revista bula
POR EM 14/12/2009 ÀS 09:15 AM

O sexo, a morte e as flores da primavera

publicado em

Numa dedução livre da leitura do capítulo 3 do Gênesis, podemos concluir que a morte surgiu para os indivíduos quando Adão e Eva comeram do fruto proibido. Tomando aqui fruto proibido como sexo. Mais tarde, em Rom. 6:23, as Sagradas Escrituras esclarecem que a morte é o salário do pecado. Ou seja, com o sexo surgiu o pecado e, para tributar o pecado, surgiu a morte. O fato de comer do fruto proibido trouxe ainda outras consequências  danosas, que inclusive refletem desgraçadamente até os dias de hoje. O casal primeiro vivia na maior vagagem pelos jardins do Éden, no bem-bom da sombra e água fresca, feito animais exóticos de estimação, recebendo tudo na boca, a tempo e a hora. Mas Deus, aborrecido com a atitude rebelde de suas criaturas, baixou novas ordens, dentre elas, “ganharás o pão com o suor do teu rosto”. Em bom português: vão trabalhar, seus vagabundos!

Vale ressaltar que o autor javista não foi muito original nesta passagem. Este trecho foi chupado em grande parte de Gilgamexe, uma epopeia do povo sumério, da Mesopotâmia, que remonta ao terceiro milênio antes de cristo. Tal obra surgiu primeiramente em forma oral e mais tarde foi transcrita para tabuinhas de argila, a primitiva escrita cuneiforme. Essa epopeia teria influenciado ainda Homero, nas suas Ilíada e Odisseia. Numa exacerbada licença para esticar a imaginação, a ponto de tornar a ideia quase etérea, mais apropriada à poética do que à ciência e à teologia, podemos dizer que a Bíblia está tecnicamente correta com relação o surgimento da morte. A morte de fato surgiu com o sexo. Não no momento em que o homem fez sexo pela primeira vez, tendo a serpente como testemunha. (Se fosse hoje ela teria filmado secretamente o rala-e-rola e jogado na Internet!) Mas a morte surgiu mesmo no momento em que o sexo foi introduzido (sem jogatilhos) na vida de nossos ancestrais microbianos.


leia mais...
POR EM 07/12/2009 ÀS 04:45 PM

Especulações sibilinas

publicado em

Partamos então de um princípio que é caro a quase todas as teologias e até mesmo para os exoterismos laicos: A alma é uma entidade autônoma, invisível, eterna e subsistente. O Judaísmo e o Cristianismo beberam essa ideia em Platão, para quem a alma seria um princípio distinto do corpo e imortal. Muito antes do judaísmo e de Platão, o Orfismo grego acreditava numa alma perene que passaria por várias encarnações, em processos sucessivos de decantação, com retorno futuro em condições assépticas para o reino eterno. A vida terrena seria assim apenas uma espécie de curtume. Um curtume não de couros, mas da almas.  Essa ideia com certeza tenha influenciou Platão, que por sua vez influenciou o Cristianismo, com alguns reparos, como a descrença na reencarnação. No entanto, não há dúvidas de que o Orfismo influenciou as religiões modernas de convicção reencarnacionista, como o Kardecismo, bastante difundido no Brasil.

Mas antes mesmo de Platão e do Orfismo, uma noção rudimentar de alma existia entre aborígines, nas sociedades primitivas, inclusive entre os ameríndios. Pois então fiquemos com esse princípio de que a alma é eterna e autônoma, sem adentrar nos paradoxos dessa ideia, nem em suas contradições em termos. Como toda ciência esbarra numa superstição, para nós que nem ciência fazemos, não cometemos nenhum pecado mortal. Quer um exemplo de superstição científica? O mundo material, bem como o tempo e o espaço, teria surgido no bigue-bangue. Mas para que essa grande explosão pudesse acontecer, a ciência admite que existia uma espoleta, um tento de matéria ancestral altisssimamente adensado. Esse grão de matéria primitiva cheira a milagre de Deus para os deístas e superstição para a ciência.


