégua provocada por minha presença. Trégua precária: os semblantes não se desarmaram. Mastigava ainda restos de pão quando ele me levou até a porta, vai pra rua, vai, meu filho.

Entendo o significado da pressão de seus dedos e retiro os pés da água. Seu dorso de baleia se move e espero que agora ela me encare, que me mostre o rosto onde posso adivinhar vestígios de sua noite escura. Nada acontece, entretanto, a não ser que ela me envolve pernas e pés com uma toalha macia, me aperta contra o peito, e assim fica, por muito tempo, talvez sem coragem para o gesto seguinte.

Gostaria de ficar assim aninhado indefinidamente, sem passado ou futuro, sem pensamentos, neste conforto de penumbra e calor. Mas então ela me larga sobre a cadeira, meus pés já secos dependurados, e ergue-se, subitamente resoluta, carregando na direção da janela aberta as verberações efêmeras deste oceano que por alguns instantes me fascinara. Tudo tão rápido que mal tenho tempo de perceber que a água da bacia está salgada.
 


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POR EM 16/02/2009 ÀS 04:25 PM

Imperador de papel

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Não havia ninguém na platéia e ocupamos duas poltronas bem perto do palco. Fiz um longo preâmbulo antes de dizer a ele que um imperador, como eu queria, tinha de ter uma voz um tanto rude e dirigir-se aos outros com certa rispidez. Falei dos gestos também: largos, bruscos, acompanhados de um olhar severo

Como a descoberta tardia de uma vocação. Ou a descoberta tardia de uma vocação. Talvez o encontro, finalmente, de um si mesmo em potência, latente, que, latejante, vem a furo. Um ser tem escolha de si, do modo como será? Ninguém nasce pronto, forma acabada, mas por isso tem poder de escolha? Nos lugares de sombras, onde o sol jamais, e a umidade, como saber o que existe, se espelho algum desce ao fundo?

Minha culpa, entretanto. Não um pecado, pois já cataloguei minhas descrenças; tampouco um crime, que um crime exige uma ação qualquer. Ou sua omissão. Apenas o exercício da função para a qual me chamaram. Isso pode ser a colisão quase milagrosa de dois corpos na imensidão do universo, mas não há culpa.

Tínhamos decidido, costume antigo, jantar juntos depois da estréia. Na calçada, em frente ao teatro e enquanto as luzes se apagavam, ficamos atônitos com o que vimos.

A escolha do elenco e a distribuição dos papéis foi o início do jogo. Início fácil, quase natural, pelas qualidades conhecidas de atrizes e atores. Ninguém reclamou da parte que lhe coube. Isto é, quase ninguém. Como é representar um imperador?, questionava Pedro, enquanto os demais, muito enroupados de panos grossos e coloridos, já brincavam de ser o que não eram, todos rindo barulhentos mercê do entusiasmo com que já se imaginavam no palco.

Pedro era o único a parecer descontente, me olhando de testa enrugada, por isso resolvi gastar mais tempo com ele.

? Ninguém, como você, Pedro, tem essa voz soberana e essa sua cabeça imperial.

Ele me olhava desconfiado enquanto eu explicava as razões de minha escolha. Por fim, conformou-se Pedro com seu papel e prometeu aceitar meu conselho para que estudasse bem a vida íntima, os gestos e o pensamento de um imperador.

Bem sei que na primeira leitura de mesa poderia ter mudado o rumo do que aconteceria, mas tenho a meu favor o fato de que em todos os segundos da vida estamos mudando o rumo do futuro desconhecido. Como saber o que então seria se não fosse o que é? Eis por que não me sinto culpado.

O elenco todo foi brilhante na leitura e nas discussões. Alguma correção, umas poucas sugestões, isso sempre acontece. Pedro, contudo, tinha alguma coisa na voz, um trêmulo e uma espécie de suavidade que, para mim, não eram seus, muito menos de um imperador. 

Na despedida, fui saindo ao lado de Pedro, disfarçado dentro de mim, como alguém que apenas está saindo. Perguntei a ele se já começara a estudar a personagem: E daí, já começou a estudar a personagem? O modo entusiasmado de sua resposta me espantou um pouco, por isso não quis continuar o assunto. Me contou que encontrou vários textos na biblioteca, alguns com descrições muito vivas e coloridas. Como se estivesse vendo, ele repetiu com rosto iluminado de satisfação. Como se estivesse vendo.

Na esquina, cada um de nós foi enfrentar sozinho o frio da noite no rumo de casa. E a cidade ouvia nossos passos na calçada com certa reverência sonolenta e silenciosa. Estava em mim alterar o futuro? Conheço o jogo e me fio em suas regras. Tempo havia de sobra para as correções e os desvios necessários. Menos de um quarteirão à frente, já enredava os pensamentos em alguns fiapos de sonhos movediços, e o principal deles era o sonho com a noite de estréia. Um sonho de gozo e sofrimento com que dou cor à ansiedade.

Nas semanas seguintes andei distraído com gestos a refazer, entonações a modificar, ritmos a corrigir. O grupo era muito competente e cada um, com sua experiência, contribuía para o conjunto. Nunca dirigi com mão de ferro, mas retocava tudo que me parecesse incoerente e despropositado. Desse tempo, me ficou a vaga impressão de que Pedro continuava falseando a voz, muito diferente daquilo que esperávamos dele.

Poucos dias antes do ensaio geral ninguém mais tinha problemas com as deixas ou com o texto. Ninguém tropeçava mais em palavras e as marcações, no palco, já não nos preocupavam nem um pouco. Os ensaios tornavam-se o afinamento da peça (o brilho final) e eu mais usufruía o que estava feito do que trabalhava.

Ocupado com os outros, não pode haver outra explicação. Já conhecia o trabalho de Pedro, um ator jovem que me agradava, por ser muito estudioso e executar suas tarefas com extrema seriedade e um tanto de severidade. Muitas vezes chegava a ser extrema mesmo, sua seriedade. Quando, cansados após um ensaio, nos reuníamos em volta de uma mesa de bar, Pedro mantinha-se muito tempo calado, ouvindo os outros, rindo poucas vezes e bebendo quase nada. Jamais soube que ele consumisse droga alguma, em nosso meio uma prática comum. Era sempre o primeiro a decorar seu texto, a sugerir intenções, a ajudar os colegas. Ocupado com os outros, só podia ser isso, não prestei atenção no que acontecia com Pedro.

