revista bula
POR EM 22/02/2011 ÀS 06:36 PM

A paixão flamante de Elizabeth Smart e George Barker

publicado em

Elizabeth Smart A canadense Elizabeth Smart (1913-1986) é autora de um romance esplêndido, “By Grand Central Station I Sat Down and Wept” (“En Grand Central Station me Senté e Lloré”, na versão em espanhol). Neste livro, sofrido e prazeroso, conta a história de sua paixão pelo poeta inglês George Barker (1913-1991) — um protegido do vate americano T. S. Eliot. A história, extraordinária e muito bem contada, merece tradução brasileira. Quando penso em Elizabeth Smart lembro-me do britânico D. H. Lawrence, pela relação livre com a sexualidade, ainda que angustiada, e com a natureza. O livro é cult, no estilo (não no conteúdo) de “Werther”, do alemão Goethe. Elizabeth seguia à risca o preceito “penso que um homem põe todo o seu ser em um livro”, de Lawrence. Desconhecida no Brasil, a autora ganhou uma bela biografia, de autoria de Rosemary Sullivan. “Elizabeth Smart” (Circe, 396 páginas, tradução de Laura Freixas) mapeia, com acuidade, a vida, a obra e o tempo da autora. Leio (traduzindo trechos e poemas) a versão em espanhol, editada em Barcelona.

A história da bela e irrequieta Elizabeth daria um livro. Daria, não; deu — é o romance “By Grand Central Station I Sat Down and Wept”. Só que conta apenas parte de sua vida e é, claro, um romance. Por isso a biografia escrita por Rosemary é um empreendimento louvável. Comento, neste texto, tão-somente parte da relação de Elizabeth com Barker. Em 1937, aos 24 anos, a autora entrou na Livraria Bester Book e começou a ler um livro de poesia de Barker. “As palavras ardiam. Ali mesmo decorou as poesias, pois não lia livros — devorava-os”, revela Rosemary. “Tenho que me casar com um poeta. É a única solução”, escreveu a poeta e prosadora. “Este é o homem que estava buscando.”


leia mais...
POR EM 20/02/2011 ÀS 10:48 AM

Folha de S. Paulo esconde sua história de amor com ditabranda

publicado em

A “Folha de S. Paulo”, um dos melhores jornais brasileiros, comemora 90 anos com uma iniciativa popular. O leitor é convidado a comentar, criticar e oferecer sugestões à redação. “É o momento de lembrar uma manchete de impacto, uma cobertura marcante, um colunista de sua predileção, uma caderno que mais lhe agrade ou uma foto que o tenha impressionado. Deixe um comentário, uma crítica ou uma sugestão.”
 
O leitor pode enviar texto, vídeo e áudio para o e-mail folha90anos@grupofolha.com.br. Uma equipe de jornalistas vai selecionar material para ser publicado num caderno especial.
 
Se a “Folha” aceitar, sugiro um debate: por que a cúpula do jornal aprecia falar de um passado longínquo, quando o jornal foi criado, do período das Diretas Já e do impeachment do presidente Fernando Collor, mas não discute o período do regime civil-militar? A resposta é óbvia: a “Folha” apoiou o golpe e, mesmo, teria atuado como base de apoio de setores militares (principalmente a extinta “Folha da Tarde”). O apoio ao golpe de 1964 e à ditadura não a diminui. O que torna sua história menor, com cheiro de falsificação, é ignorar uma parte dela. Em várias reportagens e publicidades, a “Folha” cita seu apoio pioneiro às Diretas Já, como se seu empenho em defesa da redemocratização fosse uma tentativa de “limpar” sua imagem, porém, nem mesmo en passant, a história da aliança com a ditabranda é mencionada. 


leia mais...
POR EM 20/02/2011 ÀS 10:32 AM

A revista Veja vai aderir ao governo Dilma?

publicado em

Nos oito anos de governo Lula, a “Veja” fez jornalismo de primeira — crítico e cáustico. Marqueteira hábil, a esquerda passou a dizer que a revista fazia parte do Partido Golpista da Imprensa (PIG). Pouco acostumados à imprensa crítica, independente do poder público, muitos brasileiros aderiram à cantilena habilmente articulada em blogs e em pelo menos uma revista de qualidade, a “CartaCapital”. A falta de isenção dos outros veículos é que fazia (e faz) a “Veja”, a “Folha de S. Paulo” e o “Estadão” parecerem “golpistas” e “radicais”, ou, como dizem esquerdistas que posam de honestos mas não o são (em geral são ricos-parasitas posando de socialistas), “de direita”. Esses esquerdistas sequer discutem a veracidade das denúncias publicadas pelas três publicações mais críticas. No afã de atacar a direita, que no país é fraca ideologicamente, ficam cegos à verdade.
 
