revista bula
POR EM 25/11/2008 ÀS 12:24 PM

O ditador solitário

publicado em

Volkogonov diz que "Stálin criara uma unidade especial para lidar com o 'problema' [matar Trotski] e, por diversas vezes, mostrara a Beria sua insatisfação com a indecisão de seus agentes e sua falta de desenvoltura"

A Editora Record lança o segundo volume da excelente biografia “Stálin - Triunfo e Tragédia (1939-1953)”, do historiador e coronel-general do exército soviético Dmitri Volkogonov (falecido em 1995). O primeiro volume, que chega a 1939, é mais amplo e articulado. O segundo, sobretudo na parte final, em que narra o assassinato de Trotski (que ganha seis páginas) e a morte de Stálin, há uma certa superficialidade, talvez exigida pelo formato do livro (a vida íntima de Stálin também não está bem contada). A morte de Trotski está mais bem contada noutros livros, como os de Isaac Deutscher e numa biografia de Ramón Mercader ( sobre a qual fiz uma longa resenha para o Jornal Opção). Deutscher, biógrafo de Trotski (em três volumes) e Stálin (“Stálin - A História de uma Tirania”, em dois volumes), é mais ousado do que Volkogonov. Além de mais perspicaz, porque escreveu antes da abertura dos arquivos soviéticos e, mesmo assim, publicou livros detalhados, mantendo certa objetividade de julgamento, se isto é possível quando se trata de um ditador sanguinário como o homem de aço. Deutscher sempre enfrentou a pecha de "trotskista".

Intendente de Hitler - A história da morte de Trotski está relatada no capítulo “O Assassínio do Exilado” (da página 395 à página 400). Volkogonov diz que "Stálin criara uma unidade especial para lidar com o 'problema' [matar Trotski] e, por diversas vezes, mostrara a Beria sua insatisfação com a indecisão de seus agentes e sua falta de desenvoltura". Mas em 1940, no México, o agente Ramón Mercader Del Rio, com o nome falso de Jacques Mornard, matou o principal adversário do ditador. "Ainda assim, Stálin não sentiu qualquer alegria especial", diz, de modo estranho, Volkogonov. Ora, o velho Koba deve ter sentido uma alegria especial; e, se não sentiu, o historiador não apresenta evidências, conversas com Beria, por exemplo. (O ditador detestava ler artigos de seu inimigo com títulos como "Stálin, o intendente de Hitler" e "Os gêmeos celestiais: Hitler e Stálin".) O historiador acrescenta: "O fantasma da guerra era bem mais sombrio e ameaçador que o 'cidadão sem visto'. (...) [Stálin] Livrara-se de todos os velhos inimigos. Do núcleo central [dos bolcheviques], sobrara apenas ele".

Trótski

Volkogonov conta uma parte da história que é pouco comentada. Depois do assassinato de Trostki, "Beria, com conhecimento de Stálin, determinou a 'liquidação de todos os trotskistas nos campos de prisioneiros'". A morte de Trotski, político importante, mas sem poder, a não ser o da palavra, que torna qualquer homem inteligente perigoso para o poder, de certo modo encobriu, do ponto de vista da repercussão, a morte de milhares de pessoas que, na maioria das vezes, nem eram trotskistas.

A notícia de que Trotski preparava um livro com o título de Stálin tornou Stálin ainda mais irado e, por isso, "pressionou Beria para que executasse sua missão". (Volkogonov diz que o livro Stálin é fraco porque Trotski escreveu-o com ódio. "Napoleão certa vez observou que tudo tem um limite, até o ódio.")

Crítico sofisticado, Trotski adere às palavras de ordem, típicas de militantes, como "Abaixo o Caim Stálin e sua camarilha!". Segundo Volkogonov, depois de ler o panfleto da Quarta Internacional, "Stálin convocou Beria e alertou-o de que estava cansado de tudo aquilo e que estava começando a duvidar se a NKVD queria mesmo cumprir a missão. Beria fez várias reuniões e redobrou o esforço para liquidar Trotski". O pintor mexicano David Alfaro Siqueiros, comunista de carteirinha, comandou o primeiro ataque a Trotski, em 24 de maio de 1940. A casa foi metralhada, mas Trotski e Natália, sua mulher, escaparam.

Como o grupo de Siqueiros não deu conta do recado, a NKVD contratou Ramón Mercader (codinomes Frank Jacson e Jacques Mornard). Em 20 de agosto, depois de ter conquistado a confiança de Trotski, Mercader entrou em seu estúdio, "tirou uma picareta de gelo de alpinista do bolso" de uma capa de chuva "e, com os olhos fechados, atingiu com toda a força a cabeça de Trotsky. A vítima, como 'Jacson' relatou no tribunal durante seu julgamento, 'emitiu um terrível e lancinante grito que escutarei por toda a minha vida'. A agonia de morte de Trotski durou quase 24 horas".

Lavrentiy Beria

Mercader tinha 27 anos, era ex-tenente do exército republicano espanhol e agia sob a coordenação de Eitingon, da NKVD. Mais tarde, Eitingon foi devorado pela máquina stalinista. "Depois da morte de Trotski, Beria foi promovido, tornando-se comissário geral de Segurança do Estado."

Velhice e morte - Como todo ditador e políticos que conspiram em tempo integral, Stálin não confiava em ninguém. Em 1949, pouco antes de completar 70 anos, o secretário-geral sentiu uma tontura - "círculos cor de laranja dançaram diante de seus olhos", diz Volkogonov (que não explica de onde tirou a informação) -, mas não permitiu que o assistente Poskrebyshev chamasse um médico. Não confiava em médicos, "e muito menos em Beria, que era o responsável pela 4ª Repartição Principal do Ministério da Saúde". O que fez? Tomou um chá. Ele evitava tomar remédios, provavelmente temia ser envenenado. E continuou com a pressão arterial alta. A filha do ditador, Svetlana, escreveu: "[Stálin] Negligenciara todas as relações humanas, era torturado pelo medo que, nos últimos anos de vida, se transformou em autêntica mania de perseguição, e, no final, seu ânimo forte o abandonou. Mas a mania não era imaginação doentia: ele sabia e tinha consciência de que era odiado, e também sabia por quê".

Como não sabia em quem confiar, pois via conspiração em todos os lugares, e seu "aliado" Beria alimentava o fantasma de que sempre havia uma contra-revolução em curso, o que nunca houve (exceto depois da Segunda Guerra, quando ocorreu uma certa resistência, que Volkogonov cita, mas resumidamente), Stálin aceitou, sem se mover, que aliados como Poskrebyshev e o tenente-general Nicolai Vlasiv fossem afastados de seu convívio por Beria.

Em 1953, com Beria começando a cair em desgraça, Stálin é encontrado por Starostin, que zelava pela segurança do ditador, "estatelado no chão, só de camiseta e calças de pijama. Só teve forças para levantar a mão para Starostin, não podia falar. Seus olhos expressavam horror e medo, em súplica".

Estranhamente, "Beria não foi encontrado em lugar algum e Malenkov mostrou-se incapaz de fazer qualquer coisa sem ele". Ao ser encontrado, "Beria não chamou os médicos; em vez disso, virou-se para os empregados: 'Por que o pânico? Não vêem que o camarada Stálin caiu num sono pesado? Saiam todos e deixem nosso líder em paz'". Uma das fontes de Volkogonov, Rybin, que estava na casa de Stálin, revelou "tudo indicava que não haveria qualquer iniciativa de buscar socorro médico para Stálin, que devia ter sofrido o derrame umas seis ou oito horas antes. Todos pareciam comportar-se da maneira conveniente para Beria".

Stálin recebeu assistência médica apenas no dia seguinte. Os médicos concluíram "que houvera 'séria interrupção da circulação nas artérias coronárias e alterações fundamentais na parede coronariana de trás', um 'colapso de vulto' e que 'a situação permanece crítica'. Não sabiam que as perturbações anteriores no funcionamento do cérebro tinham provocado cavidades, ou cistos, no tecido cerebral, especialmente nos lobos.

Tais alterações, indicam especialistas modernos, poderiam ser responsáveis por efeitos na esfera psicológica, causando impacto sobre o caráter despótico de Stálin e exacerbando suas tendências tirânicas. Contudo, minha impressão é que Stálin não era caso de interesse psiquiátrico. Sua 'doença' era social: foi cesarismo e tirania. Ademais, não apenas o líder ficara doente, mas toda a sociedade". Stálin morreu às 9h50 de 5 de março de 1953.

Livro "perdoa" Lênin - “Stálin - Triunfo e Tragédia” é um livro muito bom, de escopo maior, no sentido de discutir mais amplamente a vida do ditador soviético, de não se prender tão-somente aos primeiros anos da revolução, do que “História Concisa da Revolução Russa” (Editora Record, 372 páginas), do historiador norte-americano Richard Pipes (que se diz "anarquista conservador", como eu), e “A Tragédia de um Povo - A Revolução Russa” (1891-1924), do historiador inglês Orlando Figes. Mas estou seguro que as obras de Pipes e Figes, de maior ousadia crítica, são melhores do que o trabalho de fôlego de Volkogonov. Neste, a paixão por Lênin (é sempre preciso ter alguém para admirar) não permite que o estudioso russo conclua que o autoritarismo, e até o totalitarismo, começou com o primeiro comandante da Revolução Russa, não com Stálin, que, aí sim, aprofundou o Estado totalitário. Há claramente uma tentativa de preservar a imagem de Lênin, apenas pontualmente apontando seus equívocos (os comunistas "têm" ou tinham o dom da infalibilidade). Isto significa que o livro é ruim? Nada disso. O trabalho de Volkogonov, que teve acesso aos arquivos russos, até por ser militar, é, insisto, da melhor qualidade.


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POR EM 03/11/2008 ÀS 09:23 PM

A mãe da bos­sa no­va

publicado em

Eli­se­te Car­do­so — Uma Bi­o­gra­fia, de Sér­gio Ca­bral, é pro­du­to de uma pes­qui­sa me­ti­cu­lo­sa, mas a edi­ção da Lu­mi­ar Edi­to­ra é des­cui­da­da. Há vá­rios er­ros (a can­to­ra nas­ceu em 1920 e mor­reu em 1990, mas te­ria si­do en­tre­vis­ta­da em 1893) e al­gu­mas pa­la­vras saí­ram fal­tan­do le­tras, pos­si­vel­men­te por de­fei­to de im­pres­são 

Num pa­ís sem gran­des no­vi­da­des mu­si­cais de qua­li­da­de, o re­lan­ça­men­to do dis­co “Can­ção do amor de­mais”, de Eli­ze­te (Eli­zeth ou Eli­se­te) Car­do­so, que ban­cou a bos­sa no­va, de­ve­ria me­re­cer pá­gi­nas e pá­gi­nas dos jor­nais. O dis­co vol­ta ao mer­ca­do com a ca­pa ori­gi­nal (mú­si­ca: An­tô­nio Car­los Jo­bim; po­e­sia: Vi­ni­ci­us de Mo­ra­es), ago­ra men­ci­o­nan­do Jo­ão Gil­ber­to co­mo vi­o­lo­nis­ta, com tex­to de Vi­ni­ci­us (es­cri­to a mão) e, no can­to di­rei­to, a fo­to­gra­fia de Iri­neu Gar­cia, o jor­na­lis­ta que, do­no do se­lo Fes­ta, ava­li­zou o dis­co.

