revista bula
POR EM 14/11/2009 ÀS 10:44 AM

Encontro de amigos

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Fui o primeiro a chegar, tudo era silêncio, as luzes ainda estavam apagadas. Entrei, deixei alguns livros sobre a escrivaninha, sentei-me e fiquei esperando para ver quem entrava depois de mim.  Era muito cedo, li alguns textos, fiz algumas pesquisas, conferi a manchete dos principais jornais, e esperei. Por algum momento, tive a impressão de que alguém havia chegado. Pura impressão! Somente eu permanecia ali. Impacientei-me, deixei um aviso de que eu estava presente, mas que me ausentaria por um instante. Saí, fui à padaria da esquina, tomei um café delicioso, li o jornal diário, e voltei para interagir com os amigos, mas nada, eles ainda não tinham chegado. Fiquei preocupado, será que eu me enganara quanto ao horário? Não! Pude ver que já passava das oito e eles não chegavam, ninguém dava sinal de vida. Resolvi adiantar umas atividades, escrevi algumas páginas, permaneci ali na expectativa, coloquei uma música e deixei-me embalar. Imerso que estava na música, não me dei conta de que Marcelo acabara de entrar. Chegou, permaneceu quieto, não falou com ninguém, apenas anunciou que chegara.


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POR EM 26/09/2009 ÀS 09:46 AM

Visgo ilusório

publicado em

Começo este texto dizendo que uma das coisas mais difíceis na vida é encontrar a palavra certa para aquilo que queremos expressar. Pois bem, escritores, poetas, compositores, todos eles de alguma forma já trataram desse assunto, falaram da luta diária pelo verbo preciso, pelo vocábulo não corrompido, pela palavra ideal para traduzir um estado de espírito, um sentimento vivido, ou para, simplesmente, relatar as impressões do cotidiano.

Carlos Drummond de Andrade muito bem tratou desse assunto: “Lutar com palavras é a luta mais vã./Entretanto lutamos/mal rompe a manhã.” A luta de que fala Drummond é a mesma a que me refiro: o embate cotidiano daqueles que se debruçam sobre a escrita, que vislumbram a recifração de um mundo em ruína, que se alimentam em sonhos de uma escrita encantada, de um pensamento materializado.

Pensar a palavra é querê-la na sua condição plural, representativa, desconcertante, dilacerante, às vezes. Cada vocábulo, no texto/contexto, traz uma motivação primeira, esse traço, essa marca do ser que a pensou, não que a tenha criado, mas que a elegeu naquela acepção.

A despeito de qualquer intenção, as palavras são convenções humanas. Não importa o país, o credo, a raça, elas estão em qualquer parte, em qualquer texto, em qualquer fala, prontas para traduzir os anseios e desencontros de quem as utiliza, prontas para auxiliar o homem na sua “permanência efêmera” nesse “sem fim” da linguagem.

O signo verbal é composto de um significante e de um significado (para lembrar Saussure), daí que, dependendo da motivação que se queira dar a ele, do contexto no qual se insira, esse significado se mantém ou se desdobra em outros significados. Vejamos a literatura, prova mais cabal do que estou dizendo: linguagem criativa, subjetiva, denotativa. Outro exemplo, a arbitrariedade do signo: muda a língua, muda o significante, como na palavra “casa” que para nós falantes da Língua portuguesa tem um significado, mas para o estrangeiro que não conhece o nosso código, nada significa, ou se significa, isso ocorre apenas no plano sonoro, quando ao pronunciar a palavra ela o remete a algo parecido no seu idioma.

As palavras carregam o peso, o brilho, o gosto, o cheiro, a textura das coisas, trazem muito mais, pois servem a contextos, textos e intenções. Quanto mais nós as dominamos, mais dominados ficamos, mais sofremos, pelo amargo sabor de nos sabermos intraduzíveis.

Cada palavra cumpre uma sentença: ser palavra, ser elástica a ponto de exaustão, aí vai depender das intenções: ciência, propaganda, jornalismo, ficção. Traduzem uma imanência arbitrária com seus significados. Vivem a vida de quem as pronuncia, trazem consigo um visgo ilusório, uma relação mágica com aquilo que significam, com as imagens que representam, e silenciam quando nos calamos nos intervalos da nossa existência.

*Visgo Ilusório é o título do meu próximo livro, no prelo.


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POR EM 07/10/2008 ÀS 09:12 AM

Síncope

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As pernas não respondiam. Por mais que tentasse, nada. Estavam ali imobilizadas, soltas, distendidas, presas à cama. Algo que ele demorou a compreender. Somente tomando consciência da real situação em que se encontrava, quando, num átimo, sentiu um leve formigamento na perna esquerda, o que o fez, subitamente, tentar tocá-la, mas não pôde, estava preso, do tronco para baixo, totalmente à mercê do que ele sempre temera: a total dependência dos outros.
 
O quarto velho e desgastado compunha um ambiente triste e desolador, imprimindo no branco manchado de suas paredes a história de muitas vidas que por ali passaram. Do teto, também pintado de branco, um pouco mais conservado, pendiam duas finas correntes, nas quais os tubos de soro eram fixados, servindo, muitas vezes, aos olhos toldados de algum paciente, como apêndice dos seus delírios.
 