Não resta dúvida, porém, que a tática de “Veja”, de concentrar sua crítica em denúncia de corrupção não funcionou muito bem. Porque, como notou tardiamente o PSDB, o PT trocou, com rara felicidade, a tese de “partido da ética” pela tese de “partido do social”. O fato de “ajudar” os pobres de algum modo limpou a esquerda petista e seu aliados “modernos”, como José Sarney e Fernando Collor. Com correção, “Veja”, “Folha” e “Estadão” insistiram e denunciaram que, no poder, o petismo repetia governos anteriores, especialmente na questão da corrupção e, também, na perseguição ao jornalismo autônomo. A falha, se se pode dizer assim, foi ter se concentrado quase que exclusivamente no ataque direto à corrupção. As publicações talvez tenham uma explicação convincente: a equipe de Lula, pegando uma onda mundial favorável e gastando à farta recursos públicos, recriou o Milagre Econômico do presidente Emilio Garrastazú Medici. É como se nós tivéssemos deixado de ser brasileiros para nos tornar consumidores.


leia mais...
POR EM 14/02/2011 ÀS 01:51 PM

Autor de livro sobre Rubens Paiva contesta comentário

publicado em

Segredo de Estado — O Desaparecimento de Rubens PaivaPrezado Euler de França Belém, sou o autor do livro sobre Rubens Paiva. Agradeço os elogios e quero rebater as críticas.

Você diz que Rubens era "Político sem muitas luzes", mas na verdade ele era uma das lideranças nacionais emergentes: vice-líder do PTB, fazia parte do grupo de maior projeção do partido, foi vice-presidente de uma CPI de grande repercussão e participava regularmente de reuniões com Jango, tudo isso num primeiro mandato e que durou pouco mais de um ano.

Você diz "No lugar de apresentar os nomes dos sequestradores e torturadores, Jason Tércio cita os “codinomes” Leão, Girafa, Morcego". No epílogo do livro eu cito os nomes dos cinco acusados pela tortura e morte de Rubens.

Você cita um trecho do livro de Elio Gaspari no qual este diz que quando Rubens morreu "Comandava o DOI o major José Antonio Nogueira Belham”. Está errado. Quem comandava o DOI, como eu digo no meu livro, era o major Francisco Demiurgo Santos Cardoso, tenho documento comprovando.

Você diz "Citando fontes, Elio Gaspari esclarece o caso." Ele não esclareceu nada, apenas resumiu a história, com outros erros que ocupariam muitas linhas aqui se eu fosse citar e rebater, e não é Gaspari que está em questão, eu o respeito muito. Eu não cito fontes em função da linguagem literária adotada, que não é jornalística nem acadêmica, embora eu domine também a linguagem acadêmica, inclusive fiz mestrado.

Você diz "Tudo indica que o corpo foi esquartejado, na Casa da Morte”. Esta é a versão de um ex-agente da repressão, na qual não acredito, por vários motivos. Há sete versões sobre o destino do corpo de Rubens, todas relatadas no final do livro. Por fim, talvez lhe tenha passado despercebido, mas meu livro revela claramente, pela primeira vez, como a cúpula do Exército, o Ministério da Justiça, o STM, o partido do governo na época e até o presidente Médici contribuíram para ocultar a morte de Rubens e impedir as investigações.


leia mais...
POR EM 04/02/2011 ÀS 04:22 PM

Jornal impresso pode acabar no Brasil em 2027

publicado em

O site Future Exploration Network (FEN), que auxilia grandes organizações a obter insights sobre o futuro e desenvolver estratégias que criem vantagens competitivas, elaborou um gráfico, baseado em estimativas e tendências atuais, que aponta para o fim do jornal impresso no mundo. Nos Estados Unidos, para ficar apenas num país, mais de 2 mil jornais foram fechados desde o advento da internet. Pátria do mais rico jornalismo do mundo, os Estados Unidos criaram, há pouco, um museu da imprensa.
 