Gra­va­do em 1958, “Can­ção do amor de­mais” é ti­do co­mo o pri­mei­ro dis­co da Bos­sa No­va, pois Jo­ão Gil­ber­to só lan­çou seu pri­mei­ro dis­co três mes­es de­pois. Na sua es­plên­di­da bí­blia, “
Che­ga de Sa­u­da­de — A His­tó­ria e as His­tó­ri­as da Bos­sa No­va” (Edi­to­ra Com­pa­nhia das Le­tras, 461 pá­gi­nas), Ruy Cas­tro es­cre­ve: “‘Can­ção do amor de­mais’ é o fa­mo­so LP que Eli­ze­te Car­do­so gra­vou em abril de 1958 pa­ra um se­lo não-co­mer­cial cha­ma­do Fes­ta. No fu­tu­ro, iri­am fes­te­já-lo co­mo o dis­co que inau­gu­rou a Bos­sa No­va, por ser to­do de­di­ca­do às can­ções de uma no­va du­pla, Tom [Jo­bim] e Vi­ní­ci­us [de Mo­ra­es] — e, prin­ci­pal­men­te, por­que Jo­ão Gil­ber­to acom­pa­nha­va Eli­ze­te ao vi­o­lão em du­as fai­xas (‘Che­ga de sa­u­da­de’ e ‘Ou­tra vez’), fa­zen­do pe­la pri­mei­ra vez o que se­ria a ‘ba­ti­da da Bos­sa No­va’”. No óti­mo mas ha­gi­o­grá­fi­co “Eli­se­te Car­do­so — Uma Bi­o­gra­fia” (Lu­mi­ar Edi­to­ra, 402 pá­gi­nas), Sér­gio Ca­bral es­cre­ve: “A fai­xa do dis­co que mais re­per­cu­tiu, atra­vés do tem­po, foi ‘Che­ga de sa­u­da­de’, apon­ta­da co­mo a pri­mei­ra gra­va­ção em que se ou­ve a fa­mo­sa ba­ti­da de vi­o­lão de Jo­ão Gil­ber­to, sen­do, as­sim, o pri­mei­ro si­nal da exis­tên­cia da Bos­sa No­va”.

Lan­ça­do em maio de 1958, o dis­co não fez su­ces­so, “não foi se­quer um su­ces­si­nho”, diz Ruy Cas­tro. Eli­ze­te e Jo­ão Gil­ber­to não se en­ten­de­ram. Jo­ão, se­gun­do Ruy Cas­tro, “não es­ta­va gos­tan­do da gra­vi­da­de com que a Di­vi­na tra­ta­va as mú­si­cas, co­mo se fos­sem pe­ças de al­gum re­per­tó­rio sa­cro — tal­vez por­que as le­tras fos­sem de um po­e­ta im­por­tan­te, Vi­ni­ci­us de Mo­ra­es. Jo­ão que­ria que Eli­ze­te as can­tas­se mais pa­ra ci­ma, prin­ci­pal­men­te os sam­bas, e às ve­zes se me­tia a dar pal­pi­tes. Mos­trou-lhe co­mo fa­zia com ‘Che­ga de sa­u­da­de’, atra­san­do e adi­an­tan­do o rit­mo de acor­do com o que acha­va que a le­tra pe­dia, e ten­tou in­du­zi-la a ten­tar al­go pa­re­ci­do. Mas Eli­ze­te não se in­te­res­sou mui­to por su­as su­ges­tões e, pe­la in­sis­tên­cia, deu a en­ten­der que não pre­ci­sa­va dos seus pal­pi­tes”. Há, por as­sim di­zer, cer­ta má von­ta­de com Eli­ze­te, por­que era uma ar­tis­ta tra­di­cio­nal can­tan­do uma mú­si­ca não tra­di­cio­nal. A tra­di­ção às ve­zes re­ve­la o no­vo. O que se­ria da Bos­sa No­va sem uma can­to­ra cé­le­bre co­mo Eli­ze­te? Se Jo­ão Gil­ber­to é o pai da bos­sa no­va, Eli­zeth Car­do­so é a mãe. In­dis­cu­ti­da.

Co­mo não tem má von­ta­de com Eli­ze­te Car­do­so, pe­lo con­trá­rio, tem uma boa von­ta­de não ra­ro ex­ces­si­va, Sér­gio Ca­bral é jus­to: “Pa­ra 12 das 13 fai­xas do dis­co, Eli­se­te Car­do­so te­ve in­ter­pre­ta­ções de­fi­ni­ti­vas e con­sa­gra­do­ras. (...) São mú­si­cas que me­re­ce­ri­am de­pois de­ze­nas de gra­va­ções com mui­tos ou­tros in­tér­pre­tes. Ne­nhu­ma de­las, po­rém, su­pe­rou as que Eli­se­te fez no ‘Can­ção do amor de­mais’ ou em ou­tras opor­tu­ni­da­des, pois a pró­pria can­to­ra achou que po­de­ria can­tá-las me­lhor e can­tou, de fa­to, em dis­cos gra­va­dos pos­te­rior­men­te”.

Me­nos jo­ão-gil­ber­ti­a­no (ma non trop­po) do que Ruy Cas­tro, Sér­gio Ca­bral re­al­ça o ca­rá­ter pre­cur­sor do dis­co de Eli­ze­te Car­do­so: “... a fai­xa ‘Che­ga de sa­u­da­de’, com Eli­se­te, ser­viu co­mo uma es­pé­cie de en­saio pa­ra o ar­ran­jo que Tom Jo­bim es­cre­ve­ria, lo­go de­pois, pa­ra a gra­va­ção de Jo­ão Gil­ber­to, es­ta, sim, a de­fi­ni­ti­va”. Sér­gio Ca­bral apon­ta um pro­ble­ma na gra­va­ção de ‘Che­ga de sa­u­da­de’: “Eli­se­te er­rou a le­tra. Em vez de can­tar ‘pa­ra aca­bar com es­se ne­gó­cio de vo­cê vi­ver sem mim’, can­tou ‘pra aca­bar com es­se ne­gó­cio de ja­mais vi­ver sem mim’ — que não sei co­mo os au­to­res dei­xa­ram pas­sar. O dis­co, ali­ás, só não é per­fei­to por cau­sa de ‘Che­ga de sa­u­da­de’ e do ba­i­ão ‘Vi­da be­la’. Mas é uma ale­gria ou­vi-lo ago­ra co­mo se­rá da­qui a 100 anos. O vi­o­lão de Jo­ão Gil­ber­to tam­bém apa­re­ce, com des­ta­que, em ‘Ou­tra vez’, es­ta, sim, uma ex­ce­len­te fai­xa. Os ar­ran­jos de Tom Jo­bim são de uma cri­a­ti­vi­da­de e de uma de­li­ca­de­za exem­pla­res. Na fai­xa ‘Es­tra­da bran­ca’, em que ape­nas o pi­a­no de Tom acom­pa­nha Eli­se­te, a von­ta­de do ou­vin­te é de aplau­dir de tão bo­ni­ta. E nas can­ções mais len­tas, co­mo ‘Se­re­na­ta do ade­us’, ‘Mo­di­nha’, e ‘Can­ção do amor de­mais’, Eli­se­te ab­sor­veu com ex­tre­ma com­pe­tên­cia e ex­tra­or­di­ná­rio ta­len­to o cli­ma ca­me­rís­ti­co das pró­pri­as mú­si­cas e dos ar­ran­jos”.

O po­e­ta e com­po­si­tor Vi­ní­ci­us de Mo­ra­es es­cre­veu, com acer­to: “A di­ver­si­da­de dos sam­bas e can­ções exi­gia tam­bém uma voz par­ti­cu­lar­men­te afi­na­da; de tim­be po­pu­lar bra­si­lei­ro mas po­den­do res­pi­rar aci­ma do pu­ra­men­te po­pu­lar, com um re­gis­tro am­plo e na­tu­ral nos gra­ves e agu­dos e, prin­ci­pal­men­te, uma voz ex­pe­ri­en­te, com a pun­gên­cia dos que ama­ram e so­fre­ram, cres­ta­da pe­la pá­ti­na da vi­da. E as­sim foi que a Di­vi­na im­pôs-se pa­ra uma noi­te de se­re­na­ta”.

Se­gun­do Sér­gio Ca­bral, “foi por cau­sa de sua atu­a­ção” na gra­va­ção das mú­si­cas de Tom Jo­bim e Vi­ní­ci­us de Mo­ra­es “que, seis anos de­pois, o ma­es­tro Di­o­go Pa­che­co a con­vi­da­ria pa­ra in­ter­pre­tar as ‘Ba­chi­a­nas nú­me­ro 5’, de Vil­la-Lo­bos, no Te­a­tro Mu­ni­ci­pal de São Pau­lo e do Rio de Ja­nei­ro” .



O es­pí­ri­to de Po­li­car­po Qua­res­ma


"
Eli­se­te Car­do­so — Uma Bi­o­gra­fia", de Sér­gio Ca­bral, é pro­du­to de uma pes­qui­sa me­ti­cu­lo­sa, mas a edi­ção da Lu­mi­ar Edi­to­ra é des­cui­da­da. Há vá­rios er­ros (a can­to­ra nas­ceu em 1920 e mor­reu em 1990, mas te­ria si­do en­tre­vis­ta­da em 1893) e al­gu­mas pa­la­vras saí­ram fal­tan­do le­tras, pos­si­vel­men­te por de­fei­to de im­pres­são.

Quan­to as gra­fi­as dos no­mes, Sér­gio Ca­bral, meio Po­li­car­po Qua­res­ma, de­ci­diu adap­tá-las. Te­nho por mim que jus­to é in­di­car o no­me com o qual a pes­soa foi re­gis­tra­da. O na­ci­o­na­lis­ta Sér­gio Ca­bral pen­sa di­fe­ren­te. Sua ex­pli­ca­ção: "Op­tei pe­la gra­fia Eli­se­te pe­las mes­mas ra­zões que me le­va­ram a es­cre­ver ´Ari´ — e não ´Ary´ — no li­vro ´No Tem­po de Ari Bar­ro­so´, es­cri­to an­te­rior­men­te pa­ra es­ta mes­ma Edi­to­ra Lu­mi­ar: a lín­gua não po­de ser sub­mis­sa ao ar­bí­trio dos car­tó­rios. An­tes des­te li­vro, as en­ci­clo­pé­dias já ha­vi­am gra­fa­do Eli­se­te, co­mo re­co­men­da o bom por­tu­guês. Creio ape­nas co­la­bo­rar pa­ra que o no­me de­la as­su­ma a sua gra­fia de­fi­ni­ti­va, pois, re­gis­tra­da co­mo ´Eli­zet­te´, as­si­nou al­gu­mas ve­zes ´Eli­ze­te´ e só na se­gun­da me­ta­de da dé­ca­da de 60 o th no fi­nal de Eli­zeth apa­re­ceu na ca­pa dos seus dis­cos".

Ja­cob do Ban­do­lim, no li­vro, vi­ra Ja­có.

Pai de Eli­se­te quis sur­rar o jo­ga­dor Lê­o­ni­das Sil­va

Há his­tó­ri­as mui­to bo­as em "Eli­se­te Car­do­so — Uma Bi­o­gra­fia". Sér­gio Ca­bral con­ta-as com gra­ça.

Eli­se­te Car­do­so fi­cou co­nhe­ci­da co­mo a Di­vi­na e al­gu­mas pes­so­as se dis­se­ram pa­is da cri­a­ção. Sér­gio Ca­bral es­cla­re­ce, com ba­se em de­poi­men­to da pró­pria can­to­ra, que Di­vi­na foi uma cri­a­ção do jor­na­lis­ta e ho­mem de shows Ha­rol­do Cos­ta. De­pois de um es­pe­tá­cu­lo, Ha­rol­do Cos­ta de­ci­diu in­ven­tar que o su­ces­so ha­via si­do tão gran­de que "um gru­po" apa­re­ce­ra "por­tan­do" uma fai­xa que di­zia: ´Eli­se­te, a Di­vi­na". Ha­rol­do ti­rou o Di­vi­na do fa­to de um ami­go, o in­te­lec­tu­al ne­gro Iro­ni­des Ro­dri­gues, cha­mar a atriz Gre­ta Gar­bo de Di­vi­na.

Jo­vem, Eli­se­te apai­xo­nou-se pe­lo jo­ga­dor de fu­te­bol Lê­o­ni­das da Sil­va, o in­ven­tor da "bi­ci­cle­ta". O jo­ga­dor foi le­vá-la em ca­sa, de au­to­mó­vel (ca­so ra­ro, na épo­ca), e o pai per­gun­tou:

— Vo­cê veio de au­to­mó­vel?

Eli­se­te res­pon­deu:

— Bem... eu... quer di­zer...

— (gri­tan­do) Quem era aque­le ca­ma­ra­da? Quem era?

— Le­ô­ni­das.

— Que Lê­o­ni­das é es­se?

— Le­ô­ni­das da Sil­va, o jo­ga­dor de fu­te­bol.

