revista bula
POR EM 22/11/2010 ÀS 08:32 PM

Deus me livre de mim!

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A razão é um atributo do Homo sapiens, uma especificação de fábrica que nos distingue da fauna geral. A razão nos leva a certas práticas que são tipicamente humanas, tais como a cultura, o desenvolvimento do conhecimento e sua acumulação, a reflexão sobre as próprias atitudes e aprender com os erros próprios e dos outros, principalmente a melhoria da condição de vida através da capacidade empreendedora. Talvez seja por isso que  ainda nos primórdios da civilização essa capacidade foi reconhecida e legitimada como um mandamento divino. Daí o Deus de Abraão ter ordenado em suas primeiras manifestações formais: Crescei e multiplicai-vos; enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se arrastam sobre a terra.

Este é por certo o mandamento que o homem mais vem cumprindo à risca. Até com certo garbo e arrogância. Porque aqueles outros (não matarás, não roubarás, não desejarás a mulher do próximo, respeitarás pai e mãe, não levantarás falso testemunho etc) o ser humano, como coletividade, não tem dado a mínima. E parece que enquanto mais avança no desenvolvimento das ferramentas, esses ditames ancestrais, que bem poderiam ser perenes, vão caindo no esquecimento coletivo. Já na questão de dominar a terra, de avançar sobre os bens naturais, sem ao menos os importar com os malefícios que nossas ações possam nos trazer, seja para a nossa geração, seja para as gerações futuras, temos sidos convictos, muito além da conta.


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POR EM 25/10/2010 ÀS 01:54 PM

Deus, abençoe os nossos crimes!

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O Homo sapiens é um animau tão çinixtro que chega a pedir perdão pelos crimes que não cometeu. No entanto, em rituais festivos, roga fervorosamente a Deus que o abençoe, pelos crimes que de fato comete. Tentarei inicialmente justificar essas afirmativas, não com argumentos lógicos, como tem sido a praxe desta série de artigos. Mas sobretudo com uma cena que presenciei tempos atrás.

Um amigo me convidou para um churrasco na fazenda de um parente dele, que acabava de concluir uma fase importante num empreendimento agropecuário. Fomos, numa manhã de domingo. O local situava-se numa região onde eu conhecia bem e tinha para mim um alto valor afetivo, pois passara por ali a minha infância. Eu me lembrava que era uma paisagem idílica e exuberante. Um grande vale descansado, com campos limpos e arenosos a sumir de vista, entrecortados por riachos, por matas de galeria, matas de cerradão e vargedos de buritizais, povoado pelas araras, com seu festival de cores e gritos que ecoavam nas colinas levantadas aqui e ali, como espiões de torrão. No meio do cenário passava o rio, como que recolhendo em tributo as águas sempre claras dos ribeiros. De longe já pude perceber os destroços da terra arrasada. O novo proprietário mandara passar tratores de esteira atrelados com correntes brutais sobre a vasta região. Tudo caiu por terra na mesma levada: Cerrados, matas, árvores frutíferas, buritis. Não houve respeito às nascentes, às matas ciliares, aos declives das colinas, à terras úmidas, nem mesmo reserva legal havia, onde a vista pudesse alcançar. Meu amigo me contara antes que seu parente comprara numa região inóspita uma terra de pirambeira e dera aos órgãos de fiscalização do meio ambiente como reserva legal, compensado a que ele não deixara na propriedade.


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POR EM 14/10/2010 ÀS 08:46 PM

Reality show de última geração

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Nas últimas décadas os marqueteiros firmaram a convicção de que nossos impulsos mais irresistíveis nascem de uma camada ancestral de nosso cérebro, aquela do momento evolutivo em que os répteis eram o ramo mais evoluído da árvore da vida. Os estímulos audiovisuais afetam prioritariamente nossa parte do cérebro reptiliano. Os répteis têm predileção pelas coisas que se movimentam buliçosamente diante de seus olhos. Nós, num processo regressivo, também estamos cada vez mais adorando coisas que borbulham em nossa frente. É o nosso lado voyeur por excelência.