Ainda não era uma preocupação. Contava com meu poder de persuasão para convencer Pedro a mudar de voz. Eu tinha acabado de entrar no teatro quando o vulto dele apareceu no quadrilátero da porta. Andava devagar, e seus gestos, mesmo os mínimos, tinham adquirido uma solenidade majestática que me impressionaram. Estendeu-me a mão para o cumprimento e inclinou muito de leve a cabeça. Resolvi, naquele momento, ter uma conversa mais demorada com ele.

Não havia ninguém na platéia e ocupamos duas poltronas bem perto do palco. Fiz um longo preâmbulo antes de dizer a ele que um imperador, como eu queria, tinha de ter uma voz um tanto rude e dirigir-se aos outros com certa rispidez. Falei dos gestos também: largos, bruscos, acompanhados de um olhar severo.

Pedro me ouviu com um ar um tanto absorto, como se não fosse ele nosso assunto. Quando parei de falar, ele sorriu e disse que eu estava equivocado. Isso que você quer, Teobaldo, isso não é um imperador. O que você está me propondo é só um estereótipo. Me contou que desde o dia em que assumiu o papel, vinha estudando pra burro tudo que encontrasse sobre a vida de Dom Pedro II. E ele não foi um imperador?

Discutimos algum tempo sobre certas necessidades da linguagem teatral, que nem sempre pode abrir mão de algum estereótipo, porque gestos e imagens não deixam de ser uma significação para o espectador. É preciso levar em conta um conhecimento prévio da platéia pra que se estabeleça a comunicação. Ele fingia me ouvir. Eu sei que ele apenas fingia me ouvir. Notei a imobilidade do arco de suas sobrancelhas como moldura de uns olhos aguados, aqueles olhos de contemplar estrelas. 

Por fim, ele prometeu muito esforço para enquadrar sua interpretação em meu pedido. E andou, realmente tentando. Até mesmo no ensaio geral percebi que ele tinha evoluído, e o que estava fazendo já era satisfatório.

Em noite de estréia sempre peço que atores e atrizes cheguem ao teatro uma hora antes, para o último laboratório e a meia hora de concentração. 

Quando Pedro chegou, senti uma dor aguda que me pareceu no baço, uma dor que me repuxou o lado esquerdo do baixo ventre. Ele entrou no saguão olhando para o infinito e com um sorriso esboçado com tanto tédio que todos começamos a cochichar. Deu a mão a todos da companhia e pareceu muito admirado pelo fato de ninguém ter-se curvado em sinal de respeito.

Deitados na coxia, pedi que todos fechassem os olhos e mentalizassem as personagens que representariam. Era um exercício comum, com que a gente de teatro está perfeitamente acostumada. Durante o exercício, reparei que Pedro estava muito pálido e executava uns gestos que não eram dele, como repuxar um dos braços, mover a cabeça para um lado e outro. Cheguei caminhando com pés de silêncio até perto dele. Sua respiração era arquejante e suas pálpebras tremiam. No fim do exercício eu estava convencido de que Pedro estava sofrendo muito, atacado, talvez, de alguma doença.

Antes do relaxamento, chamei Pedro a um canto e lhe perguntei se se sentia bem. Com a dignidade e a calma de quem transcendeu sua condição terrena, Pedro me respondeu que não, não estava bem, que recebera à tarde a notícia de que sua filha Leopoldina tinha morrido na Áustria.

Tentei entender aquilo tudo como uma brincadeira e meia hora depois estávamos com o pano de boca aberto recebendo os primeiros aplausos. Consegui manter-me discreto e não comentei com os outros a impressão que me dominava.

Nosso desempenho foi um sucesso, apesar do estranho imperador que Pedro representou. Na verdade, sua figura etérea agradou muito ao público.

No fim do espetáculo, corremos todos para os respectivos camarins, pois tínhamos de nos desfazer daquelas roupas para o jantar de comemoração.

Vestido como estava, e com um semblante carregado de tristeza, Pedro despediu-se de nós, dizendo que precisava dormir cedo, pois na manhã seguinte embarcava para Viena.                                         


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POR EM 02/02/2009 ÀS 05:59 PM

Uma história de ratos

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Cida, além de hipocorístico de Aparecida (o nome) pode também ser o radical de origem latina para aquele ou aquela que mata. Herbicida, fratricida e assim por diante. Curioso a respeito da origem das palavras, no meu tempo de escola recebi um prêmio por saber que aquele que mata a esposa é uxoricida. Muito simples: basta saber que “uxore”, em latim, é mulher casada, portanto, esposa. Na verdade meu latim nunca foi lá dos melhores, apesar de não lhe ter inimizade. O que me aconteceu, nessa história do prêmio, é que tive uma sorte que só hoje, e depois de tantos anos, tomo coragem e revelo: uma semana antes tinha encontrado a palavrinha esquisita num texto de cujo teor já não me lembro, e, curioso, corri ao dicionário. Foi um assombro. Recebi muitos elogios do professor e criei fama de filólogo, coisa que nunca fui nem pretendo ser. Ainda mais agora, com essas reformas que se estão propondo para enlouquecer os pobres dos alunos. Alguém por aí entendeu o emprego do hífen? Então, por favor, me ajude.
 
Mas de cida, como radical latino, vamos descambar para assunto mais proveitoso, pois vamos falar de indústria. A casa de meu sogro vem sendo visitada quase todas as noites por uma ou mais ratazanas, que aparecem depois de todos já dormindo e apenas deixam as marcas dos dentes no sabão. Na minha opinião, é uma só. Mesmo assim, os progenitores de minha mulher acharam que não estava certo isto de sair uma ratazana por aí comendo o sabão dos outros.
 
A sugestão de se usar um raticida foi minha e, num instante, estávamos no balcão de uma casa especializada. Meu sogro, cauteloso e previdente, comprou dois tipos de veneno. O primeiro era um tablete meio pastoso e escuro, que deveria, de acordo com o vendedor, ficar amarrado para que o rato não o levasse embora. O segundo era formado de cristais coloridos de vermelho. Uma coisa que a gente até poderia confundir com um açúcar colorido. Eu estava do lado e sou testemunha de que nas duas embalagens vinha a palavra “raticida”.
 
