revista bula
POR EM 11/04/2008 ÀS 04:50 PM

Nós, os perversos

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Nos últimos dias, o Brasil acompanha estarrecido o desenrolar de mais um episódio de violência urbana, o assassinato da pequena Isabella, uma menina de cinco anos que foi morta, supostamente, por espancamento e asfixia, e atirada pela janela do apartamento onde morava, na cidade de São Paulo. O caso chocou a todos, e indigna, até mesmo, os mais brutalizados, como os presidiários, que costumam recepcionar criminosos deste naipe também com muita violência, às vezes, ceifando suas miseráveis vidas.

A trágica história de Isabella bem serviria de roteiro para um filme do já falecido Alfred Hitchcock, criador de Psycho (Psicose), dentre outros clássicos do suspense. Eu era criança quando assisti ao filme pela primeira vez. Não me esqueço de algumas cenas arrepiantes, como aquela em que a mocinha é esfaqueada embaixo do chuveiro, ou quando um detetive é ferido mortalmente com uma faca cravada no meio da testa, no alto de uma escadaria. Medonho. Sensacional. Tive algumas noites de sono agitado, absolutamente impressionado com o thriller. Do ponto de vista pedagógico, mesmo para um mancebo como eu, o filme deixou claro que o ser humano é capaz de atrocidades surpreendentes, ofício plausível tão somente ao homo sapiens, únicacriatura na face deste deteriorado planeta que pode usar o tempo, o raciocínio e os músculos para arquitetar o mal. Muitos afirmam que filmes violentos podem tornar as pessoas agressivas e violentas, em especial, crianças e adolescentes. Não creio. Ao contrário, penso que sirvam de alerta, deixando claro que o crime e a maldade são abjetos e não compensam. Para mim, bondade e maldade têm a ver com berço, família. Sem afeto, não tem jeito, as mentes ficam afetadas.

Contudo, o estudo e a compreensão da mente humana são tarefas para psicólogos e psiquiatras. Que eles se arvorem na indócil prática profissional que busca compreender os meandros, os subterrâneos do pensar e do sentir. Conquanto já tenha perdido toda a esperança na raça humana, apesar de ações heróicas de uns poucos homens e mulheres de bem que povoam a Terra, tenho lá as minhas teses. Deixando de lado, bem de lado, os psicopatas (porque para estes não existe mesmo nenhum remédio senão o isolamento social), tenho a convicção que grande parte da violência deva-se à influência do álcool e das drogas. Casos como estes da pequena Isabella não fazem o menor sentido. Por que matar uma criança com tanta perversidade, senão por causa de um desequilíbrio mental grave ou prazer doentio pela maldade? Quem ofende crianças, de forma maligna e fatal, ou é psicopata, ou está fora do juízo em decorrência da ação alucinatória de substâncias químicas na substância cerebral. Convenhamos, uma pessoa há que se munir de muita coragem e ódio para enfiar a lâmina de uma faca na barriga de outrem, ou esmagar sua cabeça com uma pedra, ou comprimir satanicamente o seu laringe até que a falta de oxigênio resulte em morte. Enfim, é provável que a chamada legítima defesa da vida possa até fazer qualquer um de nós, assassinos. Trata-se de instinto de auto-preservação. Aliás, os bichos fazem-no muito bem, usando uma razão que, teoricamente, nem possuem, fugindo de seus algozes ou os liquidando, se necessário for. Agora, no caso de Isabella, como em outros inúmeros que já nos fizeram chorar, sobrou crueldade. Incompreensível.

Ainda bem que a pena capital não vigora em plagas brasileiras. A morte seria um prêmio para o celerado que destruiu Isabella. Em breve, a inteligência policial vai desvendar toda a trama, descrever a barbárie em detalhes, e apresentar o criminoso à sociedade. Que ele permaneça durante muitos anos, quiçá, o restante de sua desprezível vivência, acordando todos os dias e convivendo com a infernal lembrança do seu ato animalesco, se ainda lhe restar algum arrependimento e remorso. Neste caso, não haverá castigo mais justo neste mundo.

