revista bula
POR EM 10/04/2008 ÀS 03:16 PM

Vaca, sim, com muita honra

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Esta semana, geneticistas britânicos conseguiram um feito extraordinário. Criaram um embrião híbrido, com inserção de DNA humano num óvulo de vaca. Muita gente levou o maior susto. Bom sinal. Ruim será quando ninguém se assustar com mais nada.  

Esse feito da ciência pode ser o primeiro passo para um fenômeno que já vem ocorrendo largamente no mundo das ferramentas, a chamada convergência tecnológica. São vários aparelhos se reagrupando em um só. Exemplo: sob a capa do celular vão se juntando o relógio despertador, o gps, a máquina fotográfica, o fax, a câmera de vídeo, o rádio, a vitrola, a televisão, o computador, a internet, o dosador de insulina, o guarda-chuva, o controlador de cortinas, o coçador de saco, o incensador de vaidades. Tudo.

Possivelmente estaremos entrando numa era de convergência biológica. Uma espécie, pelo processo de manipulação genética e hibridização, vai embarcando as demais. Não me parece excessivo lembrar que, para a ciência, em um determinado momento, a vida foi abrigada em uma única célula. Que foi replicando, ramificando, reagrupando em diversificados arranjos até que, em 4 bilhões de anos de evolução darwiniana, desaguasse no Homo sapiens.

Uma convergência biológica não seria o retorno de um ser complexo a uma única célula. Seria mais a mistura genética, experiência de novas combinações dos elementos das cadeias de DNA existentes na diversidade dos seres vivos. É o Frankenstein ao nível molecular.

Talvez esteja se abrindo neste momento uma janela de solidariedade forçada. Definitivamente, o homem moderno não está disposto a trocar sua estratégia política lucrativa por uma política solidária de preservação ambiental. Ninguém quer abrir mão de seus hábitos poluentes a troco de sobrevida no planeta.

As conseqüências imediatas dessa fúria exploratória são o esgotamento dos recursos naturais e a alteração irreversível do clima. Não dá para esperar a adaptação natural do corpo dos seres vivos. Tudo está acontecendo rápido demais. Se tudo seguisse o script já traçado, em breve a natureza perderia um número espantoso de espécies, além do aparecimento de hordas vorazes de refugiados do clima. Males piores que as pragas do Egito.

Mas a criação de seres mix abre amplas perspectivas. Em breve poderemos cruzar gente com camelo. Serão seres extremamente fortes e adaptados à vida em regiões desérticas. Quem sabe, daqui umas décadas poderão ser vistas manadas de camelanos ou humanelos folgadamente atravessando os cerrados, já desertos, ao sol do meio dia, a uma temperatura de 60, 70 graus, sem sombra.  

Ou homens-rãs e mulheres esverdeadas banhando charmosamente, onde um dia foi a praia de Copacabana, agora completamente invadida pelas águas do mar e o hit Garota de Ipanema sendo executado num estilo de coaxos.

A educação, a filosofia, o direito, a religião, a psicologia terão de ser radicalmente alterados para atender aos anseios dos novos híbridos. Já imaginou educar um filho com DNA de cabrito? E Deus?  Se Deus quiser que continuemos à sua imagem e semelhança, Ele próprio terá que Se conformar em Se parecer com camelo, sapo, anta, vaca e até com bactérias que vivem no interior da Terra, em condições extremas, respirando ácido sulfúrico e tal. A ciência não está mexendo somente com o homem e seus coadjuvantes animalescos e vegetativos. A ciência está remoldando o DNA e a fisionomia de Deus!

Eu mesmo, se tiver chance de me perpetuar pela clonagem, quero que meu clone seja híbrido de sapo. Não que eu goste de viver coaxando de cócoras no charco. Ocorre que o sapo detém um dos orgasmos mais intensos e longos da natureza: são pra lá de duas horas do mais espumoso prazer. Uauuu! quanta qualidade de vida!

