revista bula
POR EM 29/08/2009 ÀS 12:16 PM

Velhas teses sobre o conto

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É o prazer sádico do escritor. Golpear de surpresa. E do leitor masoquista. Sentir ansioso o gosto de receber na pele a chicotada, e depois a morbidez de olhar repetidamente as marcas vermelhas, sangrentas. E lamber-se para saborear o ferro do sangue

Pedro Juan Gutiérrez 

Pedro Juan Gutiérrez

Nos últimos anos me convenci de que o mais importante para escrever um conto, o absolutamente imprescindível, é aprender a não escrevê-lo. Este exercício de contenção e humildade converte-se em tortura para alguém que se crê escritor. E que portanto deve escrever. Há muito deixou de existir — se é que já existiu — o ofício de pensador.

Não há remédio além de submeter-se a esta angústia. É o único modo: guardar silêncio. Pensar. Esconder o conto dentro de si. Não escrevê-lo, resistir à tentação, durante semanas, meses, anos. Esquecê-lo. Fazer outra coisa enquanto isso, vender programas de computador de porta em porta, por exemplo (uns anos atrás aconselharia algo mais clássico, como vender a Enciclopédia Britânica).
Por fim, num dia inesperado, sobrevém um ataque de lucidez e, em meio ao resplendor, percebe-se que aquele espermatozóide de conto, aquela célula microscópica ejaculada há tanto tempo, tomou forma, cresceu, e já é um feto de conto. Um intra-conto. Pronto para sair ao ar e à luz. O senhorzinho reclama independência, liberdade, soberania. E deve-se outorgá-las. Do contrário, provocaria uma rebelião terrível dentro de nós e poderia inocular-nos o vírus da loucura, como aconteceu — para citar um exemplo qualquer —a Kafka, que de tanto conter-se, de tanto esquecer-se, acumularam-se nele tantas imagens que acabou por transmutar-se em paranóico total e essa enfermidade derivou-se em tuberculose. Quero dizer: disfarçou-se, para poder se expressar e para poder acabar com a vida que a continha. Olhe: este risco segue latente para qualquer escritor.
II
Suponho que quando afinal —  vazio de tudo, permeado apenas pela lucidez — alguém começa a escrever o conto, sabe muito bem que o essencial é que o leitor sinta no pêlo o estalo do chicote. Mas não pode ver o chicote. Só lhe deixaremos sentir a picada dolorosa na pele, e ao mesmo tempo escutará o zunido do couro no ar. Mas — insisto — jamais poderá ver o açoite. Nem sequer poderá pressentir onde o fustigaremos. Talvez pense que será nas espáduas, e nós — sarcásticos — lhe desceremos a chibata nas nádegas.
É o prazer sádico do escritor. Golpear de surpresa. E do leitor masoquista. Sentir ansioso o gosto de receber na pele a chicotada, e depois a morbidez de olhar repetidamente as marcas vermelhas, sangrentas. E lamber-se para saborear o ferro do sangue.
Uma só flagelação. Uma chicotada perfeita. Bem dada. Mágica, inesperada. Que o faça despertar de sua letargia, da sonolência cotidiana. Então o leitor dirá: “Oh, vida terrível”. E despertará um pouco, temeroso. Assustado como um cão de rua. Se se logra esse pânico, o conto é excelente.
O melhor elogio que já recebi sobre meu primeiro livro de contos (Trilogia Suja de Havana), me foi outorgado por uma senhora sutil e encantadora, ela mesma escritora deliciosa, creio que basca, chamada María Amezúa e que viveu alguns anos em Havana. Quando lhe perguntei se havia lido o livro, respondeu-me, desviando o olhar e levando a vista em diagonal até uma enorme janela envidraçada onde rutilava a luz infinita e azul do mar do Caribe, tentando respirar porque se afogava somente com minha proximidade:
— Li as primeiras páginas, mas não pude prosseguir.
— Por quê?
— Me dá medo, Pedro Juan. Me assusta.
Passaram-se os meses e compreendi que era verdade. Não só temia o livro, mas também minha presença. Me temia, me rechaçava, me evitava. Faltava-lhe ar quando me via. Às vezes nos encontrávamos em algum lugar onde teríamos que permanecer por algumas horas, e então era gritante. Fazia todo o possível para evitar que nossos olhares se encontrassem, e assim não teria que cumprimentar-me nem mesmo com uma inclinação de cabeça. Eu percebia que María Amezúa — e este é seu nome verdadeiro — tinha medo. Sentia-se enojada com minha presença. Possivelmente, quase com certeza, me odiava. Me odeia por haver escrito esse livro que jamais poderá ler porque lhe queima as mãos.
Oh, María, bendita és tu entre todas as mulheres. Este é o leitor-perfeito. O não-leitor. O Leitor impossível. O leitor capaz de retraduzir o livro de volta à realidade e acreditar de pés juntos no truque mágico que se realiza diante seus olhos. Não percebeu que eu escrevi um livro com a mão direita, ante seus olhos verdes (María Amezúa tem uns olhos verdes, verdes, verdes. Verdes como a água), enquanto executava com a esquerda o truque imperceptível.