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POR EM 06/04/2008 ÀS 03:58 PM

Tudo o que você precisa é amor

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Dentre inúmeras frivolidades, uma delas eu cultivo sem nenhum constrangimento: sou beatlemaníaco. Carrego comigo a paixão pela banda inglesa desde a infância (provavelmente, ainda na confortável estadia do berço placentário). Ignorância musical? Gosto ultrapassado? Ora, amigo, a boa música é resistente ao tempo, aos modismos e à globalização da idiotice. Aliás, de tanto ouvir porcarias nas rádios brasileiras, ando cada vez mais saudosista e neurastênico. Fico preocupado com a geração atual. Do ponto de vista musical, ela está órfã. Não sei a que tipo de referência vão se agarrar no futuro. O receio é que naufraguem no vácuo.

Nasci em setembro de 1965. Nessa época, os quatro garotos de Liverpool já contabilizavam seis ou sete anos de carreira. Estavam no auge da fama e reviravam o mundo de cabeça para baixo com seu comportamento irreverente, carisma e talento musical. Muitas vezes, tenho a sensação de ter nascido na época errada. Adoraria ter vivido a minha adolescência nos anos sessenta. Sempre impiedosos, os amigos garantem que estou mesmo é envelhecendo e ficando careta.

Há poucos dias, a imprensa internacional noticiou o acordo selado entre o sexagenário ex-beatle Paul Mcartney e sua ex-esposa perneta Heather Mills, que teve uma das pernas estraçalhada num acidente de trânsito. Movida pela tragédia pessoal, a moça fez campanhas para arrecadar donativos e os doar às pessoas vítimas de mutilações provocadas por minas explosivas subterrâneas, especialmente, crianças. O casamento melou, o diálogo melou e o casal foi digladiar nos tribunais. De acordo com os noticiários, a despeitada loira (cegos de paixão, os fãs nunca perdoam os algozes de seus ídolos...) vai embolsar a bagatela de vinte e poucos milhões de libras (consta que o seu pedido inicial era duas vezes maior). Apesar do Paul (olha só a minha intimidade com o ídolo...) ser milionário e famoso, tive pena dele e explico por quê. Nada a ver com a grana. O sujeito é detentor de uma das maiores fortunas do planeta.

A fama cobra um alto preço, e pode transformar a vida de um ser humano numa clausura infernal. O ídolo pop é prisioneiro da própria imagem e do mundo virtual em que está inserido. Além de ter a liberdade limitada, praticamente tolhida, o famoso está constantemente exposto ao assédio de pessoas com os mais variados interesses, quase sempre unilaterais, egoístas e perniciosos. Imagine-se, caro leitor, na pele de uma celebridade. Você é um pop-star. Como distinguir quem o ama verdadeiramente, daqueles que amam mesmo é o seu dinheiro e a sua fama? Como se assegurar da amizade sincera, desinteressada, e do amor puro que não vislumbra contrapartidas materiais? Deve ser duro dormir e acordar com dúvidas deste quilate. Não é por acaso a solidão e o vício fazem parte da biografia de inúmeras celebridades do presente e do passado. Aliás, a desgraça dos famosos é prato cheio para os paparazzi, magazines de fofocas, e diverte o público que se regozija com os escândalos e o sofrimento alheio. Nada como ver um famoso se lascando... Em se tratando de show-business, aquela estória que dinheiro não traz felicidade nunca me pareceu tão verdadeira.

Então, o que é felicidade? Vencer um biguibróder? Pagar um divórcio só de vinte e quatro milhões de libras, ao invés de quarenta e oito? Rever um amigo muito amado que andava sumido? Matar a própria fome? Voltar a caminhar depois de um acidente gravíssimo? Quitar o apartamento? Ficar sozinho de frente ao mar? Ter orgasmos? Ter uma morte rápida, inesperada e sem sofrimento? É... Realmente, a vida é complexa demais para se entender. Bem que Lennon e Mcartney avisaram (e eu fiz questão de usar o nome de uma canção que eles assinam como título desta crônica): “All you need is love”. Todo o resto é irrelevante.

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POR EM 27/03/2008 ÀS 06:01 PM

Dinheiro demais, educação de menos

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Muito já foi dito, até com agressividade, a respeito de uma suposta limitação cultural e educacional do mandatário maior do país. Aliás, o assunto foi muito explorado por jornalistas e articulistas no Brasil inteiro, inclusive de outros países, principalmente na vigência do seu primeiro mandato. Cartunistas, humoristas e piadistas amadores encontraram nesta personagem da vida real um prato cheio para o ofício de criticar, esculhambar e fazer rir. É costumeiro que riamos das próprias desgraças. Brasileiro tem dessas sandices. É lascado, mas se diverte. Não me parece um comportamento a ser enaltecido.

