revista bula
POR EM 30/07/2012 ÀS 10:43 PM

Tudo outra vez

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E não me venham dizer que sou antidemocrático ou alienado, pois não é nada disso. Pelo menos numa opinião de que às vezes desconfio, mas mesmo assim respeito: a minha. Que a nossa democracia está muito longe da perfeição, me parece que não há necessidade de provar: isso é consensual. Ou deveria ser. Mas o que me caceteia, e muito, é a eleição, e eleição não é democracia. Pode ser um de seus instrumentos, mas não é o único. E o problema, em verdade, não é exatamente com a eleição, senão com sua propaganda — a forma como é feita. 

Sofro muito quando começam a passar aqueles caminhõezinhos com alto-falantes. Já não falo daqueles monstros que bombardeiam para todos os lados, atingindo céus e terra, e estremecendo  tanto a litosfera quanto nosso débil esqueleto. Não tenho notícia confiável de sua origem, mas é um negócio que vi pela primeira vez em noticiário sobre o carnaval da Bahia; uma invenção, enfim, para que em lugar nenhum do Brasil se tivesse sossego. Para mim basta o caminhãozinho. Não consigo pensar em mais nada com aquele negócio trovejando em meus ouvidos. Fecho portas e janelas, fecho a casa toda, e não consigo me ver livre do barulho. Então, eu, que amo o silêncio, a música suave, a voz ciciada, ligo a televisão ou o aparelho de som no máximo volume, apenas para selecionar o barulho. Continuo preferindo alguns em detrimento de outros.


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POR EM 18/07/2012 ÀS 09:48 PM

Um bruxo

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Era autodidata, o bruxo do Cosme Velho, mas como entendia da alma humana! Para usar a linguagem da era da tecnologia, ele tinha um entendimento de alta resolução do ser humano. É de se admirar que tivesse uma visão niilista, pessimista, da existência?

Tenho-me lembrado, ultimamente, com muita frequência de Machado de Assis. Sobretudo de seu conto “O Espelho”. As coisas acontecem em nossa volta e, como no conto do Monteiro Lobato, a realidade copia a ficção.   

Alguns dos leitores, infelizmente, não conhecem Machado de Assis, muito menos o conto aludido. Não é inútil, portanto, um resumo. O ideal, é claro, seria a leitura do conto, pois o conto é seu discurso, mas supondo que isso vá demorar a acontecer, ou que não aconteça jamais, não vejo outro recurso senão o resumo.

O narrador do conto, o protagonista Jacobina, desenvolve, em conversa com seus amigos, a teoria de que todos nós temos duas almas: uma interior e outra exterior. Como comprovação de sua teoria, conta a história de um jovem oficial do exército imperial brasileiro. (Técnica conhecida como mise en abyme). Em toda sua família, ninguém, até então, galgara tão alto a escala social. O jovem oficial é o orgulho e a esperança de redenção dos parentes. Só tira o uniforme para dormir.


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POR EM 08/07/2012 ÀS 02:23 PM

Há dias que nem sei

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Havia questões familiares envolvidas em nossa decisão de fugir de São Paulo. Familiares algumas, sanitárias outras. A Capital já era, então (1987), uma cidade estressante. Trânsito, rumor, poluição, violência. A qualidade de vida despencava para patamares inaceitáveis. Vistas ardendo, sistema respiratório comprometido, o medo permanente. Era fácil intuir que se tratava de um processo irreversível.

Um dia, depois de um incidente de trânsito, finalmente decidimos: Aqui não se vive mais. Xingado sem ter culpa, jurei que passaria por cima daquele carro ali ao lado para esmagar sua ocupante. Há ofensas que não podem ser aceitas sem revide, talvez com alguma violência. Era o que eu pensava até o trânsito fluir novamente. Parti para cima sem muita agilidade porque meu carro era velho. Durante dez quilômetros a avenida 23 de Maio assistiu à nossa corrida imaginando tratar-se de alguma competição. Perdi de vista minha vítima e estacionei numa rua sossegada. Braços e pernas tremiam, meu coração dava pancadas nas paredes do meu peito, os olhos ardiam. Alguns minutos mais tarde a civilização começou a retornar. Foi para isso que vivi até hoje, que me preparei, que estudei? Virei fera? A ideia chegou trovejando nas asas de um relâmpago: aqui não fico mais.