Era longe demais para chorar, para lembrar-se de qualquer coisa que o tornasse ao comum, ao familiar. Uma feição grave se apossou do seu rosto, parecia desconhecer tudo, inclusive a si mesmo, de quem não lembrava o nome. Tudo era muito longe, diria distante, como os dedos dos pés que não se mexiam, não serviam para nada, totalmente inúteis. Quem o teria deixado ali, que mal fizera para que um filho da puta qualquer o imobilizasse daquela maneira? Se pelo menos ele pudesse se lembrar de alguma coisa, um nome que fosse; quem sabe o dele.
 
Um desespero tomou conta de si, precisava acalmar-se, o corpo estava molhado de suor. Alguém veio, caminhou em sua direção, estacou ali, bem próximo dele, mas nada disse. Uma fragrância silvestre invadiu o quarto. Tinha de se segurar, não havia nada a fazer, era só esperar. Talvez alguém que viera acabar de fazer o serviço. Bastariam mais dois passos, o travesseiro, e pá! Acabou. Um verdadeiro pânico sobre ele se abateu.
 
Acenderam as luzes, e ele, como que aliviado, mas ainda sem saber de nada, contemplou os grandes olhos verdes da enfermeira que esboçara um sorriso, depositando a bandeja de remédios e seringas na mesinha ao lado da sua cama, quando, delicadamente e satisfeita, inoculou a agulha da seringa no tubo de soro, posteriormente prometendo que ele ficaria bom. Logo tudo acabará! Sentiu-se aliviado.
 
Por um momento, certo torpor, uma quentura percorrera-lhe o corpo, foi quando pôde divisar, do outro lado, numa cama parecida com a sua, um senhor de uns setenta anos, cabelo branco e escasso, todo entubado e amarrado pelos pulsos. Estava num sanatório, num hospício, pensou. Sua cabeça girou, sentiu o que lhe restava do corpo bambo, mas um sentir sem muita esperança. Um sentimento alheio a tudo, como aquele que se tem quando reencontramos pessoas que há muito não víamos, que por elas alimentávamos muita feição e encantamento, mas que, ao revê-las, descobrimos que o nosso poder criador é lastimável, o que amávamos era o longe, o distante. Naquele momento conseguimos varrer os últimos vestígios de uma existência, de um compartilhamento. Adormeceu.
 
Acordou com uma grande vontade de esvaziar a bexiga, foi ao desespero. Como? Como sairia dali para mijar? estava paralisado, preso duplamente pelas pernas e pelo soro que o obrigava a conservar a mão esquerda sobre o lençol, sobre o colchão da cama. Ouviu um som vindo de fora, percebeu que se tratava de um rádio, um programa religioso. Muita gritaria. Inquietou-se. Sua bexiga iria estourar, o que fazer? Tentou chamar a enfermeira, mas o som ficara preso na garganta, estava muito fraco, debilitado. Com uma mão começou a pressionar o pinto, que também estava adormecido. Que loucura! Do outro lado, o senhor da cama estrebuchava, tentava se soltar, fazendo um alarido estranho, um som esquisito, um piado, um chiado, sabe-se lá, eram espasmos seguidos, parecendo que após tamanho esforço, o homem não se restabeleceria, mas contrariando as previsões, ele se acalmara, o cansaço se esvaíra, e ele voltara a dormir.
 
Também não resistiu, deixou-se abater, mijou-se todo, mas também nada mais importava, estava ali mesmo, imobilizado, inútil, desprezado. Por um bom tempo quedou aliviado, era o que parecia. Uma sensação de bem estar, de alívio. Mas a felicidade durou pouco, fora arrastado por um sentimento de perda, de desprezo. O coração era puro ruído, como uma velha máquina de arroz, ia e vinha, parecendo querer arremessá-lo para outra realidade, talvez menos cruel. Não tinha certeza de qual. Viver era mesmo muito difícil, principalmente na condição em que se encontrava. Ali, preso, sozinho. Ao som do seu coração, mais uma vez adormeceu.
 
Bom dia! Bom dia! Fora acordado pelos berros do médico que o saudara. Como vai o meu paciente? Parece-me muito bem! Ouvia tudo aquilo ainda desconfiado, sem saber bem ao certo do que se tratava. Tentou virar-se subitamente, mas fora impedido por uma dor bem aguda, vindo da sua virilha; nisso percebeu que tinha conseguido mexer a perna, os dedos dos pés. Não podia acreditar naquilo que estava fazendo, ele que há tão pouco estivera em pânico, sem ninguém, imobilizado, a mercê dos outros. Agora ali, sentindo dor, mexendo com as partes baixas.
 
Levou a mão ao pinto, pôde senti-lo. Apalpou o saco, estava crescido, suado, grudado na sua perna nua. Um sentimento de alegria tomou conta de todo o seu ser. O médico a tudo assistia sem entender nada, estava ali, contemplando aquele homem que se redescobria. Mais uma vez falou: vejo que a anestesia já passou, deixe-me ver o corte, puxou de supetão o curativo. Perfeito! a cirurgia foi um sucesso, não há mais hérnia, agora é só repouso. Você está de alta, vou pedir a enfermeira para tirar o seu soro, na próxima semana você vem para tirarmos os pontos.
 
