revista bula
POR EM 30/09/2011 ÀS 03:21 PM

Teatro da crueldade

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Antonin ArtaudDá prazer e ânimo saber que o escultor e adorador da natureza Frans Krajcberg continua criando intensamente aos 90 anos. Ele e Franz Weissmann, que morreu em plena criação aos 94 anos, sempre foram considerados loucos, escaparam dos hospícios onde a sociedade manda enjaular seus mais geniais artistas.

Krajcberg vive numa casa construída sobre uma árvore e os vizinhos da região de Nova Viçosa recomendam “não mexer” com ele porque é no mínimo temperamental. Esta é a palavra, temperamental, que a sociedade encontrou pra rotular os que antes ela chamava loucos e estrangulava nos hospícios. Ainda os considera assim, mas atualmente foi enquadrada na lei do politicamente correto e tratou de arranjar outros nomes pros loucos que ela despreza como desprezou e “suicidou” Van Gogh, Nietzsche, Baudelaire, Artaud... Sou da mesma família desses loucos, apenas sem o gênio deles, sempre fui catalogado como louco por não respeitar certas normas sociais obrigatórias. Houve uma época em que fui psicanalista de consultórios montados no Rio e Petrópolis que “justificavam” qualquer loucura que eu cometesse. Diziam: “É doido assim porque todos os caras que trabalham nessa área psi são malucos mesmo” — e tudo ficava seguro, bem explicado - o velho clichê da classe média passiva e acomodada que explica comportamentos que ela desconhece ou não concorda e os classifica como loucura. 


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POR EM 16/11/2010 ÀS 04:56 PM

Hippies e Yuppies

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O musical "HAIR" acaba de estrear no Rio de Janeiro. Ainda não assisti essa montagem, mas vi trocentas vezes a primeira nos anos 70, era amigo de um monte de atores que trabalhavam na peça como o Armando Bogus, Sônia Braga, Laerte Morrone, começava a fazer teatro e ia assistir de graça umas três vezes por semana por puro deleite de ver tão claramente exposta a ideologia da minha geração sobre o palco. Era ideologia, não era moda. As ideias de "HAIR" causaram tanto medo aos poderosos do mundo inteiro que chegaram a inventar um sistema de créditos nas universidades pra nos dividir, não permitir que as mesmas pessoas se encontrassem nas mesmas turmas por anos a fio e pudessem se articular. Amizade e convivência eram um perigo. Cada um fazia seus créditos em turmas diferentes e isso prevalece até hoje. Mas primeiro tentaram nos reprimir e amedrontar de todas as formas conhecidas. Foi “HAIR” que deflagrou tudo isso porque pregava a desobediência civil de diferentes maneiras conforme o País onde viviam os jovens. Nos EEUU eles se recusavam a alistar como soldados pra guerra do Vietnã. Queimavam seus documentos em praça pública.

As músicas de "HAIR" traduziam exatamente nossa filosofia de vida e a mais conhecida e amada delas "Era de Aquarius" tem versos que nos definiam: "Olhos cheios de esperança e um amor que não se cansa na madrugada da Era de Aquarius" — uma coisa linda demais que nos fazia crer que íamos, finalmente íamos, mudar o mundo senil e doido em que vivíamos. O espetáculo era uma porrada na cara dos caretas hipócritas, mas eles lotavam os teatros durante meses e meses, abismados com o que viam, as cores, a desobediência às normas estabelecidas, a nudez coletiva, os temas, os beijos na boca entre pessoas do mesmo sexo. 


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POR EM 28/10/2010 ÀS 07:39 PM

Busca insana

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O IBGE recentemente liberou uma pesquisa que prova que a taxa de separações e divórcios de casais atingiu o maior patamar desde 1995. Mas os casamentos também aumentaram quase 4% em relação ao ano anterior. Não sei o que isso significa, deve ser o direito que todos temos de tentativa e erro em busca da felicidade, esse estado de espírito abstrato e hipotético e que é incentivado por todos os meios de comunicação — é preciso ser feliz imediatamente. Para isso as receitas são as mais variadas e os modelos de pessoas que supostamente atingiram esse nirvana estão espalhados por toda parte. Mas, por uma estranha ironia, ser feliz está quase sempre associado a ter...dinheiro, bons empregos, status social, beleza, bens como casa própria e carros, nível superior, acesso aos mais elevados e caros produtos, etc... 

