revista bula
POR EM 31/12/2012 ÀS 03:09 PM

Bradaremos contra os hunos e seus obscuros festivais de cinema: ¡no pasarán!

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Retomo, tal como Sísifo, a minha tarefa de listar os melhores livros de 2012. Encerrei a parte anterior da lista com biografias e memórias; porém, mais que esses livros, é a leitura de cartas que verdadeiramente nos coloca no centro das vidas que nos interessam. Para os adeptos: “Toda a Saudade do Mundo”, correspondência entre Jorge Amado e Zélia Gattai; “Cyro & Drummond” (Globo), coletânea de cartas trocadas entre dois amigos de vida inteira, Carlos Drummond de Andrade e Cyro dos Anjos; e “Mário de Andrade e Sérgio Buarque de Holanda: Correspondência”, publicação conjunta da Companhia das Letras e da Edusp, que tem excelente estudo de Pedro Meira Monteiro sobre as cartas dos amigos paulistanos, ambos fundamentais para trazer ao século 20 o Brasil deitado eternamente em berço esplêndido.


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POR EM 24/12/2012 ÀS 01:09 PM

Existem realmente nenúfares, samovares e caravançarais?

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Para Laryssa Nogueira, com esperança de que os livros de viagem me (nos) consolem pelas viagens que não fizemos.

Continuo a minha famigerada — não no sentido rosiano — lista de melhores livros de 2012. Relendo o que escrevi na primeira parte, percebo que maltratei os exauridos leitores: mais de 5 mil páginas sobre a Segunda Guerra, calhamaços como “Ulysses” e os vários volumes de “A Comédia Humana”. Bem, é preciso um refrigério, até porque dezembro, e não abril, é o mais cruel dos meses, e portanto deve-se dar rédeas à imaginação para que se possa superá-lo incólume. O negócio é o seguinte: o camarada se cansa do ramerrão das vistas da planície da prosa em excesso e resolve espairecer. Apóio a estratégia, ou, como diz um amigo, adiro ao plano. Assim, como a Companhia das Letras publicou coletâneas de Rainer Maria Rilke, Adonis e Elizabeth Bishop, recomendo esses poetas para quem quiser tomar novos ares nos píncaros da poesia (ando lendo poesia goiana, daí o uso de “píncaros”), pois não é possível viver como um Esteves sem metafísica. Àquele que não gosta de poesia, apenas digo: precisas mudar de vida.


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POR EM 15/12/2012 ÀS 08:04 PM

Se a praça é do povo e o céu é do condor, os cadernos de cultura são dos cinéfilos

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Para Bárbara Gigonzac e Heyne Leyser, ávidas leitoras.

Do alto das minhas pilhas de livros, trinta e nove anos de leituras atrasadas me contemplam. Os montes inexplorados — meus himalaias particulares — me fitam e eu, planejando viver mais oitenta e cinco invernos, peço calma a eles e paciência aos deuses para com este humilde pecador.

Meu motor de explosão necessita de livros como carburante, o que me levou a juntá-los desde criança. Lá pelos meus 10 ou 12 anos, confrontado com a dura realidade do mundo cruel, tragicamente deixei de lado um futuro como desbravador do Velho Oeste ou astronauta e passei a me dedicar a uma das poucas atividades em que tenho tido sucesso, a acumulação indiscriminada de livros (isso depois de brevemente também ter considerado tornar-me poeta tuberculoso para viver cercado de belas mulheres sempre dispostas a atender aos meus desejos de moribundo, pois que compungidas com a minha situação de artista incompreendido e privado de leituras por ter colocado os livros no prego). Aos 20 anos, a coisa já era patológica (escreveu Paul Nizan: “Eu tinha vinte anos. Não me venham dizer que é a mais bela idade da vida”). Por ter 20 anos, porém, em algum momento os livros disputaram espaço com os líquidos olhos verdes de Patrícia, mas o excesso de leituras desordenadas me deixara ciente de que eles viriam, causariam os estragos costumeiros e inescapáveis dos líquidos olhos verdes e iriam embora — portanto, a ordem natural das coisas seguiu o seu curso próprio: os olhos verdes se esfumaram, os livros permanecerem e depois houve outras Patrícias. De qualquer modo, tudo ficou ainda mais fácil quando me convenci de que, naquela trágica idade de 20 anos, já tinha os 39 que só alcancei efetivamente neste ano (e agora, supostamente com 39, sei que tenho na verdade 54 anos).