leia mais...
POR EM 30/11/2009 ÀS 10:18 AM

De pessoas, astros e sonetos

publicado em

De pessoas, astros e sonetosO dom da razão, essa especialidade que diferencia o ser humano dos outros animais, é que o credencia a chamar, a si mesmo como espécie, de Homo Sapiens. De lambuja, nos julgamos detentores do próprio destino ou no mínimo predestinados ao livre-arbítrio. Mas esta presunção, a de que somos senhores do próprio destino, não passa do mais retumbante e esfarrapado equívoco. A razão atua nas parcelas mas não no montante da operação. Daí seu resultado ser pífio no tocante ao todo. Somos capazes, isto sim, de desenvolver ferramentas e como exímios ferramenteiros saímos da pedra lascada e chegamos ao foguete de propulsão a laser. Saímos da comunicação por fumaça e chegamos à rede mundial de computadores. Percorremos um longo caminho de objetos cortantes, da faca obsidiana ao nano-robô-bisturi, propelido a bactérias. 
 
Mas nada disso é capaz de desviar o suporte da vida, o planeta em que vivemos,  da rota de colisão com um mundo de insalubridade. Nada muda nosso destino fatal e desditoso. Nada seria capaz de prolongar a existência desta espécie de primatas racionais sobre a terra. A racionalidade é uma equação de soma zero. A soma de todas as cabeças pensantes é um curto circuito, um ataque de epilepsia. A noção de livre-arbítrio é apenas uma um azougue, uma embriaguez, um mito, uma superstição gestada nos últimos séculos, que se agita no interior da fatalidade, enquanto seguimos incólumes os caminhos traçados por um determinismo ancestral. Livre-arbítrio é a escolha dentre as alternativas colocadas. Mas a alternativa correta , a que nos redimiria, não está disponível no conjunto de opções sobre a mesa. Ou quando está, por alguma fatalidade inerente à condição humana, somos incapazes de escolhê-la.  Como na noção de Cioran, o destino da espécie não está menos determinado do que a de um soneto ou a de um astro.


leia mais...
POR EM 22/11/2009 ÀS 11:06 AM

Seria Deus um mercador acomodado?

publicado em

Seria Deus um mercador acomodadoA vida só não é mais monótona porque vivemos apenas um instante. Não pelo calendário do sol, que a vida pode até se avolumar em alguns dias, meses e anos. Em casos raros pode-se viver até um século. Há relatos bíblicos de que os patriarcas puderam viver vários séculos, como Matusalém que quase chegou a sete. Mas não se tratam de pessoas históricas, de carne e osso, de corpo e alma.  São, digamos, exacerbadas licenças teológicas, enchimentos para se compor um período de tempo desconhecido de uma genealogia suposta.

Se nossa vida fosse medida por algum calendário cósmico ou mesmo geológico, perceberíamos quão breve é a vida. Mais breve até do que o piscar do diabo que, pelo que se diz, está sempre alerta e atento. Imagine se o universo fosse uma revoada de bolhas de sabão que seu filho traquina atirasse ao vento numa manhã de domingo, e numa daquelas bolhas, durante sua existência de segundos, algum tipo de vida lograsse êxito e se prolongasse em milhares e milhares de gerações. A vida de um daqueles seres seria de tão breve duração que não poderia ser medida pelos nossos sistemas ordinários de cronometria. Para medi-la teria que se ter um cronômetro científico, de altíssima precisão, atômico talvez, para ser sensibilizado por um espaço de tempo tão apertado.


leia mais...
POR EM 20/11/2009 ÀS 08:35 PM

O apito dos afogados II

publicado em

Acho mesmo que todo aparato que o engenho humano seja capaz de montar sobre, por baixo e até fora da Terra para ter controle sobre os fatos e tornar sua vida mais previsível e segura não passa, no frigir dos ovos, de um apito de afogados. Nos mesmos moldes daquele apito que a Marinha exige seja colocado nos coletes salva-vidas e que você deva soprá-lo em caso de afogamento.

Todo sistema de segurança humano é montado sobre uma plataforma de pré-requisitos para funcionar. E a primeira providência de uma situação emergencial  ou de desastre é criar o clima de pânico, instalar um ambiente de singularidade, com a exclusão de todos ou de alguns pré-requisitos, de tal sorte que nada funcione conforme o planejado. Qual afogado terá fôlego para soprar o apito?