A hibridização trará repercussões em todos os aspectos da vida. Já imaginou quanto o direito terá que se adaptar para dar conta do contrato social que emergirá de uma sociedade de seres híbridos?  Ninguém poderá xingar o semelhante, que agora nem é mais tão semelhante assim, de vaca, raposa, burro, galinha, anta, bode velho ou coisa que o valha.  Sob pena de transgredir a lei de proteção à dignidade, não humana, mas à dignidade híbrida, e cometer crime de injúria biológica. Como hoje, se você chama alguém de preto, pode ser processado por crime de injúria racial.

Tirando a esquisitice de você ser meio gente, meio vaca, a experiência dos britânicos, antes de assustadora, é até divertida. E assim (desen)caminha a humanidade.  


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POR EM 02/04/2008 ÀS 08:03 PM

Língua presa e dentadura fofa

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No último dia 27, tivemos a oportunidade de assistir a uma cena de ópera bufa da vida latino-americana. Um encontro dos dois personagens bufões Lula e Chávez. Olhe que não eram os personagens de Lula Lelé da história em quadrinho com o Chávez da série de humor da TV mexicana, não. Eram na verdade os presidentes de dois dos mais importantes países da América do Sul: Brasil e Venezuela.


O evento se deu no Recife (PE). Não sei direito o que Chávez, com aquela caricatura de si mesmo, estava cheirando por lá. Já o Lula está beirando muito o seu estado natal porque quer descolar uma vaguinha, umazinha só, para ser senador da República pela bancada pernambucana. Ele não vai cair na besteira, como o FHC, de ficar sem imunidades parlamentares depois do exercício da presidência da República e passar não sei quantos anos na corda bamba, ao sabor dos dossiês e cepeís.

 
Apesar de seu jeitão de boneco de pano de teatro de bonecos, Lula em matéria de esperteza dá de dez a zero em FHC. FHC que entre tantas coisas é sociólogo, professor da USP e Sorbone, considerado pela Unesco um dos dez intelectuais mais influentes do mundo, tempos atrás. Já o Lula, pau-de-arara, (ou migrante-em-condições-adversas no politicamente corretequês), torneiro mecânico sem tornear, líder sindical, dono de um discurso avassalador. Avassala as massas e a gramática. Orgulhoso de seu primeiro diploma. O primeiro diploma a gente nunca esquece. Principalmente quando esse diploma é o de Presidente da República.


Com base nessa conclusão bocoió, no dia de sua posse,  Lula chorou feito criança perdida na feira do bordado e fez rasgadas apologias ao analfabetismo. Sempre achei que analfabetismo tem alguma coisa a ver com quem fala pelo buraco incorreto. Não sei por quê.


A moral dessa fábula é o seguinte: Quem não tem que ir pro céu é tapioca olhar pra cima. Ou: quem nasce pra ser besta, o estudo só aperfeiçoa. A contrario sensu: quem nasce esperto, diploma é perfumaria.


Voltemos ao nosso tema que foi o clima bufo do encontro dos dois presidentes no Recife. Pra começar, a pessoa que montou o cerimonial só devia estar de gozação. Até porque um dos melhores cursos de cerimonial do País é ministrado por professores da Universidade Federal de Pernambuco. Mas a tribuna de honra, onde os dois presidentes se abancaram, era um perfeito cenário de teatro de Bonecos. Sem tirar nem pôr.  E foi com expressões de Mamulengo que Lula encobriu Chávez de elogios falsos. E Chávez, com cara de Pierrô, tosco e lascivo, fazia de conta que acreditava.


Para coroar de êxito essa trapalhada diplomática, arranjaram um intérprete do Português do Lula para o Castelhano do Chávez. Essa foi a cena clímax da comédia bufa: O Lula falava na linguagem da Língua Presa e o tradutor repetia com as mesmas palavras, só que na linguagem da Dentadura Fofa. Poucas vezes em minha vida vi coisa tão patética.


