revista bula
POR EM 05/10/2012 ÀS 09:11 PM

Aconteceu na esquina da Pegasus com a Caralho-de-Asas

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Cornélio ganha a vida vigiando carros e pessoas na esquina da Pegasus com a Caralho-de-Asas. Teve a infância malograda já ao nascer, por acaso, de parto domiciliar bruto, desassistido, no conturbado seio familiar de degredados sociais. O pai era um viciado incorrigível ao ponto de beber a caubói copos de álcool combustível; a mãe, mulher analfabeta, parideira aidética de uma renca de filhos.

Sob o barraco de lona preta de um cômodo só, descobriu deste cedo o quanto o Homem estorvava os planos de Deus na construção de um mundo melhor. O mais incrível é que cria na divindade com a mesma convicção que um deputado acredita jamais será pego em escutas telefônicas comprometedoras.

Então, na prática, ele foi deseducado, adestrado na dureza insigne das ruas, na crueza dos seus pares igualmente miseráveis, resignados companheiros do abandono e da negligência social. Pode-se dizer que escapuliu por um milagre, um capricho do Pai, quem sabe, naquele cenário caótico a que muitos teimam chamar “família”.

Não. Aquilo não era uma família, uma célula da sociedade, conforme dizem os empolados. Na melhor das hipóteses, uma célula cancerosa que se replica independentemente, a despeito da lei, da ordem, do progresso, e dos aumentos substanciais do PIB. Poder-se-ia dizer aquilo era uma matilha de cães sarnentos entregues à própria sorte.


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POR EM 28/09/2012 ÀS 08:57 PM

Coluna antissocial do Prestes

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“Há homens que lutam um dia, e são bons. Há outros que lutam um ano, e são melhores. Há os que lutam muitos anos, e são muito bons. Mas há os que lutam toda a vida, são os trogloditas do MMA”

(Prestes, colunista antissocial)

Pasárgada, sexta-feira, dia 28 de setembro de 2012.

O renomado cirurgião dentista Teotônio Brocca acaba de chegar de uma bocada em Toronto. Apesar do Rei do Boticão afirmar que estava fazendo um fellow em Boca do Lixo, comenta-se à boca miúda que o profissional, na verdade, acompanhava uma comitiva de deputados (e acompanhantes) em viagem oficial de férias àquele país, por conta do erário. Isto está cheirando mal...

Mal começaram as chuvas, os apagões na cidade já aconteceram, e o cavalo do carroceiro Zé Malaquias morreu fulminado por um raio. Para não desperdiçar tanta carne equina, Zé convidou a vizinhança para um churrasco às pressas em plena terça-feira. No dia seguinte, todos forjaram atestados médicos falsos e apresentaram aos respectivos departamentos pessoais.

Numa festa de aniversário regada a muita cerveja barata e baixarias, Tonho Frentista declarou a todos os presentes que engravidou sim a cunhada. Quando esta edição foi fechada o IML ainda fazia a assepsia do local, de tal sorte que não há informações precisas quanto a mortos e feridos. Igualmente ferida com a traição do marido, o ilibado Desembargador Braguilha, Dona Vulva e amigas partiram ontem para um cruzeiro pelo Caribe. Só para mulheres. Isto porque o cruzeiro dos cornos sai só na semana que vem. Não perca esta oportunidade.


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POR EM 21/09/2012 ÀS 09:38 PM

Tomai e fumai todos vós

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Botina. Dentadura. Óculos. Tratamento ortodôntico. Vale-transporte. Cesta básica. Emprego para um enteado. Gasolina no tanque. Um tanquinho de lavar roupas. Silicone para as mamas. Duas mãos de tinta. Ligadura das trompas. Uma cirurgia de hernia. Câmara de ar para o pneu da bicicleta. Créditos para o celular. Uma banda de leitoa. Aparelho para surdez. Um rolo de fumo. Perineoplastia. Dez sacos de cimento. Um puxadinho. Vestido de casamento. Custas de “adevogado”. Pedras de crack. Pedras de crack?! Sim, pedras de crack...

