revista bula
POR EM 14/01/2010 ÀS 02:23 PM

Por que Avatar é idiota

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Pôster AvatarQuase apanhei de minha esposa e filhas, quando souberam que eu chamei as pessoas que gostaram de "Avatar" de submentais. O que não me deixou surpreso, já que são mulheres, portanto cabeças de vento por excelência. Cabeças de vento dão desconto pra tudo em nome do “gracinha” ou “que bonitinho”. O exemplo clássico é um poodle irritantemente latidor, merecedor de uma laringectomia sem anestesia. Se for “bonitinho”, “gracinha”, está perdoado.

Quem melhor expressou em palavras a imbecilidade de "Avatar" foi Luiz Felipe Pondé, o melhor colunista da Folha de São Paulo (alguém que vai além da mera sinceridade, suspeito é que tem prazer em ser desagradável mesmo). Ele o fez em duas colunas, “O romantismo idiota de Avatar” e “Viva o Brasil capitalista!”. Esta segunda não fala do filme, mas serve bem ao propósito.

A ideia central de “O romantismo idiota de Avatar” é a incoerência da natureza selvagem como “bonitinha”. Em “Viva o Brasil capitalista!” Pondé comenta um livro (“Guia politicamente incorreto da história do Brasil”, Leandro Narloch, Ed. Leya) em que confronta a moda intelectual pseudoesquerdista do momento, pela qual os portugueses teriam sido “invasores”, quando na verdade foram “libertadores” de nossa condição primitiva (“nossa” como se fosse possível falar em “brasileiro” desconsiderando a mistura portuguesa). Quando duas culturas trombam de frente, vence a mais avançada. E “mais avançada” é bom, a despeito do que pensem primitivistas teóricos (primitivistas teóricos sabem tudo sobre culturas primitivas, de dentro de suas fartas bibliotecas com ar-condicionado e o Google, que ninguém é de ferro). Se há algo que brasileiros devemos lamentar é que os portugueses, e não os ingleses, nos tenham achado primeiro (e olha que sou descendente direto de portugueses, da cidade de Mira, pra ser específico). Nada, nada, falaríamos uma língua mais inteligente e universal.


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POR EM 11/01/2010 ÀS 04:17 PM

Seja lá o que for que funcionar

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Woody AllenEsse título seria a tradução mais próxima de “Whatever works”, último filme de Woody Allen. Há outras possibilidades, como “O que funcionar”, “Qualquer coisa que funcionar”, ou, simplesmente, “Qualquer coisa”. Se eu fosse o tradutor oficial de filmes no Brasil eu escolheria esse, que é curto e fiel ao espírito do filme. Mas não. Seria pedir demais um título decente para um filme de Woody aqui no Brasil. Com exceção de “Crimes e pecados”, melhor até do que o original “Crimes and misdemeanors”, o histórico é horrível. “Annie Hall” virou “Noivo neurótico, noiva nervosa” e “Love and death” virou “A última noite de Boris Gruschencko”, para citar dois dos exemplos mais desastrosos.

“Tudo pode dar certo”, o título escolhido por algum moron brasileiro, provavelmente fã de coisas do tipo “Avatar” (aliás, uma experiência interessante é assistir “Whatever works” seis vezes seguidas e logo depois “Avatar”, uma vez só, claro, e mesmo assim levantando pra ir ao banheiro várias vezes, sem prejuízo da compreensão da estorinha submental) não tem nada a ver com o espírito do filme. De fato, não consigo imaginar um título mais distante do espírito do filme. E, afinal, qual é o espírito do filme? “Whatever works” trata de uma obsessão de Woody já identificada em suas piadas stand-up da década de 1960 e também em seus primeiros filmes, mas mais escancaradas a partir de “Annie Hall” e “Manhattan”, a saber, a absoluta falta de sentido de nossa existência, que, associada a absoluta indiferença de um universo sem Deus (Woody não é judeu, é ateu), só nos deixa duas saídas: o suicídio ou nos agarrarmos às pequenas coisas (como em “Manhattan”), enfim, a... whatever works.  “Manhattan”, por sinal, foi a primeira vez em que ele apresentou sua versão de casal improvável pela idade mas que acaba dando certo (Mariel Hemingway com 17 lindos aninhos e ele próprio, com 42). Depois, vira-e-mexe, aparecia algo do tipo, até que fez isso na própria vida pessoal, trocando Mia Farrow por Soon-Yi.


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POR EM 27/11/2009 ÀS 02:59 PM

Bartleby e eu

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O Mal de BartlebyDiante de minha recusa em escrever, uma amiga (ela própria uma escritora) enviou-me por e-mail um artigo que saiu na revista “Literatura – Conhecimento Prático”, da editora Escala (“O Mal de Bartleby”), que eu não li. Não gosto desse conto de Melville, me dá agonia. Além disso, não acho que o nome que escolheram pra “síndrome que faz os escritores desistirem da escrita” tenha sido feliz. O que tem a ver a recusa bartlebyana com a recusa em escrever?
           