Pois bem, minha conclusão é a de que o radical já não significa coisa nenhuma. Outra hipótese é a de que os produtos industriais já não nos merecem a menor confiança.
 
Explico: uma semana passada, o tablete não foi ao menos farejado, porque não se moveu do lugar nem sofreu qualquer deformação em sua estrutura de tablete. Aquele açúcar avermelhado, porém, vem alimentando a ratazana. Todas as noites meu sogro bota no caminho do pequeno mamífero da família dos murídeos três tampinhas de garrafa repletas do açúcar. Dá-nos a impressão de que se trata da ração adequada, pois o sabão tem ficado em paz e as latinhas amanhecem, invariavelmente, vazias.

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POR EM 26/01/2009 ÀS 07:12 PM

O violinista

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A porta do clube era um clarão de festa sobre o escuro da noite garoenta, quando atravessei a rua muito perpendicular e apressado, pisando por cima de sua umidade. Mal atingi a calçada, o lado de lá, me dei conta de uma certa inflexão familiar naquele som que escapava pelas aberturas do saguão. Não pela melodia, uma ária plangente e bela, executada com bastante freqüência por muitos violinistas. Não. O que me parecia familiar era a execução. Eu conhecia apenas um violinista capaz de arrancar tais soluços das notas mais graves de seu instrumento, que se alternavam com gritos agudos e lancinantes. Em suas mãos, o instrumento tinha alma.

Só então me lembrei de que há mais de seis meses, desde a crise da Orquestra Sinfônica, não tinha tido notícias do Antenor Braga, seu jovem spala. Várias vezes fui visitá-lo no camarim e o encontrava sempre estudando como se fosse aquela sua primeira apresentação. Em minhas críticas no Diário, não me cansava de elogiar o talento que o jovem aliava a um estudo muito sério. Não sei se me culpo a mim ou à vida que levo pelo esquecimento, mas a verdade é que durante este tempo todo muito poucas vezes pensei no meu amigo.

Mergulhei de rosto úmido na iluminação que jorrava do enorme lustre central, com suas cristalinas gotas pingentes, e se intensificava nos grandes espelhos em toda a volta do saguão. Entreguei o convite na porta e entrei, umas rugas de espanto riscando minha testa. Era uma festa de casamento, meu Deus, a celebração de um consórcio amoroso, por que aquela música tão triste, apesar de bela?

Muita gente conversava alegre e distraída no saguão enquanto outros já subiam as escadarias para o salão principal. Ergui meu corpo na ponta dos pés, nem assim, de onde estava, foi possível confirmar a identidade do violinista. Imitação tão perfeita do Antenor era bastante improvável.

Me atirei na corrente dos que pretendiam chegar logo ao salão, movendo-me na direção da escadaria.

De pé sobre o primeiro degrau, Antenor Braga, ele mesmo, recebia com música os convidados para a festa. Traje a rigor, o mesmo com que muitas vezes o vi sobre o palco, em noites de gala. O público sim, o público não era o mesmo. As pessoas passavam roçando pelo violinista, esbarrando nele sem lhe prestar qualquer atenção. Antenor mantinha os olhos fechados, imaginando-se, provavelmente, em uma daquelas noitadas que fizeram sua reputação. Ele não tocava para aquele público, ele os mantinha fora de seu espaço. Ele tocava para si mesmo, revivendo um passado extinto.

Parei em sua frente, horrorizado com o que via, indignado com a crueldade do destino: o maior talento com que cruzei na vida submetido à indiferença de um público que não era o seu. Cravei-me no granito da escada numa tentativa desesperada de proteger meu amigo de corpos mais pesados, com seus ouvidos de arame farpado. Em alguns momentos esqueci com os cotovelos as lições de boas maneiras.

Os últimos convidados subiam a escadaria, a música chegava ao fim. Não aplaudi, não disse nada, com medo do constrangimento. Depois de pendurar os dois braços, Antenor abriu os olhos, como se voltasse de um sonho, parecendo não saber bem onde estava. Olhou em volta, tentando reconhecer aquele espaço tão estranho, até me reconhecer ali, a menos de dois passos. Piscou fundo e firme, e não conseguiu evitar uma ruga, que me pareceu de aborrecimento. Mas não, era pura vergonha o que ele sentia. Com olhares rápidos, cheios de ângulos, examinou os arredores, procurando lugar onde se esconder. Foi o que interpretei de seu visível mal-estar.

Antenor Braga, na minha frente e sobre o primeiro degrau da escadaria, sentiu-se acuado, provavelmente, sem poder evitar-me. Então fechou novamente os olhos e seu rosto foi perdendo a cor.

Fiquei com medo de que o Antenor fosse desmaiar e olhei em volta, procurando alguma idéia de socorro. Com estranha lentidão, ele voltou a segurar o violino entre o queixo e a clavícula, erguendo o arco preso pela mão direita até quase a altura da cabeça. E então parou. Seu rosto de alabastro não tinha mais vida, apesar de sua expressão de sofrimento: os lábios apertados e imóveis, os olhos escondidos e duas rugas na testa. Sua última reação parece ter sido o desejo frustrado de encolher-se, de desaparecer. E então parou.

Ao me aproximar, o corpo todo úmido, mas agora de suor, percebi que ele não podia ouvir seu nome, que eu repetia apavorado. Cheguei a tocar sua mão com meus dedos, que se mancharam de branco como se ele fosse de gesso.

Ninguém por perto que testemunhasse minha inocência, eu não sabia mais o que fazer. Subir para o salão e festejar com os demais, já não conseguiria mais. Avisar ao dono da festa o que estava acontecendo, foi uma idéia que me ocorreu, mas me acovardei, com medo de que me julgassem louco.

O mundo perdeu a solidez e eu, o equilíbrio. Os balaústres da escadaria oscilavam, o clube todo parecia adernar. Pensei que fosse vomitar e me apoiei no corrimão. Eu ainda não tinha jantado e meu estômago vazio não respondeu.