Segundo o FEN, o primeiro país a abolir o jornal no formato impresso será os Estados Unidos, em 2017, seguido por Inglaterra, 2019, Canadá e Noruega, em 2020. Para o Brasil as previsões do fim dos impressos são para o ano de 2027. O crescimento da tecnologia móvel e o baixo custo da operacionalização, que contrasta com os valores elevados dos jornais impressos, são os principais fatores que ressaltam essa tendência. Será que o jornal impresso vai ficar como o disco de vinil? Não se sabe. O que se sabe (a tendência) é que quem sobreviver sairá com pequenas tiragens, para distribuição gratuita ou para assinantes privilegiados. Mesmo agora, ninguém, que não seja insano, aposta mais em grandes tiragens impressas.


leia mais...
POR EM 30/01/2011 ÀS 11:47 AM

Morte de Rubens Paiva permanece obra aberta

publicado em

Segredo de Estado — O Desaparecimento de Rubens PaivaCom apoio de amplos setores civis, tanto nas elites quanto entre populares, militares derrubaram o presidente João Goulart, no início de abril de 1964. O primeiro presidente militar, Castello Branco, planejou uma transição com candidato civil para substitui-lo. O mineiro Bilac Pinto, um liberal, era uma de suas apostas. Não deu pé. A linha dura, liderada por Costa e Silva, optou pela continuidade da caserna e manteve o poder. A manutenção de partidos políticos, Arena e MDB, e portanto de eleições contribuiu para que a ditadura, embora autoritária, não se tornasse totalitária. A cassação de mandatos, com evidentes exageros, não impediu que políticos de proa da oposição, como Ulysses Guimarães e Tancredo Neves, se manifestassem com frequência. Uma das principais falhas da historiografia patropi é concentrar-se demasiadamente na ação armada dos guerrilheiros, de resto útil aos militares duros para tornar o regime ainda mais fechado, e menoscabar a oposição legalista e os liberais arenistas (que nada tinham de truculentos). Políticos emblemáticos como Ulysses e Tancredo (poderia citar outros) pressionaram o regime o tempo todo e permaneceram na oposição. Liberais da Arena, ainda que omissos em alguns pontos, também contribuíram para que o regime fosse menos cruento. É possível que a omissão pública tenha sido menor do que a pressão interna — o que cabe aos historiadores, como os rigorosos Carlos Fico, Elio Gaspari e Ronaldo Costa Couto (autor de um magnífico livro sobre a Abertura), investigar. Sobretudo, arenistas e emedebistas, especialmente os liberais, sugeriam, mesmo quando falavam pouco, que havia uma alternativa democrática ao sistema ditatorial. Tanto que, 21 anos depois do golpe de 64, os civis voltaram ao poder, numa combinação de um emedebista (peemedebista), Tancredo, com um arenista (pedessista), José Sarney. Mas tudo foi possível mais cedo porque havia uma tendência liberalizante tanto nos quarteis quanto no partido governista. Ao assumir a Presidência da República, em 1974, o general Ernesto Geisel se impôs uma missão — “matar” a ditadura por meio da Abertura. Geisel e Golbery do Couto e Silva eram, por assim dizer, discípulos de Castello Branco. Liberalizaram o regime de tal forma que João Figueiredo, mesmo com alguns duros no governo, não tinha mais energia nem legimitidade para fechar o regime. O processo de Abertura havia envolvido a sociedade política e a sociedade civil de tal forma que recuar era praticamente impossível.