Acreditava-se que não havia em parte alguma lugar mais seguro do que o interior das Torres Gêmeas, até o ataque de 11 de setembro de 2001. Elas (as torres) estavam no local mais protegido, do país mais protegido do mundo. Afinal eram o coração financeiro do sistema globalista (a configuração atual do Leviatã  pós-industrial). Eram mais que isto; o ícone de um sistema de vida que chegou a um ponto de hegemonia tal a ponto de se julgar sem rival.


leia mais...
POR EM 15/11/2009 ÀS 10:03 AM

Da Vinci e a natureza humana

publicado em

Leonardo da Vinci  Leonardo da Vinci  representa aquele ponto de exagero em que a natureza não fez economia e reúne em uma só entidade biológica o maior concentração de inteligência e habilidades possível. Poderíamos contra-argumentar, alegando que da Vinci apenas teve sorte, por estar na gênese do movimento renascentista, e como a civilização vive ainda um desdobramento da Renascença, qualquer um que estivesse no lugar de da Vinci seria considerado um megagênio pelas futuras gerações, assim como o são os filósofos gregos (Sócrates, Platão e Aristóteles) os fundantes da decantada e pouco entendida Civilização Ocidental. Tudo bem, da Vinci teve a “sorte” de estar na base e no centro de um levante cultural, de uma retomada da civilização que se sairia vitoriosa num período da história, que ainda está em curso. Mas afora este fato, aquele bastardo, filho de um notário com uma camponesa, que comprava pássaros engaiolados para soltá-los, era realmente um homem de gênio.
 
Há 500 anos ele se ocupava como poeta, músico, matemático, botânico, anatomistas, escultor, pintor, arquiteto, engenheiro, inventor e não deixou de fazer filosofia e até profecia em suas anotações em escrita às avessas, para não ser facilmente roubado. Suas ideias de invenção, para as quais não havia material disponível na época, ainda estão se aperfeiçoando, como o helicóptero, o tanque de guerra, a energia solar, a bobina automática. Até mesmo a comprovação de sua teoria geológica das placas tectônicas ainda está em andamento. Além de conhecer as formas e a natureza das coisas, ele conhecia sobretudo a natureza do homem. Em seu tempo ainda não existia a teoria capitalista da Adam Smith a apregoar que a soma dos egoísmos individuais resulta no bem-estar coletivo. Não havia acontecido os massacres dos ameríndios, nem a Revolução Francesa com suas guilhotinas afiadas, nem a Segunda Guerra com o Holocausto, nem o genocídio do Burúndi, o desmatamento da Amazônia, nem o processo de desertificação dos cerrados. Não havia ainda a globalização econômica e as megaempresas com supremacia política, econômica e moral sobre as nações e os estados nacionais, Wall Street ainda não havia chantagiado e estorquido o mundo, nem o consumo eleito como a medida de todas as coisas, enfumaçando o ar.


leia mais...
POR EM 14/11/2009 ÀS 01:06 PM

O apito dos afogados

publicado em

O apito dos afogadosVai virando tradição; este ano fui outra vez pescar no Pantanal, no rio Paraguai, na foz do rio Miranda. Pela força com que bate na margem esquerda, o Miranda provoca na margem direita do Paraguai um apêndice, que conduz a água pela mata adentro, até muito longe; a conhecida baía de Albuquerque. Nessa baía, a 40 km de Corumbá, na Pousada do Gordo, foi que novamente ficamos. Minha turma era quase a mesma do ano passado. O Carlos Magalhães, chefe da expedição, seus filhos Daniel e Alessandro, este meu genro. Esta, a turma de Goiás. De Minas vieram duas turmas a se juntar a nós: o tio Zé com os seus, de Luz, e o primo Marcelo com sua galera de Belo Horizonte, trazendo um carregamento maluco de minhocuçus. O sonho de todos era o mesmo de sempre: fisgar o Grande Surubim.
 
Chegamos à pousada e reinava o maior tititi. O bizu da vez era que o presidente Lula tinha estado recente em sua fazenda às margens do Miranda e ele próprio pegara o maior surubim dos últimos tempos, desses que só vão mesmo em anzol de presidente. E para dar exemplo aos circunstantes, retornara o peixe ao rio. Agora, esse surubim-açu estaria por ali, entre o Miranda e o Paraguai, numa corredeira, num remanso. E como peixe tem a memória fraca, estava pronto para morder outro anzol. A ideia de pegar o que agora já era chamado de O Surubim-Lula, mais os azougues da Paceña boliviana, deixava a todos alvoroçados para a pescaria, a começar na manhã seguinte.


leia mais...
POR EM 27/10/2009 ÀS 06:45 PM

O arrependimento de Deus

publicado em

Mesmo que professemos uma fé diferente do cristianismo, que sejamos budistas, candomblés, kardecistas, muçulmanos, macumbeiros, sei lá, ou que não professemos fé nenhuma, nós que vivemos nesta área do planeta, sob o guarda-chuva da chamada civilização ocidental, não temos como nos livrar da camisa de força do pensamento judaico-cristão.

