revista bula
POR EM 18/11/2012 ÀS 10:09 PM

A odisseia do espírito

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A "História da Literatura Ocidental", de Otto Maria Carpeaux, é um dos maiores testemunhos do humanismo no século 20

Jorge Luis Borges escreveu, em “A Biblioteca de Babel”, que “nalguma estante de algum hexágono (raciocinaram os homens) deve existir um livro que seja a cifra e o compêndio perfeito de todos os de­mais”. Tal livro, contextualizado, é Deus ou um simulacro de Deus. Inspirado no símbolo borgiano, proponho ao leitor deste suplemento um análogo de proporções mais modestas; outro livro — literalmente falando — que ambicionou compendiar todos os demais (de valor), foi escrito em português e se encontra no Brasil, onde foi também redigido, entre 1944 e 1945. O autor que o engendrou é de algum modo fantástico, e Borges o depararia num crítico — mais coerente falar aqui em historiador da literatura — nascido no império austro-húngaro no ano de 1900, chamado Otto Maria Carpeaux: o homem que leu quase tudo. Não é tanto exagero assim, se nos valermos de uma evidência concreta, bem ao alcance das mãos: a “História da Literatura Ocidental”, sua obra mais importante.


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POR EM 13/05/2012 ÀS 07:11 PM

Sobre os poetas engajados

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Pablo NerudaPablo Neruda foi um poeta stalinista, o que para muitos equivale a acusação. Não é o único caso de grande poeta engajado: Bertolt Brecht é mais conhecido como dramaturgo, mas, ao lado de Neruda, escreveu alguns dos melhores poemas ditos engajados do século XX. Com “me­lhor” não se quer dizer melhor ideo­logicamente e pior sob critérios estéticos. São versos de estilo e de poeta genuíno. Segundo os críticos de todos os meridianos, entre os principais defeitos da arte engajada está a obsolescência: por filiação com realidades políticas efêmeras, ela necessariamente se torna datada, ao passo que as obras significativas são aquelas que resistem ao confronto inevitável com a temporalidade. Só resistem as que exprimem um grau satisfatório de liberdade de pensamento, que ninguém ousaria dizer que se trata de propaganda de algum projeto político, como perceptivelmente fazem os dois poetas mencionados: a poesia deles tem, deliberadamente, conteúdo ideológico comunista.

Outro defeito — consequente do primeiro — é que não teriam alcance universal porque filiam-se a realidades concretas, não a situações abstratas. São particulares, não universais. Por fim, implicam em juízos de valor por parte do artista. Neruda, por exemplo, exalta ou detrai uma série de personalidades históricas — tece um rosário delas na sua obra —, e é provável que nem todos concordem com ele. Sua poesia estaria manchada de parcialidade e tendenciosismo político. Simples assim? Há quem diga que o maior de todos os poetas, Shakespeare, desconhece essas limitações, embora sua obra teatral seja a mais política de todas, da literatura universal: ninguém, como Shakespeare, colocou tantas cortes e príncipes no palco, como se a atmosfera do poder lhe interessasse mais profundamente do que as outras. 


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POR EM 24/04/2012 ÀS 08:20 PM

Qual é a idade do gênio?

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Napoleão BonaparteCheguei na livraria e procurei por autores contemporâne­os brasileiros. Não tinha em mente nenhum deles em especial. O primeiro que apareceu na minha frente, em forma de lombada, foi Miguel Sanches Neto, cujo título era uma pergunta: “Então Você Quer Ser Es­critor?” “Sim, eu quero”, pensei comigo e o tirei da estante. Sentei-me num sofá e abri direto no conto que dá nome ao livro. As primeiras palavras me puseram diante do espelho: “Antes eu olhava as orelhas dos livros dos autores mais velhos para ver com qual idade haviam escrito suas obras-primas, sofrendo ao saber que muitos surgiram quando eles eram bem mais jovens do que eu”. Tal qual a protagonista des­se conto — Lúcia de Sousa —, o nome “Miguel Sanches Ne­to” não me parecia ainda mais especial do que João das Couves. Era apenas um nome como qualquer outro. Mas eu me identifiquei completamente com sua frase: poderia tê-la escrito, eu. Percebi que a angústia que me consome — a mim, que desejo ser escritor — não é exclusivamente minha. Não comprei o livro naquele mo­mento; dirigi-me a um vendedor e pedi emprestado papel e caneta, para copiar o trecho transcrito. Seria a abertura desse breve ensaio, que eu já supunha terminado. O que Sanches chama de “autor mais velho”? Por outras palavras, qual é a idade que justifica qualificar um escritor estreante de temporão? Há casos excepcionais, entre eles o de uma poeta goiana, Cora Coralina, o que foi digno de referência de um conterrâneo seu, Flávio Carneiro, em “O Leito Fingido”: “a poeta, apesar de ter começado a escrever aos 14 anos, só publicou seu primeiro livro aos 75!” É um exagero, condicionado pelas circunstâncias da autora. Pode significar também uma esperança!


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POR EM 03/11/2011 ÀS 01:36 PM

Réplica: a perspectiva do asno

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Começarei pela música. E partirei da seguinte provocação: quando John Cage sobe ritualisticamente ao palco, senta-se ao piano e, compenetrado, “executa” 4’33” — estará fazendo arte? Esclarecimento: Cage é um dos maiores nomes da música erudita no século XX, e suas mãos sequer tocam o instrumento. Silêncio... expectativa... E nada. Terá tido ele um surto de asno? A acreditar em alguns fãs de música clássica, sim. Não digo que não tenham razão, mas não entendo do assunto para descer a lenha. Passaria por ridículo se o fizesse. Nesse terreno, o que eu acho é só o que eu acho, nada mais. Para mim 4’33” não possui valor artístico algum, como alguem pode dizer que Waltércio Caldas também não tem. Música me parece ser a “Nona Sinfonia”, de Beethoven, que aliás Stravinsky acusou de mal feita e cheia de concessões. Não entendo do assunto, definitivamente, porque acho que o russo é que não vale uma pitada de fumo, apesar de ser quem ele é. E daí? E daí que minha opinião sobre o assunto é a de um asno. Ou seja: não sei explicar por que não gosto.

Das duas uma: ou eu sou um excelente crítico musical ou, pelo contrário, sou muito limitado para alcançar o gênio de Cage e de Igor Stravinsky. (Devemos ter sempre em mente que todo Napoleão teve um brilho que, ao menos por enquanto, nós não tivemos, e por isso continuamos anônimos.) Como aposto na segunda hipótese, suplicaria a alguém, que conhece a história da música, que me explicasse como se faz para entendê-la. Eu teria a boa vontade de ouvir e levar a sério, pois, como ignorante no assunto, só me resta pedir instrução. Apesar de minha surdez incurável, curvo-me à autoridade Otto Maria Carpeaux, quando declara que “A arte de Beethoven é a mais alta música humana. A arte de Bach é menos humana porque é mais que humana. Os ‘Concertos de Brandenburgo’ são um reflexo da ordem divina do Universo; uma mensagem do reino das ideias platônicas.” (“Os Concertos de Brandenburgo”, In: “Ensaios Reunidos”, vol. I) Não sei por que o diz, mas reconheço a autoridade de Carpeaux. Senão, qual o critério? Acredito piamente na perversidade humana, mas descreio que todos queiram nos enganar.


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POR EM 18/07/2009 ÀS 08:51 AM

A verdadeira dimensão do homem

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Felizmente ou infelizmente, considerando algumas variáveis estatísticas, parece que estamos mesmo sós, nessa imensidade assombrosa. Para existir vida é necessário que haja uma conjunção de fatores, da qual a Terra é um exemplo único conhecido

Pintura: O geógrafo, de Jan Vermeer 

Por que Deus — se existe — se ocupa com um ser tão ínfimo na escala universal quanto o homem? A desproporção parece ridicularizar a Bíblia e outros livros sagrados. Faz sentido? Faz, e a resposta não é necessariamente religiosa. É também científica.

A física é a ciência capaz de conferir ao homem sua verdadeira dimensão, na natureza. De acordo com ela, faria sentido um Deus tão grande dedicar seu tempo a uma criatura tão pequena, por duas boas razões. Primeiro, porque nosso tamanho físico não traduz nossa estatura intelectual. Segundo, porque a probabilidade de sermos únicos no Universo é bastante apreciável. As duas questões relativizam, de saída, o que entendemos por grandeza e mediocridade. Está certo que devemos — e a física paradoxalmente reforça essa postura — devemos ser humildes. Se o homem é maior do que parece, sua casa, a Terra, é por outro lado bastante pequena e frágil. Pode acabar num simples e inesperado evento cósmico, como a colisão com um asteróide (infelizmente, não é ficção científica). De forma que não temos nenhuma garantia de futuro.

Feita a advertência, podemos nos reconfortar. O principal desafio da física, hoje, é confirmar a existência de uma partícula conhecida como bóson de Higgs. Para obtê-lo os cientistas construíram o LHC, que é o maior acelerador de partículas do mundo (um corredor circular de 27 quilômetros de extensão, onde prótons se chocarão entre si a uma velocidade próxima à da luz). Mas, o que é o bóson de Higgs? A menor partícula existente, o tijolo com o qual foi erguido todo o resto. Inclusive o homem. Daí que a chamaram, também, de “a partícula de Deus”. Comparado a esse tijolinho — muitíssimo menor que um átomo -, o homem é uma grandeza. Já o é, se comparado à menor estrutura orgânica conhecida, o DNA, que é igual a 2 x 10 elevado à nona potência. O é, também, se comparado aos seres unicelulares, milhares dos quais habitam o nosso organismo, que podemos imaginar como um universo à parte. Faz sentido, também, nos concebermos como um universo à parte.

Graficamente, o desenho de muitas estruturas microscópicas que compõem os nossos órgãos parece ser análogo ao das estruturas macroscópicas que existem no firmamento. A grande “teia cósmica”, que corresponde ao maior aglomerado de galáxias observável, é semelhante por exemplo aos nossos neurônios. Existe, assim, em escalas muito diferentes, certos padrões gráficos que fazem confundir aquilo que somos com aquilo que está acima — muito acima - de nós. É como se nos repetíssemos, em tamanho e complexidade, ao infinito. Deus, quem sabe, seria o limite extremo desse processo. Voltando aqui à primeira questão — a relatividade de nosso tamanho -, pode-se dizer que o que nos faz muito maiores do que o nosso corpo é a capacidade de conceber o Universo. Há formas poéticas e mitológicas de fazê-lo, como a religião. Mas há, também, uma forma verificável, que é a científica. E a física é o caminho, o método, para traçarmos já o seu esboço. Nem mesmo os céticos podem resistir ao encanto dessa capacidade.

