revista bula
POR EM 16/03/2009 ÀS 01:55 PM

O dinheiro sujo do almoço grátis

publicado em

Na edição de 3 de março deste ano do “New York Times” há uma matéria cujo tema tem sido alvo crescente das discussões no meio médico, com reflexos para toda população, mais cedo ou mais tarde. Trata-se da relação entre a indústria farmacêutica e os médicos, e, nesse caso, médicos professores de uma universidade que é considerada uma das melhores do mundo.

Não é novidade para ninguém que médicos ganham brindes de representantes que vão de canetas e chaveiros a agendas e calendários. Todo mundo sabe também que os médicos ganham amostras grátis de medicamentos. De maneira geral, tanto os médicos quanto os pacientes, encaram esses pequenos presentes como inofensivos. E são mesmo. Ou alguém se imagina receitando mais por causa de uma caneta ou agenda? No caso das amostras, inclusive, são úteis aos pacientes. Por exemplo, pode-se testar um colírio para pressão ocular sem que o paciente gaste com o teste. Se o colírio funcionar, aí é que o paciente passará a comprar.

O problema começa quando os presentes aumentam de tamanho. Jantares caros, viagens (às vezes internacionais, com tudo pago). Vai ficando difícil não se deixar influenciar, ainda que subconscientemente. (O mesmo vale para integrantes do governo, diga-se de passagem, cujo código de ética, se não me engano, permite presentes de até cem reais apenas). Essa influência é tão impressionante que pode tomar conta do indivíduo mais cuidadoso. Certa vez eu estava num congresso em São Paulo e assisti a uma palestra, patrocinada por um laboratório farmacêutico, dada por um expoente em determinado tema. Acontece que eu conheço razoavelmente bem a pessoa e sei que é essencialmente ético. Mas sua palestra foi tão enviesada pro lado do medicamento em questão que chagava a ser ridículo.

Por outro lado, já tive também a oportunidade de assistir a palestras de “expoentes” (cabem as aspas aqui pois se trata de expoentes de marketing mais do que de medicina) também patrocinadas e também enviesadas, só que neste caso era descarado. Infelizmente, nem todo mundo na platéia tinha esse discernimento. Comentando com amigos (mais atentos) no intervalo, ficamos surpresos de constatar que a maioria não tinha se dado conta do descaramento.

Voltando a Harvard. A questão lá é que a indústria farmacêutica desenvolve várias pesquisas em conjunto com os professores da universidade, e esses nem sempre são transparentes com seus alunos. Hoje em dia exige-se que o pesquisador diga em sua aula ou em seu artigo se tem algum tipo de afiliação financeira com algum laboratório. Por conta disso há um grupo de alunos e professores fazendo um movimento para diminuir as ligações entre a indústria e a universidade.

Se isso acontecer, será o caso clássico de se cometer um erro para consertar outro. Ora, Harvard é boa, entre outras razões, porque é rica. Tem muito dinheiro para pesquisa e para pagar bem seus professores e ter laboratórios bem montados. As fontes dessas riqueza são muitas (doações, mensalidades caras, etc), mas está entre elas o dinheiro fornecido pelas indústrias. Principalmente no caso de financiamento de pesquisas. Se cortarem ou diminuírem esse fonte, a universidade perderá com isso (não só Harvard, mas qualquer universidade).

Uma besteira parecida com a Lei Seca. Em vez de investirem na fiscalização da obediência da lei que já existia, inventaram outra mais rígida sem dar o suporte da fiscalização. Resultado: logo, logo tudo voltou a ser o que era antes. É o que deveriam fazer no caso da relação indústria-universidade, ou seja, fiscalizar para coibir abusos.

Se é verdade que não existe almoço grátis, não necessariamente é verdade que o dinheiro que paga o almoço é sujo.
 

Flávio Paranhos é médico. Coordenador da Coleção Filosofia & Cinema e autor do livro de contos Epitáfio (Nankin Editorial). Colunista da revista Filosofia Ciência & Vida (Editora Escala) e dos sites www.revistabula.com e www.mundomulher.com.br
 


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POR EM 02/03/2009 ÀS 09:41 PM

Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick

publicado em

A brilhante atuação de Malcolm McDowell, a música de Beethoven, a fotografia, as cenas de violência, enfim, o conjunto do filme é todo um conceito-imagem que provoca no espectador um estranhamento, uma angústia, típicos da reflexão crítica. Impossível assistir ao filme sem "filosofar". O que não quer dizer que seja preciso chegar a qualquer conclusão

Vamos começar explicando o título acima. É preciso que fique claro. Tudo o que será tratado aqui se refere à "Laranja Mecânica" de Stanley Kubrick, e não à de Anthony Burgess. Pelo menos conscientemente. É que não li o livro. Mesmo tendo assistido ao filme várias vezes, nunca tive coragem de ler o livro. Tenho medo de estragar o encanto. "Laranja Mecânica", o filme, é obra de gênio. Ela parla. Canta, dança e sapateia também. E pode ser que o livro não. Como acontece com várias adaptações, que, de tão brilhantes, ultrapassam em muito o livro em que foram baseadas.

Antes de falar de "Laranja Mecânica" especificamente, vale a pena perder tempo discutindo algumas abobrinhas acerca da sétima arte. Pra começo de conversa, essa discussão tola sobre se é arte mesmo ou não. A mim parece que aqueles que não consideram cinema uma forma de arte agem mais ou menos (conscientemente ou não) como quem não gosta da cor azul e por isso decretam que azul não é cor. Exagero, vá lá, mas é mais ou menos por aí. Há filmes e filmes. Assim como há livros e livros.

É verdade, porém, que essa discussão sobre ser arte ou não esbarra em outra: a autoria. Um livro, por pior que seja, é de um autor só. Um filme não. Esse argumento é falacioso, mas é preciso repetir: há filmes e há filmes. Há diretores e há diretores. Os exemplos são muitos, mas vou ficar só com um para facilitar: Woody Allen. Escreve o roteiro, escolhe os atores, dirige, edita, enfim, é dono absoluto do filme. Tá bom, vou dar outro exemplo, de um diretor menos verbal e mais imagético: Abbas Kiarostami. Há outros, há muitos.

Ok, concedo (magnanimamente) uma coisa: a natureza, a feitura do cinema permite várias matizes de autorias, o que complica o meio-de-campo. Woody Allen é um exemplo extremo. Exemplos do outro extremo seriam os muitos blockbusters de entretenimento sobre os quais os diretores têm pouco controle. E há os meios-termos. Os meios-termos mais complicados são as adaptações bem-sucedidas. E estas devem ser subdivididas.

Vamos inventar aqui duas categorias principais - as essencialmente literárias e as essencialmente fílmicas. Nas primeiras, principalmente, entram algumas peças transformadas em filmes, como "De repente, no Último Verão" (com Elizabeth Taylor, Montgomery Clift e Katharine Hepburn, direção de Joseph Manciewicz). A peça é de Tennessee Williams (com roteiro de ninguém menos que Gore Vidal), mesmo autor das também adaptadas "Gata em Teto de Zinco Quente" (com Elizabeth Taylor e Paul Newman, direção e roteiro de Richard Brooks) e "Um Bonde Chamado Desejo" (com Vivien Leigh e Marlon Brando, direção de Elia Kazan).

Todas estas se encaixam na categoria. São adaptações tão bem-sucedidas, difícil imaginar que sejam superadas. Claro, sempre podem ser refeitas (e sempre são) mas é difícil que sejam superadas (uma das muitas versões de "Um Bonde Chamado Desejo", com Alec Baldwin e Jessica Lange, é razoável, mas não chega aos pés da versão de Kazan, com Leigh e Brando). Ainda assim, têm uma coisa em comum: são de Tennessee Williams, não são de Manciewicz, Brooks ou Kazan. Quer dizer, são dos dois, dramaturgo e diretor, mas mais do primeiro do que do segundo. Complica, né?