E tudo isso num País de quase 200 milhões de pessoas onde a maioria navega em tábua fina sobre o mar, desassistidos nas suas mais básicas condições de sobrevivência, aquelas capazes de dar alguma dignidade ao ato de viver. Nada contra procurar ser feliz sendo pobre, muitos conseguem exatamente por isso, não tendo que se dedicar a administrar coisas alheias à vida, mas os orientais afirmam que a felicidade é também produto da comparação. Percebe-se que é feliz quando se vê o mundo e se compara às tragédias que outros vivem. Pode ser. A doença que nos acomete incentivada pelos meios de comunicação é a tal busca da felicidade a qualquer preço, a insanidade de passar sobre qualquer coisa, pagar qualquer preço  pra ter o direito de experimentar os prazeres que dizem que podem nos fazer felizes.


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POR EM 24/09/2010 ÀS 10:31 AM

Tenho medo

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Outro dia recebi um artigo que um amigo escreveu no ‘Diário da Manhã’ sobre as homenagens que uma Academia Goiana de letras ou qualquer coisa na mesma linha prestou a dona Amália Hermano que eu conheci quando cheguei do Rio. Ela cuidava de orquídeas, mas andava desanimada com sua arte. Comprei uma obra dela que reclamou muito de como os goianos ignoravam suas esculturas. Não se sentia valorizada aqui e me dava conselhos sobre minhas expectativas de voltar pra minha terra pra fazer arte. Achava que eu ia me decepcionar. Acertou na mosca: nunca me senti valorizado aqui como o era no Rio ou ainda o sou em outros países como Portugal e Espanha. Queria ser amado e valorizado pelas pessoas da minha terra. 

Já criei a partir de Goiânia mais de 25 espetáculos e continuo tendo que lutar mês a mês pra conseguir pagar continhas de água, luz, telefone e há meses em que meus irmãos pagam por mim — uma vergonha indescritível, mas que escancaro aqui pra que o leitor saiba um pouco mais sobre o assunto que pretendo abordar. Em 2002 estreei uma adaptação que fiz de dois contos incríveis de Gil Perini e intitulei o espetáculo de 'Voar...' que jamais levantou voo nesta cidade, mesmo tendo feito temporada de um mês num Teatro de 600 lugares em Lisboa, sempre com casa cheia, críticas fabulosas, público emocionado nos debates pós-espetáculo e depois ser assistido com casas cheias no Porto e Coimbra. Aqui já tentei quatro temporadas do mesmo espetáculo e o dia que mais tive público eram 27 gatos pingados. Quem é humilhado assim sabe com precisão certos detalhes da bilheteria. Hoje compreendo exatamente na pele e no coração o que conversei com dona Amália naquela tarde. Os intelectuais daqui que participam de academias adoram homenagear, vira e mexe homenageiam alguém que foi literalmente ignorado em vida. 


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POR EM 30/08/2010 ÀS 09:11 PM

A segunda chance

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Li outro dia num site sobre animais uma coisa que me deixou perplexo de susto e descoberta: li que a águia é uma ave capaz de viver 70 anos. São muitos anos para uma ave, nenhuma vive tanto tempo. Mas por volta dos 40 anos a águia tem que tomar uma difícil e fundamental decisão, porque nessa idade suas unhas cresceram tanto e estão tão compridas e flexíveis que ela já não consegue mais caçar suas presas e sabe que vai acabar morrendo de fome antes de chegar aos 70 anos que poderia completar.

E mais: seu bico que já é alongado e pontiagudo cresce tanto que fica curvo e as penas das asas se tornam tão grossas e pesadas que ela já nem consegue mais voar com a leveza de sempre. Então só lhe sobram duas alternativas: uma é deixar-se morrer pouco a pouco, conformada em ir perdendo a majestade sem voar direito e sem poder caçar. A outra é enfrentar um dolorido processo de renovação que as águias conhecem muito bem e que pode durar mais de 5 meses.  As águias envelhecidas voam até o paredão de uma montanha bem alta, se recolhem e se ajeitam num ninho de onde elas não precisarão voar. Quando encontram esse lugar elas começam a bater o bico com extrema força sobre as pedras da rocha até conseguirem arrancá-lo dolorosamente. Daí então ficam quietas pra não gastar energia porque vão ficar sem comer um bom tempo esperando um bico novo crescer. Ele cresce, fica novamente forte e com o novo bico elas começam a arrancar suas próprias unhas pra que caiam e cresçam também novas. Da mesma maneira, com o bico novo elas começam a arrancar as velhas e grossas penas que tornaram seu voo pesado, espera que cresçam e aguarda o grande momento em que, finalmente, vão poder se atirar do alto da montanha pro seu voo de renovação.  Aí, sim, elas sabem que poderão viver mais 30 anos. Claro que algumas águias preferem morrer que enfrentar esses meses todos de recolhimento, fome e dor.