Um homem normal olha para o céu, durante o dia, sem o auxílio de uma telescópio e do conhecimento da natureza acumulado nos últimos 6 mil anos, e enxerga apenas uma porção da atmosfera terrestre. Uma profundidade de, no máximo, 15 ou 20 quilômetros. À noite, pode ver muito além, de sorte que enxergaria as estrelas. Vai uma enorme distância, porém, entre essa capacidade ocular natural e as possibilidades da especulação e experimentação intelectual. E é nesse ponto que o homem começa a se redimensionar, deixando para trás a condição de simples animal proporcional ao seu organismo. É aí que, apesar de sua escala física relativamente minúscula, ele se torna um gigante, capaz de mapear o Universo como um cartógrafo debruçado sobre seu objeto de estudo — portanto localizado, imaginariamente, num ponto externo, à maneira daquele cientista pintado por Jan Vermeer, em 1668. Sim, o homem, amparado pela ciência, goza desse privilégio. Como assim, considerá-lo pequeno?  

O mais impressionante dessa capacidade de se colocar como um observador externo — apesar de estar dentro — é que não é exatamente com o auxílio da visão que o faz. É o fato justamente de ser “cego” que aumenta a magia. Todas as conclusões a que tem chegado a física, inclusive a das proporções descomunais do cosmo, se dá por intermédio da inteligência, da capacidade humana de se fazer cúmplice da Natureza. Se as leis se inscrevem nos fenômenos, o homem vai lá e as descobre, com imaginação e raciocínio. É assim que pode chegar a uma conclusão impressionante: o Universo observável pelo homem, a parede contra a qual se choca nossa capacidade, chega a mais de 13 bilhões de anos-luz! Uma vez que o que enxergamos é o passado, essa profundeza abissal é quase o ponto de origem de tudo o que conhecemos. Convenhamos: é algo mais do que aqueles 20 quilômetros que podemos ver todo dia, ao abrir a porta de nossa casa e olhar para o céu. Devemos isso a gênios como Copérnico e Galileu, Newton e Einstein, ou seja, devemos a nós mesmos, humanos. Sob essa perspectiva, Deus não se ocuparia, ao se ocupar de nós, com uma criatura que ridicularizaria sua grandeza.

O segundo ponto é a probabilidade de sermos realmente únicos, no Universo. Muitos cientistas acreditam nessa possibilidade. Em sendo verdade, seríamos literalmente um milagre. Tanto melhor se encontrássemos outros seres semelhantes a nós, e que fossem pacíficos. Isso tiraria nosso brilho, mas diminuiria nossa solidão excruciante. Porém as evidências não são animadoras. Se há vida além da nossa, no Sistema Solar, tudo indica que não passaria de bactérias, em Marte ou Titã, satélite de Saturno. A outra possibilidade considerada está fora de nosso sistema, e bem longe, a 20,5 anos luz de distância, onde poderia existir uma civilização complexa. Trata-se de um planeta, o GL 581c. Porém, um simples contato a essa distância, à velocidade da luz (quase 300 mil quilômetros por segundo) levaria 40 anos para obter resposta. Mas não se trata de distância, antes de condições efetivas para a manifestação da vida.

Felizmente ou infelizmente, considerando algumas variáveis estatísticas, parece que estamos mesmo sós, nessa imensidade assombrosa. Para existir vida é necessário que haja uma conjunção de fatores, da qual a Terra é um exemplo único conhecido. Contam desde a distância relativa de uma estrela que gere calor até a composição atmosférica de um planeta. E mesmo que haja tais condições em algum outro lugar, elas por si sós não garantem a manifestação de vida inteligente. Mesmo na Terra, ambiente inteiramente favorável, há milhares de formas de vida, mas apenas uma espécie, a humana, evoluiu sua capacidade cognitiva. Em quanto tempo? É outra variável: mais ou menos 1,7 milhão de anos, a idade do homem. Cada uma dessas variáveis elimina a chance de estarmos acompanhados, tornando-nos hipoteticamente a única companhia inteligente de Deus, em todo o Universo. Então, faria sentido que ele se revelasse para as únicas criaturas capazes de admiti-lo: nós. 

Sem outros seres, seríamos uma preciosidade sem par, o que nos imporia uma reavaliação ética radical. Tal reavaliação importaria em repensar atos e atitudes, para nos fazermos jus à nossa estatura e verdadeira importância na criação, seja lá o que isto significa. Não nos arrogaríamos, longe disso: tornarmos-íamos mais prudentes e responsáveis. Nós e nosso mundo são minúsculos, mas, e daí? Nós — e apenas nós, em certo sentido — justificamos o empreendimento de Deus.

É inevitável, por fim, voltar ao passado, aos gregos. Não convém ceder à tentação depreciativa de nossas mazelas, tantas que assustam. Protágoras de Abdera (480 a.C.) tinha mesmo razão: “O homem é a medida de todas as coisas”.
 


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POR EM 15/05/2009 ÀS 05:48 PM

Meandros da política café-com-leite

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A ambiguidade semântica da política café-com-leite está em sugerir que houve “alternância” de poder entre Minas e São Paulo, o que merece ser esclarecido. Na realidade, essa rotatividade interessa menos do que as diretrizes econômicas impostas pelos superestados, durante a República Velha, no Brasil

Uma das fórmulas políticas mais conhecidas na história do Brasil foi a denominada “política café-com-leite”, que prevaleceu na Primeira República entre 1902 e 1930, alternando na presidência do país os representantes dos dois Estados mais importantes da União, desde aquela época: São Paulo e Minas Gerais. O desequilíbrio regional no Brasil, onde o desenvolvimento concentrou-se muito no Sudeste e pouco (e talvez em detrimento) nas demais regiões – em particular o Norte, Nordeste e Centro-Oeste – pode ser explicado pelo estrito controle político e econômico exercido por essas unidades da federação. Alia-se a isso, obviamente, a mentalidade autoritária da burguesa nacional. Se muito pouco exercemos a democracia nos últimos 120 anos, tampouco chegamos a ser bons republicanos, em tanto tempo.

Hipoteticamente, tal desequilíbrio de forças consolidou o atraso das demais regiões do país, por pelo menos três décadas. O Brasil ficou a reboque de interesses estaduais – com preponderância absoluta da economia cafeeira -, nesse mesmo período, o que terá impedido de se enxergar o país como uma grande unidade repleta de carências e da presença do Estado. Educação e saúde, por exemplo, nunca tiveram representação ministerial durante o regime oligárquico, focado na economia, na infraestrutura, diplomacia e forças armadas. A infraestrutura para preponderantemente escoar seus produtos, a diplomacia em função das negociações internações e a força para conter os ânimos dos setores excluídos da sociedade civil, através da violência. Eis o mecanismo institucional que por 40 anos bastara a uma elite satisfeita, egoísta e atrasada. Chega a ser espantoso constatar que até meados do século XX, o Centro-Oeste brasileiro fora caracterizado pelos centros litorâneos como um “deserto”, o que é sintoma provável de que as elites dominantes em âmbito federal viviam realmente alheias aos problemas dos demais estados do país.

Tudo isso foi consequência do sistema oligárquico organizado por paulistas seguidos de mineiros, privilegiando, em plena era do desenvolvimento industrial, a economia primária de exportação, dificultando por décadas que o Brasil – gigante populacional e territorial - assumisse um lugar entre as grandes potências do mundo. A ambiguidade semântica da conhecida fórmula “café-com-leite” está em sugerir, todavia, que houve “alternância” de poder entre Minas e São Paulo, o que merece ser esclarecido.

Descontados Prudente de Morais e Campos Sales, foram dez governos sucessivos, até o aparecimento de Getúlio Vargas, isto é, de um líder de fora da órbita dominante (raciocínio que não se aplica inteiramente a Nilo Peçanha e talvez Hermes da Fonseca e Epitácio Pessoa, todos originários de outros estados). Uma leitura mais acurada do período revela que o jogo sucessório das oligarquias nacionais foi, no entanto, bem mais complexo do que normalmente se imagina, para um país sem nenhuma tradição democrática. A sucessão presidencial foi, todas as vezes, um jogo de cartas marcadas apenas na medida em que, com tal expressão, queiramos nos referir à escolha no âmbito das manobras oligárquicas comandadas pelos dois superestados. Não aludem a qualquer tipo de aceitação pacífica dentro das próprias hostes situacionistas ou, por outro lado, sem oposição articulada. Oposição sempre existiu, por vezes radical, na República Velha, concorrendo em todos os pleitos independentemente de partidos fortes: a única exceção se deu em 1914, quando houve chapa única, Wenceslau / Urbano dos Santos.

Quem sabe, ninguém caracteriza melhor a existência desse descontentamento do que Rui Barbosa, preterido eleição após eleição antes e depois de 1910, ou porque insistisse numa reforma constitucional ou na importância de se dar ouvidos à opinião pública nacional, em detrimento dos tradicionais conchavos políticos entre os caciques. Rui, não obstante, é a prova da maleabilidade do esquema café-com-leite no que refere à origem do postulante. Brilhante, venerável e experiente, nunca importou se vinha do Nordeste: seu problema não era este, de origem, mas de discurso e talvez de convicção, politicamente incômodos à elites agrárias sulistas.

Alguns grandes historiadores brasileiros dedicaram-se ao estudo minucioso da República Velha, Liberal ou Oligárquica, entre os quais Hélio Silva e Edgard Carone. Estudando a evolução política do Brasil, este último sequer faz uso da expressão consagrada “café-com-leite”, num livro de mais de quinhentas páginas: “A República Velha II – Evolução Política”. Ao analisar o governo de Campos Sales, sob o qual a famigerada fórmula teria sido inventada, o historiador não comenta nenhuma acordo formal que prevê uma alternância “necessária” de chefes oligárquicos de Minas e São Paulo para o cargo de presidente da República, daí por diante. Limita-se a narrar a circunstância em que Campos Sales procura o governador mineiro da época, Silviano Brandão, para que este indique um vice local para Rodrigues Alves, candidato à sua sucessão, surgindo desse pacto a primeira aliança política entre os dois estados. Eram também os dois mais ricos do país e detentores, ao mesmo tempo, das maiores bancadas federais na capital da República, a cidade do Rio de Janeiro.