Mas a arte é a arte e a vida é a vida. A Ópera Bufa surgiu na Europa, no período barroco, sob forma de quadros satíricos entre uma e outra cena da Ópera Séria, daí ser conhecida também como intermezzos. Isto é a arte.


Na dramaturgia, a Ópera Bufa é só um quadro satírico para manter os espectadores sentados enquanto se roda o maquinismo para a próxima cena. Em nossa vida real a Ópera Bufa é a peça principal e nos intervalos entre uma cena e outra, o que assistimos também são quadros dos mais arrematado besteirol. Taí a nossa vexatória condição de terceiro mundo, ou país emergente no politicamente correto, que não me deixa mentir. Um país que historicamente vai matando a galinha dos ovos de ouro.

 
Quando foi que a gente chutou galinha de macumba?!      
   


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POR EM 31/03/2008 ÀS 04:50 PM

A vida como ela quer

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Em 1996 o mundo ficou saltitante com a notícia de que a Nasa teria descoberto micróbios fósseis em um velho meteorito, despregado possivelmente de Marte. Seria a prova cabal da existência de vida em outras paragens do universo. Ainda que num passado remoto O fato era tão auspicioso que a notícia foi dada a conhecer por ninguém menos que o presidente Bill Clinton, aquele que, não em adultério, mas em relações impróprias, fumava charutos nas vias de regra de Monica Lewinsky.

A questão de onde, como e por que a vida começou é tão nebulosa que quanto mais a ciência especula, mais as conclusões se afastam. Parece que há uma maldição de Tântalo nesse particular: quanto mais se procura, mais o objeto se distancia.

Há teorias de todos os gostos. De que a vida teria sido importada à Terra através de engenhosos mecanismos de transporte. De que a vida teria começado na água e parte migrou para o solo e o ar. De que teria começado nas entranhas sulfúricas da Terra primitiva e, por um efeito colateral, alguma coisa teria sobejado para a superfície. De que Deus teria feito tudo pronto e acabado a partir de sopros e estalos de dedos. A teoria verdadeira são todas e nenhuma. Por enquanto é a que você quiser acreditar.

Aquela história de vida primitiva num meteorito marciano, a ciência não conseguiu provar cabalmente sequer que a pedra seja um meteorito, muito menos que seja de Marte. E a incógnita continua: A vida teria surgido na Terra ou vindo do espaço sideral? E mesmo que soubéssemos isso, o saberíamos sobre a origem da vida?  

Para credenciados cientistas a vida em todas as suas formas seria uma anomalia química bizarra, o efeito colateral de alguma reação catalisada pelo acaso neste canto de mundo. Se assim for, o minúsculo corpo celeste chamado Terra seria o único hospedeiro desse bem tão escasso.

Em seu ateísmo eloqüente, o biólogo francês Jacques Monod assim se expressou: A antiga aliança (mencionada pelas religiões) está em pedaços: o homem sabe por fim que está sozinho na imensidão insensível do universo, do qual surgiu apenas por puro acaso. Nem o seu destino, nem o seu dever foram prescritos.

Para o cientista Francis Crick: A origem da vida parece... quase um milagre, tantas são as condições que teriam de ter sido satisfeitas para fazê-la acontecer.

Para as Sagradas Escrituras, Deus teria deliberadamente feito a natureza e ao homem. Com um rigor amoroso (ou seria egoístico?) fez o homem à sua imagem e semelhança.

Qualquer que seja a concepção que adotemos, a vida é cara e rara. Não existe prova, nem especulações mais consistentes, de que exista vida em toda extensão do universo, muito menos consciente como a nossa. A dos ditos homo sapiens.

Especula-se que da vida monocelular à vida complexa, com o conseqüente surgimento da inteligência, passou o lapso de tempo de nada menos que quatro bilhões de anos, pelo calendário terráqueo.

