revista bula
POR EM 18/05/2012 ÀS 11:17 AM

MMA: bate que eu gosto

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Cabeçada. Dedo no olho. Mordida. Puxões nos cabelos. Beliscões. Cócegas no sovaco. Arranhaduras. Cusparada no rosto. Chute no escroto. Murro no escroto. Mordidas no escroto. Qualquer tipo de ataque contra os preciosos escrotos. Golpear os rins utilizando os calcanhares. Enfiar o dedo no ânus, nas narinas, nos ouvidos, ou qualquer outro tipo orifício, tais como cortes e lacerações. É proibido enfiar o dedo na ferida, literalmente.

Telefone (técnica de tortura muito utilizada pelos antigos regimes militares, que consiste em palmadas simultâneas nas orelhas). Porrada na coluna vertebral. Pancada na nuca. Cotovelada desferida de cima para baixo. Atacar a garganta. Chutar a cabeça do adversário como se fosse uma bola de futebol, enquanto ele estiver rendido na lona. Joelhada na cabeça, se o sujeito estiver prostrado. Arremessar o adversário para fora do ringue, como num desenho animado.

Segurar o inimigo pelas ceroulas. Utilizar linguagem imprópria ou abusiva no ringue (O que seria tão impróprio e abusivo: “Tô pegando sua mulher”? “Vem no colinho do papai”? “Deus não existe”? “Você é amigo do Carlinhos Cachoeira”? “Seu pênis é menor que o meu”?). Passar na superfície do corpo gosmas e melecas escorregadias. Imitar um bagre ensaboado. Atacar o adversário nos intervalos. Desistir do combate. Acovardar-se. Fingir lesão. Fingir compaixão. Jogar a toalha durante a luta. Cair na lona de joelhos, estender os dedinhos indicadores para o céu e agradecer a Deus por ter destroçado o adversário.


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POR EM 11/05/2012 ÀS 04:07 PM

Deus embarca pessoas em helicópteros que explodem

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Quando se tem de cara a morte, o ser humano é capaz de comportamentos os mais extremos, como esmagar a garganta de um agressor potencial, rir em sinal de desespero, desfalecer, ou tentar parar as balas com as próprias mãos.

Acostumados ao serviço digno e sujo de verificar carniças humanas, os peritos criminais bem sabem como são corriqueiras as mãos destrocadas por projéteis nas vítimas de execução, à queima roupa, por arma de fogo. Quanta miséria... É muita ingenuidade da vítima crer na compaixão extemporânea de um facínora ou na eficácia de um escudo tão vulnerável quanto as próprias mãos, feitas de pele e ossículos.

Dizer o que se oferece dizível, repetir apenas o repetível, propalar comentários insensatos parece ser uma das normas àquelas pessoas tomadas pelo trauma psíquico e pela profunda crise existencial. No jornal que leio há uma entrevista emocionada de um detetive que escapara por pouco de morrer na queda de um helicóptero. O acidente, contudo, ceifou a vida de sete dos seus desafortunados companheiros de trabalho.

“Deus me tirou daquela aeronave na noite de ontem”, ele comemorou com os repórteres, ao justificar que não embarcara com os demais por conta de “incidentes de última hora”, alguma coisa do tipo “terminar minha declaração de imposto de renda” ou “deixar o carro da esposa na revisão na manhã seguinte“. Baseado nesta assertiva de quem acaba de escapulir de um mergulho na imensidão do nada, deduz-se que o Mentor do Universo selecionara, colocara outras tantas pessoas desavisadas no interior daquela máquina mortífera, por puro capricho, por simples merecimento das vítimas escolhidas a dedo, ou por meio de um planejamento morticida-ressuscitatório absolutamente incompreensível à mente humana, para não dizer inaceitável. Ora, declarações como aquelas são só coisas impensadas que dizemos a esmo, como “eu te amarei para sempre, até que a morte nos separe”, por exemplo.


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POR EM 04/05/2012 ÀS 08:39 PM

Morte: um fenômeno irritante

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Por ser ofício invulgar, segurar em alça de caixão, conduzir inanimados definitivos para as catacumbas não deveria jamais se prestar ao regozijo de puxa-sacos e dos baba-ovos. Mas acontece. Eu sei que acontece. Dependendo da importância do defunto, seja ela patrimonial, cultural ou política — principalmente, neste último caso — os aproveitadores de acotovelam para conduzir o pobre diabo pra dentro do buraco. Se pudesse, se o coisa-ruim me acenasse o  seu tridente da escuridão da terra, eu sim os empurraria todos para o vazio da cova.