Pra começo de conversa, “recusa” não é bem o que acontece na maioria dos casos. Vamos então trocar a palavra por “impossibilidade”. Afinal, não se trata de ato voluntário. Trata-se mais de um não-ato. Uma mistura de preguiça, com emburrecimento, com inércia e, talvez, por incrível que pareça, de sensação de plenitude. Explico-me. Acabei comprando a revista sugerida por Margareth Giglio (a leitora-escritora) e acabei lendo a matéria e a entrevista que a acompanha, com o poeta Fabrício Carpinejar. Não concordo com quase nada. Mas Carpinejar disse algo que faz sentido. Quando está feliz, quando tudo vai bem, ele se desmotiva a escrever. Parece que precisa estar “fodido” pra sentar a bunda na cadeira e despejar teclas suficientes, dignas de se tornarem públicas.
           


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POR EM 29/08/2009 ÀS 12:16 PM

Considerações neuro-científicas acerca do fenômeno Cora Coralina

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Em sua coluna na Folha de São Paulo (“Saber e experiência”, 27/08/2009), Contardo Calligaris fala sobre nossa necessidade de um referencial quando apreciamos uma obra de arte. Contardo nos aconselha a, na próxima vez que formos a um museu, observarmos as pessoas, em vez dos quadros. Perceberemos, entre outras coisas curiosas, que elas, antes de olhar pras obras de arte, checam quem fez. Se famoso, detém-se. Se desconhecido, passam rápido. E então ele nos conta que há uma exposição acontecendo na Itália em que se omite as “plaquinhas”. 
 
No livro “Predictably irrational. The hidden forces that shape our decisions” (Harper Collins, 2008), do professor de economia comportamental Dan Ariely, entre vários exemplos de nossa surpreendente irracionalidade, há alguns que também demonstram experimentalmente nossa necessidade de referenciais. Como no caso de escolhas em restaurantes. Ou o que achamos de uma cerveja, antes e depois de sabermos que pingaram vinagre nela (antes, gostamos, depois, não). Mas o mais interessante é o que mostra a influência do resultado de uma roleta logo antes de se perguntar a alguém o número de países na África. Gira a roleta. Deu número alto? Chuta-se número mais alto. Deu baixo? Chuta-se número mais baixo. Agora me digam: o que, diabos, tem o resultado de uma girada de roleta a ver com o número de países na África?!?
 
Na verdade, se pensarmos bem e cavarmos a memória de nosso dia-a-dia, nada disso é surpresa. O ser humano é essencialmente inautêntico mesmo. O ser-aí é ser-com-os-outros para o bem e para o mal (mais para o mal). Na maior parte de nosso tempo não somos pessoas, mas, sim, “impessoas”, dissolvidos no mar do impessoal. Em outras palavras, somos uma enorme, disforme e pretensiosa manada. Somos animais e vivemos nos esquecendo disso (é como se a biologia tivesse criado uma categoria pra gente. Há as plantas, os animais, e... nós).
 
A necessidade que nosso cérebro tem de referenciais (a todo momento, para tudo) é particularmente evidente no que diz respeito à apreciação artística. Mostre um quadro, digamos, abstrato, a alguém sem dizer que foi, digamos, Pollock, quem fez e provavelmente obterá um silêncio constrangedor. Diga que foi Pollock e virão ahs e ohs de rodo. (A propósito, há uma cena emblemática disso no filme “Manhattan”, quando Woody Allen se encontra com Diane Keaton, num museu de arte em Nova York).  Mande um romance inacreditavelmente ruim a uma grande editora e espere pelo menos duas gerações (seu neto receberá uma carta muito educada de recusa). Assine Paulo Coelho e no mesmo dia o editor lhe telefonará animado (a quem interessar possa: não estou entre os que criticam Coelho sem tê-lo lido. Li dois de seus livros e vou morrer sem compreender a razão de seu sucesso).
 
É claro que, mesmo depois de estabelecido um referencial empático, podemos nos decepcionar. Alguns filmes recentes de Woody e a produção recente de Ignácio de Loyola Brandão, por exemplo, para citar dois meus (Loyola Brandão exerceu enorme influência em minha juventude), fazem lembrar do filósofo Hugo Chavez: por que não se calam? Ou, ainda, vários contos de Machado de Assis e Tchékhov deveriam ter sido sepultados com eles (a necessidade editorial-comercial de “esgotar” um autor é cruel com sua obra).
 
O caso Cora Coralina é exemplar da necessidade neurológica de referenciais e seu potencial efeito nocivo. (Antes que goianos bairristas deem à luz um nenê histérico, quero dizer que acho salutar sua fama e o que eventualmente isso traga pro turismo de Goiás Velho, sendo a família de minha mãe — Rocha Lima — de lá). Parece que ela conseguiu atravessar o Paranaíba (confesso que sempre achei essa expressão meio sem-sentido, já que quando atravessamos o Paranaíba caímos em Minas, o que, do ponto de vista editorial, é sair do espeto pra cair na brasa) por conta de um elogio de Carlos Drummond. Faz-me lembrar o que aconteceu com Augusta Faro, depois que seu livro de contos “A Friagem” foi elogiado por um colunista da "Veja". Com duas diferenças. “A Friagem” é bom. Cora, não. (Gostei d’A Friagem muito antes do tal elogio, quando ainda publicado por editora pequena e apesar de sua capa feia).
 