Se tomarmos o início a civilização como o início do clima ameno atual, a saída do homem das cavernas para a vida em sociedade nas planícies, com suas ferramentas de pedra e domesticação de animais, o nosso estilo social de viver começou há cerca de 18 mil anos. Se tomarmos como início da civilização a construção da primeira cidade murada, que foi Jericó na Palestina, data de oito mil e oitocentos anos. Mas se nossa referência for a escrita, a civilização não passa de seis mil anos. Toda essa sopa de informações é só para chegar a uma conclusão desesperadora: ante a existência do universo, a vida inteligente começou ontem e a civilização está começando agora.

Pior de tudo é que está começando pelo lado de acabar.  O surgimento da revolução industrial com a queima de combustíveis fósseis, com a liberação de gás estufa parcimoniosamente aprisionado pela natureza ao longo das eras geológica, começou há apenas trezentos anos. O automóvel, coitadinho, o ícone desse processo, é apenas um menino centenário.

No entanto, e bota no entanto nisso, já estamos empestando o planeta. O clima, em toda parte, está ficando irremediavelmente insalubre. Providências que são alardeadas como redentoras, não passam de lábia barata, de meros argumentos de venda de produtos. Na verdade nada de positivo trazem para a salvação da bolha terrena, onde a vida milagrosamente prosperou até a gora.

É o caso do etanol, por exemplo. Segundo recente pesquisa, se for mobilizado todo o potencial da Terra para produzi-lo, sem levar o mundo a uma hecatombe pela escassez de alimentos, seria o suficiente para movimentar parcos vinte por cento da frota de carros existentes no planeta.

Considerando a quantidade-monstro de carros que são enfiados nas ruas e estradas a cada ano, esse etanol daria apenas para rodar os carros que vão entram em operação nos próximos três anos. A frota já existente e a que virá a partir de 2011 terão que ser impulsionadas mesmo é com a velho e letal combustível fóssil. E a bolha que sustém a vida está indo irremediavelmente pro beleléu.

Posso estar sendo chato em insistir nesse tema de meio ambiente numa página de cultura e estética. Chato sim. Mas o chato mesmo é pensar que não há estética nem qualquer tipo de cultura que sobreviva ao fim das espécies, com o homo sapiens no meio.  

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POR EM 19/03/2008 ÀS 07:57 PM

Amor ao perigo e morte

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Escrito no século 2 antes de Cristo, o Livro Eclesiástico, que compõe o Velho Testamento, é um conjunto de advertências aos judeus sobre os perigos da adesão aos novos costumes mundanos, por influência da cultura grega. Uma das mensagens mais conhecidas desse livro é: quem ama o perigo, nele perecerá (Eclo 3,27).
 
Se trouxermos esta frase para o contexto atual, poderíamos imediatamente identificar semelhanças da situação do mundo de hoje com a de Jerusalém daquela época. Hoje o mundo, pelo menos em grande parte, vive sob forte influência cultural norte-americana. Sendo a sociedade de consumo a ponta de lança dessa cultura.
 
Tento aqui uma pequena diferenciação: sociedade de consumo e sociedade que consome. Sociedade que consome é aquela que usa parcimoniosamente os bens materiais para manter o seu metabolismo em equilíbrio, que consome para viver. Já sociedade de consumo é aquela que vive para consumir, até explodir-se pelo acúmulo da própria “gordura”. Na sociedade de consumo, consumir é um fim em si mesmo. Na sociedade que consome, o consumo é um meio de manutenção, equilíbrio e busca de um fim. Sob influência americana, o consumo está se tornando a razão de tudo. E, sendo a razão de tudo, o consumo acaba por esvaziar o sentido verdadeiro da vida. O ser humano se torna objeto, mercadoria descartável, coisa de vitrine. Metabolismo do capital.
 