leia mais...
POR EM 17/01/2011 ÀS 05:00 PM

Máfia verdadeira é mais violenta do que a do filme de Coppola

publicado em

Os Últimos Mafiosos — A Ascensão e a Queda da Família Mais Poderosa da MáfiaDepois do filme “O Poderoso Chefão”, a máfia, a Cosa Nostra, jamais será a mesma. Será sempre dupla: a Cosa Nostra real e a imaginada pelo escritor Mario Puzo e, sobretudo, pelo cineasta Francis Ford Coppola (o filme dispensa o romance). A máfia de Puzo e Coppola é edulcorada, até certo ponto. Os dois mostram a duplicidade da máfia — “a” que usa a violência para ajeitar seus negócios e “a” que usa os meios legais para limpar seu capital. Mas, claro, é a mesma máfia. Os métodos variam de acordo as circunstâncias. Empresários mantiveram e mantêm ligações com mafiosos e mesmo o Banco do Vaticano não ficou longe de acordos pouco católicos. As grandes jogadas empresariais quase sempre não são limpas, mas muitas vezes são legais. A máfia, sem descurar da ilegalidade, como o tráfico de cocaína e heroína, procura trilhar os caminhos do jogo pesado aceito pela sociedade, porque revestido de legalidade e legitimidade. O livro “Os Últimos Mafiosos — A Ascensão e a Queda da Família Mais Poderosa da Máfia” (Larousse, 367 páginas, tradução de Maria Elizabeth Hallak Neilson), do jornalista John Follain, permite compreender como se estruturou a organização criminosa na qual seus integrantes se assemelham a acionistas, executivos e “soldados” (pistoleiros). A família é a Corleonese. No livro “Cosa Nostra — História da Máfia Siciliana”, John Dickie aponta que o termo máfia surgiu no século 19 — “por volta de 1860”. Mas a organização do clã Corleonese, que mais tarde passou a mandar na Cosa Nostra, se deu no século 20, com o médico don Michele Navarra. O mafioso era chamado de U Patri Nostru (Pai Nosso), “exatamente como” os sicilianos “se referiam a Deus”. O vocáculo máfia deriva, possivelmente, do árabe “mahias” (ousadia) ou “Ma àfir” (nome de uma tribo sarracena). Ao assumir o poder, entre 1922 e os primeiros anos da década de 1940, o fascista Benito Mussolini enquadrou parte da máfia. Com sua queda, “90% dos novos 353 prefeitos nomeados pelos Aliados eram mafiosos ou próximos do movimento separatista, intimamente ligado à máfia”, anota Follain. A organização criminosa se tornou parte do sistema estatal. “Talvez refletindo esse novo amanhecer, os mafiosos começaram a se referir à sua sociedade secreta como Cosa Nostra (Coisa Nossa).”


leia mais...
POR EM 09/01/2011 ÀS 11:33 PM

Principais lançamentos de 2011

publicado em

J. M. Coetzee, Jonathan Franzen, Jonathan Safran e Philip Roth As editoras não revelam todos os seus trunfos e por isso não se sabe sobre a maioria dos lançamentos de 2011. Depois, alguns lançamentos são decididos durante o ano, quando os negócios são feitos com editoras e autores.  Os jornais, como “Folha de S. Paulo”, “Estadão” e “O Globo”, listaram alguns livros que serão publicados este ano. O principal lançamento, por incrível que possa parecer, é um clássico do século 19, “Guerra e Paz”, de Liev Tolstói, pela primeira vez traduzido do russo, por Rubens Figueiredo (autor da proeza de traduzir “Anna Kariênina”). O livro conta a história da guerra entre a França de Napoleão Bonaparte e a Rússia dos czares, em 1812. O romance, que não trata apenas da batalha, oferece um amplo painel da sociedade russa. Há, por assim dizer, dois romances, ou mais, num só: o da guerra, “comandado” pelo general Kutuzov, e o da paz, “dirigido” por André, Natasha e Pedro. A vida continua, mesmo na guerra. A tradução que circula no Brasil, de João Gaspar Simões, tem como ponto de partida a edição francesa. A nova versão é da Cosac Naify. Proibido na Inglaterra durante 32 anos, por ser considerado “pornográfico”, o romance “O Amante de Lady Chatterley”, do prosador e poeta inglês D. H. Lawrence, volta às livrarias, com nova tradução de Sergio Flaksman, ensaio da escritora Doris Lessing e chancela das editoras Penguin e Companhia das Letras. Publicado no final da década de 1920, o livro continua forte e inspirador. É uma desgraça para o Brasil que até “a” (ou “o”) Adelaide Carraro dos ingleses é melhor do que a nossa. Sugiro, como acompanhamento, a leitura de “Mulheres Apaixonadas”, de Lawrence, com tradução, de mestre, de Renato Aguiar.