Um telefone tocou, deu-se conta que estava na mesinha ao lado da sua cama. Pôde reconhecê-lo como seu, um celular. Esticou o braço direito para pegá-lo. Alô! Disse ele. Uma voz melodiosa respondeu: Amor, estou indo buscá-lo, preparei um café da manhã delicioso para você. Por um momento, contemplou os raios de sol que entravam pelo velho vitrô, sorveu o ar da manhã e sorriu aliviado.

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POR EM 30/09/2008 ÀS 07:38 PM

Imagens imaginadas

publicado em

Os poetas sempre quiseram ser passarinhos, e seus cantos são como asas tomadas de anjos e deuses, querendo igualá-los.
                                                                                                                     
José Sarney 

Mundo, mundo, vasto mundo, se eu me chamasse Raimundo, seria uma rima, não seria solução. Mundo, mundo, vasto mundo, mais vasto é o meu coração. 
Carlos Drummond de Andrade 
 
UM CANTO NO CANTO DO MURO PODE SOAR TURVO COMO PODE SOAR MÚSICA
 
Numa passagem do livro “Ensaio sobre a cegueira” de José Saramago, o médico que acabara de cegar comunica ao seu superior, diretor clínico do hospital onde trabalhava que estava cego e que precisavam alertar ao Ministério da Saúde sobre a epidemia de cegueira: “Não lhe parece que deveríamos comunicar ao ministério o que está a passar”, “por enquanto acho prematuro, pense no alarme público que iria causar uma notícia destas”, “com mil diabos, a cegueira não pega”, “A morte também não pega, e apesar disso todos morremos”. “Todos morremos”, esta é a sentença. Morremos, e grande parte de nós cegou; não há remédio que nos traga de volta à luz.
Saramago na sua literatura nos coloca a par da nossa alienação, da nossa cegueira para as coisas do mundo. Talvez esteja aí a grande charada da dita pós-modernidade: o homem transformado na própria tecnologia, só a ela rende tributos: há muito que se esquecera do mundo real, há muito que perdera a autonomia, há muito que não mais sabe de si. Dito assim, soa como generalidade, parece que tudo se perdeu, mas não! Cito Saramago como contraponto para falar da poesia de Sinésio Dioliveira, mineiro de Belo Horizonte, que ainda cedo veio para Goiânia, formou-se em Letras Vernáculas – UCG, foi professor de Língua Portuguesa, até ingressar no jornalismo, quando demonstrou o seu talento como editor de cultura e como cronista, o que lhe rendeu o Troféu Goiás — categoria crônica - da Academia Goiana de Letras. Sinésio Dioliveira, que desde muito tempo conheço e respeito como poeta, só agora resolveu dividir com o goianiense sua percepção de mundo, a natureza filtrada pelas lentes de sua máquina e pelas belas imagens de sua poesia.
Sinésio tem vocação para palavra, tem tino para notícia, conhece bem o seu ofício, o que o deixa muito tranqüilo para ensaiar novas linguagens, como é o caso da fotografia, já que, como editor, sabe que uma boa imagem torna-se fundamental na composição de uma notícia. Acho que aí nasceu a idéia de fundir imagem fotográfica à imagem poética.
O poeta e sua câmera captando os melhores ângulos de uma vida dedicada à perscrutação do substrato do homem simples, da natureza pujante. De captar com maestria o instante, o silêncio, a verdadeira performance de quem assesta a sua lente para compreensão do homem inserto no tempo, incerto na vida, a percorrer os desvão de uma cidade medonha, como um flâneur baudelariano.
Sinésio é desses seres preocupados com a humanidade, tudo no mundo tem o seu valor; aprendeu muito cedo a valorizar a natureza, o respeito ao próximo. O poeta tem um olhar muito apurado para perceber o simples, justamente no momento que vivemos o supérfluo, o efêmero, sem nos darmos conta de estamos fora da realidade das coisas; vagamos como autômatos; somos diluídos na miséria assustadora dos que não podem ver porque lhes falta a compreensão do simples, ou na decrepitude daqueles que só enxergam os seus pares, a despeito de qualquer contato com as diferenças do mundo. A incapacidade humana para a percepção daquilo que lhe foge à compreensão, aquilo que dele diverge.
É aí que entra o homem, o poeta, o fotógrafo, chamando para uma nova forma de olhar: “Os pássaros são notas musicais duma canção celeste. Eles poesiam o céu”. assim se manifesta Sinésio Dioliveira num dos seus fotopoemas. Dessa forma Sinésio nos brinda com seu canto, um canto de beleza e sensibilidade, nos chamando para um aprendizado de chão, assim como também o faz Manoel de Barros.

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POR EM 23/09/2008 ÀS 12:21 PM

A ilusão digital

publicado em

Para o professor Marcos Palacios

Mediado por interfaces várias, o homem se apropria da tecnologia e referenda o seu desejo de potência. O que antes era desconhecido, hermético, passa a ser natural, quando, conectado, brinca de deus ao ensaiar, com cores, formas e sons, o grande texto “mundo”. Com um simples toque, é capaz de viajar para as mais longínquas paragens e interagir – na ilusão de sua virtualidade – com outros mundos tão “reais” quanto os seu.

