Matrix
(O pequeno artigo abaixo saiu em 2006 na Bula, mas estou ressuscitando-o por conta de ter visto “Matrix” numa lista de filmes mais bem avaliados do site IMDB, em que figura na vigésima primeira posição)
Em junho de 2003 publiquei um artigo no jornal “O Popular” (Descarregando Matrix), em que aproveitava o gancho do filme para traçar um paralelo entre os arrasa-quarteirões hollywodianos e a situação geopolítica norte-americana. Resumindo, eu dizia que as estorinhas batidas desses filmes invertiam o que acontecia na prática. Nos filmes, uma minoria de lunáticos que acreditava ser capaz de vencer forças do mal incomparavelmente mais poderosas, acabava vencendo mesmo, against all odds. Na vida real, os EUA é que eram os Matrix e Darth Vader da vida. Eu ficava (e ainda fico) curioso em saber como o americano médio se comportaria se tivesse essa clarividência.
O fato é que, como aproveitei pra descer a lenha nesse filminho de luta metido a besta, recebi tanta porrada por e-mail que quase entrei pra mesma academia de Neo, aquela em que se aprende rapidinho e sem esforço. Pois caí na besteira de descer a lenha nessa porcaria outra vez, contraindicando-o na Bula. Pelo visto, apesar de ter um ou outro admirador contido e racional, ciente das (muitas) limitações do filme, “Matrix” enseja a existência de fanáticos que competem com os de “Jornada nas Estrelas” pelo troféu de campeão de falta de noção de ridículo. Mas antes que mandem Smiths (sinceramente...) em meu encalço, eu concedo um pouco. Há duas maneiras de se “defender” “Matrix”. A mais óbvia é a de que se trata de entretenimento. Essa não tem discussão. É oito ou oitenta. Ou se gosta de filme de luta e perseguição de carro, ou não se gosta. Vou eu tentar convencer um lutador de Jiu-Jitsu que os filmes do Van Dame são lixo? Sou besta?! Da mesma forma nem tento convencer minha esposa de que Tom Hanks e Meg Ryan juntos dão cárie. Vou. Assisto. Depois me vingo (ah, me vingo...). Há gosto pra tudo nesse mundo (graças a Deus!). E gosto tem-se. Ou não.
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Sei bem que só a ideia de um leigo se propor a fornecer um guia de museus, particularmente de arte, ainda que pequeno, já soa pretensiosa para alguns, os, digamos, profissionais. Pois isso faz tanto sentido quanto dizer que apenas escritores podem opinar sobre livrarias. Então dá licença que eu quero passar com minhas opiniões.
No fim de semana passado alugamos um carro e viajamos até a região chamada Berkshires, a duas horas de Boston, oeste do Estado de Massachusetts. É uma região bonita e com alguns pontos turísticos interessantes, para ver uma vez, como a casa de Herman Melville, em Arrowread, ou o Museu de Norman Rockwell.
Fiquei com inveja do
O que é o gosto? É possível gostar de algo “objetivamente”? É possível criar categorias classificatórias e/ou hierarquizantes para o gosto? Por que Machado de Assis é melhor do que Paulo Coelho? Ou Woody Allen do que Steven Spielberg? Ou João Cabral de Melo Neto do que Cora Coralina? A essa altura provavelmente algum leitor percebeu que os primeiros são minha preferência e já discordou de alguma delas. Pode estar se perguntando, estarrecido, “E desde quando Woody Allen é melhor do que Steven Spielberg?!”, por exemplo. Daí eu despejarei sobre esse incauto que ousou discordar de meu gosto que Woody é mais filosófico e Spielberg é mais entretenimento.
"Essas peças de louça são uma companhia de repertório, representando papéis em cada sonho. Não, não foi assim que começou. Ele disse que as peças de louça representavam um papel em cada pintura. O artista mostrava slides de naturezas mortas que havia pintado ao longo de trinta anos. Alguém na pequena e atenta platéia disse, “Essa não é a xícara do quadro de alguns anos atrás?”. Sim, era, o artista respondeu, e a tigela e a jarra e a taça também. Quem era a mulher nua encostada na mesa em que estavam dispostas as peças de louça? O artista não disse, e ninguém na pequena e atenta platéia perguntou.
Antes de seguir adiante, vale dizer algumas poucas palavras acerca da discussão sobre ser o cinema uma forma de arte. Poucas, pois argumentar demais nesse terreno é jogar precioso latim fora. Afinal, quem diz não ser arte o cinema é um de dois tipos de pessoa. Ou não acredita de fato no que diz e só o faz pelo prazer da provocação. Ou realmente acredita, e aí será o caso de alguém que, por não gostar da cor azul, afirma que azul não é cor. Nas duas situações é inútil argumentar.
O mundo está dividido em duas categorias. De um lado, Ciência & Tecnologia, do outro, Artes & Humanidades. Não adianta procurar a referência, quem disse isso fui eu mesmo. E mais: toda vez que leio que o homem moderno é intolerante, que o mundo de hoje, mais violento, que as pessoas de uns tempos pra cá têm preguiça de pensar, me doem as cáries. Tudo merda de touro. O homem sempre foi intolerante, o mundo sempre foi igualmente violento, e as pessoas, em geral, morrem de preguiça de pensar. Nem todas, claro. Como regra, as que não têm preguiça, fazem Artes & Humanidades. As intelectualmente limitadas, Ciência & Tecnologia.
Advertência: O desabafo abaixo é inapropriado para menores de idade e para aqueles que não estão dispostos a terem desabafos estragando seu dia.
Esse debate saiu na sessão ‘Room for debate’, do "New York Times". Traduzi a introdução integralmente, mas as posições de cada debatedor eu resumi. No final está minha própria opinião, a quem interessar possa. Quem quiser conferir se eu fiz besteira, eis o 