Somos, mesmo que não queiramos, o resultado das idéias que foram sedimentando ao longo dos milênios e deu nisso que somos hoje. Para o bem e para o mal. É dentro desse caldeirão, sob o fogo da fé e do senso crítico, que fomos forjados. Isso não nos torna iguais, mas digamos, semelhantes. Tanto na inteligência quanto na estupidez. 

Aliás, a inteligência, ou a razão, como queira, é para a quase unanimidade das pessoas que debruçaram sobre a condição humana no contexto das espécies, o traço que nos distingue dos companheiros de aventura sobre a terra. O pássaro voa, o tatu cava, a serpente rasteja, o peixe nada, o macaco sobe em árvores. O ser humano pode fazer tudo isso de modo precário, com rudeza, encolhido e sem desenvoltura. A especialidade do homem, sem concorrente em nenhuma outra espécie, é mesmo pensar, com toda a conseqüência da razão aplicada.

Ainda que seja um ser dotado de razão, o homo sapiens é um animal sinistro. Capaz de usar sua inteligência criativa para promover chacinas e o estiolamento do planeta em que vive. Tanto assim que as Sagradas Escrituras (o pensamento fundante da civilização ocidental) admitem que Javé, o Deus da antiguidade, se arrependeu de ter criado o homem. Gn 6,6 - “Então arrependeu-se o Senhor de haver feito o homem sobre a terra.”


leia mais...
POR EM 09/10/2009 ÀS 02:14 PM

Fracassado de nascença

publicado em

Seu tetravô servira na Guerra do Lopez e de lá trouxera medalha de bravura e heroísmo. Seu biso foi um tropeiro encardido, cuja ação integrara ao estado uma região que morria à míngua de recursos. Região que antes dele era conhecida como a Terra-do-nem. (O governador de um lado dizia: meu governo não é responsável por essa região. Ao que o do outro lado alegava: nem o meu!). Seu avô foi um emérito grileiro de terras e seu pai legalizou tudo e agregou glebas imensas ao patrimônio da família.

Ele, sim, tem uma ascendência empreendedora e viril. A despeito de toda essa fortaleza ancestral, o coitado é de uma fraqueza vital sem medida. É uma espécie de Midas às avessas: tudo que toca vira merda.

Na escola só concluiu algum curso porque teve a sorte de ter chegado quando as escolas já não reprovavam mais ninguém. Tinham já invertido o paradigma: aluno que toma bomba não é por deficiência própria, mas por incompetência do professor. E como nenhum professor quer ser incompetente ele foi passando, passando como um detrito na água sem filtragem.

Veio a época do namoro e ele não se animava nunca. Não tinha trejeitos de gay, nem postura de macho. A mãe e uma tia cuidaram de lhe enfiar uma prima. Conveniência de família: salvavam o rapagão da pecha de frouxo e ainda se evitava a dissipação do patrimônio. Com essa prima veio a se casar. Mais por preguiça de dizer que não do que mesmo por motivações consistentes. Marido, não dava no couro. A mulher se virava com o motorista da família. Ele sabia de tudo, mas fazia vistas grossas.

Dele a família esperava que se preparasse para assumir a direção dos negócios. O pai, presidente do grupo, atribuiu-lhe uma vice-presidência e mesmo com todo o pano quente da assessoria os negócios a ele atribuídos sempre davam com os burros n’água, uma expressão que remete, em senso contrário, a seu bisavô. Um velho tropeiro, lembram-se? O pai passou um ofício ao Recursos Humanos para que injetasse alguma coisa na têmpera daquele vice molenga. Acharam por bem submetê-lo a um tratamento psicológico.

Após os apalpos de praxe e as indagações pertinentes, o profissional da alma decidiu por um tratamento com técnicas motivacionais. Mas de toda forma que tentava insuflar-lhe o ego, induzir empoderamento, ou qualquer estado de ânimo que o levasse a acreditar em si, o herdeiro permanecia refratário, embutido na insignificância congênita.