Dentro desta sociedade de consumo em que vivemos, qual objeto mais amamos? Sem dúvida o automóvel é o ícone desse sistema. Amamos o automóvel acima de todas as coisas. O automóvel nos dá status, nos serve de vitrine, complementa a nossa parte mais sensível que é o ego (o bolso só é sensível porque é propriedade do ego). E eventualmente nos conduz de um lugar para outro.
 
Nosso amor ao carro chegou a tal ponto que para nós é mais importante andar num carro vistoso do que morar numa casa confortável. É preferível ter um carro do ano a uma família equilibrada. É mais legal ter um carrão luzidio que um coração saudável. Tal é o amor que devotamos ao automóvel.
 
Mas o automóvel é um perigo (como de resto a sociedade de consumo). E como diz a sentença do antigo sábio, que parece mais atual do que nunca, quem ama o perigo, nele perecerá. No tempo daquele sábio, o perigo era para Jerusalém. Hoje quem está em risco é o planeta.
 
Há exatos 100 anos que o automóvel entrou no cenário de nossas ilusões, com o Ford T. Segundo recentes pesquisas, a emissão de CO2 no século do automóvel foi superior ao que foi lançado na atmosfera em milhões de anos. O CO2 é exatamente o gás que acelera o processo de esquentamento do planeta. Se o fato fosse só esquentar uns grauzinhos a mais a gente até tolerava numa boa. Mas as conseqüências desse aumento de calor é um desastre sem tamanho. Mudam-se os regimes das chuvas, o ciclo de vida dos vegetais, espécies essenciais na cadeia da vida desaparecem, sobem as águas dos oceanos. Aparecem tufões indômitos, chuvas ácidas, zonas desérticas, provocando grandes levas de desabrigados. Microorganismos antes benignos ou inertes se tornam letais. Um horror.
 
Mas tudo bem. O prazer de continuar consumindo carros compensa o sacrifício. Principalmente agora que há uma tendência de substituir gradativamente o petróleo combustível pelo etanol, que é menos poluente. Podemos continuar desfilando em nossos carrões e aliviando o efeito estufa.
 
Tudo bem uma pinóia! Os primeiros sinais perversos do uso do etanol já estão dando as caras. Começa com o avanço da agricultura sobre o restante das áreas verdes, como a Amazônia, por exemplo. Com o desvio de alimentos para a produção de combustível, o preço da comida ao redor do mundo está subindo numa escalada sem precedentes desde a Segunda Guerra. Em breve, contingentes enormes que hoje estão se alimentando com regularidade vão começar a passar fome, porque as terras que antes produziam alimento humano estarão voltadas exclusivamente para a produção de alimento veicular.
 
Enquanto isso, milhões de novos carros entulham as ruas do mundo diariamente. Nas grandes cidades o carro já está perdendo viabilidade como meio de transporte. Em São Paulo, por exemplo, já têm ocorrido congestionamentos-monstro de quase 200 quilômetros. Mas um carro no engarrafamento queima mais combustível do que desenvolvendo velocidade. A produção de etanol não será suficiente para atender ao crescimento da demanda. Sobretudo quando as sociedades reclamarem maior oferta de alimentos, a indústria do petróleo terá nova onda de crescimento, para suprir a falta de combustível renovável. Porque a gente ama o carro. E matéria prima não há de faltar. O derretimento dos gelos polares, provocado exatamente pela emissão de CO2 do carro, permitiu a descoberta de jazidas-gigante no pólo Ártico.
 
Quando voltarmos com gosto de gás (sem trocadilho) para o uso do petróleo, a curva do aquecimento global vai subir a olhos vistos. Aí sim, estaremos tomando banho de sol na praia em véspera de tsunâmi.
 
Quem ama o perigo, nele perecerá: a advertência de um certo Jesus ben Eleazar (que não é o Messias), continua reverberando na sociedade de consumo. Mas quem está ligando pra isso, se daqui a pouco vou desfilar minha figura impoluta na passarela das ruas e avenidas num carrão último tipo!
 