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POR EM 14/09/2012 ÀS 07:58 PM

A epopeia de nossas depravações numa ilha deserta

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Philip Roth

A Publifolha lançou em 2003 um pequeno livro, “Ilha Deserta: Livros”, no qual sete escritores — Bernardo Ajzenberg, Carlos Heitor Cony, Contardo Calligaris, Manuel da Costa Pinto, Maria Rita Kehl, Moacyr Scliar, Nina Horta e Nuno Ramos — escolhem e comentam os dez livros que levariam para uma ilha deserta. E houve também um livro sobre discos (“Ilha Deserta: Discos”) e outro sobre filmes (“Ilha Deserta: Filmes”, é claro). O livrinho, de leitura rápida e saborosa, me fez imaginar quais livros eu levaria a uma ilha — e também me torturou: como levar apenas dez?

Pensar em livros que sejam indispensáveis numa ilha deserta é pensar em listas, e há sempre quem reclame da ideia de fazer listas de “melhores”. São uns chatos: a leitura de qualquer lista é uma das grandes diversões de um adulto, figurando entre assistir a desenhos animados e jogar “War” numa lista — mais uma — de melhores atividades. E ninguém, quando convidado a fazer a sua listinha, se furta à tarefa. Dou um exemplo: o livro “The Top Ten: Writers Pick Their Favorite Books” é uma grande coletânea de listas de melhores livros feitas por dezenas de escritores. Estão no livro alguns craques: Paul Auster, John Banville, Julian Barnes, Michael Connelly, Paula Fox, Jonathan Franzen, Norman Mailer, Joyce Carol Oates, Francine Prose, James Salter, Tom Wolfe. (Uma curiosidade: A.L. Kennedy colocou “Sargento Getúlio” em nono lugar e Michael Griffith listou “Dom Casmurro” em sétimo.)


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POR EM 23/02/2012 ÀS 10:41 PM

A você, hipócrita leitor, meu igual, meu irmão (por supuesto!)

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Há algo de muito íntimo em receber um livro com dedicatória: nestes tempos dominados pelo computador e pela pressa, ler algo escrito de próprio punho por pessoa que se estima pode ser uma experiência rara e emocionante

André Gorz e sua mulher Dorine“Para Mercedes, por supuesto”: assim Gabriel García Márquez dedicou, para minha inveja, “O Amor nos Tempos do Cólera” a sua mulher, escancarando todo o seu amor com apenas duas palavrinhas — “por supuesto”. Na edição brasileira que tenho deste livro que há muito tempo acompanha os meus devaneios literários, meu pai escreveu a minha mãe: “Para você, o amor nos tempos do... amor” (romantismo que compensou dedicando “A Terrorista”, de Doris Lessing, com ironia — “Leia, mas não seja”. O conselho deve ter sido seguido, pois o casamento permaneceu firme). Já noutro exemplar, espanhol, um grande amigo me homenageou: “A mi hermano Marcelo Franco, ésta que es la más bonita novela escrita en Latinoamérica en la lengua de Cervantes”. Portanto, mantenho três edições do livro de García Márquez nas minhas estantes sempre atulhadas: uma toda anotada por mim e as duas com dedicatórias — vício de bibliômano. 

Ler com atenção e colecionar dedicatórias é com certeza um dos sinais distintivos da bibliomania. Na verdade, uma das formas de reconhecer um bibliomaníaco é o fato de que lemos de fio a pavio qualquer livro: as orelhas, a dedicatória, as notas de rodapé, as referências bibliográficas e até o colofão. Holbrook Jackson, autor de uma preciosidade criminosamente ainda não traduzida no Brasil, “The Anatomy of Bibliomania”, reservou um capítulo inteiro de seu livro para discorrer sobre o prazer de colecionar livros com pedigree, aqueles que têm dedicatórias ou anotações de quem os possuiu. No meu caso, não sou exceção à regra: venho há anos comprando livros dedicados pelos próprios autores e consegui alguns itens dos quais me orgulho com exagero talvez doentio: Pedro Nava, Afonso Arinos, Erico Verissimo, Rubem Braga... Mas se esta faina de acumulação é estranha, Holbrook também nos lembra que a bibliomania causa menos males do que, diz ele, a “sanidade dos sãos”. Acho que procede (aliás, é curioso que a bibliomania seja vista com estranheza enquanto a cinefilia desfruta de status de atividade essencialmente intelectual. Mas não se animem os cinéfilos: a julgar pelos cadernos de cultura dos jornais, a leitura de quadrinhos já está quase ocupando o seu lugar). 