leia mais...
POR EM 02/01/2011 ÀS 04:21 PM

Livros que merecem edição brasileira

publicado em

A minha lista de livros que deveriam ser publicados é penelopiana. Por conta do espaço, indico apenas 15 livros que devem ser descobertos pelas editoras brasileiras
 
1 — “A Destruição dos Judeus Europeus”, do alemão Raul Hilberg, é um clássico. Há boas edições em inglês (tenho a versão condensada) e em espanhol. Depois de Hilberg, novas pesquisas foram feitas, é claro, mas ele é o ponto de partida seguro para se entender o que aconteceu com os judeus. Ele próprio judeu, é rigoroso e nunca exagerado nas cifras sobre judeus mortos pelos nazistas. O historiador foi fundamental para estabelecer que aproximadamente 6 milhões de judeus foram assassinados pelo governo de Adolf Hitler. O escritor Halley Margon V. Jr. sempre cobra a edição deste livro.  

2 — “Ponto Último e Outros Poemas”, de John Updike, saiu em Portugal, em 2009, com tradução de Ana Luísa Amaral. Updike era o homem de cultura completo: desenhava, criticava seus pares (com elegância e inteligência), escrevia ensaios notáveis (um deles sobre Machado de Assis) e se tornou um dos maiores prosadores americanos, comparável a Nathaniel Hawthorne, Henry James e Saul Bellow, e um analista primoroso da moral e do modo de vida da classe média. No Brasil, porém, o poeta, dos bons, ainda que sem o fôlego de Marianne Moore e Wallace Stevens, permanece inédito.


leia mais...
POR EM 19/12/2010 ÀS 12:59 PM

Vargas Llosa compara Jorge Amado a Dorian Gray

publicado em
“Sabres e Utopias — Visões da América Latina” (Objetiva, 430 páginas, tradução de Bernardo Ajzenberg), de Mario Vargas Llosa, contém ensaios (alguns textos são mais artigos) sobre Somoza, Pinochet, Lula, Fidel e Raul Castro, Farc, Canudos (que mereceu o romance “A Guerra no Fim do Mundo”), Gabriel García Márquez, Jorge Luis Borges, José Donoso, Cabrera Infante, Jorge Amado, revoluções, nacionalismo, democracia, liberalismo e outros assuntos. As nove páginas do ensaio “Cem Anos de Solidão: O Amadís na América”, sobre a obra-prima de García Márquez, valem o livro. Foi publicado em 1967, em cima da hora, com base na leitura direta, sem nenhuma fortuna crítica a sustentá-lo. Comentarei única e brevemente os textos sobre Jorge Amado, José Donoso e Cabrera Infante.
 
Jorge Amado era amigo de Vargas Llosa, apesar das diferenças ideológicas. O primeiro era de esquerda e o segundo é liberal. As ideologias não os separaram, porque a amizade e o respeito eram mais fortes. Ao escrever sobre a literatura do amigo, o autor o faz com isenção e perspicácia. Nota que, “em seus romances políticos, um elemento intuitivo, instintivo e vital sempre superava o ideológico e jogava pelos ares os esquemas racionais”. 
 
Até certo momento, como em “Cacau” e “O Cavaleiro da Esperança”, biografia romanceada e floreada de Luís Carlos Prestes, Amado fazia uma literatura panfletária, atendendo aos préstimos do realismo socialista. Llosa talvez exagere quando fala em “virada” literária, porque é possível que não tenha sido tão radical assim, daí a possibilidade de a crítica ser mais “elástica” do que a própria prosa do autor de “Tieta do Agreste”. Não há limpeza total de “pressupostos ideológicos”, por exemplo. De qualquer forma, o argumento do autor de “A Casa Verde” é sugestivo: Amado “realizou uma virada profunda em sua literatura, despolitizando-a, limpando-a de pressupostos ideológicos e tentações pedagógicas, e abrindo-a cada vez mais para outras manifestações da vida, a começar pelo humor, até chegar aos prazeres do corpo e aos jogos do intelecto. (...) Jorge Amado pôs-se (...) a rejuvenescer, a partir de histórias deliciosas como ‘Dona Flor e Seus Dois Maridos’, ‘Gabriela, Cravo e Canela’, ‘Tereza Batista Cansada de Guerra’, ‘Tieta do Agreste’, ‘Farda Fardão Camisola de Dormir’ e as que vieram depois, em um curioso desafio à cronologia mental, algo que fez dele, como escritor, uma espécie de Dorian Gray, um romancista que, livro após livro, brinca, diverte-se e se mostra como uma criança genial, com suas travessuras verbas, sensuais e engraçadas, em verdadeiras festas literárias”. Amado teve sorte: os “policiais literários” da União Soviética não sabiam português e as traduções certamente adocicaram a prosa virulentamente erótica e, mesmo, pornográfica de seus romances.
 