Depreende-se que as pessoas com educação deficitária sejam mais propensas ao comportamento anti-social e negligente. Afinal, os parâmetros éticos são alicerçados desde a infância, através da argamassa caseira provida pelos pais, e do fermento escolar injetado pelos professores, profissionais historicamente aviltados e desvalorizados no Brasil. É fato: nunca encontrei um professor rico. São vieses de um país otário que valoriza e endeusa atitudes vazias de pessoas desclassificadas. É aquela estória do “quanto pior, melhor”. Muitos fazem das porcarias o seu sustento. Por exemplo, este tumor metastático chamado “créu”, tocado à exaustão em centenas de rádios brasileiras, e que muitos ousam dizer se trata de música... Será que vendemos os ouvidos e as almas ao diabo?!

Nem sempre a matemática é ciência exata. O dinheiro deveria garantir acesso à educação de qualidade. Gente rica é culta e educada? Tinha obrigação de ser. Aí reside a indignação maior. De onde se espera mais discernimento e respeito à cidadania, partem atitudes abusivas e maquiavélicas, totalmente reprováveis.

Moro num desses condomínios horizontais fechados. São conglomerados urbanos nos quais residem pessoas com bom poder aquisitivo, embora, nem todos sejam podres-de-rico, como preconceituosamente apregoam alguns, misto de raiva, despeito e ignorância. Portanto, espera-se que a ordem e o respeito mútuo reinem dentro dos chamados condomínios de luxo. Não é bem assim. Há alguns dias, deparei com uma criança de onze anos dirigindo um carro dentro do condomínio. Não era brinquedo de autorama, não. Carro, de verdade. A surpresa e indignação fizeram com que eu perseguisse o motorista mirim até a sua residência. O moleque saltou do carro em polvorosa e fugiu para dentro de casa, largando o veículo estacionado na contramão. Não demorou apareceu a mãe do pequeno delinqüente, com um sorriso brando e ébrio no rosto. A mulher se desculpou, alegando que o pirralho aproveitara-se da distração dela e do marido, catou a chave do carro e saiu dirigindo, como se a vida fosse um vídeo-game. Fiquei matutando: será que filho de gente rica é tão evoluído que já nasce sabendo dirigir?! Percebi que não valeria a pena gastar tempo e saliva com a criatura beberrona. Reclamei com o coitado do síndico e pronto. Vejamos no que vai dar. Se um amigo do amigo não interceder na coisa, quem sabe, uma pesada multa possa ser aplicada aos incautos. Afinal, polícia e fiscais do trânsito não entram em condomínio fechado. Esquisito, né?!

Outro exemplo corriqueiro da deseducação é o uso do telefone celular em local público, principalmente, bares e restaurantes, como se fosse um rádio, um walkie-talkie. Entre apitos irritantes e conversas pelo alto-falante, todos ao redor do famigerado interlocutor se incomodam com o colóquio nada sigiloso. O uso do disparatado aparelho está virando uma praga na cidade. A culpa não é da alta tecnologia, mas da baixaria de quem a usa indevidamente. Outro dia mesmo, durante um velório, um sujeito perguntou ao outro, em alto e mau som, a que horas enterrariam o “desgraçado do morto”. É claro que o sujeito foi hostilizado e enxotado do ambiente. Só o morto _ Deus o tenha longe de “créus” _ não se queixou.
 
Não tenho dúvidas que o mundo seria muito melhor se não fosse regido pela batuta autoritária do dinheiro, ferramenta de soberba e egoísmo. Mas o comentário é apenas desabafo utópico, pueril. Não há como remar na rasura. As divagações e os sonhos limitam-se às mentes e bocas dos loucos, dos pacifistas e dos artistas. A humanidade caminha em marcha hipócrita, pisando os fracos e alicerçando, cada vez mais, quem detém dinheiro e poder, ainda que muitos deles fomentem desprezo, chacotas e crônicas como esta.