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POR EM 03/08/2010 ÀS 12:13 PM

Roda gigante

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Conheço muitas pessoas trabalhadoras, artistas, pequenos empresários pagadores de altos impostos, atores que lutam dia e noite pra conseguir uns trocadinhos nas leis que eles chamam de incentivo à cultura.  Enfim, conheço muita gente que vive o dilema de saber se não escolheu a profissão errada porque vê todos os dias que a única coisa que facilita a vida financeiramente neste País — e não provoca dilema — é ser político ladrão.

Para eles é uma maravilha serem eleitos e se transformarem em ladrões. Há no Brasil todas aquelas leis, mordomias e proteções para não permitir que sejam presos e obrigados a devolver o que roubaram. Têm a garantia de ter suas fotos estampadas em grandes dimensões nos jornais, imagem exposta nas TVs por mais de 10 minutos, e isso por baixo, porque há ladrões que conseguem ficar no ar quase um telejornal inteiro e em horário nobre.

Para os artistas honestos, conseguir uma foto em branco e preto de algum dos seus espetáculos numa terceira página carece uma batalha com a editoria do jornal, ir pessoalmente à redação das TVs e mesmo assim é comum que alguns na redação encarem como se estivessem fazendo um grande favor ou prometem e ignoram em seguida o pedido pessoal.


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POR EM 17/07/2010 ÀS 09:01 AM

Amenidades

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Grandes polêmicas fizeram o mundo caminhar, evoluir e quem quiser saber mais é só ler a “História das Civilizações”. Polêmicas levam o homem a pensar, a ponderar, a desenvolver-se criticamente, a libertar-se dos comportamentos que as grandes massas de carneirinhos obedientes estabelecem como regra. Só as polêmicas são atraentes. O resto é corriqueiro e tedioso, mesmo quando são questões que propõem algo de novo pra se matutar e ângulos novos de um mesmo tema.

Mas polêmicas hoje são evitadas de qualquer maneira. Primeiro, pelos meios de comunicação que são os primeiros formadores de opinião: TVs, jornais, revistas, rádio —  todos eles têm pânico de assuntos polêmicos que, acreditam, podem trazer-lhes problemas jurídicos. Só amenidades são liberadas e incentivadas. Claro, o resultado disso é que quase todos os meios de comunicação são iguais, tediosos, repetitivos, acomodados, sonolentos, evidentemente medrosos nos cuidados com que jornalistas e apresentadores são orientados no que escrevem e falam.

Agora se controlam até os artigos com opiniões pessoais que antes eram respeitadas e das quais os jornais se eximiam naturalmente de responsabilidade, mas publicavam. Só o óbvio nos debates previsíveis gravados e editados que são revelados às massas nas TVs e, quando são debates ao vivo, estabelecem-se tantas regras e normas de censura que o que um fala é praticamente igual ao que os outros dizem.


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POR EM 21/04/2009 ÀS 02:50 PM

Tente o Google

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Friedrich Nietzsche, pros que só ouviram o galo cantar, mas não sabem onde, era um filósofo alemão. Tá bom, eu sei que há pessoas que se coçam e têm urticária ao simples nome de alguém inteligente como o Nietzsche – não quero provocar urticária em ninguém só o citei pra começar dizendo que esse “brother” (aposto que agora alguns se ligaram mais) me ensinou muitas coisas pela vida afora.

Quer saber mais dele? Tente o Google.

Ele ensinou-me, por exemplo, que os homens são divididos em carneiros e águias. Os carneiros são os “maria-vai-com-as-outras”, os “covers”, os coadjuvantes do segundo time, os que passaram do segundo grau, às vezes até das universidades, mas permanecem no primário, os que procuram fazer parte de algum bando como os carneiros procuram se juntar aos seus, os fraquinhos de espírito e intelecto, os que têm 40 anos com idade mental de 11.

Carneiros também podem ser definidos como aquele tipo de gente que acusa alguém de preconceituoso e na mesma frase o xinga de veado...sim, eles acham que chamar alguém de veado é xingamento. Cabecinhas de vento que com uma mera furadinha de agulha fina se esvaziam e desabam como aquelas bonecas infláveis de Miami.

