Nobel para um escritor liberal
A Academia Sueca não premiou Philip Roth, autor do magistral romance “O Teatro de Sabbath” (relançado pela Companhia das Letras), mas fez justiça ao conceder o Prêmio Nobel de Literatura ao maior escritor peruano de todos os tempos, Mario Vargas Llosa (pronuncia-se “Lhôssa”, com acento circunflexo na vogal “o”), de 74 anos.
Escritor de múltiplos talentos, Llosa escreveu histórias sofisticadas, como “Conversa na Catedral”, “Os Cadernos de Dom Rigoberto”, “Tia Júlia e o Escrevinhador” (um acerto de contas com sua própria história; ele foi casado com uma tia, que, mais tarde, rebateu-o num livro de escassa repercussão), “Pantaleão e as Visitadoras”, “Quem Matou Palomino Molero?” e “A Cidade e os Cachorros”. Pegue qualquer um desses livros e poderá comprovar como o autor escreve bem, como sua prosa é fluente, ágil, enérgica. Como poucos, dialoga com precisão cirúrgica com o moderno e a tradição, indicando que esta pode ser tão moderna, ou até mais, do que alguns prosadores ditos modernos e inventivos. O autor tem sorte no Brasil, pois suas traduções, como as de Sergio Molina e José Rubens Siqueira, são perfeitas ou quase perfeitas. Escrevo “quase” porque, em tradução, perde-se alguma coisa sutil que só pode ser assimilada na própria língua. A respeito de Llosa deve ser ressaltado que se trata, acima de tudo, de um estilista poderoso — um lídimo discípulo de Flaubert e, quem sabe, Henry James (a diferença é que, às vezes, é brutal, e James não o é). Poucos escritores vivos escrevem tão bem.
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O poeta russo Óssip Mandelstam escreveu um poema sobre Stálin, no qual chamava-o de assassino e de ter bigodes de barata, e acabou preso na Lubianka e, depois, no Gulag (campo de concentração e trabalhos forçados). “Em outubro de 1938, sem medicamentos e sem cuidados adequados, o poeta russo Óssip Mandelstam morreu em Vtoraya Rechka, paranoico e delirante”, conta a historiadora Anne Applebaum no livro “Gulag — Uma História dos Campos de Prisioneiros Soviéticos” (Ediouro, 749 páginas), digno “sucessor” do “Arquipélago Gulag”, do escritor Alexander Soljenítsyn. No conto “Licor de Cereja”, Varlam Shalamov relata os últimos dias do homem que desafiou o ditador: “Ele já não ficava de olho na ponta do pão [a mais comestível], nem chorava quando não a conseguia. Já não enfiava o pão na boca com dedos trêmulos”. O assassino intelectual de Trotski conseguiu o que planejou: destruiu física e mentalmente um dos poucos homens que, mesmo sabendo dos riscos, teve coragem de enfrentá-lo publicamente. A poesia de Mandelstam tem sido editada no Brasil e, sobretudo, em Portugal. Para conhecê-lo, é fundamental a leitura de “Contra Toda Esperança”, as memórias de sua mulher, Nadejda Iákovlevna Mandelstam. A maioria de seus poemas foi decorada por Nadejda e posteriormente, com a “morte” do stalinismo, publicada. Ela sabia literalmente todos os poemas de cor. Quem não tem acesso à obra-prima de Nadejda pode consultar o recém-lançado “De Mandelstam Para Stálin — Um Epigrama Trágico” (Record, 375 páginas, tradução de Mauro Gama; o poeta e crítico Marco Lucchesi revisou a tradução e traduziu trechos de alguns poemas), de Robert Littell.
Não é fácil resistir ao poderio de uma ditadura popular... como a nazista. Pois um trabalhador solitário, August Landmesserm, decidiu desafiar o totalitarismo do regime de Adolf Hitler. Em 1936, em Hamburgo, numa solenidade, enquanto todos saudaram o Führer, Landmesserm cruzou os braços.
A biografia “Carla — Uma Vida Secreta” (Editora Flammarion), da jornalista Besma Lahouri, será publicada em outubro, mas já está provocando polêmica. Os advogados do presidente francês Nicolas Sarkozy estão examinando o texto. Entre seus aliados há quem queira pedir à Justiça que impeça a circulação do livro, que contém informações bombásticas sobre a cantora Carla Bruni, mulher do líder francês.
