revista bula
POR EM 27/07/2012 ÀS 09:49 PM

E aí... comeu, cachorro? (como escrever textos idiotas)

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“A terra há de comer, já que eu não comi”
(Falcão, cantor, compositor e humorista cearense) 

Convalescendo em sua residência, Randal até que se sentia bem. Afinal, depois de inúmeras investidas, conseguira levar a secretária do chefe para um motel e fazer com ela um pouquinho do que os trezentos e quarenta e sete demais homens da fábrica também sonhavam em fazer, principalmente os casados, os muito tímidos e os incrivelmente religiosos. Vocês sabem, é bem difícil resistir aos aparentemente sensatos argumentos do diabo.

Ele era um vassalo dos mais comuns dentro do organograma administrativo da empresa, de tal forma que os galanteios cotidianos, quase sempre grosseiros (ele não podia ser mais direto), não chegavam a configurar um crime de “assédio moral” contra a moça. Cansada, convencida que fazer sexo com aquele sujeito do baixo escalão tornaria a sua vida mais divertida, topou a empreitada.

— Foi bom pra você, princesa? (perguntou, idiotamente, como se ele fosse o “rei do sexo sem fins reprodutivos”, falsamente interessado no bem estar da colega e se ela ouvira as harpas dos anjos ao final do eletrizante intercurso sexual).

— Foi diferente. Tô sentindo um prurido estranho entre as pernas.

— Putz! Você está com doença e não avisou, mulher?! Eu sou casado! Eu sou casado! (Randal apavorou-se mergulhado na sua descomunal e corriqueira ignorância)


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POR EM 20/07/2012 ÀS 11:49 PM

A imprescindível necessidade de se apontar sempre um culpado para tudo

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Nos velhos filmes americanos de drama ou suspense, quando um crime ocorria, quase sempre a culpa recaía sobre o mordomo. Ora, na história brasileira, salvo melhor juízo, jamais prevaleceu esta cultura das famílias abastadas acorrerem aos mordomos. No mais das vezes, uma governanta vinda do norte, de pele escura, pobre, semianalfabeta, e que trabalhava praticamente em regime escravo. Um subterfúgio muito utilizado no passado consistia em “pegar uma criança pra criar”, a fim de transformá-la na empregadinha da casa. Caridade ou pura má fé?

Voltando ao cinema, até que se provasse em contrário, a culpa era sempre do mordomo e ponto. Uma vez que a vida imita a arte, e muitos fazem questão de se omitirem o tempo inteiro, vivemos a perseguir mordomos invisíveis na brabeza do cotidiano. Quando falimos, quando pisamos na bola, a culpa é sempre de alguém, exceto de nós mesmos. Desde os deslizes mais simples e bestas, até tragédias horrendas, para o conforto da alma é imprescindível que alguém seja responsabilizado.

Passei as últimas férias com a família no litoral nordestino e posso afirmar a vocês que descansei mais que deputado federal. Foi uma maciota sem tamanho. Apesar do clássico desarranjo intestinal por causa do desacostume com o óleo de dendê e outras iguarias nordestinas, até que o pacote valeu em muito a pena. O contentamento só não foi pleno (e vocês sabem o quanto é espinhoso aos pais agradarem os seus tiranos filhos adolescentes) porque uma criança morreu afogada numa das gostosas piscinas do hotel.


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POR EM 13/07/2012 ÀS 08:39 PM

Quando eu morrer depositem as minhas cinzas no cinzeiro de um Camaro amarelo

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Não. Claro que não. Vocês bem o sabem e de nada adianta eu mentir. Minha história está mais para Kombi bege avariada com motor retificado, que Camaro amarelo. Um dia ainda lhes conto a respeito de uma odisseia, uma viagem de férias com profundas restrições orçamentárias que fiz com meus pais e irmãos, de Goiânia a Salvador, dentro de uma Kombi velha, percorrendo cerca de 600 quilômetros de estrada de terra entre as cidades de Barreiras e Alvorada do Norte.