Com a nova moldagem de nossas preferências era de se esperar que o mercado desenvolvesse produtos finamente sintonizados a essas necessidades. Nesse contexto, o surgimento do reality show foi uma conseqüência lógica e inevitável. Pois é da natureza do mercado criar necessidades e produtos adequados para supri-las. Qualidade total é isso: artificializar a necessidade e criar um produto sob medida. A noção de reality show foi cristalizada a partir de uma dura advertência de George Orwell, em 1948, com o romance '1984', em que cunhou a expressão Big Brother, o grande irmão dos regimes ditatoriais que a todos veriam e controlariam com tentáculos de polvo. Naquela mesma década surgia o programa Candy Camera, de Allen Funt,  aquele que é tido por muitos como o primeiro reality show da TV. A Guerra do Golfo iniciada em 1990 foi um segundo momento do reality show. A Rede de TV CNN desembarcou no cenário de guerra antes mesmo dos soldados e fez uma cobertura espetacular.


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POR EM 04/10/2010 ÀS 11:28 AM

A inteligência engraxa as botas da estupidez

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Quem trabalha como assessor de um executivo, de uma autoridade, seja pública, seja privada, em algum momento, cedo ou tarde, terá a sensação de ser mais inteligente do que o chefe. Não raro este sentimento é sufocado pela ideia um tanto lógica de que se o assessor fosse de fato mais inteligente, por certo o assessor seria chefe, e o chefe seria o assessor. E estamos falados.

E assim o subalterno se recolhe à sua sombra de insignificância e legitima o chefe em seu pedestal. Mesmo quando o assessor seja uma espécie de braço-direito, daqueles que não descuidam de seu assessorado, escrevendo seus discursos, suas palestras, falando por ele nas entrevistas, dizendo-lhe como deve se portar, o que propor, que negócio fechar, que hora entrar, que hora sair de uma situação, daqueles que entregam o parecer finalizado, que levam o despacho pronto para colher assinatura no rodapé do imbróglio mais impermeável. Ainda assim, pela lógica da disposição das coisas, pelas posições no organograma, pelo status do cargo, pelo salário que recebe, o assessor, mesmo percebendo que sua lucidez possa ser maior do que a do assessorado, é levado a crer que alguma coisa do chefe (o músculo de tomar decisão, o tirocínio talvez) seja mesmo superior. Mas, convenhamos. Como não poderia Nicolau Maquiavel ter a sensação de ser mais inteligente do que Lourenço de Médici. Como não poderia José Bonifácio de Andrada e Silva considerar-se mais inteligente do que D. Pedro de Alcântara? Como não poderia Galileu Galilei sentir-se mais inteligente do que o grão-duque da Toscana? Como poderia Carlos Drummond de Andrade não sentir-se mais inteligente do que o Ministro Gustavo Capanema?


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POR EM 27/09/2010 ÀS 10:50 AM

As serventias da Literatura

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Neste momento em que um texto do Flávio Paranhos sobre  a Utilidade da Arte esquenta as discussões aqui na Bula, me parece oportuno o retorno deste artigo que foi publicado há cerca de três meses. 

O artigo não responde nem polemiza com Flávio Paranhos, no entanto, por avaliar a questão a partir de enfoques e premissas diferentes, acaba apresentando afirmativas que, pelo menos em aparência, divergem das apresentadas por ele. Assim, a oportunidade se dá não pela polêmica, mas por conceder aos leitores alguns argumentos, ainda que rarefeitos, e uns pontos de vista a mais sobre essa discussão que, tenho suspeitas firmadas, não esgotará aqui, nem nesta geração. Portanto, vamos ao artigo.


(Carlos Willian) 


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POR EM 13/09/2010 ÀS 08:32 AM

Deus não nos salvará; mas morrerá conosco

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Segundo a hipótese mais aceita nos meios científicos, a vida teria surgido há cerca de 3,5 bilhões de anos, possivelmente em algum lugar da Terra. Ou mesmo em algum planeta de um sistema próximo (em termos cosmológicos) e pode ter vindo parar aqui na garupa de estilhaços retirados de algum corpo celeste por cataclismos de dimensões interestelares. Deduz-se que a vida começou em um ambiente singular, cujas características o Homo sapiens ainda não logrou reconstituir e entabular uns serezinhos animados para concorrer aos já existentes.

