revista bula
POR EM 14/05/2012 ÀS 09:52 PM

Utopia

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Muitas vezes tenho encontrado a qualificação de fulano ou beltrano como utópico. E isso de maneira pejorativa. Utópico como defeito, adjetivo que condena o pensamento de uma pessoa. Isso acaba mexendo com essa mania de procurar o sentido exato das palavras, mania que teima em não me abandonar. A maioria das pessoas usa as palavras em acepções tão disparatadas que provocam ambiguidades prejudiciais ao verdadeiro sentido pretendido. São famosos os casos de duplo sentido que levaram a algum tipo de desastre. 

Outro dia, por exemplo, ouvi um caminhoneiro atacar um advogado, com quem estava irritado, chamando-o de ignorante. Pelo comportamento geral (e Deus me livre de menosprezar o caminhoneiro como ser humano), o vituperador não teria mais do que três ou quatro anos de escola. Ora, ignorante, segundo o Aurélio, é a pessoa que não tem instrução, que não sabe nada ou sabe pouco. E a pessoa que xingou tanto não sabia o que falava que não sabia o significado da palavra. Só pelo contexto era possível entender que ele não estava querendo significar a falta de conhecimento do advogado. Mesmo assim, parecia muito contente com o que havia dito. Tenho consciência de que a língua não está lá dentro do dicionário, engessada e pura. Ela está na boca do povo, que a usa e transforma. Em gramática histórica não se aprende que são as crianças e os adultos incultos os que, por ignorância, transformam a língua? Noctem não se transformou em noite nos escritos de eruditos. Isso aconteceu na boca dos falantes de menor cultura. 


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POR EM 07/05/2012 ÀS 09:50 PM

Finalmente o frio

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Que me perdoem os leitores se exulto, quase sozinho, com a chegada do frio. Meu amigo Adamastor, que veio do Cabo da Boa Esperança, no sul da África, fica escandalizado com minhas preferências. É que o Sol, este astro rei (caramba! quando é que vamos deixar de ser monarquistas?) torna-se menos agressivo, seus raios nos acariciam em lugar de arranhar-nos. As tardes, menores e mais encolhidas, parecem convidar para conversas menos estridentes, para aquele tipo de prosa em que não se tem pressa de chegar ao fim. Duas cadeiras na varanda, um bom vinho em taças pequenas, e a conversa esticada apenas pelo gosto da troca.

O clima frio exige recolhimento e conduz à reflexão. As longas noites são invadidas pelo estudo, pela leitura, porque o silêncio é companheiro do frio assim como o barulho o é do calor. O mundo exterior mais reduzido estimula o exercício da imaginação. Portas e janelas fechas forçam-nos o olhar para o interior.

E não nos esqueçamos da elegância. Tenho visto, mesmo nos dias mais frios, muita gente com as pernas nuas despejadas para fora dessas bermudas coloridamente ridículas que se usam hoje em dia em qualquer estação, em todos os lugares. As pessoas reclamam do frio, se queixam, mas não abandonam o padrão da roupa sumária, do corpo exposto como se o sol substituísse nossas proteções. O Oswald de Andrade queria que o índio desvestisse o português, estão lembrados? Mas o Oswald de Andrade era primitivista, por isso queria ver-nos sem roupa, esse traço de nossa herança europeia. Claro que sua metáfora referia-se à cultura, entretanto serve muito bem para outro sentido, que são os dias de calor. Elegância, meu caro, para os dias de frio, é o sobretudo, o cachecol, a echarpe de seda por dentro da camisa. O sapato em lugar do chinelinho de dedo.


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POR EM 01/05/2012 ÀS 05:53 PM

Vergonha na cara

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Será que é isso que nos falta? Esse jeito calhorda de rir de tudo, de fazer piada com tudo, de não levar nada a sério, isso tudo seria falta de vergonha na cara? 

