revista bula
POR EM 14/12/2012 ÀS 08:50 PM

Desapontamentos previstos para 2013

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Ravi Shankar foi apresentado ao Ocidente, de maneira definitiva, pelo cantor e compositor britânico George Harrison nos anos 60, época em que os Beatles eram mais conhecidos no mundo que Jesus Cristo (Quem de vocês se sentir incomodado com a comparação que reclame com Yoko Ono, viúva de John Lennon, o responsável pela analogia que provocou uma das maiores quebradeiras de discos de vinil em praça pública que se tem notícia. Se alguém quiser me esconjurar, prossiga. Não persigo céus mesmo...).

Renomado músico indiano, foi Ravi quem ensinou (e influenciou) George a tocar a cítara, instrumento de cordas com som exótico que foi introduzido nos arranjos de algumas canções do quarteto fabuloso naqueles loucos e benditos anos 60. A recente morte de Ravi Shankar, aos 92 anos, pouquíssimo tem a ver com a temática desta crônica, a não ser para ilustrar o quanto a vida nos premia com desapontamentos tão ininteligíveis e pouco aceitáveis quanto a morte.

Muitos haverão de dizer que a morte é primordial para o expurgo da humanidade, que o povo tem que morrer mesmo, a fim de que mais e mais gente nasça para continuarmos a nossa ignóbil missão neste planeta rumo ao desconhecido. 


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POR EM 07/12/2012 ÀS 09:08 PM

Pedidos indecorosos ao Papai Noel antes que o mundo se acabe

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Agora é definitivo: de acordo com especialistas em finais de mundo (olhem que a minha paciência também se aproxima de um fim), a vida no planeta azul vai mesmo expirar no próximo dia 21 de dezembro, às vésperas do natal. Entre os homens e o meteoro, eu prefiro o segundo, a pedra fumegante que, em menos de um segundo, haverá de nos redimir de nós mesmos, incinerando mazelas como se fossem mendigos do Planalto Central.

Entendam: o intento maior da flama é o trucidamento impiedoso de toda humanidade, a despeito de mensalões, de cachoeiras e de todo cinismo que compõe a lama na qual patinamos desde que paramos de andar sobre as quatro patas, para deambularmos a esmo, em busca de comida, de procriar, de perpetuar a espécie e toda a ignorância que insiste em habitar nos cromossomos. Somos, em suma, uma causa perdida.

Tendo em vista que agora é pra valer, listei neste prolixo texto (pro lixo com ele, puritanos!) os meus últimos pedidos ao Papai Noel, que irão, posso lhes assegurar, além das modernosas televisões de tela plana e dos smart-phones. Papai Noel, seja esperto! Ao apagar das luzes, rogo ao caquético velhinho que se apresse, pois o tempo urge, a vaca muge e as vedetes do Moulin Rouge, depois do provável cataclismo, perderão todo o charme ao ponto de não aplacarem a libido da plateia.


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POR EM 30/11/2012 ÀS 08:21 PM

Tudo o que nós somos é poeira no vento

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Nunca fui muito adepto à prática humana corriqueira de se colocar nome de bicho em gente, e nome de gente em bicho. Fracos em criatividade, os índios, além de plagiarem a nomenclatura dos fenômenos da natureza (trovão, tempestade, peido, etc), sempre foram craques neste mister.

Atolados na lama da solidão — ou, ao contrário, despegados, sentindo-se felizes, livres e a salvo do restante da falida humanidade — muitos colocam nomes próprios até mesmo em samambaias. Há quem garanta seja possível se comunicar, em bom e alto tom, com as plantas. Não duvido. Tio Fidelmino, por sinal, conversava com árvores antes de ser diagnosticado com Alzheimer. Criado na roça, primo Anacleto, desavisado do iminente risco leguminoso, apaixonou-se por melancias após fazer amor com uma delas.