— Quem? Não é pos­sí­vel! Não é pos­sí­vel! Vo­cê vai me pro­me­ter uma coi­sa: nun­ca mais vai en­con­trar com es­se cri­ou­lo, en­ten­deu?

Se­ri­a­men­te apai­xo­na­da, Eli­se­te fin­giu que acei­ta­va a or­dem do pai, mas con­ti­nuou na­mo­ran­do com o cra­que da se­le­ção bra­si­lei­ra de fu­te­bol.

"In­for­ma­do da opo­si­ção pa­ter­na, Le­ô­ni­das pas­sou a en­ten­der-se com Eli­se­te atra­vés de có­di­gos es­pe­ci­ais. Pas­sa­va pe­la ca­sa de­la e da­va três bu­zi­na­das. Ela saía e o en­con­tra­va na es­qui­na se­guin­te.

Jai­me Mo­rei­ra Car­do­so não era bo­bo e des­co­briu que o na­mo­ro con­ti­nu­a­va. Ame­a­çou sur­rar Eli­se­te com va­ra mar­me­lo. Ao sa­ber que o Fla­men­go jo­ga­ria com o Amé­ri­ca, num cam­po pró­xi­mo de sua ca­sa, "Jai­me anun­ciou que es­ta­ria no es­tá­dio pa­ra dar uma sur­ra em Le­ô­ni­das, em ple­no gra­ma­do e na fren­te da imen­sa tor­ci­da que, cer­ta­men­te, ocu­pa­ria as ar­qui­ban­ca­das do es­tá­dio da Rua Cam­pos Sa­les. Se­ria uma sur­ra da­que­las, pa­ra que ele nun­ca mais na­mo­ras­se a sua fi­lha. Eli­se­te de­sa­bou nu­ma cho­ra­dei­ra da­na­da, tão pre­o­cu­pa­da com o ve­xa­me que es­ta­ria pa­ra acon­te­cer. Ima­gi­na­va o pai [um mu­la­to de 1,90m] in­va­din­do o cam­po de jo­go pa­ra agre­dir o jo­ga­dor a pau­la­das, nu­ma ce­na que, cer­ta­men­te, en­vol­ve­ria os de­mais jo­ga­do­res, o ár­bi­tro da par­ti­da, tor­ce­do­res e po­li­ci­ais. Um es­cân­da­lo! Cho­rou tan­to que fez Jai­me mu­dar de idéia:

— Tra­te de ir à pa­da­ria e te­le­fo­nar pa­ra aque­le cri­ou­lo, pa­ra aque­le ca­fa­jes­te, di­zen­do pa­ra ele su­mir da sua vi­da.

— Mas es­tou de ca­mi­so­la!

— Vá as­sim mes­mo e man­da aque­le mo­le­que pa­ra o di­a­bo que o car­re­gue!

Cho­ran­do mui­to e mor­ren­do de pai­xão e de cons­tran­gi­men­to, foi ao te­le­fo­ne e co­mu­ni­cou a Le­ô­ni­das que o ro­man­ce che­ga­ra ao fim".

Em­bo­ra ti­ves­se ci­ú­me da fi­lha, Jai­me era mu­lhe­ren­go, não con­se­guia sus­ten­tar a ca­sa e, de­pois, aban­do­nou a fa­mí­lia. Eli­se­te co­me­çou a tra­ba­lhar aos 10 anos, co­mo ba­bá, e de­pois nu­ma cha­ru­ta­ria.

Ao ou­vi-la, na dé­ca­da de 1950, no Bra­sil, a can­to­ra fran­ce­sa Edith Pi­af le­van­tou-se e cum­pri­men­tou a co­le­ga bra­si­lei­ra: "C´est mer­veil­leu­se! C´est mer­veil­leu­se!" Sér­gio Ca­bral re­la­ta "que, sem sa­ber o que res­pon­der", Eli­se­te "abriu o ber­rei­ro". Foi cha­ma­da de ma­ra­vi­lho­sa por Edith Pi­af, elo­gi­a­da por Sa­rah Vaug­han e can­tou pa­ra Lou­is Armstrong e Nat King Co­le.

"A mai­or can­to­ra de sua ge­ra­ção"


No li­vro "
Uma His­tó­ria da Mú­si­ca Po­pu­lar Bra­si­lei­ra — Das Ori­gens à Mo­der­ni­da­de" (Edi­to­ra 34, 501 pá­gi­nas), o crí­ti­co e his­to­ri­a­dor Jai­ro Se­ve­ri­a­no es­cre­ve (pá­gi­na 294): "Em­bo­ra sem ja­mais ter al­can­ça­do o grau de po­pu­la­ri­da­de de Dal­va [de Oli­vei­ra] e Ân­ge­la [Ma­ria], Eli­zeth Car­do­so (Rio de Ja­nei­ro, RJ, 11 de ju­lho de 1920 — 7 de maio de 1990) foi uma can­to­ra mai­or — a mai­or de sua ge­ra­ção, na opi­ni­ão de mui­tos, que a cha­ma­ram de Di­vi­na. Do­na de uma sen­su­al e me­lo­di­o­sa voz de con­tral­to, qua­se ´mez­zo so­pra­no´, cu­ja qua­li­da­de era re­al­ça­da por uma téc­ni­ca apu­ra­da, Eli­zeth can­tou de tu­do, po­den­do-se clas­si­fi­car seu re­per­tó­rio co­mo uma sín­te­se do que se fez de me­lhor na mú­si­ca po­pu­lar bra­si­lei­ra de seu tem­po, com uma im­por­tan­te fa­se de­di­ca­da ao sam­ba-can­ção, ini­ci­a­da com ´Can­ção de amor´ (de Cho­co­la­te e Ela­no de Pau­la, 1950), o gran­de su­ces­so que a re­ve­lou. Is­so po­de ser apre­ci­a­do em sua vas­ta dis­co­gra­fia de mais de cin­qüen­ta LPs, na qual se des­ta­ca es­pe­ci­al­men­te um ál­bum que re­gis­tra o re­ci­tal re­a­li­za­do pe­la can­to­ra, o Zim­bo Trio, Ja­cob do Ban­do­lim e o con­jun­to Épo­ca de Ou­ro, no dia 19 de fe­ve­rei­ro de 1968, pro­du­zi­do pe­lo Mu­seu da Ima­gem e do Som, na épo­ca sob a di­re­ção de Ri­car­do Cra­vo Al­bin. Di­ri­gi­do e ro­tei­ri­za­do por Her­mí­nio Bel­lo de Car­va­lho, o es­pe­tá­cu­lo co­briu trin­ta anos de mú­si­ca bra­si­lei­ra, com Ja­cob e o Épo­ca de Ou­ro re­pre­sen­tan­do a tra­di­ção, o Zim­bo Tri­bo, a mo­der­ni­da­de, e Eli­zeth atu­an­do co­mo tra­ço de uni­ão en­tre as épo­cas fo­ca­li­za­das. Com sua ver­sa­ti­li­da­de, a Di­vi­na can­tou na oca­si­ão um re­per­tó­rio que ia de Pi­xin­gui­nha, Ary Bar­ro­so, No­el Ro­sa, Ores­tes Bar­bo­sa e o pró­prio Ja­cob a Tom Jo­bim, Vi­ni­ci­us de Mo­ra­es, Ba­den Powell, Chi­co Bu­ar­que e Mil­ton Nas­ci­men­to, en­tre ou­tros".

Ao vi­si­tar o Bra­sil, Car­men Mi­ran­da ou­viu Eli­zeth Car­do­so e, já nos Es­ta­dos Uni­dos, re­ve­lou ao ex-na­mo­ra­do Aloí­sio de Oli­vei­ra: "Co­nhe­ci no Rio de Ja­nei­ro uma mu­la­ta que can­ta pra chu­chu. Cha­ma-se Eli­se­te Car­do­so".


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POR EM 03/11/2008 ÀS 09:14 PM

A obra prima de Ibrahim Ferrer

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Cuba vende, no mercado externo, açúcar, charuto e a música da turma do Buena Vista

Por certo tempo, mais do que devia, enjoei daqueles velhinhos do Buena Vista Social Clube. Encanecidos, à espera da Velha Senhora, aquela da foice, tiraram tudo do baú e do fundo d’alma e colocaram nas discotecas. Tinham, com razão, de aproveitar o sucesso do documentário “Buena Vista Social Clube”, de Ry Cooder e Wim Wenders, e terminar os dias com certa dignidade, pois Fidel Castro, o tiranossauro rex, os condenara a uma vida de privações, inclusive da liberdade artística. Eles cantavam a vida, o belo, e os comunistas queriam que cantassem a revolução, a transformação social — quer dizer, aquilo que ninguém via e sentia. 

Depois do retorno brilhante, “mal” (ou bem, sabe-se lá) orientados, os cubanos fizeram alguns discos repetitivos e, para o ouvinte exigente, de qualidade duvidosa (exceto, talvez, o talentosíssimo Rubén González, o pianista dos dedos de diamante. Tão bom quanto os pianistas Bébo Valdez e Chucho Valdez, pai e filho). O fato é que, apesar da aparente jogada de marketing, os “velhinhos da fuzarca” eram (são) mesmo muito bons, principalmente Rubén González, Ibrahim Ferrer, Compay Segundo e Omara Portuondo (a única viva). O balanço inzoneiro de Compay é insuperável, tem uma alegria contagiante, um quê de gospel de terreiro (Compay, se brasileiro, seria sambista e baiano). Mas o grande cantor, como prova o disco “Mi Sueño”, recém-lançado no Brasil, é mesmo Ibrahim Ferrer. Depois que cessaram as pressões para repetir o “Buena Vista”, Ibrahim pôde gravar um disco só de boleros, naquele seu estilo intimista, de uma doçura ímpar. É uma maravilha. Mesmo com quase 80 anos, com uma voz ligeiramente arrastada, mas ainda apropriada para boleros, Ibrahim fez uma pequena obra-prima. Morreu feliz, por certo.
 
Ouça “Dos Almas”, “Quizás quizás” (a parceria com Omara Portuondo é mágica), “Cada noche un amor”, “Perfidia”, “Alma Libre”, entre outras, e aposto que pensará em dançar, namorar e amar. Claro, se você tiver mais de 30 anos, porque, se tiver menos, já estará acostumado com o barulho infernal das músicas de boate, que são úteis tão-somente para aumentar a surdez dos jovens e aliená-los do belo que está tão perto e tão longe. Às vezes penso que os jovens não escutem mais porque o mundo moderno misturou tudo e é impossível, aparentemente, dissociar o belo daquilo que é aceito como o que “todo mundo” gosta. Estamos nos tornando um rebanho que busca o pior capim, mesmo aquele que não é imposto pelo mercado, sim, porque o mercado da música já era. Estamos livres para escolher, e como escolhemos mal!, muito, quem sabe, por conta da televisão aberta, hoje dedicada a fazer programas para pobres e para a classe média inculta e bárbara.
 
O sucesso dos artistas cubanos, todos pré-Revolução de 1959, deve ter irritado muito Fidel e seu escravo mental Raúl Castro. Cuba vende, no mercado externo, açúcar, charuto e a música da turma do Buena Vista, ou seja, três produtos que eram fortes antes da revolução gestada por Fidel e Che Guevara. Depois da revolução, Cuba não produziu nada realmente novo, exceto o fato de ter socializado a pobreza. E não apenas em termos de economia. Os melhores escritores cubanos — Lezama Lima (um Guimarães Rosa licencioso e barroco), Alejo Carpentier, Severo Sarduy e Guillermo Cabrera Infante — são pré-revolução. Ah, no mercado interno, Cuba potencializou a prostituição. Ué, não fizeram a revolução para acabar com o balneário dos americanos ricos? “Acabaram” (esconderam, na verdade, pois prostituição é igual gripe: sempre volta), durante certo período, mas, com o fim da União Soviética, Cuba praticamente liberou a prostituição, e hoje o país é o balneário do mundo, sobretudo dos turistas europeus.