Cada mundo comporta suas peculiaridades, é preciso desvendar-lhe os códigos, as várias linguagens com as quais opera, para sentir-se inserto e dele apropriar-se. Qualquer descuido pode ser fatal, é preciso atenção total para não se deixar contaminar pelas pestes que rondam o ciberespaço, os monstros escondidos nos becos digitais, prontos para atacar o incauto navegador aventureiro.

Assim como o espaço real, o espaço digital também tem seus limites, qualquer desatenção pode custar caro ao transgressor, fazê-lo refém da própria astúcia, mas aí a pena deixa de ser virtual e passa a ser real. Cada um deve saber onde pisar, para não ser tragado pelos movediços links, ali postos, e embarcar num mar textual de mentiras e ciberilusão.
 
Para qualquer viagem é preciso precaução; as provisões devem ser suficientes para o embate da jornada; é preciso ter pleno conhecimento das vias a serem percorridas, para isso o viajante deve munir-se de bússola e mapas, é preciso não confundir as sinalizações, pois como disse o poeta: “Navegar é preciso, viver não é preciso”, mas essa precisão pode ser relativa, caso o navegante desconheça os códigos.

Depois de assegurar-se das dificuldades da viagem, de conhecer o percurso a ser seguido, e dominando aquilo que é básico a qualquer internauta/cidadão, colocamo-nos nos nossos assentos, na cadeira de nossa escrivaninha, e ali viajamos por mundos, até então inimaginados, à procura de novidades, notícias, inventos e/ou por simples curiosidades.

Basta um cabo, ou um sistema que nos permita uma conexão, para mergulharmos hipertextualmente nessa vastidão digital de convivências nem sempre amistosas, mas necessárias, como podemos presenciar, cada vez mais, a proximidade entre a blogosfera e a midiasfera, uma se alimentando da outra, ou quem sabe, uma contribuindo com a outra:  pautando ou repercutindo fatos de uma humanidade há muito esquecida.

O que antes era espaço privilegiado da mídia, de quem detinha o poder econômico, passa a ser de todos, ou de pelo menos de quem quer e tem o que dizer como o são as revistas eletrônicas, como é o caso da Revista Bula, ou dos blogs, que vem crescendo no grau de importância e passam a ter status de formadores de opinião, ganhando espaço nas páginas virtuais de grandes jornais do país, como é o caso do Blog do Noblat, só para citar um exemplo, no jornal O Globo. 

Não sei o que nos aguarda, o que vem por aí, só sei de uma coisa, os saltos são grandiosos, como o que estou dando agora: da virtualidade do meu desktop, ao apropriar-me desses ícones todos,  componho este metatexto, iluminado pelas luzes de uma tecnologia que cada vez mais me seduz e que dela sou refém. Passamos a computar horas e mais horas de navegação, “sem lenço e sem documento”, tendo como bússola apenas a nossa vontade, o desejo de romper rumo, quebrar barreiras, superar limites. Iluminados pela seqüência númerica de “zeros” e “uns”, no limite dos sem limite, na finitude do infinito, um olhar sempre atento buscando na ilusão do que vemos a linguagem mais apropriada para acalentar as nossas horas de “solidão” e “tédio”, na sala de estar do nosso mundo real.


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POR EM 08/09/2008 ÀS 08:46 PM

Da necessidade de envelhecermos

publicado em


Quando nos damos conta, constatamos que o tempo passou tão depressa, que nós envelhecemos, pois já não somos mais aquela jovialidade que nos supúnhamos. Perdidos, às vezes, ficamos, impossibilitados de não podermos mais fazer muito daquilo que fazíamos, as nossas forças, há muito, se esvaíram. Não há mais tempo para buscar o perdido, recuperar o irrecuperável.
          
Envelhecer poderia ser sinônimo de amadurecimento, de responsabilidade, de paz e tranqüilidade, no entanto, temos constatado que não é bem assim, já que muitas pessoas, às vezes pela própria sorte, outras pela inconsciência, terminam por desvirtuar o verdadeiro sentido do que venha a ser envelhecer.
         
Amadurecer requer tomada de consciência, reflexão constante, aceitação; apesar de existirem os que envelhecem e não se dão conta disso, em si, permanecem como verdadeiros mocinhos, à revelia de tudo e de todos, ridiculamente expõem-se em trajes e atavios de uma idade que há muito se foi. Outros, por medo de envelhecer, unem bocas e orelhas, peitos e costas, virilhas e bundas, nas inúmeras plásticas que fazem, adquirindo deformidades que só aumentam o descontentamento, a baixa auto-estima e as crises existenciais, que levam à depressão.
         
Envelhecer traz responsabilidades, atitude, muitas vezes, não alcançada por algumas pessoas, já que, apesar dos anos, muitos indivíduos persistem na falta de compromisso, em não honrar acordos, buscando uma vida fácil à custa da boa vontade dos outros. São pessoas que desperdiçam o tempo, não querem progredir, não vislumbram melhoras, não têm expectativas. Tudo é momentâneo, não existe amanhã, até que o amanhã chegue e lhes mostre, outra vez, a necessidade.
         
