revista bula
POR EM 30/04/2012 ÀS 11:31 PM

Nem tudo o que é sólido desmancha no ar

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O ouro que bandeirantes, escravos e aventureiros extraíram de Goiás, Minas e Mato-Grosso, no século 18, foi repassado quase que em sua totalidade à Inglaterra, por força de um tratado que incluía a proteção militar a Portugal e suas caravelas ao redor do mundo. O aporte financeiro do ouro possibilitou à Inglaterra disparar a Revolução Industrial, bancando os custos da mudança de uma produção de bases artesanais por meio das associações de ofício para a produção em escala, tendo como força motriz a máquina a vapor. Vários países detinham o conhecimento para detonar a Revolução Industrial. Dentre eles a França, a Holanda, a Alemanha. Mas foi a Inglaterra quem amealhou os recursos suficientes para a grande virada na economia. Abriu assim as cortinas para o capitalismo contemporâneo. 

Hoje a economia global passa por crises. No entanto, o ouro continua a jorrar para certas empresas. Agora o ouro da Terra é a economia capilar, da computação em nuvem, das empresas pontocom. Conseguem sugar microgotas de sangue de economias e pessoas combalidas em todo o mundo, por meio das redes sociais. Empresas saem do zero a bilhões de dólares num prazo em que, no Brasil, mal daria para se tirar o CNPJ e o alvará de localização. Os recursos excedentes das empresas de computação em nuvem estão prestes a dar uma nova e espetacular guinada na economia. Engraçado que é um salto duplo carpado paradoxal: ao mesmo tempo para frente e para trás. Sócios do Google, do PayPal, da Microsoft e outros executivos megamonetizados de segmentos correlatos como o cineasta James Cameron (de “Titanic” e “Avatar”) fundaram uma empresa de mineração, saindo do virtual para o real. Não de uma mineração de cavoucar a terra e coar cascalho com peneiras e bateias. Isto não acresceria nenhum charme às suas personalidades já um tanto fulgurantes. Deixam isso para empreendedores mais toscos, de países emergentes, como Eike Batista.


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POR EM 12/04/2012 ÀS 02:25 PM

E se a vida tivesse fundo musical...

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Vida boa é de personagem. Antes que os fatos aconteçam, já tem uma musiquinha ao fundo, dando a dica do que vem pela frente. A vida da gente é um tanto mais precária se comparada com a dos personagens de filmes e novelas. 

Como seria a vida real se cada um de nós fosse portador de um ouvido invulgar para ouvir a música que toca em surdina, enquanto as coisas se preparam para acontecer? E se a audição não se restringisse exclusivamente à nossa música, mas pudéssemos sondar o futuro imediato dos outros e os outros também pudessem nos olhar com a percepção daquilo que nossa música prenuncia? 

A gente ia pela rua e avistava uma gata esplendorosa. E ela avistava a gente. Bastava sintonizar no som desse avistamento recíproco. Se tocasse uma música de protesto, um rap contra a polícia, nem precisaria tentar. Não teria rolado a química que autoriza uma aproximação proveitosa. Mas digamos que tocasse uma balada romântica, uma música clássica das cenas de amor. Um “Tema de Lara”, por exemplo, do filme “Dr. Jivago”. Aí, sim, era só investir com capricho e determinação que o resultado seria seguramente favorável, sem essas batalhas de tentativas e erros, que tanto nos aborrecem pela vida. Se rolasse um “Ai, se eu te pego”, ou outro hit do sertanejo universitário, seria só uma ventura, um rala e rola eventual e nada mais. A trilha sonora da vida real não serviria apenas para as conquistas amorosas. Sua utilidade se estenderia a todas as circunstâncias da vida. Você, no meio da noite erma, vai passando por uma avenida de luzes precárias. De repente vem vindo em direção contrária um grupo de rapazes, falando gíria e gingando o corpo e você se liga na trilha sonora. 


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POR EM 09/04/2012 ÀS 09:21 PM

O que a posteridade já fez por mim?

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A natureza está sitiada, colocando a qualidade de vida em risco. Não só a qualidade de vida do ponto de vista mercadológico, que consiste em consumir porções diárias cada vez maiores. Mas a qualidade de vida mesma, com a entrada em cena de novas intempéries, novas doenças pela alteração de micro-organismos, a incapacidade de regeneração de nossos estragos, o declínio da fertilidade do solo, o desconforto pela insalubridade geral do clima, a toxidade nuclear.