Assim que diminuiu a vertigem, virei as costas e fugi para a garoa escura sem olhar uma única vez para trás.

Já era madrugada quando penso que cheguei a cochilar. Não me lembro de ter fechado ou não os olhos. Tudo era escuridão e esse detalhe não faria diferença. Até aquela hora, levantei-me diversas vezes: para enxugar o suor que me grudava o pijama no corpo, para tomar um analgésico que me aliviasse a dor de cabeça, para tomar um calmante que me livrasse das lembranças da véspera. Talvez tenha dormido meia-hora, pouco mais.

Tomei o café que a empregada preparou com muito barulho e desci para comprar os jornais do dia. Nenhuma nota, alusão nenhuma. Falava-se do casamento, da elegância de seus convidados e da viagem dos nubentes para o exterior. Do Antenor Braga, transformado em recepcionista, notícia nenhuma. Não, não tinha sido uma alucinação, pois se me lembrava de tudo, dos detalhes mais insignificantes.

Corri ao clube. Passava um pouco das nove quando atravessei a rua muito perpendicular e apressado e não foi sem certo gosto de pavor na boca que dei os primeiros passos no saguão. No pé da escadaria, sobre o primeiro degrau, havia apenas um vaso de cimento muito grande, onde uma cheflera solitária não percebeu minha confusão.

Uma das faxineiras passava torta com um balde na mão e pulei na frente dela. Se não tinha visto nada de estranho ali no primeiro degrau. Ela me olhou curiosa, sem entender muito bem minha pergunta, que repeti com novas explicações. Por fim a mulher se abriu num sorriso manso, ah, aquela estátua de gesso. Pois então, o caminhão da prefeitura já tinha levado para o depósito.


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POR EM 10/12/2008 ÀS 10:12 AM

Questão de quantidade

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No mundo em que vivemos tudo se quantifica e só contam os números e tamanhos. E quando se pensa em melhor, não é na bondade em si que se está pensando, mas em superioridade, ou seja, em quantidade de bondade

E cá estamos nós, novamente, preparando-nos para o balanço e a retrospectiva. Além de um exercício de memória, a ocasião deveria ser também oportunidade para exame de consciência. Se nos examinássemos mais, se conversássemos mais com nosso travesseiro, é provável que conseguiríamos melhorar um bocadinho, e, em matéria de melhora, qualquer uma é boa, não é verdade? Pelo menos estaríamos desmentindo esses apocalípticos todos que não param de proclamar o fim do mundo, coitado, em senda descendente e irreversível. Mas não. Nossos balanços são sempre questões de quantidade. Observem o que dentro de um mês, mais ou menos, vai começar a aparecer na mídia, e veja se não tenho razão.

Em 2005 a indústria automobilística produziu tantos automóveis a mais ou a menos do que o ano anterior, mantendo ou alterando a média dos últimos dez anos. Alguém comenta a qualidade dos automóveis? A verdade é que medir qualidade é uma coisa muito difícil, é matéria de filosofia. E é com o auxílio da ciência matemática que geralmente medimos as questões de qualidade, que são filosóficas.

Outro balanço vai dizer que a qualidade de vida das cidades, o IDH, subiu ou desceu tantos pontos, a tanto por cento, podendo-se agora comparar àquela cidade que nos causava inveja, porque a ultrapassamos em 1% de certo índice. Tudo isso é aferido por números. Ah, sim, é uma questão difícil de resolver, questão em que muitas correntes filosóficas se têm empenhado e digladiado, desde Pitágoras. Mas quando se fala de esgoto e seus metros lineares, da saúde e a quantidade de leitos, da educação e das horas de banco escolar, eu sempre fico um tanto frustrado, pois queria mesmo era saber se a população de tal ou tal cidade hoje ri mais do que ria antes, se é mais feliz do que foram seus antepassados; se os alunos, cuja bunda tem lustrado os bancos escolares, vêm saindo mais sábios da escola, suas decisões na vida vêm sendo mais ponderadas, aprenderam a respeitar o próximo, aprenderam lições de amor.

No mundo em que vivemos tudo se quantifica e só contam os números e tamanhos. E quando se pensa em melhor, não é na bondade em si que se está pensando, mas em superioridade, ou seja, em quantidade de bondade.

Não há como um fim de ano para que se descubra tudo isso aí.

Ah, sim, e agora começam as retrospectivas e previsões.

No capítulo das retrospectivas, me parece que a palavra furacão vai ser recorrente. O ano todo viveu muitos furacões, nenhum, entretanto, que se compare ao furacão Wall Street, que promete arruinar a vida humana de todo o globo terrestre. O furacão Obama promete pôr fim à farra dos bancos e das montadoras de automóveis injetando mais bilhões nas mãos deles para que suas brincadeiras não lhes tragam maiores prejuízos. Nunca vi uma coisa destas: o capitalismo não deu certo? Porque chegar de chapéu na mão nas portas dos palácios governamentais, isso não me parece capitalismo.

O Hugo Chaves no se calla, a Europa continua vieja, o Brasil já recebe calotes, e o mundo não pára de girar: em torno de seu próprio eixo e em torno do Sol. Então chegou a hora das previsões, mas isso é coisa de profetas, e já não profetizo mais nem o passado. E como diria aquele delirante Pangloss, vivemos no melhor dos mundos.  


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POR EM 08/12/2008 ÀS 04:42 PM

Abundância de estrelas no céu

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"Da copa da figueira, toda ela uma sombra fresca, então, escorria crepitante a algazarra dos pardais, em que cada pipilo continha uma urgência de registro muito agudo. Como não se visse nem se ouvisse ônibus nenhum desde que o Sol, esbraseado, sumira num incêndio por trás de uns edifícios escuros"

Seus duros pés fincados na plataforma cresciam dormentes de espera. Envolto pela multidão, era quase impossível mover-se do lugar. O reflexo do Sol a meio céu borrava com esplendores, para olhos cansados de ver como eram os seus, o letreiro dos ônibus - o destino que prometiam. Ao lado, de mochila às costas, o menino exibia as habilidades recém-adquiridas, gritando para a mãe o nome de bairros próximos e distantes. Sem exagero de gratidão, porque era inconsciente, Noé valia-se daquela ajuda enquanto se esforçava para mudar a posição dos pés enraizados e presos dentro de botas secas.