Eu suplico: não desistam deste texto. Ele melhorará, tenho fé. E mais: não riam! Debochar do amor é sinal de mediocridade. Quem, entre vocês, por exemplo, não terá utilizado o pegajoso tratamento “docinho de coco” ao se referir à pessoa amada? Eu, que pouquíssimo amo e amei, além de não ser diabético, ainda considero a alcunha deveras ridícula, além de hipercalórica. Da mesma forma, “moranguinho do agreste” soa mal pacas, sem falar no risco que se corre em, ao se comer da “fruta”, acabar intoxicado por agrotóxicos e ressentimentos. Eu confesso: ao saber da predileção do primo pela fruta rechonchuda, nunca mais consegui tomar suco de melancia.


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POR EM 24/11/2012 ÀS 11:27 AM

Para sempre Emmanuelle

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Faz-se pertinente e justíssimo o seguinte preâmbulo: o erotismo (ou a pornografia, sei lá, alguém aí, por favor, me acuda!) ficou mais brocha com a morte da atriz holandesa Sylvia Kristel. Corroída aos 60 anos de idade por um câncer de garganta, Sylvia gozou (sem trocadilhos, senhores!) de enorme popularidade em motéis, saunas, cinemas e banheiros domésticos do mundo inteiro, por conta da lasciva personagem Emmanuelle, diva da sacanagem cinematográfica nos anos 70. Ao concluir a redação desta crônica, haverei, sim, de render à musa das bolinações genitais vespertinas, um derradeiro e comovido tributo. Mãos à obra! Vamos ao texto, que o tempo urge...

Meretrício por meretrício, eu prefiro a companhia simplória da pseudo-universitária Emanuele (codinome abrasileirado, escrito faltando um “eme” e um “éle”). Mentira por mentira, eu escolho as enganações de Maria da Anunciação — a iletrada (e desletrada) Emanuele — cuja alcunha foi a ela imposta, ainda nos primórdios da prostituição na cidade de Pasárgada, ocasião em que, impulsionada pela condição miserável de vida, patrocinada pela mãe alcoólatra, contava 14 anos incompletos e 40 quilos mal pesados.

Não me condenem! Não me atirem as suas pedras! Não me tratem como a uma Madalena com um pênis entreaspernas. Conheci as lides alcoviteiras de Emanuele já na adultidade, no auge da sua tarimba profissional. Tenho lá também os meus lamentáveis e desprezíveis momentos de humanismo (muitas vezes, eu sofro de recaídas, esqueço que sou bicho, e me permito humanizar).


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POR EM 16/11/2012 ÀS 08:53 PM

Segura na mão de Deus e vaia

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“O sujeito já era. Pode avisar a família.” Feito o diagnóstico, o doutor arrancou as luvas e foi atender outro paciente que bebera soda cáustica com campari, e agora vomitava feito o diabo (não se sabia ao certo se sangue, se bile ou se campari), incomodando a todo mundo, sem, contudo, dar um fim aos seus cruéis dilemas existenciais.

Um amigo de Azor (era este o nome do falecido) foi o primeiro a saber do óbito e a choramingar. Sem rodeios, sem classe, enxugou as lágrimas do narigão na manga da camisa e telefonou para a esposa do morto comunicando a tragédia tintim por tintim. Teve a impressão de ouvir gargalhadas do outro lado da linha (certamente, um equívoco seu), junto com ruídos de algum objeto se quebrando, quem sabe um vaso derrubado com o impacto do cotovelo e da notícia. Tem gente que até gosta do papel, mas, é péssimo dar as más notícias.

O velório foi mais rápido e animado que o habitual, com equipe carpideira, discursos inverídicos, a meninada aprontando correria pelos corredores, mulheres desfalecendo, a viúva sendo cobiçada pelos velhacos (entrada nos trinta, ela apetecia a libido da homarada), e piadistas incorrigíveis descontraindo os bastidores da dor. Funerais custam os olhos da cara, vocês sabem. Quiçá ainda pudéssemos enterrar os nossos queridos em covas rasas, embrulhados em lençóis limpos, à sombra dos carvalhos. Por causa de profundas restrições orçamentárias, o corpo de Azor foi colocado num caixão popularesco, o mais barato do mórbido portfólio oferecido pelos papa-defuntos, confeccionado com ripas de compensado recicladas a partir de caixotes de tomate. Para a sorte de Azor, esta particularidade salvaria a sua vida.