Mas há outra diferença. E essa é considerada deselegante comentar. Uma espécie de tabu. Vou apanhar por conta disso, mas vá lá: o sucesso de Cora, em minha opinião (uma professora de português dizia que era idiota escrever “minha opinião” em artigos de opinião, já que só pode ser minha mesmo, a não ser que indicado o contrário, mas aqui acho necessário frisar), está intimamente ligado ao fenômeno do “freak”. Sabe aquelas aberrações de circo que fazem sucesso? Como o homem elefante, por exemplo. Calma, não estou chamando Cora de aberração. Estou apenas tentando elaborar uma analogia. O caso dela está mais para o daquelas crianças que tem memória boa ou que aprendem a ler mais cedo que as outras e os pais ficam mostrando: “Olha que bonitinho, ela sabe escrever”. É mais ou menos por aí. Uma velhinha do interior de Goiás, simples doceira, que sabia escrever direitinho. Olha que bonitinho. O fato de haver teses acadêmicas a respeito de sua obra apenas serve para reforçar minha própria tese. Além de reforçar a impressão dostoievskiana que as ciências biológicas têm das humanas: na falta de experimentação científica, tudo é permitido.
 
Exagero meu? Insensibilidade minha? Pode ser. Já defendi em várias outras oportunidades que o gosto literário, por mais que se lhe atribua critérios pretensamente objetivos, sempre será... gosto. Meu gosto, seu gosto. Pode ser que eu seja um imbecil a quem escapa (por completo!) a transcendência da poesia de Cora. Pode ser que eu vá para o inferno por isso. Mas, antes, invoco em minha defesa o testemunho de alguns de seus poemas publicados no jornal “O Popular” há alguns anos, desencavados pelo escritor Heitor Rosa (que, diga-se de passagem, também “atravessou o Paranaíba”, publicando seu excepcional “Memórias de um cirurgião barbeiro” pela Bertrand, e que permanece inexplicavelmente merecedor do desprezo da inteligência local).

Desgraçadamente, procurei e não consegui encontrá-los em meus arquivos de recortes de jornal. De forma que terão de acreditar em minha palavra (seria interessante se alguém os tivesse e publicasse aqui). O professor Heitor que me perdoe, mas ele prestou um enorme desserviço a Goiás levando aquilo a público. Foi a gota d’água pra mim. Se até então tinha a incômoda sensação de que eu enxergava demais (ou de menos, dependendo do referencial) nesse mar de histeria coletiva, com a publicação daqueles poemas eu tive certeza. Era constrangedora sua puerilidade. Inacreditável sua ingenuidade (no mau sentido). Absolutamente deplorável sua ruindade. Prometi a mim mesmo nunca mais ferir meus fotorreceptores com a poesia de Cora Coralina, e guardar a sete chaves essa opinião. Até o momento consegui cumprir a primeira promessa. A segunda, acabo de quebrar.
 


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POR EM 18/07/2009 ÀS 08:50 AM

O que realmente importa

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Cena 1 – Sala de apartamento classe média. Pai tentando ler.


Filha (7 anos, linda) — Papai, o que é guilhotina?

Pai (contrariado) — Hmmm?

Filha — O que é guilhotina, papai?

Pai (conformando-se com a interrupção, ma non troppo) – Guilhotina? Por que você quer saber?

Filha — Eu vi essa palavra numa revista sua.

(Era uma revista de história)

Pai — Guilhotina é um instrumento pra cortar a cabeça de uma pessoa.

Filha (assustada, ma non troppo) — Mesmo? Por quê?

Pai — Não se usa mais, foi muito usada na França, há muito tempo. Cortou-se um bocado de cabeças na época.

Filha — Por quê?

("Por quê?" é a pergunta fundamental. Esquecemo-nos disso, mas as crianças não)

Pai (querendo dar um fim na conversa) — Tinha uma moça que gostava de croissants e achava que bastava dar croissants pro povo, que ele quietava.

(Pausa. Pai volta aliviado pra leitura. Mas obviamente sua resposta tinha sido insatisfatória).

Filha — Papai, o que são croissants?


Cena 2 — Mesma sala do mesmo apartamento. Mesmos pai e filha.


Pai — (Cortando o charuto com uma guilhotina) — Tá vendo isso aqui? É uma guilhotina também. Corta a cabeça do charuto.

Filha (divertida com a utilização elástica da palavra) — E dá pra cortar o dedo também, né?

Pai — Dá isso aqui, que é perigoso menina.

