revista bula
POR EM 13/05/2011 ÀS 11:35 AM

Barack Obama e o marketing assimétrico

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Há pelo menos dois aspectos da vida social em que os Estados Unidos da América primam pela extrema eficiência: a guerra e o marketing. Sobretudo no marketing sobre a guerra. Estão sempre envolvidos em algumas escaramuças ao redor do mundo. No mais das vezes, imbuídos pelo azougue do realismo alucinado de debelar o eixo do mal, de botar por terra algum tirano estróina e implantar a democracia liberal, mesmo em sociedades de pendores primitivos, tribais ou teocráticos.

Os americanos se tornaram exímios no uso do audiovisual para divulgar suas ações bélicas. Na ocupação do Golfo Pérsico, por George Bush, o velho, o cenário de guerra foi montado com antecedência, como num set de filmagens, com muita luz, câmera e ação. Luzes e câmeras da CNN e ação das forças armadas dos Estados Unidos e aliados.  Naquele esforço de marketing, apresentando a guerra ao vivo para todo o mundo, o céu do Oriente se transformou num asséptico monitor de videogame, em que pessoas e construções eram detonadas com  a mesma inocência com que um adolescente esmaga inimigos virtuais. Nessa ocasião ficamos conhecendo os supostos bombardeios de precisão cirúrgica, em que os alvos seriam atingidos, tirando tinta de pontos a serem preservados. A realidade mostrou que as cirurgias não eram tão precisas assim.    


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POR EM 29/04/2011 ÀS 01:29 PM

Justiça assegura orgasmo no trabalho

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Não sei se é por causa da fadiga provocada por uma sociedade cada vez mais complexa e veloz  ou em razão da eficiência cada vez mais aguda dos diagnósticos médicos. O fato é que cada dia a ciência descobre doenças novas e muitas vezes  bizarras, desafiando nossa moral hipócrita e o ordenamento jurídico  (quase sempre) conservador. O assunto que pretendo comentar aqui é tão temerário para qualquer escriba quanto para um bode invadir uma horta: dificilmente sairá da incursão sem levar umas bordoadas de jeito. Mas vá La. 

Uma mulher ( o nome foi preservado) analista de contabilidade, de Vila Velha, Espírito Santo,  foi diagnosticada  como portadora de uma enfermidade rara: ela sofre de Compulsão Orgástica. A causa seriam alterações neurais em seu córtex cerebral, provocada sabe se lá por quê. Para se livrar de profundas crises de ansiedade, ela se masturba. Mas se masturba com gosto de gás. Confessou ao médico que chegou a se masturbar 47 vezes em um só dia (lembre-se, ela é contadora). Só depois de quase se acabar nessa maratona orgástica, teve a iniciativa de procurar um especialista.  Após os exames de praxe e a conclusão diagnóstica,  foi lhe receitado um coquetel de ansiolítico associado a uma carregada agenda de masturbações:  18 vezes ao dia. (Considerando que ela durma 8 horas, uma seção a cada 53 minutos).


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POR EM 19/04/2011 ÀS 04:12 PM

Bicho da Terra oportunista

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O Homo sapiens, essa cereja do bolo do processo evolutivo, apesar de todo orgulho e jactância, não passa de um produto da Natureza, assim como a ameba, o mofo, a formiga, o ipê-roxo, o puma dos prados e tudo o mais quanto é ser vivente que há.

Como criatura da Natureza, somos oportunistas.  Oportunista aqui no sentido de que só pudemos existir quando a Natureza criou as condições bastantes e necessárias para tal. E vamos deixar de existir quando a fila andar e a Natureza retirar as condições que nos permitem viver e alastrar o nosso processo cultural e civilizatório. 

Muito antes de nós, os insetos e répteis habitavam este planeta conflagrado pelas intempéries. Havia rompimentos e colisões de placas tectônicas descomunais, com erupções vulcânicas repercutindo por  todo o planeta, com alteridades climáticas impossíveis de ser toleradas pelos mamíferos. Havia trombadas de corpos celestes pelo universo afora, com estilhaços resvalando na Terra em toda parte. Inclusive a Lua seria um pedaço da terra que se soltou numa dessas colisões e acabou por acomodar-se  num ponto de equilíbrio gravitacional sob influência de nosso planeta. Só para se ter uma ideia, a monumental fragmentação e colisão de placas, cerca de 23 milhões de anos atrás, fez levantar na planície amazônica de então a cordilheira dos Andes. Os rios daquela bacia enorme faziam a captação hidrológica de toda a região e desaguavam no pacífico. Com a muralha geológica que se levantou nesse período, formou-se um enorme lago aos pés dos Andes.


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POR EM 22/03/2011 ÀS 05:17 PM

Realismo mágico capiau

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Como escola literária, o Realismo Mágico surgiu no início do século passado. Seus escritores mais expressivos são latino-americanos, como Bioy Casares, Jorge Luís Borges, Juan Rulfo, Arturo Uslar Pietri, Júlio Cortázar, José J. Veiga, dentre outros. O lusitano José Saramago bebeu avidamente nessa fonte. 