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POR EM 19/01/2012 ÀS 02:22 PM

E com o evocado vem o mistério das associações

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Depois de ler e reler os livros que o meu velho conhecido Pedro Nava deixou para mim antes de ter se colocado a salvo dos tormentos da memória, sinto que regresso de muito longe e de muito tempo atrás. E penso comigo: se o mundo mudou e ninguém mais liga para essas coisas, não tem importância — elas vivem em mim

Pedro Nava

Escrevi aqui na Bula sobre a Belo Horizonte dos escritores modernistas e, por isso, muitas pessoas ficaram curiosas em relação a Pedro Nava, pouco conhecido atualmente. Nada de novo no front: Nava, autor de seis magníficos livros de memórias, louvado pelos colegas escritores até, creio, o final da década de 80, foi depois esquecido pelos intelectuais brasileiros e parece não despertar muito interesse naqueles que poderiam divulgar a sua literatura. (Da mesma forma, perguntaram-me sobre R., citada nos meus textos, principalmente se ela seria a origem da minha inspiração. Imagino que sim — é como dizem os franceses sobre a motivação dos nossos atos: cherchez la femme. Posso também dizer que... Bem, vocês sabem. Ou não sabem?) Portanto, vamos ao Nava (não como crítico literário, que não o sou, mas como “pedro-navista” de carteirinha). 

Em junho de 1903, nasceu, na mineira Juiz de Fora, um “pobre homem do Caminho Novo das Minas dos Matos Gerais”, como ele escreveu no primeiro livro de suas memórias, “Baú de Ossos”, usando uma fórmula de Eça de Queirós (“Eu sou um pobre homem da Póvoa do Varzim”), depois também utilizada por Otto Lara Resende (“Eu sou um pobre menino do Matola, de São João del Rei”) — aliás, como a inveja é o pecado dos escritores frustrados, eu gostaria de poder dizer que sou um pobre homem de São Sebastião do Alemão (Palmeiras de Goiás, cidade da minha família materna), ou que sou um pobre homem de Itaberahy (Itaberaí, claro, onde nasceu meu pai), mas fico apenas na vontade não realizada, pois nasci nesta mui nobre, mui leal, benemérita, heróica, invicta e boa cidade de Goiânia. 


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POR EM 02/01/2012 ÀS 04:31 PM

Nenhum Brasil existe e Minas não há mais

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Dos meus vícios (há tantos!), talvez o menos condenável seja a leitura de cartas. Pois estou com sorte para cultivar minhas manias: a Companhia das Letras acaba de publicar “O Rio É Tão Longe”, coletânea de cartas de Otto Lara Resende para Fernando Sabino (e também relançou “Bom Dia Para Nascer”, agora com 74 crônicas a mais do que na primeira edição). As cartas de Otto podem ser lidas em conjunto com as cartas do próprio Fernando, publicadas pela Record em 2002 (“Cartas na Mesa”). É o que venho fazendo e o que me motivou a pensar nos velhos escritores mineiros — dos quais também há tantos.

(Parênteses imediatos para uma das minhas costumeiras digressões: sou não apenas leitor, mas também escritor constante de cartas. Desde que conheci R., há quase seis anos, enchi-a de cartas. Ah, a propósito e sem propósito: por conta dos meus textos anteriores aqui na “Bula”, recebi várias mensagens nas quais os leitores perguntam quem seria R. Respondo: R. é alfa e ômega.)