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POR EM 09/11/2012 ÀS 07:26 PM

A quem interessar possa, estou colocando o meu na reta

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Nestes tempos bicudos em que quase ninguém mais envia e recebe cartas, e que as únicas visitas que recebemos em casa são de oficiais de justiça e das equipes de combate à dengue, chegou-me pelo correio eletrônico uma longa e impressionante mensagem, uma espécie de manifesto redigido por um meu leitor desconhecido.

Ele clama que a mensagem seja replicada aos meus contatos, que é exatamente o que eu faço agora. Aliás, aqueles que não se sentirem de forma nenhuma feridos nos brios, bem que poderiam colaborar também com a divulgação do tal texto, o qual poderá representar uma baita oportunidade de negócio para muitos. Eis o texto, queridos leitores. Abre aspas:

Não. Não vou negar. Não farei como Pedro que, por três vezes, a despeito das advertências futurísticas do Nazareno, negou que o conhecesse aos truculentos soldados de Roma. Também não me arvorarei no cinismo populista de se negar mensalões: “Eu não sabia de nada...”, quá! Da mesma forma, não recorrerei à covardia de um caubói Bush, ao insistir que, sim, havia sim armas de destruição em massa mocosadas por Saddam Hussein no Iraque.


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POR EM 02/11/2012 ÀS 05:22 PM

Segredos jamais revelados da minha intimidade com as gêmeas siamesas Lucy e Sky

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Fotografia: Rui Aguiar / Umbigo Magazine“Jamais pensei que isto pudesse acontecer comigo, até que um dia...”. Conto erótico que se preze tem que ter esta frase como preâmbulo, o qual prepara os leitores punheteiros para uma estória picante, incrível que, sinceramente, pode acontecer a qualquer um, a qualquer hora do dia ou da noite, em qualquer recôndito lugar deste planeta onde haja, ao menos, dois seres humanos presentes no recinto.

Vocês sabem: as oportunidades para o sexo casual se nos apresentam desta forma, conforme descrito com propriedade nos episódios reais ou inventados, a respeito de experiências sexuais impressionantes, inusitadas e inesquecíveis, ainda que nenhum protagonista jamais se submeta a um “mea culpa”, uma reflexão sincera do pós-love.

Muito menos são revelados os vacilos das incontáveis enfermidades sexualmente adquiridas, que vão desde um simples piolho sugando a genitália infecta até o vírus da AIDS e, pior que tudo, quase ninguém se gaba pelas gravidezes indesejadas. No fundo, no fundo, todos se julgam um bocado desejáveis (e espertos também). Mas o texto a seguir não se trata de um conto e, muito menos, é erótico. Lamento, profundamente (como a uma garganta), se decepcionei alguns tantos leitores ao criar falsas expectativas com o título espalhafatoso. Na verdade, eu prefiro as crônicas empata-fodas.


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POR EM 26/10/2012 ÀS 02:15 PM

Pergunte ao Poe

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Se viemos do pó, a ele haveremos de retornar, ainda que na forma de lama? Quem aspira a algo mais: os Homens ou o velho aspirador de pó Electrolux? Deus Misericordioso aprovaria um tiro de misericórdia com uma pistola de uso exclusivo das Forças Armadas? As cidades são mais que concreto armado? É possível ser amado até os dentes?

Com quantos pregos se crucifica um sonho? Por que os pesadelos só nos afligem à noite? Sonhar acordado é sintoma de loucura? Há mesmo que se chorar por um Mar Morto? O que se esperar de um carrasco que aprecia poesia? Teria Hitler beijado de língua?