Apesar de a velhice ser um momento de tranqüilidade e paz, quantos indivíduos envelhecem com fel, falando mal da vida e do mundo, culpando a Deus pelas desgraças e desacertos, sempre perseguindo os seus semelhantes. Este tipo de gente insiste em destilar o seu veneno, a maledicência, a continuar explorar o próximo, a ordenar destruição e assassinatos. A sua bandeira é a prepotência e a arrogância. Quantos não estão por aí a ocupar cargos representativos: presidentes, governadores, juízes, só para citar algumas categorias, sem falar no simples escriturário, no estelionatário, no ladrão de galinhas. São seres que contribuem, e muito, para o caos social, já que não estão preocupados nem com o bem-estar das pessoas e nem com a harmonia planetária.
         
Viver não é fácil, é uma experiência muito dolorosa, mas gratificante. O que falta ao ser humano é uma tomada de consciência de que a alegria que brota na casa ao lado pode ser a ilusão de felicidade que trazemos. Não se constrói uma vida sem dor, e é da natureza humana envelhecer, Graças a Deus!. Envelhecemos para nos darmos conta de que o tempo não pára, da possibilidade majestosa de outros seres virem ao mundo, da necessidade de nos vermos como pais, tios, avós. Tudo isso é muito belo e nos conforta. A natureza é sábia e nos cobra muito caro pelos nossos atos, tendo em conta que nos foi confiada a vida, que nos foi confiado um corpo, com o qual haveremos de enfrentar muitas dificuldades, muitas intempéries e percalços; difíceis caminhos teremos de percorrer.
         
Sendo assim, o sentimento de potência que trazemos é a primeira prova de que somos perecíveis, de que caminhamos com as nossas pernas, mas que uma força grandiosa nos conduz, apesar de pensarmos diferente, é assim que as coisas acontecem. Iludimo-nos com a eternidade, com a nossa juventude, com a perenidade, perdemos-nos nas nossas vontades e vaidades, nos nossos desejos e imposições.Quando Iludidos estamos pela eternidade, humanamente envelhecemos, humanamente partimos.


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POR EM 20/08/2008 ÀS 09:54 AM

O pó da Pós-Modernidade

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Para Flávio Paranhos, a propósito da interessante discussão sobre arte aqui na Bula

Por que o artista quase sempre se revela um incompreendido na expressão que adota ou manifesta? Esta é uma das interrogações que ouvimos e que, muitas vezes, nos fazemos. A arte, como manifestação do espírito, tem um fim que é atingir os sentidos na pretensão de suscitar sentimentos, despertar para a contemplação do belo. Sendo assim, de onde advém o gosto? da subjetividade imediata ou puramente do contato exterior com objeto que, por sua vez, torna-se sensível?
         
O que é ter gosto? Por que gostamos? Qual é a natureza do artístico? O que é arte? Para que ela serve? A arte deve possuir um caráter de universalidade e objetividade, já que o sentimento é subjetivo? E não sendo o gosto advindo do sentimento, mas forjado, incutido, criado por elementos artificiais e massificantes, teria ele valor no julgamento de uma obra para qualificá-la como artística, como obra de arte?
         
Como é próprio ao ser humano voltar-se para as coisas e tirar, pelas suas impressões, o que é bom ou o que é ruim, também ao ser humano é dado, irrefletidamente, buscar referências várias de “especialistas” sobre o valor que deve ser dado a determinadas obras, o que as caracterizariam como arte ou não, como tem acontecido em salões de arte, espalhados pelo mundo, quando privilegiam instalações absurdas, experiências bizarras, em nome de uma “arte pós-moderna”, que de tão pós, reflete a acéfala conceituação dos seus curadores.
         
Não que os salões não tenham valor, claro que têm, é uma oportunidade para que novos artistas sejam revelados, para que a sociedade tenha contato com a produção do seu tempo, inteirando-se das mais variadas técnicas e expressões, educando o olhar para as
diferenças:o belo, o feio, o cômico e o trágico.
         
Os salões precisam buscar uma identidade, refletir o seu tempo, sair da mesmice, voltar à atenção para outros valores, mas que não venham com a malfadada desculpa da desconstrução. Desconstruir o quê? Por quê? Se Duchamp[1] o fizera, assim como Picasso, é porque detinha o domínio da técnica do desenho e da pintura, para só depois chegar aos objetos, como o Grande Vidro, e a instalação La Mariée mise a nu par ses celibateires, même. Elementos metatextuais, caracterizadores de um olhar crítico para com as artes daquele tempo, já que havia a intenção de provocar, de causar apreensão e indignação. Coisas que os “artistas” de agora não fazem, já que as ditas instalações de hoje mais parecem gambiarras: não dizem nada, nada provocam, apenas nos roubam energia e tempo.
         
Talvez a incompreensão perene não seja do artista, como foi falado no início deste texto, mas do espectador que, apesar do desconhecimento de técnicas e expressões, é dotado de senso crítico para julgar o que agrada ou não, mas vê-se encurralado ao se deparar com opiniões tão formadas por parte dos mermitões que nada dizem, nada lêem, nada criticam, apenas seguem e servem. Seguem o crítico, tão técnico quanto o técnico de geladeiras. Servem à mídia, que de tão rasa não se toma pé. Assim, o espectador, sem voz, perde a identidade e o rumo, e passa a andar em círculos entre os vidrinhos de penicilina e ampolas de vidro, para dormir o sono nas redes entrelaçadas de um sono personalizado, fotografado em sonhos pelas máquinas digitais, e revelado no envelope de madeira que, por sua vez será guardado no cofrinho inflável da posteridade.


