revista bula
POR EM 30/03/2009 ÀS 11:10 PM

Maio extemporâneo

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Como gosto do mês de maio, do cheiro de maio, do vento fresco que trazem as noites de maio. Maio me trouxe amores, me trouxe um filho. Estou de repente em um março insosso, difícil, mas de repente me sinto em maio. Sinto-me antecipadamente em maio em pleno banco, relendo um livro de Virgínia Woolf, enquanto espero a vez de ser atendida pelo caixa.

Rabisco esta sensação na contracapa do livro, usando um lápis de duas pontas que me lembra a figura horrenda de uma cobra de duas cabeças. Quero escrever sobre isso, mas me disperso, divago, não consigo me concentrar no tema e experimento a aventura de escrever coisas díspares ora com uma ponta, ora com outra. Vai, menina, deixa fluir seu inconsciente na escrita – me aconselhou remotamente um professor daqueles transitórios e inesquecíveis. Bem ou mal sabia o que aconselhava?

Mas a experiência dilacera, cada idéia vai para um lado, como na disputa do cabo de guerra. É o que sou – já me criticaram – este ser sem foco, dispersivo, que nunca conclui nada do que inicia. Uma cigarra – uma cigarra não – um beija-flor que sai por ali e por ali recolhendo o pólen das coisas, e logo se cansa delas, mesmo que sejam flores, ainda que lhes dê beijos. E nossas contradições fazem isso com a gente: elas nos transformam, não nos dois contendores, mas na própria corda que é puxada e, se frágil, partida. Ah, essa constante sensação de dilaceramento...

Puxada para este lado. Tento compreender por que me sinto em maio. São talvez as palavras desse livro, talvez o perfume que eu mesma uso. E uso perfumes antes para mim mesma do que para os outros. Maio sempre foi para mim a época de grandes expectativas, do sentimento febril de uma véspera inexplicável, daquela viagem a Paris, da noite em que um amor antigo tirou seu casaco e pôs sobre meus ombros gélidos, e me beijou pela primeira vez a cabeça, não os lábios, um beijo terno e tépido. Talvez eu tenha me apaixonado por aquele gesto ou pela primavera que começava. Lá em Paris, porque em maio temos um incerto outono, que é para mim, ao contrário, quando enverdecem os brotos nos tocos de arbustos queimados. Nossa seca é minha primavera.
Em maio houve os festivais de cinema na cidade de Goiás. Dizem que alguns lugares são especiais por causa da maneira como o sol incide sobre eles. Roma, por exemplo, berço de nossa cultura, língua, civilização. Uma luminosidade tão bela como nunca vi igual. A cidade de Goiás também é assim. Há uma determinada hora do dia, um determinado ponto em que, quando se olha, a serra reluz mesmo dourada.

Em outros janeiros também me senti em maio. Em Belo Horizonte, outra cidade entre serras, também vi esse mesmo dourado, na Serra do Curral, e me senti em maio. E gostava de pensar que em épocas antigas já encarnei ali, entre minas tão gerais, por isso a familiaridade. Ou quem sabe porque meus ancestrais dali vieram e carregaram em suas peles e olhos o dourado daquelas paisagens. Às margens do rio Vermelho eu estava sempre em maio e apaixonada. Ali eu lia as “Memórias de  Uma Infância Inventada” de Manoel de Barros.

Maio me traz a nostalgia do que vivi e do que não vivi. E por que todos não podem em pleno agosto se sentir em dezembro? Que bobagem essa convenção das estações, dos meses, do tempo. Eu também nasci em maio, quando nasceu meu filho. Em maio, não dezembro, é que comemoro meu aniversário inventado. Celebro em maio meus amores reais ou imaginários. Todos merecem tecer seu próprio calendário. O meu – nada posso fazer – já é arbitrário.
 


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POR EM 23/03/2009 ÀS 10:18 PM

O fino da fossa

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Há pouco tempo, ao chegar a uma festa familiar, assisti a um episódio bastante comum. A anfitriã, tentando preparar para os convidados um ambiente agradável, havia caprichado na iluminação. Tinha decorado a mesa, acendido velas e tocava um CD de Adriana Calcanhoto. Logo, um dos convidados reclamou da tristeza do ambiente, reivindicou uma música mais animada, axé ou música sertaneja, algo assim. Não demorou e o pedido foi atendido. O suposto clima festivo estava instalado.

Noto que muitas pessoas identificam a música popular brasileira ou simplesmente canções com um ritmo mais lento com depressão, tristeza. Parece que a alegria tem que ser gritada. O som nas festas deve ser ruidoso, em alto volume, de forma que as pessoas também tenham que gritar para se entender. Ou talvez para que não tenham que se entender, para que não necessitem sequer conversar.