Na categoria de adaptações fílmicas poderíamos incluir aquelas que superam as obras em que foram baseadas, ou porque o próprio roteiro é melhor, ou porque os recursos próprios do cinema enriqueceram de tal forma o original que lhe é impossível não ser superado. Deste grupo podem fazer parte "Naked Lunch" (de David Cronemberg, baseado em livro homônimo de William Burroughs), "As Horas" (de Stephen Daldry, baseado no livro de Michael Cunningham), "Short Cuts" (de Robert Altman, baseado em contos de Raymond Carver) e, claro, "Laranja Mecânica" (de Kubrick/Burgess).

"Naked Lunch" e "Short Cuts" eu li e vi. "As Horas" e "Laranja Mecânica", só vi. "Naked Lunch" é um livro infinitamente pior do que o filme. Cronemberg fez um enorme favor a Bill Borroughs. Já os contos em que são baseadas as estórias de "Short Cuts" são excepcionais. Raymond Carver é o melhor contista de língua inglesa com que meus olhos já tiveram a oportunidade de trombar. Acontece que Altman deu vida de forma brilhante aos contos, modificou-os, entrelaçou-os. O produto final é obra de Altman. Ok, Altman-Carver, mas mais o primeiro que o segundo.

Quanto a "Laranja Mecânica" e "As Horas", o leitor deve estar dizendo: "Como é que cê sabe que são melhores se não leu os livros?" Aí é que entram os elementos do cinema, inacessíveis à literatura. A imagem e o som. A fotografia e a música (ajudados, claro, por interpretações primorosas). O que no caso de "Laranja Mecânica" é algo incontestável. Por mais que Burgess possa fazer referência a Beethoven (e particularmente à "Nona"), por mais que minha imaginação trabalhe a todo vapor, jamais será como é no filme. Assistir ao horrorshow de Alex e seus amigos com o som da "Nona" de fundo é uma experiência cognitiva restrita ao cinema. E é por isso que gosto de azul. E azul é cor sim, tá sabendo?

O filme: close em Alex (Malcolm McDowell, no melhor papel de sua vida), cílios postiços apenas no olho direito, cara de mau, olhando diretamente para a câmera. Diretamente pra você. Música: adaptação da "Música para o Funeral da Rainha Maria", de Purcell. O plano é aberto lentamente, e podemos ver então os outros três droogies, Pete, Georgie e Dim, o de riso bobo. Estão num bar-leiteria bebendo leite com velocete, que os deixaria calibrados e prontos para mais uma noite de ultraviolência e horrorshow.

Primeira vítima do quarteto: um mendigo bêbado. Próximos: a gangue rival de Billyboy, que se preparava para o bom e velho in-out-in-out, sem o consentimento da moça, obviamente. Música: "La Gazza Ladra", Rossini. E segue com Rossini pela estrada em alta velocidade até as próximas vítimas, um escritor e sua esposa. Aí a música é "Singin' in the Rain", cantarolada pelo próprio Alex, enquanto estupra a esposa em frente ao marido. Voltam pro bar-leiteria. Na mesa ao lado, uma mulher canta um pedaço do quarto movimento da "Nona". Dim, o droog imbecil, ri. Apanha por causa disso. É o início da dissolução do grupo. Alex volta pra casa, um buraco. Em seu quarto, estátuas de cristos abraçados dançam ao som da "Nona" (a cena é maravilhosa!).

No dia seguinte, Alex não vai à aula e é visitado pelo seu bedel particular (Mr. Deltoid), que ficara sabendo do estrago da gangue de Billyboy. Alex passeia por uma loja de discos (é possível ver um LP com a trilha de "2001, Uma Odisséia no Espaço" - breve momento merchandising) e leva duas moças pra casa, onde rola o velho in-out-in-out ao som da abertura de "Guilherme Tell" em alta velocidade. Mais uma noite de ultraviolência e horrorshow (novamente com "La Gazza Ladra", Rossini), só que desta vez os três outros droogies armam uma cilada pra Alex, que é capturado pela polícia.

Como acabara matando sua vítima desta vez, o rapaz pega cadeia pra valer. Lá dentro, tenta bancar o bonzinho junto ao padre. Fica então sabendo de um tratamento novo, o método Ludovico de correção de mentes marginais, e consegue ser escolhido como cobaia. Basicamente, o tratamento consiste em aplicar uma droga no "paciente" e fazê-lo assistir a filmes com muita violência. A idéia é fazê-lo tomar aversão. Mantendo os olhos abertos com blefarostatos e pingando colírio de lágrima artificial constantemente. Os cientistas se asseguram de que o paciente não deixará de ver nada.

Mas algo inesperado acontece: a música de fundo é justamente a "Nona" de Beethoven, o que provoca um efeito colateral. Alex não só toma aversão à violência, mas também à sua música predileta. Na demonstração da eficácia para uma seleta platéia no presídio, ao final do tratamento, o padre protesta: aquilo era artificial, eliminava a escolha moral do indivíduo. Alex é solto e, pra seu azar, sai trombando com todos os seus antigos desafetos, que colocam o tratamento à prova. O último da fila é justamente o escritor, agora aleijado e viúvo. Acontece que o escritor é parte de um grupo político de oposição, que julga o tal método de Ludovico desumano. Sem se lembrar inicialmente de que aquele era seu malfeitor, bola um plano para usá-lo contra o governo. Dopa-o, leva-o para um lugar ermo, prende-o num quarto e coloca a "Nona" em volume altíssimo. Alex tenta se suicidar, é insuportável. Não morre. Vai hospitalizado e é então paparicado pelo ministro que o havia recrutado. Topa cooperar. No fim, está "curado" - de volta ao que sempre foi.

Há diversas maneiras de se interpretar um filme. Filosoficamente há duas: como meio e como fim. Professores de filosofia tendem a vê-los como um meio para ilustrar teses já conhecidas. Assim o fizeram, por exemplo, Mary Litch, em "Philosophy Through Film" (Routledge), e Christopher Falzon, em "Philosophy Goes to the Movies" (Routledge). Outros, porém (como o professor Julio Cabrera, em "O Cinema Pensa", Rocco, e "De Hitchcock a Greenaway pela História da Filosofia", Nankin Editorial), enxergam no cinema um fim em si mesmo, capaz de criar seus próprios conceitos, os "conceitos-imagens". Outros ainda, como Sander Lee ("Eighteen Woody Allen Films Analysed", McFarland), analisam a obra de um diretor como quem disseca um sistema filosófico conscientemente estruturado.

"Laranja Mecânica" permite todas essas abordagens. A brilhante atuação de Malcolm McDowell, a música de Beethoven, a fotografia, as cenas de violência, enfim, o conjunto do filme é todo um conceito-imagem que provoca no espectador um estranhamento, uma angústia, típicos da reflexão crítica. Impossível assistir ao filme sem "filosofar". O que não quer dizer que seja preciso chegar a qualquer conclusão. É estranhíssimo (e assusta quando nos damos conta disso) que ocorra a nós, espectadores, o exato oposto do que acontece com Alex. Somos também submetidos ao cruel tratamento de Ludovico, afinal assistimos a cenas de violência com belíssimas músicas de fundo. Sem piscar. Só que o que sentimos não é aversão, mas prazer. Uma mistura mágica de ética com estética. Um feitiço diabólico. Claro, não saímos por aí promovendo nosso próprio horrorshow. Mas tomamos uma consciência incomodamente cristalina de nossa animalidade.