[1] Marcel Duchamp (1887-1968). Para saber mais sobre o artista, recomenda-se O Pequeno Prefácio a Duchamp: ainda sobre o grande vidro, por Jorge Lúcio de Campos.

 


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POR EM 12/08/2008 ÀS 06:31 PM

Quem vende o seu voto, vota contra si mesmo

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Como se já não bastasse todo tipo de mazela social: crimes hediondos, seqüestros, estupros, corrupção de toda monta, ainda temos de conviver, em período eleitoral, com uma das mais abomináveis práticas: o comércio do voto. Comércio, porque há mais de um agente nesse negócio, quem compra, compra de alguém; quem vende, vende para alguém; pode ocorrer que alguém compre de algumas pessoas (intermediário ou atravessador) e venda para outra pessoa (candidato). Portanto, não se pode dizer que comprar voto é uma prática de mão única, não, muitos são os envolvidos; muitos são os corrompidos; muitos são os corruptores; muitos são os corruptos, esse bichinho inofensivo, como bem diria aquele personagem do Jô Soares.
 
Quando se fala em compra de votos, o que nos vem à cabeça é alguém pagando uns trocados para aquele ser (eleitor) que se propõe a vender o seu voto. Pode ser assim, mas não é essa a regra, os candidatos são muito criativos e, se valendo das carências e necessidades dos eleitores, inventam mil e uma maneiras de burlar a justiça eleitoral. Segundo uma pesquisa:  são alimentos diversos: sal, açúcar, óleo, tíquetes de leite, bebidas , dentaduras, óculos, sapatos, roupas, ajuda para obter documentos, pagamento de fiança de presos, cimento, areia, pedra, tijolos e outros materiais de construção; ferramentas, insumos agrícolas, uniformes para clubes esportivos, bolas e redes, enxovais, cobertores, berços e tantas outras coisas, que chegam a estarrecer qualquer cidadão de bem.
 
O negócio tem proporções tais que, segundo dados do IBGE, citados pelo Movimento pelo Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE), lançada no dia 19 de novembro de 2007, na sede da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), em Brasília, desde as eleições de 2000, até a data do lançamento dessa campanha, mais de 600 políticos foram cassados, por corrupção eleitoral, pela Justiça. O Movimento pelo combate à Corrupção Eleitoral, no sentido de coibir tal Prática tão nefasta, criou o lema “Voto Não Tem Preço, Tem Conseqüência”.
 
Tudo isso só foi possível, graças às mobilizações populares, ao empenho da imprensa em não camuflar nada, à atitude de políticos honestos, comprometidos com as melhorias em todos os setores da sociedade, com os avanços sociais. Graças a essas mobilizações, conseguiu-se a aprovação da Lei 9.840, que proíbe a compra de votos e o uso eleitoral da máquina administrativa, como podemos ler no seu Art. 41-A:  “Ressalvado o disposto no art. 26 e seus incisos, constitui captação de sufrágio, vedada por esta lei, o candidato doar, oferecer, prometer, ou entregar, ao eleitor, com o fim de obter-lhe o voto, bem ou vantagem pessoal de qualquer natureza, inclusive emprego ou função pública, desde o registro da candidatura até o dia da eleição, inclusive, sob pena de multa de 1.000 a 50.000 UFIRs, e cassação do registro ou do diploma, observado o procedimento previsto no art. 22 da Lei Complementar no 64/90."
 
Muita coisa vem mudando para melhor, ao longo desses anos, como a Lei 9.840. Por conta dela, os malversadores do erário foram cassados; os abusos econômicos vêm sendo combatidos, como podemos confirmar nos dados da Agência Brasil de Comunicação, com o número de políticos cassados até o ano de 2007: Minas Gerais 71; Rio Grande do Norte 60; São Paulo 55; Bahia 54; Rio Grande do Sul 49; Ceará 37; Paraíba 36; Goiás 33; Santa Catarina 25; Piauí 22; Mato Grosso 20; Mato Grosso do Sul 18; Rio de Janeiro 18; Roraima 17; Paraná 16; Maranhão 14; Pará 14; Pernambuco 14; Rondônia 13; Sergipe 10; Amazonas 2; Acre 1; Distrito Federal 1. 
 
Combater práticas tão perversas - como a do poderio econômico de vencer a qualquer preço, sem se preocupar com quer que seja, matando, apezinhando, alijando do processo, perseguindo, o que nos faz lembrar a fábula do lobo e do cordeiro, de Jean de La Fontaine (La Fontaine) - é de fundamental importância para todos nós, pois só assim teremos de fato um país democrático, igualitário, comprometido com o bem-estar de sua população. Cada um precisa despertar para sua responsabilidade como cidadão, capaz de banir práticas tão obtusas como essa da compra de votos. Precisamos ter consciência de que o voto vendido são vidas que estão sendo roubadas, são recursos que deixarão de ser aplicados na saúde, na educação e na cultura. Não podemos nos calar, temos de alardear para que todos sejam fiscais da moralidade na política, para que cada indivíduo saiba que quem vende o seu voto, vota contra si mesmo.