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POR EM 22/03/2008 ÀS 10:56 AM

A miragem

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Acabara de chover. Um menino caminhava dentro da enxurrada, água pelas canelas, chinelos nas mãos, e muita alegria no rosto. Sorrisos infantis jamais mentem: ele se divertia. Dentro do carro, preso num costumeiro congestionamento, dei trégua à angústia e ao cansaço e cheguei mesmo a pensar que a vida tinha jeito. Fechei os olhos: “...são as águas de março fechando o verão, é a promessa de vida no teu coração...”. Olha lá o menino, como ele brinca alheio aos dilemas. Pensei que bom seria voltar a ser criança, jamais ter crescido e descoberto que o mundo, no fundo, no fundo, é mau que nem as bruxas dos contos de fadas.
 
O moleque prosseguiu sua jornada rua abaixo, chutando água, brincando consigo mesmo (ou seria com seres imaginários?!) e com a minha inveja de não ser mais menino. Ele não sabia dos segredos dos bueiros, da força medonha dos redemoinhos, das ameaças hidráulicas dos temporais. Então, tropeçou, caiu, desapareceu da paisagem urbana. Sugado pela garganta da galeria pluvial?! Incrédulo, eu xinguei.
 
A gente reclama se o dia está quente. Reclama se o dia está frio. Reclama por causa da estiagem, da garganta seca e da baixa umidade relativa do ar. Reclama quando chove, mesmo se for chuva fraquinha, daquelas de molhar bobo. Reclama e quer tirar satisfação com Deus quando cai um temporal, revirando tudo, atrapalhando o trânsito, molhando bobina e apagando o motor do carro. Enfim, o ser humano é criatura insaciável. Insatisfeito por natureza, mesmo que ostente saúde plena, ou todo o conforto e mordomia que o dinheiro possa comprar.
 
Quando chove mais forte sobre as grandes cidades brasileiras, os transtornos são inevitáveis e algumas catástrofes se repetem. Quem disse que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar? Cai, sim. Então, a água encharca as encostas dos morros onde brotam barracos invasores, solapa e derruba um bocado deles. O povo afoga na lama. A televisão mostra tudo aos resignados expectadores debruçados no conforto das salas quentinhas e seguras. Tragédias anunciadas. São as mesmas notícias do ano passado, só que vítimas diferentes. O povo se comove e chora. Pessoas de alma boa organizam a coleta de donativos para aplacar a fome, o sofrimento e a penúria dos desabrigados. As igrejas fazem campanhas, novenas, bingos, ações entre amigos, jejum e outros sacrifícios da carne. Mas chega o estio e ninguém se move. Ninguém arreda pé. Eita, povo teimoso!
 
Os córregos sopitam de tanta água e lixo, arrastando uns casebres, inundando outros tantos, apavorando aquela gente pobre que mora nos piores lugares do mundo. Barranco de rio só é bom para se pescar. Para morar, não presta. Todo mundo sabe disso, mas ninguém se importa. Chega a enchente, que nem o ano passado. Aí a culpa é da prefeitura ou de Deus. A chuvarada termina, mas o povo continua despejando lixo dentro dos ribeirões, como se eles fossem tapetes onde se esconder porcarias. Sacos, carniças, garrafas, pneus, trastes em geral que já não servem para mais nada, senão para entupir os canais. A natureza, sempre que maltratada, dá o troco. Eita, povo deseducado!
 
Há poucos dias, sob esplêndida publicidade, a prefeitura local retirou dezenas de famílias que moravam em barracas de lona preta, margeando a ferrovia que corta a cidade, local com altíssimo risco de acidentes e tragédias. Os sem-teto foram assentados em casinhas simples e decentes, erguidas pelo poder público em local seguro. Poucos dias depois, já havia miseráveis novatos se aglomerando no local, cavoucando, erguendo acampamento. Eita, povo insistente!
 
Saltei do carro, incrédulo com a cena que acabara de presenciar. Corri sob a chuva fina, serpenteando no trânsito parado. E eu, que imaginava nem mais ter coração, sentia o danado quase vazando pela goela. Vasculhei a esquina. Nem sinal do menino. Sumira na correnteza forte. Desapareceu, instantaneamente, que nem a tênue fé que ainda há pouco faiscava no meu peito.