A estratégia de trocar votos por drogas é inédita, sensacional, uma verdadeira pérola do estratagema político criminal. Senão, vejamos (acompanhem só as engrenagens rangendo na mente de um meliante): imbuído de má fé, maquinando com capetas, comparsas e correligionários da ilicitude, o traficante seleciona um qualquer simpatizante da causa que possua ainda a “ficha limpa”, e ambos coadunam para que este último seja o candidato da região, a fim de — se eleito for — defender no parlamento os interesses do bando. Enquanto um bando de andorinhas voa de uma árvore (Por que será que essas aves atrevidas elegem a caótica atmosfera desta metrópole para desfilar os seus voos? Efeitos inevitáveis da expansão urbana ou pura provocação a este pobre diabo?), eu rumino a notícia da varanda de casa, mais uma vez surpreendido com a capacidade humana de fazer conchavos para o mal.


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POR EM 14/09/2012 ÀS 12:13 PM

Eu gosto de ler Paulo Coelho, de tomar injeção e de comer jiló

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"Eu nunca sonhei com você, nunca fui ao cinema, não gosto de samba, não vou a Ipanema, não gosto de chuva, nem gosto de sol" (Tom Jobim)

Eu gosto também de me resfriar com as chuvas de verão. Gosto da coriza, dos 40 graus de febre, de curtir ressaca brava e de preparar fumegantes chás de boldo. De amarga, já basta a vida? Ao contrário das seriemas e do resto da humanidade, eu gosto das cobras (porque, como eu, elas engolem sapos).

Eu gosto de votar em políticos que adesivam o meu carro com fotos, números e slogans, que encham semanalmente o tanque de gasolina, e que coloquem créditos no meu aparelho celular. Eu gosto de acordar bem cedo no domingo e votar no primeiro candidato cretino que me venha à mente. Bom mesmo é vender o voto. Eu gosto de desfazer planos para o futuro, entende?

Eu gosto de provocar indignação, de gerar dúvidas. Eu gosto de contrair matrimônio e dívidas. Eu gosto de adoecer só para ler as bulas de remédios. Eu gosto de atestados médicos. Eu gosto de remediar. Eu gosto de furar qualquer tipo de fila, desde que não sejam filas da puta, nem filas para as câmaras nazistas para extermínio. Eu gosto do atual salário mínimo. Eu gosto de levar susto. Eu gosto do atendimento do SUS. Eu gosto de hospitais, do cheiro do éter, de viajar na maionese, ser acometido por colônias de salmonelas e pensamentos inovadores. Eu gosto das dores do parto. 


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POR EM 07/09/2012 ÀS 04:06 PM

Profissão: poeta

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Mesmo após tantos anos sem escrever um verso sequer, os amigos escritores chamam-me poeta. Seria só fase ou o meu fuso mudou definitivamente? Uma vez poeta, sempre poeta? Estaria o mundo carecendo tanto assim da lira, ao ponto deste pelejante clã de escribas selarem os portões da rima com seus cadeados de crepom, a fim de demoverem da fuga este vate dissidente?

Nos dias atuais, declarar-se poeta é pior que se declarar culpado. E pior: quase ninguém acredita. Olham pro sujeito como se ele tivesse lepra. Não é lepra não, gente; é a letra, o verbo.

Conheci Antônio Carlos Piolho num jardim de inverno do Hospital das Clínicas, ocasião em que eu me graduava no curso de medicina e ele convalescia de uma fratura de pênis (Enverga, mas não quebra? Conversa fiada!), decorrente de uma desastrada tentativa de conjunção carnal com um travesti (desatento, ingênuo, louco, ele jurava fosse o sujeito “a mulher mais gata com a qual tivera feito amor nesta vida”), atrás de uma caçamba de entulhos na esquina da Rua Pegasus com a Caralho-de-Asas. Comovido com o acidente e o sofrimento do cliente (suponho que Piolho tampouco soubesse que o “impressionante encontro casual” tivesse um caráter claramente financeiro), Turíbio (era este o nome de batismo da travestida Melanie Madona) colocou-o dentro do velho Fiat 147 e tocou para o Pronto Socorro do HC. Nunca é tarde demais da noite para se operar caridades.


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POR EM 31/08/2012 ÀS 08:54 PM

Sempre quis matar meu pai. Desde criancinha

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Nunca antes na história daquela delegacia (até quando ainda farei alusões em meus textos à retórica populista daquele nosso ex-presidente-metalúrgico?), o doutor delegado (malandros insistem em dizer “eu não fiz nada, doutor”) ouvira uma confissão tão lógica e simplista quanto aquela do rapagão. Era como se ele tão somente comentasse “vou matar aulas hoje”.