Pelo porte do problema uma ação efetiva teria que partir de uma ação enérgica dos Estados nacionais e contar com o apoio, espontâneo ou induzido, da maioria da população do planeta. Mas os Estados são monstros esquizofrênicos (Leviatãs?). A parte encarregada de cuidar da natureza é fraquinha e ineficiente, quando não um mero balcão expedidor de alvarás. Não para evitar a destruição, mas para promovê-la de forma consentida e certificada. Destruição certificada com ISO. As agências ambientais dos países não têm poder de legislar (ou propor leis) nem eficácia em suas ações fiscalizatórias. As multas impostas aos poluidores quase nunca são quitadas; os incentivos aos preservadores raramente são saldados. A ação do governo se limita a expedir relatórios de questões isoladas sem gerar condições básicas para ações concretas. E com frequência muito acima do conveniente se envolvem em esquemas de oferecimento de dificuldades para vender facilidades. Enquanto isso os órgãos de exploração dispõem da potência bruta de cavar buracos de milhares de metros  e retirar o sumo da terra onde ele estiver. De devastar tabuleiros e serras, der transpor rios e drenar os charcos.  De poluir o ar, empestear a água, de gerar um barulho ensurdecedor, afugentando a quietude da janela climática que permitiu nosso impulso civilizatório, forjando um ambiente propício à aparição das sete mil pragas da pós-modernidade.    


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POR EM 10/03/2012 ÀS 08:30 PM

A base do governo e a TPM (tensão pró-monetária)

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Leio nos jornais que a base do governo, da extrema direita à extrema esquerda, está tensa. A base exige aprovação de verbas para projetos e emendas. Não que esses projetos e essas emendas venham trazer benefícios para o povo que os parlamentares representam. Não. Não é nada disso. 

A base do governo está tensa e a psicologia do poder já diagnosticou o quadro clínico. É preciso liberar grana, grana da grossa, para aplacar a neura que acomete as senhoras e os senhores parlamentares que estão tensos. Senão a rebordosa pode atingir o governo de cabo a rabo. Os políticos foram atacados por uma epidemia: a famosa síndrome de abstinência de recursos do erário. Doença grave, crônica e de tratamento caríssimo. Mal complexo engendrado por patologia multidisciplinar: falhas do caráter, ambição desmedida e ignorância da plebe. 

A base do governo está que nem um cônjuge desatinado: quer trair. Quer trair a todo custo e não importa com quem nem por quê. Quer trair. E não apenas trair: quer satisfazer suas fantasias monetárias. Coisas que talvez nem Freud explique. Quer prevaricar com o suado dinheiro do povo. Quer dinheiro pra campanha nas eleições que se avizinham. Quer dinheiro pra sobra de campanha. Afinal, é preciso se segurar no banquete para a orgia do poder. É preciso nutrir as empresas Offshore, as ONGs de araque. É preciso engordar as contas secretas nos paraísos fiscais. Por tudo isso e por algo mais é que a base está assim tão tensa. 


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POR EM 23/02/2012 ÀS 03:03 PM

O futuro: adeus, pertences!

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A dizimação e o esgotamento da natureza envolvem causas e feitos complexos. E mesmo sendo o Homo sapiens, pela própria condição, a única espécie animal (embora nossa cultura tradicional quer que sejamos divinos) que poderia se sentir no dever moral de fazer algo efetivo pela preservação da própria vida na Terra, não tem encontrado no conhecimento uma família de pensamento ético que lhe dê segurança psicológica de que vale a pena o sacrifício. É neste contexto, que tenho dito em artigos desta série que, quando o assunto é preservar nossa célula de sobrevivência, o suporte da vida, que é a biosfera, a razão está subjugada pela emoção e a inteligência está a serviço da estupidez.