Embora a literatura também seja criadora de conceitos-imagem filosóficos, como acredita o professor Cabrera, acredito que não há como o livro oferecer a mesma experiência, dados os recursos cognitivos a que o filme tem acesso e o livro não. Mas se a abordagem for a procura de familiaridade de cenas com teses filosóficas, então ambos passam a ter o mesmo poder. A cena em que o resultado do tratamento é mostrada a uma platéia seleta no presídio, por exemplo, é excelente para ilustrar a oposição entre a moral conseqüencialista e a não-conseqüencialista. De que importa se o método é cruel e retira por completo a possibilidade de escolha moral por parte do sujeito? O que importa é que funciona e os índices de criminalidade diminuirão, argumenta o ministro em réplica ao padre. A ironia fica por conta de que é justo um religioso que contesta o fato da não-violência não ser autêntica (produto de uma escolha), mas coagida por medo (de mal-estar físico). Ora, as morais religiosas são todas calcadas também no medo de uma punição, só que divina. Ética existencialista pela boca de um padre só pode ter sido ironia burgess-kubrickiana. Laranja Mecânica, o filme, é filosofia pura. Se ao final Alex está "curado", nós ficamos doentes.

*Texto publicado originalmente em outubro de 2006.

 


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POR EM 16/02/2009 ÀS 05:10 PM

Risole de carne e moranguinho

publicado em

Minha mais velha fez dez anos há poucos dias e caímos na besteira de fazer uma festa em nossa casa. Ela queria convidar só as coleguinhas. Os coleguinhas ficariam de fora. “Eles são muito atentados”, nos advertiu. Minha esposa e eu: “Não podem ser atentados assim”. Eram. Quer dizer, não eram, propriamente, “atentados”. Eram animais mesmo. Um bando de selvagens no sentido anti-rousseauniano da palavra. Um ou dois degraus a menos na escala evolutiva (acima dos macacos, mas abaixo do homem de “Neanderthal”).

Minha casa tem marcas de sua passagem até hoje, como provavelmente tinham as cidades invadidas pelos vikings ou Gengis Khan, sei lá. Só que a guerra, aqui, foi de brigadeiros. O que deixou minha filha ainda mais brava, pois não sobrou brigadeiro, seu doce predileto, pra contar história.  A não ser no chão, nas paredes, e nos lugares mais improváveis que escavações arqueológicas posteriores revelaram para nós.
 
E por falar em doce predileto, embora a festa fosse para minha filha, era um pouco pra mim também, pois fazemos aniversário quase na mesma data. Ela comemora, eu me conformo. Mas fiz algumas exigências: 1- Não teria cerveja de mulherzinha (aquela que desce redondo e similares). 2- Não teria risoles de milho. 3- Teria risoles de carne e moranginho.
 
Consegui quase todas. Exceto o moranguinho. Alguém aí se lembra de um docinho de festa de criança de antigamente que se chamava moranguinho, mas não era feito de morango? Não consigo ninguém que se lembre e faça. Uma dó. Era meu doce preferido. Quanto aos risoles, bati o pé. A ditadura do risole de milho não teria vez no meu aniversário! (Tudo bem, tudo bem, aniversário de minha filha). Minha esposa tentou contra-argumentar, que o correto é que fosse uma democracia, que permitisse a convivência harmônica entre risoles de milho e carne. Mas eu não cedi. Força se derrota com força. (Woody Allen diria: “É difícil argumentar com quem usa coturno e arma. Melhor conversar com um bastão de beisebol na mão”). Venci. Risole de milho não passou nem perto de minha festa (tudo bem, de minha filha).
 
Voltando aos animais. É impressionante a tendência dos pais de hoje a tratar seus pimpolhos como se fossem Adão e Eva antes da mordida da maçã. É como se se sentissem cronicamente culpados por tê-los colocado no mundo cruel. E dá-lhe birra e mal-comportamento não corrigidos ou sub-corrigidos. Não advogo aqui a educação pela porrada (embora eventuais tapinhas de amor não doam, como diz a música). Refiro-me à disciplina (que não necessariamente está acoplada a castigo físico). Não há disciplina mais. Assiste-se a espetáculos grotescos de birra em frente dos pais sem que estas façam qualquer coisa, pelamordedeus! A criança diz um ou dois “eu quero!” (ou “eu não quero”) e os pais cedem. O que escapa a estes pais é que não estão protegendo-as, mas aleijando-as intelectualmente. O mundo não é assim. No mundo, quando uma delas espernear no chão gritando “Mas eu quero” Eu quero!!”, serão pisoteadas. E aí? Onde estarão os pais super-protetores (leia-se coniventes e permissivos) nessa hora? Infelizmente, bem longe.
 
Flávio Paranhos é Médico. Coordenador da Coleção Filosofia & Cinema e autor do livro de contos Epitáfio (Nankin Editorial). Colunista da revista Filosofia Ciência & Vida (Editora Escala) e dos sites www.revistabula.com e www.mundomulher.com.br
 


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POR EM 02/02/2009 ÀS 11:36 PM

O caso Battisti e a noção de justiça

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De todas as definições de justiça que já tive oportunidade de conhecer, a que me parece mais honesta está no comecinho da República de Platão. Justiça seria a vontade do mais forte. Assim a define Trasímaco no Livro I, no que é evidentemente refutado por Sócrates, daquela forma dialético-aporética, como só ele conseguia fazer, para irritação de qualquer leitor que possua inteligência mediana para melhor. Trava-se, então, essa pérola de diálogo:

 Sócrates: Acaso a justiça é um vício?
 Trasímaco: Não, mas uma sublime ingenuidade.
 S: Então, à justiça chamas mau caráter?
 T: Não, mas sim prudência.
 S: Acaso te parecem sensatos e bons os injustos?
 T: Sem dúvida, os que são capazes de ser perfeitamente injustos, com força para submeterem à sua autoridade Estados e nações. (...)
 
Mas, note bem, Trasímaco tem o cuidado de (antecipando Maquiavel e Nietzsche em alguns séculos), frisar que ser injusto não era para qualquer um, mas apenas aos mais fortes, aos “senhores”: “Se um homem, além de se apropriar dos bens dos cidadãos, faz deles escravos e os torna seus servos, em vez de [receber injúrias], é qualificado de feliz e bem-aventurado, não só pelos seus concidadãos, mas por todos os demais que souberam que ele cometeu a injustiça. É que aqueles que criticam a injustiça não a criticam por recearem praticá-la, mas por temerem sofrê-la.” (344c)
 
Há, todavia, uma saída para os, digamos, menos fortes. Também antecipando Maquiavel, Gláucon, no Livro II, contará a estorinha do anel de Giges, cuja moral seria: tudo acaba bem, se você não for flagrado. (Maquiavel diria: O príncipe [leia-se o mais forte] deve PARECER justo). Claro que todo mundo quer um anel de Giges para si. Fortes, menos fortes e fracos. Numa democracia, então, um anel desses vale ouro, já que não se pode abusar da força.
 
Não vá o leitor pensar, entretanto, que o autor deste texto corrobora as palavras de Trasímaco e seus descendentes. A leitura correta destas fundamentações da moral (além da anti-platônica, a de Maquiavel, Nietzsche e outros) é descritiva, e não normativa. Eles dizem: “Assim é”. E não: “Assim deve ser” (embora seja possível, claro, interpretá-las normativamente, o que será um desastre). Dar o salto do descritivo pro normativo, ou mesmo conformar-se com o “assim é” (como o presidente Lula fez na época do escândalo do mensalão, na célebre entrevista concedida na França) é um erro. Uma das condições para a evolução humana (que nos afasta dos outros animais) é justamente o não conformar-se com o “assim é”.
 
Outra noção chave em justiça é a de corporação. Justa será a medida que nos beneficia. Injusta, a que beneficia a eles. “Nós” e “eles” são dois times nem sempre bem delimitados e podem sofrer constantes ajustes circunstanciais. É o caso (e agora finalmente chego ao ponto) do italiano Cesare Battisti. Quem é “nós”? “Nós”, os bravos militantes de esquerda. “Eles”, o regime de exceção italiano da década de 1970, com sua Justiça viciada. Mas “nós” podem ser também os familiares das vítimas assassinadas. E “eles”, os terroristas sanguinários.
 