Aquele foi um momento mágico de nossa ancestralidade, quando por confluência de condições especialíssimas, por mero acaso dos dados atirados pela Natureza cega e sem propósitos, pequenas porções de matéria, inertes e insensíveis, recebem uma chama, uma faísca interior e ganharam autonomia. Essa possibilidade, por exemplo, que tem um pássaro de, uma vez libertado da gaiola, pousar no fio de luz, num filete de antena, no galho de uma árvore próxima ou mesmo se embrenhar no mato num voo aparentemente descontrolado. Não só autonomia, mas também outros importantes atributos tais como: metabolismo, reprodução, nutrição, complexidade, organização, crescimento e desenvolvimento, conteúdo de informação,emaranhamento de software com hardware, além de permanência com mudança. Ufa!  No poema OVNI, do livro “Na Vertigem do Dia”, Ferreira Gullar intui que “sou possivelmente/uma coisa onde o tempo/deu defeito”. E, também por mero acaso, esses seres microbianos dos primeiros dias, em demorados processos de tentativas e erros, acabaram por desenvolver as espécies, até chegar nos bípedes implumes dotados de inteligência e arrogância de hoje.


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POR EM 20/08/2010 ÀS 11:36 AM

Deus inútil e ciência ineficaz

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É no mínimo temerário continuar subjugando a Natureza a nossos desejos e caprichos e acreditar que possamos, ao final de tudo, sair imunes de tal empreendimento. Cedo ou tarde a Natureza vai nos cobrar a fatura. E o preço dessa conta poderá ser muito acima da capacidade de solvência do Homo sapiens. Daí, como soe acontecer com os inadimplentes do tráfico de drogas bem como aos da Natureza, teremos que dar quitação com a própria vida. Não a vida individual, porque esta vem sendo cobrada ordinariamente pelo processo de gestão biológica, mas sim a morte coletiva, geral, irrestrita da espécie como um cataclismo irremediável.

Apesar de que não estaremos aqui para curtir a morbidez desse luto, supor que um dia nenhum descendente nosso habitará este planeta, que suportou por certo tempo o desenrolar de nossa saga maluca, é sem sombra de dúvidas um dos sentimentos mais nostálgicos e desolador que o ser humano possa ter. Mais que desolador, é revoltante mesmo, por saber que estamos na corda bamba da existência, mais por estupidez de hábitos que adotamos do que mesmo por determinismos transcendentais. É que a inteligência, que de forma unânime se constitui no distintivo da condição humana, traz em sua gênese o dom de se iludir, de se equivocar. A humanidade, ao contrário do que muitos acreditam, é semelhante às pessoas: quanto mais velha fica, mais equivocada se torna. O avanço de alguns aspectos tem o vínculo de causa e efeito com o atraso de outros. Exemplo: o desenvolvimento tecnológico de intervenção ao meio ambiente se desenvolve numa velocidade maior do que tem o meio ambiente de se recompor, arrastando a humanidade, mais as espécies adjacentes e aderentes a perigos de extinção cada vez mais aterradores.  O progresso humano é como a corrida de um cavalo que, ao impulsionar-se para frente, no galope, acaba por arremeter argila para trás.


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POR EM 03/08/2010 ÀS 01:35 PM

De bomba atômica e cegueira da ambição

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O Homo sapiens sempre se sentiu ameaçado e ao mesmo tempo atraído por profecias escatológicas. Desde as religiões arcaicas até as cientológicas de hoje em dia, todas, invariavelmente, têm um viés apocalíptico segundo o qual a redenção da espécie há de passar por uma mortandade espetacular e coletiva, seguida de uma prestação de contas da vida terrena e um processo de classificação final: os bacanas serão expostos em regozijo nas vitrines celestiais e os malas lançados nos autofornos do inferno, numa tribulação radical e eterna, sob o olhar vermelho e os adornos cornoicos do capeta. A história que nos contam do dilúvio, seja o de Noé, seja o de Gilgamesh, foi apenas um ensaio, um teste da maquinaria sinistra, uma prévia do que poderá ser um apocalipse em condições pra valer.