O menino gritou Paraíso como um alívio alegre, e a mãe sorriu. Antes que o ônibus parasse, corpos suados disputaram o espaço à beira da plataforma. Entre eles, a mãe com o filho preso pela mão. Noé reparou que ela usava uma saia fina e florida, diminuindo seu peso, então resolveu sentir calor. Com os braços em cruz no peito, pegou a blusa pela borda inferior e a retirou por cima da cabeça. Agora sim, ele respirou, agora seu corpo estava muito melhor. Mas o ônibus já partia e ele começou a sentir saudade do menino que sabia ler e de sua mãe que usava uma saia fina e florida.

Com menos gente na plataforma, Noé começou a observar. Não para distrair-se na espera, que não podia medir, mas porque o mundo se abre ante olhos abertos. Notou que havia uma imensidão de sapatos, quase todos parados na extremidade de pernas ligeiramente abertas. Os mais agitados, ele concluiu surpreso, são os menores e de cores mais alegres. Alguns, como suas botas, pareciam plantados na dureza do cimento: totalmente imóveis. A maioria dos sapatos estavam ou sujos ou foscos, descoloridos. Apenas uns poucos brilhavam como estrelas.   

Mais um ônibus estacionou rangendo suas ferragens, para alegria de algumas pessoas, que passaram à condição de passageiros. A plataforma ficou ainda mais aliviada, e, olhando para a direita, Noé descobriu que, ao lado da rodoviária, havia uma praça. Não muito grande, ele percebeu quase frustrado, mas dominada por imensa figueira cuja sombra cobria todos os bancos e algumas das pequenas aléias de saibro que a cruzavam. Além da praça, os prédios escondiam o horizonte; acima dela, um céu imaculado, azul como um vidro. Estar lá, à sombra, foi um pensamento que lhe ocorreu para sentir-se mais alegre. Mas como descobrir, daquela distância, o destino de cada ônibus?

Resolveu então voltar àquela neutralidade entre a alegria e a tristeza, um estado cinzento com que costumava esperar suas conduções.  

Envolvido com a praça e a sombra de sua figueira, muito mais atento aos fluxos internos, sutis pensamentos, Noé assustou-se ao ver estacionando mais um ônibus. Enquanto devaneava, o mundo acontecia? Teve de afastar-se rapidamente do lugar onde estava para ler o letreiro à testa do coletivo.

Suspirou aliviado: não, também este não lhe servia. Com os braços da blusa cingindo-lhe a cintura, Noé voltava para a mesma posição que ocupara todo esse tempo, mas descobriu, num surto de alegria, que, em alguns dos bancos junto à parede, havia lugares vagos. Meus pés, ele pensou de imediato e sem querer, não precisam continuar crescendo. Já havia pouca gente na plataforma, e a brisa atravessou aquele espaço farejando alguma coisa como numa caçada. Noé esfregou os braços nus com as duas mãos. Esfregou com força e aspereza até sentir que o calor voltava.

Só então, com o corpo largado na tábua lisa do banco, foi que Noé lembrou-se de enfiar os dedos na barba branca. Era seu gesto preferido de meditação. Desde que chegara, muitos ônibus haviam chegado e partido. Nenhum deles, entretanto, com um destino aceitável. Tristeza, Floresta, Penha, Paraíso, Campo Grande, uma lista sem fim, mas nenhum que lhe servisse. Estava no seu direito, portanto, de sentir-se irritado. E isso, apesar de agora gozar as delícias de um assento, sem a necessidade de sentir os pés crescendo desmedidamente.

Quando apontava a soberba frontaria de um ônibus qualquer, Noé levantava-se cheio de esperança e, na beira da plataforma, ficava atento até descobrir que não era aquele o caminho que pretendia. Na segunda ou terceira vez em que isso aconteceu, Noé notou que os reflexos do sol, tão incômodos algumas horas antes, haviam-se extinguido, e ele conseguia ler com facilidade uns nomes que nada lhe diziam. Voltava para o banco coçando os braços, vítimas inocentes de sua irritação.

Da copa da figueira, toda ela uma sombra fresca, então, escorria crepitante a algazarra dos pardais, em que cada pipilo continha uma urgência de registro muito agudo. Como não se visse nem se ouvisse ônibus nenhum desde que o Sol, esbraseado, sumira num incêndio por trás de uns edifícios escuros, Noé pôde dedicar-se por inteiro à escuta do alvoroço com que os pardais ajeitavam-se para esperar a noite. Foi assim que, tendo os olhos desocupados, olhou para o céu, onde surgiam as primeiras estrelas. Naquele momento, observando bem o azul ainda claro, Noé descobriu como é o infinito. E apesar do cansaço, da irritação, ele conseguiu um sorriso satisfeito, pois era uma descoberta feita de inopino, totalmente casual.   

Finalmente apareceu mais um ônibus. E esse já vinha todo iluminado. Do banco, onde há bastante tempo estava sentado, Noé pôde ler o letreiro, que indicava um lugar qualquer, de que ele nunca tivera notícia. Não foi preciso levantar-se para decidir que era mais uma decepção. O ônibus parou, abriu a porta com um gemido e iluminou a plataforma. Algumas pessoas embarcaram com seus suores no rosto e nas axilas, além da certeza de que eram esperadas em seus destinos.

Noé, sentado em seu banco, dois operários encharcando-se de cerveja e cachaça no bar da rodoviária e o balconista, eram os últimos semoventes da estação. Noé sentiu um frio que era muito parecido com uma solidão, por isso tratou de vestir a blusa. Sentindo-se um pouco mais confortável, resolveu pensar em todos os acertos que viera fazendo nos últimos tempos, o modo como se despedira dos seres e das coisas, até chegar ali, consciente de que não havia mais caminho de volta.

Os dois operários atravessaram a plataforma e sumiram noite a dentro, abraçados e cantando com incongruência suas vidas ralas. Foi um vulto só, o que Noé viu, mas eram duas as vozes roucas, deterioradas. A porta do bar desceu com um estrondo e o balconista seguiu as pisadas de seus fregueses.