Sucedeu que o sujeito apagou aos 93 anos de idade, apesar dos cigarros de palha, da aguardente e carne de lata. Viveu pra dedéu e o povo da região garantia: era, sim, um homem de bem. Nasceu, cresceu, casou e procriou na roça, no mesmo casarão antigo em que seu pai e o pai do seu pai também nasceram, viveram e sumiram. Naquelas bandas, nunca se ouviu um só fato que o desabonasse. Ao contrário, era tido e havido como justo e correto, “apesar de namorador e aficionado pela pinga na sua mocidade”. O povão maledicente sempre cavouca, pesquisa ou inventa algum deslize no qual se arvorar para denegrir, nem que seja um pouquinho, a reputação de quem quer que seja. Maldadezinhas básicas. Coisas de ser humano. Pois bem, acontece que o velho foi pego por uma gripe e terminou adoecendo profundamente. A moléstia evoluiu para uma pneumonia dupla (é assim que se diz vulgarmente quando a infecção atinge ambos os pulmões), que avançou para a tal infecção generalizada. Daí, vocês já sabem: o bicho pega, fica difícil escapulir da senhora da foice.


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POR EM 27/04/2012 ÀS 11:12 AM

40 sugestões de nomes infames para duplas sertanejas fadadas ao fracasso

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É como diriam São Francisco de Assis, Bruna Surfistinha e Os Anões do Orçamento (num país de escândalos diuturnos, será que alguém ainda se lembra deste bando de engravatados?): “É dando que se recebe”. Mesmo não sendo santo, ex-prostituta ou deputado corrupto, proporcionarei aos leitores desta crônica, sem qualquer ônus ou favorecimento financeiro, e com o espírito absolutamente franciscano, dicas incríveis de pseudônimos para duplas de cantores (?!) sertanejos (?!).

Abandonado à própria sorte, ceifado de qualquer nesga inspiratória relevante e inteligente, a mim ocorreu redigir um texto de linhagem conspiratória e, quem sabe, até mesmo risível (se não, desprezível). Eu pretendia bolar, concatenar, gastar tempo, cumprir obrigações legais e satisfações morais junto ao editor, garantindo um texto, arrancando sangue da pedra.

Então, num rompante de apelação, enumerei codinomes implausíveis para duplas de cantores sertanejos com gel nos cabelos, criaturas anônimas interessadíssimas no estrelato a qualquer custo, na riqueza e na respeitabilidade que a fama proporciona, ainda que a suposta celebridade seja uma besta quadrada, um redondíssimo zero à esquerda do ponto de vista cultural-intelectual. É claro: para que o sucesso venha a rodo neste prostituído universo da música comercial, fundamental será que se evite, sobretudo, acatar a lista abaixo. Ela é poço de cinismo e sarcasmo. 


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POR EM 20/04/2012 ÀS 07:04 PM

Meu querido mafioso padrinho de casamento

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Enquanto mirava pelo vão da cela a lua dependurada no céu estrelado, Sepúlveda Embornal — mais conhecido na raissoçaite como “Nhambuzinho na Capanga” — pensava no pai que fora sepultado pela manhã. E ele ali: preso, sem que ao menos pudesse prestar ao velhote — que foi quem começou todo aquele emaranhado de negócios lícitos e escusos super bem sucedidos — uma derradeira homenagem, enquanto a urna de pau brasil cravejada com penduricalhos de ouro descia no vazio da cova, ao som de “Carinhoso”, tocado magistralmente por um trio de cordas.

Abatido por um desgosto profundo que fez explodir um aneurisma no meio da gelatina cerebral, o barão teve morte súbita ao tomar ciência que o filho fora capturado, acusado de tráfico internacional de órgãos humanos e outros crimes menores deveras corriqueiros como rinhas de galo, compra de votos para correligionários, tráfico de influência nos vários poderes da república dos bananas, desmatamento da floresta amazônica para comercialização ilegal de madeira, destruição do cerrado pra fazer carvão e criar nelores, dentre otras cositas más.

O esquema era o seguinte: raptar e executar menores de rua, de preferência aqueles viciados que perambulavam pelas várias cracolândias do país, além da estripação dos mesmos e contrabando das vísceras. “No futuro, a história vai reconhecer o meu papel: estou prestando um bem imensurável à nação, ao retirar do convívio social estes jovens degenerados ”, lamentava Nhambuzinho em suas reflexões neonazistas. 