E assim vamos nós, tocando a vida em frente, rumo ao grande desastre. O homo sapiens, na verdade, não seria, digamos, o homo estupiens? 

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POR EM 10/03/2008 ÀS 09:36 AM

Anhangüera: herói ou vilão?

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Não dá para se fazer uma avaliação dos empreendimentos realizados por Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhangüera, sob a luz da conjuntura atual. Para avaliar esse ícone da História de Goiás, com o mínimo de justiça, é preciso, primeiramente, situá-lo no contexto do segundo quartel do século 18, no auge do período colonial.

Havia uma ordem mundial, cuja sustentação era o sistema colonial vigente. Havia um pacto que, simplificando, funcionava assim: A colônia (no caso Brasil, Goiás) entrava com a matéria prima, basicamente ouro e produtos agrícolas. Em troca a metrópole promovia a integração dentro de uma ordem econômica nacional e internacional e dava, sobretudo, proteção contra invasores estrangeiros.

Pelo Tratado de Tordesilhas de 1494, das terras descobertas na América do Sul, só era de Portugal o que ficasse a leste dessa linha, que ia do Rio de Janeiro à foz do Parnaíba, entre Piauí e Maranhão. Mas o tratado foi sendo derruído pela ação dos bandeirantes, que ignoravam a divisória e iam adentrando os sertões. Não fosse a ação desses homens intrépidos, o Brasil teria hoje mais ou menos um décimo de sua extensão territorial. Goiás mesmo seria resultante da colonização espanhola. Talvez a gente não fosse um estado-membro, mas estado um soberano, assim como Paraguai, Bolívia, Honduras, Nicarágua.

O historiador Afonso Taunay considera o Anhangüera como um dos mais brilhantes servidores da Coroa Portuguesa de todos os tempos. Foi destemido, realizador, operante e honesto (coisas que tanto nos carecem hoje em dia). Sua bandeira que descobriu as minas dos Goyazes foi extremamente arriscada, mas muito bem sucedida. Pelos feitos extraordinários, a Coroa o premiou com o pedágio dos rios, de São Paulo até Goiás, com faixas de terras às margens da estrada, além de tê-lo nomeado o primeiro superintendente das minas.

Na prática, Anhangüera foi o nosso primeiro governador, enfeixando nas mãos o executivo, o legislativo e o judiciário (não há que taxá-lo de ditador, pois só meio século mais tarde é que Montesquieu conceberia o sistema de separação de poderes). Apesar das dificuldades e de todo tipo de carências, implementou a mineração com eficácia, descobriu novas frentes de ouro e diamante, atendendo aos anseios da Coroa, como um administrador diligente.

Seu sucesso despertou ira invejosa em outros políticos. Nessa disputa de bens e poderes, Anhangüera foi covardemente prejudicado. Primeiramente lhe afanaram as passagens dos rios, que eram uma fonte considerável de renda. Depois lhe tomaram as terras. Na tentativa de recuperar seus bens, recorreu à justiça portuguesa. Seu sobrinho Bento Paes, advogado, morreu afogado em Lisboa, quando atuava no processo. Seu genro João Leite (que dá nome a um dos rios que serve Goiânia) foi assassinado por um integrante de sua comitiva, a caminho de Lisboa, para onde ia atuar no processo.
 
Anhangüera foi rebaixado a comandante das forças (que não existiam).  Em 1739, o novo governador, vendo a injustiça que sofria e a penúria por que passava, lhe concedeu uma arrouba de ouro como antecipação de seus direitos. E em sua homenagem chamou o distrito de Santana (fundado por Anhangüera) de Vila-Boa (Bueno do castelhano). E esta foi a primeira capital do Estado.

Mas Anhangüera parece ser mesmo um herói fatal. Dado a sofrer perseguições até séculos depois de sua morte. Não é de ver que agora há políticos, não sei se por ignorância ou má-fé, que lhe atribuem estupros de índias e outros crimes hediondos e querem derrubar sua estátua do centro da cidade?  