Com os braços cruzados no peito, Noé ainda gastou os olhos perscrutando a boca da avenida por onde poderia chegar algum ônibus. Esperou muito tempo. A plataforma era um espaço inútil, vazio, preparada para sua espera de toda a noite. Os pardais já dormiam silenciosos. Apenas de raro em raro podia-se ouvir um pipilo perdido, de quem ainda não se acomodou direito. As estrelas, bem mais nítidas agora, desenhavam navios e castelos na planura do céu.

Noé tossiu um pouco, mas apenas para se distrair. Com a mão direita tateou a extensão do banco, encolheu as pernas e deitou-se.


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POR EM 08/12/2008 ÀS 04:29 PM

Na janela do velho sobrado

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"A noite estava distante, além do jardim, por trás do muro, no alto de alguns postes que mal se podiam ver da janela do sobrado. A noite era um silêncio raramente interrompido por um latido, um grito, uma buzina, tudo esmaecido pela distância. No céu, umas poucas estrelas brilhavam e sumiam e brilhavam outra vez entre nuvens que se agitavam esgarçadas"
 
 

Acordou com a explosão na boca e tentou ficar na cama por causa do frio. As vistas viam as estrelas do esforço e mais nada antes de se acostumarem à escuridão do quarto, onde penetrava apenas uma claridade baça através das fasquias da veneziana. Tentou conter a tosse no fundo da garganta, engolida, até quase o sufocamento. Era uma espécie de mão descarnada e com dedos de aço que se apertava em torno de sua cabeça.

Esbugalhando os olhos, que tentavam saltar das órbitas, e com o sangue inchando-lhe as veias do pescoço, Eliseu desistiu do silêncio e soltou novamente a tosse, que parecia nascer-lhe nos pulmões e subir queimando o esôfago até a boca. Então sentiu que algo como um carnegão se desprendia de seu interior e procurava a saída mais próxima. Levantou-se num pulo só e correu para a janela, cujas venezianas estouraram dois tiros secos contra a parede do lado de fora quando as abriu.

A noite fria e úmida bateu-lhe no rosto febril e suas sombras engoliram a massa de catarro e sangue que Eliseu expulsou com ímpeto e raiva.

O alívio veio envolto por uma tontura boa, como um descanso e um copo de água fresca à beira de um desmaio. Inspirar, naquele momento, o ar escuro até inflar os pulmões foi o que reteve Eliseu apoiado no peitoril da janela. A crise tinha passado e agora era imperioso desfrutar o prazer de estar respirando. Era como se estivesse atingindo um sentimento bom, quase uma felicidade: o bem-estar.

A noite estava distante, além do jardim, por trás do muro, no alto de alguns postes que mal se podiam ver da janela do sobrado. A noite era um silêncio raramente interrompido por um latido, um grito, uma buzina, tudo esmaecido pela distância. No céu, umas poucas estrelas brilhavam e sumiam e brilhavam outra vez entre nuvens que se agitavam esgarçadas. 

Uma claridade, então, moveu-se da direita para a esquerda, lenta, e Eliseu ouviu sua respiração ofegante e cava, como se o ar estivesse por demais denso. Era uma claridade branca e de pouco brilho, mancha pálida no rosto da noite. À distância de um braço e envolta em luz, formou-se um busto feminino, cabelos loiros como raios de sol, mas com buracos escuros em lugar dos olhos. Na vizinhança, agitados, os cães uivavam e ganiam sem parar. As mãos de Eliseu grudaram-se no parapeito da janela e seus braços perderam qualquer movimento. Os pêlos do corpo se eriçaram em formigamento. A forma feminina inclinou a cabeça e em voz cava, uma voz que parecia a vibração de um corpo, afirmou, Há quanto tempo, meu amado. Um hálito pestilento envolveu a cabeça de Eliseu, quase a ponto de o sufocar.

Com o mesmo vagar de sua aparição, a claridade continuou seu caminho aéreo até desaparecer. Calaram-se os cães, e um silêncio majestoso, como se a noite estivesse parada, seguiu-se a seu desaparecimento. Nuvens e estrelas, a brisa noturna, nada se movia debaixo da abóbada celeste. Eliseu suava aterrorizado, mas não conseguia forças para afastar-se da janela.

Sol alto, ao descer para o andar inferior e encontrar a irmã e o cunhado, Eliseu não soube explicar a que horas exatamente conseguira dormir. Lembrava-se apenas de que tremera de frio por muito tempo, encolhido na cama, até surgirem os primeiros clarões da aurora para apagar de seus olhos aquela figura envolta em luz.

O cunhado enrugou a testa, com ar de incredulidade, mesmo tendo ouvido o relato da aparição e da frase que Eliseu tentou reproduzir no fundo da garganta: Há quanto tempo, meu amado. Ninguém está livre de uma alucinação, cunhadinho. Ninguém.

Eliseu voltou-se para a irmã, que lhe preparava a mesa do café. Mas ela concordava com o marido. Então toda experiência que foge ao lugar comum, ao ramerrão do dia-a-dia, só pode ser alucinação?, perguntava um Eliseu exasperado ao casal que, involuntariamente, demonstrava enorme indiferença pelos detalhes de seu relato.

O dia estava claro, brilhante, como um desmentido ao terror da meia-noite por que tinha passado o rapaz. Mesmo assim, Eliseu enfrentou o fulgor do dia e foi examinar o jardim debaixo da janela de seu quarto. Rente à parede, um canteiro de sempre-vivas parecia intacto. Nem marcas de pés, na terra fofa, nem galhos quebrados das plantas. Ele se agachava procurando algum vestígio com que comprovar sua experiência. Levantava-se, dava dois passos e agachava-se novamente, sacudindo inconformado a cabeça.

O cunhado apareceu à porta e não conteve a gargalhada. Teu fantasma, ele gritou, era um gigante? Eliseu encarou-o com raiva. Ia responder com uma agressão qualquer, mas preferiu calar-se. Olhou para cima, para a janela como um olho fechado em sua altura e rente à qual tinha passado a terrível figura luminosa, desceu novamente o olhar até o canteiro de sempre-vivas, e desistiu daquela pesquisa estúpida.