O que, afinal de contas, existe por trás da grande mulher de um grande homem? Pode-se, com toda segurança, despachar o sexo frágil através de empresas aéreas? Seria muito arriscado voar no céu da sua boca? É lícito cobrar uma boquinha no governo? Habeas corpus é bom para prisão de ventre?

Eram os deuses autodidatas? São permitidas diarreias dentro de uma cápsula espacial? Como os astronautas batem punheta na gravidade zero? Num momento de pura distração, seria arriscado que mulheres astronautas engravidassem pelos poros? Pílulas do dia seguinte previnem também arrependimentos do dia seguinte? Por que dizer a verdade, somente a verdade, nada mais que a verdade, pode parecer tão cruel? Há varizes em mentiras de pernas curtas? Há dúvida depois da morte? Há vida inteligente neste e noutros planetas? Por que não se tem um orgasmo sorrindo?


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POR EM 19/10/2012 ÀS 03:49 PM

Médico é que nem sal: branco, barato e se encontra em qualquer esquina

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“A Medicina não é melhor nem pior que as outras profissões. Só é diferente porque cuida da vida.” Li esta frase num periódico do Conselho Federal de Medicina (ou da Associação Médica Brasileira, não tenho certeza...), que finalmente resume tudo o que eu penso a respeito desta espinhosa, incompreendida e, várias vezes, usurpada atividade profissional. O autor da mesma é um velho médico nordestino, Celso Matias de Almeida, 84 anos, ex-professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

Aposentado há mais de 15 anos, o octogenário doutor não abandonou o eito e passou a atender, voluntariamente, a comunidade pobre de Natal, cidade onde reside. Dentre tantas estórias inspiradoras, o Vovô do Estetoscópio (Por que não? Se a imprensa joga seus holofotes sobre a Vovó do Crack, por que não enaltecer um Vovô do Estetoscópio? A sua maneira, cada qual interfere como pode no caos cotidiano...) conta que duas aventuras, em especial, marcaram-no visceralmente.

Na primeira delas, quando ainda era solteiro, foi retirado às pressas de uma Festa de São João em Currais Novos — RN para acudir, montado no lombo de um burro, uma mulher que paria num sítio em local remoto do agreste. O parto melindroso foi conduzido à luz de velas e, como a própria chama, a campesina deu a luz a uma criança saudável. “Deus ajuda muito os médicos do interior”, ele comenta, a transpirar humildade.


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POR EM 13/10/2012 ÀS 02:25 PM

Trate logo de lavar este seu poema sujo

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Quando eu era criança, dentre tantos ofícios infantis curiosos, ficava observando as mãos do meu padrinho, um homem velho a quem amava desmesuradamente, enquanto ele e a esposa enchiam, com esmero, uma garrafa de Crush com suco de laranja, para que eu e os meus irmãos pensássemos fosse o famoso refrigerante da moda. Vocês sabem: quem não tem cão caça como gato.

“Quando eu crescer quero ter mãos assim...” — eu pensava ao acompanhar aquela fabulosa fraude doméstica, observando as suas mãos enrugadas e macias, com moitinhas de pelos sobre as falanges. “São mãos de médico, menino...” — explicava a madrinha, sem desgrudar os olhos da garrafa para que o pseudo-refrigerante não derramasse. Para agradar criança, tem gente que faz de tudo.

Finalmente eu cresci e constato agora o quanto estão também peludas as minhas falanges. Contudo, perdi em maciez para a dureza da adultidade. A vida é dura pra quem é mole. É o que dizem. E eu sou mole. No duro.

Acho que ando mais a flor da pele que o próprio Zeca Baleiro. São tantas as coisas que eu tinha a escrever que nem sei bem ao certo por onde começar. Então vou começar dizendo o quanto eu lamento despossuir a mesma alegria incontida de um menino a me oferecer esculturas de balões, no hall de um Posto de Saúde infestado com germes e pensamentos indóceis. “O desgraçado do médico está atrasado...” — reclama uma mulher gorda, cega de um olho.


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