Entra em cena, então, um bizarro jogo de palavras, vindo de ambos os lados da contenda, que só serve para confundir a nós, os leitores (supostamente neutros). Para o governo brasileiro (leia-se ministro Tarso Genro), parece ser de suma importância que os crimes de que Battisti é acusado sejam “políticos”. Evidentemente que se fossem crimes políticos “de direita” o ministro jamais agiria assim. Pois aí Battisti seria do time dos “eles”, os “da direita”. Para o governo italiano, o caso está encerrado e o Brasil não tinha nada que se meter. E pra nós, os leitores de jornal? Se você for apartidário como eu (o que não significa aideológico, já que tal coisa não existe) provavelmente deve estar se perguntando: afinal, ele é culpado mesmo ou não é? A única coisa que realmente importa parece ter sido esquecida.
 
Há fortes indícios que apontam para sua culpa real (era marginal antes de ser militante político, por exemplo). Mas há questões mal-resolvidas. O fato de ter sido denunciado por delação premiada deveria, no mínimo, ser visto com alguma desconfiança. Também o fato de ser apontado como autor de dois crimes acontecidos no mesmo dia em cidades diferentes (mesmo levando-se em conta que a Itália é um país pequeno - de acordo com o Google, a distância entre as duas é de aproximadamente 300 Km). Não é impossível, mas me soa improvável que uma pessoa assassine outra e horas depois mais outra, em outra cidade, enquanto seria de se esperar que estivesse bem escondida.
 
De toda forma, independente de quem detém o poder (PSDB ontem, PT hoje, Deus sabe quem amanhã), é este, o poder, o outro nome que se dá à justiça. O que não nos obriga a nos conformar com isso. Se assim é, assim não deveria ser.


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POR EM 27/01/2009 ÀS 09:52 PM

100 coisas para fazer em 2009

publicado em

O Opção Cultural e a Revista Bula me pedem para fazer uma lista de leituras pretendidas para 2009. Fiz algo diferente. Vejam aí algumas sugestões. Vejam se combinam. Se não combinarem, desacatem-nas, mudem a ordem, eliminem, acrescentem, enfim...

Veja: Laranja Mecânica (Kubrick).
Ouça: A nona e a quinta sinfonias de Beethoven.
Leia: Laranja Mecânica (Burgess, de preferência a versão americana, sem o último capítulo, ou leia a britânica, mas não leia o último capítulo, ou leia o diabo do último capítulo por sua conta e risco).
Beba: Baden-baden vermelha.
Coma: Não coma.
Fume: Robusto Le Cigar.

Veja: Crimes e Pecados (Woody Allen).
Leia: A genealogia da moral (Nietzsche).
Ouça: Quarteto de cordas No. 15 (Schubert).
Beba: Cabernet Sauvignon.
Coma: Torrada com gorgonzola e geléia de damasco.
Fume: Não fume.
Variação1:
Leia: Projeto de ética negativa (Julio Cabrera).
Ouça: Thelonius Monk.
Beba: Baden-baden vermelha.
Coma: não coma.
Fume: Robusto Dona Flor.
Variação 2:
Leia: Fundamentação da metafísica dos costumes (Kant) e Do cidadão (Hobbes).
Não coma, não beba, não fume.

Veja: Sócrates (Rossellini)
Leia: O conceito de ironia constantemente referido a Sócrates (Kierkegaard).
Ouça: Não ouça.
Beba: Pinot Noir.
Coma: Qualquer queijo.
Fume:Não fume.

Veja: A morte e a donzela (Polanski).
Leia: A morte e a donzela (Ariel Dorfman).
Ouça: A morte e a donzela (Schubert, o quinteto e o Lied)
Beba: Baden-baden 1999.
Coma: Qualquer queijo.
Fume: Alonzo Menendez No.10

Veja: O sétimo selo (Bergman).
Leia: O mito de Sísifo (Camus).
Ouça: Qualquer violoncelo de Bach.
Beba: Chadornay.
Coma: Torrada com requeijão e ovas (não caviar, evidentemente, mas as ovas mais baratas).
Fume: Não fume.
Variação:
Leia: Do sentimento trágico da vida (Unamuno).
Não coma, não ouça, não fume.

Veja: Sonhos (Kurosawa).
Leia: Não leia.
Ouça: Chopin.
Beba: Pinot Noir ou Chadornay.
Coma: Queijos.
Fume: Não fume.

Veja: Zelig (Woody Allen).
Leia: Origens do totalitarismo (Arendt).
Ouça: Benny Goodman.
Beba: Merlot.
Coma: Queijos .
Fume: Não fume.

Veja: As horas (Daldry).
Leia: As horas (Michael Cunningham).
Ouça: O adágio do Albinoni (mas cuidado!).
Beba: melhor não.
Coma: qualquer coisa.
Fume: melhor não.
Variação:
Ouça: O Réquiem do Mozart (muitíssimo cuidado!).
Leia: Mrs. Dalloway (Virginia Wolf).

Veja: Pulp Fuction (Tarantino, o homem de um filme só).
Leia: Qualquer coisa do Dashiell Hammet.
Ouça: a trilha sonora do filme (coloque o volume no bigode, principalmente no início do CD).
Beba: Jack Daniels.
Coma: Amendoim.
Fume: Cigarrilha (qualquer).

Veja: Ricardo III. Um ensaio (Al Pacino).
Leia: A vida e a morte do rei Ricardo III (Shakespeare).
Ouça: Otelo (Verdi) (ouça e veja, se possível).
Beba: Espumante.
Coma: Sushis e sashimis.
Fume: não fume.

Veja: A doce vida (Fellini).
Leia: Angústia (Graciliano Ramos).
Ouça: Miles Davis.
Beba: Um toscano qualquer.
Coma: Espaguete (não se atreva a comer pizza!).
Fume: Não fume.

Veja: O anjo exterminador (Buñuel).
Leia: Bestiário (Cortázar).
Ouça: Dave Brubeck.
Beba: Vodka com alguma fruta.
Coma: Sushis, sashimis.
Fume: Não fume.

Veja: Short Cuts (Altman).
Leia: Do que falamos quando conversamos sobre sexo (Carver).
Ouça: Blue Trane (Coltrane).
Beba: Cabernet Sauvignon.
Coma: Queijos.
Fume: Não fume.

Veja e ouça: Boris Godunov (Mussorgsky).
Leia: Boris Godunov (Pushkin).
Beba: Vodka pura gelada (com moderação).
Coma: Suhis, sashimis.
Fume: Robusto Dona Flor.


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POR EM 09/12/2008 ÀS 11:59 PM

Espírito de manada

publicado em

Várias coisas intrigam nessa crise. A primeira delas é que vem sendo anunciada há meses antes de seu acontecimento. Já no ano passado se comentava o problema com os financiamentos ditos “subprime” (financiamentos imobiliários com maior risco de calote, para encurtar e simplificar). Ainda assim, a bolsa subiu a ritmos galopantes até na véspera da crise. Por quê?

Assistindo a uma palestra de um corretor tive uma resposta que me soou razoável. O mercado, essa entidade amorfa que parece que tem vida própria, tem, mesmo, vida própria. É possível analisar os acontecimentos retrospectivamente, com bastante agudeza, apenas observando-se gráficos. Esqueça os fundamentos de uma empresa, esqueça as baboseiras que jornalistas falam (a partir da análise de “especialistas”). Esqueça as relações causais estabelecidas, que soam, à primeira ouvida, razoáveis, mas que não passam de chutes saídos de bocas que não deveriam estar chutando, mas que não resistem a um microfone.