Aspiro a esse leitor. Aspiro modesta, humildemente, a ter — ao mesmo tempo — seis mil milhões de leitores como María. Paralisados. Tensos. Temerosos diante do meu chicote.
III
Para chegar a esta chicotada perfeita, a melhor via é aquela utilizada pelo arqueiro zen. Este bom senhor se esquece do alvo e lança sua flecha. Mas sabe que vai acertar o centro. Está seguro disso e sabe que sua flecha chegará, sem errar um centímetro. Jamais pensa no branco do alvo. Apenas coloca o pensamento na flecha que tem em suas mãos, em uma corda tesa, em um arco que se dobra, em seus músculos que endurecem. E no ar. Há uma flecha que sulcará o ar zumbindo. Uma flecha que cortará o ar de um talho, com uma graça perfeita. Uma flecha que será disparada até o lugar ideal.
Para consegui-lo, o arqueiro tem que ser o tipo mais humilde da terra porque precisa esquecer-se de tudo. A única coisa que o interessa é sua flecha. Isto é tudo que existe neste instante. Uma flecha e um pouco de ar e o cérebro em branco. Fora desses elementos, todo o resto é um excesso incompatível com seu ofício mágico de arqueiro zen.
IV
Deste modo o texto final não se esgotará jamais. Será sempre capaz de gerar leituras diferentes, até o infinito. E esta deve ser a aspiração máxima de um escritor: fabricar máquinas geradoras de interpretações. Construir mecanismos tão meticulosamente perfeitos quanto um relógio suíço clássico e que provoquem milhões de leituras novas. Uma para cada leitor. Algo novo sempre, a cada vez que se leia. Este é o conto ideal.
Assim é quando a flecha faz mira perfeita. E repete sempre, com cada leitor, seu golpe mágico, a chicotada estalante na dura, cínica, desconfiada, escamosa pele do leitor, que espera, adormecido como um crocodilo, que alguém lhe espete violentamente para sentir-se vivo em meio ao pântano de miasmas pútridas em que às vezes se transforma a vida.
Sempre se pensa que um bom escritor é, no fim das contas, como um bom mago que assombra seu público com truques que parecem impossíveis. Mas ninguém jamais poderá descobrir quando ou como os executa.
Por isso me causam riso os livros e os cursos e oficinas para “ensinar” a escrever. Houdini mostrou alguma vez como conseguia escapar a tempo das correntes e cadeados, saía de um baú hermeticamente fechado no fundo do porto de Nova York e chegava à superfície nadando? Jamais teve um discípulo! Tampouco teve ajudantes, pois teria que assassiná-los sistemática e regularmente para que não revelassem os embustes que ajudavam a realizar. Houdini era um asceta, um ermitão, um solitário, um monge, um escravo de sua arte incomparável e fabulosa. Fez o que tinha de fazer: morrer enquanto executava um de seus truques e levar seus segredos para a tumba. Algo digno de um gênio.
Assim fazem os grandes escritores: deixam um livro inacabado e levam seus segredos para a tumba. Ninguém pode ensinar a escrever. E não é que os grandes escritores não o queiram ou não sejam generosos e nobres. Não. Trata-se simplesmente de que não podem. E a realidade é que não sabem por que escrevem tão bem. Nem mesmo imaginam.
Claro, isto ninguém reconhece. Em um mundo tão racional e pragmático é impossível, é inacreditável, que alguém diga tranqüilamente “Não imagino como escrevo, nunca me perguntei sobre isso”. Perderia credibilidade, imagem e tudo isso que o espírito mercantil da época pôs em moda.
Mas os verdadeiros escritores sabem que afinal tudo é obscuro e instintivo. Que não existe uma poética particular, nem uma filosofia da composição, nem decálogo de nada. Tudo acaba no mundo tátil das obsessões. E que talvez a única verdade seja que todos fabulamos. Todos, desde crianças, fazemos histórias, as inventamos, as exageramos, as multiplicamos, nos divertimos dizendo mentiras, enganando, adornando a verdade, dizendo uma parte e escondendo outra, de acordo com nossa conveniência. E tudo obedece a uma razão simples e óbvia: o homem é um animal fabulador que precisa dos mitos e da magia e que precisa comunicar. Mas a muito poucos ocorre escrever alguma dessas histórias que contamos uns aos outros. Escrevê-las significa passar-las do ar para o papel, da memória para um código de signos. Este traslado, esta tradução, é o que o escritor tem que aprender a realizar. E tem que aprender sozinho. Terrível, mas certo. Se tiver sorte, alcançará a vida. Do contrário, perderá todo seu tempo tentando aprender. E jamais conseguirá. Sinto ser tão cru, mas é a verdade. Não há outro modo de dizê-la.
 