(Pai acende o charuto e curte a música. Lacrimosa do Réquiem do Mozart. À sua frente alguns livros. Um deles é a análise do Anjo exterminador, do Buñuel, feita pelo Bráulio Tavares, ed. Rocco)

Filha (manuseando os livros) — Papai, o que é exterminador?

Pai (soprando a fumaça do charuto pra longe da menina) — É alguém que mata todo mundo (não lhe ocorreu explicação melhor, ia citar Schwarzenegger, mas achou melhor não).

(Filha pega a caneta vermelha que o pai sempre carrega para riscar seus livros enquanto os lê — ele não sabe ler sem riscar — e um pedaço de papel. Deixa o pai em paz por bem uns cinco minutos)

Filha — Papai, olha (mostra o desenho).

Pai — O que é? Deixa ver... (estuda o desenho por uns segundos — a filha, apesar da idade, desenha bem — certamente muito melhor do que ele). É uma nuvem e uma guilhotina em cima da nuvem?

Filha (toda contente porque o pai acertou na mosca seu desenho) — É o anjo exterminador.

(Pai desiste de ler. Apaga o charuto. Vai curtir a filha. O desenho fica guardado entre as páginas do livro. Daqui a uns vinte anos o pai abrirá esse livro e derramará uma lágrima. Ou muitas).
 


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POR EM 11/07/2009 ÀS 09:04 AM

Nona

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Não foi sonho. Nem delírio. Aconteceu pra valer. Estava passeando num parque qualquer (não, não vou contar qual) e topei com Ludwig van (o “van”, contaram-me, é por conta de uma ascendência belga, não tem nada de nobre, mas vai dizer isso a ele, o metido), que lia algo distraído e falava sozinho. Soluçava.

— Pôu! — achei por bem ajudar com o soluço, mas ele continuou caminhando, lendo e soluçando. Cutuquei seu ombro direito.

— Ahn?

— O que fazes aqui, Ludwig, peripateticamente?

— O quê?

Repeti, mais alto. E ele:

— Sem essa de Ludwig, por favor. Não force intimidade. E pode usar a terceira do singular mesmo.

— Nossa, que humor.

— Como é?

— Que humor — gritei.

— Desculpe. É que estou enrolado com essa peça musical há mais de trinta anos...

— Deixa eu adivinhar —  fiz suspense, como se eu já não soubesse – A nona.

— Como você sabe?

— Sei de tudo. Pode perguntar.

— Samovar? Você é russo?

— Perguntar, pode perguntar — gritei de novo.

— Ah, sim. Até logo.

— Calma, que pressa, parece o coelho da Alice.

— Calvície? Não, não tenho problema com isso. Olha aqui.
           
Ele me mostrou a vasta e desgrenhada cabeleira. Pã, pã, pã, pã, pensei, engatando a quinta.
           
— Que livro é esse?
          
— Hein?
          
— O livro — gritei mais uma vez (ô, saco!).
          
— Ah.
         
Ele me mostrou: Ode à alegria, Schiller.
          
— Claro, claro.
           
— Agora com licença, que preciso me encontrar com von Goethe.
          
— Deixa esse cara pra lá, ele vendeu a alma pra Mefistófeles. Tenho uma sugestão.
           
— Hein?
           
Puta merda, como pode esse fdp ter feito a mais bela música já concebida por alguém! Respirei fundo, e, magnanimamente, repeti mais alto. Daí ele, sem muito interesse, tipo me desprezando:
           
— Mesmo?
          
— O quarto movimento, faz o seguinte: primeiro só melodia sem voz, uns dez minutos, sei lá, isso você resolve. Mas aí... Pega aí o livro, vê se me acompanha. Entra o tenor, quem sabe um barítono, “O Freunde, nicht diese Toene”, etc”. Lá pelo “Deine Zauber”, etc, entra o coro junto, repetem uns três versos, depois uma soprano acompanha o tenor na altura do “Wem der grosse”, etc...
           
— Perna grossa? Quem? Onde? Sou chegado numa b...
           
Desisti. Pior pra ele.
 


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POR EM 27/06/2009 ÀS 09:05 AM

Por uma lei de imprensa nazista

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Eu matei a Lady Di. Isso mesmo. Fui eu. Não foram os paparazzi, nem o motorista bêbado, nem o namorado milionário, nem a Camila Parker (se bem que, nesse caso, nunca se sabe...). E sabe por quê? Porque eu não agüentava mais notícia idiota sobre a Lady Di. Lady Di na África. Lady Di flagrada de topless. Lady Di espirrou diferente ontem. Lady Di voltou a espirrar normal hoje. Lady Di isso. Lady Di aquilo. Em pleno horário nobre (embora “nobre”, pra mim, seja qualquer horário em potencial), Jornal Nacional, está lá o casal anunciando solenemente a última da... Lady Di. Enchi o saco. Desejei que ela morresse. Daí ela morreu. No dia seguinte (juro!). Nunca mais desejei isso pra ninguém, pois sei que não devo usar meus superpoderes para o mal. Só que era tarde (tadinha, afinal, a culpa não era dela).
           