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POR EM 03/07/2012 ÀS 04:25 PM

Um libertário

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As crenças e valores mais gerais são formados pela sociedade. Como no folclore, ninguém sabe quem disse algo pela primeira vez. Mas isso um dia deve ter acontecido, pelo menos é a certeza a que nos induz o pensamento lógico. E, se nem tudo que se pode afirmar usando a estrutura lógica é verdadeiro, pelo menos neste caso não há por que discordar da afirmação. E se você, caro leitor, discorda, não vejo razão para que continue a leitura da crônica. 

A transmissão, a conservação e o reforço de crenças e valores, contudo, podem ser localizados. Grandes homens da história, muitos deles, foram e são estrelas-guia, cujo pensamento e/ou comportamento modelam nossa visão de mundo. Representam uma síntese do que a humanidade produziu.  

Na Grande Música, entre 1770 e 1826, existiu uma dessas personalidades que deixaram sua marca luminosa em nosso pensamento e também em nossa sensibilidade. Trata-se de Ludwig van Beethoven, alemão de origem holandesa, que nasceu na cidade de Bonn. Foi um dos maiores gênios do Romantismo musical (como de toda a história universal da música) e, sinfonias suas, como a "Quinta" e a "Nona", há mais de duzentos anos, são das músicas mais tocadas no mundo inteiro. Muito pouca gente do mundo civilizado desconhece aquelas quatro notas (três breves e uma longa) ou a melodia do coral da "Nona", An die Freude, de um poema schilleriano, uma das mais belas odes à alegria de toda a arte universal: o hino da amizade e da fraternidade. 


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POR EM 24/06/2012 ÀS 05:16 PM

Um mar de lama

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Apesar da infâmia cometida no título (os clichês continuam infames?) somos, em geral, um povo alegre e feliz. Adamastor, meu amigo psico-sociólogo, afirma que somos assim por vocação. Uma coisa que ninguém nos ensinou, nem percebemos que somos. Alguns povos estão sempre reclamando, não se contentam com nada, qualquer coisinha, como apropriação indébita da poupança nacional, lá estão eles nas ruas, protestando, enfrentando a polícia, pedindo a cabeça de seus governantes. Eles detestam a paz. Mas voltando aos profundos conhecimentos do Adamastor, podemos dizer que são vocacionados, esses povos, para a infelicidade. São muito provavelmente leitores do Schopenhauer.

Vocês já repararam como somos risonhos? No carnaval, então, aparecemos todos com os lábios abertos e levemente repuxados para as laterais do rosto, o que pode ser traduzido como sorriso. Cantamos, e como cantamos, balançando os antebraços pra cima e pra baixo, os indicadores apontados para o céu.

Estamos tão acostumados com lama que ninguém mais reage.

GetúlioVargas, ex-ditador e ex-presidente dos brasileiros, não chegou a ter notícia de nosso fairplay, qualquer coisa assim como laissez faire, laissez passer. Pior para ele, que descobriu um mar de lama nos subterrâneos do Catete e de vergonha optou pelo suicídio. E olha que o Getúlio nem era chinês. Por que lá, me conta o Adamastor, obrigação de corrupto descoberto é cometer o suicídio. Uma coisa de civilização milenar. Nós, coitados de nós, mal passamos dos quinhentos anos de história.


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POR EM 18/06/2012 ÀS 12:41 PM

Um olhar severo

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Em uma crônica deste mesmo espaço, coisa de alguns anos atrás, comentei quanto tenho aprendido sobre o ser humano pela observação dos animais. Meu amigo Adamastor, o gigante, maliciosamente outro dia disse que tem aprendido muito sobre os animais pela observação dos seres humanos. Mas o Adamastor, quando se pensa irônico, na verdade, torna-se sarcástico. Não importa a direção, qualquer que ela seja, temos de admitir o quanto nos parecemos, todos nós, os habitantes deste planeta. O carbono que o diga.  