 

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POR EM 03/11/2008 ÀS 09:07 PM

A Missão Secreta de Rudolf Hess

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Em maio de 1941, com a Inglaterra praticamente derrotada pela Alemanha de Adolf Hitler, o primeiro-ministro Winston Churchill recebeu para um almoço políticos e o embaixador sueco Bjorn Prytz. Este quis saber "como a Grã-Bretanha poderia continuar enfrentando tamanha fúria".

Alguns ficaram constrangidos, menos Churchill. Sorrindo, contou uma historinha:

"Era uma vez dois sapos. O Sapo Otimista e o Sapo Pessimista. Uma noite, os dois sapos saíram pulando na floresta atraídos pelo cheiro de leite fresco que vinha de uma leiteria. Eles pularam a janela da leiteria e caíram direto dentro de um latão de leite".

Churchill tomou um gole de conhaque, soltou uma baforada de seu charuto e concluiu:

"As laterais do latão eram íngremes demais. O Sapo Pessimista logo desistiu e afundou. Mas o Sapo Otimista ganhou coragem e começou a nadar e a se debater, esperando conseguir sair de alguma forma. Ele não sabia como, mas não desistiria sem lutar. Ele se agitou por toda a noite e pela manhã — ah, que alegria! — ele estava flutuando em uma rodela de manteiga!"

Ao perceber que a turma, a sua, ficara satisfeita, Churchill fumou mais uma vez e concluiu: "Eu sou o Sapo Otimista". Fisicamente, Churchill parecia um sapão.

A história está contada no competente A Missão Secreta de Rudolf Hess O Estranho Vôo do Vice de Hitler e o Segredo Mais Bem Guardado da Espionagem Britânica (Record, 2007, 361 páginas), do historiador galês Martin Allen.

Allen mostra que Hitler tentou a paz com a Inglaterra, mas não com Churchill, que queria destrui-lo a qualquer custo. Percebendo a insegurança de Hitler, que vencia a guerra com relativa facilidade, o serviço de espionagem inglês montou a Operação Srs. HHHH (Hitler, Hess, Haushofer, Hoare, Halifax). Essa operação, habilmente articulada, sugeriu a Hitler que havia uma dissidência na Inglaterra, liderada por lorde Halifax e pelo embaixador Samuel Hoare. Essa dissidência estaria disposta a destituir Churchill e negociar a paz.

Hitler caiu direitinho e enviou vários emissários para conversar sobre a paz, sobretudo com Samuel Hoare. Como as negociações não saíam do lugar, Hitler decidiu enviar à Inglaterra uma ponte mais alta na hierarquia do governo nazista, o vice-Führer Rudolf Hess, o que surpreendeu os ingleses, que esperavam Ernst Bohle, uma figura menor.

Embora não fosse néscio (era mau político, sugere Allen), Hitler caiu no canto de sereia dos ingleses. O motivo? Em 1941, Hitler governava um império, que incluía Áustria, Polônia, Tchecoslováquia e França, e precisava do petróleo da Rússia e do trigo da Ucrânia. Isso do ponto de vista da economia. Do ponto de vista político, um de seus projetos, desde o início, era dominar a Rússia e destruir o bolchevismo.

Para enfrentar a Rússia, Hitler trabalhou diplomaticamente para retirar a Inglaterra da guerra, para não ter de lutar em duas frentes. O líder nazista avaliava que, sem a batalha no Ocidente, a Rússia seria presa fácil. Por isso, caiu no canto de sereia da espionagem inglesa.

Hess foi para a Inglaterra negociar com emissários de lorde Halifax, o suposto dissidente, por intermédio do duque de Kent. Mas não havia dissidência alguma. O alemão acabou preso de 1941 a 1987, quando morreu, aos 93 anos. A tacada de Churchill deu certo. Jogou a furiosa Alemanha em cima dos russos e ganhou a guerra. Sem o front russo, provavelmente a Inglaterra teria se rendido ao nazismo. No fim da guerra, Ióssif Stálin disse a Churchill que percebera sua “armação”. Seu informante era o inglês Kim Philby, o amigo do escritor Graham Greene, autor do romance O Terceiro Homem.

Por que os ingleses esconderam o segredo de Hess por tanto tempo? Allen avalia que, ao jogar os nazistas sobre a União Soviética, Churchill, de certa forma, contribuiu para a morte de 20 milhões de russos. Por que Churchill era anticomunista ferrenho? Mais provavelmente porque não havia outra saída à mão. De qualquer modo, admite Allen, um dos projetos prioritários de Hitler era atacar a Rússia. Paradoxalmente, para vencer a guerra durante certo período, contou com os préstimos de Stálin, um de seus grandes fornecedores de petróleo e alimentos.


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POR EM 02/11/2008 ÀS 10:43 PM

O nascimento de Hugo Chávez

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Ao ser pre­so, Chá­vez foi le­va­do a uma re­de de te­le­vi­são pa­ra fa­zer um pro­nun­ci­a­men­to con­vo­can­do seus ali­a­dos à ren­di­ção to­tal. O te­nen­te-co­ro­nel só acei­tou fa­lar ao vi­vo. No dis­cur­so, de ape­nas 72 se­gun­dos, Chá­vez ins­ta­lou, in­con­sci­en­te­men­te, sua ima­gem no ima­gi­ná­rio dos po­bres e da clas­se mé­dia da Ve­ne­zu­e­la. Nas­cia, ali, o sal­va­dor, o no­vo mes­si­as

No li­vro “Hu­go Chá­vez - Da Ori­gem Sim­ples ao Ide­á­rio da Re­vo­lu­ção Per­ma­nen­te” (Edi­to­ra No­vo Con­cei­to, 516 pá­gi­nas, tra­du­ção de Ro­dri­go Cas­tro), o jor­na­lis­ta Bart Jo­nes re­ve­la o exa­to mo­men­to em que nas­ce o he­rói-po­lí­ti­co Hu­go Chá­vez, que se con­si­de­ra “Si­món Bo­lí­var re­en­car­na­do”.

Em fe­ve­rei­ro de 1992, Chá­vez re­u­niu um gru­po de ofi­ci­ais e sol­da­dos e ten­tou der­ru­bar o pre­si­den­te Car­los An­drés Pé­rez. O ob­je­ti­vo era ma­tar Pé­rez e to­mar o po­der. O gol­pe te­ve um iní­cio bem-su­ce­di­do, mas Chá­vez he­si­tou, por fal­ta de ex­pe­ri­ên­cia po­lí­ti­ca, e Pé­rez deu a vol­ta por ci­ma e con­se­guiu pren­dê-lo. A cur­to pra­zo, uma vi­tó­ria de Pir­ro.

Ao ser pre­so, Chá­vez foi le­va­do a uma re­de de te­le­vi­são pa­ra fa­zer um pro­nun­ci­a­men­to con­vo­can­do seus ali­a­dos à ren­di­ção to­tal. O te­nen­te-co­ro­nel só acei­tou fa­lar ao vi­vo. No dis­cur­so, de ape­nas 72 se­gun­dos, Chá­vez ins­ta­lou, in­con­sci­en­te­men­te, sua ima­gem no ima­gi­ná­rio dos po­bres e da clas­se mé­dia da Ve­ne­zu­e­la. Nas­cia, ali, o sal­va­dor, o no­vo mes­si­as. O go­ver­no ve­ne­zu­e­la­no co­me­teu, em pou­co mais de um mi­nu­to, a bo­ba­gem su­pre­ma: su­bes­ti­mou aque­le que pa­re­cia ven­ci­do e dei­xou ele fa­lar o que quis.

Tran­scre­vo in­te­gral­men­te o dis­cur­so que pa­riu o Chá­vez he­rói-po­lí­ti­co: “Pri­mei­ra­men­te, que­ro dar meu bom dia pa­ra to­da a po­pu­la­ção da Ve­ne­zu­e­la. Es­ta men­sa­gem bo­li­va­ri­a­na di­ri­ge-se a to­dos os co­ra­jo­sos sol­da­dos pre­sen­tes no re­gi­men­to de tan­ques em Va­len­cia. Ca­ma­ra­das, in­fe­liz­men­te, por en­quan­to, os ob­je­ti­vos que nos im­pu­se­mos não fo­ram atin­gi­dos na ca­pi­tal. Ou se­ja, os que es­tão aqui em Ca­ra­cas não to­ma­ram o po­der. In­de­pen­den­te de on­de es­te­jam, vo­cês saí­ram-se bem. Mas ago­ra che­gou a ho­ra de re­fle­tir­mos. No­vas opor­tu­ni­da­des apa­re­ce­rão e o pa­ís pre­ci­sa, cer­ta­men­te, ca­mi­nhar ru­mo a um fu­tu­ro me­lhor.

“En­tão, es­cu­tem o que te­nho a di­zer, es­cu­tem o co­man­dan­te Chá­vez, que lhes en­via es­ta men­sa­gem. Por fa­vor, re­fli­tam e de­po­nham su­as ar­mas, por­que na ver­da­de os ob­je­ti­vos que nos im­pu­se­mos na­ci­o­nal­men­te não se en­con­tram mais em nos­so al­can­ce. Ca­ma­ra­das, es­cu­tem es­ta men­sa­gem de so­li­da­ri­e­da­de. Agra­de­ço sua le­al­da­de, sua co­ra­gem, sua ab­ne­ga­da ge­ne­ro­si­da­de. Di­an­te do pa­ís e di­an­te de vo­cês, acei­to a res­pon­sa­bi­li­da­de por es­te mo­vi­men­to mi­li­tar bo­li­va­ri­a­no. Obri­ga­do”.

Os mi­li­ta­res e os po­lí­ti­cos nem mes­mo man­da­ram Chá­vez re­ti­rar seu uni­for­me ca­mu­fla­do de com­ba­te nem a bo­i­na ver­me­lha de pá­ra-que­dis­ta. Ao dei­xar a sa­la, apa­ren­te­men­te sem en­ten­der que ha­via agra­da­do ao pú­bli­co, Chá­vez sen­tia-se de­pri­mi­do e fra­cas­sa­do. O ge­ne­ral Ra­món San­te­liz Ru­íz deu-lhe a cha­ve pa­ra en­ten­der di­rei­to o que ha­via di­to: “Vo­cê dis­se por en­quan­to”. O as­tu­to Cha­vez dis­se, de­pois: “Eu não ha­via per­ce­bi­do. Aqui­lo ha­via sa­í­do na­tu­ral­men­te. Eu lem­bro de ter di­to pa­ra ele: ‘Acho que eles vão apa­gar is­so’. ‘Não, já foi pa­ra o ar. A trans­mis­são era ao vi­vo’”.

Bart Jo­nes es­cre­ve que “o pro­nun­ci­a­men­to de Chá­vez caiu co­mo uma bom­ba”. As pes­so­as fi­ca­ram fas­ci­na­das por aque­le “ele­gan­te e jo­vem ofi­ci­al”. “Ele tam­bém in­di­cou que a re­be­li­ão não che­ga­ra a ain­da a seu fim. Du­as pa­la­vras - por aho­ra (por en­quan­to) - so­a­ram pa­ra mui­tas pes­so­as co­mo a pro­mes­sa de que al­gum dia os re­bel­des re­gres­sa­riam. Eles não ha­vi­am atin­gi­do seus ob­je­ti­vos ‘por aho­ra’. Os dois vo­cá­bu­los trans­for­ma­ram-se ins­tan­ta­ne­a­men­te nas pa­la­vras de or­dem mais pro­nun­ci­a­das nas ru­as”, re­la­ta Bart Jo­nes. A mis­si­o­ná­ria ca­tó­li­ca Li­sa Sul­li­van, que mo­ra­ na Ve­ne­zu­e­la, sin­te­ti­zou o pen­sa­men­to de mui­tos: “Hu­go Chá­vez en­trou em nos­sos co­ra­ções na­que­le dia e nun­ca mais saiu”.