Numa leitura extremamente simpática, Vargas Llosa diz que, nos romances de Amado, “todas as desventuras do mundo não são suficientes para quebrar a vontade de sobrevivência, a alegria de viver, o esforço sorridente para dar sempre a volta por cima que animam seus personagens. O amor à vida é tão grande neles que são capazes, como acontece com a maravilhosa dona Flor com seu marido defunto, de ressuscitar os mortos e trazê-los de volta a uma existência que, mesmo com todas as misérias que traz consigo, está também repleta de momentos de gozo e felicidade. Essa fruição dos prazeres menores ao alcance do ser anônimo, que cintila em todas as suas histórias — saborear um copo de cerveja gelada, uma conversa deliciosa, contar uma piada picante, dirigir galanteios a um corpo atraente que passa, a amizade fraterna —, é muito intensa e contamina seus leitores, que costumam sair de suas páginas convencidos de que, por pior que seja a circunstância em que se vive, sempre haverá na vida humana um espaço para a diversão e outro para a esperança”. Concordo em parte com Vargas Llosa, pois, embora tenha sido um crítico intolerante da prosa de Amado, li-o com extremo prazer (e concupiscência) na adolescência, sem barreiras ideológicas, de esquerda ou de direita. Mas a leitura do crítico peruano quase transforma a literatura de Amado em auto-ajuda intelectual, embora seu objetivo seja, logicamente, outro. “Jorge Amado (...) exaltou o outro lado da moeda, a cota de bondade, alegria, plenitude e grandeza espiritual também contida na existência e que, em seus romances, fazendo todas as contas, acaba sempre vencendo a batalha em quase todos os destinos individuais.” Exagero, mas, considerando que neste ensaio de 1997, Vargas Llosa diz que Amado iria para o céu, a crítica “é” aceitável, pois escritor é tratado como “santo”.
 
No ensaio “Cabrera Infante”, o cubano que escreveu o grande romance “Três Tristes Tigres” (seria interessante lê-lo em comparação com a prosa menos esfuziante e, quiçá, mais cerebral de Thomas Pynchon, nas referências ao mundo popular envolvidas e absorvidas por uma prosa altamente sofisticada e complexa), Vargas Llosa mostra-se mais atento do que na crítica empática (ainda que, no geral, verdadeira) a Amado. O autor de “Conversa na Catedral” escreve que, para Guillermo Cabrera Infante, o “humor (...) é (...) uma maneira compulsiva de desafiar o mundo tal como ele é e esfacelar suas certezas e a racionalidade em que se baseia, trazendo à luz as infinitas possibilidades de desvario, surpresa e disparates que ele mesmo oculta, e que, nas mãos de um hábil malabarista da linguagem como ele, podem se transformar em um deslumbrante fogo de artifício intelectual e delicada poesia. O humor é a sua maneira de escrever, ou seja, algo muito sério, que compromete profundamente a sua existência”.
 
A prosa de Cabrera Infante, explica Vargas Llosa, com o brilho de sempre, “é uma das criações mais autorais e insólitas da nossa língua, uma prosa exibicionista, faustosa, musical e esquisita, que não consegue contar nada sem contar ao mesmo tempo a si mesma, interpondo seus exageros e cabriolas, suas construções desconcertantes, a cada passo, entre o que se conta e o leitor, de modo que este, muitas vezes entontecido, dividido, absorvido pelo frenesi do espetáculo verbal, esquece o restante, como se a riqueza da forma pura tornasse o conteúdo apenas um pretexto, mero acidente”. A prosa de Cabrera Infante deixa mesmo esta impressão — a de que as palavras dançam, uma dança louca, e o leitor fica tonto, tendo de voltar várias vezes ao mesmo trecho, para não perder o fio da meada. Porque, e é isto que Vargas Llosa está dizendo, com precisão, em Cabrera Infante a linguagem, como conta, é tão importante quanto aquilo que é contado. 
 