Otto, prolífico no que escrevia aos amigos, dizia-se “o último cidadão que ainda se dedica a este gênero obsoleto que é o epistolar”. Já Fernando Sabino, com apenas 22 anos, lamentava a passagem do tempo: “Sim, é verdade que um tempo nosso se encerrou. Somos homens, não somos mais meninos do Trianon, meninos do Viaduto, dos porres, das placas de rua, de cadeados, até mesmo de vitrines de chapelaria. No fundo, se a gente pensar bem, triste tentativa de sentir de novo um tempo que passou, nada mais” (Otto, Fernando e seus amigos trocavam placas de identificação de casas e cadeados de portões). E os dois fofocavam, contavam histórias, lamentavam, riam, choravam, amavam e odiavam nas cartas — essa facúndia escrita lança dúvidas sobre o alegado comedimento mineiro. Sobretudo, eles, tomados de irresistível “cacoethes scribendi” desde a infância, comentavam livros, e é essa compulsão literária que me espanta nos mineiros de então. Por isso, busco-os nas coletâneas de cartas, romances e livros de memórias que deixaram.


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POR EM 22/09/2011 ÀS 01:28 PM

Quando ouço alguém falar em Eisenstein, saco logo o meu Looney Tunes do coldre

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Era uma vez um não-cinéfilo: ensaio ensina como não agir em um jantar inteligente à lá Pondé (se seu objetivo for sair com a Bela da Tarde que gosta de filmes iranianos)

Não sou exatamente um homem de cinema. Para mim, os melhores anos de nossas vidas não são aqueles passados numa sala escura com projetor. Gosto mais de certas cenas, que sempre revejo, do que propriamente de filmes. Aquela dos beijos excluídos dos filmes em “Cinema Paradiso” (ao que me consta, atualmente cotada como kitsch). O tango em “Perfume de Mulher”. O duelo entre Lee Marvin e James Stewart em “O Homem que Matou o Facínora”. Do mesmo filme, a cena em que John Wayne conta ao iludido Jimmy Stewart que foi ele quem matou Liberty Valence: “Assassinato a sangue-frio. Posso viver com isso”. A famosa porta dando para o deserto em “Rastros de Ódio”. A abertura de “Patton”. O reencontro do casal em “Paris, Texas”. A cena final de “Reflexos da Inocência”, que mescla passado e presente ao som de “If There Is Something”, clássico do rock da banda Roxy Music. Aquela vingança de Tom Hanks contra Paul Newman em “Estrada Para a Perdição”. Também a despedida do herói em “Os Brutos Também Amam”, quando a mulher que Shane ama (em silêncio, como deve ser a paixão dos fortes) lhe pergunta “Nunca mais vou vê-lo?”, ouvindo como resposta um adequado “Nunca é tempo demais”. Cenas de atores e atrizes que aprecio, como Robert Duvall, Al Pacino, Vanessa Redgrave, Audrey Hepburn, Tommy Lee Jones, Peter Sellers, Jack Nicholson. Alguma coisa de Almodóvar, outras de Juan José Campanella. Muitas cenas de westerns e de filmes de guerra, mas dos clássicos, aqueles sem preocupações sociais — mas onde estais, westerns de outrora? (Há pouco descobri, feliz, que o grande escritor espanhol Javier Marías é também adepto do faroeste, o que ele conta no seu blog.  Nestes estranhos tempos modernos, até Marías tem um blog.) Vocês pegaram o espírito da coisa: algumas tomadas especiais, poucos filmes inteiros. E a ver certos filmes idolatrados, como os da Nouvelle Vague ou do Cinema Novo, prefiro assistir a um documentário. Na verdade, admito que assisto aos mais estranhos documentários: na semana passada, venci feliz as nove horas de “Shoah”. Portanto, sou, de um modo geral e por assim dizer, mais Moniz Vianna do que José Lino Grünewald. Quanto à eterna discussão sobre o caráter artístico do cinema, fico com Mário Sérgio Conti, que o classifica como esporte ao lado da sinuca, do futebol e da natação.