A im­pren­sa fez o mai­or oba-oba com Chá­vez e, anes­te­si­a­dos, re­pór­te­res, edi­to­res e do­nos de jor­nais não qui­se­ram ou­vir o con­se­lho do pre­si­den­te Car­los An­drés Pé­rez: “Não exal­tem o ho­mem que ten­tou re­a­li­zar o gol­pe mi­li­tar. Não trans­for­me­mos um cri­mi­no­so que traiu as For­ças Ar­ma­das e pro­vo­cou mor­te e des­tru­i­ção em uma fi­gu­ra de des­ta­que”. Seis anos de­pois, Chá­vez foi elei­to pre­si­den­te, cen­su­rou a im­pren­sa que lhe abria es­pa­ços ge­ne­ro­sos e, co­mo só tem 54 anos, po­de se tor­nar o no­vo Fi­del Cas­tro, mes­mo que pi­lo­tan­do uma aven­tu­ra mais na­ci­o­na­lis­ta e po­pu­lis­ta do que co­mu­nis­ta. Al­guém acre­di­ta que Chá­vez vai dei­xar o po­der em 2012?

Há um pro­ble­ma no li­vro, pois o au­tor ten­de a su­per­va­lo­ri­zar Chá­vez e a su­bes­ti­mar os po­lí­ti­cos tra­di­cio­nais da Ve­ne­zu­e­la. Mas, em­bo­ra a fa­vor de Chá­vez, Bart de Jo­nes ex­põe os fa­tos.

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POR EM 18/08/2008 ÀS 08:19 PM

O mai­or edi­tor bra­si­lei­ro

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Cer­tos cír­cu­los de es­quer­da pre­fe­rem di­zer que o gran­de edi­tor bra­si­lei­ro foi Enio Sil­vei­ra. Jor­ge Za­har, da Za­har, e Fer­nan­do Gas­pa­ri­an, da Paz e Ter­ra, tam­bém são apre­sen­ta­dos co­mo “gê­ni­os da ra­ça”. Mas edi­tor li­te­rá­rio mes­mo foi Jo­sé Olympio Pe­rei­ra Fi­lho (1902-1990). Lan­çou o mo­nu­men­to “Gran­de Ser­tão: Ve­re­das”, de Gui­ma­rã­es Ro­sa, “Vi­das Se­cas”, de Gra­ci­li­a­no Ra­mos, “Me­ni­no do En­ge­nho”, de Jo­sé Lins do Re­go, “O Tron­co”, de Ber­nar­do Élis, e a obra de Jor­ge Ama­do (que, na ado­les­cên­cia, li de­li­ci­a­do. A ma­lí­cia de Ama­do é ado­rá­vel e di­ver­ti­da, tal­vez por cer­to pu­dor co­mu­nis­ta). A Edi­to­ra Sex­tan­te lan­ça uma bi­o­gra­fia que per­mi­te co­nhe­cê-lo em sua in­tei­re­za: “Jo­sé Olympio: O Edi­tor e Sua Ca­sa” (424 pá­gi­nas e pro­i­bi­ti­vos 150 re­ais), de Jo­sé Ma­rio Pe­rei­ra, o notável edi­tor da Top­bo­oks.

A jor­na­lis­ta Lu­ci­la So­a­res, ne­ta de Jo­sé Olympio, es­cre­veu, na re­vis­ta “Ve­ja”, que se tra­ta de uma “obra de re­fe­rên­cia”. A pró­pria Lu­ci­la é au­to­ra de óti­ma “bi­o­gra­fia” da edi­to­ra: “
Rua do Ou­vi­dor 110 — Uma His­tó­ria da Li­vra­ria Jo­sé Olympio”. An­tô­nio Car­los Vil­la­ça es­cre­veu o su­bes­ti­ma­do “Jo­sé Olympio — O Des­co­bri­dor de Es­cri­to­res” (Thex Edi­to­ra, 292 pá­gi­nas).

O li­vro de Vil­la­ça tem um quê de ho­me­na­gem, mas não dei­xa de ser in­te­res­sá­vel. Con­ta que Jo­sé Olympio era par­cei­ro de pô­quer de Jo­sé. J. Vei­ga (que de­mo­rou receber convite pa­ra o cír­cu­lo ín­ti­mo do edi­tor) e mo­ra­va no mes­mo edi­fí­cio do es­cri­tor go­i­a­no. O avô ma­ter­no, Da­ni­el Lo­pes de Oli­vei­ra, nas­ceu em Ca­ta­lão (GO). Uma his­tó­ria con­ta­da por Vil­la­ça: “Quan­do foi ao Pa­lá­cio do Pla­nal­to em 1975 pe­dir a Gei­sel e a Gol­bery que sal­vas­sem a Jo­sé Olympio, leu na lis­ta de au­diên­cia, na por­ta­ria — ‘Dou­tor Jo­sé Olympio’. Pe­diu ime­di­a­ta­men­te que cor­ri­gis­sem — ‘Edi­tor Jo­sé Olympio’. Não era dou­tor. Fo­ra ape­nas e sem­pre edi­tor. E no seu am­plo ga­bi­ne­te fez es­cre­ver as se­guin­tes pa­la­vras de Mon­tei­ro Lo­ba­to: ‘Um pa­ís se faz com ho­mens e li­vros’”.

Não se po­de di­zer que Jo­sé Olympio foi um edi­tor ape­nas li­te­rá­rio, pois lan­çou “Ca­sa Gran­de & Sen­za­la”, de Gil­ber­to Freyre. Obra que, por ser mui­to bem-es­cri­ta, não dei­xa de ser li­te­rá­ria. Freyre, ou Pe­dro Na­va, era o Proust bra­si­lei­ro. O Eu­cli­des da Cu­nha de “Os Ser­tões” é, tal­vez, o úni­co ri­val de Freyre.

O tí­tu­lo ori­gi­nal de “Vi­das Se­cas”, es­te mais re­a­lis­ta e de acor­do com a his­tó­ria do ro­man­ce, era “O Mun­do Co­ber­to de Pe­nas”, al­go meio as­sim sur­re­a­lis­ta e ple­no da ve­lha e de­can­ta­da “cri­a­ti­vi­da­de” co­mu­nis­ta. A tro­ca, opor­tu­na, foi fei­ta por Da­ni­el Pe­rei­ra, ir­mão do edi­tor.
 

 

O jornalismo de Vasily Grossman

O escritor ucraniano (certamente não gostaria de ser chamado de "escritor russo", mas o russo, língua dominante, tornou-se pátria, porque a pátria de um autor é sua língua — é forçoso admitir)
Vasily Grossman (1905-1964) é autor de uma obra-prima "Vida e Destino", salvo engano, não publicada no Brasil.

Graças ao empenho do brilhante historiador inglês Antony Beevor e da pesquisadora e tradutora Luba Binogradova, as reportagens do escritor sobre a Segunda Guerra foram recuperadas e publicadas no livro "
Um escritor na Guerra — Vasily Grossman Com o Exército Vermelho 1941-1945" (Editora Objetiva, 495 páginas).

O leitor perceberá, fácil e rápido, que os textos de Grossman, devido ao seu talento literário, transcendem a mera reportagem. São textos vívidos, plenos de humanidade. É jornalismo literário, da melhor espécie, mas sem a pretensão de alguns jornalistas literários atuais, que fazem subliteratura nos escombros do subjornalismo.
  
Mordecai Richler

Recebo de Marcelo Franco o romance "
A Versão de Barney" (Companhia das Letras, 571 páginas), do escritor judeu canadense Mordecai Richler (1931-2001).

Mesmo sem permissão, transcrevo a dedicatória: "A prosa de Mordecai Richler não é tão consistente quanto a de Philip Roth, e tampouco Barney Panofsky é Alexander Portnoy. Mas este livro, mesmo com duzentas páginas sobrando, é muito engraçado e merece leitura atenta".

O maior escritor canadense é mesmo o americano Saul Bellow. O autor de "Herzog" nasceu no Canadá, mas se tornou escritor consagrado nos Estados Unidos. 

 
 
O Jack Ken­nedy ne­gro e pu­ri­ta­no

Ou­ço, até de in­te­lec­tu­ais, que Ba­rack Oba­ma é uma es­pé­cie de “John Ken­nedy ne­gro”. Bem, se Oba­ma ti­vesse uma vi­da tão es­can­da­lo­sa quan­to a de Jack (como John era chamado pelos amigos), co­meçaria a ad­mi­rá-lo. Mas, in­fe­liz­men­te, pe­lo me­nos pa­ra o ho­mem Oba­ma, não tem. O es­cri­tor Phi­lip Roth diz que o ame­ri­ca­no é bem me­nos pu­ri­ta­no do que se ima­gi­na. O dis­cur­so do pu­ri­ta­nis­mo é mais cris­ta­li­za­do do que o pu­ri­ta­nis­mo re­al. O que de­sa­gra­da em Oba­ma e em ou­tros po­lí­ti­cos, não ape­nas ame­ri­ca­nos, é o pu­ri­ta­nis­mo de fa­cha­da. Ora, nem os san­tos eram san­tos. Os san­tos só se tor­na­ram san­tos, com ex­ce­ções, de­pois de uma vi­da na­da in­sí­pi­da. Mui­tos ti­ve­ram uma vi­da des­re­gra­da. Mas não dei­xa­ram de ser gran­des ho­mens pú­bli­cos. Ge­tú­lio Var­gas e Jus­ce­li­no Ku­bitschek traí­am su­as mu­lhe­res, mas al­guém po­de di­zer que não fo­ram pre­si­den­tes competentes?

Quem qui­ser co­nhe­cer o Ken­nedy ver­da­dei­ro de­ve ler “
O La­do Ne­gro de Ca­me­lot” (Edi­to­ra L&P, 510 pá­gi­nas), do jor­na­lis­ta Seymour M. Hersh, da “New Yorker”. É um re­tra­to nem do­ce nem cru­el, e sim ver­da­dei­ro e im­pa­gá­vel de Ken­nedy e de sua fa­mí­lia (o pai, Joe, era um gran­de es­cro­que). Ou, se se qui­ser, de uma tra­gé­dia anun­ci­a­da.

 

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POR EM 05/08/2008 ÀS 04:52 PM

Leonel Brizola: Um Perfil Biográfico

publicado em


Leio “
El Caudilho — Leonel Brizola: Um Perfil Biográfico” (Editora Aquariana, 543 páginas), do jornalista FC Leite Filho. De cara, cabe esclarecer, é um livro a favor. A obra, embora íntegra, não é, no geral, crítica. É uma defesa quase sempre factual do criador do PDT.

Pelo menos dois livros discutem, a sério, a história do dinheiro enviado por Fidel Castro para a “guerrilha” de Brizola. O capitão José Wilson da Silva, em “
O Tenente Vermelho” (Editora Tchê!, 248 páginas) e em entrevista ao Jornal Opção, contou que o grupo de Brizola recebeu 1 milhão de dólares de Cuba. Os primeiros 500 mil dólares foram repartidos, em partes iguais, entre Brizola, João Goulart e Darcy Ribeiro. Depois, com intermediação de Lélio Carvalho (não citado por Leite Filho), Fidel enviou mais 500 mil dólares. O dinheiro, repassado por Darcy Ribeiro, teria financiado a Guerrilha de Caparaó. José Wilson chegou a atritar-se com Brizola, mas em nenhum momento diz que o líder trabalhista roubou o dinheiro de Cuba.

A doutora em história social Denise Rollemberg, em “
O Apoio de Cuba à Luta Armada no Brasil — O Treinamento Guerrilheiro
” (Editora Mauad, 94 páginas), escreve: “... ninguém parece saber a quantia recebida. Brizola nunca prestou conta do dinheiro nem a Cuba nem aos militantes, fossem dirigentes ou de base. Tinha-o como um ‘empréstimo pessoal’, a ele Brizola, e que seria devolvido. Acredita-se ter havido gastos nos quais o dinheiro foi usado, mas apenas uma parte. [...] Brizola nunca teria ajudado os guerrilheiros presos e suas famílias com o dinheiro de Cuba”.

Fidel Castro teria desabafado: “Digan a su jefe lo que yo pienso que ele es un ratoncito”. O ditador teria chamado o brasileiro de “el ratón”. Leite Filho diz que não há “provas de que” o líder comunista tenha dito isso. Embora não apresente provas — por exemplo, uma declaração de Fidel ou de outra autoridade cubana —, o biógrafo, baseado em depoimento do ex-deputado Neiva Moreira, sustenta: “Brizola foi o único líder revolucionário a devolver parte do dinheiro que recebeu, quando resolveu abandonar a guerrilha, por considerá-la inviável para o Brasil”. Neiva garante: “E todo mundo sabe disso em Cuba”. Se sabe, um depoimento de um cubano do primeiro plano seria fundamental para confirmar o depoimento de Neiva Moreira, amigo, aliado e, quiçá, cúmplice de Brizola. A surpreendente declaração de Neiva exige pesquisa, confronto.