É por essas e muitas outras que deixei de ver TV há muito tempo. Ainda resisto bravamente e leio jornais. Só que tem vezes (muitas!) em que dá vontade de por fogo (ou uma bomba) na redação. Ontem, por exemplo, estava eu lendo tranqüilamente minha Folha de São Paulo, quando deparo com uma pequena mas absolutamente oligofrênica matéria a respeito de uma adolescente americana que tinha vencido um concurso de digitação rápida de celular. PQP! Minha retina não é latrina, cidadão! Tem dó! O quê? Eu poderia não ter lido? Não dá, quando vê, já li. É tarde demais. Você está ali, passando os olhos pelo jornal, daí tromba com uma matéria dessas, vai lendo até o fim, progressivamente surpreso com a imbecilidade exposta a nu... pronto! Leu. F...eu.
           
É por mais essas e muito mais outras que defendo uma lei de imprensa nazista. Ah, que falta nos faz um governante tipo Chávez, ou Fidel, Stalin, Hitler (atenção chavistas e castristas, antes de darem um ataque histérico, não estou afirmando que esses senhores sejam iguais, mas apenas que têm algumas características em comum, sendo a que me interessa a aversão por quem pensa diferente deles). Com um sujeito desses comandando o Brasil nossa lei de imprensa poderia ser mais ou menos assim:
           
Artigo 1 —  Para ser jornalista será necessário ser... jornalista.

Parágrafo 1 — Por “jornalista” entenda-se alguém que estudou pra isso, da mesma forma que um ministro do STF precisou estudar pra ser bacharel em Direito.
           
Artigo 2 — O jornalista está obrigado a dizer apenas a verdade.

Parágrafo 1 —  Por “verdade” entenda-se aquilo que não é mentira. Na eventualidade de não se saber qual dos dois, que se mantenha calado.
           
Artigo 3 — O jornalista está proibido de partir do pressuposto que seu leitor seja um imbecil (ainda que haja fortes evidências nesse sentido).

Parágrafo 1 — Por “imbecil” entenda-se o leitor que acharia interessantes matérias do tipo “uma adolescente ganhou concurso de digitação em celular, etc”.
           
Artigo 4 — Todo jornalista, assim que se formar, terá implantado em sua orelha um rastreador com um chip. Esse chip terá, entre outras propriedades, a de produzir um choque elétrico entre 1 e 1000 Volts.

Parágrafo 1 — O leitor, ao assinar um jornal ou revista ou canal de TV, receberá um controle remoto dos jornalistas daquele veículo. Nesse controle, terá as opções “punição” e “prêmio”. A função “punição”, quando acionada, desencadeará uma descarga elétrica no rastreador de seu jornalista de até 1 Volt. Se vários leitores a apertarem ao mesmo tempo, o jornalista será sumariamente eliminado desta para melhor. Se vários apertarem em horários diferentes o jornalista passará horas sofrendo (sugere-se essa penalidade para casos extremos). A função “prêmio”, quando apertada várias vezes, dará direito a aumentos de salários.

Revogam-se as disposições em contrário.
 


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POR EM 22/06/2009 ÀS 10:20 AM

Menos clássicos e mais contemporâneos

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Marcelo Coelho e Antônio Cícero, em suas colunas na “Folha de São Paulo” de, respectivamente, 13/05/2009 e 30/05/2009, percorreram caminhos diferentes, mas chegaram ao mesmo lugar. O primeiro, comentando o lançamento do livro “Kalevala” (um épico finlandês traduzido por José Bizerril e Álvaro Faleiros, e editado pela Ateliê), diz acreditar que “temos pavor de ler os clássicos de qualquer literatura” e que “perdemos tempo com muitos livros atuais, deixando autores como Goethe, Dante, Virgílio e Montaigne para quando estivermos bem velhinhos”.
 
Antônio Cícero, por sua vez, defende a leitura dos clássicos da filosofia, em detrimento de seus comentadores contemporâneos. O “desejo de ser contemporâneo”, acredita, “não passa de sintoma de um agudo provincianismo temporal. Quando se manifesta no campo da filosofia, talvez o melhor antídoto para ele seja exatamente a leitura cuidadosa dos clássicos.”
 
Isso me fez lembrar do quanto é comum se ouvir de escritores, quando perguntados o que aconselham outros escritores a ler, que privilegiem os clássicos. Faz-me lembrar também daquelas listas (de que o editor da Revista Bula, Carlos Willian, tanto gosta) de leitura de fim de ano, recheadas de clássicos estrangeiros e de insultos a autores brasileiros.
 