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POR EM 05/08/2008 ÀS 10:00 AM

Enriquecimento de urânio

publicado em

Para Helverton Baiano

Urânio, até os 12 anos, era um menino retraído, raquítico, sem perspectiva nenhuma. Vivia numa casinha velha, de pau-a-pique, e não conhecia cidade grande. Cresceu ouvindo história de trancoso, superstições e outras inculcacões. Sempre dormiu em rede e criou-se andando a cavalo, correndo pelas quintas do seu avô, e nadando nu pelos riachos das cercanias.
 
Aos oito anos, ganhou da sua avó um pente de chifre e um espelhinho, daqueles ovalados, com a foto de uma mulher pelada. Depois disso, precipitava-se pelos córregos, matas, banheiros, buracos de portas, fechaduras, rachaduras nas paredes, debaixo das camas, sempre querendo roubar, nem que fosse por pequeno espaço de tempo, algum seio, bunda ou, simplesmente, a ligeira visão de uma comportada ou esvoaçada penugem.
 
Contava as horas para o banho das suas vizinhas, sempre com um olhar ligeiro, galopante nas suas fantasias. Inclinou-se, desde logo, para aquilo que ele viria, mais tarde, a chamar de predestinação: um empresário de corpos. Passou observar o sexo das éguas, cadelas e porcas, tentava fazer comparações com os de suas vizinhas, analisava tudo.
 
Descobriu algumas revistas de conteúdo explícito sobre sexo no armário do seu pai, roubando-as para folheá-las, quando ficava sozinho em casa. Passou a taramelar a porta do quarto e ficar horas trancado, chegando, muitas vezes, a causar preocupação à sua mãe, que, ao passar pelo quarto, ouvia o rangido das molas da cama, uns gemidos esquisitos e, logo após, um breve silêncio.
 
 Passou a observá-lo mais, até descobrir que as meias do filho estavam desaparecendo, sem que ela soubesse como, só vindo a saber mais tarde, quando, por displicência de Urânio, que deixara a porta aberta, surpreendera-se com o filho deitado na cama, com o pênis vestido pela meia, cavalgando nas fantasias dele. Tentou voltar, mas já era tarde.
 
Urânio, aos 15 anos, invocou-se com a bailarina de um circo, que passava pela sua cidade, ficando preso a ela por um longo tempo, enclausurado, só saia à noite, quando ela precisava trabalhar. Apesar de a sua mãe implorar para que ele voltasse para casa, Urânio, contrariando os ensinamentos maternos, começou a dividir a amada com os colegas de rua, em troca de uns míseros reais. Não demorou muito, e toda a cidade passou a freqüentar a “Rua de Baixo”, e os fartos trechos de Ema, alcunhada de senhora dos aflitos.
 
Os negócios progrediam, e a notícia de Urânio se espalhou pelas cidades vizinhas, atraindo jovens, adolescentes, senhores, trabalhadores do campo, empresários; todos querendo alguns instantes de prazer e carinho; outros, atraídos pela curiosidade, do que para muitos não passava de especulação: bandinha, a “moça” que só tinha uma banda do sexo, que, por muitas noites tirou o sono de Urânio. Como ela, também tinha Pichula, uma anã de bunda farta, atração à parte, pela forma peculiar de olhar, seus olhos eram diferentes: um verde e o outro azul. Carmem, ou “cara quadrada”, era bastante gorda e fogosa, destacando-se pela forma do rosto e pelos sons que produzia quando fazia “amor”. Maria Angolista, uma sublimidade na cama, poço de lirismo e libido, que, ao chegar ao orgasmo, cantava: Tô fraca! Tô fraca! Tô fraca!. Tonha Vaga-lume, diziam, quando abria as pernas, uma luzinha acendia lá no fundo. Também tinha “Jurema Olho-de-porco”, umas das mais procuradas, pela peculiaridade do seu serviço; sem falar na descomunal “Lupéria Taturana-Bezerra”.
 
Urânio viveu dias de glória e reconhecimento, apesar da ingenuidade para certos assuntos, conseguia se sair muito bem com o negócio ao qual se propusera, chegando a ser cotado para prefeito da sua cidade, mesmo contrariando o padre, o pastor e alguns moralistas, que, mais tarde, também passaram a usufruir dos serviços da “Casa da Rua de baixo”.
 
Urânio tornou-se um poço de alegria e poder, cada vez mais solicitado e influente, ditava os dias de silêncio e as noites de gritos e descobertas, principalmente por ter a seu favor as molas do mundo: dinheiro e sexo. Viu-se convidado para tudo, inclusive, para apadrinhar crianças e noivos; já não distinguia as amizades do interesses. A todos tratava bem, quando era destratado, encarregava a Pau-de-Goiaba, um brutamonte maneta, de cabeça chata, e sem um fio de cabelo na cabeça, umas três sessões de descarrego no Lago da Piabinha.
 
 Os tempos foram mudando, e Urânio sentiu necessidade de expandir os negócios, passou a importar travestis, transexuais e drag-queens, apaixonou-se, assim que viu “Olga Tamanduá Bandeira”, uma raridade na fauna daquela região. Por conta disso, descobriu-se bi, bitolado, amarrado, chegando a ponto de ser padrinho, em São Paulo, da Parada Gay. Foi quando se viu indignado ao ler numa manchete de Jornal: “Bush se diz contra o enriquecimento de urânio para fins bélicos”. Quase explodiu, queria saber o porquê daquele despeite, será que as pessoas não podiam ganhar dinheiro honestamente? Foram precisos dias para que ele pudesse entender que a manchete não se referia a ele.
 