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POR EM 15/03/2008 ÀS 02:26 PM

Vida vazia

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Reencontrei um amigo que há tempos eu não via. Cabisbaixo, abatido, fisicamente deplorável, o sujeito, que é médico dos bons, daqueles à moda antiga, profissional que olha dentro dos olhos dos pacientes em busca de pistas, das chaves dos mistérios, que se preocupa mais com o doente do que com a doença, confessou andava desanimado e até depressivo por causa da condição atual da prática médica. Reclamou do excesso de trabalho, da má remuneração, da insegurança profissional, da desconfiança mútua entre médicos e pacientes. Para emendar, contou-me uma estória ocorrida com um seu colega de trabalho, também doutor, e que agora reproduzo, é claro, camuflando os nomes, azeitando o enredo, fermentando a verdade, inventando um bocadinho, aproveitando ao máximo a gostosura de um episódio real e deveras curioso. Em tempos de relação médico-paciente moribunda, o fato espelha bem esta condição. Foi mais ou menos assim que a coisa se deu...


Belinda, de linda mesmo, tinha de resto apenas o nome. Nos seus tempos de juventude e glória, foi muito cortejada e cobiçada pelos homens. Musa inspiradora de punhetas e noites mal dormidas. Escolheu para marido um burguês elegante, porém, tosco e de caráter menor, filho de um fazendeiro muito rico, criador de gado, ofício que hoje em dia muitos denominam empresário rural, que é para dar mais glamour, como se a roça não prescindisse disto. Não importa. O noivo nadava, ou melhor, cavalgava em dinheiro. Dizia-se, inclusive, à boca miúda, que o camarada limpava-se com cédulas de cinqüenta. Atraída pelo dote do mancebo, Belinda entregou-se ao mesmo de corpo e alma (muito mais corpo do que alma). Fisgou o ricaço e garantiu a aposentadoria aos vinte e poucos anos de idade. Até que tinha alguma afeição pelo moço, mas gostava muito mais do dinheiro e da mordomia que ele proporcionava. O rude garanhão desposou a donzela, pois a pressão familiar se avolumava. Ele não poderia romper os trinta anos sem contrair matrimônio. Naquela época, solteirões estavam fadados à maledicência da sociedade. Escravo das aparências, ele desposaria, sim, a fogosa virgem, mas não abandonaria as amantes, raparigas e até moçoilos modernos com mentes e meatos descolados, provenientes da capital e de outras metrópoles. Movido pela química desinibida da maconha, o rapaz encontrava nos iguais e nos opostos território propício para a vazão de taras e estripulias sexuais as mais bizarras.


Ao contrário das previsões paroquiais, o casamento não durou até que a morte os separasse. Advogados mal intencionados e bem remunerados cuidaram da tarefa com desprendimento e competência. O tempo, infalível a todo ser que respira, não se apiedou de Belinda. Aos quarenta anos, o seu tão cobiçado corpo havia deteriorado além da conta, às custas de três gravidezes, do sedentarismo e da gula. Sentindo-se feia e infeliz, ela buscou na ciência e no charlatanismo a cura para as suas dores e frustrações. Usou e abusou dos cremes, fórmulas milagrosas, agulhas, dietas de A a Z, garrafadas e simpatias antipáticas, porém, valiosíssimas para os desesperados.

Até que um dia, Belinda cismou de procurar um ginecologista para fazer uma desnecessária cirurgia vaginal, a fim de corrigir um inexistente defeito na sua pouco usada fenda genital, uma suposta rotura que a fazia se sentir “larga” na hora do vamos-ver, embora estivesse abstinente desde a separação do marido. Para se ver livre da insistência da paciente, o doutor acabou cedendo e, mesmo sem precisão, aplicou dois ou três nozinhos cirúrgicos em seu períneo, deixando o que já era muito bom melhor ainda. O ato cirúrgico foi o início de um calvário para o desavisado médico.

Logo após a cirurgia, ainda no período de convalescença imediata, a mulher foi tomada de um surto psicótico que criou um verdadeiro alvoroço dentro do hospital. Sabe-se lá como, a mulher fez entrar na enfermaria dezenas de revistas pornográficas, recortou algumas páginas e as pregou nas paredes, formando um mosaico libertino que ninguém aprovou. Como se não bastasse tamanha esquisitice, a pobre diaba ficava o tempo inteiro mirando a vulva com um espelho de mão, desaprovando o resultado final. Desacostumadas à insanidade, as enfermeiras da maternidade entraram em parafuso. O renomado ginecologista foi chamado às pressas para resolver a encrenca. Nem com a interferência de um psiquiatra, a coisa teve conserto. Para alívio de todos a paciente recebeu alta hospitalar e se mandou com uma revistaria toda embaixo dos braços e muita bravata pelos corredores mal iluminados.