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POR EM 26/07/2011 ÀS 09:18 PM

Ao volante do chevrolet pela estrada de Sintra

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Foto: Carmen González Picardo Eu e R., cansados de tanto subir e descer ladeiras em Lisboa, pedimos um táxi para irmos ao Castelo de São Jorge. O motorista, com vastos bigodes portugueses, chama-se — é claro, pá! — Manuel.  Manuel nos leva vagarosamente ao alto da colina, mais preocupado em mostrar pontos turísticos sem nada de muito especial do que com o fluxo do trânsito. Sua forma de falar é difícil de entender; para mim, o homem até merece ser estudado por causa dessa sua prosódia portuguesa mais acentuada, assim me parece, do que a dos seus conterrâneos: vogais sempre engolidas e plurais muito puxados. Em certo momento, ele atende ao telefone celular e percebemos que alguém lhe conta uma briga com outra pessoa; com certeza ouvindo o que seu interlocutor teria dito durante a discussão, ele comenta: “Finura de resposta”. Para meu deleite, repete a frase várias vezes, “Finura de resposta! Finura de resposta!”, tudo muito rápido e soando “fin’ra di rissposst’”. Seu jeito todo o torna caricatural, um tipo de português de piada. Tenho vontade de perguntar-lhe se conhece “Francisco Carlos Guedes Santos” só para ouvi-lo repetir, em dúvida e cofiando os bigodes, “Francisssco Carlusss Guedisss Santussss?”. Não é um sotaque, é uma máquina de lavar louças. Fascinado, eu percebo que o conheço desde menino: ele é o Manuel da padaria, o amigo do Joaquim e marido da Maria. Sabe aquela do assalto ao banco? Era ele. A do policial rodoviário? Também ele. Pois lá vamos nós, Manuel se alternando entre o telefone e o que considera interessante para nos apontar. Estou gostando cada vez mais da coisa. Reconheço os sinais de perigo, mas, ainda assim, sou incapaz de me conter: percebo que estou atacado por aquela doença que atinge a nós turistas e nos faz achar tudo agradável e pitoresco, tornando-nos generosos ao extremo.


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POR EM 16/07/2011 ÀS 10:17 AM

Woody Allen deveria filmar também em Lisboa

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Este não é um texto sobre Woody Allen. É um ensaio/tributo a Lisboa. Mais: é um passeio pela história do Fado e seus mitos

Já me disseram que há um ditado que nos lembra que conhecer o mundo sem ir a Sintra não seria realmente conhecer o mundo. Bem, não há como discordar, mas acredito que pecado maior é ir a Lisboa e não ouvir fado.

Estamos em Lisboa já há alguns dias, R. e eu, e ainda não ouvimos fado. Ou antes: ainda não fomos a uma casa de fado, pois já ouvimos fadistas na rua e também a música, quase sempre de Amália Rodrigues, que sai das lojas de discos (percebo que escrevi “discos” em vez de “CDs”: muitas vezes, palavras entregam a idade). E há uma mendiga cega na Rua Augusta que sempre está cantando e balançando seu copo para recolher moedas; seu lamento, do qual não entendo nada, fere de um modo pungente meu coração. (Não sei se R. também se sente assim, preciso perguntá-la sobre isso — aliás, noto agora, me parece que ela ainda não reparou na mendiga, o que pode significar que os vinhos que tenho bebido talvez estejam fazendo com que eu transforme coisas banais em situações memoráveis. Passarei um dia sem vinho para conferir. Se não encontrar a velhinha novamente, com certeza ficarei não apenas um, mas muitos dias sem beber.) Iremos, claro, ouvir a música na fonte. Antes da aula prática de fado, porém, faço minhas pesquisas e descubro coisas do balacobaco (uma curiosidade: a palavra balacobaco tem uma certa ligação com o samba; qual seria, se é que existe, a palavra equivalente para o fado?). O fado tem, como todos os tipos de música, seus mistérios; por exemplo, não há concordância sequer em relação a sua origem. Para alguns, ele vem da música dos invasores árabes; para outros, ele descende dos cantos dos trovadores; há ainda quem o queira fruto das canções dos marinheiros portugueses que correram o mundo. Muita gente, contudo, crê que o fado, vejam só, viria da nossa música, da modinha e do lundu, influência brasileira (e africana) que teria chegado a Lisboa com o retorno da Família Real, em 1821, do Brasil, onde ela aportara, em 1808, fugida das tropas napoleônicas.


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