O brasileiro lê no jornal que dos seis mil presos pela polícia federal em dois anos nenhum continua na cadeia. Todos eles roubaram, indiscutivelmente, e muito mais do que a galinha do vizinho. O que acontece com eles? Estão por aí, flanando com o sossego que nos falta, a nós, que perdemos o sono se não conseguimos mais pagar as contas rigorosamente em dia. E como reage o público? O brasileiro ri, porque alguém, que não gosta de perder tempo, inventa uma piada sobre o assunto. Pronto, estamos todos de alma lavada. O riso quase sempre nos dá uma sensação de superioridade ou dela resulta. Então, toca rir porque segundo um ditado popular, que deve ter nascido aqui, nesta terra de Santa Cruz, “é melhor rir do que chorar”. Um ditado importante, uma vez que serve de suporte para todo livro de autoajuda. Lembro-me então daquele ministro chinês (se não me engano da agricultura). Lembro-me de sua expressão aguardando o veredicto dos juízes.  Mas antes de ser mal interpretado, declaro-me solenemente contra a pena de morte.  O ministro chinês olhava para os juízes como quem se despede da vida. Uma expressão de vergonha pela má vida que levou. Qual seu crime? Aproveitou-se do cargo para enfiar a mão no dinheiro público. Foi condenado à morte. 


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POR EM 25/04/2012 ÀS 11:10 PM

Vocação de brasileiro

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Estou cada vez mais convencido de que somos um povo cuja principal vocação é a pobreza. Nelson Rodrigues dizia que temos complexo de vira-lata. Mas o assunto dele era outro. E não adianta resmungar, dizendo que tem muito dinheiro. A maior pobreza não tem nada a ver com economia. Apesar de que, em muitos aspectos, seja filha desta. Legítima ou adotiva, suas relações são familiares. 

Vocês já repararam o que faz uma mulher pobre quando não aguenta mais olhar sua sala? Ainda não? Primeiro ela vai ao marido e, gritando, exige que ele arranje dinheiro, seja de onde for, porque ela não aguenta mais olhar aquela sala. Três anos, entendeu? Três anos olhando para a cara da mesma sala é castigo que ninguém merece. Ela chora, ameaça voltar para a casa da mamãe, mas, depois de algumas carícias, relaxa e dorme.

No dia seguinte, o marido sai para o trabalho madrugada ainda. Ela o espera ansiosa o dia todo. Os programas do rádio perdem uma ouvinte, que não consegue se concentrar em nada. Não ouve, não canta, não ri. À noite ele se chega com o nariz escorregando no chão e se confessa imensamente cansado. Só depois de muita insistência da mulher, informa que a situação está difícil, que não pode arriscar perder o emprego, e que, por fim, nem pensar em dinheiro. Ela senta: os olhos nas mãos, as mãos no regaço e assim fica até a hora de dormir. No fim de semana os dois se atracam com os móveis existentes e ao cabo de uma hora a sala é outra. Os móveis foram todos mudados de lugar.


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POR EM 18/04/2012 ÀS 10:36 PM

Um dia, um autógrafo

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Jorge AmadoEu não sabia o que era ser adolescente, naquele tempo. E era um. Também não sabia que o Brasil era o país do carnaval nem onde ficava a Bahia, da qual sabia apenas o nome da capital, Salvador, e seu adjetivo gentílico — soteropolitano. Coisas que a escola nos obrigava a decorar e que o tempo vai preenchendo com significados. No já extinto Colégio Ruy Barbosa, de Porto Alegre, vivíamos de sonhos, cerveja e literatura. Foi o tempo em que me tornei frequentador renitente da Livraria Globo, na rua da Praia. Sentava num dos corredores que havia entre as altas estantes de livros e lia orelhas e contracapas com zelo e método de um beneditino. Um dia uma daquelas estantes me jogou nas mãos uma capa estranha, de Clóvis Graciano, e me fez ler uma orelha mais estranha ainda, falando de um Brasil diferente do meu (paradisíaco, naquela idade), enfim, dizendo umas coisas que a princípio me assustaram. Não consegui sair da livraria, naquela distante manhã, sem levar comigo “O País do Carnaval”, da Editora Martins. Depois do primeiro, tive de ler todos. Com a voracidade de quem acaba de descobrir as cores do mundo. Eu estava tomado, confuso, assustado, perplexo. Mas então é assim, a gente pode escrever estas coisas todas, sobre gente com a nossa cara, sobre cidade com a cara da nossa, sobre um Brasil muito mais real do que aquele com que nos entopem nas escolas? Na medida em que devorava os livros de Jorge Amado, aumentava o deslumbramento, a paixão, que por fim explodiram numa certeza: —  Eu vou ser escritor, foi o que disse quando um dia cheguei em casa. Ninguém riu, nem talvez tenha acreditado. Era tido então, senão até hoje, como um tipo meio desajustado, desses que não devem ser levados muito a sério. 