Durante várias semanas, a mentecapta visitou a clínica do cirurgião para lhe dizer poucas e boas, insultos e verborragia impossíveis de serem citados nestas linhas. Prepotente, a mulher prometeu processar o médico, mandá-lo para a cadeia, destruir sua reputação por aquelas bandas, arrancar dele bastante dinheiro (de preferência, tudo), ainda que às custas de fórceps e chantagem. Apavorado, o doutor catou a família e sumiu da cidade. Com doido não se brinca. Melhor dar tempo ao tempo.


Mergulhada em loucura, a mulher desembestou num comportamento para lá de inconveniente, masturbando-se em locais públicos, vestindo-se de maneira claramente imprópria e vulgar, utilizando palavreado chulo, incomodando qualquer ser humano que por ela cruzasse, fosse ele adulto, criança, parente ou estranho. Sua derradeira aventura foi deitar-se com um catador de papéis e de tranqueiras que perambulava pela cidade. Fizeram do matagal de um lote baldio a cama mais perfeita para a conjunção carnal. Foi ali mesmo que o andarilho estreou a vagina seminova da criatura e a liquidou com mãos de unhas encardidas. Analfabeto, despreparado para crimes perfeitos, o sujeito foi rapidamente capturado pela polícia e jogado numa masmorra moderna chamada cadeia. Aliás, pelo que descreveu Dante Alighieri em sua Divina Comédia, os presídios brasileiros estão mais para sucursais do inferno. Difícil acreditar que um ser humano saia daquele purgatório recuperado de seus males e pronto para reingressar na sociedade. O povo, entretanto, não dá a mínima. Bandido tem mais é que sofrer...


Enfim, a extinção de Belinda deixou mais leve o cotidiano de todos naquele lugarejo, fazendo com que a vida retomasse o seu curso natural e hipócrita. A sua morte, portanto, foi de pouca ou nenhuma valia praquela gente. É assim mesmo que acontece nas tragédias, até que uma delas nos bate à porta sem pedir licença. Daí é chorar, implorar pela justiça dos homens e botar a culpa em Deus. Afinal, não foi Ele quem quis assim?!


 


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POR EM 07/03/2008 ÀS 05:02 PM

Panis et circenses

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Parece piada, mas não é. Chega a ser risível, embora digno de repúdio. A pobreza de espírito e a desastrosa criatividade de alguns políticos não têm limite e não respeitam a fronteira virtual entre a ética e a descompostura. Numa pequena cidade do interior do Brasil, um prefeito cismou de investir numa peculiar e descabida estratégia de marketing. Visando a apimentar o carnaval do lugarejo, o nobre gestor mandou distribuir milhares de cupons de “Vale-Cerveja” para a população. Não riam, leitores, pois há indícios (êita, palavra comezinha...) que a grana tenha sangrado dos cofres públicos. Num país de tantos escândalos e descalabros protagonizados pelos políticos, animais egoístas, eu ainda não tinha ouvido nada parecido. Habilidoso com as palavras, o prefeito justifica a bizarra iniciativa alegando que a intenção era criar atrativos para manter os moradores na cidade durante o feriadão e garantir um carnaval para lá de animado, lotado de gente, incrementando o turismo na região e beneficiando, conseqüentemente, o comércio local. Altruísta imaginava, inclusive, “prevenir acidentes e mortes nas estradas estaduais”, poupando as vidas dos seus conterrâneos, fossem eles seus eleitores ou não. Agora, distribuir cerveja de graça para a população, além de aviltar os princípios éticos e a saúde coletiva, não me parece, de jeito nenhum, uma ação social a ser copiada por ninguém, ainda mais, gestores públicos.

