revista bula
POR EM 22/02/2013 ÀS 08:13 PM

Eu quero ser o próximo Papa

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Pasárgada, 22 de fevereiro de 2013. 
Carta dirigida aos cardeais da junta médica.

Rogo as Vossas Eminências que coloquem especial tenência nesta mensagem em que manifesto o meu real e inarredável desejo de pleitear o trono de maior mandatário da igreja, a ser desocupado nos próximos dias conforme amplamente noticiado aos quatro cantos do mundo.

Não me cabe julgar, analisar, lucubrar, intuir, criticar, zombetear, comemorar ou desconfiar dos reais motivos que fizeram com que o Papa-Almas Joseph Blater Mengele jogasse a batina e renunciasse ao cargo — um dos mais cobiçados que se tem notícia desde o Reinado de Elvis “The Pelvis” — embora todo cardeal negue, peremptoriamente, que o deseje ocupar.

Eu não. Abdicações franciscanas não me atingem. Eu não posso negar. Não sei mentir sem levar alguma vantagem. De tal forma que, sem falsa modéstia, eu digo e repito que estou no páreo desta sacrossanta peleja para o que der e vier; e é dando que se recebe (parodiando os políticos e as prostitutas desta pátria). E quando a fumacinha da cuia de santo-daime vazar pela chaminé doidona dos subterrâneos do Pelicano, é o meu nome que espero ouvir alardeado pelas trombetas de mil decibéis.


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POR EM 15/02/2013 ÀS 01:06 PM

Sosseguem. Meus dois canos fumegantes só atiram palavras

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É importante deixar claro que o medo do escuro faz parte do rol de fraquezas de qualquer ser humano dito “normal”. Por isso mesmo, a minha repulsa pelas sombras. Não sou emo, não sou dark, nem sou punk: eu simplesmente despertenço a qualquer modalidade de tribo.

É importante frisar que, apesar de ser uma mulher — criatura elencada com defeitos insolúveis, como menstruar, parir e chorar aos menores esforços — eu posso também odiar, trucidar como o mesmo élan do homem que matou o facínora, ou de um homem-bomba, ou do melhor homem de todos os homens do presidente. Sabia que alguns exércitos já permitem (toleram) que mulheres engrossem as suas fileiras? Hoje em dia, engrossar o caldo em casa é coisa só para as amélias.

É importante que você saiba: eu não sei quem mexeu no seu queijo. Não me leia com esta cara de espanto: os ratos também festejam os entulhos em mim.

É importante que surja no próximo conclave do Vaticano o nome de um Papa minimamente assemelhado ao cidadão comum — o brasileiro comum, por exemplo — cuja fé incomum jamais se abala, mesmo nos momentos mais caóticos do viver, quando então a crença num Ser Superior parece, na verdade, um surto dos mais inferiores. Eu também não sei por que Bento XVI renunciou ao papado. Não se deve esperar toda a verdade, muito menos da parte do alto clero. O último a sair, por favor, apague a luz da sacristia.


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POR EM 08/02/2013 ÀS 11:54 AM

Guia rápido pra se fugir do carnaval

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Note que o trânsito na cidade já melhorou sobremaneira. O povo arrumou as malas, pegou a estrada, vai cair na folia. Prepare-se para desaproveitar o carnaval sem sentir culpa: sacie-se com as migalhas; anote no verso da duplicata bancária que vence em março o que não fazer (e desfazer) no feriadão que se avizinha.

Ponha tento: admire o corpo da vizinha. Deixe o carro na garagem. Ande de ônibus e pague os pecados. Experimente ler uns versos enquanto chacoalha. Se sentir enjoos, vomite a coalhada matinal com rimas ricas sobre os romances comerciais de conteúdo pobre. Visite um sebo, adote um livro. Visite um asilo, leia um velho nas entrelinhas. Aprenda com os mais novos o que não se deve fazer jamais.

Plante uma muda de árvore na rua da sua casa. Case, mude de endereço ou compre uma bicicleta. Não dispense a feia Anacleta: em feriados prolongados fica difícil arrumar um par.

O por do sol entre as torres da cidade é ímpar: aproveite sem moderação mas, cuidado com as balas perdidas e com o excesso de monóxido de carbono na atmosfera. Nota do editor: há tanto cianeto nas ruas quanto nas boates em chamas. Vá ao cinema, beije de língua. Permita que as decepções amorosas morram à míngua.


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POR EM 01/02/2013 ÀS 01:58 PM

Só falta o ministro negro do Supremo achar que é Django Livre e sair por aí fazendo justiça com as próprias mãos

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Puxadinho. Maracutaia. Gambiarra. Acochambramento. Gato. Tramoia. Migué. Malandragem. Cafezinho. Comissão. Vista grossa. Esse jeitinho brasileiro de fazer as coisas erradas darem certo ainda vai acabar nos matando. Legado de ignorância ou má fé, o brasileiro encontra jeito para tudo, valendo-se de muita criatividade, improviso e certa dose de desonestidade.