Adiante, Leite Filho escreve: “... foi do financiamento de Cuba às guerrilhas brasileiras que surgiram as intrigas, atribuídas à CIA, de que Brizola se tinha apropriado de grande parte do dinheiro que lhe fora enviado por Fidel. É dessa época a história de que ele teria sido chamado de ‘el ratón’ (ladrão) por Fidel. Este o teria acusado ‘de haver abocanhado os parcos recursos economizados pelo sofrido povo cubano’. Mas a versão é veementemente contestada, tanto por Betinho como por Neiva Moreira e outros exilados, ainda que houvesse alguns cubanos interessados em disseminar o boato”. A história dos “cubanos agastados” não é apurada, infelizmente, pelo biógrafo. Mas este acrescenta que Fidel continuou a respeitar Brizola e mantiveram um encontro cordial, no Rio de Janeiro, quando o brasileiro governava o Rio de Janeiro, na década de 1980. As duas raposas políticas, apesar de pensarem de modos diferentes — um é comunista, o outro, no máximo, era nacionalista —, eram aliados, mais táticos do que estratégicos, na “luta” contra o que chamavam de “direita”.

Depoimento de Betinho: “A história que eu conheço é a seguinte: primeiro que o Brizola fazia um controle estrito de dinheiro. Ele anotava tudo que entrava, tudo que gastava, tudo certo. Porque achava que era um dinheiro que ele tinha de prestar contas. Acho que, na cabeça dele, se ele chegasse ao poder, devolveria esse dinheiro para Cuba”. Bem, se não devolveu para Cuba, para quem Brizola devolveu parte do dinheiro que sobrou? O livro não esclarece. De qualquer maneira, mesmo não esclarecendo, a questão foi reapresentada e deve abrir um novo foco de pesquisa. Denise Rollemberg escreveu que Neiva Moreira não falava sobre o assunto. Para o livro de Leite Filho, o veterano político maranhense “abriu” o jogo.

Metralhadoras — Neiva contou ao biógrafo que os cubanos deram mini-metralhadoras aos brasileiros e que “seu número não ultrapassou a 100”. Leite Filho acrescenta: “Neiva, que trouxe na bagagem de Havana cinco dessas metralhadoras, fala sobre o propalado ‘dinheiro de Cuba’: ‘Nada mais falso e ridículo do que essa história do ‘dinheiro de Cuba’, que a direita vem orquestrando desde então para comprometer os cubanos e os que, como Brizola, viveram aquelas responsabilidades históricas. Este dinheiro jamais existiu, a não ser recursos para o pagamento de certo número de passagens aéreas e modestas quantias para apoiar a viagem dos companheiros escolhidos para o treinamento, incluindo diárias de hotéis de escassas estrelas, no percurso até Praga’”.

Leite Filho relata: “Neiva Moreira conta que se chegou a contatar um navio polonês, que, para fazer a rota de Cuba, passava pelo Brasil para depois seguir rumo à Polônia, na Europa, e poderia desembarcar uma boa quantidade de armas em alguma praia erma do Rio Grande do Sul: ‘Os poloneses desistiram do negócio na última hora’, diz Neiva. Outro governante que teria se comprometido a enviar armamentos foi Chedi Jagan, ex-primeiro-ministro da Guiana. Sua intenção era mandar um avião DC-3 cheio de armas, que aterrissaria em Goiás. Um campo de pouso chegou a ser preparado pelo foco do Brasil Central, a mando de Flávio Tavares, mas o premier foi derrubado antes de praticar sua boa ação”.

Neiva diz a “verdade” ou apenas apresenta sua versão pessoal dos fatos? A resposta só pode ser formulada depois de uma investigação mais rigorosa, o que o livro não faz. Resta a pergunta: como Brizola teria devolvido dinheiro, se este era tão escasso, como afiança Neiva. Depois, a história dos dólares cubanos — e não ninharia para pagar passagens aéreas e diárias de hotéis — não tem sido divulgada tão-somente pela direita. José Wilson da Silva, o tenente vermelho, não é, definitivamente, um integrante da direita. Denise Rollemberg é uma pesquisadora criteriosa e não há notícia de que “trabalhe” para a direita.

Entre os goianos citados no livro figuram Tarzan de Castro, uma vez, Mauro Borges e Aldo Arantes, várias vezes. Há alguns problemas: Fidel Castro e Aldo Arantes são citados em mais páginas do que registra o índice remissivo e o cubano que recebeu Neiva Moreira talvez não seja Manuel “Pinheiro”, e sim Manuel Piñero.


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POR EM 22/07/2008 ÀS 01:39 PM

O requinte dolorido de Darcy França Denófrio

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Darcy Fran­ça De­nó­frio, em­bo­ra se­ja uma in­te­lec­tu­al re­quin­ta­da, é tão dis­cre­ta quan­to An­to­nio Can­di­do. Seu tra­ba­lho de re­cu­pe­ra­ção da po­e­sia go­i­a­na re­sul­ta de um es­for­ço ain­da não de­vi­da­men­te re­co­nhe­ci­do fo­ra dos cír­cu­los aca­dê­mi­cos. Sua li­da de for­mi­gu­i­nha, de­ta­lhis­ta e pers­pi­caz, mos­tra que a me­lhor crí­ti­ca fei­ta em Go­i­ás mo­ra mes­mo na aca­de­mia, em­bo­ra Darcy es­te­ja apo­sen­ta­da da Uni­ver­si­da­de Fe­de­ral de Go­i­ás. Tra­ta-se de crí­ti­ca mes­mo, apu­ra­da e pon­de­ra­da, não do re­tar­da­tá­rio achin­ca­lhe-tra­ves­ti­do de crí­ti­ca que se vê em certo “jornalismo”.

A crí­ti­ca Darcy às ve­zes es­con­de a po­e­ta, em­bo­ra se­ja pos­sí­vel ve­ri­fi­car na lim­pi­dez de seus tex­tos crí­ti­cos a com­pre­en­são e a su­ti­le­za dos po­e­tas. Aque­les que que­rem co­nhe­cer a re­fi­na­da po­e­sia de Darcy, sua me­ti­cu­lo­sa po­e­sia, aque­la nas qua­is as pa­la­vras dan­çam ine­bri­a­das pe­la mú­si­ca dos mes­tres, têm on­de bus­cá-la. A
Câ­no­ne Edi­to­ri­al
 

 

(que faz um tra­ba­lho de com­pe­tên­cia ím­par) lan­ça, pa­ra nos­so de­lei­te, Po­e­mas de Dor & Ter­nu­ra.

Tran­scre­vo dois po­e­mas de Darcy pa­ra que o lei­tor pos­sa ve­ri­fi­car par­te de seu ta­len­to.

“Os des­ter­ra­dos” (pa­ra Ve­ra): “O tem­po foi pas­san­do,/a ter­nu­ra se per­den­do./Abriu-se um fos­so/e pa­re­ceu ine­vi­tá­vel./Era che­ga­da a ho­ra./Olhei o seu ros­to-enig­ma/e não era o de an­ti­ga­men­te/per­di­do em al­gum lu­gar./E amei aque­le ros­to dis­tan­te/a pri­mei­ra fa­ce, ex­tra­vi­a­da,/não a es­fin­ge ali pre­sen­te./Vo­cê tam­bém bus­ca­va/a mi­nha fa­ce per­di­da na vi­a­gem./Era um fos­so tão ter­rí­vel,/sem pon­te le­va­di­ça/so­bre a fe­ri­da que de nós es­cor­ria/e nos­sos opos­tos ca­mi­nhos./E nós dois ali di­vi­di­dos, nos aman­do,/não a nós mes­mos ali pre­sen­tes,/mas aos des­ter­ra­dos de nós mes­mos/se­pa­ra­dos por um fos­so/ir­re­me­dia­vel­men­te.”

“Dí­vi­da” (pa­ra uma ami­ga e seu es­pó­lio): “Por­que nin­guém foi ao fun­do/de mi­nha al­ma so­li­tá­ria/vi­si­tar-lhe o úl­ti­mo se­gre­do;/por­que me ba­te­ram à por­ta/sem de fa­to de­se­jar en­trar;/por­que be­be­ram o vi­nho/que eu fa­bri­ca­va e ser­via/sem, de fa­to, co­mi­go par­ti­lhar;/e, ain­da, por­que me en­ga­na­ram/quan­do mais que­ria acre­di­tar,/a vi­da me de­ve al­gu­ma coi­sa:/não es­sa ma­té­ria de pre­en­cher/va­zio de vís­ce­ras ou la­bi­rin­to in­te­ri­or/— mas a pró­pria vi­da.”

 
Ma­cha­do na ca­be­ça de Bor­ges

A Edi­to­ra Ar­qui­pé­la­go lan­ça Ma­cha­do e Bor­ges (280 pá­gi­nas, 37 pi­las), de Lu­ís Au­gus­to Fis­cher, crí­ti­co li­te­rá­rio ga­ú­cho. O li­vro con­tém seis en­sai­os. Não li, mas en­trou pa­ra mi­nha pe­ne­lo­pi­a­na lis­ta, pois Fis­cher é crí­ti­co li­te­rá­rio do pri­mei­rís­si­mo ti­me.


His­to­ri­a­dor in­glês revela vezo poético do ditador Stá­lin


O in­glês
Si­mon Se­bag Mon­te­fio­re brin­da os lei­to­res com ou­tro ex­ce­len­te es­tu­do, mui­to mais do que uma bi­o­gra­fia — O Jo­vem Stá­lin (Com­pa­nhia das Le­tras, 528 pá­gi­nas, e tra­du­ção precisa de Pe­dro Maia So­a­res).

Se­bag con­ta que Iós­sif (Jo­sé) Vis­sa­rió­no­vitch Dju­gachví­li, o Stá­lin (o no­me só pas­sou ser uti­li­za­do por ele em 1912), lei­tor com­pul­si­vo, foi gran­de­men­te in­flu­en­cia­do pe­la pro­sa dos es­cri­to­res fran­ces­es Vic­tor Hu­go e Émi­le Zo­la. A li­te­ra­tu­ra e a vi­da miserável na Ge­ór­gia o trans­for­ma­ram num re­vo­lu­ci­o­ná­rio du­ro, in­fle­xí­vel e cru­el. Des­de o iní­cio, e não ape­nas de­pois de che­gar ao po­der, em 1924, era ex­tre­ma­men­te vi­o­len­to com ad­ver­sá­rios e ali­a­dos que caí­am em des­gra­ça. Fi­lho úni­co, Stá­lin foi cri­a­do por uma mãe pos­ses­si­va, Eka­te­ri­na “Keké” Ge­ladzde, que fez o im­pos­sí­vel pa­ra que es­tu­das­se. Stá­lin foi edu­ca­do por pa­dres. Vis­sa­ri­on “Bes­só” Dju­gachví­li, que não ti­nha cer­te­za de ser pai de Stá­lin — Mon­te­fio­re apos­ta que o sa­pa­tei­ro era pai do gran­de lí­der, mas dei­xa a dú­vi­da —, aban­do­nou a fa­mí­lia. Pe­lo me­nos qua­tro ho­mens eram ti­dos co­mo pai de Stá­lin — um de­les pa­dre.

Stá­lin co­me­çou sua vi­da de re­vo­lu­ci­o­ná­rio co­mo as­sal­tan­te de ban­cos, pa­ra ser­vir à lu­ta de Vla­dí­mir Lê­nin. Um dos as­sal­tos, em 1907, ren­deu um va­lor (3,4 mi­lhões de dó­la­res) pa­re­ci­do com o as­sal­to ao co­fre de Ad­he­mar de Bar­ros, no Rio de Ja­nei­ro, na dé­ca­da de 1960.