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POR EM 13/04/2012 ÀS 04:38 PM

Rio + 20 % (por fora)

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Se o mundo não acabar até lá, acontece em agosto, mês de cachorro doido, o Rio + 20 % (por fora), o maior conclave mundial secreto de celerados que se tem notícia desde que roubaram os pregos com os quais o nazareno foi crucificado. Hilários relatórios da história — boletins de ocorrência centenários registrados em papiros — dão conta que um fariseu inescrupuloso subtraiu e vendeu a 20 moedas cada prego utilizado na crucificação do messias. O manto sagrado, como é de conhecimento público, ficou mesmo com Richard Burton (confira tudo no velho filme “O Manto Sagrado”, de Henry Coster, 1953 D.C.)

Esta atrevida e marginal conferência da OMU — Organização dos Mafiosos Unidos — reunirá os mais simpáticos, comunicativos e bem relacionados larápios do colarinho branco de todo o planeta, desde que eles não estejam presos até aquela data ou ocupando cargos eletivos que garantam aos mesmos imunidade parlamentar e fórum privilegiado. Aos amigos, as benesses; aos inimigos, o rigor da lei. Lembram-se?

Não por acaso, o Brasil — terra boa e gostosa, da morena sestrosa de olhar indiferente — foi escolhido como esconderijo, ou melhor, como cativeiro-sede para receber a legião de vigaristas insaciáveis. Ladrõezinhos metidos a besta, os preconceituosos mentores da conferência e dos crimes organizados vetaram a participação dos seus pares irrisórios: os malandros pé-de-chinelo. Ou seja, os infiltrados ali presentes não vão se deparar com batedores de carteiras, ladrões de galinha, e outros profissionais medíocres no ofício de tomar o que não lhes pertence. Se Deus (Deusdete, advogado criminalista porreta) e os habeas corpus assim o permitirem, são esperados no Brasil — terra de samba e pandeiro do mulato inzoneiro — milhares de picaretas oriundos de várias facções.


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POR EM 06/04/2012 ÀS 06:02 PM

Tomando sopa com a Oprah Winfrey

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Fui enviado a Abadiânia pela Revista Bula a fim de conhecer de perto o trabalho de João de Deus, um fazendeiro cheio de filhos que se tornara guru naquela comunidade, e que supostamente curava doentes desenganados pela medicina tradicional. 

Fiquei motivado com a missão. Embora incrédulo — não me custava nada —, eu poderia reivindicar algum tipo de passe, magia ou unguento, algo que efetivamente fizesse brotar cabelos na minha cabeça, embora a calvície incomodasse muito menos do que a minha insegurança e ceticismo. Afinal, eu também era um desenganado. Um desenganado menor, mas, um desenganado. Aderir às perucas ou à legião de seguidores e serviçais de João de Deus não estava nos meus planos. 

O movimento no local era intenso. Naquele dia, em particular, alguém comentou que o ambiente estava ainda mais agitado que o habitual, por conta da presença de uma mulher negra, uma celebridade norte-americana que fazia uma visita. Olhando assim de longe vi que uma crioula simpática assistia ao transe de João, que enfiava o dedo fura-bolo num buraco cavado no lombo de uma mulher idosa. “A velha sofre de artrose, depressão e dores terríveis”, um curioso me relatou. A não ser pela velhice, pela artrose e pelas dores terríveis, eu até que me identifiquei com aquela moribunda. 

À primeira vista, pensei que a mulher negra fosse a cantora Whitney Houston, mas ela tinha morrido de overdose há poucos dias, em Los Angeles. Muita pretensão a minha, achar que a cantora faria uma aparição mediúnica pública em tão pouco tempo. Michelle Obama? Não. A Primeira Dama dos Estados Unidos não viria a Goiás sem que eu ficasse sabendo. Desde o meu encontro secreto com seu marido Barack, no Central Park (lembram-se que contei a estória aqui mesmo na Revista Bula?), em Nova York, nós ficamos bastante próximos, assim de trocar emails pelo menos três vezes por semana. Até parecia Michelle, ma belle, mas não era.  


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POR EM 30/03/2012 ÀS 09:19 PM

Elvis não morreu. Chico Anysio e o boi também não

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Só a comédia — além da boa música, é claro  poderá salvar a humanidade. Nenhum credo, nem o amor-da-boca-pra-fora, nem as competições esportivas (atividades saudáveis que quase sempre geram graus exagerados de rivalidade), nem o avanço colossal da ciência, nem a preservação da floresta amazônica, nem os argumentos redentores dos argutos gurus, nem todo o aparato militar dos tiranos que desejam conquistar o mundo, nem os raios tratores dos alienígenas, nem a loucura coletiva, nada disto terá a mesma capacidade que a comédia. O riso poderá cicatrizar feridas, resgatar as almas aprisionadas nos abismos existenciais, recuperar a fé do Homem pelo Homem. 