Entre os cunhados, era antiga uma relação de ambigüidade, que misturava admiração e deboche. O respeito, que em geral Eliseu nutria pelo marido de sua irmã, oscilava, pendulando, até momentos de profundo desprezo. Mas o sono, conciliado quando os primeiros clarões da aurora entravam pela veneziana, tinha conseguido apagar muito da impressão causada pela visão da meia-noite.

A tosse interrompeu o caminho de Eliseu, quando ele se dirigia à porta onde o cunhado estava ainda com o sorriso aberto. É possível, latejou em sua mente assim que passou a tontura, que eu esteja vítima de alucinações? O cunhado se afastou para que ele entrasse na cozinha, e lhe perguntou se se sentia bem. Eliseu, como resposta, apenas ergueu os ombros, o que não significava nada, por isso podia significar qualquer coisa.

Vítima de alucinações? Impossível, se vira a figura de tão perto, sentira-lhe no rosto o hálito pestilento, se ouvira com tanta nitidez o uivo dos cães da vizinhança. Resolveu, entretanto, não comentar mais com a irmã e o cunhado o que se passara durante a noite anterior.

Logo depois do almoço o cunhado saiu para o trabalho e a irmã ocupou-se com as miudezas de manutenção do velho sobrado. Eliseu caminhou até a sala, com seus móveis arruinados, mas não chegou a sentar-se. Vítima, ele? Deu uma volta, espiou pelo postigo a rua deserta, botou e tirou as mãos nos bolsos, sem saber por quê. De alucinação? Então bocejou com os olhos fechados e descobriu que estava com sono.

Enquanto escalava os degraus da escada, que rangiam sob seus pés, Eliseu ainda se perguntava se era possível uma perturbação mental tamanha que o fizesse imaginar tudo que julgava ter visto e ouvido. E aquele cheiro de pólvora queimada, que o sufocara, poderia ter sido apenas o resultado de uma imaginação doentia? No patamar do andar superior, que apenas uma tênue claridade iluminava, depois de atravessar o vidro fosco e sujo de uma pequena clarabóia, o suor tornava suas mãos pegajosas, e, da testa fria, desciam-lhe bagas de suor até o rosto esquálido.

Preciso descansar, Eliseu pensou abrindo a porta do quarto, porque à noite quero estar bem desperto. E, vestido como estava, jogou-se na cama ainda desfeita, mergulhando na morrinha morna de seu próprio suor.

As pancadas estrondearam sobrado acima, intensificadas pela ressonância da caixa de madeira da escada. Eliseu abriu as pálpebras no escuro, atento. Depois de pequena pausa, repetiram-se as pancadas. Só quando ouviu seu nome gritado pela voz da irmã foi que se localizou. A janta na mesa!, ele ouviu o convite. Então se lembrou de que deitara com muito sono, sem tempo para tirar a roupa com que estava vestido.  

Com a mudança brusca de posição, Eliseu sentiu uma trepidação incômoda no peito, o movimento de alguma coisa que se desprendia e que, em pouco tempo, se transformou numa pressão de dentro para fora, como se todo ele estivesse a ponto de explodir. A tosse chegou-lhe à boca numa explosão já conhecida e ele correu à janela. Desengonçadas, as venezianas espocaram na parede do lado de fora. A noite havia chegado sem o menor rumor, como se nada tivesse mudado. Não teve como evitar a lembrança da visão que tivera na noite anterior, e, mesmo com os cabelos eriçados de medo, ele continuou reclinado sobre o parapeito da janela. Uma aragem fria penetrou no quarto, resfriando o suor que porejava por baixo da camisa de Eliseu, que, ainda tonto do esforço, vestiu uma blusa de lã e sem fome nenhuma desceu para o andar inferior.

Foi recebido com espanto, por causa de seu rosto inchado e o desalinho geral da roupa e do cabelo, por causa de seus olhos parados e lacrimejantes.

Durante todo o jantar, Eliseu manteve aquele mesmo olhar alheado, desatento, como se alguma idéia fixa o estivesse perturbando. Para trazê-lo de volta à mesa da cozinha, era preciso que fosse interpelado várias vezes e com alguma veemência. Quando a irmã e o cunhado o convidaram para assistir com eles à novela, Eliseu respondeu que não, que não estava com vontade e mentiu que sentia um pouco de dor de cabeça.

No quarto, Eliseu ficou olhando o despertador, tenso, concentrado, à espera de que chegasse a meia-noite. Era preciso pôr-se à prova para saber se começava a ser dominado por qualquer tipo de demência.

O movimento dos ponteiros era imperceptível e o cansaço subiu das pernas de Eliseu até invadir todo seu corpo. Tirou os sapatos e recostou-se na cama, convencido de que apenas descansava uns instantes enquanto esperava as horas passarem. Mas não resistiu ao cansaço causado pela tensão em que passara boa parte do dia: acabou adormecendo.  

Acordou bem mais tarde com a sensação de que o peito estava prestes a explodir. Acordou assustado, com a tosse arrombando seus lábios, e correu à janela. No escuro em que se encontrava, não pôde ver as horas, mas intuiu, pelo silêncio da cidade, que se aproximava da meia-noite.

E então tudo se repetiu. A claridade silenciosa em cujo centro flutuava uma figura feminina com dois buracos negros no rosto. Na vizinhança, os cães voltaram a uivar e ganir, apavorados. À distância de um braço, Eliseu percebeu movendo-se uma cavidade em forma de boca e, bem nítidas, as palavras que se articulavam no peito da visão: Minha paciência vai chegando ao fim. E depois de inclinar levemente a cabeça, a figura continuou seu caminho silencioso e aéreo. Esvaecida, a claridade, acalmaram-se os cães por trás dos muros da vizinhança e a noite voltou a ser apenas uma abóbada cravejada de estrelas, algumas luzes tremeluzindo no alto dos postes, e as sombras de árvores e telhados quase indistintos.

A paz, em que parecia mergulhada a noite, contudo, não correspondia à mente de Eliseu, tumultuada pelo desarranjo dos pensamentos.

Algum tempo mais tarde, descobriu-se com menos medo do que na noite anterior, apesar da indiscutível irritação da figura que o visitara. Fechou as duas folhas da veneziana, que bateram no caixilho com barulho morno, trocou de roupa e se enfiou por baixo do edredom.

Quem estava louco, confundindo visão com imaginação?