Era muita poeira, calor, farofa de frango fria e medo do combustível acabar e se morrer de sede naquele sertão desértico. A Kombi  eu juro  além de automóvel, foi hotel da família por uma semana. O carro jamais parava, senão para o abastecimento. Urinava-se dentro da lata de Leite Ninho e o conteúdo era despejado pela janela. Pura verdade. Conto mais outro dia.

Porque o tema desta crônica não é férias, carro, motor, horse power e pistão. Vou escrever um pouquinho sobre música, o poder transformador da boa música. Dia 13 de julho comemora-se o Dia Mundial do Rock. A data escolhida remonta ao mega concerto Live Aid, organizado pelo músico irlandês Bob Geldof em 1985. O evento reuniu vários ícones da cena pop-roqueira daquela época, como Paul McCartney, Phil Collins, Fred Mercury e Eric Clapton. O principal objetivo do encontrão de bambambãs era angariar fundos para os famintos da Etiópia.


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POR EM 06/07/2012 ÀS 01:18 PM

Deus perde a paciência e, finalmente, esclarece à humanidade o grande mistério da vida

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“Já estou de saco cheio com vocês”, foram com estas palavras de desabafo que Deus, finalmente, apareceu para esclarecer à humanidade o grande mistério da vida. Sim. Deus existe, meus caros. E creio que todos tenham acompanhado a sua inédita aparição por meio das rádios, jornais e televisão. Com o adjutório dos principais líderes religiosos do planeta, Deus convocou a imprensa mundial para uma entrevista única, definitiva e jamais sonhada nem mesmo pela mais crente criatura humana.

Valendo-se de vozes no meio da noite e visões oníricas, Deus requisitou aos seus multiplicadores de fé que arrebanhassem os mais renomados repórteres, âncoras televisivos, apresentadores de programas de auditório, além de líderes políticos de todas as nações, para uma esclarecedora entrevista coletiva que ocorreu, não por acaso, no Corcovado, aos pés do Cristo Redentor.


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POR EM 28/06/2012 ÀS 09:31 PM

11 coisas (ou pessoas) que você adoraria mandar para o inferno

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Existe uma clássica piada na qual um padre (ou pastor), durante uma pregação, pergunta aos presentes: "— Quem quer ir para o Céu?". Sem pestanejar, todos da manada levantam as mãos trêmulas para o alto, aprovando a ideia. "— E quem quer ir hoje?", insiste o líder. É claro: a massa dobra os cotovelos. Todo o mundo deseja ir para o Céu, mas ninguém quer morrer. Risível? Eu achei.

Mas nem sempre a lógica e a clareza parecem tão explícitas. Há vários anos um guru tresloucado chamado Jim Jones induziu centenas de seguidores a um suicídio coletivo (918 pessoas, de mamando a caducando), num dos episódios de fanatismo religioso mais estúpido que se tem notícia desde que Caim matou Abel a porretadas. Portanto, cuidado com líderes religiosos exaltados.

Mas este texto não foi escrito para enaltecer o Céu, e sim, lucubrar a respeito dos infernos nossos de cada dia. Falemos, então, desde ambiente enigmático e eternamente repelido pelo ser humano, até pelos crápulas mais desprezíveis. 

O que mais se encontram na internet são listas. Infindáveis listas de preferência. Os 10 mais. Os 30 menos. Os 50 piores. Os 69 mais picantes. Os 100 indispensáveis. Os 1000 essenciais. E por aí vai. Entrando nesta seara das listas com ranqueamentos descartáveis, fazendo alusão ao roqueiro Raul Seixas, "eu também vou ranquear". Conclamo os valorosos leitores a um exercício, uma dinâmica em grupo engendrada individualmente (?), nalgum lugar do ciberespaço, cada qual no seu quadrado.