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POR EM 01/08/2009 ÀS 11:59 AM

Kerouac nunca fez isso

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“Pornopopéia” é o solilóquio solipsista de Zeca, um cineasta falido que se pendura no rótulo de “maldito”, provavelmente para justificar sua, digamos, ineficácia artística — é o cineasta-de-um-filme-só.  Anti-herói, semi-poeta e bandido inadvertido, Zeca tem o dom de causar consequências e uma sorte inacreditável para escapar das mesmas, sem ilusões de redenção e sem deslumbramentos

Capa de Pornopopéia/Reinaldo Moraes

Aquela velha conversa: existem por aí umas seis ou sete histórias pra se contar, que repetimos através dos tempos e das formas (perguntem ao Carlos Augusto Silva, ao Ademir Luiz ou aos Formalistas Russos, eles sabem disso melhor que eu). Homero, se é que existiu, é a pulga milenar atrás da orelha de todos os muito-originais que aparecem por aí. Porque o resto é tentativa, pastiche. E há pastiches e pastiches. Reinaldo Moraes, autor do cult “Tanto Faz” (Brasiliense, 1981; Azougue Editorial, 2003) cometeu um dos mais descarados pastiches da Odisséia. Descarado e perigoso. “Pornopopéia” (Objetiva, 2009, 475 págs., R$ 54,90) carrega um risco de contágio. Se você, leitor, é dado às mesmas bandalhas do narrador-protagonista, pode acabar terminando o livro em Porangatuba, Jaipur ou Passárgada — ou na delegacia mais próxima.

Trata-se de uma odisséia às avessas, com direito, entre outras coisas, a uma Circe hinduísta com sotaque de telemarketing, transformando pessoas em porcos lúbricos num porão cheirando a chulé e incenso, num “surubrâmane” ao som da cítara psicodélica de um Hermes disfarçado de Alberto Marsicano. Poderia dizer, sem muito erro, que é uma epopéia beatnik. Mas não é tão simples. Reinaldo Moraes atualizou os beats, os trouxe ao século 21. Ou melhor: deixou Kerouac comendo poeira.