 


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POR EM 02/03/2008 ÀS 05:43 PM

Cara de sucupira

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Entrei num desses sites que têm link com os principais jornais de todo o País. Meu propósito era ver as chamadas de capa de pelo menos dois jornais de cada capital e de um jornal das maiores cidades. Queria ver que assunto estaria presente em todos ou pelo menos na maioria de nossos diários. Obviamente que não entraram nessa categoria fatos de repercussão nacional ou internacional, como a visita do presidente Lula à Argentina, a ascensão de Barack Obama ou a renúncia de Fidel. A intenção era ver o assunto coincidente, mas por ocorrência local.

        
Eu me daria por satisfeito se encontrasse um assunto sendo abordado em pelo menos 50% dos jornais. Digamos: acidente de trânsito, transbordamento de rios, tráfego de mulheres, assassinato por encomenda, pedofilia etc.

        
Para minha surpresa, fui muito bem sucedido em minha empreitada. Longe de ficar num percentual de 50% de jornais, encontrei em 100% de todos que pesquisei um tema que se repetia. E o assunto não era outro senão a corrupção. A velha e nova e sempre renovada corrupção, que assola o País de cabo a rabo.

        
São vendas de guias fajutas a madeireiros por órgãos que têm a obrigação de inibir a atividade, fraude a licitações em prefeituras, formação de milícias para extorquir moradores de favelas, uso de cartão corporativo com gastos pessoais, cobrança por fora de taxas a feirantes, fiscais que achacam empresários, jogo de bingo com beneplácito das autoridades policiais, venda de sentença, merendeira de escola que cria  porcos com os víveres que conseguia subtrair. E por aí vai. O cardápio é variadíssimo.

        
A deduzir pelas chamadas, o Brasil continua sendo uma terra de forasteiros, onde cada qual pensa em retirar o seu e se mandar. É como se o País fosse um entregador de carne. Mas no meio do caminho é atacado por uma alcatéia de hienas e todo o carregamento se perde, com o risco até de perder a própria vida.

        
Outra imagem que me vem é aquela de O velho e o mar de Ernest Hemingway. Depois de uma temporada ruim, o velho pescador fisga um peixe maior do que todos que vira até então. Com muita luta e sofrimento, consegue cansá-lo.  Com ele sob domínio e amarrado à popa de seu barquinho, empreende o caminho de volta para a aldeia. Mas antes que começasse a curtir a vitória daquela pescaria, dão início os ataques dos predadores. Por mais que se esforçasse não conseguiu evitar que os tubarões dilacerassem sua presa fabulosa. Quase sem vida, o velho consegue ancorar na aldeia mas, do grande peixe, já aliviado em suas carnes, levava apenas o espinhaço. É o país que poderíamos ser, mas a corrupção deixa sem as carnes.

        
Das chamadas, uma das mais inusitadas que vi foi, por coincidência, de Goiás: Ibama registra despesas de R$ 23 mil em clínica de estética. Como eu não estava lendo as matérias, fiquei fazendo suposições. Como poderia o Ibama utilizar serviços de uma clínica de estética?

        
Será que o órgão, depois de cochilar estes anos todos e deixar que praticamente demolissem um dos ecossistemas mais importantes do mundo, que é o cerrado, revolveu tirar o atraso. Agora, pra compensar, estaria concedendo às espécies salvadas um tratamento VIP? Como por exemplo, submetendo as árvores de sucupira a banhos de óleo de peroba em sua casca ressecada? Levando as antas para fazer lifting, massagem nos caititus, hidratação de pêlo nas capivaras?

        
Ou será que o óleo de peroba é apenas para passar na cara de sucupira de uma sociedade que nem se revolta mais diante de tanta desfaçatez?             

 

 

 

 

 

 


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