Discordo triplamente. Pra começo de conversa, não acho que Marcelo Coelho tenha razão ao inferir que lemos mais contemporâneos do que clássicos. Se é pra chutar, chuto o exato oposto. Imagino basicamente dois tipos de leitores não-escritores (os leitores-escritores são diferentes, explicarei depois): a maioria é leitora de best-sellers estrangeiros (eventualmente um brasileiro como Paulo Coelho ou Luiz Fernando Veríssimo, guardadas as devidas proporções entre os dois, quantitativa e qualitativamente); a minoria é leitora de clássicos estrangeiros (“Dom Quixote”, “Crime e Castigo”, “Guerra e Paz” seriam bons exemplos de livros consumidos por esse grupo). Por último, correndo por fora, há os leitores-escritores que lêem a si próprios (e eventualmente são lidos por vestibulandos). Portanto, o grupo que lê “literatura brasileira contemporânea” é disparado o menor.
 
Em segundo lugar, discordo também de Antônio Cícero. Penso que ele está confundindo o que lê a academia por dever de ofício com o que o que lê o “filosofiófilo”. Filósofos diletantes só querem saber de clássicos. Nem sequer ouvem falar desse ou daquele candidato a filósofo contemporâneo. “A República” de Platão e a “Ética a Nicômaco” de Aristóteles, “O elogio da loucura” de Erasmo de Roterdam e a “Utopia” de Morus, “O príncipe de Maquiavel” e “Assim falava Zaratustra” de Nietzsche são certamente muito mais lidos do que qualquer medalhão de qualquer universidade de prestígio brasileira ou estrangeira.
 
De onde tirei isso? É chute, já disse. Vem de minhas impressões em conversas em festas e outras formas de sociabilização com não-escritores e não-filósofos. Absolutamente não-científico. Mas eu seria capaz de apostar dinheiro nesse meu palpite.
 
Em terceiro lugar, discordo tanto de escritores que sugerem privilegiar os clássicos, quanto daqueles que acreditam que não se faz coisa que preste em literatura ou filosofia no Brasil. Escritor brasileiro vivo tem que ler, sim, bastante escritor brasileiro (e estrangeiro) vivo. Leitores eruditos, por seu turno, não sabem o que estão perdendo quando desprezam a literatura contemporânea nacional. Tem muita coisa boa sendo feita por aqui. Arrisco ir além. Existem vários escritores brasileiros que dão banho nos queridinhos de fora do momento (Philip Roth, Ian MacEwan, etc, a lista é longa).
 
Eu disse antes que o grupo de leitores de escritores nacionais contemporâneos é formado (basicamente) por... escritores nacionais contemporâneos. Caio em contradição? Não, porque essa turma costuma ler também os clássicos (daqui ou de fora), sem que seja necessário que escritores já com fama estabelecida lhes digam isso.
 
Não defendo que não se leia clássicos. Não sou estúpido. O que defendo é que não se privilegie os clássicos. Como tudo na vida, há que ter equilíbrio. Leia-se uns e outros. Igualmente.
 


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POR EM 08/05/2009 ÀS 01:13 PM

Somos todos canalhas

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“Esperar que mudanças em um sistema de casta por iniciativa dos seus beneficiários é acreditar em papai Noel ou o Saci-Pererê”. (Clóvis Rossi, "Folha de São Paulo", 7 de maio de 2009) 

            Conjugue comigo:
 
            Eu sou canalha
            Tu és canalha
            Ele é canalha
            Nós somos canalhas
            Vós sois canalhas
            Eles são canalhas
           
Isso. Agora vá ao banheiro e repita, agora na frente do espelho. Pode ir, eu espero. Vamos, não estou brincando. Isso aqui é muito sério. Muito bem. (Tempo. Dedos tamborilando pacientemente). Pronto? Ótimo. Agora vá pra rua e repita novamente, dessa vez bem alto, “Eu sou canalha, tu és canalha...”. Anda logo, cidadão, que não temos todo tempo do mundo. Se quiser, pode rechear com sua criatividade, algo do tipo “Eu sou um grandessíssimo canalha, tu és um canalha absoluto, etc”.
           
Esse momento catártico era necessário para que meu ponto fosse colocado de forma inequívoca. Agora tentarei desenvolver. A epígrafe, retirada do artigo-editorial do jornalista Clóvis Rossi, referia-se, como todos devem ter percebido, às safadezas dos membros dos poderes brasileiros. Mais especificamente aos “escândalos” das viagens dos senadores e de juízes (ou ministros, sei lá, já que se tratava do STJ).
           
De repente todos se declaram surpresos que pessoas como Fernando Gabeira, Eduardo Suplicy e membros do Judiciário se lambuzem em privilégios auto-concedidos. Me escapa à compreensão a surpresa. Ora, o ser humano é safado por natureza. Egoísta, preguiçoso, belicoso, malandro (continue aí pra mim com outros adjetivos semelhantes que lhe ocorrerem, por favor).
           
(É verdade que ninguém se mostrou muito surpreso em ouvir do nosso digníssimo presidente que é hipocrisia se espantar com as demonstrações explícitas de malandragem. Depois que pra ele o mensalão estava justificado porque “sempre foi assim”, quem é que vai se surpreender com qualquer outra coisa vinda dali?)
           