A crise estourou em outubro (e não em julho, ou março, etc) porque até então o gráfico mandava subir. E a manada subia. Não era hora ainda de “realizar” (jargão para “vender” ou “auferir lucros”). Então, num clic, passou a hora de realizar. E a manada desceu a ladeira com vontade. Claro, passando uns por cima dos outros, afinal, manada é manada.

De que adianta saber disso agora? Teoricamente, a análise retrospectiva deveria ajudar a prospectiva. Em outras palavras, se o mercado funciona em ritmo de manada, é crucial saber quando sair da frente, pra não ser atropelado, e quando entrar, pra participar do butim. E aí que está o problema. Os gráficos são uma beleza para se enxergar o passado, mas para prever o futuro eles podem ser traiçoeiros. Afinal, manadas não são muito confiáveis.

Macacos babuínos, quando têm de atravessar um rio ficam um tempo indecisos quanto ao que fazer, até que um iniciador... inicie. Mas é só depois que um “decididor” chancele a atitude do iniciador que o resto vai. Se os mais fracos e/ou mais jovens ficam pra trás, azar o deles. Nem mãe volta pra buscar filho. Ele que se vire. Se essa é uma boa analogia, quero estar sempre perto do decididor e pronto pra nadar.

Uma das características que as análises de gráficos levam em consideração é o velho princípio que diz que a história se repete. Na atual crise isso é particularmente verdadeiro quanto aos fabricantes de carros. Quando vi que a Chrysler está, de novo, pedindo dinheiro ao governo americano para se sustentar, fui imediatamente reler a auto-biografia do Lee Iacocca. Está tudo lá. As mesmas alegações, a mesma choradeira. A diferença é que o livro (publicado em 1984) é a história de um homem que teve sucesso na empreitada de reerguer a Chrysler (pedindo dinheiro pro governo). E agora?

Outra coisa que intriga (angustia seria mais aplicável) é saber quando vai acabar. Se a crise tivesse lógica, talvez (talvez!) se pudesse fazer previsões razoavelmente acertadas. Entretanto, a entidade mercado é caprichosa, e pode surpreender, desembestando sua manada histericamente pra cima ou mais pra baixo ainda. Vai saber. Daqui a uns dez anos a gente olha no gráfico.


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POR EM 08/12/2008 ÀS 06:55 PM

Por que Woody Allen é superior a Dostoiévski

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O filme é mais rico na medida em que, polifonicamente, dá voz a várias teorias morais sem eleger a “correta”. Isso foi visto como cinismo pelos críticos do cineasta. De minha parte, vejo-o como uma brilhante elaboração filosófica descritivo-moral (em contraposição à de Dostoiévski, que é normativo-moral, ou seja, moralizante, ou seja, empobrecida) 

Tive um professor no mestrado em Filosofia na UFG (Adriano Naves de Brito, que agora está na Unisinos, infelizmente, para a UFG), que, ao analisar as diferentes fundamentações da ética, costumava dizer que, por mais elaboradas que fossem as tentativas (kantiana, humeana, shopenháurica, etc), no fim, o que contava mesmo era nossa simpatia por uma delas para a aceitarmos como satisfatória. Na verdade, ele não dizia propriamente “simpatia”, isso digo eu. Mas algo equivalente, como podemos ver no seu recém-lançado “Ética – Questões de fundamentação” (Editora da UNB, pp.106-107):
           
“A justificação é sempre relativa a alguma coisa e, mais especificamente, ela é, para ele [o outro], sempre relativa ao meu desejo de participar de uma comunidade moral para a qual certos valores e normas são considerados legítimos. Ela é, por conseguinte, relativa ao meu desejo de que seja válida.” [Grifo meu]
           
Considero que exatamente o mesmo pode ser dito a respeito da apreciação estética. Pode-se elaborar toda sorte de teorias ricas, bem fundamentadas, por pessoas que passam a vida estudando o assunto, que dará na mesma. Gosta-se ou não se gosta, prefere-se ou não, a despeito de qualquer fundamentação aparentemente objetiva. Já defendi isso no
jornal Rascunho, contra Pedro Lyra e sua pretensão de objetividade crítica. E foi o que eu disse pra platéia de estudiosos da língua e da literatura russas, quando, sob o título de “Heresia”, apresentei meu último slide: “Crimes e pecados é filosoficamente superior a Crime e castigo”.
           
Para minha surpresa, minha provocação foi muito bem recebida. Ninguém se alterou, ninguém tentou me demonstrar o contrário. No máximo, travamos amigável discussão sobre o “Epílogo” do livro que, seguindo minha opinião, é o que o empobrecia filosoficamente, principalmente se o contrapuséssemos ao final de “Crimes e pecados”. Um, o livro, é fechado, o outro, o filme, aberto. É evidente que isso não equivale a dizer que “Crime e castigo” seja filosoficamente pobre, mas que seria mais rico sem o tal Epílogo.
           
O mesmo não pode ser dito, entretanto, a respeito de
alguns leitores e colegas colunistas da Bula. Sua reação foi a mesma de um torcedor. O que apenas serve para reforçar o que penso sobre apreciação estética. É como se, no meio da torcida do Corinthians, eu começasse a gritar: “Porco, porco!”. Feri orgulhos, ofendi, com minha opinião. Interessante. Parece que os especialistas no assunto estão vacinados contra provocações como a minha. Mas admiradores, não.
           
Eu poderia ter me defendido lembrando a todos que minha perspectiva é filosófica. Ambos, livro e filme, são verdadeiros tratados de filosofia moral. Mas o filme é mais rico na medida em que, polifonicamente, dá voz a várias teorias morais sem eleger a “correta”. Isso foi visto como cinismo pelos críticos do cineasta. De minha parte, vejo-o como uma brilhante elaboração filosófica descritivo-moral (em contraposição à de Dostoiévski, que é normativo-moral, ou seja, moralizante, ou seja, empobrecida).
           
De nada adiantaria, entretanto, eu me defender com o dito no parágrafo anterior. Minhas argumentações racionais escondem algo mais importante. São minhas. A opinião é minha. Em outras palavras, e reescrevendo meu último slide: “Crimes e pecados é filosoficamente superior a Dostoiévski PARA MIM.” Ora, se admito que o PARA MIM é o que decide a parada, tenho de admitir o mesmo para meu interlocutor. PARA ELE eu estou dizendo um disparate. E a discussão ficaria vazia, sem sentido. Talvez daí o famoso “Gosto não se discute”. 
           
(Justiça seja feita,
Brasigóis Felício disse mais ou menos o que eu digo aqui)
           
Um ponto interessante, ressaltado por
Euler Belém no último Opção, é que um não existiria sem o outro. Woody Allen seria filho pródigo de Dostoiévski. É verdade. A apropriação de uma obra (genial ou não) e seu “melhoramento” é recorrente na história da arte. Shakespeare foi craque nisso, “roubando” idéias alheias e as melhorando (muito). O próprio Shakespeare foi vítima de um melhoramento, seu “Otelo, o mouro de Veneza”, ficou filosoficamente (olha a palavrinha mágica aí de novo) mais rico com a pena de Arrigo Boito, autor do libreto da ópera homônima de Verdi. Boris Godunov, poema histórico longo de Púchkin, só ganha vida por meio da ópera homônima de Mussorgsky. A sonata para violino “A tempestade” não faz jus à peça de Shakespeare que a inspirou (Prospero’s book, de Peter Greenaway, faz). Já a sonata para piano “a Kreutzer” é uma experiência estética mais interessante do que a leitura da novela de Tolstói, nela inspirada. Ambas de Beethoven. (Olha as comparações esdrúxulas aí, gente!). 
 