—  Você tem que ver, ponderou o psicólogo, que quando foi concebido, você ainda na condição de espermatozóide, venceu uma maratona de vida ou morte. Você teve atitude e habilidade bastantes para superar a todos, alcançar o óvulo e se fecundar. Você é um vencedor nato.

Foi quando o psicólogo pensou ter quebrado a inércia do paciente, que se iluminou. Mas, para decepção geral, foi só para contra-argumentar:

—  Não se iluda não, doutor, fui fecundado por um sistema de cotas a espermas portadores de necessidades especiais.

O psicólogo encerrou a sessão e alegou estar com a agenda lotada o mês inteiro.  

 


leia mais...
POR EM 26/09/2009 ÀS 09:46 AM

Sinistro entardecer em Mundocaia

publicado em

O padre Arouca foi que preveniu: o mundo de mil anos passará, mas dois não interará. Ao deixar a igreja, fazendo cálculos incertos com os dedos da mão, aleguei pra minha mãe, num misto de pavor e alívio, que o tempo era tão curto agora que nem adiantava retornar pra escola na segunda-feira.

Refratária à minha conclusão, ela afirmou que nada era motivo para faltar às aulas. E disse mais: o padre Arouca fala essas bobagens porque tem gente que só frequenta a igreja na base do susto. Também porque ele sente uma certa satisfação em ver as pessoas de cabeça baixa, pensativas. É o jeito dele se sentir importante.

Agora, além de carregar comigo o pavor da profecia do padre (não acreditei nas palavras de minha mãe) ainda tinha que ir à escola, do mesmo jeito. Minha aula era à tarde. Era o mês de agosto, tempo seco, muita poeira no ar. Ao sair da escola ali pelas cinco, fazia um mormaço de forno. A cor do firmamento tendia ao vermelho-sangue.

Sem mais nem menos, um vento frio de lascar desce pela avenida principal, sem calçamento. As portas das casas foram batendo numa seqüência de rajada de fuzil. A poeira subia aos tufos como que soprada por um fole do interior da terra. Os papéis, as latas velhas, os sacos de plásticos parece que tinham suas molas desatadas. Umas coisas rodavam pirueta no ar num festival de pipas iradas. Outras saiam voando baixo, num desespero de causa, avenida afora. O sino da matriz toca desordenado.  

O vento não dá tempo nem das meninas conterem as saias. Mas o pior é que a poeira não deixava a gente ver nada. Os cães, propensos à loucura nessa quadra do ano, começam com seus uivos de assombro, de costas pro vento, que de frente a boca encheria de poeira. O bambual da praça range enfurecido e bate cana com cana, lembrando até uma tempestade num porto com seus batelões agitados. Não satisfeito com esse repertório de sons, o bambual começa a estourar seus gomos, como se o vento frio por fora o fizesse encolher e o calor de dentro provocasse o pipoco. Todo mundo busca proteção por trás do sinal da cruz e palavras de afugentar demônio.

A viúva Magnólia veio com a ramada benta do último domingo de ramos para jogar no fogo e apaziguar a tempestade, mas a ventania lhe tomou das mãos antes que alcançasse o fogareiro. A noite foi antecipada em meia hora e imediatamente as luzes da rua acenderam. Mas ficaram boiando em vão como olhos de gato em noite escura.

Com meus cadernos e outros petrechos de mão levados pelo vento, esgueirando os muros feito um gato escaldado, escuto o berro do Afreu da Pensão: é o fim do mundo. O Abrão ourives completou: a profecia do padre Arouca.

Ali perto, na Matriz, batina puída e manchada de gordura, padre Arouca, em sua redondez de glutão, sai à porta pra ver que confusão era aquela. Foi quando o para-raio da torre escapou e desceu de ponta-cabeça. De jeito a vazar de comprido o padre e cravá-lo no chão.

Logo ele, coitado, que segundo minha mãe, nem acreditava em profecias. 
       


leia mais...
‹ Primeiro  < 4 5 6 7 8 9 10 11 12 >  Último ›
É permitida a reprodução total ou parcial sem autorização prévia dos editores, desde que citada a fonte.
© Copyright 2014 — Revista Bula — Literatura e Jornalismo Cultural — seutexto@uol.com.br
wilder morais
renovatio