Uma das características mais evidentes desse jeito de narrar é a presença de elementos mágicos ou situações fantásticas percebidas como normais no contexto da narrativa. Por exemplo:  em "A Invenção de Morel", de Bioy casares, o protagonista se percebe, não como um ente autônomo, mas apenas como uma miragem, imaginada e sob controle de um terceiro;  em um conto de Borges, o Borges velho conversa calmamente como o Borges moço, numa tarde de verão numa praça em Buenos Aires;  em Pedro Páramo, de Juan Rulfo, o herói, em busca do pai, chega a Comala, uma cidade cujo clima é tão estuporado  que niguém tem certeza de que esteja  vivo ou morto, inclusive o herói;  em "A Máquina Extraviada", de José J. Veiga, um maquinismo descomunal é colocado na praça de uma cidadezinha, sem nenhuma informação e sem qualquer finalidade conhecida, mudando o comportamento dos habitantes, inclusive com as velhinhas se benzendo diante dela, cerimoniosamente; em "Cem Anos de Solidão", que é um rosário de cenas mágicas,  há uma em que a umidade do ar é tão elevada que os peixes entram nadando calmamente pela porta e saem pelas janelas. Tudo isso descrito de uma forma muito natural e fleumática.


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POR EM 15/02/2011 ÀS 10:59 AM

A infância e os assombros da cidade

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Em visita à casa do poeta Carlos Willian, meu conterrâneo, descobri que ele guarda entre os móveis um objeto extraordinariamente espantoso: um descascador de laranjas. Você há de contrapor e até aventar que talvez eu esteja acometido pelos enganos da idade, pelos equívocos da velhice, pois nada pode haver de extraordinário num mecanismo tão fajuto quanto um descascador de laranjas, que não passa de um prendedor acoplado a um sarilho que, por tração de manivela, faz a laranja rodar rente a uma faca goiva que, por sua vez, é sustentada por um braço móvel, cuja pressão é feita por uma mola ordinária. Simples, simples.

Mas não foi assim que vi o mecanismo pela primeira vez. Eu devia ter uns nove, dez anos quando meu pai me levou pra ver a cidade. A gente já havia mudado do sertão profundo para um sertão mais raso. De mais ou menos 60 km, trilhas apagadas, para 10 km, estradas bem definidas. Agora, de casa até Iporá era um pulo, bem dizer. Meu pai pegou emprestado de um primo um cavalinho pampa, que foi ataviado com um arreio cutiano, com a ponta da enxerga sobrando para trás, a me servir de garupa. Além de meu pai e eu, o cavalo levou um saco de arroz, dividido em dois, atrelado sobre o arreio, para ser limpo na máquina, com importantes benefícios para mim.  Era eu que diariamente socava o arroz no pilão. Fui me deslumbrando com tudo, os carros, as lambretas, as charretes, os postes com luz, a rua calçada de pedras, as casas de parelha, o comércio, as esquinas, as pessoas em movimento. A patrola da prefeitura aplainando uma rua me pareceu um monstro de outro mundo. Meus primos já me haviam descrito a cidade, mas concluí que eles tiveram a intenção de me enganar. Nada parecia com o que eles me contaram.


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POR EM 03/02/2011 ÀS 03:32 PM

99 coisas para fazer antes de morrer

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1 — amar, amar de novo, amar sempre  

2 — trocar a parceria, se já não é mais possível a cumplicidade

3 — religar um sonho de juventude e se apaixonar perdidamente

4 — checar os instrumentos de voo, sem deixar que o amor à segurança lhe roube o amor à liberdade

5 — morar num país de cultura não-ocidental

6 — ler Finegans Wake, de Joyce

7 — parar de elogiar Faulkner ou Clarice Lispector só porque os outros elogiam

8 — ler a Bíblia acompanhada de um bom dicionário bíblico

9 — trocar um vício por um novo hábito

10 — passar uma semana num mosteiro ouvindo o silêncio ou o zoar de seus ouvidos

11 — fazer amizade com uma pessoa excêntrica


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POR EM 31/01/2011 ÀS 05:36 PM

O realismo alucinado de Bush e a paisagem de ferro-velho

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A todo instante os veículos de comunicação de massa despejam cachoeiras de notícias em nossos lares sobre os desastres do clima ao redor do mundo. São nevascas glaciais, chuvas despejadas provocando enchentes diluvianas, montanhas que surfam ladeira abaixo arrastando tudo o que há pela frente, regiões assoladas pela seca, incêndios descontrolados, ventanias descomunais, derretimento das calotas polares, morte coletiva de corais, proliferação de algas venenosas, desertificações de áreas agricultáveis, desaparecimentos de elos da cadeia ecológica etc. O homem, esse bicho da terra tão pequeno, como diria Camões, se vê impotente diante de tanta rebeldia do clima. O aquecimento global é o culpado recorrente de todos esses males que nos atribulam nesta fase geológica. 