Assoberbada pelos percalços da vida, Marta esbofeteia a cara da mãe repetidas vezes, enquanto enfia comida fria com rivotril em sua boca. Juízo corrompido pela doença de Alzheimer, é preciso urgentemente sedar a idosa mentecapta, afinal, a vida urge lá fora (sofre Marta, em pensamentos pragmáticos). Como numa fábula, a idosa peleja no seu mundo particular onde ninguém daquele casebre pregado no morro penetra, muito menos, compreende e tolera. Nos últimos meses, a pobre senhora tornou-se uma estranha no ninho, como atestaria o cineasta Stanley Kubrick. Quanto mais surra a mãe (ei, Marta... não se bate assim na face de ninguém...), mais Marta se irrita, pois a senil criatura não sente dor, e também não sente amor, nem raiva, nem fome, nem vontade de morrer. A mulher simplesmente é e, em sendo, vai ficando, vai maquinando o absurdo em sua mente perturbada, sustentada male-male naquele cortiço pra lá de caótico. 


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POR EM 23/03/2012 ÀS 08:40 PM

Vaca da Cow Parade vai parar no brejo

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Consta nos autos das fofocas familiares que o primo Chiquinho fora pego em flagrante fazendo amor (?!) de olhinhos fechados e tudo o mais que se tem direito em matéria de afetividade, com uma égua cupimzeira — eis o codinome emprestado às fêmeas equinas mansinhas que serviam (e ainda o fazem, possivelmente) aos intercursos sexuais de homens adolescentes e adultos pelo interiorzão do Brasil. 

Ante a cena inusitada, a molecada riu à beça da cara de sonso que fazia o primo, debochou dos uivos do lascivo, mas alguns fizeram fila na garupa da égua para se aproveitarem da indolência do pobre animal. Ao invés de moedas ou beijinhos, os moleques pagavam Margarida com suculentas espigas de milho. 

Parece um preâmbulo vulgar demais para se utilizar numa crônica. E é mesmo. Assim como tantas outras atitudes vulgares bem próprias dos seres humanos, como atropelar um ciclista bóia-fria no acostamento de uma autoestrada usando uma Mercedes, e ficar reclamando dos arranhões na lataria enquanto o sujeito agoniza no asfalto. Só rico mesmo para ser tão espirituoso numa hora desta... A mania de encostar quadrúpedes em cupins para de suas genitálias tirar proveito sexual tem o nome de Zoofilia ou Bestialismo. A prática era muito corriqueira nas fazendas e rincões, numa época em que a população que morava no campo prevalecia, antes, portanto, do êxodo rural que forçou a mudança de hábitos. Uma vez na “cidade grande”, se não havia éguas mansas cupimzeiras com quem namorar, que os homens se valessem então do ofício das profissionais do baixo meretrício, redutos nos quais que as espigas de milho não eram aceitas como moeda corrente. Nada mais justo, ora bolas. 


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POR EM 16/03/2012 ÀS 12:59 PM

Já pulou o muro?

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Faço das crônicas que redijo um meu Muro das Lamentações, mas está difícil lamentar. Ao lerem-nas, os amigos declaram certa perplexidade, reclamam que ando muito amargo, assim, de secar roseiras. Alguns reclamam do humor negro, da ironia excedente, do palavrório chulo e de suposto mau gosto. 

Outros suspeitam estaria eu padecendo de algum tipo de transtorno do humor, quem sabe, depressão, síndrome do pânico, histeria, frescura, pití... Então me indicam médicos, psicólogos, benzedeiras, uísques, chás, hinos, livros de autoajuda, templos, gurus, casas da luz vermelha e até masturbação. Cada qual tem o Muro das Lamentações que merece. 

Muros. Quero então falar dos muros. Causou a maior excitação no seio daquela família o fato de Benzinho (codinome do bancário Alcebíades) ter traído a esposa. “Mas logo o Benzinho?!” era o que mais se ouvia nos comentários a respeito da flagrante escapulida. “Eu bem que desconfiava dele”, alguém alfinetou. “Acreditem, estes homens sonsos são os piores”, diagnosticaram as mulheres já calejadas no assunto. 

Um dia me perguntaram se eu já tinha pulado o muro e eu disse “sim, sim, várias vezes”. Mal supunha que a expressão “pular o muro” não se referia às minhas peraltices da infância, quando invadia o quintal da casa da Dona Elza para furtar mangas ou resgatar a bola de cobertão desastrosamente chutada às alturas. Carecia fugir em tempo do cão doberman e de Dona Elza. 


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