Ocorre que a maioria de nós funciona melhor e na maior parte do tempo no plano intuitivo e só ascendemos (ou descemos?) ao plano crítico quando somos forçados por algum dilema no plano intuitivo. Em complemento, uma postura hedonista é que orienta nossos atos. Afastamos de alguma coisa se ela nos causa dor ou desgosto e aproximamos de outra se nos causa prazer ou satisfação. Odiamos quem nos repreenda e amamos quem nos elogie. Preferimos um elogio falso a uma repreensão sincera. Quem diz o contrário ou o faz por hipocrisia ou por um surto de racionalidade. Zelar pela preservação do meio ambiente requer desligar o piloto automático da intuição e agir em grande parte com o lado racional e crítico, impondo a si mesmo, aos seus e à sua geração algum tipo de sacrifício e dor. Ou pelo menos a mudança de alguns hábitos e a possível descoberta de outros prazeres que estão além do meramente emocional.


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POR EM 09/02/2012 ÀS 02:40 PM

Pode detonar que Deus recupera

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Qualquer pessoa, minimamente perceptiva, que observar a realidade ambiental, haverá de descobrir que esta frágil placenta em torno do planeta, como um líquen envolvendo um rochedo, e que dá sustentação à vida, está passando por um processo de desgaste superior à sua capacidade de regeneração.

Sem o auxílio de equipamentos tecnológicos, nem estudos sistematizados, pode se ver os rios apodrecendo com nossos dejetos. Outros sendo assoreados até perder a calha para virar águas andarilhas, transformando vastas planícies em alagados inúteis. Terras antes férteis sendo levadas por erosões furiosas, cedendo lugar a ravinas que não param de crescer. A dizimação de áreas verdes, a poluição do ar, o calor crescente, as tempestades cada vez mais hostis. Córregos secando, desaparecimento de espécies num ritmo cada vez mais embalado. Tudo isso testemunha um desastre anunciado.

É possível também constatar, ou pelo menos deduzir num nível que se permite tirar conclusões bastante convictas, de que a ação do homem neste momento civilizatório tem o poder de acelerar ou retardar o processo de desordem nos sistemas de suporte da vida. Por isso os cientistas chamam este momento de Era Antropozóica. Quando se amplia os sentidos com as ferramentas de prospecção, ou se adiciona ao entendimento as informações sistematizadas e as conclusões das pesquisas científicas, a situação se apresenta escancarada: a continuar o modelo desenvolvimentista atual, é questão de décadas para que nossos biomas entrem em colapso. Se toda a população da Terra atingir o nível de vida (nível de consumo) dos americanos, precisaremos de 5,3 planetas para sobreviver. E o que é mais grave: não sabemos a hora exata em que ocorrerá o ponto de virada. Quando o próprio sistema de apodrecimento se auto-alimentará, sem nos dar chances de um arrependimento eficaz. Mais grave ainda: não localizamos meios ambientes alternativos, onde possamos resguardar os nossos descendentes.


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POR EM 27/12/2011 ÀS 11:31 AM

102 coisas para fazer em 2012

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É inevitável: o ano de 2012 será marcado pelas profecias ruins do calendário maia. Como já estamos cismados, qualquer mugido do clima e já estaremos pensando nas catástrofes do fim do mundo. Mesmo que a profecia não aconteça no atacado, ela tenderá a ocorrer no varejo, no plano pessoal. Nesse clima de pânico, a palavra de ordem é ESCAPAR. Tanto no sentido de fugir quanto no sentido de sobreviver. Assim sendo, muito do que devemos fazer em 2012 será relacionado a essa máxima:  fuja e sobreviva. No entanto, mesmo diante de tanta neura, não se deve é perder a ternura. 

1 – comprar repelentes contra as catástrofes anunciadas

2 – escapar de zonas conflagradas pelo clima

3 – escapar da blitz da lei seca e de qualquer cerco da polícia

4 – recitar um poema à pessoa querida

5 – escapar dos assaltantes, traficantes e 171

6 – escapar dos políticos e das milícias

7 – escapar dos bancos, seguradoras, governo e do fisco

8 – casar por amor

9 – jantar com a família num ritual de boa convivência

10 – trabalhar menos e ganhar mais (ainda que em moeda existencial)...
 