Agimos eticamente única e exclusivamente por coerção. Ecos de Hobbes por aqui? Quase. É claro, o “homem em estado de natureza” hobbesiano é bem menos equivocado do que o rousseauniano. Mas discordo de Hobbes na medida em que ele dá desconto ao homem antes de agir (o homem tem inclinações más, mas não é mau enquanto não age malvadamente). Biologicamente, poderíamos dizer que as inclinações humanas (ou animais, pra todos os efeitos) não são boas nem más, são neutras. Teimo e discordo: inclinações más equivalem a pessoa má. Simples assim.
           
Repito: agimos eticamente apenas por coerção. E de onde vem a coerção? Do poder. Ora, por que, então, agirá eticamente quem detém o poder? Eles são sua própria coerção. Ou seja, coerção nenhuma. Daí ser impossível que haja ética na política. A política tem sua própria ética. Ou seja, ética nenhuma.
           
(“Política” aqui deve ser entendida em seu sentido lato, cabendo qualquer um que detenha poder.)
           
No caso dos políticos que chegam aos seus cargos de poder por meio de voto, a coerção poderia vir do “povo” (Rousseau? Acho que não). Mas não vem. Porque o “povo” (ou “nós”) também é canalha. Dê-lhe (dê-nos) pão e circo (ou bolsa-isso, bolsa-aquilo e carnaval) e ficará tudo bem. É como diz o sapientíssimo filósofo político do PTB do Rio Grande do Sul, Sérgio Moraes:“Estou me lixando para a opinião pública. Até porque parte dela não acredita no que vocês escrevem. Vocês batem, mas a gente se reelege”. Convenhamos, trata-se de uma peça de rara honestidade no cenário do Congresso Nacional.
           
Agora, pausa. Não se depreenda, do que aqui está escrito, que somos canalhas, ergo, devemos ser canalhas. Seria um enorme equívoco conhecido como “Falácia Naturalista” (Do “ser” não se deriva o “deve ser”; ou do “assim é” deriva o “assim deve ser”). Seria cair na armadilha proposta pelo presidente Lula (conformem-se, bando de hipócritas, pois “sempre foi assim”). Um dia chegará, na escala evolutiva humana, em que deixaremos de agir utilitário-egoisticamente e nos tornaremos todos kantianos. Só que não pela Razão (com “R” maiúsculo, como sonhava o alemão sistemático), mas pelo instinto. Isso mesmo. Estará “imprintado” em nossos genes o agir por meio de imperativos categóricos de valor universal. Quando chegará o dia? Provavelmente daqui a uns mil, dez mil, cem mil anos. Certamente não agora. Então, enquanto isso, repita comigo: “Eu sou canalha, tu és canalha...”.


 

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POR EM 01/05/2009 ÀS 11:07 AM

A complicada relação entre imprensa e pesquisa médica

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Quando recebi em minha casa o número de janeiro da  “Investigative Ophthalmology and Visual Science” (IOVS), que é o periódico científico oficial da Association for Research in Vision and Ophthalmology (ARVO), uma associação que congrega todas as áreas que de alguma forma se ocupam com a pesquisa em Ciências da Visão, pensei comigo: “Ai, ai, prato cheio pra interpretações apressadas. Daqui a pouco algum jornalista terá a brilhante idéia de publicar isso”.

Não deu outra. Na “Folha de São Paulo” de 24 de abril, no caderno “Saúde”, lá estava, assinada por Juliana Calderari. Com as palavrinhas mágicas de praxe, aquelas que protegem contra processos e eventuais críticas, “pode” e “sugere”, Calderari relata os dois trabalhos de Paul T. Williams publicados na IOVS (“Prospective epidemiological cohort study of reduced risk for incident with vigorous physical activity and cardiorespiratory fitness during a 7-year follow-up e Prospective study of incident Age-related macular degeneration in relation to vigorous physical activity during a 7-year follow-up”), sem especificar a fonte (diz apenas o local onde foram conduzidos, a Universidade de Berkeley, como se a chancela de uma universidade de peso bastasse para abençoar a matéria).

As fraquezas do estudo são várias e a principal delas o próprio autor reconhece: o diagnóstico das doenças era auto-relatado. Ou seja, perguntava-se aos sujeitos da pesquisa se nos últimos anos eles tinham ido a um oftalmologista e se este tinha lhes dito que estavam com catarata ou degeneração macular. Ora, os estágios iniciais de ambas são assintomáticos ou subsintomáticos. E, portanto, nem sempre relatados. Além disso, para fazer seu diagnóstico preciso só dilatando as pupilas (particularmente no caso da degeneração macular), o que nem sempre é feito em pacientes com mais de 40 anos de idade (justamente a população-alvo da pesquisa). Tanto aqui no Brasil quanto nos EUA o próprio paciente acha ruim que se lhe dilate as pupilas, pois sabe que depois dos 40 não é necessário para sua refração (exame de grau de óculos).

