revista bula
POR EM 21/10/2012 ÀS 08:49 PM

Sobre o direito de dizer merda

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Richard Millet

Você já ouviu falar em Richard Millet? Provavelmente não. Ele é (era, até há pouco) membro do comitê de leitura de uma das mais prestigiosas casas editoriais francesas, a Gallimard. Enfim, não é (era) pouca porcaria não. Mas Millet é também um escritor. E, ainda e sobretudo, um boçal. Um eminente, gigantesco, grotesco, escroto boçal.  Autor do panfleto de 18 páginas intitulado  "Eloge littéraire d'Anders Breivik" (não publicado pela Gallimard, diga-se), por meio do qual faz um "elogio" a Anders Breivik, "fruto tanto da ruína familiar, quanto da fratura ideológico-racial que a imigração extra-europeia introduziu na Europa". Mas quem é Anders Breivik, mesmo? Outro boçal, um norueguês que achou por bem matar um monte de gente em nome de sei lá o quê, já que não importa o que ele diga que o motivou, só tem charme para seus semelhantes na submentalidade — como Millet.


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POR EM 05/09/2012 ÀS 09:43 PM

Por que eu e Ademir Luiz estamos certos e os comentadores da Bula e do facebook que discordam de nós não só estão errados, mas são também intelectual e moralmente inferiores

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“Seus respectivos públicos, que se colocam como adversários, já chegam convencidos.” (Ademir Luiz, em seu artigo “Por que Felipe Neto é o intelectual mais influente do Brasil”, aqui na Bula)


A edição de 18 de maio da revista “Science” traz um dossiê especial sobre conflitos humanos, apresentando os resultados de experimentos em diversas áreas das neurociências (as neurociências de verdade, não as de autoajuda) bastante interessantes e úteis para nos ajudar a entender a nós próprios.

Ajuda a entender, por exemplo, por que uma resenha que critique Woody Allen, ou um artigo que defenda que ele é melhor do que Dostoiévski, provocam reações iradas de leitores ofendidos, como se se tratasse de times de futebol ou insultos a membros da família. É bizarro que alguém que se diga “doutor em educação”, além de cometer erros crassos de português, revele-se preconceituoso, discriminador. Isso porque outrem critica um filme. É patético ler comentários que não se envergonhem de escancarar, senão a ignorância do assunto em questão, mas o próprio artigo que estão criticando. Digo ignorância do próprio artigo pois a maioria dos comentadores não se dá ao trabalho de ler. Lê o título, passa os olhos muitíssimo por cima e pronto. E isso não é típico de uma certa geração twitter, mas, sim, do ser humano, que é preguiçoso por natureza, portanto, desde sempre.


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POR EM 22/07/2012 ÀS 01:43 AM

O novo velho Woody

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Recentemente, em mesa redonda sobre o filme “Crimes e Pecados”, na Universidade Federal de Goiás, fui apresentado a todos pelo professor Lisandro Nogueira como “especialista em Woody Allen”. É claro que a intenção foi a melhor possível, mas confesso que aquilo me incomodou um pouco. Achei estranho, até então não havia me dado plena conta disso.

De minha parte, não me considero tanto. É verdade que vi todos os seus filmes pelo menos duas vezes. Também é verdade que alguns eu vi incontáveis vezes (como “Crimes e Pecados”, “Stardust Memories”, “Annie Hall”, “Manhattan, “Love and Death”, “Tiros na Broadway”, “Shadows and Fog”, “Hannah e Suas Irmãs”, “Interiores”, “Setembro”). Continua sendo verdade que li e ouvi todos os seus contos, crônicas e peças (“ouvi” porque há um audiobook com a coleção completa de sua prosa, lida por ele mesmo). Todas as suas biografias, entrevistas e um bocado da literatura crítica a seu respeito. E, ok, confesso, meu livro sobre ele está empacado até hoje.

“Especialista” talvez não seja o caso. Fixação mórbida, talvez? Seja lá o que for, será, antes de tudo, uma maldição. Como ele está vivo e produzindo, como sempre, um por ano, todo ano sou presenteado por uma grande decepção. Que só está piorando. Desde “Cassandra’s Dream”, em Londres, até hoje, o único bom exemplar produzido foi realizado justamente em Nova York. “Whatever Works” é um Woody puro sangue. O único. Todos os outros foram concessões a quem está pagando. Alguns chegaram a ser inacreditavelmente ruins. É o caso do último, “A Roma, com Amor”. Mas voltamos a este daqui a pouco.