“Pornopopéia” é o solilóquio solipsista de Zeca, um cineasta falido que se pendura no rótulo de “maldito”, provavelmente para justificar sua, digamos, ineficácia artística — é o cineasta-de-um-filme-só.  Anti-herói, semi-poeta e bandido inadvertido, Zeca tem o dom de causar consequências (alguém aí se lembra do Sérgio Sampaio?) e uma sorte inacreditável para escapar das mesmas, sem ilusões de redenção e sem deslumbramentos, sem vagabundos iluminados e sem bandidos angelicais. Não há um único personagem de “Pornopopéia” que não seja tanto ou quanto filho-da-puta (os sensíveis me desculpem, mas não há outro termo —malandro é malandro, mané é mané e filho-da-puta é filho-da-puta, e pronto).

Eu poderia dizer que Reinaldo Moraes é um Kerouac desiludido ou um João Antônio sem compaixão (se é que João Antônio se interessaria por algum pingente da baixa classe média além dele mesmo), não fosse o estilo tão próprio, a “assinatura”, como disse Marcelo Mirisola em resenha publicada no “Congresso em Foco”. Além dos trocadilhos, dos neologismos, dos haicais “rasteiros” e das tiradas proto-filosóficas (um caqui metafísico que ameaça a existência objetiva de Zeca, por exemplo) que já marcavam “Tanto Faz”, “Pornopopéia” está recheado de um coloquialismo praticamente naturalista, com achados surpreendentes, num ritmo cocainado (Zeca é adepto da cafungagem), arrastando o leitor consigo. E há ainda uma ironia e uma auto-ironia permanentes — alguns chegaram a chamar “Pornopopéia” de “machadiano”. Zeca, ou Reinaldo Moraes, não perdoa nada, nem a si mesmo ou seus semelhantes; aliás, como em “Animais em Extinção”, do supracitado Mirisola, os coadjuvantes são parte da fauna boêmio-literária paulistana. Moraes disse em entrevista que “gosta de personagens com CEP”, e, aparentemente, tem o bom (ou mau) hábito de dar nome a quase todos os bois, sem afagos e sem se deixar tolher por acordos ortográficos ou patrulhas do politicamente correto.

Mas o principal no novo romance de Reinaldo Moraes é a “aberração” literária que representa. Uma questão de gerações. “Tanto Faz” foi publicado em 1981; época de abertura política e consolidação do desbunde; década (75-85) que fez possível, no Brasil, a tradução de Bukowski, Fante, Pavese, Burroughs, Bataille; que possibilitou a publicação de Márcia Denser, Caio Fernando Abreu, de “O Verde Violentou o Muro”, de Ignácio de Loyola Brandão, de “Um Copo de Cólera”, de Raduan Nassar. É a apologia do ócio e — pourquoi pas? — de uma leveza poética, de um hedonismo tranqüilo contra “a sordidez do conteúdo desses dias maquinais” (Sérgio Sampaio, de novo). Desde então, vieram o isolamento e o tédio dos anos 90 e a paranóia do começo do século, onde ainda estamos imersos. No caminho, surgiram pelo menos mais duas gerações de escritores, muitos dos quais, diga-se de passagem, afirmam ter sido levados à literatura pela “histórica” coleção da geração de Reinaldo Moraes, a Cantadas Literárias, da Brasiliense. Ricardinho, narrador-protagonista de “Tanto Faz”, passou por tudo isso e encontrou-se acossado pela AIDS, pela polícia (só não tem medo de polícia quem nunca tomou um baculejo), pela violência urbana e pela caretice da moral neo-petencostal reinante. Trinta anos depois, duas gerações de escritores depois, como explicar que somente o próprio Reinaldo Moraes, já quase sexagenário, conseguiu atualizar e levar até as últimas conseqüências a experiência de “Tanto Faz”? Aqui do subterrâneo do meu ineditismo, tenho (temos) que encarar aquela verdade do Pedro Juan Gutiérrez: “Estamos com muita fome e emagrecemos a cada dia.” E não estamos fazendo nada a respeito. Duas gerações: Vladmir e Estragon. Felizmente ainda temos um Reinaldo Moraes pra chutar o balde blasé dum “tanto faz” e entornar um bom e sonoro “foda-se!”. Até quando?

Leia o primeiro capítulo de Pornopopéia.

 


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