O ensaio “José Donoso, ou a vida feita literatura” é, em alguns pontos, hilário. O texto é de 1996 e, por isso, não teve como incorporar a polêmica biografia do escritor chileno, escrita por sua filha, publicada este ano na Espanha. Além de relatar as maluquices da família, Pilar Donoso revela que o pai era bissexual, que, acrescente-se, nada muda em sua literatura, pelo menos substancialmente. Vargas Llosa o retrata como um louco de gênio e garante que seu romance mais ambicioso é “O Obsceno Pássaro da Noite”. 
 
Pepe Donoso era um grande contador de histórias por escrito e oralmente. Relatou, a uma plateia extasiada e assustada, que “uma taratavó atravessava os Andes em uma homérica carroça de mulas, recrutando prostitutas para os bordéis de Santiago, e outra, vítima de uma mania de embrulhar tudo, guardava suas unhas, seus cabelos, as sobras de comida, tudo que não servia mais, em belas caixinhas e sacolas que ocupavam guarda-roupas, armários, cantos, quartos e, por fim, a sua casa inteira”.
 
O personagem “mais sedutor” criador por Donoso é o velho de “El Lugar Sín Limites”, “que, no mundinho de caminhoneiros e capangas seminalfabetos em que vive, se disfarça de moça do povo e sai a dançar flamenco, embora perca a vida com isso”. Vargas Llosa afirma que Donoso escreveu “histórias de maior fôlego e mais complexas”, mas que a história do velho travestido “é a mais acabada de suas narrativas, na qual se encontra mais perfeitamente elaborado aquele mundo tresloucado, neurótico, de rica imaginação literária latino-americano, feita à imagem e semelhança das pulsões e fantasmas mais secretos de seu criador, que ele deixou a seus leitores”.

Mario Vargas Llosa“Sabres e Utopias — Visões da América Latina” (Objetiva, 430 páginas, tradução de Bernardo Ajzenberg), de Mario Vargas Llosa, contém ensaios (alguns textos são mais artigos) sobre Somoza, Pinochet, Lula, Fidel e Raul Castro, Farc, Canudos (que mereceu o romance “A Guerra no Fim do Mundo”), Gabriel García Márquez, Jorge Luis Borges, José Donoso, Cabrera Infante, Jorge Amado, revoluções, nacionalismo, democracia, liberalismo e outros assuntos. As nove páginas do ensaio “Cem Anos de Solidão: O Amadís na América”, sobre a obra-prima de García Márquez, valem o livro. Foi publicado em 1967, em cima da hora, com base na leitura direta, sem nenhuma fortuna crítica a sustentá-lo. Comentarei única e brevemente os textos sobre Jorge Amado, José Donoso e Cabrera Infante.

Jorge Amado era amigo de Vargas Llosa, apesar das diferenças ideológicas. O primeiro era de esquerda e o segundo é liberal. As ideologias não os separaram, porque a amizade e o respeito eram mais fortes. Ao escrever sobre a literatura do amigo, o autor o faz com isenção e perspicácia. Nota que, “em seus romances políticos, um elemento intuitivo, instintivo e vital sempre superava o ideológico e jogava pelos ares os esquemas racionais”. Até certo momento, como em “Cacau” e “O Cavaleiro da Esperança”, biografia romanceada e floreada de Luís Carlos Prestes, Amado fazia uma literatura panfletária, atendendo aos préstimos do realismo socialista.


leia mais...
‹ Primeiro  < 3 4 5 6 7 8 9 10 11 >  Último ›
É permitida a reprodução total ou parcial sem autorização prévia dos editores, desde que citada a fonte.
© Copyright 2019 — Revista Bula — Literatura e Jornalismo Cultural — seutexto@uol.com.br
wilder morais
renovatio