A tese que defendi na Abralic com meu “Dostoiévski vai ao cinema” foi justamente a de que quanto mais um cineasta se distancia do autor russo (e, pra todos os efeitos, de qualquer autor, em adaptações cinematográficas), mais rica é sua obra. Assim, “O Idiota” de Kurosawa é melhor do que o de Pyriev. “
Nina”, de Heitor Dhalia, é mais interessante do que “Crime e castigo” de Joseph Sargent. E por aí vai, até o distanciamento máximo, a ponto de não ser uma versão, mas, sim, uma subversão do original, “Crimes e pecados”, de Woody Allen, o segundo melhor filme já realizado por alguém (o primeiro é “O Anjo exterminador”, do Buñuel).
           
Por último, mas não menos importante, não é que Dostoiévski escrevia mal. Compreende-se e concorda-se com o defendido pela professora
Maria de Fátima Bianchi, que o estilo é “deliberada e calculadamente desleixado”. Mas isso não é o mesmo que deixar de reconhecer certos cacoetes do autor, o mais óbvio deles, o uso e abuso das palavras “de repente”, “de súbito”, “subitamente” e “num átimo”. É preciso ser cego para não ver. Ou não ter lido o livro.
           
Nota: O texto “Dostoiévski vai ao cinema” apresentado na última
Abralic, está disponível em minha coluna de Cinema & Filosofia no número 23 da revista Ciência & Vida FILOSOFIA (Editora Escala).
           
Nota 2: Segue abaixo uma lista de algumas das adaptações cinematográficas disponíveis, com minha (minha!) opinião a respeito (de uma a cinco estrelas, sendo cinco a melhor avaliação):
 
            “O idiota” de Ivan Pyriev **
            “O idiota”, de Kurosawa ***
            “Pickpocket”, de Robert Bresson *
            “Nina”, de Heitor Dhalia ***
            “Notes from underground”, de Gary Walkow ****
            “Os possessos”, de Andrej Wadja ***
            “Crime e castigo”, de Joseph Sargent **
            “Match Point”, de Woody Allen ****
            “O sonho de Cassandra”, de Woody Allen ***
           “Crimes e pecados”, de Woody Allen *****
 
 
 

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POR EM 08/12/2008 ÀS 06:54 PM

A utilidade das humanidades

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                   (PARTE 2)

Stanley Fish 1
Stanley Fish 3

O financiamento das humanidades nas universidades não pode ser justificado pelo fato de que poemas e argumentos filosóficos mudaram vidas e deram origem a movimentos. A questão pertinente é: As humanidades mudam vidas e dão origem a movimentos? Aqueles que as ensinam o fazem com esse propósito, e se, o fazem, isso poderia ser alcançado?

Stanley Fish, jornal The New York Times

Tradução: Flávio Paranhos
          
(disponível em:Aqui
          
Num poema intitulado “Matins”, o poeta anglicano do século XVII George Herbert diz a Deus: “Se Tu me ensinares a conhecer teu amor... Então, por um raio de sol eu subirei a ti”. Mas a dinâmica da barganha proposta – se fizer X eu farei Y – é fragilizada pela maneira como é proferida, especialmente pelo duplo sentido de “sunbeam” (raio de sol).
           
[Segue um parágrafo com análise do poema]
           
Esta breve análise de um poema que, simultaneamente, o elucida e minimiza é um exemplo do tipo de trabalho e aulas que tenho realizado por quase cinco décadas. É o trabalho de um humanista, ou seja, alguém empregado em uma universidade para ensinar textos literários, filosóficos e históricos. As questões levantas em meu último artigo [traduzido aqui na Bula – veja link] dizem respeito ao valor deste trabalho, por que alguém deveria financiá-lo e por que razão alguém o financia.
           
Por que eu faço esse trabalho? Não o faço por ser da mesma religião de Herbert. Não acredito no que ele acredita, nem valorizo o que ele valoriza. Também não o faço por que me inspira a fazer outras coisas, como mudar de religião ou sair por aí ajudando os pobres. Se eu tiver de dizer, direi que o faço por que obtenho uma espécie de satisfação estética por meio da experiência de tentar compreender como uma admirável realização verbal foi engendrada.
           
A satisfação é parcialmente auto-satisfação. É como resolver um quebra-cabeça. Mas a satisfação maior é admirar o que algumas pessoas são capazes de fazer com a língua que todos usamos. “Não é impressionante?”, eu digo aos meus estudantes. “Você não desejaria ter escrito algo assim?” (Em meu artigo anterior eu uso a palavra “prazer” para descrever a recompensa conseguida por discutir e decifrar textos literários, porém “prazer” é ao mesmo tempo muito restrito e muito vago; é o prazer específico que sustenta sua consciência de um efeito que voe não só experimenta, mas consegue explicar)
           
Note que estamos falando aqui de análise, e não de produção de textos humanísticos. [Grifo do tradutor]. A questão colocada no artigo anterior foi o valor instrumental não de obras de literatura, filosofia e história, mas da análise acadêmica de obras de literatura, filosofia e história. Quando Jeffrey Sachs diz que “no mundo real” a distinção entre as humanidades e as ciências não se sustenta pois “filósofos deram contribuições importantes às ciências” e “as próprias ciências tiveram grande impacto nas humanidades”, ele não chega nem perto de refutar o que eu disse. O que acontece ou deixa de acontecer no “mundo real” não está em questão aqui. O que está sendo discutido é o que acontece no “mundo acadêmico”, onde a distinção entre os saberes, que Sachs recusa, valem. Pode até ser que, como George Mobus defende, “só na academia há especialistas, só na academia se divide o mundo em departamentos”. Mas o mundo acadêmico é mesmo, por definição, dividido em departamentos, e quando a utilidade de um desses departamentos é questionada, não adianta dizer que num outro mundo esses coexistem numa grande mistura.
           
Em geral, os que discordam de minhas asserções, fazem como Sachs e Mobus, patinam (sem se dar conta) entre o verdadeiro foco da discussão (a academia) e algo maior, diferente. Quando eu digo que as humanidades não têm utilidade, eu me refiro aos departamentos de humanidades das universidades, não às “humanidades” como uma categoria cultural. Não estou me referindo aos poetas e filósofos e o impacto que causam ou deixam de causar no mundo e nas pessoas que os lêem. [Grifo do trad.]

O financiamento das humanidades nas universidades não pode ser justificado pelo fato de que poemas e argumentos filosóficos mudaram vidas e deram origem a movimentos. (Fiquei surpreso que ninguém tenha mencionado “A cabana do tio Tom”, um livro que, dizem, Lincoln credita como sendo o causador da Guerra Civil). A questão pertinente é: As humanidades mudam vidas e dão origem a movimentos? Aqueles que as ensinam o fazem com esse propósito, e se, o fazem, isso poderia ser alcançado?  
Se as respostas a essas perguntas forem não (como eu defendo) – ensina-se as disciplinas, e qualquer efeito retardado do que acontece na sala de aula é circunstancial e não tem como ser almejado – então a via da justificação externa das humanidades, de uma justificação que depende do cálculo de resultados mensuráveis, está fechada. O fato de que alguns dos leitores, incluindo alguns de meus ex-alunos, relatam experiências de mudança de vida como resultado de seus estudos é tocante (embora estou certo de que a vasta maioria relataria algo bem diferente), mas dificilmente serve como razão para dar suporte a um aparato inteiro de departamentos, diplomações, colóquios, etc., que cresceu em torno do estudo acadêmico de textos humanísticos.    

Alguns [leitores] que comentaram [o artigo anterior] apresentaram razões negativas para ensinar as humanidades. Disseram coisas como “ se pelo menos o governo tivesse algum conhecimento de história, poderíamos não estar no Iraque agora” e “será que os neoconservadores realmente acreditariam que o mundo é um campo de batalha do bem versus o mal, caso eles tivessem a mente aberta a um conhecimento mais completo de história e natureza humana?”. Mas os neoconservadores que eles têm em mente – Wolfowitz, Pearle, Kristol, Huntington – são bastante versados em história, filosofia e artes como qualquer um, e participam de discussões profundamente intelectuais de textos importantes nos seminários do Liberty Fund e outros lugares.
           