O pensamento mágico e exacerbado sempre foi a base dessas profecias catastróficas. Um certo alopramento tem orientado todos os profetas e videntes. São Malaquias, um padre irlandês que viveu no século XI, atrela o fim do mundo com o fim dos papas. Segundo seus intérpretes mais afinados, esse Bento XVI, com seus gestos sestrosos e olhar demoníaco, seria o penúltimo da série papal. Quando este for sucedido, amigos, entraremos na esteira que leva à boca do matadouro. Várias interpretações das centúrias de Nostradamus davam o ano de 2000 como um alvo para a realização de suas previsões macabras. Um dito lapidar de origem incerta e controversa assombrou muito a minha geração de ascendência rural e religiosidade ingênua: o mundo de um mil passará, mas dois não interará. A primeira vez que entendi o que isto queria dizer, foi da boca de minha avó, que já um tanto cansada da vida bradava em tom de alívio e vingança contra todos que supostamente lhe queriam mal. Confesso que perdi o apetite e por algum tempo curti uma depressão lascada.


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POR EM 12/07/2010 ÀS 09:52 PM

O homo sapiens, a erva daninha e o fim da espécie

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Por mais industrioso e criativo que seja o Homo sapiens, esse animau çinixtro que se irrompeu agora por último do ramo evolutivo da vida, ele não consegue criar coisa alguma sem que desmanche outra. E o que é mais grave: quase sempre lançando mão de um desperdício extraordinário. Qualquer criação humana implica sempre num desmanche de riquezas naturais. Do tipo assim: para se obter uma posta que seja de picanha é preciso derrubar um sem número de metros cúbicos de árvores, consumir não sei quantos carros-pipas de água potável, assorear quilômetros de rio, espalhar pelo céu toneladas nuvens de gás de efeito estufa e assim por diante.

E é neste contexto que caminhamos inexoravelmente rumo ao limiar da singularidade; aquele ponto fatídico a partir do qual as leis naturais demudam de forma radical, não podendo mais haver uma ação eficiente para evitar uma situação de desastre. Ocorre que a população humana, além de se achar desastrosamente grande, vem adotando hábitos de produção e consumo potencialmente letais para que nós próprios continuemos tocando a vida, tal qual a conhecemos. Especialmente neste intervalo geológico que a natureza nos concede um clima propício no planetinha azul, neste recanto ínfimo de universo enorme e ainda em expansão. É um oximoro: quanto maior a multidão de indivíduos humanos, menor a nossa racionalidade. Quanto mais razões somadas, maior a nossa ação por instintos.  É o efeito manada, tão ao gosto dos manipuladores de massas. O antropólogo, estatístico e matemático inglês Francis Galton  (1822-1911), primo de Charles Darwin (1809-1882), afirmou ser isto “a lei da suprema desrazão”. Ele constatou que a racionalidade de um grupo tende a buscar a média.


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POR EM 03/07/2010 ÀS 02:32 PM

Serventias da Literatura

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Quem milita com Literatura neste mundo de coisas utilitárias, às vezes se vê instigado a responder de pronto: Para que serve mesmo a Literatura?  A resposta parece óbvia, mas na hora de responder assim de chofre e de forma objetiva, acaba-se caindo em apuros.

Em primeiro lugar, para se dar uma resposta que convença minimamente, será preciso admitir que há certos fatores que entram na composição das forças do mundo que são, digamos, imateriais. Como a força do Papa, por exemplo, que não tem nenhuma divisão de brigada, mas conseguiu interferir em muitas guerras ao longo da História.  São forças não passíveis de avaliação imediatamente em peso, medida ou valor monetário. São coisas que não entram no cálculo do PIB, mas são primordiais. Como o ar , que ninguém calcula o seu preço, mas sem ele não existiríamos para dar preços às outras coisas. Com uma diferença significativa: o ar é natural; a Literatura é invenção da cultura humana.

Seja como for, valendo-me de um ensaio de Umberto Eco, aí vão alguns exemplos de utilidade da Literatura que consegui elencar:

1º — A Literatura contribui para a formação, estabilização e desenvolvimento de uma língua, como patrimônio coletivo. O que seria da língua portuguesa sem Luiz de Camões? O que seria do Italiano sem Dante Alighieri? O que seria do Espanhol sem Cervantes? O que seria do Inglês sem Shakespeare? O que seria da Civilização e da língua grega sem Homero? O que seria da língua russa sem Puchkin? É bom lembrar que línguas que não tiveram uma Literatura que sobressaísse entraram em decadência sem alcançar o apogeu.


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