Pobre diabo. Àquela altura da vida, nem mesmo aulas poderia matar, uma vez que abandonara os bancos escolares (na verdade, fora abandonado por eles, pela constante falta de vagas na escola pública) ainda durante o Ensino Fundamental, atormentado pelos mapas geográficos incompreensíveis, as regras de três, os cálculos matemáticos, a fome e o comportamento destrutivo do pai.

Atualmente, vivia entretido mesmo era com o ócio, o uso contumaz de crack (engrossava as fileiras de viciados urbanos que muitos cidadãos prefeririam enfileirar num paredão e fuzilar) e a torcida organizada “Os Fanáticos Demônios”. Bom mesmo era comparecer ao estádio, urrar feito um primata, empurrar o time para dentro do adversário, aprontar quebradeira nos terminais de ônibus e trucidar qualquer safado vestido com camisetas dos times rivais. Especialista em miséria humana, o delegado supunha já tivesse visto de um tudo na sua carreira. Irmão que matava irmão. Crimes passionais. Latrocínios. Trairagens familiares seguidas de morte. Infanticídio. Raptos. Abortos clandestinos. Rupturas himenais forçadas. Torturas. Judiações. O supra-sumo do sadismo. A crueldade sem amarras. O Homem na pior acepção da palavra.


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POR EM 24/08/2012 ÀS 06:40 PM

Nunca antes na história deste prostíbulo

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A juventude compreende um período da vida deveras melindroso para o desenvolvimento psicossocial de um indivíduo. Quando se é jovem, nada parece impossível, inalcançável, nem mesmo os sonhos mais bestas. É fato: a mocidade está mais para poesia que prosa. Que o digam as musas e seus vates devotados. Houve uma época em que tive cabelos, e rimei muito amor com dor. Hoje, a lira foge dos meus pensamentos como o Tiago foge da cruz (Tiago é o meu vizinho ateu).

Há quase sempre muita energia vital para as atividades físicas, como esportes, pancadarias e sexo. Provocado pela efervescência dos hormônios, o cérebro juvenil funciona a mil por hora. Vive-se o apogeu da irreverência e do potencial criativo. Penando na adultícia, na chatice das encrencas cotidianas, gozando de irrisório élan, o máximo que conseguimos é enxergar, através do espelho retrovisor do tempo, o melhor de nós incrustado no passado longínquo. “Nossa... Éramos tão lindos e atirados...”. Dá até vontade de chorar ao idealizarmos fontes da eterna juventude. Por causa da impetuosidade, outra característica do mancebo é supor que já saiba tudo. Esta convicção de semideus torna-o arrogante por natureza. Tenho um dileto amigo que hoje trabalha como Juiz de Direito. Antes de adentrar a magistratura, penou, ao longo de três anos, como Delegado de Polícia no interiorzão do Estado. Naqueles idos ainda guardava uma cara de menino.


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POR EM 17/08/2012 ÀS 05:21 PM

Seja o primeiro a curtir isto

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Já notaram que uma das coisas com que as pessoas mais se excitam é dar notícia ruim? Contar desgraças é palpitante e, numa roda de conversas fiadas, faz enorme sucesso. Os olhinhos brilham. Todos esperam ouvi-lo.

As gestantes (coitadas!), por exemplo, passam todo o pré-natal tomando vitaminas, levando dedadas na vagina e ouvindo das comadres, parentes e estranhos causos de decessos obstétricos os mais dantescos do planeta.  Sempre aparece alguém com aquela estória do bebê que passou da hora e nasceu roxinho.

Na seara dos dramalhões, eu me atrevo em contar mais uma. Reuniu a família na sala e disse: “Gente, eu vou morrer em breve”. A filha adolescente, que manuseava um ismarte-fone, entretida em fofocas e intrigas virtuais, pausou os polegares, deixou cair o queixo, a parecer ainda mais abestalhada que o costumeiro.