Se este acordo abre na imaginação dos atores uma possibilidade de rodízio, essa possibilidade parece decorrer menos da vontade expressa dos paulistas do que de outros fatores: a começar, a atitude contestatória mineira em face da hegemonia vizinha, no pleito de 1906, quando Minas insiste no nome de Afonso Pena; segundo, o tropeço programático do concorrente paulista e candidato natural do PRP, Bernardino de Campos. Significa que em 1906, portanto, os dois estados tinham postulantes diferentes para o mesmo cargo, situação revertida em favor de Afonso Pena por razões alheias às pretensões ordinárias de cada facção. 

A fórmula café-com-leite deveria valer logo a partir de Rodrigues Alves, cujo vice é o próprio Silviano Brandão, de Minas. Caso não viesse a falecer neste cargo, o nome do ex-governador mineiro talvez prevalecesse ao término do período, para governar o país no quadriênio seguinte. Todavia, o próprio Campos Sales, indicado novamente - desta vez pelo Rio Grande do Sul e apoiado pela Bahia -, deixa seu nome fluir nas cogitações para o pleito vencido por Afonso Pena. E São Paulo tem um segundo pretendente, o governador Bernardino de Campos, que naufragou em função de certas declarações públicas relativas ao aumento do câmbio, tirando-lhe o apoio fundamental dos produtores de café. Bernardino não conta com a adesão mineira, pois, diz Edgard Carone, o Estado se julga “tão importante quanto São Paulo”, e seu representante acaba sendo homologado com o apoio dos próprios paulistas. Foi fundamental para o acordo em torno de Afonso Pena o fato deste ser favorável à desvalorização cambial, ao contrário do concorrente paulista. (O fator econômico que determina as escolhas da elite hegemônica na conjuntura é a estabilização cambial, útil aos interesses das áreas produtoras de café.)

Visto pela perspectiva do descenso, se, apesar de sua visão elogiosa e conservadora, concordarmos com Afondo Arinos – que dedica um capítulo à República Velha em “Problemas Políticos Brasileiros” - de que a vitória de Wenceslau Brás foi a última do “presidencialismo constitucional”, então, a rigor, o esquema teria feito apenas três presidentes, entre dez eleitos no período: Rodrigues Alves, Afonso Pena e Wenceslau Brás. É verdade que o mineiro Wenceslau foi o candidato de consenso entre paulistas e mineiros na sucessão de Hermes da Fonseca, mas deve ser lembrado que ele era vice do marechal gaúcho, nome preterido por São Paulo em 1910 e apoiado por Minas. Ou seja: os dois grandes estados estiveram efetivamente em trincheiras opostas nas eleições deste último ano, a segunda após aquela conversa aliancista entre Campos Sales e Silviano Brandão, no ano de 1902. O candidato de São Paulo, e que se opõe às perspectivas de militarização da política, foi o baiano Rui Barbosa, à frente da célebre Campanha Civilista.

Outra questão é que aqueles três presidentes, que se supõem eleitos por um pacto prévio dos superestados – ou seja, Alves, Pena e Brás -, não são contudo eleitos sequencialmente, daí o tradicional equívoco semântico, ao sugerir alternância de poder. Nilo Peçanha – de origem fluminense e pouco estimado nos círculos oficiais, porém empossado em decorrência de uma fatalidade (a morte de Pena, do qual era vice) – interrompe a série, prejudicada também pelo marechal Hermes da Fonseca, indício concreto de que aquela engenharia estava longe da perfeição. O Rio Grande do Sul, terceira força nacional, representaria sérias ameaças ao sistema vigente se tivesse pretensões dessa natureza, em especial porque sua trajetória política é marcada pela belicosidade de suas posições. Contudo, abdicara de lanças candidatos à presidência desde quando o governo da União, em 1898, garantiu ao então presidente (governador) Borges de Medeiros a neutralidade em relação a assuntos do seu estado. Hermes da Fonseca escapara ao acordo café-com-leite, o qual duraria até o aparecimento de Getúlio Vargas, em 1930, e certamente prejudicara as intenções de outro gaúcho, Pinheiro Machado, um dos políticos mais poderosos da República no espaço de tempo que vai de Campos Sales a Wenceslau Brás.

Pinheiro é o contraste de Rui, na República Velha. Senador, torna-se uma expressão nacional ao ser responsabilizado pela Comissão de Verificação de Poderes – principal instrumento fraudador do sistema eleitoral oligárquico – e tem influência decisiva na indicação de alguns candidatos à principal magistratura do país (entre os quais o próprio Hermes) e dos estados, fazendo do Congresso Nacional seu espaço de manobras. Se pudéssemos buscar no passado o protótipo ideal para a figura do coronel e oligarca, com a intenção de caracterizar certos políticos que até o final do século XX interferiram ainda na vida pública brasileira (em especial Antônio Carlos Magalhães e José Sarney), esse protótipo seria certamente Pinheiro Machado, que reinou por no mínimo 10 anos.

Wenceslau Brás não foi o último delegado da política café-com-leite, até porque após sua passagem o esquema evidenciou dificuldades das quais, na realidade, nunca esteve isento. Seu sucessor, Rodrigues Alves, faleceu em 1918, antes mesmo de tomar posse, e o nome que desponta para o novo pleito, determinado pela Constituição nesses casos, foi o de Epitácio Pessoa. Epitácio resulta de uma crise geracional no centro do sistema dominante, que se vê obrigado a indicar um nome vindo, pela primeira vez, de um estado secundário como a Paraíba. Diz Carone, da agonia oligárquica: “a indicação de um representante de um Estado secundário mostra a desorientação das hostes políticas e a falta de nomes representativos no sistema dominante. A velha geração – Campos Sales, Rodrigues Alves, Francisco Sales, João Pinheiro – já tinha desaparecido e a nova – Arthur Bernardes, Washington Luís, Altino Arantes, Antonio Carlos – apenas começa a se afirmar.” (“A República Velha II – Evolução Política”, quarta parte, A). E, como se viu, não custaria que Epitácio contrariasse a orientação mineira e paulista.

Mas a tentativa de alternar nomes originários de cada estado foi mais uma vez tentada na última década do regime, com Arthur Bernardes e Washington Luis, porém seu êxito a essa altura foi quase apenas de rotatividade, indo aos poucos e incontornavelmente perdendo sua eficácia. Já não havia mais condições de garanti-la, em face da dinâmica social do país, e sua legitimidade, provavelmente inexistente desde sempre, encontrou vozes robustas para contestá-la e finalmente força suficiente para destruí-la.

Como devemos interpretar essas contradições? Houve efetivamente uma política café-com-leite? Houve, mas jamais se traduziu numa alternância “sistemática” de presidentes mineiros e paulistas durante a Primeira República. A contar de 1902, São Paulo conseguiu fazer apenas dois chefes da Nação: primeiro Rodrigues Alves, e só no final do período o carioca de nascimento Washington Luis. Júlio Prestes seria o terceiro, mas não se efetiva: é deposto pela Revolução burguesa de 1930. Minas Gerais, também, elegeu três presidentes, que foram Afonso Pena, Wenceslau Brás e Arthur Bernardes (Delfim Moreira não conta para efeitos práticos, visto que a Constituição exigia novas eleições nas condições excepcionais em que este toma posse, como vice do recém falecido Rodrigues Alves, único ex-presidente que se reelegeu para um segundo mandato, em 1915).

Fogem das previsões daquele pacto Nilo Peçanha, Hermes da Fonseca e Epitácio Pessoa, este, o único dos três nomes sustentado pela aliança, mas originário do Nordeste. Carone escreve que o político paraibano sentiu-se surpreso com sua indicação, pois tal coisa pareceu absolutamente excepcional numa época em que a região Sudeste era mais importante do que o Brasil. É o primeiro a tentar escapar desse confinamento, embora sem êxito, posto que sem apoio, pois é também o primeiro a sentir a imposição de uma política econômica diante da qual o presidente da República não tem poder algum.

Epitácio não pode ser fiel ao plano de paulistas e mineiros não apenas porque lhe atribuem um temperamento forte e individualista: a realidade nacional exigiu de seu governo novos e maiores compromissos, decorrentes da urbanização, da ascensão da classe média e do operariado. Fazia-se uma curva no tempo. Segundo Afonso Arinos, por essa época “os problemas políticos e administrativos passaram a ser nacionais e não mais se podiam conter na política oligárquica, dominada pelos Superestados. Em entrevista concedida na Europa, pouco depois de escolhido candidato das forças dominantes, Epitácio Pessoa trata do carvão e do ferro, do operariado e das leis sociais, para concluir: “Vejo o Brasil. Eu sou brasileiro antes de tudo.” Não era um político regional ou estadual.” (Afonso Arinos, “Problemas políticos brasileiros”, capítulo sexto.)

Deduz-se desta breve análise, primeiro, que no Brasil dos tempos da República Velha também existiu oposição – termo amiúde associado a correntes ideológicas divergentes, o que era de somenos importância na época -; segundo, Hermes da Fonseca (apoiado por Minas), Rui Barbosa (apoiado por São Paulo) e Epitácio Pessoa ((apoiado por ambos os Estados) evidenciam certa permeabilidade do sistema a nomes de fora do centro e, terceiro, a condição sine qua non para ser homologado nas disputas eleitorais, durante a época de nosso liberalismo, foi menos a origem estadual do que, na verdade, o acordo baseado na plataforma econômica dos grandes produtores do Sudeste. Neste sentido, a política café-com-leite designa não propriamente a origem dos governantes, mas a linha dos planos de governo - em particular as diretrizes econômicas -, os quais merecem a verdadeira atenção do historiador. A aliança entre os estados de Minas Gerais e Rio Grande do Sul, contrariando São Paulo, ocorre à primeira vez em 1909. Perigosa, em 1930 essa divergência culminou na Aliança Liberal e no fim de uma época, no Brasil.
 