Especular que se eles tivessem sido introduzidos aos textos certos (Paul Krugman no lugar de Milton Friedman, Cornel West no lugar de William Buckley), eles teriam engendrado políticas melhores é uma ilusão. E, aliás, é o mesmo tipo de ilusão que os neoconservadores adotam quando argumentam que se eles apresentassem aos radicais islmâmicos os textos de Jefferson, Madison e J.S.Mill, eles aprenderiam a amar a liberdade e parariam de tentar nos destruir. A verdade é que o conhecimento de textos filosóficos e literários e a aquisição de sabedoria (em qualquer forma) são variáveis independentes. [Grifo do trad.]
           
[Continua]
           
[Como o texto é grande, vou parando por aqui. Na semana que vem eu trago o resto. Essa última frase, que eu grifei, me parece uma boa frase pra se refletir: será que o conhecimento de textos filosóficos e literários e a aquisição de sabedoria são mesmo variáveis independentes? Se por sabedoria Fish quer entender “sabedoria moral”, então ele está coberto de razão. Posso ser doutor em filosofia moral e um canalha ao mesmo tempo, nada me impedirá (nem o mais completo conhecimento do assunto). Mas sabedoria “em qualquer forma”, aí são outros quinhentos dólares.]
           
[Aqueles que lerem o original, e identificarem algum erro relevante aqui, agradeço desde já que o apontem].

           
(Flávio Paranhos)

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POR EM 08/12/2008 ÀS 06:54 PM

Pra que serve a literatura?

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Se não há utilidade para Hamlet ou Platão, também não pode haver para a Monalisa ou a nona do Beethoven. Se não faz sentido perder tempo lendo Shakespeare, também não pode fazer sentido manter o Louvre no circuito de turismo da França

   

Os amigos da Bula vão me desculpar a insistência no assunto, mas é que o artigo abaixo, que saiu na última edição do jornal literário Rascunho , na seção Ponto Final, costura um pouco o que penso a respeito do tema abordado por Stanley Fish. Prometo não falar mais nisso depois. 

Não é a primeira, nem será a última vez que nos deparamos com tal pergunta. Inocente ou provocadora, não importa a forma como nos seja feita, ser-nos-á sempre motivo de desconforto e até, para alguns, insulto. E eu não aconselho a aplicar o método dialético-diatríbico-socrático pra respondê-la, ou seja, a esperteza verborrágica de que tanto gostamos, sob risco de apenas piorar a situação e nos colocar na posição de, além de inúteis, antipáticos.
         
Pois a perguntinha desconfortável voltou a nos ameaçar. Só que de forma mais contundente. Não é mais uma pergunta. É uma afirmação. A literatura não serve pra nada. Como consolação, não estamos sozinhos. As humanidades não servem pra nada. Ou tudo o que couber na classificação Arts and Humanities do sistema educacional universitário norte-americano. 
           
Quem diz isso é o professor Stanley Fish, da Florida International University em Miami e articulista do jornal The New York Times. No final do ano passado, em seu
blog, o professor Fish comentou um documento da New York State Commission on Higher Education, que fornecia uma espécie de diagnóstico com conseqüentes planejamentos estratégicos para colocar as universidades do Estado de Nova York em melhor posição e competir com as grandes universidades americanas. Com um detalhe: toda a ênfase do documento estava em Ciência e Tecnologia. Nem um centavo para Artes e Humanidades.
           
O que levou Fish a refletir (Will the humanities save us?, de 6 de janeiro), acerca da utilidade prática das humanidades. “O estudo das humanidades torna os cidadãos mais críticos, mais completos, mais virtuosos”, havia sido, em síntese, o comentário geral dos leitores à notícia. Ao que Fish retrucou que é difícil convencer um governante a dar dinheiro para uma “nova interpretação de Hamlet”, e que, se o estudo das humanidades tornasse os homens mais virtuosos, os departamentos de letras e filosofia das universidades estariam repletos de pessoas generosas, pacientes, benevolentes... o que ele, Fish, como integrante de tais departamentos “por mais de 45 anos”, sabia muito bem não ser o caso. Ainda: qual empregador daria atenção a alguém formado e pós-graduado em arte bizantina (exceto um grande museu)? (Poderíamos, por puro masoquismo, acrescentar à lista o argumento mais irritante de todos: de que serve o estudo de Platão ou história medieval a não ser para... ensinar Platão e história medieval?)
           
O citado artigo teve, claro, grande repercussão. Em sua grande maioria, os leitores discordaram. O que não é surpresa, dado o perfil de um leitor típico de Stanley Fish. Quando o conteúdo do comentário não era de pura indignação, arriscava meios para justificar a utilidade das humanidades. O que também não era nenhuma surpresa, pois se tratava de professores e/ou alunos cuja existência mesma estava sendo questionada.
           
Um argumento recorrente e (na minha opinião) eficiente era: se não há utilidade para Hamlet ou Platão, também não pode haver para a Monalisa ou a nona do Beethoven. Se não faz sentido perder tempo lendo Shakespeare, também não pode fazer sentido manter o Louvre no circuito de turismo da França. E dá dinheiro, nest’ pa? Com isso os leitores ficamos felizes e de alma lavada. Fish estava redondamente enganado.
           
Até que ele veio com o próximo artigo, The uses of the humanities, part two (13 de janeiro). Nós, os leitores, não teríamos compreendido o que ele quis dizer. Não é que as artes e as humanidades (literatura, filosofia, pintura, etc) não fossem úteis. É claro que Shakespeare, Leonardo da Vinci, Beethoven, Platão, etc, e seus equivalentes (ainda que menores) contemporâneos têm importância e dão dinheiro. O buraco seria mais embaixo.
           
O que estaria em questão não são as artes e humanidades, lato sensu, mas, sim, o agrupamento educacional universitário ‘Artes e Humanidades’. Não é Hamlet que está em perigo, mas os comentadores de Hamlet. Ou, mais ainda, os comentadores dos comentadores dos comentadores dos comentadores de Hamlet. Do ponto de vista de quem decide pra onde vai o dinheiro, Shakespeare está morto. Mas a turma de nerds da computação do Departamento de Engenharia que está prestes a bolar um chip novo com potencial de render alguns milhões de dólares merece toda atenção. Simples assim.
           
Touché. Ou não.
           
Sim, é verdade que muito do que se faz em departamentos de filosofia e letras parece masturbação intelectual interminável e absolutamente inútil. Mas também é verdade que essa “masturbação intelectual” é o que ajuda a manter viva a obra de muitos dos criadores originais de filosofia e literatura. Se admitirmos que ambas, em última análise, se justificam pelo prazer que dão a quem é capaz de sentir esse prazer, então manter vivos autores mortos não é pouca porcaria não. Algo assim como inventar sempre uma montanha-russa diferente, com mais loopings e maior velocidade... Pra quem gosta faz todo sentido. E dá dinheiro (que é o crivo fatal do utilitarismo capitalista, enfim, o raciocínio de quem decide pra onde vão os investimentos).
           
Por ouro lado, também é verdade que as ciências naturais não são santinhas perfeitas. Um bocado de ‘pesquisas reduntantes’ (pesquisar algo que já foi exaustivamente estudado, ou seja, a masturbação intelectual das ciências naturais) é realizado hoje em dia. No caso das ciências da saúde isso é particularmente grave, já que envolvem sujeitos de pesquisa humanos e/ou animais, portanto submetidos a stress e riscos desnecessários (embora riscos sejam menos prováveis, pois não se faz pesquisa em animais ou humanos hoje em dia sem o aval de comitês de ética em pesquisa).
           