Eu lucubrava a respeito disso enquanto uma mulher furava a fila do cinema, a minha frente, com mais três amigas e um gordinho efeminado com um pavão tatuado no deltóide (Deus me livre de qualquer preconceito!). A justificativa da deseducação foi que uma outra fulana “guardava os seus lugares na fila” enquanto o grupo terminava de fazer um lanche rápido na praça de alimentação do shopping. Naquele instante, eu, sim, alimentava o desejo contido de esbofetear os safardanas (eu sabia que eles mentiam deslavadamente), mas reservei meu sentimento rasteiro para a esfera ficcional, quando adentrasse naquele recinto para assistir ao “Django Livre”, de Quentin Tarantino (Django Unchained, 2012).

Enquanto nutria uma raiva controlada daqueles estranhos mal educados (será mesmo pecado odiar, ainda que em segredo, irmã?!), fiquei matutando, digerindo a tragédia ocorrida em Santa Maria, na qual dezenas de jovens morreram queimados, pisoteados, sufocados por fumaça tóxica dentro de uma boate, na madrugada de domingo.


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POR EM 26/01/2013 ÀS 12:52 PM

Como saltar de um prédio sem ferir a multidão lá embaixo

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O pobre Coitado (Sim. Isso mesmo. Seu nome era Coitado.) tomara a decisão mais radical da sua vida: suicídio. Lá estava ele (eu me lembro como se fosse hoje) com aquela cara aparlemada, sentado no beiral do terraço do Edifício Fácil. Vestido sempre com as mesmas roupas desbotadas, parecia uma personagem de desenho animado. Não somente o pano velho do vestuário, mas, a vida, para ele, já tinha perdido todas as matizes.

A gota d’água: flagrou a esposa ouvindo sinos com um terceiro dentro do ofurô do barracão (por “ofurô” leia-se “tanque de alvenaria com três metros cúbicos de água fria”). O pegador não era outro senão um seu primo-compadre, o feirante Nabucodonosor, mais conhecido no bairro como o Rei Nabo, por ser muito bem dotado em matéria de hortifrutigranjeiros.

Com tantos adultérios proliferando por aí a todo instante, o episódio do affair dentro do tanque poderia parecer banal e démodé à maioria dos seres humanos sexuados, ao ponto de conduzir um sujeito à melindrosa decisão de se autodestruir. Acontece que a decepção com a companheira foi apenas mais um grão de areia na gigantesca duna de justos motivos que Coitado carregava sobre os ombros. Analfabeto desde que nascera (ai!), Coitado morava mal à beça num casebre de invasão às margens do Córrego Caganeiras. Saía pela cidade puxando a carrocinha baú feito um cavalo, a catar papelão, plástico, latinhas de alumínio e toda espécie de lixo urbano que pudesse render alguns trocados na usina de reciclagem.


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POR EM 18/01/2013 ÀS 08:03 PM

Internet: aproximando quem está longe, distanciando quem está perto

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Antes que alguém me incomode com as suas críticas comezinhas, adianto que a pérola que dá título a esta crônica não é da minha autoria (os fominhas da internet já a conhecem muito bem). Por sinal, eu a li num e-mail enviado por um amigo próximo que, ironicamente, se encontra deveras longe: o sujeito é pesquisador e caminha pelo trajeto de Santiago de Compostela, municiado com o peculiar espírito da pesquisa e da descrença na raça humana, imbuído em descobrir um ou mais sentidos que tornem o viver mais palatável. Ele já teve muito dinheiro, muita solidão, muito desamor e um câncer de sinuca de bico (aparentemente, sem saída). Que eu saiba, até o momento, moeu dois pares de tênis pelos caminhos tortuosos e pedregosos das suas dúvidas existenciais.


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POR EM 11/01/2013 ÀS 07:07 PM

Enquanto a morte não vem, a gente se ocupa com ela

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Desde os 37 anos de idade, Omarzinho espera a morte a qualquer momento. Hoje, aos 79 — mais vivo que a minha lembrança de La Belle de Jour — ele aguarda, de uma hora para outra, o golpe fatal da senhora da foice. “Sinto que já estou com um pé na cova e outro na casca de banana”, ele dramatiza, com o mesmo par de olhos lacrimosos de outros tempos, ao repetir o presságio antigo.

Enquanto aguarda sentado pela chegada da morte, as catracas cerebrais de Omarzinho maquinam: todos aqueles anos que excederam ao seu trigésimo sétimo aniversário caíram-lhe como lambuja. Ou seja, ele já se considera um sobrevivente na prorrogação do jogo da vida, à mercê de um apito final do divino, do último sopro há tempos aguardado. Aguardou tão bem que se esqueceu de curtir a vida em plenitude. “Você sabe, eu sempre quis viajar pro exterior, conhecer Palma de Mallorca e tudo o mais”, ele lamenta, sem sequer ter conhecido Pasargada, quem dirá, a Espanha.

