revista bula
POR EM 28/01/2013 ÀS 03:27 PM

Farpa

publicado em

Ela pousou a testa no meu ombro e eu senti seus cílios encostando na minha pele e a abracei bem forte para ter certeza de que ela não iria embora outra vez como nas outras vezes em que acordei e o lençol macio roçava meu corpo como uma farpa e eu tentava lembrar o sonho que eu tive com ela pelo menos um sonho mesmo um pedaço de sonho mas nada e só havia a foto onde ela parecia séria demais os óculos de grau e tartaruga os cabelos desalinhados a mesma boca que conheci tantos anos depois a mesma boca o retrato era tudo que eu tinha e eu tentava não chorar quando olhava pra parede o durex amarelado o rosto sério demais o casaco enorme para um corpo tão pequeno mas quando foi mesmo que ela foi embora se ao menos pudesse saber porque talvez sentisse um alívio um pequeno alívio esbarrando naquela dor claro que a culpa foi minha eu não tinha sensibilidade suficiente é isso eu não tinha sensibilidade suficiente para ler os pensamentos que faziam dela o meu amor ela era o meu amor e talvez o que eu sinto por ela tenha nascido dessa incompreensão — quem é essa mulher que me olha tão fixo a espera de respostas foi isso que eu pensei no bar enquanto ela bebia água sem gás as franjas irregulares minha boca à espera de um beijo e ela chegou tantas vezes sem malas sem roupas de frio naquele inverno úmido demais aquele gelo e nunca mais e eu acordo e durmo e tomo pílulas que me ferram por dentro olho a porta na certeza do meu amor chegar carregando seus livros suas canetas os óculos de grau e tartaruga e nem um bilhete alguma coisa que eu possa ter além da foto onde ela aparece séria demais e essa chuva na janela o último beijo que eu nunca lhe dei e os dias passam e eu durmo e acordo durmo e acordo durmo.


leia mais...
POR EM 11/01/2013 ÀS 05:42 PM

Quatorze

publicado em

Todas as mulheres deveriam ter quatorze anos.
Nelson Rodrigues

Fotografia: RevolvverComo era mesmo o nome dela? Lembrava da saia do colegial, dobrada na cintura para parecer mais curta, até a madre superiora aparecer do nada, “Desce a saia, arruma as meias”. Quantos anos ela teria? Quatorze. Os cabelos quase lisos desciam até os ombros, quando não estavam presos num rabo de cavalo com elásticos que ela conseguia no almoxarifado. O servente oferecia canetas, apontadores, cadernos pautados, elásticos, qualquer coisa que ela pedisse. Devia ser por causa da saia dobrada ou dos olhos castanhos amendoados. Os cílios. Em lugar do sutiã, usava uma camiseta sem mangas e, encoberta pela camisa da escola, uma medalhinha num cordão de ouro. Como era mesmo o seu nome? Ela carregava os livros e cadernos junto ao peito, antes de começar a usar fichários. Sua letra era apressada, abreviava as palavras ditadas pelo professor de ciências, mordia a ponta do lápis, fazia círculos na última página do caderno, espirais, estrelas. Eu me sentava atrás dela, ainda usava bermudas e meu rosto era coberto por um óculos de grau e meia dúzia de espinhas. Garotos assim apenas admiram e se apaixonam. E eu olhava pra ela na fila da cantina e depois quando jogava pingue pongue, a raquete e o sanduíche que ela comia pelas beiradas, virando o pão em sentido circular, hábito que, por ela, acabei adquirindo por toda à vida. Não era boa aluna, mas não acumulava notas vermelhas. 


leia mais...
É permitida a reprodução total ou parcial sem autorização prévia dos editores, desde que citada a fonte.
© Copyright 2017 — Revista Bula — Literatura e Jornalismo Cultural — seutexto@uol.com.br
wilder morais
renovatio