Outra defesa possível e interessante, como subproduto do argumento de manter vivas as obras de grandes criadores, é o fato de, embora seja verdade que departamentos de filosofia e literatura tenham tantos maus sujeitos quanto qualquer outro, e também seja verdade não ser raro que governantes com tendências fascistas sejam eruditos, as populações que estes engambelam não o seriam tão facilmente se fossem, elas próprias, eruditas. O pensamento crítico é o bem mais precioso que o consumo das artes e humanidades é capaz de fornecer, para além do mero prazer estético. Mas aí, pra que os departamentos que ensinam e pesquisam essas disciplinas justifiquem sua existência, é preciso que se desencastelem. Não basta manter artistas e filósofos vivos. É preciso fazê-los chegar ao maior número possível de pessoas. Ou Stanley Fish e a turma do dinheiro passam a ter razão.
 
 

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POR EM 08/12/2008 ÀS 05:34 PM

Amores impossíveis

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Numa entrevista interessantíssima a uma jornalista australiana (disponível no YouTube), por ocasião do lançamento de 2046, o diretor chinês Wog Kar Wai (que em vários momentos deixa a jornalista em situação difícil com respostas monossilábicas) comenta a respeito da suposta obsessão por relógios em seus filmes:
        
 _ Meu diretor de fotografia, quando via que tinha um relógio numa tomada, dizia “Vamos tirar o relógio dali”. E eu retrucava: “Deixa o relógio aí. Tenho certeza que os críticos dirão alguma coisa”.

        
Kar Wai disse isso e morreu de rir. Pensei comigo: “Desgraçado! E nós aqui, elaborando mil teorias psicanalítico- filosóficas sobre o significado da profundíssima metáfora do relógio”. Mas acabei morrendo de rir também. Inevitável nessas horas lembrar de Susan Sontag em sua fase inicial, para quem fazia mais sentido apreciar uma obra de arte do que interpretar. Ou do diretor russo Andrei Tarkovski, que disse mais ou menos a mesma coisa em seu livro Esculpir o tempo (Martins Fontes), além de ter dado pouca importância ao fato de apontarem a água como sua obsessão. A propósito, Kar Wai, embora diminuindo a importância dos relógios, também comenta sobre a capacidade de um filme de esculpir o tempo (sem citar Tarkovski).

        
A verdade é que a obsessão de Wong Kar Wai é outra, que a jornalista australiana, infelizmente, não soube explorar. Ele é o diretor dos amores impossíveis. Sim, ele também é o diretor dos close-ups e câmeras lentas, das músicas (boleros, valsinhas e, mais recentemente, blues e jazz). Seu estilo (que é muito mais intuitivo do que racional, de acordo com ele mesmo) é imediatamente reconhecível. Seus atores prediletos (Maggie Cheung e Tony Leung), sua marca. Aliás, todo diretor-artista tem os seus. Woody Allen teve Alan Alda, Tony Roberts, Diane Keaton e Mia Farrow por muito tempo; Bergman, Max Von Sidow, Erland Josephson, Bibi Anderson e Liv Ullmann; Tarkovski, Nikolai Grinko, Anatoli Solonytsin (e o bergamniano Erland Josephson, nos dois últimos). Bom, etc.

        
As pessoas, nos filmes de Kar Wai (e eu digo “as pessoas”, e não “os casais”, pois há Felizes juntos em o caso de amor é entre dois homens), não conseguem se entender romanticamente[1]. Sempre há uma enorme muralha da China entre elas. Muralha invisível, desproporcional ao problema concreto, aparente. Em Amor à flor da pele, por exemplo, a obra-prima do diretor chinês, um casal descobre que os respectivos cônjuges os traem. A partir daí inicia-se um jogo de sedução-repulsão (“Não seremos iguais a eles”, dizem um pro outro, repetidas vezes) agoniante (mas ao mesmo tempo incrivelmente sensual) pro espectador. Perguntamo-nos o tempo todo: Por que não se atracam logo na cama, louca e vingativamente? Nada disso, parece nos responder Kar Wai, seria vulgar, veja como eles são sensuais à sua maneira. E é verdade. Amor à flor da pele é o filme mais erótico que já vi, sem ter uma única cena de sexo. A beleza escultural da ex-miss Hong Kong, Maggie Cheung, e o charme de Tony Leung são postos a serviço de Kar Wai de forma irretocável. Nunca você verá alguém descendo ou subindo escadas pra buscar noodles pra comer, ao som de uma valsinha, de forma tão encantadora (encantadora mesmo, no sentido de hipnotizante).

        
E por falar em valsinha, finalmente, o que me traz aqui, o último Kar Wai, My Blueberry Nights (Beijo roubado). Ela, a valsinha, está lá (embora estilizada). Assim como os close-ups, as câmeras lentas e cortes e jogos de ângulos diferentes. Também está lá a música (desta vez blues/jazz). Não estão lá Maggie e Tony, mas em compensação estão Jude Law, Natalie Portman, Rachel Weisz e, pra minha grata surpresa, Norah Jones. Não li o que a crítica disse a respeito de sua interpretação (ou, se li, foi na época do lançamento em Cannes, de forma que não me lembro se foi positiva ou negativamente acolhida). Tanto melhor, pois assim não me deixo contaminar. Brilhante. Norah Jones é a cereja do bolo (ou a blueberry da torta) desse filme. Natalie Portman, a atriz de um papel só, interpreta a garotinha revoltada. Rachel Weisz e Jude Law estão bem. 

        
Está lá também outra característica de Kar Wai, a (aparente) fragmentação. A sensação de que falta costurar, que não tem como acabar. Nesse sentido aconteceu uma coisa engraçada. Um casal amigo, que assistia à mesma sessão, tinha ido mais pelo elenco, nunca ouviram falar do diretor. Faltando uns quinze minutos pro filme terminar, a energia acabou no cinema. Aproveitei pra perguntar a eles o que estavam achando. Meu amigo respondeu: “É... Seria bom costurar isso tudo, né...”. Logo o filme voltou e, pra minha surpresa (e alívio de meu amigo), Kar Wai costurou mesmo. O final é amarradinho, bonitinho, enfim... holywoodiano. Uma óbvia concessão[2] do diretor chinês aos produtores norte-americanos. Confesso que fiquei chateado. Minha esposa, que adorou o final, me chamou xingou de “do contra” e “espírito-de-porco”. Talvez ela esteja com a razão. Ou não.

        
Não é que My Blueberry Nights seja ruim. É ótimo. Mas espera-se mais de um artista como Wong Kar Wai. Há uma certa expectativa de que ele se mantenha fiel à linha à qual nos acostumou e nos transformou em seus admiradores. Esse pacto foi (parcialmente) quebrado. Esperemos o próximo, de preferência com a dupla Maggie-Tony de volta.
        
 

 
 


[1]
Na entrevista à jornalista australiana, esta diz a Kar Wai que ele é considerado um dos diretores mais românticos da atualidade, ao que ele retruca: “Isso é constrangedor”, provavelmente entendendo “romântico” no sentido holywoodiano (portanto negativo) da palavra.

[2]
Na citada entrevista a repórter pergunta ao diretor se, com a fama, ele alcançou o direito de fazer o que considerasse artisticamente correto, sem fazer concessões. Ele responde que sim, faz o que quer, mas dentro de certos limites (financeiros). Esse é um dos pontos em comum que Kar Wai mostrou ter com Woody Allen. Outra coincidência foi o fato de viver em cinemas na infância e adolescência em Hong Kong, além de ter sido um mau aluno. “Por que você fez faculdade de Design?”, perguntou a repórter. Ele responde: “Porque foi a única que me aceitou”. 

 

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