Não foi um sono tranqüilo, o sono de Eliseu naquela segunda noite de visita da estranha criatura, estranha e desconhecida (apesar de sua cara de velha companheira). Algumas vezes tossiu até acordar, para então enxugar no lençol o suor do rosto e do peito. A nuca encharcada causava incômodo e ele sentia no corpo todo a ardência da febre. Um sono todo entrecortado de sustos e desconforto. Na memória de suas narinas, o hálito mefítico continuava incomodando, mesmo durante o sono.

De manhã, à mesa do café, a irmã e o cunhado estranharam seu olhar vazio e a voz estrangulada com que os cumprimentou antes de sentar-se.

Andou vendo fantasma outra vez?

Nem bem fez a pergunta, o cunhado arrependeu-se porque Eliseu virou para seu lado um rosto que já não habitava entre eles, um rosto opaco, de pele amarelada sem brilho.

Você – e era uma voz que lhe subia dos intestinos antes de ressoar nos pulmões apodrecidos - você brinca com o que não conhece.

Calaram-se os três, ouvindo-se até o fim do desjejum apenas o ruído de lábios a sorver o café quente. E em silêncio o velho sobrado passou o dia, que em tudo pareceu um dia normal, em que se cumpriam todas as rotinas. Os monossílabos obrigatórios do almoço e do jantar não podiam ser contabilizados como conversação. Não era terror, o que o casal sentia para evitar qualquer palavra à mesa. Não chegava a tanto. Mas não podiam escapar de certa sensação de assombro e respeito na presença de um ser humano a tal ponto destruído.

Foi com dificuldade e sentindo-se muito cansado que Eliseu, logo após o jantar, subiu as escadas rangentes para fechar-se em seu quarto. Ao ouvirem o barulho da porta sendo fechada, lá em cima, a irmã e o cunhado discutiram o assunto e chegaram à conclusão de que o estado de Eliseu demonstrava alguma gravidade, e que era necessário procurar um médico, medida que protelaram para a manhã seguinte.

Estavam ainda no primeiro sono, os dois, quando foram acordados por vozes que pareciam humanas que altercavam no andar de cima. Misturando-se ao som de palavras incompreensíveis, ouviram alguém chorando e rindo ao mesmo tempo. Vai, vai, parecia alguém dizer. Então fez-se alguns instantes de total silêncio no escuro do velho sobrado. Na cama, de ouvidos muito abertos, o casal aguardava. Os pêlos eriçados, por baixo dos cobertores, não eram apenas de frio.

Súbito ouviram o baque de algo que cai e um grito rouco decrescendo rapidamente. Depois, outra vez o silêncio, mas um silêncio como que arfante, como se o sobrado respirasse com dificuldade. Acenderam as luzes e, com as mãos unidas pelo suor, escalaram os degraus de madeira desgastados pelo uso e pelo tempo. Além de seus passos hesitantes, conseguiam ouvir as batidas fortes de seus corações.

O marido foi quem, tremendo de espanto, escancarou a porta do quarto. A luz estava acesa e a lâmpada, dependurada do teto, ainda balançava, mas Eliseu não estava mais na cama. Os dois tiveram a mesma e estranha intuição e correram juntos até a janela, inteiramente aberta. As plantas, cá embaixo, no jardim, guardavam o silêncio das estrelas, que se mantinham acordadas na imensidão do céu.  

 

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POR EM 01/12/2008 ÀS 06:04 PM

Terceiro mundo

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Ontem, depois de um susto, entendi por que somos chamados de terceiro-mundistas.

Peguei a estrada, como faço diariamente, e vinha sossegado, sem vontade nenhuma de provar que sou rápido no volante. Pelo retrovisor, percebi que um automóvel se aproximava em alta velocidade, mas já estou acostumado com isso e me mantive na pista da direita para não atrapalhar o tráfego. Às vezes também tenho pressa e detesto quando alguém faz de tudo para que eu chegue a meu destino atrasado. Meu falecido pai repetia com aquela seriedade com que deitava para fora suas verdades: não se faz aos outros o que não se quer que os outros nos façam. Por falar nisso, os pais de hoje não transmitem mais preceitos morais? Caramba, e onde é que os adolescentes vão aprender seus valores?

Mas voltando a nosso assunto. Assim que fui ultrapassado pelo candidato a Fitipaldi (ninguém mais se lembra dele, portanto pode-se substituir seu nome pelo do Felipe Massa, pode ser?), alguém jogou uma lata vazia de cerveja pela janela do bólido que passou a meu lado, quase me arrastando pelo deslocamento do ar, coisa assim de furacão, um tenebroso fenômeno da natureza. Uma lata de cerveja, sem dúvida nenhuma. A velocidade significava uma urgência qualquer? Mais fácil acreditar que era, a velocidade, estimulada pelo álcool. Enfim, a vida de algumas pessoas não vale nada mesmo.

Depois do susto (a latinha chegou a bater no pára-brisa do meu carro) veio a luz. Nós temos o hábito de jogar nosso lixo onde estivermos: no estádio, no salão, no teatro, no parque, na rua. Não escolhemos lugar onde deixar as marcas de nossa passagem. Eu já tive um gato, quando criança. É invejável a delicadeza com que sua patinha dianteira arrasta a terra para cobrir a cova onde esconde seu excremento. Você, leitor eventual e único, entende agora o que pretendo dizer com inveja aos animais?

Lembro-me de uma dessas copas de futebol que acontecem por aí, se não estou enganado, de quatro em quatro anos. A televisão mostrou um grupo de japoneses que torcia, gritava, aplaudia, ou seja, torcia. Eles acabaram aderindo ao esporte das multidões. Terminado o jogo, cada um pegou seu saquinho de lixo, que trazia pendurado à cintura, juntou a sujeira que fizera, e, ao irem-se embora, o lugar ocupado estava tão limpo como antes do jogo. E isso me provoca uma reflexão: nem só os gatos, por seu asseio, merecem nossa inveja. E então pensei: se eles, os japoneses, podem, por que não podemos também?

Meu amigo Adamastor, o catastrófico, me diz que não podemos porque a maioria do povo gosta mesmo é do lixo. E eu ainda não tenho opinião formada sobre o assunto.


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