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POR EM 10/04/2012 ÀS 08:09 PM

Jeito de capital

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Meus poucos e eventuais leitores, muitas vezes contingentes, não devem saber que não moro no Rio de Janeiro. Assim é a vida: somos escolhidos com muito maior frequência do que escolhemos. Moro numa pequena cidade do interior de São Paulo, depois de ter respirado o ar de muitas cidades de diversos estados do Brasil. 

Esclarecido esse ponto da maior importância para o desenvolvimento do assunto em pauta, passemos ao que interessa. 

O Rio de Janeiro perdeu a condição de capital política do Brasil, com a inauguração de Brasília. As futricas ininterruptas a que temos assistido foram cheirar mal no planalto, lá onde a brisa morna não é gentil, e a terra, em se plantando, não dá de tudo. O Rio de Janeiro continua lindo, alô, alô, seu Chacrinha! 

Usufruindo de meu direito a ir e vir, como reza com grande humor nossa Constituição, também algumas vezes na vida fui me sentir capitalista, mas na antiga capital. 

E lá, fazendo minha caminhada diária pela pista do aterro do Flamengo, a impressão que tive foi a de que o Rio pode ter perdido para Brasília o poder político, mas a Cidade Maravilhosa continua sendo a capital da nação. O charme de síntese da nacionalidade, isso ninguém lhe tira. As muitas etnias que nos formam lá estavam. Peles e cabelos de todos os tipos. Feições indiáticas, representando o Brasil Central; olhos azuis vindos do Sul; o moreno da Europa Meridional, afro-descentes (bantos e sudaneses) e até o tipo oriental a gente vai encontrando pela calçada onde todos querem desfilar.  Além disso, o Rio é um verdadeiro monumento histórico ao vivo e a cores. 


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POR EM 04/04/2012 ÀS 06:31 PM

Jargões profissionais

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Há muito não me via tanto tempo preso à frente da televisão vendo jogo de futebol. Imagino que haja uma boa razão para isso, mas que não preciso confessar aqui. Não me agrada muito ser “corneteado”. É assim que se diz?

A gente passa de um canal para outro e parece que não saiu do anterior. Os narradores futebolísticos devem ter feito o pacto da uniformidade. As questões de estilo, raras exceções, são periféricas: não afetam a estrutura da narração. Os poucos bordões existentes não fazem lá grande diferença. Mas o que mais me impressiona é o jargão. Interessantíssimo. Daria um dicionário de expressões futebolísticas, se é que alguém já não andou fazendo isso. 

Não sei se você, meu leitor apaixonado pelo esporte dos ingleses, já observou: um locutor esportivo jamais diz que um jogador machucou-se. Se se pergunta a um jovem (e os jovens são as principais vítimas das precariedades linguísticas, justamente por serem jovens) o que significa “contundido”, ele, mesmo antes de piscar, já terá respondido que se trata de jogador de futebol machucado. Tal é a força do chavão, que dá um sentido específico à palavra. Ninguém mais se contunde: só jogador de futebol.  Outra expressão universalizada é “valorizar a posse da bola”. Um dia alguém de muito prestígio no meio terá usado a expressão, que acabava de criar. Bastou. Hoje, não há mais narrador de futebol que, vendo a bola ficar naquele tico-tico irritante, esquerda, direita, esquerda, direita, sem sair disso, alega que os jogadores estão valorizando a posse da bola. Pode ser medo, covardia, falta de opção, criatividade embotada, pode ser qualquer coisa, eles vão sempre alegar que é certo tipo de valorização. E a expressão, que se iniciou como uma metáfora, meio pobre, vá lá, bem cedo transformou-se numa catacrese.   


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POR EM 29/03/2012 ÀS 06:43 PM

Informação e encantamento

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Nunca entendi a razão por que se juntam pessoas de grupos os mais heterogêneos para ouvir falar de assuntos com alguma especificidade, ou seja, de conhecimento não corriqueiro. Naquela noite fui incumbido de discorrer sobre linguagem literária, assunto que se leva alguns anos estudando para se ter pálida ideia, mas que muitos promotores de eventos culturais supõem passível de ser destrinchado em uma hora, uma hora e meia. E pra qualquer plateia. 