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POR EM 22/06/2012 ÀS 11:23 AM

Paul McCartney comemora 70 anos e toca Raul

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Consta que, aos 16 anos de idade, o ainda incógnito Paul McCartney compôs “When I’m sixty four” (Quando eu estiver com sessenta e quatro). Na letra da canção, um angustiado jovem amante pergunta à namorada se ela ainda o amará na velhice, quando ele perder os cabelos, e se ela ainda precisará dele, e se o alimentará quando ele estiver com sessenta e quatro anos de idade.

O que levaria um adolescente sopitando testosterona pelos poros a escrever uma letra com uma temática tão adulta? Eu credito o fato à genialidade de Paul, que certamente foi arrebatado por uma daquelas inspirações que invadem a cachola do artista, não o deixando em paz até que o processo de criação esteja totalmente concluído. Certamente, o clima inóspito de Liverpool contribuiu para inspirar o apaixonado mancebo.

Nesta semana, Paul McCartney completou 70 anos. A data foi comemorada em família, com a presença de uns poucos amigos escolhidos a dedo. Apesar do honroso e delicado convite (recebi pelo sedex inglês o novo CD de Paul, “Kisses on the bottom”, com dedicatória e tudo o mais, além do indispensável alerta “please, confirm your presence by June 15”), eu não pude comparecer ao evento porque na mesma data tinha combinado com um maluco de assistir ao documentário “O Início, o Fim e o Meio”, a respeito do ícone do rock brasileiro, Raul Seixas, que também faz aniversário em junho.


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POR EM 15/06/2012 ÀS 03:51 PM

Calma, palhaços: a vida é um circo

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— Metade dos juízes acha que é Deus; a outra metade tem certeza disto.

Todos os presentes naquele respeitável recinto, exceto o magistrado, riram à beça do inusitado comentário feito pelo réu. A atitude seria mesmo muito risível, não fosse aquele um julgamento da maior relevância, envolvendo um palhaço de bufê para festas infantis que, supostamente, matara de susto uma velhota de oitenta e nove anos, ao estourar um balão de aniversário ao seu pé de ouvido.

— Mas aquela senhora nem escutava mesmo muito bem.

O juiz ficou mais rubro que a escarlate bandeira do MST e ameaçou retirar o acusado imediatamente do tribunal, caso ele se manifestasse novamente sem a sua devida autorização.

— O juiz é mulherzinha! Olhem a saia dele! (na verdade, a indumentária, apesar de lembrar muito uma saia, era uma toga). O réu comediante cantarolou aquelas bobagens levando o público a quase se urinar de tanto dar gargalhadas. Parecia um bando de pastores dividindo o dízimo dos fiéis.


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POR EM 08/06/2012 ÀS 08:47 PM

Fique você sabendo que o Céu não existe

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“Se tem uma coisa da qual eu desgosto a cada dia é gente”, disse o meu interlocutor, claramente emotivo, visivelmente afetado pela bile, supostamente obnubilado pelo coquetel de drogas despejadas dentro da sua veia pela equipe médica. Para muitos uma falácia, ele dizia aquilo como uma espécie de válvula de escape. Fazia um desabafo dos mais crus e primitivos, enquanto o médico repetia a aferição dos níveis pressóricos que até agorinha mesmo encontravam-se às tampas. O sangue ferveu por conta de um entrevero com um funcionário da sua empresa. Saiu do fórum direto para a enfermaria.

“Vou começar do início”, ele disse redundante. Contou que o sujeito batera à sua porta com uma mão na frente e outra atrás, que é como se diz quando se está na pindaíba, na quebradeira, no sufoco, na pior das situações do ponto de vista financeiro. Mesmo sem possuir referências seguras do estranho que reivindicava emprego pelo amor de Deus, ele julgou que havia sinceridade e o contratou. “Pensei comigo: bandido não procura emprego formal...”, admitiu o erro de julgamento, sem se lembrar que gangsteres, deputados e outros meliantes trabalham de sol a sol para se garantirem.