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POR EM 08/05/2009 ÀS 01:20 PM

A honestidade como ficção

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A corrupção está, e essa é a verdade, por toda parte. Particularmente em agosto de 1954, está nas forças armadas mas também na imprensa, na imprensa mas também na indústria, na indústria mas também no governo, neste mas também na oposição. Não é um problema do parlamento e do governo, mas de toda a sociedade

Rubem Fonseca

Na madrugada de 24 de agosto de 1954, o então presidente da República, Getúlio Vargas, sacramentou com o próprio sangue a fama de raposa política. Houve uma crise institucional no país, e quando ninguém mais imaginava uma saída e se acreditou que a oposição enfim chegaria ao poder, Vargas conseguiu, uma vez ainda, e de forma trágica, surpreender seus golpistas. Para compensar o cadáver do major da aeronáutica Rubens Florentino Vaz e desequilibrar o jogo em favor já não de seu governo, mas de um estrategista excepcional, o presidente tomou a corajosa decisão de fazer de si próprio outro mártir. Matou-se com um tiro no peito. Tal como deve ter previsto a raposa, sobreveio a comoção de seus “filhos” e o ódio das ruas contra seus inimigos do presidente, o mais popular da história do Brasil até aquele ano. Vargas virou a mesa. Mais do que isso, virou fantasma. A União Democrática Nacional dançou pela segunda vez: perdeu a oportunidade de dar o golpe, fracassaria uma segunda vez nas eleições de 1954 e finalmente naufragaria no barco furado de Jânio Quadros, em 1961.

A União Democrática Nacional foi um excrescência da burguesia urbana brasileira, em meados do século XX. Tinha um grave problema de índole: o golpismo. Era um partido conservador, mas definido ideologicamente como liberal e profundamente antipopular. Nunca na história do Brasil os moralistas foram tão imorais, os honestos tão corruptos e os homens de bem tão malignos como no caso desse partido. Em retrospecto: a UDN surgiu em 1943 para se opor ao Estado Novo; depois de 1965 seus quadros transferiram-se para a Arena, um dos dois partidos artificiais criados pelos milicos (o outro foi o MDB). Em 1979, com a reforma partidária de Golbery do Couto e Silva e Petrônio Portella, a Arena recebeu o nome de PDS, de cujo ventre sairia, em 1985, o PFL, conhecido pelos eleitores contemporâneos como DEM. Um sensacional mutismo de epiderme. Vê-se pelo exemplo que nomes de partido não querem dizer quase nada, no Brasil: os democratas costumam ser autoritários, os nacionalistas tantas vezes entreguistas e os pretensos revolucionários não passam de golpistas.

Tenhamos apreço pela verdade, todavia: a UDN não foi uma voz isolada do golpismo, no Brasil. O golpismo é uma tradição mais antiga da república brasileira, sendo inaugurada precisamente a 3 de novembro de 1891 pelo gabinete Lucena, na última etapa do malfadado governo de Deodoro da Fonseca, o mesmo que instituiu o novo regime. O golpismo é também, infelizmente, uma tradição e uma mácula das forças armadas do nosso país, em particular do exército, cuja tutela sobre os civis encerrou-se há apenas 24 anos. É uma longa e tumultuada história, protagonizada entre outros pelo próprio Getúlio Vargas. O ex-presidente acendeu ao poder depois de um golpe, a chamada Revolução de 1930, sendo derrubado em 1945 também por um golpe, orquestrado pelo general Góis Monteiro, seu ex-ministro da Guerra. Rasgar constituições sempre foi uma tradição tupininquim. O desrespeito à lei, de modo geral, é próprio da cultura nacional: saia à rua durante uma hora e possivelmente testemunhará alguma infração e, se brincar, algum crime flagrante. É um mal da nossa sociedade, da qual a política é apenas o reflexo. Costumo dizer: os políticos são o bode-expiatório do mau-caratismo – mal ubíquo.

Creio que “Agosto”, romance de Rubem Fonseca, confirma essa tese. Não digo que ela corresponda à reflexão principal do livro, mas com certeza é a que lhe torna um romance bem brasileiro, tipicamente nacional. O desrespeito à lei foi talvez o pretexto para a criação de um belo personagem, Alberto Mattos, o protagonista do romance. De sua parte fictícia, pelo menos. “Agosto” é um romance histórico (e também policial) escrito por um autor contemporâneo, e narra duas histórias em paralelo à maneira tradicional, com começo, meio e fim. São as histórias de dois assassinatos: um fictício, em torno da morte do empresário Paulo Machado Gomes Aguiar, o outro real, sobre o atentado que vitimou o major Vaz. E suponho que haja dois vasos comunicantes principais entre uma narrativa e outra: o primeiro Gregório Fortunato, personagem real, e o segundo Vítor Freitas, fictício. Gregório é um dos três suspeitos pelo assassinato de Aguiar e, na verdade, apenas o desastrado capanga de Getúlio. Freitas, senador, o elemento que faz a ponte entre o governo e esquemas de corrupção empresariais. De um lado a ficção, de outro a história, no meio a amálgama.

A parte histórica de “Agosto” é quase uma reportagem jornalística, no estilo de exposição. É uma narrativa impessoal, objetiva, salvo quando cruza com a ficção, a mais das vezes em presença do casal Pedro Lomagno e Luciana Aguiar e do dito senador pernambucano. Homem do PSD, partido do presidente, Vítor Freitas lembra nossos parlamentares atuais, pois está se linchando para a fidelidade ideológico-partidária: é um oportunista, o político-padrão do Brasil, até hoje, que utiliza da delegação popular para se enriquecer no cargo. Não vale uma pitada de fumo.

Já Fortunato é figura indignada, disposta a matar em nome do chefe abandonado pela canalha, que se locupleta às custas do seu governo. Foi talvez o negro mais poderoso em toda a República e provavelmente da história do Brasil, até recentemente. Apesar de analfabeto, foi o elo de ligação entre o Catete e uma série de interesses escusos de grande monta, exercendo o tráfico de influência, além de suas funções ordinárias. Na versão de Rubem Fonseca, o Anjo Negro fala de igual para igual com empresários que negociam altas bagatelas em troca de favores oficiais, entre eles o todo-poderoso Euvaldo Lodi, capitão das indústrias de São Paulo e suspeito de encomendar o assassinato de Carlos Lacerda. O que impressiona é outra coisa: é o fato do homem não ter sido nenhum ministro de Estado, presidente de estatal ou algo que o valha, para justificar seu enorme poder e prestígio. Era apenas um reles capitão da polícia, chefe daquilo que os romanos chamariam de Guarda Pretoriana. Nada mais (ou nada menos?).

Gregório fez com Getúlio uma dupla invulgar, unida por uma cumplicidade levada às últimas consequências. É um caso a ser investigado: enquanto personagem é digno de uma biografia, padrão Fernando Morais. É pena que ele, diretamente, apareça pouco em “Agosto”, assim como o seu chefe, que se manifesta nove vezes apenas, e nem sempre com a palavra. O presidente é quase uma sombra, da qual temos não obstante consciência da triste agonia. “Agosto” é uma via-crucis sem alarde:
 
“Dentro, no modesto quarto, vestido com um pijama de listas, sentado na cama com os ombros curvados, os pés a alguns centímetros do assoalho, estava o homem que ele [Gregório Fortunato] protegia, um velho insone, pensativo, alquebrado, de nome Getúlio Vargas.”

Detalhe sórdido, este: “os pés a alguns centímetros do assoalho”. É evidente, no romance, a simpatia de Fonseca por Getúlio; simpatia esta corroborada pelo comissário Mattos, que odeia todos os canalhas e não poderia gostar da UDN. Mas o presidente, sobretudo nessa cena, vê-se transformado numa figura ligeiramente medíocre, num pirilampo de comicidade em meio a uma tragédia. A situação do governo Vargas era de fato periclitante: pela primeira vez, em 24 anos, o chão fugia dos pés do nanico líder da Revolução de 30. O fim chega para todos, e era o seu que beirava.

Há um ditado que diz que todo dragão dá origem a um São Jorge, que o mata. Não direi, para não incorrer numa inversão infamante, que o jornalista Carlos Lacerda é São Jorge, muito menos que Getúlio seja o dragão, mas o fato é que este justificou a vida daquele e acabou mesmo morto. Lacerda era o encarniçado e retórico porta-voz da UDN: “Agosto” é um “mar de lama”, conforme a máxima consagrada de nosso Lucio Sergio Catilina. Mas o que está em questão não é apenas um governo, embora assim pareça. O que está em questão é que o mar de lama consome a sociedade inteira. Rubem Fonseca não tem a ilusão da maioria de que todos os males do Brasil estejam na capital da República. A corrupção está, e essa é a verdade, por toda parte. Particularmente em agosto de 1954, está nas forças armadas mas também na imprensa, na imprensa mas também na indústria, na indústria mas também no governo, neste mas também na oposição. Um dos fundamentos desse estado de coisas – certamente não o único – é o desprezo dos homens pelas regras, do cidadão pela polis e pela res publica. Não é um problema do parlamento e do governo mas de toda a sociedade. Não só em 54 como em toda a história passada e quiçá futura.

“Agosto” faz lembrar o Brasil atual, aquele que culpa o Senado mas esquece que o Senado vai além do 81 senadores da República: o Senado é também – inacreditável! – os 7.000 servidores da casa, segundo números da revista Veja do dia primeiro de abril. Parte considerável desses servidores ocupa cargos políticos, é conivente, farta de mordomias e pronta a dizer, na primeira oportunidade: “os políticos não prestam!”, como se essa maioria de falsos moralistas prestasse. Não presta. Sarney é um reflexo de Agaciel, não o contrário, pelo amor de Deus! É cômodo e ilusório pensar que o Brasil vai mudar a partir de Brasília: mas, é óbvio que a raiz não está na copa.
 


O que há de ficção em “Agosto” mescla dois estilos diferentes: uma narrativa direta, marchetada por gírias e coloquialismos, alternada com diálogos dramáticos quase sem a intervenção onisciente do autor. Se cabe falar na “pós-modernidade” do livro, o fundamento certamente será encontrado não na estrutura romanesca, mas na linguagem, na adoção desse estilo híbrido, aprofundado e generalizado nas obras da geração atual de escritores, da qual aliás, no Brasil, Rubem Fonseca é reconhecidamente um dos mestres.