Quando os carneiros estão irados eles se juntam ainda mais corporativamente contra o que os irou e berram, berram, berram pra demonstrar sua ira. É a única situação em que berram, normalmente eles apenas acompanham silenciosamente a manada, passivamente desde que tenham à disposição as pobrezas espirituais e materiais que os satisfazem: música ruim, conversas idiotas, comunidades e críticas em blogs, vinho mioranza ou sangue de boi que eles sorvem em grandes goles, gritinhos do tipo Ihuuuuuuu...essas coisas tão interessantes que fazem a felicidade dos carneiros.

Claro que o leitor inteligente sabe que simplifiquei muito os ensinamentos do Nietzsche pra facilitar a compreensão dos carneiros que estão aqui lendo este artigo, todos eles lêem é só observar a maioria dos comentários da revista. Afinal, não dá pra falar profundamente do filósofo alemão com gente que ainda acredita e participa de comunidades que colocam chifrinhos em fotos para demonizar alguém. As águias – NÃO, pensando bem, melhor é não definir as águias porque vai humilhar muito os carneiros-leitores, coitadinhos.

Se quiserem saber mais eles que procurem no Google.

Ah! Esqueci de um detalhe: carneiros detestam águias e isto é perfeitamente compreensível e mais que isso, é lógico.
Mas atualmente, tanto quanto com Nietzsche, aprendo com os budistas quando os leio – alguns são mesmo geniais, bons astrais e ensinam como se livrar de “bodes-pretos”.

(Vá ao Google)

Foi o que fiz na última semana quando uma carta que escrevi e um artigo que publiquei aqui despertaram os baixos instintos de carneiros aí pelas encostas. Águias, sim, sabem conversar com argumentos inteligentes, carneiros só dão coices. Pra contrabalançar o astral dos ovinos ofendidos conversei com meu mestre budista e ele me orientou: que eu acendesse muitos incensos de sete ervas feitos em Pindamonhangaba, poderosíssimos; que só colocasse no meu som a música do Vivaldi ou do Chopin (pena que alguns não os conheçam, nenhum dos dois foi roqueiro) e recebesse em minha casa pessoas de notório grau de inteligência, humor e boa conversa.

Fiz isto e não senti os efeitos nefastos nem aquele cheiro característico que os carneiros exalam quando estão enfurecidos e sem eixo. Como tô em fase de finalizar um espetáculo de teatro musical chamado “THEATRO MUZYCAL PROFANO” estou tendo a felicidade de ocupar minhas noites e dias com coisas sagradas como arte e artistas originais excelentes e divertidos, solares e bem humorados.

Meu trabalho me põe em estado de graça. Nada oriundo das profundezas tem o poder de interromper o processo de criação junto aos músicos e atores e cenógrafo e figurinista e regente musical e pintores e marceneiros e iluminador e webdesigner e costureiras e bordadeiras e produtores e o próprio deus Dionísio. É com esses que eu vou. Aliás, já fui...

PS luxuoso: que a BULA descanse de mim enquanto cuido de estrear meu novo espetáculo e viajar pra Espanha em seguida, dia 12, convidado pra dirigir no Teatro Real de Madrid um show da maior cantora espanhola do momento, uma diva moderna.

(vá ao Google, vá ao Google)

Levo comigo os incensos de Pindamonhangaba, claro. Mas desde já sei que os carneiros vão sentir muito minha falta:  afinal, provocando seus berros, eu os faço ter a impressão que existem.
 


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POR EM 13/04/2009 ÀS 12:58 PM

Cretinos

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Era tão pomposa essa palavra, tão sonora e perfeita pra nomear os próprios. Caiu de moda, sei lá porque. Quem sabe esse artigo nos ajude a reavaliá-la e reaprender a identificar seus destinatários no mundo. São muito antigos os cretinos, alguns arqueólogos os situam em idades pra lá de mezozóicas e dizem que aumentam aceleradamente. Acredito.

Todos são praticamente obrigados a conviver com cretinos nas várias áreas das atividades humanas, eles estão em toda parte porque cretinos sempre  foram, ainda segundo os arqueólogos, se não a maioria, os mais visíveis nas grandes sociedades. E procriam muito: ah, cretinos são férteis sob esse ponto de vista.

Consigo conviver e me divertir com eles como, aliás, quase todo mundo consegue, mas o melhor é evitá-los porque cretinos passam dos limites freqüentemente, não percebem sua cretinice, gostam de impor sua presença. Acham-se geniais e insubstituíveis quase sempre.