Quando lançado no Brasil, em 2008, o livro “Quem Pagou a Conta — A CIA na Guerra Fria da Cultura” (Record, 556 páginas, tradução de Vera Ribeiro), de Frances Stonor Saunders, formada em Oxford, ganhou resenhas elogiosas, mas nenhum comentário crítico. O motivo é o de sempre: teorias conspiratórias de esquerda são aceitas como verdades irretorquíveis nos cadernos culturais. O jornalista e escritor inglês George Orwell, morto aos 46 anos, em 1950, é uma das “vítimas” da autora. Ao contrário de biógrafos e ensaístas, Saunders acredita na história de Isaac Deutscher de que Orwell plagiou o romance “Nós”, do russo Yevgeny Zamyatin, que, perseguido pelo stalinismo, exilou-se na França. Ex-trotskista e eterno socialista, Deutscher escreveu que faltavam ao seu adversário “senso histórico e compreensão psicológica da vida política”. Sessenta quatro anos depois da morte de Orwell, sabemos que sua crítica ao totalitarismo, de esquerda (stalinismo) e de direita (nazi-fascismo), permanece pertinente. O romance “1984”, de 1948, persiste vivo, um perceptivo mapeamento histórico e psicológico, além de resistir como literatura, de uma sociedade totalitária. O herói ou ex-herói de Deutscher, Liev Trotski, era menos perspicaz do que o autor da novela “A Revolução dos Bichos”. Se a crítica do biógrafo de Trotski não resiste a um peteleco, outra crítica é mais grave. Orwell teria sido “dedo-duro”, segundo a versão apresentada por Saunders.
As pessoas parecem não entender mais o que é artigo e o que é crônica. O artigo é, em geral, uma tentativa direta de intervenção na realidade. Assim, é francamente datado, e raros sobrevivem à corrosão do tempo. A crônica é um olhar, supostamente mais suave, sobre a realidade, e não tem o objetivo de mudá-la. Por vezes, a crônica sobrevive, porque se toma a realidade como tema, um fato do dia anterior, trata-a não raro com as tintas da literatura e, deste modo, pode acabar se tornando eterna. João do Rio, Rubem Braga e Paulo Mendes Campos deixaram crônicas impagáveis, verdadeiras peças literárias. Alguns delas, lidas quarenta ou cinquenta anos depois, permanecem viçosas como o bebê que nasceu ontem.
O livro “El Exilio de Hitler” (Ediciones Absalón, 493 páginas), do jornalista argentino Abel Basti, de 54 anos, sustenta que o líder nazista e sua mulher, Eva Braun, não se mataram. “Fugiram” para Barcelona, onde passaram alguns dias, e depois foram para a Argentina, onde Hitler "morreu", nos anos 60.
Publicado em 1851, “Moby Dick”, de Herman Melville, é um clássico. O romance é produto da imaginação do escritor americano — discípulo que rivaliza com Shakespeare — e, ao mesmo tempo, baseado em fatos reais. Muitos leitores certamente avaliam que o espírito vingativo de Moby Dick, um cachalote gigantesco, é uma invenção literária de Melville. A baleia do livro parece ter sentimentos, como a capacidade de ser vingativa, de perseguir o seu perseguidor, o obcecado capitão Ahab, que parece mais selvagem do que seu oponente marítimo. A história é baseada num acontecimento real, de 1820, que, sem a cobertura da recriação poderosa da literatura, teria se tornado um rodapé na história náutica. Baleias atacam barcos de curiosos que aparentemente as agridem, talvez pela proximidade excessiva e ameaçadora. Na edição de 22 de julho do jornal espanhol “El País”, Lali Cambra relatou, na matéria “O ataque da baleia”, como um mamífero de 40 toneladas atingiu e destruiu parcialmente o barco Intrepid, na costa atlântica da Cidade do Cabo.
Será lançado na Inglaterra, em setembro, o livro “A Primeira Guerra de Hitler”, do historiador Thomas Weber, da Universidade de Aberdeen (Escócia). Weber sustenta que mais de 70% de seu livro é baseado em fontes ainda não utilizadas por outros pesquisadores. Parte de suas revelações foi retirada dos arquivos do 16º Regimento de Reserva da Infantaria Bávara (RIR 16). Os arquivos não haviam sido catalogados nem utilizados pelos especialistas.