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POR EM 18/07/2012 ÀS 10:22 PM

Meio-dia em Paris

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Comprei o penúltimo filme lançado de Woody Allen, assim como um tocador de blu-ray de 79 euros na Fnac, pois também o blu-ray tem essa divisão de mercado idiota dos DVDs (embora um pouco diferente) e fui assistir em meu apartamento no Orion Haussman, num dos prédios da Galeria Lafayette, em frente a Ópera Garnier. "Apertamento", na verdade. É indo a Paris que dá saudade do espaço nos EUA. E então minha antipatia pelo filme aumentou.

Meia-noite em Paris não é só uma vergonhosa concessão de Woody a quem se presta a lhe dar dinheiro pra filmar. É sobretudo uma propaganda enganosa. Os primeiros intermináveis cinco minutos mostram uma Paris que não existe. Ela está suja, feia, malcuidada, cheia de moradores de rua (a maioria do leste europeu, aparentemente) e, mesmo, violenta. Presenciamos, durante o mês de junho, cenas de violência no metrô (principalmente nos RER, que são maiores), algumas das quais, nos envolvendo diretamente. Mês de junho, por sinal, que mais parecia abril ou maio, cinza, frio, chuvoso. Ou seja, o oposto das imagens douradas pelo filtro de Woody.

Dito isso, devo confessar, adoro a cidade. Não tanto pela língua, que tem o defeito das latinas, uma gramática desnecessariamente complicada. Nem acho que mereça a fama de mais bonita, prefiro o som do alemão, acredite se quiser. Mas reconheço que o alemão é até pior, menos prático ainda do que as latinas. Bom mesmo é o inglês, que não é bonito, mas é facílimo.


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POR EM 04/06/2012 ÀS 10:22 PM

A ética da estética

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Escultura de Gunther von HagensJá tratei desse assunto alhures (Revista Filosofia Ciência & Vida, ed. Escala), mas volto a ele por conta do anunciado fechamento do Lixão de Gamacho (o aterro sanitário Jardim Gamacho, em Duque de Caxias, RJ, o maior da América latina), retratado no documentário “Lixo Extraordinário”, do artista brasileiro radicado nos EUA, Vik Muniz. 

Entre os extras da caixa da Versátil para “Decálogo” do diretor polonês Krysztof  Kieslowski, há uma entrevista dele a um grupo de jornalistas poloneses muito interessante. Respondendo a uma pergunta a respeito de sua decisão de abandonar os documentários e se voltar exclusivamente pra ficção, Kieslowski pondera que tal decisão se deu por ter percebido ser impossível realizar documentários sem se envolver com os sujeitos do lado de lá da câmera. Uma situação que se configurava um dilema ético que, pra ele, tornou-se insuportável, o que o fez optar por evitá-lo. 

Situação idêntica aconteceu com os realizadores de “Lixo Extraordinário”. Estes são registrados conversando sobre a mudança que estavam provocando nas vidas de seus protagonistas. Num primeiro momento, ficaram surpresos com a atitude positiva, orgulhosa (no bom sentido) e otimista dos catadores entrevistados. Acostumaram-se com isso. Mas num segundo momento, à medida em que esses saíam de sua rotina para ajudar no projeto de Vik, realizando, portanto, algo “mais nobre” e podendo vislumbrar até uma melhora de vida, começam a revelar seus verdadeiros sentimentos em relação à sua atividade: não queriam voltar pra ela. Afinal, a intervenção dos documentaristas estava sendo boa ou má? Seu projeto até poderia resultar em ganhos pra comunidade e pra associação dos catadores, mas poderia acontecer que não mudasse (individualmente) a vida de ninguém. Se Kieslowski visse o filme, certamente diria: “Eu não avisei?” 