Pode ser que algo leve o leitor a imaginar que cretinos são pessoas de pouca cultura, psicologia simplista, desconfiômetro movido a pilha descartável – mas, não é assim, muito pelo contrário: cretinos existem com muito mais visibilidade nas áreas de pensamento classe média alta como a cultural, a política, a empresarial, pode observar.

Conviver com eles é fácil quando se concorda ou se elogia, caso contrário tornam-se chatos e previsíveis como abóboras. Minta pra eles, adoram. Dizendo o que se pensa deles o normal seria angariar entre a categoria inimigos que dariam pra encher um estádio, mas cretinos não se ofendem facilmente porque nunca vestem a carapuça e não são bons “percebedores” da realidade, estão quase sempre muito ocupados em perceber a si mesmos, como os pavões abrem seu leque de penas numa auto-admiração compulsória ou como a águia que se embriaga com seu próprio vôo.

Gosto, até me delicio em tê-los como inimigos porque, como ensinou Reich, inimigos é que nos fazem perceber o oposto, quer dizer, o que é ter amigos. Provocar cretinos surte o mesmo gostoso efeito que surte o assobio para os perus – não tem erro, sempre reagem, pra satisfação de quem os provoca. São muito divertidos nesse aspecto. Tô sempre disposto a provocá-los, mas cretinos, infelizmente, não são bons de briga, são fracos, medrosos, covardes e, portanto, adversários medíocres. Brigar com eles é muito sem graça.

Você, leitor, deve conhecer dezenas deles: adoram escrever cartas idiotas e ofensivas pras seções de cartas de leitores de jornais e revistas; costumam escrever poemas paupérrimos que guardam nas gavetas e que um dia despejam na cabeça dos incautos ou enviam pra publicações do gênero; os livros que teimam em escrever são normaizinhos e não acrescentam nada à literatura de lugar nenhum – mas são milhares em comparação com os bons livros; quando ouvem ou lêem qualquer coisa que lhes parece verdadeira ficam indignados e se defendem imediatamente porque a verdade lhes parece deboche ou irrealidade insuportável, coitados. Seus egos têm fermento.

Cretinos falam preferencialmente por metáforas ou alguns códigos que eles consideram inteligentíssimos, mas que não passam de tolices infantilóides e só são compreendidos por outros cretinos. O que eles escrevem são frases ou sentenças perfeitamente identificáveis por essas metáforas que consideram o supra-sumo da inteligência avançada.

Deve ter sido um cretino que inventou as metáforas – metafóricos são aqueles tipos de pessoas que nunca dizem a palavra certa e clara na cara de quem desejam alcançar. São sinuosos os cretinos – nem retas nem círculos... sinuosidades.  

Aqui vai outra boa dica pra identificá-los: quase tudo o que cretinos fazem é colonialismo, isto é, se “baseia” em alguma coisa ou em alguém ou em alguma música ou algum livro ou alguma idéia alheia. Eles amam o que “se baseia” em algo porque nunca têm idéias próprias.

Você conhece alguma coisa mais cretina e sem imaginação que covers? E rocks feito por aquelas figuras de preto e tachinhas metálicas oriundas dos 70/80, os anos deprês nos EUA? Cópias imperfeitas e superficiais – cretinas.

Na política os cretinos se lançam com genuína ferocidade, aí incluída a perversidade e o despotismo acrescidos dessa coisa sórdida e moderníssima que apelidamos de “lei de Gérson” onde o se dar bem anula quase todos os outros bons conteúdos da política como a generosidade e o desejo de ajudar ao próximo, freqüentemente relegados a terceiro plano. 

Também, como já disse, estão aos bandos na área da cultura apesar de acharem bem lá no fundo que cultura é coisa de veado, de velhinho burocrata, de funcionário público com prisão de ventre, de homens sem sensualidade, mulheres frígidas, profissionais liberais metidos a bestas. Mas como cretinos tem baixa auto-estima eles adoram se inserir na área da cultura pra se sentirem “in”, sabe como é?

Exatamente isso faz deles cretinos típicos, essa camuflagem de pensamentos e a falsa crença em qualquer coisa superior do espírito. Vivem no rame-rame. Mesmo lendo livros de Joyce ou Dostoiévski, vivem mesmo é no rame-rame.

Pronto: muitas pistas pra você, leitor, identificar cretinos por aí. Afinal, é uma palavra sonora, que enche a boca, precisa ser recuperada.  Exercite-se: comece agora mesmo a procurar nesta revista pra ver se encontra algum cretino e se tiver certeza que eu sou um deles, não se preocupe, vou fingir que não sou e não sofro com isso.

