O sexo, a morte e as flores da primavera
Numa dedução livre da leitura do capítulo 3 do Gênesis, podemos concluir que a morte surgiu para os indivíduos quando Adão e Eva comeram do fruto proibido. Tomando aqui fruto proibido como sexo. Mais tarde, em Rom. 6:23, as Sagradas Escrituras esclarecem que a morte é o salário do pecado. Ou seja, com o sexo surgiu o pecado e, para tributar o pecado, surgiu a morte. O fato de comer do fruto proibido trouxe ainda outras consequências danosas, que inclusive refletem desgraçadamente até os dias de hoje. O casal primeiro vivia na maior vagagem pelos jardins do Éden, no bem-bom da sombra e água fresca, feito animais exóticos de estimação, recebendo tudo na boca, a tempo e a hora. Mas Deus, aborrecido com a atitude rebelde de suas criaturas, baixou novas ordens, dentre elas, “ganharás o pão com o suor do teu rosto”. Em bom português: vão trabalhar, seus vagabundos!
Vale ressaltar que o autor javista não foi muito original nesta passagem. Este trecho foi chupado em grande parte de Gilgamexe, uma epopeia do povo sumério, da Mesopotâmia, que remonta ao terceiro milênio antes de cristo. Tal obra surgiu primeiramente em forma oral e mais tarde foi transcrita para tabuinhas de argila, a primitiva escrita cuneiforme. Essa epopeia teria influenciado ainda Homero, nas suas Ilíada e Odisseia. Numa exacerbada licença para esticar a imaginação, a ponto de tornar a ideia quase etérea, mais apropriada à poética do que à ciência e à teologia, podemos dizer que a Bíblia está tecnicamente correta com relação o surgimento da morte. A morte de fato surgiu com o sexo. Não no momento em que o homem fez sexo pela primeira vez, tendo a serpente como testemunha. (Se fosse hoje ela teria filmado secretamente o rala-e-rola e jogado na Internet!) Mas a morte surgiu mesmo no momento em que o sexo foi introduzido (sem jogatilhos) na vida de nossos ancestrais microbianos.
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Partamos então de um princípio que é caro a quase todas as teologias e até mesmo para os exoterismos laicos: A alma é uma entidade autônoma, invisível, eterna e subsistente. O Judaísmo e o Cristianismo beberam essa ideia em Platão, para quem a alma seria um princípio distinto do corpo e imortal. Muito antes do judaísmo e de Platão, o Orfismo grego acreditava numa alma perene que passaria por várias encarnações, em processos sucessivos de decantação, com retorno futuro em condições assépticas para o reino eterno. A vida terrena seria assim apenas uma espécie de curtume. Um curtume não de couros, mas da almas. Essa ideia com certeza tenha influenciou Platão, que por sua vez influenciou o Cristianismo, com alguns reparos, como a descrença na reencarnação. No entanto, não há dúvidas de que o Orfismo influenciou as religiões modernas de convicção reencarnacionista, como o Kardecismo, bastante difundido no Brasil.
O dom da razão, essa especialidade que diferencia o ser humano dos outros animais, é que o credencia a chamar, a si mesmo como espécie, de Homo Sapiens. De lambuja, nos julgamos detentores do próprio destino ou no mínimo predestinados ao livre-arbítrio. Mas esta presunção, a de que somos senhores do próprio destino, não passa do mais retumbante e esfarrapado equívoco. A razão atua nas parcelas mas não no montante da operação. Daí seu resultado ser pífio no tocante ao todo. Somos capazes, isto sim, de desenvolver ferramentas e como exímios ferramenteiros saímos da pedra lascada e chegamos ao foguete de propulsão a laser. Saímos da comunicação por fumaça e chegamos à rede mundial de computadores. Percorremos um longo caminho de objetos cortantes, da faca obsidiana ao nano-robô-bisturi, propelido a bactérias.
A vida só não é mais monótona porque vivemos apenas um instante. Não pelo calendário do sol, que a vida pode até se avolumar em alguns dias, meses e anos. Em casos raros pode-se viver até um século. Há relatos bíblicos de que os patriarcas puderam viver vários séculos, como Matusalém que quase chegou a sete. Mas não se tratam de pessoas históricas, de carne e osso, de corpo e alma. São, digamos, exacerbadas licenças teológicas, enchimentos para se compor um período de tempo desconhecido de uma genealogia suposta.
Acho mesmo que todo aparato que o engenho humano seja capaz de montar sobre, por baixo e até fora da Terra para ter controle sobre os fatos e tornar sua vida mais previsível e segura não passa, no frigir dos ovos, de um apito de afogados. Nos mesmos moldes daquele apito que a Marinha exige seja colocado nos coletes salva-vidas e que você deva soprá-lo em caso de afogamento.
Leonardo da Vinci representa aquele ponto de exagero em que a natureza não fez economia e reúne em uma só entidade biológica o maior concentração de inteligência e habilidades possível. Poderíamos contra-argumentar, alegando que da Vinci apenas teve sorte, por estar na gênese do movimento renascentista, e como a civilização vive ainda um desdobramento da Renascença, qualquer um que estivesse no lugar de da Vinci seria considerado um megagênio pelas futuras gerações, assim como o são os filósofos gregos (Sócrates, Platão e Aristóteles) os fundantes da decantada e pouco entendida Civilização Ocidental. Tudo bem, da Vinci teve a “sorte” de estar na base e no centro de um levante cultural, de uma retomada da civilização que se sairia vitoriosa num período da história, que ainda está em curso. Mas afora este fato, aquele bastardo, filho de um notário com uma camponesa, que comprava pássaros engaiolados para soltá-los, era realmente um homem de gênio.
Vai virando tradição; este ano fui outra vez pescar no Pantanal, no rio Paraguai, na foz do rio Miranda. Pela força com que bate na margem esquerda, o Miranda provoca na margem direita do Paraguai um apêndice, que conduz a água pela mata adentro, até muito longe; a conhecida baía de Albuquerque. Nessa baía, a 40 km de Corumbá, na Pousada do Gordo, foi que novamente ficamos. Minha turma era quase a mesma do ano passado. O Carlos Magalhães, chefe da expedição, seus filhos Daniel e Alessandro, este meu genro. Esta, a turma de Goiás. De Minas vieram duas turmas a se juntar a nós: o tio Zé com os seus, de Luz, e o primo Marcelo com sua galera de Belo Horizonte, trazendo um carregamento maluco de minhocuçus. O sonho de todos era o mesmo de sempre: fisgar o Grande Surubim.
Mesmo que professemos uma fé diferente do cristianismo, que sejamos budistas, candomblés, kardecistas, muçulmanos, macumbeiros, sei lá, ou que não professemos fé nenhuma, nós que vivemos nesta área do planeta, sob o guarda-chuva da chamada civilização ocidental, não temos como nos livrar da camisa de força do pensamento judaico-cristão.