Uma das des­co­ber­tas de Mon­te­fio­re é a po­e­sia de Stá­lin, que não con­si­de­ra ru­im. Ele foi pri­mei­ro re­co­nhe­ci­do co­mo po­e­ta, na Ge­ór­gia na­tal, do que co­mo re­vo­lu­ci­o­ná­rio. Seu ape­li­do, an­tes de Ko­ba e Stá­lin, era Sos­só. Ele as­si­na os po­e­mas co­mo Sos­se­ló. “Fo­ram am­pla­men­te li­dos e se tor­na­ram um clás­si­co me­nor ge­or­gia­no, apa­re­cen­do em an­to­lo­gia da me­lhor po­e­sia do pa­ís an­tes que al­guém ti­ves­se ou­vi­do fa­lar de ‘Stá­lin’”", diz o his­to­ri­a­dor. “Ma­nhã” foi o pri­mei­ro po­e­ma de Stá­lin. “Su­as ima­gens ro­mân­ti­cas são se­cun­dá­rias, mas sua be­le­za es­tá na de­li­ca­de­za e na pu­re­za de rit­mo e lin­gua­gem”, diz Mon­te­rio­re, que não é, vê-se, crí­ti­co li­te­rá­rio. “Na Rús­sia, a po­e­sia é re­al­men­te va­lo­ri­za­da; aqui, ma­tam por ela”, dis­se Ós­sip Mán­tels­tam, mor­to no gu­lag do “po­e­ta” Stá­lin.

Tran­scre­vo a se­guir al­guns dos po­e­mas. Eles fo­ram tra­du­zi­dos do rus­so pa­ra o in­glês pe­lo pro­fes­sor Do­nald Rayfi­eld, me­nos um dos po­e­mas, sem tí­tu­lo, que foi tra­du­zi­do pe­lo po­e­ta bra­si­lei­ro Nel­son As­cher (o exímio tra­du­tor de Púchkin). As tra­du­ções pa­ra o por­tu­guês são de
Pe­dro Maia So­a­res
.

Ma­nhã

O bo­tão de ro­sa flo­res­ce­ra
E es­ten­de­ra-se pa­ra to­car a vi­o­le­ta
O lí­rio es­ta­va acor­dan­do
E in­cli­na­va sua ca­be­ça na bri­sa

No al­to das nu­vens, a co­to­via
Can­ta­va um hi­no gor­je­an­te
En­quan­to o ale­gre rou­xi­nol
Com voz su­a­ve di­zia:

"En­che-te de flo­res, ó ter­ra ama­da
Re­ju­bi­la-te pa­ís dos Ivé­ri­a­nos
E tu, ó ge­or­gia­no, ao es­tu­dar Traz ale­gria pa­ra tua ter­ra na­tal."

À Lua

Mo­ve in­can­sá­vel
Não in­cli­na tua ca­be­ça
Dis­per­sa a né­voa das nu­vens
A Pro­vi­dên­cia do Se­nhor é gran­de.

Sor­ri gen­til pa­ra a ter­ra
Es­ten­di­da abai­xo de ti;
Can­ta à ge­lei­ra um aca­lan­to
Que des­ce su­a­ve dos céus.

Tem cer­te­za que de­pois de
Der­ru­ba­do ao chão, um ho­mem opri­mi­do
Lu­ta de no­vo pa­ra su­bir a mon­ta­nha pu­ra,
Quan­do exal­ta­do pe­la es­pe­ran­ça.

En­tão, ado­rá­vel lua, co­mo an­tes,
Bri­lha atra­vés das nu­vens;
Na abó­ba­da ce­les­te, su­a­ve­men­te,
Faz teus rai­os brin­ca­rem.

Mas eu abri­rei mi­nha ves­te
E mos­tra­rei meu pei­to à lua,
De bra­ços aber­tos, re­ve­ren­ci­a­rei
Aque­la que ilu­mi­na a ter­ra!

------------------------------------

Quan­do a lua cheia lu­mi­no­sa
Cru­za flu­tu­an­do a abó­ba­da ce­les­te
E sua luz, bri­lhan­do in­ten­sa­men­te,
Põe-se a brin­car no anil do ho­ri­zon­te;

Quan­do su­a­ve­men­te o rou­xi­nol
Co­me­ça no ar seu gor­jeio si­bi­lan­te
Quan­do o an­seio da flau­ta de pã
Pla­na aci­ma do pi­co da mon­ta­nha;

Quan­do, con­ti­da, a fon­te da mon­ta­nha
Tor­na-se tor­ren­ci­al e inun­da o ca­mi­nho,
E a flo­res­ta, acor­da­da pe­la bri­sa,
Co­me­ça, far­fa­lhan­do, a se agi­tar;

Quan­do o ho­mem ex­pul­so por seu ini­mi­go
Vol­ta a tor­nar-se dig­no de seu pa­ís opri­mi­do
E o en­fer­mo pri­va­do de luz
Vol­ta a ver o sol e a lua;

Opri­mi­do tam­bém, ve­jo, en­tão, a bru­ma da tris­te­za
Se dis­si­par, des­fa­zer-se e lo­go su­mir;
E a es­pe­ran­ça da vi­da boa
Faz meu co­ra­ção se abrir!

E, ar­re­ba­ta­do por uma es­pe­ran­ça as­sim,
Sin­to jú­bi­lo n´al­ma e meu co­ra­ção ba­ter em paz;
Mas se­rá au­tên­ti­ca tal es­pe­ran­ça
Que me foi man­da­da nes­tes tem­pos?

(Tra­du­ção de Nel­son As­cher)


Ve­lho Ni­nika

Nos­so Ni­nika fi­cou ve­lho,
Seus om­bros de he­rói lhe fal­ta­ram...
Co­mo es­se tris­te ca­be­lo gri­sa­lho
Que­brou uma von­ta­de fer­ro?

Ó mãe! Mui­tas ve­zes,
Bran­din­do sua foi­ce "hi­e­na",
De pei­to nu, no fim do tri­gal,
Ele de­ve ser sol­ta­do um ru­gi­do sú­bi­to.

Ele de­ve ter em­pi­lha­do mon­ta­nhas
De fei­xes la­do a la­do, e so­bre seu
Ros­to go­ver­na­do pe­lo su­or go­te­jan­te
Fo­to e fu­ma­ça de­vem ter jor­ra­do.

Mas ago­ra, cei­fa­do pe­la ida­de,
Ele não mo­ve mais os jo­e­lhos.
Dei­ta­do, so­nha ou fa­la do pas­sa­do
Aos fi­lhos de seus fi­lhos.

De tem­po em tem­po, cap­ta o som
Da can­to­ria nos tri­gais pró­xi­mos
E seu co­ra­ção que ou­tro­ra era du­ro,
Co­me­ça a ba­ter com pra­zer.

Ele se ar­ras­ta pa­ra fo­ra, trê­mu­lo,
E dá al­guns pas­sos com seu ca­ja­do.
E, quan­do con­se­gue ver os ra­pa­zes,
Sol­ta um sor­ri­so de alí­vio.
 
 
 
Anos do cólera

Para enfrentar os tempos fraudulentos e sombrios da Era Lula, o Medici operário, recomendo a leitura do esplêndido ensaio Da Estupidez, do austríaco
Robert Musil.

Musil é mais conhecido por seu romance clássico O Homem Sem Qualidades, que li na edição portuguesa, muito superior à brasileira (campeã em erros).

"Penso que é mais importante escrever um livro que governar um império. E também mais difícil", afirmou Musil. Lógico que está falando dos grandes livros.

 

 

Os solitários de Coetzee

SILVIANO SANTIAGO

Se fosse concedido à literatura brasileira o direito de existência no mundo letrado ocidental, a melhor crítica do Diário de Um Ano Ruim, de
J. M. Coetzee, teria salientado o parentesco com o papel do romance machadiano em seu tempo. À semelhança de Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), o último romance do premiado autor sul-africano, hoje naturalizado australiano, questiona a organização tradicional do livro de ficção. Cada página do Diário de Um Ano Ruim está dividida, primeiro, em dois blocos paralelos e, a partir da página 33 até o final, em três blocos.

Cada um dos blocos é semi-autônomo, embora os três, conjuntamente, não se apresentem desprovidos de afinidades óbvias ou sutis, a serem desenvolvidas pela imaginação e a habilidade do leitor. Cada página e todo o livro são compostos como "unidade tripartida", para retomar a idéia trabalhada em escultura por Max Bill.

Na parte superior das páginas, em seqüência, temos 51 curtos ensaios filosófico-literários, na maioria das vezes de teor político. Eles versam sobre as pequenas e as graves questões universais que, durante o período que vai de setembro de 2005 a maio de 2006, esquentaram as mentes cidadãs e a mídia impressa e eletrônica. Dos filósofos Thomas Hobbes e Machiavel, que discorrem sobre o Estado moderno, o autor passa ao filme Sete samurais, de Kurosawa, e à anarquia, ao terrorismo e ao apartheid. Detém na vergonha nacional, obra consciente do presidente Bush e elogia o destemor de
Harold Pinter
na crítica à invasão do Iraque. Não se esquiva diante de questões superdelicadas, como as que cercam os aborígines australianos, ou a pedofilia (tema este recorrente em seus melhores romances, como O mestre de Petersburgo). Em tiradas e raciocínio que beiram o politicamente incorreto, as reflexões traduzem as idéias-de-cabeceira (se me permitem a expressão) do romancista experiente e premiado, já tomado pelos anos. O envelhecimento do autor, ou o novo empreendimento ficcional, é visto como "um esvaziamento da mente para assumir tarefas mais importantes".

A parte superior das páginas e do romance se apresenta como respostas do escritor à encomenda feita a ele – e a mais cinco outros escritores – por editora alemã, interessada em publicar livro a ser intitulado Opiniões fortes. Como se informa: "Seis escritores eminentes [estariam] se pronunciando sobre o que está errado no mundo de hoje". Na reflexão sobre Harold Pinter, detentor do Nobel, esclarece o autor: "E chega um momento em que o ultraje e a vergonha são tão grandes que todo calculismo, toda prudência, são superados e a pessoa precisa agir, isto é, falar".

Abaixo dos curtos ensaios e em pequenos blocos paralelos, encontra-se a trama propriamente romanesca do Diário de Um Ano Ruim. Está escrita na primeira pessoa. No bloco do meio de cada página, o próprio autor fala do encontro inesperado com Anya, bela vizinha de condomínio. No momento, ela vive com Alan, um consultor na bolsa de valores de Sidney. Está armado o trio amoroso. O encontro casual com Anya despertou no escritor paixão incontrolável. Para tê-la ao lado, oferece-lhe a função de digitadora do livro que escreve para a Alemanha. O segundo segmento do romance se afirma pela fricção entre as idéias fortes do velho e a leitura do manuscrito pela jovem. Lê-se no segundo bloco: "O que começou a mudar desde que eu entrei na órbita de Anya não são tanto minhas opiniões em si, mas minha opinião sobre minhas opiniões".

Sempre na mesma página, o terceiro bloco, o de baixo, é escrito do ponto de vista de Anya e irá traduzindo o dia a dia do jovem casal, que foi sendo tomado pela presença insidiosa, embora escrupulosa, do velho escritor. Menos escrupuloso é Alan, que invade o disco rígido do computador. Pelas trapaças do companheiro, Anya e o leitor ficam sabendo que o velho é milionário e pouco experiente em termos de aplicação financeira. As amarras sentimentais do casal se desfazem pelas fraudes imaginadas e perpetradas pelo consultor na bolsa de valores, sem que Anya opte sentimentalmente pelo escritor. Ao final do romance, o leitor está diante de três seres solitários. 

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POR EM 08/07/2008 ÀS 11:18 AM

A história do criptógrafo soviético que provocou a Guerra Fria

publicado em
 
Há um livro brilhante na praça, mas, como a Guerra Fria está muito distante, deve passar batido. Como Começou a Guerra Fria — O Caso Igor Gouzenko e a Caçada aos Espiões Soviéticos (Editora Record, 362 páginas), da doutora em Política Russa (pela London School of Economics) Amy Knight, é uma pequena obra-prima.
 
Knight escreve com o rigor do historiador, apura como o mais rigoroso dos repórteres investigativos, especula com certa liberdade, mas dizendo ao leitor que está especulando, e explica os limites da documentação. Põe a nu, sem estardalhaço, conclusões sobre, entre outros Alger Hiss, considerado espião pelo FBI.
 