Como faz muito bem, aliás, um cretino autêntico.
 


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POR EM 06/04/2009 ÀS 05:38 PM

O que faz diferença

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O óbvio: cultura faz a diferença e é o que distingue povos de todas as épocas em todos os tempos. Mesmo não conhecendo a Itália, sabemos do Renascimento; difícil se lembrar quem governava a Inglaterra quando Shakespeare escreveu "Romeu e Julieta", mas a Inglaterra está para sempre associada ao nome do gênio, assim como nos lembramos de Portugal ao falarmos de Fernando Pessoa ou nos remetemos à Espanha diante de uma obra de Salvador Dali — a cultura engendra a identidade de qualquer povo, óbvio. No âmbito nacional, por exemplo, a Semana de Arte Moderna de 1922 é paulista; a Bossa Nova é carioca; o barroco brasileiro é mineiro, etc... Isso se aprende com mestres.

Agora, maduro, ando querendo devolver e retribuir espalhando as coisas que fui aprendendo pelo mundo afora com outras pessoas que sabiam mais que eu, que se interessaram por mim e me impulsionaram para frente.

Era um menino tolo e jeca quando fui lançado no Rio de Janeiro para estudar e anos depois pude avaliar a importância que algumas pessoas mais velhas que eu, ou colegas de colégio e faculdade, atores parceiros nos grupos de teatro, tiveram na minha vida.

Generosos, perceberam a enorme curiosidade que tinha de aprender e foram me orientando sobre o que ler, o que ouvir, permitindo que fizesse minhas escolhas a respeito de quase tudo. A curiosidade pelas coisas do mundo não diminuiu ainda hoje, não diminui nunca, só aumenta porque nunca se sabe o suficiente para deixar de se surpreender a cada manhã. Acreditamos que só as pessoas mais maduras, vividas, têm algo a ensinar e, assim, perdemos a chance de aprender com gente jovem que, mesmo não tendo vivência, tem uma maneira especial de observar o mundo, um ângulo ainda não viciado de perceber o que alguns velhos já não percebem. Portanto, melhor é se entregar aos mestres, todo tipo de mestre, novo ou vivido, e desfrutar os prazeres das descobertas que, nem de longe, se revelam de uma vez só — aprender é viver a vida em conta-gotas. As gotas podem ser uma boa conversa entre amigos, a leitura de um livro de um grande autor, a visão nova sobre a natureza humana que um filme nos sugere, as notas musicais que uma sinfonia insuspeitada nos revela, e por aí vai... Ensinam os mestres orientais que o aprendizado não é um diálogo entre um professor e um aluno, é uma espécie de diálogo entre dois amantes. Amigos podem ser amantes, um escritor e seu leitor são amantes, ouvir uma sinfonia de Beethoven o torna amante do compositor dela — só sendo amantes o que está acima, o além, pode ser expresso.

O que aprende deve estar sempre numa receptividade feminina como a de um útero para que qualquer coisa que seja recebido nele não seja apenas agregada como conhecimento morto, mas cresça. Ensinam também que há dois tipos de linguagem: a lógica e a amorosa. A linguagem lógica é egocêntrica porque pressupõe que eu estou certo e o outro errado e eu não estou interessado em você, mas em mim, em provar que eu sei e você não. Com esses não se aprende nada.

A linguagem amorosa, aquela que nos faz aprender e nos transforma, nos faz interessados no outro, em ajudá-lo a crescer, não é egocêntrica, é viva e bem-vinda.

Penso que é a melhor maneira de passar adiante o que vamos aprendendo pela vida afora, fazendo evoluir os que nos cercam e sendo evoluídos pelos que sabem e querem transmitir amorosamente o que sabem. Vivendo assim faríamos jus à nossa humanidade e mais, faríamos o mundo bem melhor, mesmo com todas as suas mazelas e desencontros. Penso nisso e sinto cada vez mais claramente que o que cada um sabe não lhe pertence, mas a todos e reter conhecimento é uma doença do ego como tantas outras porque conhecimento agregado que não circula é conhecimento morto.

Retribua por aí o que o mundo lhe ensinou e estará contribuindo para a evolução e transformação da sociedade em que vive.

E com vantagem e a garantia do que ensinou João Guimarães Rosa: “Mestre não é quem ensina, mas quem, de repente, aprende”.
 


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