Pois bem. Do “mar de lama” que é a vida nacional, só escapa um cidadão – acredito que o termo “cidadão” enaltece nosso herói -, e seu nome é Mattos, comissário de polícia e fiel cumpridor da lei, tão fiel nesse propósito que logo se prova quixotescamente desajustado. Eis, acaso, como o enxerga Rosalvo, seu assistente policial:

“Na verdade, Rosalvo tinha medo do comissário. Estava certo de que Mattos não regulava bem, as caretas que fazia, a greve maluca que tentara promover, aquela coisa de sair desarmado nas diligências, e principalmente a mania de não levar grana do bicho – porra, o cara andava de lotação, nem automóvel tinha e desprezava o levado dos banqueiros! Era preciso tomar cuidado com o homem.”

Reparem: Mattos é obra de ficção. Ao contrário, o mundo está cheio de figurinhas como Rosalvo, como o capitão Ranildo e o Major Fraga, tipos vulgares que pululam o universo ficcional de Rubem Fonseca e a realidade. Para as pessoas desse naipe, é “preciso tomar cuidado com” a honestidade. Aliás, leia “Agosto” e chegue a uma conclusão terrível: esse mundo não foi feito para as pessoas honestas. Todo honesto é um pária, uma aberração que perturba a ordem natural das coisas. Paradoxalmente, as instituições humanas são sucetíveis ao contágio da corrupção e infensas às regras. A lei – essa camisa-de-força para conter a fera que Hobbes viu no homem - parece não ter serventia ou sentido: é uma extravagância. A lei é um artifício platônico: desceu das esferas ideais para tentar conter nosso impulso desagregador.

Numa dada circunstância, o comissário Mattos, após cumprir a lei num caso ordinário, leva o romancista ao seguinte questionamento: “Ele cumpriu a lei. Tornara o mundo melhor?” Provavelmente não, mas essa negativa não visa afrouxar a correção das pessoas de bem: o mundo não melhora, em boa medida, porque a lei que temos, a despeito de sua reconhecida imperfeição, não é cumprida democraticamente por todos. Mattos é um dos poucos que tenta ser fiel às suas prescrições, e seguindo-lhe os passos aprendemos que devemos fazer a nossa parte, independentemente dos outros. No romance de Fonseca, nem mesmo a instituição policial serve à lei, coadunando com a contravenção, o lenocínio e a corrupção. Em “Agosto” como na realidade, a banda podre da polícia existe e pratica a extorsão, a violência arbitrária, o abuso de poder e o assassinato: perturbador é que, no romance pelo menos, essa banda é a instituição quase inteira. Será assim na realidade?

A questão é que o aparelho de repressão do Estado é regido pelos mesmos instintos cegos que orientam o comportamento social geral. É por tal motivo que o mar de lama está não apenas nos sistemas de dominação mais explícitos ou grandiosos: a lama vasa para as relações privadas e familiares, até chegar ao indivíduo, uma porção deles, transformada em ratos e gatunos. O indivíduo, afinal de contas, é o problema essencial, não só em agosto de 54 quanto em qualquer tempo.

Trata-se de ontologia, em último caso. A visão que Rubem Fonseca tem do bicho homem é terrível e nada edificante – em que está longe de ser original, entre os escritores. A diferença sensível está no tratamento: esse bicho, quando você tenta ressumá-lo, abstraí-lo, revela-se literalmente uma excrescência pestilenta. Apesar de toda arrogância pueril, somos feitos de fezes, urina, suor, saliva, esperma, sangue e sei lá que outros fluídos nauseabundos. O que mais importa nessa constituição é o ser sensível, a matéria, o que não deixa de ser uma fatalidade. Esse, pelo menos, é o retrato que o naturalista tardio Rubem Fonseca pinta do homem. E não é só em “Agosto”: leia os onze contos perturbadores de “Os prisioneiros” – primeira coletânea do autor - e chegará à mesma conclusão.

Talvez a figura mais humana e até mais comovente dessa história é uma personagem menor: a prostituta Salete. Salete não é exatamente namorada de Mattos, por boas razões um solitário até o fim, mas em torno de cuja hospitalidade e bom coração giram as pessoas que prestam: sua ex Alice, o velho Emílio e a própria Salete, que é alguém com quem ele trepa e se solidariza. O drama da moça é igual ao de muita gente, não apenas os pobres e discriminados pela cor quanto os infelizes que padecem uma vaidade excruciante. Sua ignorância a absolve – e a nós – da consciência terrível que martiriza o pobre comissário. Só ela nos faz rir nessa história absurda. Só ela quer saber de dar e de receber amor: Salete é Eros perambulando por esse reino de Tanatos, sumamente representado pelo casal Pedro Lomagno e Luciana Gomes Aguiar. A high society é um luxo só, em compensação... Quanta vaidade, luxúria, assassinato, corrupção de menores, ultraje ao pudor, traição. O dinheiro pode dar alguma dignidade, mas não melhora o homem. Apesar do brilho, estamos aqui diante de criaturas taciturnas, egoístas, desvairadas e repugnantes.

Rubem Fonseca, se não acredita no homem em geral, acredita que algumas pessoas em particular podem ser boas e movidas por sentimentos dignos. Surpreendentemente, o bicho homem não é apenas carne e fluidos biológicos: também pode ter valores, princípios morais, espírito quem sabe. Pode apesar de tudo conhecer a ética, a generosidade, a sensibilidade e a compaixão. O arquétipo Mattos chega a ser idealista, no afã de libertar os presos e repensar o sistema prisional. Mas Fonseca, já um naturalista espiritualizado, não demonstra otimismo por isso: seu herói se fode e é fodido, e termina fuzilado junto com Salete pelo tipo comum – aliás, o tipo comum da pior espécie, aquele em nome do qual, apesar de tudo, Mattos lutaria por justiça. Não o fez em nome de outro criminoso, Turco Velho? Faria em nome de Chicão, vulgo de Francisco Albergaria (o “F” do anel encontrado na cena do crime fictício, no edifício Deauville). Por ironia, quem acaba com o Mattos e Salete é o mesmo Chicão, assassino procurado pelo comissário desde as primeiras páginas. E assim assistimos à desforra da mediocridade contra a nobreza, do crime contra a lei, dos maus contra os bons.

O funcionamento normal do mundo é vil. “Agosto” se parece demais com o nosso mundo.
 


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POR EM 13/04/2009 ÀS 05:04 PM

A Lula o que é de Lula

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Não sei onde, a não ser em cabeças muitas singelas, um burro consegue sair do nada, criar o único partido orgânico do Brasil — e um dos dois mais importante da América Latina —, virar presidente da República e, de quebra, se tornar uma liderança internacional

Por princípio, sou contra o culto da personalidade, prática tão peculiar ao totalitarismo. Na política brasileira – de uma história afinal tão pouco democrática – os homens sempre foram mais importantes do que as causas, desde o incompetentíssimo Deodoro da Fonseca, o primeiro líder de nossa república de araque. Desde 1984 o Brasil consolidou um novo estágio de seu desenvolvimento político, não obstante continuamos ressentindo a prevalência de uma regra inquestionável para a duração máxima do mandato presidencial. A Constituição de 1988 estabeleceu quatro anos, prazo que não resistiu à conveniência (a emenda para a reeleição de FHC), e até hoje se discute o que é melhor. Pessoalmente, não sou contra a emenda FHC, sou contra essa discussão não ter fim. Defendo a manutenção de quatro anos com direito à reeleição, tempo razoável para se realizar um projeto. Além do mais, se o cara for bom, porque não conceder-lhe o direito de concorrer a mais quatro anos? Passou daí é personalismo.

Lula é um grande presidente, mas sou contra um terceiro mandato seu ou que retorne daqui a seis anos. Num caso e no outro, trata-se já de culto à personalidade, uma vez que não atravessamos uma conjuntura excepcional (uma guerra, por exemplo, o que justificou três reeleições, nos EUA, de Roosevelt, durante a Segunda Guerra Mundial). O maior benefício de não insistirmos nessas aventuras é cultural: podemos eventualmente até abdicar de um líder de primeira grandeza, mas ganhamos a sensação de que nos tornamos um país maduro, regulado pela constância. E, afinal, o país deve (e é) mais importante do que suas pessoas públicas.

O lulismo existe, e é mais forte do que o petismo. Com efeito, o PT não é tão republicano quanto é democrático. Tem o mérito de ser o único partido no país, dos 27 inscritos no TSE, que faz eleições diretas em todos os municípios e estados, para escolher seus dirigentes. O problema é que se confunde exageradamente com seu presidente de honra. Não fosse Lula ter desejado que em Goiânia o partido se unisse a Iris Rezende, é provável que a voz do bom senso prevalecesse e o PT disputasse a prefeitura. Bom senso, sim: manter-se-ia programático e escaparia à tese dos eleitoralistas. Em tempo: com o aval de Delúbio Soares, Neyde Aparecida e Osmar Magalhães, em 1998 o PT, PCdoB e PDT emitiram um documento (“Eleger Marconi é derrotar o continuísmo e o autoritarismo”), dizendo (não bastasse o título) que “a vitória de Iris Rezende significa a continuidade de um governo que tem trazido graves conseqüências para os interesses do povo e dos trabalhadores de nosso Estado.” Não se sabe bem porque, o “continuísta inimigo do povo” virou santo na última eleição municipal, para as pessoas listadas e seus delegados. 

Feitas essas ressalvas, deve-se não obstante reconhecer de uma vez por todas a inteligência de Lula. Dia 2 de abril, no encontro do G-20, em Londres, a estrela de Luís Inácio Lula da Silva brilhou mais uma vez. Lembro-me ainda quando, em suas três primeiras tentativas de se tornar presidente, um monte de pessoas se perguntava se esse cidadão era capaz não só de administrar o Brasil quanto de representá-lo no exterior. Afinal de contas, o homem era “analfabeto”. Ainda quando, em 2001, ele ganhou a presidência, certos setores da mídia e da opinião se perguntavam se Lula estaria “preparado” para a função de presidente (não me recordo que tenham posto em dúvida a competência de Collor e FHC). O pressuposto é de que o cara num tinha um canudo pra ostentar e, que pena, não sabia “falar inglês”. Nossa, como éramos (e talvez ainda sejamos) medíocres!