Mas em verdade, o que é esse aquecimento? Há teorias para todos os gostos e conveniências. O ex-presidente neoconservador George W. Bush, por exemplo, se filia a uma ideia de que se trata de um fenômeno natural e cíclico, sobre o qual não podemos exercer nenhuma influência. E mais: estaríamos vivendo o fim da História nos moldes defendidos por Francis Fukuyama ao repisar Hegel e caberia ao Império americano não assinar o Protocolo de Kyoto de redução do efeito estufa, mas invadir o Iraque para debelar o eixo do mal. Sem contar que estaria unindo o útil ao agradável: cumpriria as profecias milenaristas, atenderia às empresas da família e dos patrocinadores de campanhas políticas, além de suprir o mercado americano de petróleo. Em seu realismo alucinado, acreditava simplesmente estar preparando o mundo para um reino de mil anos de paz e harmonia, nos moldes apregoados pelo cristianismo primevo e, sobretudo, medieval. Uma mistura filosófica com desvio supersticioso muito parecida com o amálgama que levou Hitler a empreender o seu malfadado III Reich.

 


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POR EM 18/01/2011 ÀS 01:48 PM

101 coisas para fazer em 2011

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1 — colocar esta lista em ordem;

2 — fazer um checkup;

3 — fazer um exame de consciência;

4 — deixar o script alheio e viver o seu próprio;

5 — derrubar uma árvore (que ameaça cair sobre sua casa);

6 — trocar a fiação da casa (antes que ela incendeie);

7 — clarear os dentes;

8 — clarear as vistas;

9 — retirar as manchas da pele;

10 — retirar (ou assumir) as manchas da personalidade;

11 — retirar os caroços do corpo (exceto os essenciais...


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POR EM 14/12/2010 ÀS 10:53 PM

As lantejoulas do Presidente Lula

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O instrumento mais importante do manejo democrático republicano é sem dúvida a legitimidade.  Uma espécie de aval que o governante retira da categoria social mais ampla (tão ampla que às vezes chega às raias da abstração) que é o povo, para, em nome do povo, gerir a nação, ou parte dela, conforme o caso.

Aliás, os países modernos só lograram alcançar existência depois que o instituto da legitimidade ficou cristalizado entre os povos. Ao longo da História, muitas nações entraram em decadência e foram atingidas pelo caos e até pelo desaparecimento por falta de legitimidade. Ou seja, se nenhum grupo que alcança o cerne do poder não tem autorização da maioria para governar, acaba provocando guerras fratricidas.  E não raras vezes espalha o caos e leva aquela sociedade ao aniquilamento.

A América latina, ao longo do tempo, com suas propaladas bananas republics, com suas ditaduras famigeradas, tem sido pródiga na produção de governantes sem legitimidade, com golpes sucessivos e consequências desastrosas, com países perdendo o bonde da História. Valendo-se de um bordão de eloquência barata, mas de eficácia comprovada pelo supremo mandatário da nação em vigor, pode-se afirmar sem receio dos equívocos, que nunca antes na história deste país um presidente teve tamanha legitimidade como o Presidente Lula. Se se considerar apenas o mandato conquistado por meio das eleições livres e diretas, sua legitimidade se equipara à dos três presidentes anteriores (Collor, Itamar e FHC).


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POR EM 03/12/2010 ÀS 09:59 AM

Muitas guerras

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Talvez porque estamos tão afundados em nossas batalhas particulares não percebemos quantas guerras se travam ao nosso redor, nestes dias malucos de passagem por nós. Com bastante propriedade, o estresse já foi eleito a moléstia do novo século. O desassossego já se instalou com ânimo definitivo em nossos pobres corações.

Os Estados Unidos e seus aliados travam uma guerra convencional contra o Iraque, supostamente em resposta a uma guerra assimétrica perpetrada pela Al Qaeda contra pontos simbólicos americanos. A guerra do tráfego azucrina o mundo inteiro, com batalhas especialmente purulentas, como aquelas recentes em Medelín, na Colômbia; em Acapulco, no México; e esta agora no Rio de Janeiro, em que bandidos de facções rivais se unem em operações sangrentas e tumultuárias, abrindo fogo contra a sociedade desprotegida, com o intuito sinistro de intimidação e alargamento de seus domínios.

A guerra cambial americana, que consiste em despejar de uma só vez, nos mercados emergentes, seis trilhões de dólares sem lastro, supervalorizando as moedas locais, com efeitos catastróficos para a produção e  o equilíbrio da balança de pagamentos de cada país. Acreditam os estrategistas americanos que com isso repartirão equitativamente a crise deles com os países emergentes. Eles consomem além da conta e nós pagamos a pindura descomunal.


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