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POR EM 29/02/2012 ÀS 09:24 PM

A propósito de Roman Polanski

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Yasmina Reza é uma dramaturga brilhante. Sua peça "Arte" equivale a um tratado sobre a estupidez humana diante do mercado de arte contemporânea. Uma outra peça sua eu quase assisti (a histeria mundial causada pela gripe suína não deixou) em Nova York certa vez, o que foi uma enorme perda (pra mim), pois acabou ganhando o Tony Award de 2009 — "Deus de carnificina". Dois anos depois, essa peça seria adaptada para o cinema por Roman Polanski, com um elenco estrelado (Jodie Foster, Kate Winslet, John C. Rilley e Cristoph Waltz, esse último revelado ao mundo por Quentin Tarantino, em "Bastardos Inglórios", por cuja participação ganhou Oscar). Pois foi em 2009, pouco depois de ganhar o Tony, que seu amigo Roman Polanski foi preso por conta de um caso antigo de estupro (presumido) ocorrido numa festa na Califórnia. Ela, então, concedeu uma entrevista a Jérôme Garcin, no periódico francês "Le Nouvel Observateur", que traduzo, resumidamente, abaixo. 

Le Nouvel Observateur — Quando a senhora viu Roman polanski pela última vez? 

Yasmina Reza — Dois dias antes dele ser preso, 26 de setembro. Jantamos juntos para conversar sobre a adaptação de "Deus de carnificina". Ele tinha visto a peça em Paris em 2008. No verão seguinte, na Suíça, onde, por ironia, passamos nossas férias no mesmo lugar, ele me perguntou com delicadeza, pois trata-se de um homem sem qualquer vaidade, se os direitos cinematográficos estavam ainda disponíveis. Eu já tinha recusado outras propostas, mas disse sim pra dele na hora. 


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POR EM 15/02/2012 ÀS 10:36 AM

Os 11 mandamentos de Henry Miller

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No início dos anos 1930, quando ele escreveu o que se tornaria seu primeiro romance, o superinfluente “Tropico de Câncer”, Henry Miller escreveu uma lista de 11 mandamentos, a serem seguidos por ele mesmo. Ei-los:
 

1 — Trabalhe numa coisa de cada vez até terminar

2 — Não inicie novos livros, não adicione novo material para a “Primavera Negra”

3 — Não seja nervoso. Trabalhe calma, alegre e freneticamente em tudo o que estiver fazendo

4 — Trabalhe de acordo com o programa, e não de acordo com o humor. Pare na hora prevista!

5 — Quando você não puder criar, você pode trabalhar.

6 — Cultive um pouco cada dia, em vez de adicionar novos fertilizantes.
 


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POR EM 06/02/2012 ÀS 08:14 PM

O odor deletério de Dostoiévski

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"Se Deus não existe, tudo é permitido". Essa deve ser uma das citações preferidas de um dos mais brilhantes filósofos que já existiu.

(Parênteses. Quando eu gosto muito de um escritor ou cineasta, concedo-lhe um "upgrade" para filósofo. Aqueles que ficaram bravos com meu artigo "Por que Woody Allen é superior a Dostoiévski", aqui na Bula, podem ter feito o juízo errado de mim, como não gostando do autor russo. Pois eu o considero brilhante, quase tão brilhante quanto Woody. A quem interessar possa, sou membro da Sociedade Internacional Dostoiévski, com muito orgulho).

Voltando à citação. Trata-se de uma referenciazinha capciosa, pois, pra começo de conversa, ela não é bem assim. Embora sua essência seja essa mesma, ela é dita de formas diferentes, em diferentes momentos do romance "Os Irmãos Karamázov". Por exemplo, quando Piotr Aliecksándrovitch conta um caso de Ivan Karamázov: "(...) se for destruída a fé em sua imortalidade, não somente o amor secará nele, mas também toda força de continuar a vida no mundo. Mais ainda, não haverá então nada de imoral, tudo será autorizado, até mesmo a antropofagia." (p.80 da edição da Ediouro). Aparece novamente na conversa entre Dimitri Karamázov e Rakítin, na prisão: "Mas então, o que se tornará o homem sem Deus e sem imortalidade? Tudo é permitido, por consequência, tudo é lícito?" (p.578, idem). E no discurso do promotor de justiça, a respeito de Smerdiakov: "Contou-me, lamuriando, no inquérito, como esse jovem Karamázov, Ivan Fiódorovitch, o amedrontara com seu niilismo moral: 'Tudo, segundo ele, é permitido, e, de agora em diante nada deve ser proibido'." (p.673, ibidem). Bakhtin resume isso bem: "Lembremos ainda a ideia de Ivan Karamázov, segundo a qual se não há imortalidade da alma, tudo é permitido. Que vida dialogada tensa leva essa ideia ao longo de todo o romance 'Os Irmãos Karamázov'! Que vozes heterogêneas a realizam! Em que contatos dialógicos inesperados ela entra!". 