Senão, vejamos: remédio, produto primordial ao bem estar coletivo, vive faltando nas farmácias dos hospitais públicos e postos de saúde. Merenda escolar, combustível vital à gurizada, escasseia nas despensas das creches públicas. Se um cidadão procurar um posto de saúde para retirar preservativos masculinos (camisinhas), dificilmente, as encontrará, pois faltam freqüentemente. Entretanto, vira e mexe, o governo distribui camisinhas aos borbotões, durante os feriados prolongados, especialmente, o carnaval. Estão fazendo a mesma coisa com a tal “pílula do dia seguinte”. A propaganda no rádio e na TV é tão empolgante que soa como um salvo-conduto ao cidadão para a prática do sexo livre. Aí é sacanagem... Com cerveja de graça, camisinha de graça, cesta básica de graça (que muitos recebem, indevidamente, através de manobras  fraudulentas), fica faltando pouco para o paraíso (ou inferninho). Quem sabe, se o poder público lançasse também um “Vale-Viagra”, não fosse um sucesso. Alternativamente, o governo poderia utilizar matéria prima mais barata, como o “Vale-Amendoim Torrado”, ou o “Vale-Ovo-de-Codorna”, todos de eficácia atestada pelo povão. Poder-se-ia _ por que não? _ instituir o “Vale-Motel”, projeto libidinoso no qual seriam proporcionados minutos inesquecíveis de hospedagem e safadagem nos motéis Brasil afora (e adentro, também).

Desta forma, o assistencialismo seria completo, quase perfeito. É claro, se desse para incluir no pacote um “Vale-Cafezinho”... Humm!! Daí seria coisa de primeiro mundo. Cerveja, amendoim, camisinha, viagra, motel, cafezinho... Tudo de bom. Seria a consagração do hedonismo no país. O Brasil transformar-se-ia no melhor lugar do planeta para se viver, apesar das verminoses, das balas perdidas, do alto índice de mortalidade infantil, do incremento dos abortos clandestinos, do desmatamento insano e criminoso da floresta amazônica e do bigue-bróder (uma porcaria que nem invenção nossa foi).

Cuidado, senhores políticos. Não exagerem na dose. Não subestimem a ira popular. Um dia, o povo poderá insurgir e então... só bebendo muita cerveja pra esquecer o tamanho do estrago. 


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POR EM 28/02/2008 ÀS 07:08 PM

Jardim do Éden

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Eu dirigia o meu carro calmamente, fato bastante incomum no atual trânsito da cidade, onde tem prevalecido a lei da buzina, da velhacaria e da deseducação. Parar antes da faixa de pedestres, por exemplo, tem sido risco constante de colisão. Além da possibilidade de abalroamento na traseira do carro, por conta da imprudência e pressa de algum estressado, se arrisca a ouvir xingamentos os mais cabeludos da parte de motoristas convictos que é inadmissível dirigir com paciência e solidariedade. São coisas da vida moderna, das metrópoles enfurecidas, da banalização da descompostura.

Então, avistei à minha direita, uma dupla peculiar: um senhor muito senil e um rapaz de vinte e poucos anos. O mancebo esbravejava, gesticulava, puxava o velho pelo braço, economizando cortesia, exigindo que caminhasse. Julguei a atitude do rapagão deveras grosseira e não me contive. Desacelerei a máquina. Arrisquei ser castigado por algum fiscal de trânsito e estacionei em local proibido. Apressei os passos e me aproximei do jovem, o qual despejava insultos sobre o pobre ancião (ele aparentava oitenta e tantos anos). Perguntei ao moço o porquê da algazarra, já recomendando calma, uma vez que o mesmo usava de força desproporcional, tentando arrancar o idoso agarrado à grade do condomínio. De fato, ele parecia colado nela. O jovem soltou o braço muxibento do acompanhante, finalmente, e explicou que há exatos quarenta minutos estavam ambos ali, estancados sob sol escaldante, pois o filho da puta cismara de empacar na calçada, agarrando-se ao gradil, como se estivesse fundido nele, pois não soltava de jeito nenhum. O rapaz apresentou-se como enfermeiro, embora, confessou-me, jamais tenha freqüentado uma aula sequer de enfermagem. Na verdade, estava desempregado há muitos meses e resolvera atender a um anúncio de jornal no qual alguém procurava alguém para tomar conta de alguém. Mentiu, forjou referências espetaculares, com a conivência de dois ou três amigos, e conseguiu a vaga.