Gouzenko era criptógrafo da Embaixada Soviética em Ottawa, no Canadá, quando, pressionado para voltar para seu país, optou por desertar, junto com sua mulher Anna, em setembro de 1945. Levou vários documentos da inteligência do Exército, o GRU, para o qual trabalhava e entregou-os ao governo canadense.
 
Naquele momento, depois de ter lutado bravamente ao lado das democracias ocidentais, como Inglaterra e Estados Unidos, a União Soviética, apesar do tirano Stálin, era considerada uma nação amiga, com a qual era lícito partilhar informações. Mas o desconfiado Stálin — todo ditador é desconfiado e paranóico — não queria saber de “amizade verdadeira” e colocou um batalhão de espiões para roubar segredos militares e científicos dos ingleses e, sobretudo, dos norte-americanos. Esses espiões recrutaram cientistas, como Klaus Fuchs e Alan Nunn May, que, direta ou indiretamente, contribuíram para que os soviéticos pudessem desenvolver a bomba atômica. Stálin deu autorização para Beria recrutar os melhores cientistas, a quem foram dadas excepcionais condições de trabalho, mas tinha pressa para fazer a bomba atômica, acreditando que, sem ela, o país estaria permanentemente ameaçado pelos Estados Unidos. Como resultado disso, Stálin articulou uma gigantesca operação de espionagem em vários países. O Canadá era usado como base para se obter informações dos Estados Unidos e, também, da Inglaterra.
 
Mas, ao desertar, Gouzenko pôs quase tudo a perder, porque canadenses, ingleses e americanos, além de outros povos, descobriram que Stálin era o mesmo de antes e que não queria relações diplomáticas transparentes. A “ovelha” Stálin havia virado “lobo” novamente. Esta é a grande contribuição de Gouzenko, ao revelar que o ditador soviético trapaceava o tempo todo. A Guerra Fria surge do desencanto dos aliados (ingleses e americanos) com Stálin, de quem o sábio Winston Churchill, embora tenha chegado a elogiá-lo, sempre desconfiou, tanto que criou a expressão Cortina de Ferro. Há quem diga que a descoberta da bomba atômica pelos soviéticos “segurou” os americanos e que a bomba atômica americana “segurou” os soviéticos e que, assim, evitou-se a Terceira Guerra Mundial. Há um filme sobre a história de Gouzenko (não o vi, nem tenho interesse) — Cortina de Ferro (The Iron Curtain), de 1948, com direção de William Wellman e os atores Dana Andrews (Gouzenko) e Gene Tierney (Anna).
 
Um dos relatos mais impressionantes do livro tem a ver com o diplomata canadense Herbert Norman. Acusado sobretudo pelos americanos de ter sido comunista, portanto suspeito de espionagem, Norman matou-se. Eis o relato quase literário de Knight: “Na manhã quente e ensolarada de 4 de abril de 1957, Norman acordou cedo, despediu-se da mulher e foi a pé de sua casa no Cairo até um edifício alto no fim da rua, com vista para o Nilo. Tomou o elevador para o último andar e subiu as escadas para a cobertura. Tirou o paletó, os óculos e o relógio. E arremessou-se do terraço para a morte”. Norman nem havia sido comunista, no máximo, sentira-se atraído pelo marxismo, quando muito jovem, na universidade.
 
O cientista americano Arthur Steinberg, também acusado de espionagem pelo FBI de Edgar J. Hoover, foi perseguido e perdeu vários empregos. Não era comunista nem espião. O espião verdadeiro, o inglês Kim Philby, amigo do escritor Graham Greene, passou informações para os soviéticos durante muitos anos e, depois, escapou das garras da espionagem de seu país e morreu, como herói, na União Soviética. Ele próprio era um espião chefe dos espiões ingleses.
 
Knight é erudita, como observam os historiadores Margaret MacMillan e Simon Sebag Montefiori, autor do ótimo Stálin — A Corte do Czar Vermelho, e, como tal, discute os assuntos com extrema facilidade, mas sem o pedantismo de alguns acadêmicos.

 

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POR EM 22/06/2008 ÀS 04:25 PM

Rubem Braga - Um Cigano Fazendeiro do Ar

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O maior cronista brasileiro ganhou uma biografia à sua altura: Rubem Braga — Um Cigano Fazendeiro do Ar (Editora Globo, 2007, 610 páginas), do jornalista Marco Antônio de Carvalho. O autor escreveu a biografia e morreu, aos 57 anos. Uma das histórias mais extraordinárias é a paixão desmedida de
Rubem Braga pela atriz Tonia Carrero (contada entre as páginas 324 e 335).

Em 1947, enviado a Paris como correspondente de O Globo, Rubem, com a mulher, Zora, e os amigos Carlos Reverbel e a mulher deste, Olga, mora no apartamento onde morreu Marcel Proust.

Em Paris, encontra-se com Tonia Carrero, que ainda não tinha fama alguma e era casada com o desenhista Carlos Thiré. Este "não a levava a sério como atriz". Rubem avaliava que "o maior talento da amiga era antes de tudo estético: a beleza".

Mariínha, como Tonia era conhecida, cantava fados tropicais e, sobretudo, encantava a platéia de amigos, como Aníbal Machado, Rubem e Vinícius de Morais.

Nos passeios pelas ruas de Paris, Rubem elogiava a beleza de Tonia, fazia graça — "tenho muita amizade pelo seu joelho esquerdo" — e, aos poucos, ia conquistando a futura atriz. O marido implicou e disse que não queria ela saísse mais com o jornalista e escritor. Tonia chorou "copiosamente". Irritado, Thiré perguntou: "Ele é tão importante assim?" Conta Marco Carvalho: "Solitária, triste, sem ter o que fazer em Paris, Mariínha [ou Maricota, como a chamava Rubem] passou a sair ainda mais com Braga, este sempre atento a um novo corte de cabelo, uma nova fivela, uma cor rosada na face. E, certa vez, subindo as escadas de Saint-Germain, descobriu que não queria mais permanecer casada". Mulher tem mais olho para o detalhe do que homem. Rubem tinha um olhar feminino, digamos, mas com segundas intenções.

Decidida a abandonar Thiré, Tonia passou a se encontrar com Rubem "num hotelzinho, em um velho casarão discreto. (...) Um dia a concierge chamou-o a um canto: ´Não perca nunca essa mulher. Ela é bonita demais´".

Como Rubem era mulherengo e casado, Tonia decidiu romper: “Acho que nosso caso tem que acabar”. O escritor ameaçou matar-se sob as rodas dos automóveis de Paris. Optou por segui-la, acompanhando-a no navio de volta ao Brasil. Insistiu no reatamento, mas Tonia jogou duro. "Vou me jogar no mar!", gritou Rubem.

No Rio de Janeiro, Rubem não saía do pé de Tonia. "Ele era um Maria-vai-com-as-outras: queria companhia de mulher bonita, mas não era de casar com nenhuma. Como Vinícius, vivia apaixonado, mas, ao contrário deste, não gostava de se casar e de conviver. Se Rubem quisesse, eu me casaria com ele. Mas ele nunca quis", garante Tonia. O biógrafo, elegante, não chama Rubem de idiota.

O escritor certamente tinha medo de ganhar chifres do segundo mais belo animal do mundo — o primeiro, segundo Jean Cocteau, era Ava Gardner. Rubem adorava cantar as mulheres dos amigos. Estranhamente, Tonia ressalva: "O grande amor de Rubem foi Bluma Wainer". Rubem teve um caso com Bluma, pondo chifres no jornalista e empresário Samuel Wainer, seu amigo e, depois, inimigo, mas, quando a garota engravidou, o cronista fugiu para o Rio Grande do Sul.

Tonia rompeu a promessa de que não reataria com Rubem. Voltaram a se encontrar numa garçonnière do Leblon, do jornalista e crítico literário Franklin de Oliveira. "Ali se encontraram algumas vezes, sem que ela se sentisse plena, segura e feliz com o caso que se reiniciava. Tanto que propôs a Rubem que parassem de se encontrar, que voltassem a ser os amigos de sempre. Ele não aceitou: ´Venha mais uma vez. Só mais uma vez´. E Tonia, novamente, cedeu. O milagre, então, aconteceu e, dessa vez, ela voltou para casa sabendo que aquele amor, ou fosse lá o nome que fosse, era sério e que estava enredada". Mas, logo depois, caiu fora.

Apaixonado, Rubem produziu seu "Soneto": "E quando nós saímos era a Lua/Era o vento caído e o mar sereno/Azul e cinza-azul anoitecendo/A tarde ruiva das amendoeiras//E respiramos, livres das ardências/Do sol, que nos levara à sombra cauta/Tangidos pelo canto das cigarras/Dentro e fora de nós exasperadas//Andamos em silêncio pela praia/Nos corpos leves e lavados ia/O sentimento do prazer cumprido//Se mágoa me ficou na despedida/Não fez mal que ficasse, nem doesse/Era bem doce, perto das antigas".

"Tonia", diz Marco Carvalho, "não sabia bem o que fazer com aquele sentimento. Sabia apenas que não queria se tornar amante de um homem casado, por quem sentia amizade, carinho, adoração. E, pouco depois e mais uma vez, se despediu".

Mesmo casado, Rubem "exercia uma marcação individual e por zona, e exigia que os amigos avisassem assim que vissem Tonia solta ou assediada em algum bar ou restaurante: ´Era como um cão de guarda, possessivo e ciumento´".

Um dia, Tonia encantou-se pelo pintor platino-baiano Carybé e levou-o para sua casa. "Mas Tonia mal chegou a mostrar duas ou três belezas, enquanto bebericavam alguma coisa, quando ouviram batidas insistentes e nervosas na porta. Era Rubem. Silencioso e transtornado, ele nada disse. Carybé, por seu lado, levantou-se, despediu-se da mulher e saiu com o amigo, pedindo muitas desculpas — a ele. Um gesto inusitado: Carybé era temido pelos amigos por não respeitar a namorada de ninguém."

Certa vez, Rubem ligou para Tonia e ameaçou: "Abre a porta, senão eu vou me jogar no mar!" Não deu resultado. Então, o cronista foi para a porta do edifício e ficou andando na calçada, "caminhando para lá e para cá, bem visível, até que ela o recebesse".

A bela Tonia "abriu a porta. Rubem, trêmulo, desabou no choro, ela o acalmou — ´você está achando que eu nunca mais vou dar pra você?" —, conversaram um pouco, foram para a cama e, no dia seguinte, ela confirmou: ´Tá chato, Rubem. Não é mais a mesma coisa. Você tem que procurar outra mulher. Não quero ficar me encontrando assim, de vez em quando".

Decidida, Tonia não quis mais sair com Rubem. "E Rubem diria, durante anos, que no momento da separação, as mulheres são muito mais cruéis que os homens".

Mesmo admitindo que não teria mais Tonia em seus braços, Rubem continuou ciumento. "O tempo fez com que Rubem aceitasse a separação, mas seu sentimento de posse nunca desapareceu por completo: quase duas décadas depois, no Antonio´s, Tonia e Rubem conversavam calmamente — até que Paulo Pinho, casado com a atriz Djenane Machado, entrou e se dirigiu à mesa dos dois para dar um beijo na madrinha do seu casamento. Cumprimentou Rubem, sentou-se — e, a partir de então, este emudeceu, pediu sua conta e retirou-se, sem se despedir. E, mais tarde, quando revia Pinho, fingia que não o reconhecia."

Marco Carvalho conclui: "O fato é que Rubem, desde que conheceu Tonia Carrero e se envolveu com ela, nunca aceitou o fato de que a atriz não fosse sua mulher — ainda que, dubiamente, jamais propusesse a casar".

A versão de Tonia: "Uma vez, nos anos 1960, ele me levou ao aeroporto e me mostrou uma crônica linda, dizendo que tinha sido escrita pra mim. Eu nunca acreditei: ´Que nada, Rubem! Você escreve crônica pra todas as mulheres bonita que encontra! Pra mim, pra Lila Bôscoli, pra

Helena Sabino. Você adora mulher de amigo!´ Ele concordou: ´E eu vou me encantar com mulher de inimigo? Mulher de inimigo eu nem posso ver!´".


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