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POR EM 13/12/2011 ÀS 11:29 PM

Tio Vânia, de Tchékhov, pelo Grupo Galpão

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No último final de semana arranquei-me de casa, finalmente. Já fui muito saideiro, mas tenho ficado cada vez mais neurótico pra isso. Não é só o trânsito infernal de Goiânia, nem o risco de assalto (que, diga-se, nunca me aconteceu aqui ou alhures). Não é só a falta de educação das pessoas na rua, nos shoppings, nas salas de cinema, salas de concertos, teatros. Não é apenas por causa de minha neurastenia progressiva. É preguiça mesmo. Caprichei em meu Home Theater e em minhas coleções de filmes, peças de teatro filmadas, concertos, etc. Daí fico em casa mesmo.

Mas, como disse, nesse último final de semana, saí. E não me arrependi. Fui conferir a montagem do grupo mineiro Galpão para “Tio Vânia”, de Anton Tchékhov. Tinha dois bons motivos. O Galpão. E Tchékhov, que considero filosoficamente superior a Dostoiévski, Tolstói e Turgueniev juntos. (Não estou com vontade de fundamentar essa afirmação aparentemente leviana, de forma que você, que começa a espumar pelos cantos da boca, contenha-se, porque de nada adiantará). Há ainda um terceiro motivo. Woody Allen. Isso mesmo, sou tão fanático (portanto não isento), que consigo ver chifre em cabeça de cavalo. Explico-me. Um dos melhores filmes de Woody é “Hannah e Suas Irmãs”. Foi sucesso de público e crítica (“sucesso” para um filme de Woody é fracasso para um de Spielberg, de forma que devemos guardar as devidas proporções), mas ele mesmo o deplora. Por quê? “Hannah” é de inspiração declaradamente tchekohviana. Pra começo de conversa, não por acaso as irmãs são três. Mas é outra peça do médico russo que vale discutir aqui.


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POR EM 26/10/2011 ÀS 12:53 PM

Arte, que arte? É marketing, estúpido!

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“Quando Williams-Sonoma lançou no mercado uma máquina de fazer pão (por U$ 275,00), a maioria dos consumidores não quis nem saber. O que, diabos, seria uma máquina de fazer pão, afinal de contas? Era boa ou ruim? Alguém precisava mesmo disso? Por que não comprar, em vez disso, uma boa cafeteira na prateleira ao lado? Frustrado pelas baixas vendas, o fabricante contratou uma firma de marketing, que deu a seguinte sugestão: lance outra máquina de fazer pão, só que maior, e cobre 50% a mais por ela. O fabricante acatou a sugestão e as vendas aumentaram significativamente. Por quê? Só porque agora os idiotas (desculpe, consumidores) tinham dois modelos entre os quais escolher. Como agora havia dois modelos, eles não precisavam tomar sua decisão no vácuo, sem referências. E aí maioria escolhia a menor.” 

“Na época não havia mercado para pérolas negras taitianas. Mas Brouillet persuadiu Assael para entrar no negócio com ele. Juntos, eles colheriam as pérolas negras e as venderiam ao mundo. Mas, num primeiro momento, sua intenção falhou. Ninguém queria saber das feias pérolas negras. Assael poderia ter desistido, poderia tê-las vendido por um preço baixo, ou as enfiado goela abaixo do consumidor, misturadas com as brancas. Mas fez diferente. Esperou um ano, e pediu a um amigo joalheiro famoso que colocasse um colar de pérolas negras na vitrine de sua loja na Quinta Avenida, com uma etiqueta com preço indecentemente alto. Ao mesmo tempo, comprou um espaço publicitário de página inteira em revistas importantes, com a imagem de pérolas negras brilhando, no meio de diamantes, rubis e esmeraldas. Pronto. Daí em diante, pérolas negras podiam ser vistas nos pescoços de divas milionárias em Manhattan.” 


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