Isso tem ocorrido na minha vida e com bastante frequência. Como o público sai depois de uma palestra dessas eu não sei, quanto a mim, saio suando, com vontade de morrer, mas sem coragem para o ato final. 

Uma dessas ocasiões me deixou marcado. Bastante gente na plateia, para glória e honra dos promotores e angústia do palestrante, que, com cara de pateta, olhava de um lado para o outro tentando descobrir qual o padrão de linguagem a ser empregado. Apresentações e agradecimentos, lá estava eu de microfone na mão ainda enrolando com alguma graça para conquistar o público, até que não deu mais para segurar e o assunto foi enfrentado. A certa altura, ocorreu a lembrança de que alguns exemplos sempre ajudam, pois dão concretude a conceitos por vezes não familiares. Por isso, chamei a atenção da plateia para o que faria: dois enunciados diferentes.  


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POR EM 20/03/2012 ÀS 09:44 AM

Da imortalidade

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Um dos mais antigos sonhos do ser humano é provavelmente o de vencer a morte. E com a morte, o esquecimento. As buscas do elixir da longa vida, da fonte da eterna juventude são a evidência dessa aspiração. O homem inventou deuses imortais, Camões chegou a dizer que em seus versos a bela amada nunca seria esquecida. E realmente, os versos continuam até hoje, mas a mulher amada só sobreviveu em forma de palavras. 

Pois isso que não passa de uma aspiração fantasiosa, entre os acadêmicos é tido como certo. Pertencer a uma academia significa tornar-se um imortal. E batem-se muitos deles, espada em punho, por um lugar no panteão da glória. É preciso conquistar um lugar entre as múmias, entre as muitas outras múmias, para se lembrado pelos pósteros.   

É claro que o termo “imortalidade” deve ser entendido em seu sentido conotativo, apenas uma figura de linguagem. Morte, nesse caso, deve-se entender como esquecimento. A convicção, no caso, é de que o ingresso na galeria dos acadêmicos não vai deixar que o dito cujo seja esquecido jamais. 

Isso tudo não passa de uma pitada de arrogância, combinada com outro tanto de vaidade. Academia nenhuma imortaliza, e se o termo é tomado em seu sentido conotativo, então, o que mais se vê são imortais que nunca pertenceram a academia nenhuma, assim como a multidão de acadêmicos que a caliça do tempo já encobriu.  


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POR EM 28/02/2012 ÀS 06:02 PM

Guardados do sótão

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Saí do teatro emocionado e pensando em escrever alguma coisa sobre a execução da nona de Beethoven. Sou assim: se me emociono as palavras começam a circular nas veias aquecidas. Cheguei a estudar piano até certa fase da adolescência, mas não me sinto competente para emitir juízos a respeito do desempenho de uma orquestra sinfônica. Era impossível resistir ao apelo das palavras que se amontoavam dentro da cabeça e pediam passagem. Por isso, quer dizer, pela opção que fiz pelo outro teclado, este aqui, não passo daqueles conceitos bem genéricos que qualquer amante da música erudita consegue emitir. 

Carregado por esses pensamentos fui parar ao lado do Aldo Obino. Não, você não deve conhecer o Aldo Obino. Mesmo em sua terra ele, como pessoa, não deve ter muitas memórias onde se abrigue. Hoje ele é nome de centro cultural, é nome de sala de jornal, mas no meu tempo de jovem, em Porto Alegre, Aldo Obino era o crítico de música erudita mais badalado da cidade. Era nossa referência. E escrevia no “Correio do Povo”, naquela época o principal jornal do Estado. Dizem que entendia muito e escrevia bem. E nós não perdíamos nada do que ele escrevesse. 

Certa ocasião, venderam-se ingressos para o concerto de Yara Bernetti, pianista de São Paulo e uma das melhores executantes de J. S. Bach a que tenho assistido. Nunca assisti à execução de uma fuga como a dela. Nosso grupo de fanáticos por Bach, que não era pequeno, aguardou a noite de sábado com ansiedade. Os jornais deram a biografia da pianista, a opinião de críticos nacionais e estrangeiros sobre ela, enfim, seu concerto era o que se podia chamar de imperdível. 


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