Gozando de saúde de ferro (inclusive, com as juntas do corpo bem enferrujadas), enquanto espera o passamento que há décadas lhe parece tão iminente, o aposentado Omarzinho já enterrou a esposa, dois dos sete filhos e um neto, criança afogada, por acaso, por puro azar, dentro dum balde d’água durante uma faxina caseira. “Morte de criança é um horror. Velho, não. Velho já está prontinho pra morrer. Eu estou pronto desde os 37, a idade em que o papai desencarnou”, ele filosofa, desencarnando os dentes com um palito, enquanto mata mais uma dose da caninha.


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POR EM 04/01/2013 ÀS 06:55 PM

Não há nada mais amargo neste mundo do que um homem que não acredita em nada

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“Só creio naquilo que possa ser atingido pelo meu cuspe”, 
personagem de Carlos Heitor Cony em “O Ventre” (1955)

Eu não acredito em trevo de quatro folhas. Eu não acredito em pés de coelho e mãos de vaca. Eu não acredito na redenção das falhas humanas. Eu não acredito que los hermanos quiquem la pelota em la cancha mejor do que nosotros. Eu não acredito que Maradona tenha colocado a mão na bola naquele gol contra os ingleses (argentinos juram que foi Deus). Eu não acredito que a mão inglesa nos leve a Roma, muito menos a um lugar melhor do que este aqui.

Eu não acredito que o cuspe de Carlos Heitor Cony tenha me atingido. Eu não acredito que caibam milhões de microrganismos numa só gota de saliva. Eu não acredito mais neste relacionamento: adeus. Eu não acredito que consiga dizer “eu amo todos vocês” num leito de morte. Eu não acredito que os laticínios coloquem soda cáustica no leite. Eu não acredito em jogos de azar, nem de sorte. Eu não acredito que uma cigana seja capaz de ler a mão de um velho sovina. Eu não acredito que exista um ponto G na vagina. Eu não acredito que engravidei aquela prima. Eu não acredito em ufologia, em parapsicologia, em fenomenologia, e em fair-play numa orgia. Eu não acredito na benção matrimonial de padres que nunca se casaram. Eu não acredito que a dança do acasalamento funcione entre os humanos. Eu não acredito que, a esta altura da carreira celibatária, o Padre John suavize o seu sotaque ianque ao esbravejar na homilia. Eu não acredito o Presidente Obama realmente transforme Guantámano num parque Disney.


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POR EM 28/12/2012 ÀS 10:53 PM

Lamentações de um crápula enquanto o dia não vem

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De vez em quando eu morro. As noites são quase todas assim: agitadas, pegajosas, mescladas com suor e desespero mesmo nos dias mais frios. Padeço dos piores pesadelos e eles se repetem. Os roteiros são parecidíssimos, cópias das cópias, mas não consigo me acostumar, muito menos, me afeiçoar a eles.

Sou duro feito diamante, mas eu sofro. Tenho cá minhas fraquezas. A morte me visita, de repente, travestida em nuances abjetas, detestáveis, escabrosas. Faca na barriga, veneno no cálice, ar injetado na veia, arame na traqueia, afogamento numa bacia sanitária, estilete na jugular, disparos nas têmporas à queima roupa, queimado vivo com querosene, linchamento com porretes.

Noite sim, noite não, eu morro. Eu e a foice, enfim, sós, para a minha mais completa miséria. Ressuscito aliviado assim que os primeiros raios de sol fincam o escuro do quarto. Sinto-me mais isolado e desolado que a cadela Baleia nos quintais de Graciliano Ramos em "Vidas Secas". Aliás, eu, assim como as folhas e os dias, estou secando a olhos vistos. Já perdi treze quilos, uns trezentos amigos e quase toda a parentalha. Se minha mãe não tivesse morrido de desgosto enquanto eu estava foragido e ocultado em Pasargada, seria a única a me adular, a oferecer o seu colo caquético para eu recostar a cabeça.


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POR EM 22/12/2012 ÀS 01:32 PM

E se Deus jogasse a toalha?

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E se o louco for você, e não o resto do mundo? E se as pessoas não tivessem mais medo dos malucos? E se ninguém jamais teve coragem de lhe contar toda a verdade, somente a verdade, nada mais que a verdade? E se os seus medos forem adotivos? E se a verdade o libertasse, como previsto nos textos sagrados, o que você faria com ela: escreveria um livro, plantaria bananeiras no meio da rua, teria um filho com uma prostituta?

E se Papai Noel ficasse gagá e esquecesse os presentes? E se os presentes à festa se rebelassem contra o bom velhinho, internando-o num hospício? E se o passado ficasse solenemente enterrado no passado e parasse de interferir tanto no presente? E se a memória não judiasse mais da gente? E se você tivesse chegado lá segundos antes? E se tivesse chegado segundos depois? E se a morte fosse comemorada como um gol de placa?

E se os lactentes exigissem leite desnatado tipo A, enriquecido com ômega 3, diretamente das tetas maternas? E se os filhos da mãe parassem de roubar o erário, sobraria mais recurso para o leitinho das crianças? E se houvesse vagas suficientes nos presídios para tantos delinquentes? E se alguém criasse uma CPI numa pizzaria, as investigações acabariam em quê: num prato de salada ou numa pilha de processos?


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