Aqui em casa, temos um vaso pendurado na parede da garagem, e nele plantamos duas mudas de tostão, cujos cordões com suas pequenas e gorduchas folhas hoje caem em volta do vaso como uma cachoeira. Pois foi aí que o casal de coleirinhas resolveu construir seu lar. 

Depois de criada a primeira dupla do novel casal (criação em que tive certa participação, modesta, mas efetiva), eles voltaram a ocupar sua casa para repetir a ação que lhes dá continuidade. Primeira constatação: eles sempre criam dois filhotes a cada ninhada, sem jamais enfrentar problemas de espaço em sua habitação. Lá estão, já, dois belos filhotes, com os bicos levantados e abertos toda vez que me aproximo. Não consigo imaginar qual a semelhança entre mim e sua mãe para que me confundam desta maneira. Mas isso não vem ao caso, pois não quero meter-me nas idiossincrasias de meros filhotes. Nesta história quem me interessa é a própria genitora, ou melhor, seu comportamento de passarinha.  


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POR EM 09/06/2012 ÀS 09:16 PM

Um pobre diabo

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Já nem me lembro de meu primeiro celular. Faz muito tempo. Lembro-me de ter resistido à primeira onda, invicto. Não me deixo levar por modismos. Uma das cunhadas, algum tempo depois, chegou contando que, na estrada, quebrou uma roda do carro. Meia hora mais tarde seu marido chegou com um borracheiro, um macaco e uma roda nova com pneu novo. O que podia ter demorado o dia todo, com todos os inconvenientes conhecidos de quem costuma trafegar pelas rodovias, demorou cerca de quarenta e cinco minutos, pouco mais, graças ao celular. 

Mercê dessa história, eu, que passava grande parte de meu tempo nas estradas, não tive mais dúvida: comprei meu primeiro tijolão. Pois nem assim consegui quebrar uma roda do carro. Pra falar a verdade, nem um simples furinho num pneu eu consegui nos tempos em que me arriscava pelas estradas todos os dias. 

Hoje ando bem menos, mas o celular tornou-se um hábito da cintura. Não gosto de me sentir nu. 

O indigitado, entretanto, de uns tempos para cá tem sido o agente de minha humilhação. Quando estou no aeroporto, no shopping ou em qualquer outro lugar público, fico observando como as pessoas normais usam sem parar o aparelhinho. Eles sempre têm alguém para quem ligar ou de quem receber ligação. O tempo todo. Os discretos, escondem a boca com a mão e falam baixinho, mas não param. Outros, menos discretos, levantam o braço livre, desnudam suas intimidades em público, dão espetáculo. Uns não conseguem parar de andar. Tropeçam nas crianças, pisam nos pés da gente, sem parar de gritar. Vão e voltam o tempo todo, muito agitados.  


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POR EM 06/06/2012 ÀS 03:45 PM

Uma brisa gentil

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Não me lembro do tempo que faz, mas pouco tenho certeza de que não é. Estávamos a mangueira e eu dando água às plantas do jardim (naquele tempo era eu quem tomava conta do jardim) quando uma brisa um tanto gentil passou por nós. Passou também pelos ciprestes, e os quatro sacudiram-se saudando a brisa. Então observei os ciprestes e aborrecido pensei que estavam mais ou menos da mesma altura da semana anterior. O mais alto, de dois metros, foi o que mais se inclinou na saudação. Estava a ponto de ficar irritado com tanta morosidade quando tropecei num balde cheio de água e tomei um banho involuntário. 

Minha pressa lembrou-me de uma história contada pelo Adamastor, meu escudeiro importado do Sul da África e que já teve boas relações com o Luís. Qual Luís? Ora, ora, aquele Vaz de Camões, que registrou a historio do Adamastor em “Os Lusíadas”. Voltando ao Adamastor, ele me contou que um amigo seu, texano daqueles de chapéu, foi visitar a Inglaterra. Não muito longe de Londres conheceu um castelo e ficou deslumbrado. O palácio, impondo-se aos prédios menores, o parque, com seus gramados e jardins imensos, tudo era perfeito. 