No começo, o serviçal imaginava que o idoso fizera apenas uma pausa na sua caminhada matinal, para apreciar o jardim do condomínio que, de fato, estava bastante florido e bem cuidado. O visual contrastava com a feiúra do prédio antigo, localizado num bairro com alto índice de violência urbana (furtos, assaltos e outras atrocidades). Contudo, o tempo foi passando e o velho ali permanecia, mirando o jardim, sem balbuciar palavra, com os olhos assim meio vidrados, perdidos, estacionados, distantes. O moço perdera a paciência com o doente (um entojo, foi assim que ele disse). Ele segredou que estava naquela função temporariamente, pois não conseguia emprego de jeito nenhum, e tinha contas a pagar, mulher e filhos para prover, e tudo o mais; não gostava de zelar de um sujeito inválido como aquele, mas cada um carrega a sua cruz nesse mundo-de-meu-deus; e que aquele episódio seria a gota d’água, a última vez em que tolerava os devaneios de um demente traiçoeiro; e que pediria demissão logo mais à noite, se aparecesse alguém da família, é claro, pois aquele pessoal andava muito relapso....


Chamei o homem pelo nome, tentando convencê-lo a soltar as barras de ferro, pois um filete de sangue ralo escorria pelo metal, denunciando fissuras, ferimentos na sua frágil pele de gente velha. O rapaz repreendeu-me, impaciente, alertando que de nada valeriam os meus argumentos, pois o paciente há anos não emitia qualquer som, senão gemidos, e não respondia a nada que produzisse ruídos na face da terra. O rosto do velho estava pálido e recoberto com um suor viscoso. Espasmos finos deixavam sua face ainda mais grave. O olhar paralisado estacionara no jardim. Uma pequena multidão de curiosos já se formara ao redor de nós. Muitos se apressaram em dar palpites e sugestões, em recriminar o rapazola, em tumultuar o ambiente pelo simples prazer de ver o circo pegar fogo. Nada, ninguém, nenhum argumento fazia com que o pobre senhor soltasse a grade do condomínio, na qual, visivelmente, ele se feria, pois uma poça rasa de sangue formava-se na calçada, atraindo formigas tão enxeridas como aquela gente. O homem senil não arredava o corpo de jeito algum. Alguém sugeriu telefonassem a equipe de resgate do corpo de bombeiros, ou para algum parente. Quem sabe, um filho não convenceria o pai a ser razoável, a largar de ser teimoso e soltar, de uma vez por todas, aquelas barras de ferro enferrujadas. Leigos, quase todos criam no risco de o homem adquirir um tétano e morrer. O suposto enfermeiro sorriu, evidenciando nervosismo e sarcasmo, garantindo que, àquela hora do dia, seria um milagre se algum parente aparecesse, pois as visitas andavam muito minguadas, e os filhos, gente rica e importante da cidade, tinham lá os seus compromissos e atribulações cotidianas. Eles mesmos é que teriam que resolver a parada. Algum desmiolado sugeriu que se dobrasse e quebrasse algum dedo do mentecapto senhor, a fim de ele bambear, amolecer, entregar os pontos, e largar em paz, de uma vez por todas, a grade do prédio. É claro, ninguém levou a sério sua provocação.


O homem, então, sussurrou palavras que ninguém conseguiu entender (o alvoroço era grande; um fiscal de trânsito chegou, sim, e multou, sim, o meu carro, cumprindo, cegamente, a sua missão). A doença de Parkinson degenerara o seu corpo, deixando-o rígido, lento, trêmulo, incompatível com o dinamismo, a loucura, o caos da vida cotidiana. A voz fora embargada por conta da paralisia das cordas vocálicas, sintoma comum à doença. Era evidente que ele chorava, embora, nenhuma gota de lágrima escorresse dos seus olhos paralíticos. Ele fitava o jardim florido, bem cuidado _ repito _, enfeitado com borboletas amarelas e um inesperado colibri que, alheio às esquisitices humanas, sugava o néctar matinal das flores. O velho se agarrava à grade com toda a força restante ao definhado corpo. Finalmente, eu deduzi que ele desejava atravessar pelo vão daquela grade, e adentrar o jardim, participar da paisagem, integrar-se ao colorido. Quem sabe, ele ansiava mesmo desgarrar daquela vida tola e sem sentido, e do arcabouço metálico em que ela se transformara, aviltando o fiasco de lucidez e dignidade ainda acesa em sua mente. Sim. Caminhar. Deixar para trás uma vida inconveniente e suas inconvenientes personagens. Caminhar. Caminhar dentro daquele jardim bonito. Tão bonito que, para uma mente malograda e triste como a sua, dir-se-ia se tratar mesmo do paraíso, do jardim do Éden.


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