Em 2005, antes de José Dirceu cair fora, muitos achavam que era Zé Dirceu quem mandava nessa joça e, por tabela, no presidente. Zé saiu e achavam que o barco fosse afundar porque, afinal de contas, “Lula é um burro, num sabe de nada, coitado”. Coitados. Não sei onde, a não ser em cabeças muitas singelas, um burro consegue sair do nada, criar o único partido orgânico do Brasil - e um dos dois mais importante da América Latina -, virar presidente da República e, de quebra, se tornar uma liderança internacional. Se isso é fruto da burrice, gostaria de ser burro, e se não é inteligência, não sei que nome dar.

Da mesma forma que a escravidão explica a situação do negro no Brasil, ainda hoje – chegamos ao ponto de institucionalizar a discriminação para promover a ascensão social dos negros! -, a escravidão explica também o preconceito contra o trabalho manual e este, por tabela, explica o preconceito contra Lula. Ainda que tenha se tornado presidente de um país imenso, o fato é que Lula é “um reles torneiro mecânico”, na idéia de muita gente, por aí. Constrangedor, mas é a opinião inclusive de muitos que cursaram até a universidade (Harvard deve mesmo fazer a diferença...). É bem a mentalidade estúpida que trouxemos de Portugal nas caravelas, e que fez deste país um arremedo de sociedade séria. É a nossa história. Fernand Braudel, eminente historiador francês do século passado, tem razão: a mentalidade é parecida com as formações geológicas da terra: muda, mas como custa!

Pessoas de QI mais elevado sempre pensaram diferente do senso comum, a respeito de Lula, inclusive rivais de outros tempos. Numa das entrevistas que deus às páginas amarelas da Veja, o falecido Olavo Setúbal (ex-fundador do Banco Itaú), disse com todas as letras que “Lula é um gênio político”. Um gênio político não precisa gostar ou entender de outros assuntos: há, por exemplo, muitos grandes artistas que não gostam de política. Serão burros, por isso?

A última foi proferida por Barack Obama, na Cúpula do G-20: flagraram o presidente dos Estados Unidos dizendo ao primeiro-ministro australiano, Kevin Rudd, que “Esse é o cara. Eu adoro esse cara. Ele é o político mais popular da Terra.” Por boas razões, o político mais popular da terra é o próprio Obama, e além disso pode-se alegar que a circunstância era informal e descontraída. Convenhamos, porém: Obama não precisaria ter dito isso, se não enxergasse em Lula um expert, provavelmente um exemplo adequado para uma era pós-Bush. Não é bobo. Rudd, por sua vez, emendou com um comentário não menos interessante: o presidente brasileiro é “o mais popular em mais tempo de mandado”. A popularidade de Lula é realmente uma raridade, como ele mesmo. O povo gosta de Lula, que muitos acreditavam, inteiramente equivocados, ser um “comunista comedor de criancinhas”. Lula nunca foi comunista: se brincar tem até uma queda pelo liberalismo.

Mas apesar da consagração de Lula, apesar das retumbantes evidências em contrário, um monte de num-sei-o-quê insiste na burrice de Lula.  Todo mundo conhece um monte de num-sei-o-quê (eu conheço vários, todos eles ignorantes). Mas, “quem é” num-sei-o-quê, ninguém sabe. Verdade seja dita: Lula está há anos-luz dessa gente. A começar pelo cérebro.
 


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POR EM 30/03/2009 ÀS 05:49 PM

A origem social de Bentinho

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Em “Dom Casmurro”, a influência religiosa articula-se muito claramente com o desastre conjugal de Bentinho, símbolo talvez dos efeitos deletérios da moralidade religiosa, especificamente católica, sobre o destino familiar

É consabido que o texto de Machado de Assis, a despeito de sua inesgotável qualidade puramente estética, presta-se muito bem a múltiplas interpretações. Se se trata de identificar a “função primordial” de um romance, pode-se concluir que certas abordagens não correspondem ao seu objetivo maior, e nem seria o caso. Devemos ler sobretudo para nos deleitar com a linguagem, que é a via de acesso à psicologia dos personagens. Ou seja, se a linguagem funciona, se consegue com seus recursos instigar e convencer o leitor, então temos heróis bem constituídos e um parâmetro seguro para avaliar com justiça o trabalho de contistas, novelistas e romancistas. Artistas são o que são e não pretendem ser outra coisa: a beleza continua definindo o seu propósito, acima de qualquer outro. É assim também com Machado de Assis, artista supremo.

Mas o romance, muito ao contrário da poesia lírica, é um gênero que intercambia particularmente com a realidade objetiva, e não há como ou porque fugir dessa característica essencial: se também ela revela aspectos interessantes, o que justificaria omitir sua análise? Pensemos nas categorias de tempo e lugar. Ambas são intrínsecas àquele gênero, e se quisermos podemos abstraí-las nos livros de nosso romancista com a finalidade de compor um conjunto explicativo da vida íntima de suas criaturas. Podemos também subtrair dessa relação um entendimento do que seria o ponto de vista da burguesia urbana de meados do século XIX no Brasil, tanto quanto sua interação com outras camadas da população.

Como qualquer outro contexto, o da crítica vive de extremos: de um lado os que reivindicam a determinação dessas relações sobre a obra de arte (exemplo do marxismo ortodoxo), de outro os que propugnam a autonomia da arte, presos a um formalismo igualmente improvável (exemplo do new criticism).

É tanto mais óbvio, pelo contrário, que tanto as relações sociais quanto a subjetividade são realidades tangíveis, atuando em conjunto: toda e qualquer obra de arte é uma amálgama dessa relação inescapável, invariavelmente tensa. Essa relação – e não apenas um dos seus termos – explica porque mesmo a poesia de nossa época difere da de um século atrás. Com efeito, se uma ou outra vertente parece preponderar, a razão há de ser encontrada nas convicções ideológicas e no temperamento do artista e do crítico, não na obra em si, qualquer que seja ela – o que a princípio não desabona uns e outros, desde que prevaleça a honestidade. E não é preciso concordar para enxergar a honestidade: basta bom senso. A filosofia chinesa ensina que o melhor caminho é o do meio, mas, como diria Carlos Drummond de Andrade, cada um prefere enxergar consoante seu capricho, sua ilusão e miopia.

Pois bem. O lugar social das personagens machadianas em “Dom Casmurro” podem, e provavelmente implicam, o destino do herói. Bento Santiago compõe a burguesia urbana do Segundo Império. Muda-se do meio rural para a cidade do Rio de Janeiro (capital do Brasil desde 1763, quando o eixo econômico nacional desloca-se para o Sudeste e acentua-se o conflito com os espanhóis, em função da delimitação de fronteiras no extremo sul do país). Sabemos que a classe dominante em todo esse período, e até muito depois, era a aristocracia rural, não a classe média liberal e comerciante dos personagens de “Dom Casmurro”, que nem por isso deixam de cogitar as carreiras políticas. Esses estratos em ascensão terão de esperar a década de 1870 para que suas aspirações comecem a balançar o edifício social hegemonizado pelo setor agrário. Um Quintino Bocaiúva e um Aristedes Lobo, homens letrados e influentes, seriam talvez as vozes efêmeras dessa camada, fora do plano fictício. (Fundamentalmente porque, no dizer dos marxistas, não controlam os meios de produção).    

Em meados do século XIX, a fonte de renda dessa camada social média pode ser tanto o aluguel de escravos (conforme o Cap. XCIII), quanto a propriedade imobiliária – não confundir, aqui, com o domínio da terra; das grandes unidades de produção monocultoras – , mas o esforço pessoal, por meio das profissões liberais, concorre para explicar a origem de sua existência material. O pai de Bentinho foi deputado imperial e advogado; ele próprio termina advogado, num período de nossa história em que o bacharelismo seduzia já os espíritos, convergindo os interesses profissionais de sua classe, desejosa de status. Era uma vida sem necessidades; pelo contrário, até de luxos, tanto que o herói e a família – à parte as motivações dramáticas – passeiam à Europa, e na Suíça instala-se Capitu às expensas do marido, até a morte. O intercâmbio com a cultura européia, especificamente francesa, exerce sua influência no comportamento dessa classe média, reparado com acuidade pelo autor no simples modo de caminhar das damas pelo passeio público, nas ruas da capital federal. O costume merece de José Dias (não obstante, ele mesmo um amaneirado) esta reprimenda:

“ – Este gosto de imitar as francesas da Rua do Ouvidor – dizia-me José Dias (...) – é evidentemente um erro. As nossas moças devem andar como sempre andaram, com seu vagar e paciência, e não este tique-tique afrancesado...” (Cap. LVIII)

“vagar e paciência...” – seria este o modo particular de nossas moças! Tipicamente brasileira, a família do herói é um cadinho cultural e social que explica a absorção fácil de elementos alienígenas, não só genericamente em solo pátrio quanto no recinto doméstico. Além dos parentes consanguíneos, existem em seu seio os agregados vivendo de algum ordenado ou “casa e comida” – caso de José Dias. Com base na estruturação econômica tipicamente brasileira (a fazenda de engenho), pode-se dizer que a mistura entre pessoas da família e estranhos a ela, convivendo sob o mesmo teto, era lugar-comum há séculos. José Dias, em particular – esse personagem que Vianna Moog considera “o primeiro símbolo histórico completo da malandragem nacional” (cf: “Bandeirantes e pioneiros”, cap.V), auxilia nas tarefas miúdas do lar, no cuidado das crianças, podendo divertir “ao serão e à sobremesa”. O retrato que Machado pinta do agregado é, a despeito dos traços individuais que caracterizam seu coadjuvante, alguém que exerce influência moral sobre família, nesse aspecto visivelmente liberal: “com o tempo, adquiriu certa autoridade na família, certa audiência, ao menos”. Há obviamente uma hierarquia que Bentinho, em particular, deixa claro existir, quando nele a vontade fala mais alta que a timidez.

Além dos agregados, há em cópia os escravos, que trabalham em casa ou nas ruas vendendo doces, a lembrar as gravuras de Debret nesta cena (de lambujem, reparem o português “modernista” a lá Oswald de Andrade):

“Tínhamos chegado à janela; um preto, que, desde algum tempo, vinha pregoando cocadas, parou em frente e perguntou:
– Sinhazinha, qué cocada hoje?
– Não – respondeu Capitu.
– Cocadinha tá boa.
– Vá-se embora – replicou ela sem rispidez.
– Dê cá! – disse eu descendo o braço para receber duas.”