De volta ao Texas, depois de ter conversado longamente com o dono do castelo, durante um chã ao ar livre, contratou um arquiteto e um agrônomo e os mandou para a Europa. Copiassem tudo, até os mínimos detalhes. Suas ordens foram cumpridas, e o texano reproduziu nos EUA o castelo que conhecera no velho mundo. Até a inclinação da colina, suas ondulações, tudo foi copiado. 


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POR EM 29/05/2012 ÀS 10:09 PM

Uma cena banal

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Não sou do tipo que sente prazer em bater pernas nos corredores de supermercado. Nem física tampouco intelectualmente isso me dá algum tipo de satisfação. É uma das obrigações mais aborrecidas de que fujo sempre que posso. E posso quase sempre. Apesar disso, e por puro espírito de solidariedade, eventualmente acompanho minha mulher às compras. Não faz mal que ela se queixe do meu mau humor, se conseguimos, juntos, reduzir pela metade o tempo perdido entre aqueles corredores gigantescos que ameaçam o salário anão. Parêntese: sou bom na escolha de frutas mercê de minha infância entre sombras de pomares.

Pois foi na saída, no caixa de um supermercado, que minha mulher, empurrando nosso carrinho abarrotado, entrava no brete dos suplícios quando notou a chegada de uma jovem com um repolho na mão direita e um pé de alface na esquerda. Educada no respeito aos semelhantes, a Roseli ofereceu, com um sorriso nos lábios, a dianteira à senhorita das verduras. Eu vinha chegando com o barbeador que havia esquecido e parei observando a cena. Era uma cena banal de urbanismo e civilidade, mas fiquei encantado com o gesto que já esperava de minha esposa.

Quem não esperava tal gesto era a jovem, que, a princípio, e quase irritada, não entendeu o convite, depois passou agradecendo, atrapalhou-se na hora de pagar porque não parava de olhar para trás. Agradecendo sempre. Seu sorriso era de quem acabava de ver uma ave rara, de plumagens longas e vivamente coloridas. Foram segundos, apenas, que ela usou de nosso tempo. Posso ter piscado três, quatro vezes antes de começar o trabalho que me toca sempre: colocar as mercadorias sobre aquela esteira. 


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POR EM 19/05/2012 ÀS 07:48 PM

Uma coisa inútil

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Alguém pode me dizer qual é a utilidade do amor? Até hoje ninguém me convenceu. Ele, o amor, é inteiramente inútil. Como a vida. Não tem utilidade. Ter filhos, amigos, tudo tão inútil como a arte. Uma ideia, esta da inutilidade, que me parece ter comparecido em algum escrito de Kant. Na Crítica da Razão Prática? Não sei. E essa ignorância em assuntos filosóficos me dá coceira no corpo todo. Bem, se não foi o Kant alguém deve ter dito isso, e juro que não fui o inventor.

Penso nessas coisas quando tenho de ouvir umas pessoas dizendo que literatura é uma coisa inútil. Sou obrigado a concordar. Se amigo e filho têm utilidade não são mais amigo e filho, passando à categoria de instrumento. Enfim, servem para alguma coisa.

Apesar disso, continuo lendo, e cada vez com maior paixão. E continuo vivo nem sei pra quê, pois se a vida também é inútil. Essa é uma afirmação perigosa, em alguns sentidos letal, pois há pessoas que não se interessam por coisa alguma que não tenha utilidade.

Pois bem, nem todos tiveram o prazer de ler “Morte e vida severina”, de João Cabral de Melo Neto. Aquele final fabuloso, em que o mestre carpina não consegue justificar por que continuar vivo. “.../mas se responder não pude/à pergunta que fazia,/ela, a vida, a respondeu/ com sua presença viva.” Tinha acabado de nascer um menino.


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