Com o apagão de mão de obra por que passa o país, não poderia dar-se ao luxo de tantas exigências burocráticas. Então, catou o sujeito que há três dias não comia. O homem devorou um prato de comida como se fora o último da sua vida. Fazia dó, pois o novato faminto fungava, lacrimejava os olhos, fazia pausas enquanto mastigava, levantava as mãos para o alto e orava: “Deus lhe pague, Deus lhe pague”.


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POR EM 01/06/2012 ÀS 06:40 PM

Quem não tem dinheiro é primo primeiro de um cachorro

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Ali estava ele sentado à frente de seus pares na Câmara Comum dos Iguais. Magro como o salário de cortador de cana, cabisbaixo como um cachorro que acaba de ser admoestado pelo dono, desamparado como quem perde um pênalti, ele ouvia o relatório prolixo do Excelentíssimo Relator de Relatos Mirabolantes da CPI (Comissão Palhaçamentar de Incrédulos). Na mira dos colegas, ele era o alvo perfeito. Apesar de combalido pela insônia e a visceral inapetência das últimas semanas, em que denúncias profundas escorraçavam a sua pessoa, o sujeito parecia um boi-de-piranha perfeito.

Acuado como um porco prestes a ser sangrado, o acusado Membro da Câmara Comum dos Iguais sentia que o embate era desigual, algo do tipo “uma coisa orquestrada para fritá-lo em nome da verdade”. Nas entrevistas, muitos Confrades mentiam que seria preciso cortar a própria carne da instituição, salvar a imagem da casa frente aos olhos de Deus, dos jornalistas e da opinião pública.

Enquanto ouvia a longa fala do Excelentíssimo Relator de Relatos Mirabolantes, ele encarava com muita mágoa a plateia feroz de engravatados, seus ex-parceiros de conhavos e cafezinhos no subsolo. Do banco dos réus podia enxergar a todos, inclusive um Confrade Federal que comprara grande parte dos votos no seu curral eleitoral, através de doações ilegais de combustíveis e vale-motéis. Notou a presença do colega do Estado de Distâncias do Norte, eleito com milhares de votos daquele povo miserável e semi-analfabeto, à custa de ameaças de paus-mandados armados com mutchacos e motosserras. Outro companheiro da Câmara Comum dos Iguais mirava-o com desprezo. Logo ele, ex-pastor-pederasta da Igreja Universal da Pimenta do Reino, supostamente envolvido em bacanais pedófilos num apartamento oficial cedido pelo governo, bancado pelo contribuinte. 


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POR EM 25/05/2012 ÀS 07:17 PM

Todo marombeiro ignóbil será castigado

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Alguns amigos garantem que me pareço fisicamente com o cantor Robin Gibb, um dos Bee Gees, falecido recentemente por conta de um câncer intestinal. Considerando que sou fã do trio, e o texto a seguir se trata de uma espécie de dossiê a respeito deste cronista que vos escreve, decidi utilizar a foto de Robin neste espaço como uma forma de tributo. Ele começou uma piada. Eu continuo.

Após a publicação do texto “MMA: bate que eu gosto” — por mim psicografado, a partir do fantasma de Gandhi mais uma garrafa de tequila  (Calma, leitor. É só mais um chiste: a culpa pela opinião é toda minha...) choveram, trovejaram na redação desta revista mensagens viris dos alfa-dominantes, declarações anti-crísticas, truculentas, verborrágicas, biliares, todas elas desabonando este franzino cronista. Coisas do tipo “quem, afinal, este fedaputa pensa que é” ou “este escritor viado não entende nada do assunto”.

Após uma mega-filtragem franciscana engendrada pelo editor que, por sinal, para a minha mais incompleta decepção (sempre se pode esperar outras surpresas desagradáveis dos amigos), é fã vitaminado dos embates de luta livre, apenas as mensagens raivosas que não continham ofensas cavernosas foram publicadas na coluna “Comentários dos leitores”. As demais infâmias e difamações, ao contrário do que diria um astuto advogado, estão armazenadas no porão de todo esquecimento.


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