O trato humano, aí, parece ser dos mais cordiais: na vida cotidiana a escravaria é inteiramente integrada à existência familiar, e aparentemente dócil na relação com os proprietários brancos, confirmando em certa medida Gilberto Freyre (tão criticado, por exemplo, por Roberto da Matta, que duvida da chamada “democracia racial”). Mas fica naturalmente a impressão de que, se o agregado é “de dentro”, o escravo é “de fora”, apesar de frequentar a casa e exercer atividades domésticas. Em “Dom Casmurro”, o preto é o melhor amigo do homem: está no terreiro; chama-o e lhe vem servir, todo coração. Não se trata de juízo de valor, pejorativo ou não: é a apenas a impressão que a obra dá.

Um terceiro elemento presente nas relações familiares, menos encarnado num tipo e mais simbólico, é o religioso. Padre Cabral é a encarnação da Igreja, em “Dom Casmurro”. A vida feminina e a da infância à adolescência parecem estar particularmente sujeitas à sua vigilância onipresente. Dona Glória e Bentinho não participam do mundo exterior menos quando vão aos vizinhos ou à missa, esta um de seus únicos recreios de maior pompa. Quando não comparecem à celebração religiosa, é a Igreja que vem visitá-los, na figura do padre. Dá-se assim a influência da instituição católica na formação da família de Bentinho, aliás a mais marcante nesse romance e por certo decisiva. O mesmo Vianna Moog observa que a vocação religiosa foi, no Brasil, sempre um problema para Igreja, à falta de ambiente propício: “E como haver tais ambiências, se toda a história do Brasil reflete os trunfos do Império sobre a Fé?” De fato, Bentinho é desprovido de vocação para o seminário: esta é um produto do que Freud chama de superego, isto é, Dona Glória, José Dias e Padre Cabral conjugados. 

O catolicismo já foi acusado pelas interpretações culturalistas da história por quase todas as mazelas da formação brasileira, em contraste com o que aconteceu na América do Norte, sob o influxo do protestantismo calvinista. A conclusão do leitor, ao ler “Dom Casmurro”, não é mais generosa com nossa matriz espiritual.

A presença de um sacerdote é constante e íntima em casa de Bentinho, até porque é conselheiro maior e autoridade espiritual, porque não dizê-lo, de uma importante parcela da Nação. A idéia de culpa, associada a essa relação, parece ser muito presente no espírito individual das pessoas. Tomando por base Dona Glória e Bentinho, os destinos individuais nessa camada tomariam rumos amiúde alheios aos interesses das pessoas: a mãe, não fosse a promessa e a culpabilidade, eximiria o filho de um compromisso seu e não dele; ele, de sua parte, cumpre o desígnio muito mais compungido por obrigação moral do que por vontade própria. Ao fim e ao cabo, desiste, mas a Igreja não fica sem sua parcela, apesar da perversidade: imolam um órfão obscuro e todos aliviam a consciência: Dona Glória, Bentinho, Escobar – que deu a idéia – e, é claro, o “Protonotário Apostólico”.

Em “Dom Casmurro”, a influência religiosa articula-se muito claramente com o desastre conjugal de Bentinho, símbolo talvez dos efeitos deletérios da moralidade religiosa, especificamente católica, sobre o destino familiar. Os instintos do herói são reprimidos por sua formação, uma vez que a mãe leva-o à Igreja desde criança, no intuito de acostumá-lo à vida meditativa e sacerdotal. Machado não deixa, porém, de apontar os instintos reprimidos por meio das taras do aspirante a religioso: numa das páginas mais escandalosas do livro – também, uma das páginas mais sarcásticas ou irônicas –, Bentinho, em companhia do agregado, testemunha a queda de uma dama afrancesada que deixa à mostra suas meias e ligas azuis. O erotismo invade e naufraga a alma do menino, que padece autênticas tentações de Santo Antão: “Dali em diante, até o seminário, não vi mulher na rua a quem não desejasse uma queda...” (Cap.LVIII)

Mas suas taras são reprimidas em benefício da promessa materna e o herói persevera em seu destino, moldando-se pela beatitude, pela pureza ingênua que um dia lhe trai, embora a sexualidade permaneça latente e, com frequência, excessivamente graciosa. Quando extravasa, tende naturalmente a exagerar, daí o ciúme, talvez justificável porém doentio. Por não conseguir desvencilhar-se do compromisso da mãe, Bentinho por fim provoca a ira de Capitu, que se ofende e disputa com D. Glória o amor do adolescente. O fato desencadeia a promessa que há um século atordoa os leitores: “Olhe, prometo outra coisa; prometo que há de batizar o meu primeiro filho.” (Cap. XLIV) Não seria esta – quero dizer, “o compromisso religioso de mãe e filho” - a origem da traição sexual, se houve? Não fosse a influência religiosa – persistente, incisiva - poderia até haver traição por outros motivos, mas não haveria a frustração de Capitu “em função” dessa disputa, nem seminário muito menos Escobar. Quem sabe os protagonistas até viveriam felizes para sempre. É uma conclusão razoável, das muitas possíveis.
 


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POR EM 15/03/2009 ÀS 01:50 PM

Justiça a Harold Bloom

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Bloom não tem ilusões quanto ao nosso destino: a morte é universal e contempla a todos. A única maneira de termos algum conforto é nos conhecer melhor com a ajuda de instrutores qualificados. E se eventualmente algum de nós é dotado de talento literário, ler e escrever são meios possíveis de alcançar a imortalidade, ainda que apenas na memória

Já li toda a espécie de malhação para cima de Harold Bloom. Muitos de seus críticos desconfiam de suas análises e de sua qualidade. O fenômeno, que é também editorial, seria mesmo um simples “modismo”, consoante Fábio Lucas? Pessoalmente, acho que não: podemos até discordar do formalismo do crítico norte-americano, mas não dá pra dizer que o cara seja rasteiro, desinformado ou mal intencionado.

Esta é a segunda vez que escrevo sobre Harold Bloom, desta vez para fazer-lhe justiça. Pergunto-me quem somos nós para tanta pretensão; de qualquer modo, se um dia publiquei uma crítica parcial, talvez seja honesto corrigi-la, o que não significa necessariamente concordar. Não estou certo de que tenha errado inteiramente da outra vez – quando, num ensaio chamado “A língua canônica”, interpretei “O Cânone Ocidental” como uma espécie de imperialismo cultural por meio de escritores da língua inglesa (por outras palavras, achei justamente que o crítico em questão fosse mal intencionado e servisse aos interesses do “mal”).  Dessa primeira impressão para cá – já se passaram mais de dez anos – reli Bloom e alguns dos escritores que canonizou, e avalio que, se cometi alguma injustiça com ele, foi a de ter julgado seus defeitos e esquecido seus méritos. Com efeito, não retiro muitas das coisas que disse anteriormente, mas acrescento algumas que descobri mais tarde e que permitiram-me compreendê-lo de maneira mais integral e portanto mais justa. Reler é sempre indispensável, e foi fundamental neste processo.    

Minha conclusão é a seguinte: o melhor caminho para se conhecer o ensaísta Harold Bloom não é ir direto à leitura pessoal que faz de cada escritor, onde menos se expõe e mais os outros. Deste último caminho deriva, talvez, o equívoco de só associá-lo ao culto secular, e talvez exagerado, de Shakespeare. Sobre essa influência deve ser dito logo: lidas com atenção, percebe-se nas entrelinhas de Bloom que nem todo mundo foi arrasado pelo dramaturgo, conforme sugere uma primeira leitura de seus livros. O crítico parece concordar que a literatura francesa – a única que talvez rivalize com a inglesa -, é bastante original. Montaigne, Molière e Proust são relativamente alheios ao fenômeno em questão: “Montaigne entreouve-se, como Hamlet e Iago; isso é precisamente o que os protagonistas de Molière não farão.” O primeiro repete na vida o que o Hamlet repetiu na ficção, mas sequer tomou conhecimento da existência do bardo elisabetano, ao passo que o segundo teria sido totalmente infenso à maior invenção shakespeariana. Quanto a Proust, cuja capacidade de representar a “personalidade” e o “amor sexual” rivalizariam com a do poeta inglês, escreveu Bloom: “Proust jamais dá ao ciúme uma ancestralidade literária”, excluindo até mesmo o todo-poderoso Sigmund Freud desse mérito.

Os escritores analisados por Harold Bloom dividem-se entre os que foram influenciados fortemente pelo poeta ou que têm força quase ou propriamente “shakespeariana”, deixando claro que a originalidade comporta mais gente. Kafka é um desses casos, e provavelmente Goethe. A força de Shakespeare estaria sobretudo na construção de personagens – em particular Falstaf e Hamlet. Ora, como avaliar que Kafka ou Jorge Luis Borges são canônicos a partir desse critério? Simplesmente não faz sentido, em que pese os gêneros de apreciação do crítico, nesses e em muitos casos: contos e aforismos, onde não há espaço para construções dessa ordem. Quem, segundo Harold Bloom, sentiu todo o peso de Shakespeare nas costas foi realmente a própria literatura inglesa: Wordsworth, Becket, Milton, Virgínia Wolf etc. Fora da Grã-Bretanha, alguns nomes teriam sofrido o mesmo impacto: norte-americanos, Freud e Tolstoi principalmente. Daí em diante a influência do dramaturgo, se não acaba, tende a ser minimizada.

Como dizia, a idiossincrasia bloomiana pode ser melhor apreendido longe de seus estudos particulares: nós o enxergamos melhor nas suas introduções e epílogos, e pode ser que “Uma elegia para o Cânone” ou “Conclusão Elegíaca” sobrevivam como seus textos fundamentais. São panfletos, onde o crítico revela intensamente tudo o que pensa. Serenamente, não há como não concordar com muitas dessas revelações. Harold Bloom é um bravo, e qual o problema em reconhecer isto? É, como se diz, um dos últimos moicanos; um devoto entrincheirado, resistindo ao avanço impiedoso dos inimigos. Seu empenho é muito nobre, indicutivelmente: defender uma deusa (afinal, a literatura tem devotos religiosos) muito digna mas seriamente ameaçada, e a única arma de que dispõe para fazer isso é a crítica. Seu gesto é cativante. Ele acredita em seu propósito e na força da palavra escrita. Pena que, paradoxalmente, não tem muitos motivos para acreditar nos homens nem em sua própria época. Não é um otimista.