Passado o constrangimento, Urânio viu-se envolvido num dos mais enigmáticos episódios de sua vida: numa sexta feira treze, quando cavalgava tranqüilo pela partes de Olga, sentiu-se como uma formiga, comprimido pelas garras e sugado pela tromba da sua amada, literalmente transformada em um tamanduá. Foi um “deus-nos-acuda”, uma verdadeira gritaria, até que alguém que já sabia da transformação, Zé Lambu, chegar com uma espingarda e desferir, com bala de prata, um tiro mortal na testa de Olga, que logo voltou à aparência humana, só que sem vida.
 
Depois daquele episódio, Urânio nunca mais foi o mesmo, foi outro. Envolvera-se em vários episódios não convencionais como seguir formigas em correição para devorá-las, abraçar por longas horas árvores e animais, e, de vez em quando, ficava de quatro para transportar folhas no seu dorso: do quintal para sentina, quando ali as depositava, voltado à forma ereta. 
 
Sempre que se sentia só, ele saia pelas ruas enviesadas da imaginação, parava na velha igreja, no final da cidade, um olhar para além do que compreendia. Naquela tarde, ele parecia determinado a se ausentar de vez, cumpriu o que prometera, fincou os dedos na terra e, mortificado, ficou ali por toda noite, armazenando uma claridade intensa em todo o seu corpo. Já não se lembrava de mais nada, somente fitava o horizonte, o céu de um azul cobalto, até explodir em série, em risos, em Césio.

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POR EM 29/07/2008 ÀS 07:35 PM

Olhando o homem, o peixe se reconhece

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Há dias em que estamos mais leves, longe dos problemas comuns, libertos de toda preocupação, quando movidos pela busca da paz, da tranqüilidade, buscamos nos acomodar à beira de um riacho, de um lago; à sombra de uma árvore ou guarda-sol, para deleitar as horas de harmonia com o universo.
 
Pois foi assim neste final de semana, quando, ciceroneado pelo amigo, poeta e jornalista, Sinésio Dioliveira, conheci um pesque-pague dos mais aprazíveis, aqui em Goiânia, mais precisamente ao lado da Vila Muitirão. Foi uma surpresa, pelo fato de antes ele haver me convidado e eu nunca ter aceitado, ou melhor, nunca ter dado certo para que eu fosse conhecer aquele lugar tranqüilo, de paz e muitas surpresas, a começar pela pescaria em si, atividade que o meu amigo Sinésio, segundo ele mesmo, é um expert.
 
Pois bem, chegamos ao local, ao pesque-pague, logo na entrada estava escrito: “Tambaquis e Tucunarés, só para pesca esportiva”. Entramos, o Sinésio pediu uma isca, algumas cervejas e fomos para a labuta; e que labuta! Armamos a tralha toda: anzol, chumbada, vara de pescar, carretilha e isca, tudo o que era preciso para uma boa tarde de pescaria, segundo os entendidos.
 
O meu amigo atirou a isca aos peixes, um silêncio apoderou-se da tarde, fez-nos contemplativos e esperançosos: dois homens e a vastidão do mundo, assombrados com o encantamento do lago, com a solidão da espera, prestes a refletir o peixe no seu morredouro: “morrer pela boca”, como diriam os nossos pais.
 
Estávamos ali, numa expectativa de águas, espectadores serenos da longa espera do peixe que não vinha; da linha frouxa a deslizar pela água fria, quando virei-me para ele, para dizer que talvez fosse eu o empecilho, talvez a minha energia o estivesse impedido de pegar muitos peixes, como era de costume,já que não sou afeito a jogos e pescarias, esta última só praticava quando criança, no Rio Tocantins. No que ele me tranqüilizou: “fique calmo, sempre que eu venho aqui pesco um bocado, logo vamos fisgar um”.
 
Após ser tranqüilizado pelo amigo, continuamos nossa peleja: o homem, a linha, o lago e os peixes. Mais uma vez a isca fora atirada a esmo. Enquanto isso, a menos de duzentos metros, um senhor fazia a festa na pesca esportiva: pescava e soltava os pescados, ou melhor, os grandalhões, principalmente as Caranhas. E nós? nada! Continuávamos na longa espera, fisgados pelos peixes que tentávamos pescar, já que  alguns deles, à nossa frente, alegres e saltitantes pareciam saber do nosso intento e, por isso, ironizavam a nossa labuta.
 
O amigo Sinésio, na sua paz e calma interior, tranqüilizou-me dizendo que era assim mesmo, logo fisgaríamos um grande. Tentamos, fisgamos dois, mas eram fortes e escaparam, um deles levou o anzol. Ficamos boquiabertos, mas tudo era festa, confraternização. O amigo saiu, foi ao bar e pediu para fritarem um peixe do estoque deles, por sinal, muito saboroso. Continuamos na lida: isca aos peixes, cerveja como refresco; peixe na linha, só no pensamento.
 
Já escurecia, quando a linha ficou tesa, sentiu-se um puxão, e ali estava o bruto, o gigante, o inominado prêmio das águas, um peixe pesando  “meio quilo”, uma Caranha de dar água na boca, para alegria do meu amigo, que já se tinha como um grande contador de histórias, história de pescador.

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