O irmão mais velho, a princípio injuriado pela abrupta interrupção quando então dedicava uma punheta a Popozuda Mascarada da Laje no banheiro (“Vem logo, menino”, ralhou a mãe), expressou uma face estarrecida, a melhor de todas as faces estarrecidas da sua curta existência. A mãe, que tomava chá verde emagrecedor, ficou pálida, bambeou as mãos e derramou o líquido fumegante no colo obeso cultivado às custas de muita comilança desenfreada, sedentarismo e duas barrigadas. Demandava perder peso, melhorar o visual, já que o marido parecia deveras interessado nas mulheres da vizinhança, muitas delas bem mais jovens, bonitas e jamais enxertadas. Seu sexto sentido vivia a lhe trair, ao fantasiar aventuras do marido com amantes. Então sofria de toda insegurança de que era capaz.


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POR EM 10/08/2012 ÀS 08:31 PM

Vá ver se eu tô na esquina. Mas tome cuidado

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Por um instante, o jovem teve um desejo sincero de dar cabo do vil ali mesmo, no meio da rua, alvejá-lo na cabeça (teve tempo de se lembrar da famosa foto do vietcong sendo fuzilado a meio palmo em Saigon, 1968), descarregar um 38, crivar aquele corpo deseducado com balas e, por último, chutar a sua cabeça assim que tombasse no asfalto.

Notem: em brigas corporais, quando alguém deseja ferir definitivamente outro alguém, quando alguém que está possuído de ódio (seria o capeta, irmã?!) por outro alguém (aquilo a que denominamos, singelamente, da boca para fora, como “ódio mortal”), sempre visa a atingir a cabeça. Coisa de principiante, convenhamos. Cabeças são estruturas nobres, porém protegidas por arcabouço ósseo da maior dureza. Corações, não. Corações são órgãos moles, literalmente. Para matar mesmo há que se acertar em cheio o coração (lembro-me perfeitamente de meu pai detalhar este fato enquanto sangrávamos um porco com um canivete às vésperas do natal).

Mas o rapaz não possuía armas de fogo. Nem faca. Nem punhal. Nem um cabo de machado feito com guatambu (sabiam que muitos carregam dentro dos carros porretes de madeira para trucidar inimigos no trânsito?). Aliás, àquela altura da vida, além do pobre e escandaloso leitão de sua meninice, o máximo que conseguira matar foi uma aula de trigonometria, ao pular o muro da escola. Urinou nas pernas de tanto apanhar do pai com lasca de pneu de caminhão.


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POR EM 03/08/2012 ÀS 09:03 PM

Quem mata mais: o cinema, o cigarro ou estudantes de medicina ensandecidos?

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Quem mata mais: o cinema, o cigarro, estudantes de Medicina ensandecidos, a saudade, o répi-auer, a gripe A, o lado B dos vinis, o BHC, canções do tipo “Assim você me mata”, os alimentos transgênicos, os atentados homofóbicos aos transexuais, a gordura trans, o excesso de sal, o excesso de açúcar, o excesso de corrupção, a falta de vergonha na cara, a impunidade, as estradas brasileiras, a anorexia nervosa, a fome africana, a fome de grana dos mensaleiros do Petê, a sífilis, a endemia de maleita no Norte, a falta de limite dos adolescentes filhinhos-de-papai, a falta de educação, os tumores, os temores descabidos, os tremores de terra, os Estados Unidos da América, as ditaduras do século 21, a guerra civil na Síria, o derrame cerebral, o derrame de dinheiro surrupiado em paraísos fiscais nas Ilhas Cayman, a falta de saneamento básico, a hidrofobia, a sede de vingança, a seca no sertão nordestino, o desvio de verbas para o desvio das águas do Rio São Francisco, a raiva por pagar tantos impostos ao Governo sem a devida contrapartida, o voto nulo, o voto de confiança em políticos safardanas, o falso voto de castidade de estupradores psicóticos devolvidos ao convívio social pela Justiça, a injustiça, as torcidas organizadas, o crime organizado, a sociedade desorganizada, a Organização das Nações Unidas, o suicídio, o aborto clandestino, a hipocrisia social, as religiões, o SUS, Deus, os Homens? O título desta crônica é propositadamente provocativo. Mas não será a vivência humana neste planeta, da mesma forma, provocativa, impelindo-nos aos questionamentos mais pertinentes, às vezes dicotômicos, quais sejam a fé inarredável em Deus e a descrença na humanidade? A despeito de tanta revolução industrial, evolução científico-tecnológica, o ser humano tem ambições caninas e fareja o mal, ele tem vocação para as atrocidades. 


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