O diagnóstico de Harold Bloom é preocupante, e tem a mácula, já, da nostalgia. O que ele constata de mais importante é o obscurecimento gradativo da arte literária e de seus gênios, com sérias consequências para o desenvolvimento da personalidade individual. O cânone existe porque, parece, a literatura sobreviverá à ignorância, porém seu público está fadado a ser cada vez menor, cada vez mais escasso. O mundo fatalmente descobriu novos prazeres e divertimentos, desviando as pessoas da preocupação essencial com o autoconhecimento, salvo quando se trata de livros de auto-ajuda ou charlatania. Sabemos que a arte é um dos pilares da gnose. Quem discorda que o propósito último da grande literatura de ficção é nos dar a conhecer melhor? Ela é povoada de pessoas cujas paixões e sentimentos - iguais aos nossos -, são dissecados pela sabedoria. Mas, infelizmente, na ótica bloomiana, ninguém quer mais perder tempo com o espelho da alma. Romances sutis e volumosos, poemas clássicos – tenho um Milton de capa dura que mais parece uma joia de museu! – ou dramas escritos perdem adeptos a cada dia, posto que o materialismo tem desfeito o interesse do homem por aquilo que Machado de Assis compara a uma casa: o seu interior. Sócrates e outros luminares parecidos mais do que nunca estão ficando fora de moda, pois além do interesse faltam tempo e paciência a uma sociedade cujo grande ilusão é o dinheiro, seguido, parece, do culto quase religioso mas inútil do corpo.

Bloom não tem ilusões quanto ao nosso destino: a morte é universal e contempla a todos. A única maneira de termos algum conforto é nos conhecer melhor com a ajuda de instrutores qualificados. E se eventualmente algum de nós é dotado de talento literário, ler e escrever são meios possíveis de alcançar a imortalidade, ainda que apenas na memória. É possível que o que mais importa, em nós mesmos, sejam de fato os nossos pensamentos e opiniões, pois são a única coisa humana potencialmente indestrutível. Tudo o mais, nos termos do “Eclesiastes”, é vaidade e vai desaparecer. Será difícil concordar com o óbvio?

Em “Como e Por Que Ler” Bloom teme pela perda da ironia. O que talvez muitos não percebam é que Bloom é, ele próprio, um talentoso ironista. Presumo que não seja verdade que ele, evasivo, odeia a política e necessariamente a história, embora toda a sua argumentação constitua um ataque poderoso contra tais questões. Em “Grande Sertão: Veredas” – romance que Bloom deveria ter lido – Riobaldo reflete sobre o Demônio, afirmando que “Quem muito se evita, se convive.” A política pode ser um dos demônios que obsedam o crítico novaiorquino. Suspeito, portanto, que para a sorte comum ele não consegue ser tão emersoniano como se declara e até gostaria de ser. Ao fim e ao cabo, o que sobra de suas alegias e reclames? Um militante fervoroso em favor da literatura, e sua voz desesperada não deixaria necessariamente de ecoar nas instituições de ensino mais sérias, motivando corações e mentes apaixonados como ele por aquilo que o tempo já testou: o poder de um livro bem escrito.

Embora odeie o culturalismo, Bloom sabe que este poder transcende povos, culturas e gêneros taxonomicamente literários. Em meio a uma nova guerra civilizacional entre ocidentais e muçulmanos, ele surpreende ao defender a leitura do livro sagrado dos antípodas da Casa Branca, o “Alcorão”, obra “verdadeiramente importante para todos nós”, até porque “o islã há de exercer crescente influência sobre nossas vidas, seja nos Estados Unidos ou no resto do mundo.” Não sabemos se é verdade, mas é uma previsão incômoda para o fanatismo calvinista e pertinente do ponto de vista político. Em contrapartida a este elogio, o crítico não cansa de alfinetar o ex-presidente, George W. Bush, fazendo coro à onda mundial contra o neoconservadorismo republicano. Por incrível que pareça, Hussein Obama, o “esquerdista”, teria mais a ver com ele do que o branquelo do Texas.

Haverá de existirem adeptos dos livros bem escritos, apesar de tudo. Se cremos que a arte é a educação dos sentidos, então em matéria de política cultural Harold Bloom não poderá deixar de ser lembrado, penso eu. Pelo que sei, nas universidades brasileiras a subliteratura é também prestigiada, a exemplo do que acontece em Goiás. Ao invés dos clássicos – Camões, Dante, Proust etc. – dá-se sempre um jeito de meter um autor de segunda ou terceira categoria nos vestibulares, apenas porque trata-se de um “valor regional”. As perguntas que ficam são: ao denunciar esse tipo de coisa, Bloom está errado? Por quê? E o que o vestibulando ganha com um autor de terceira que não ganharia lendo Homero? Talvez o problema seja não a intromissão da política nas academias, mas a renúncia dela por parte daqueles que acreditam na importância dos cânones literários, que natural e forçosamente existem. Não é este um meio de deixar o caminho livre para a ação de seus inimigos?

Em última análise, a ogeriza de Bloom contra a ideologia procede, embora seja chocante em função dessa renúncia sobrecarregada de niilismo. Estamos de acordo em que não se deve nivelar por baixo, simplificando, e é verdade que os oprimidos não passarão a ler apenas porque algum autor identifica o conteúdo de sua arte com os problemas de determinada classe social. Pode-se duvidar que Brecht, Maiakóvski ou João Cabral de Melo Neto tenham tido maior sucesso entre os oprimidos do que Joyce. Pode-se duvidar, também, que alguém, algum dia, encontrará um meio de tornar a humanidade feliz, ainda que não possamos jamais condenar aqueles que o tentarem ou tentaram, o principal deles um humanista inexcedível, Karl Marx. Oxalá haja muitos Marx, não porque devamos concordar com eles, mas porque têm esperança na humanidade. O que ganhamos em não ser esperançosos, o ânimo ou o desespero? A ataraxia é improvável e seria perturbadora. Só nos resta ter esperança.

Eu dizia que, depois da primeira crítica contra Bloom, li alguns autores que canonizou e fui obrigado a reconhecer que, se temos autores de primeira plana em paises como o Brasil, certamente não os temos em tamanha profusão como na Europa. Além disso, é preciso ler Montaigne, Proust e o próprio Shakespeare se quisermos ter um parâmetro exato para qualquer julgamento literário menos débil, inclusive em relação aos autores pátrios. Outra vez a história tem o que ensinar, independente de Emerson: é natural que o velho mundo tenha mais em quantidade e qualidade, se comparado à recente constituição, por exemplo, da literatura brasileira, que só adquire autonomia verdadeira com os românticos, passando por José de Alencar e afirmando-se definitivamente apenas com Machado de Assis, há cem anos. Por outras palavras, não temos a tradição histórica de culturas de 500 ou de mil anos, como também não a têm os Estados Unidos. Somos, uns e outros, relativamente novos nesse palco, onde a competição é milenar.

“Gênio”, uma das últimas obras de Bloom, provou que o crítico de Yale é menos unilateral e estúpido do que supúnhamos. Ali ele faz inteira justiça a grandes nomes da língua portuguesa – a Eça, Camões, Pessoa, Machado de Assis e ao próprio Saramago. Este, segundo ele, só não foi contemplado em seu livro pelo fato de estar vivo, reconhecendo-lhe não obstante a condição de “maior escritor” em atividade. Bloom obviamente desprezaria as infelizes comparações da revista “Time” (cf. revista Veja de 21 de outubro de 1998) sobre a premiação de Saramago com o Nobel, pois é da opinião de que foi um dos poucos laureados que conferiram “dignidade” ao prêmio, ao lado de Octavio Paz. Devemos então ser honestos e reconhecer que Bloom não é ignorante ou autista como muitos de seus compatriotas desinformados. Outra coisa é que hoje compreendemos melhor os critérios de “estranheza e sublimidade”, de que se valeu para escolher seus canonizados, nos anos 90. São critérios de uma disciplina esquecida, a Retórica, e portanto menos subjetivos do que imaginávamos há dez anos, quando não tínhamos essa informação.

Embora o debate atice as vaidades, Bloom está correto também ao insistir que tenhamos uma lista para ler – um cânone, pessoal que seja -, e seu argumento é inatacável: nem de longe teremos tempo para ler tudo; logo, leiamos o que reconhecidamente presta. Quem negará Tostoi, Machado de Assis, Flaubert, Virgínia Wolf? Estou particularmente convicto de que a leitura árdua que o crítico sugere é a única que realmente funciona. Eu mesmo aprendi a ler e a escrever, em parte, lendo suas leituras, e confesso que tenho, hoje, mais gosto pela literatura e mais respeito por nomes como São Paulo e Emily Brontë. Não duvido, tampouco, que Dom Quixote e Sancho Pança confundem-se com a realidade, embora sejam fantasia.

Ao contrário de Bloom, discípulo de Walter Pater e Dr. Johnson, sou dos que acreditam que o esteticismo puro e simples não existe, e que o meio social inevitavelmente condiciona a arte. Meu ponto de vista crítico combina mais com o de Alfredo Bosi e Carpeaux. É óbvio, por exemplo, que a língua inglesa e os nobres feudais que caracterizam as peças de Shakespeare estão lá porque esta era a sociedade do poeta, não por causa de suas idiossincrasias. Até que ponto isto é acessório é outra questão. Tampouco esperamos que o pessimismo de Bloom (que é em parte o nosso) cultive adeptos. Termino acreditando que a ação é o antídoto único e inevitável contra as ameaças que nos cercam de todos os lados, inclusive contra o abandono da boa literatura e da suposta extinção dos livros por alternativas virtuais e menos sábias, a médio e longo prazo. A política certamente não escreverá contos, poemas, romances, ensaios e dramas no lugar do indivíduo, mas poderá assegurar que permaneçam em nosso horizonte de interesses. Preservar a literatura é também uma forma de preservar a humanidade, e nesse caso não podemos abdicar da política. 
 


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