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POR EM 15/12/2011 ÀS 07:25 PM

O céu (danificado) pode esperar

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Posso até estar enganado, mas não há um assunto mais importante e urgente para o governo, em parceria com toda a sociedade brasileira, do que promover ações efetivas para a redução nas emissões de CO2 e estabelecer políticas econômicas baseadas em sustentabilidade ambiental. No entanto, o governo anda ocupado demais com espumas para cuidar do caldo.   

Por que essa urgência e essa importância? Ocorre que qualquer outra ação do governo que venha a se frustrar, o estrago advindo será menor do que aquele provocado por uma eventual ruína de nossos biomas. Afinal, constituímos um país em que a riqueza está basicamente amparada pelos recursos climáticos e naturais. É claro que em qualquer lugar do mundo o ambiente se constitui no suporte da vida. Mas no Brasil, além de ser o suporte da vida, é também o suporte da grana.   

O governo Dilma herdou do governo Lula uma proposta, ainda que meia-boca, que tenta conciliar crescimento econômico com preservação ambiental, começando com a meta de reduzir 39% das emissões de carbono até o ano de 2020. Aliás, esta foi a bandeira que a então candidata Dilma abanou aos ambientalistas. Ao que parece, a presidente Dilma até agora não acordou para o problema. Ou pelo menos não tem  conseguido se desvencilhar de questões supérfluas e menores, que vêm vampirizando seu sangue administrativo e exaurindo as forças de comando. Seu governo não consegue energia extra para aplicar à governança além das questões das demissões em série de seus ministros trapalhões. Foram sete rodados em 11 meses e é possível que mais um ainda rode para fechar o ano numa conta mais cabalista e simétrica, de um ministro defenestrado a cada 45 dias.    


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POR EM 28/11/2011 ÀS 11:04 AM

O que você fez em 2011?

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Parece que foi ainda agora que a gente sugeriu 101 coisas para fazer em 2011. Mas 2011 já vai se encaminhando para o encerramento. Assim se passa um ano, a juventude, a maturidade, a vida, enfim. De vez em quando é bom dar uma paradinha e conferir como vai o andamento das coisas. É claro que a lista tem propósitos mais de divertir do que de edificar. Mesmo assim, vale a pena revê-la e conferir o que você pensou em fazer e o que de fato fez. E eventualmente melhorar o desempenho no mês que ainda resta.

101 coisas para fazer em 2011 

1 — colocar esta lista em ordem;

2 — fazer um checkup;

3 — fazer um exame de consciência;

4 — deixar o script alheio e viver o seu próprio;

5 — derrubar uma árvore (que ameaça cair sobre sua casa);

6 — trocar a fiação da casa (antes que ela incendeie);

7 — clarear os dentes;

8 — clarear as vistas;

9 – retirar as manchas da pele;

10 — retirar (ou assumir) as manchas da personalidade;

11 — retirar os caroços do corpo (exceto os essenciais).


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POR EM 04/11/2011 ÀS 01:39 PM

O país dos aleijões

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A sociedade brasileira parece decididamente inclinada ao aleijão, à monstruosidade. E não é de uma simples deformidade que, pelo viés do politicamente correto, se possa chamar de “diversamente capacitado”. Não. O poder dominante está permeado pelo “aleijão incapacitante”, sem rodeios. Aleijão, no apelido terminológico, é teratologia. O Brasil é um país teratológico que, com uma frequência muito elevada, se deixa contaminar por ideias monstruosas.

Isso ocorre, sobretudo, em circunstâncias altamente burocráticas, em que a sensibilidade e o senso de sintonia com a condição humana deixaram de compor as determinantes da realidade. E acabam por orientar as ações de governo.

Fatos aberrantes são recorrentes em nossa história. No entanto, vamos a alguns exemplos que ainda estão frescos em nossas lembranças. Norteado por aleijões da linguística aplicada à nossa confusa e inoperante pedagogia, o Ministério da Educação chegou às raias do absurdo de praticamente proibir o ensino do vernáculo em nossas escolas. O fundamento foi a alegação de que a escola, ao proceder à correção dos “fora-da-gramática”, ou seja, ensinando a língua gramatical ao sujeito que conhece apenas a língua coloquial, estaria exercendo discriminação linguística contra ele. A alegação parece até ser lógica. Mas absolutamente não é. Trata-se apenas um aleijão da lógica. Lembre-se: o indivíduo vai à escola para “construir o saber”.


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