É verdade que Calderari teve o cuidado de entrevistar dois nomes de grande reconhecimento no meio oftalmológico (Marinho Scarpi e Rubens Belfort Jr., ambos da Escola Paulista de Medicina – UNIFESP), mas lhes deu espaço mínimo (ou a Folha é que deu o espaço pequeno, isso não tenho como saber) para tentar explicar outras fraquezas, como, por exemplo, os fatores de confusão com o objeto principal do estudo. Por exemplo, quem pratica muito exercício costuma ter uma dieta saudável, menos hipertensão e menos diabetes, fuma e bebe menos. Em outras palavras: será que eu não posso ficar sentadinho em minha cadeira e apenas não fumar, beber pouco e comer mais peixe, verduras e frutas? E caso nem assim meu colesterol e pressão arterial baixem eu tome anti-hipertensivos e uma estatina qualquer, sempre sentadinho em minha cadeira só assistindo TV? Provavelmente sim. Ou quem sabe não. Quem sabe? Certamente o estudo não, pois não teve força pra isso.

Estou bancando o chato? Que mal há em aconselhar o óbvio? Que mal pode haver em se aconselhar a fazer exercícios? Neste caso há sim. Pois a conclusão do estudo vale para exercícios vigorosos (correr 10 km/dia não é pouca porcaria não). Vai a turma de sedentários que leu a matéria se meter a fazer isso pra ver a quantidade de internações em pronto-socorros cardiológicos pouco tempo depois!

Agora, pra não dizer que estou pegando no pé da “Folha”, aqui vai uma do “Estadão”. No dia 5 de abril, assinada por Herton Escobar, saiu publicada a matéria “Terapias com células-tronco geram dilemas entre pacientes e cientistas”, com o subtítulo “Cada vez mais, pessoas buscam tratamentos experimentais no exterior, mesmo sem comprovação científica”. Esse subtítulo me fez lembrar imediatamente da propaganda enganosa-criminosa do tratamento milagroso para Retinose Pigmentar de Cuba. De fato, as coincidências são muitas. Vejamos.

Trata-se de países com regimes fechados, totalitários, portanto, com acesso difícil e até desprezo pela informação. Embora, justiça seja feita, pelo menos no caso da China, há muitos pesquisadores que não têm medo de seguir as regras da pesquisa científica e se submeter ao crivo dos pares para corroborar (ou não) seus eventuais progressos. Nos dois casos a desfaçatez dos médicos envolvidos beira o absurdo. Não. Ultrapassa o absurdo. Não. Deixa eu colocar nos justos termos: se inferno houver, é praonde eles irão. Círculo nono.

Tanto os milagreiros cubanos quanto os chineses se valem do mesmo argumento vago, que a maioria de seus pacientes melhora. Melhora como? Quanto? Registrado por quem? Por eles mesmos? Será que já ouviram falar em efeito placebo e em viés de observador? O efeito placebo é tão impressionante que pode ser até mesmo “pré-placebo”. Em estudos de tratamentos para degeneração macular, por exemplo, os pacientes podem melhorar uma linha de visão (que não é pouco!) só de saber que participarão. Veja bem: antes de usar qualquer coisa, até placebo!

No caso do viés de observador, uma verdade grosseiramente óbvia é que quem faz o tratamento não pode ser quem mede seu resultado, pois quem faz torce pela melhora. Isso é tão básico, tão pré-histórico, tão primário, que me surpreende que qualquer pessoa, mesmo sem formação científica, perca seu tempo dando espaço e voz a lunáticos (na melhor das hipóteses) ou desonestos (na pior), que usam esse espaço da pior maneira possível: como propaganda para seu “negócio”. É verdade que no caso da matéria de Escobar, muito mais espaço foi dado a médicos-pesquisadores sérios do que na de Calderari, o que ajudou a dar um tom neutro. O problema é que o tom não era pra ser neutro, mas, sim, tendencioso mesmo. Tendencioso pro lado sério. Tinha de ter sido uma reportagem-denúncia, com o título: “Médico chinês propõe tratamento milagroso sem nenhuma comprovação científica com células-tronco e cobra os tubos por isso!”

Outra coincidência entre Cuba e China: os “tratamentos” são para doenças incuráveis e/ou progressivas. Esse é o detalhe sórdido que, aliado ao alto custo do “tratamento” (como é que se define estelionato mesmo?), dá posição garantida no inferno a seus realizadores (círculo nono!). Trata-se de uma descarada exploração do desespero. É um negócio maravilhoso, melhor do que tráfico de drogas: vende-se esperança a desesperançados.

Infelizmente, a pesquisa científica, embora caminhe bem mais rápido agora do que há 50 anos, ainda é muito lenta para o paciente que sofre na pele problemas mais graves. Duas linhas de pesquisa promissoras, como a terapia genética e as células-tronco ainda precisam galgar muitos degraus para se tornarem viáveis. O papel do jornalista nessa história deve ser de menos pressa e mais reflexão. Senão, de inocente útil, vira cúmplice de crimes.
 


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