Podem argumentar que digo isso porque estou envelhecendo, e o tempo vai tornando nossas orelhas maiores, nossos nervos mais sensíveis e suscetíveis a ruídos, mais intolerantes, enfim, vai nos transformando em uns chatos tediosos e entediados. Mas retruco que tanto na festa que mencionei quanto em outras ocasiões em que esse episódio se repetiu, as pessoas que reivindicaram músicas mais animadas já tinham ultrapassado os quarenta anos, não eram, portanto, jovenzinhos no auge da euforia.

A necessidade de escutar apenas músicas aceleradas, alegres talvez esteja, então, associada ao desejo de constantemente estar ou pelo menos aparentar alegria, o que vale para todas as idades. Justamente porque a alegria é supervalorizada. Quando se quer elogiar alguém, é comum dizer: ele vive de bem com a vida, está sempre de alto astral.

Esse tipo elogio me desperta uma estranha desconfiança. Suspeito de quem costuma fazê-lo e sobretudo de quem vive assim, em estado permanente de bom humor. A alegria constante, principalmente se fantasiada de euforia, o riso fácil e exagerado me parecem disfarces para algum incômodo ou conflito, que não ousa dizer seu nome.

Não que eu seja uma defensora de gente azeda. Sei apreciar o valor de um bom sorriso e do bom humor diário, mas quem consegue se manter todo o tempo assim de “alto astral”, senão com uma boa dose de dissimulação? A dor, a tristeza, o mau humor também são inerentes à nossa humanidade e eu particularmente sempre apreciei aqueles que sabem cantá-las. Um de meus CDs prediletos durante bastante tempo foi nada mais nada menos do que “O fino da fossa,”, uma coletânea um tantinho brega, com canções como “A flor e o espinho”, de Nelson Cavaquinho e “Nervos de aço”, de Lupicínio Rodrigues.

Sempre, desde a adolescência, gostei de músicas que muitos consideram tristes e que não me conduzem necessariamente à tristeza, mas antes me propiciam uma espécie de catarse, um deliciar-me com a nostalgia do que não vivi. Devo confessar que por bastante tempo tive sim uma certa inclinação para a melancolia, que nunca me pareceu, porém, infelicidade. De qualquer modo, li ou ouvi em algum lugar de que já não recordo, que na tristeza estamos mais perto da felicidade do que na alegria, porque naquela a gente olha para dentro e nesta, não. Então, com licença: “tire o seu sorriso do caminho, que eu quero passar com a minha dor”.


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POR EM 08/09/2008 ÀS 08:44 PM

Reentrâncias e saliências

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Juro que gostaria de escrever outras coisas. Sei que estou cansando as pessoas à minha volta e a mim mesma batendo na mesma tecla, samba de uma nota só, falando e escrevendo sempre sobre o mesmo tema: a maternidade, claro. Juro. Mas simplesmente não dá. Por enquanto não dá.

Como falar sobre outro assunto, se durante estes meses iniciais, a gente se ocupa quase 24 horas de um ser completamente dependente, cuidando, amamentando, limpando? Se a gente praticamente não sai à rua, quase não encontra as pessoas e quase esquece que existe um mundo lá fora? As mulheres que são mães e que ainda serão certamente irão compreender essa repetição. Os homens, para infelicidade deles, não. Que morram de inveja mesmo dessa deliciosa redundância!

O pouco tempo que sobra - este aqui agora - enquanto meu pequeno dorme, quero processar as centenas de emoções novas, alegrias, angústias, reflexões e aprendizados dessa fase. E para processar, nada melhor do que escrever. Coisa que infelizmente também quase não tenho feito, ao menos não no papel ou no computador. Tenho escrito apenas imaginariamente, enquanto dou banho, troco uma fralda: textos que logo se perdem, não se materializam e não são compartilhados jamais.

Mas hoje me decidi: tentarei registrar ao menos a terça parte do que venho sentindo e pensando.

Talvez isso interesse a alguém. Talvez seja de algum modo útil às mamães em primeira viagem como eu. Talvez não. Mas certamente será útil a mim, para que eu faça uma espécie de higiene interior, para que eu separe o lixo daquelas emoções e reflexões que merecem ser preservadas. Para que eu mantenha a sanidade (sim, a maternidade pode ser enlouquecedora) e diga um alô ao mundo lá fora, porque, afinal, a Internet tem sido praticamente meu único contato com a realidade além-bebê. Se levarei tal decisão adiante? Os próximos posts dirão. Não sou lá exemplo de constância e tanto menos agora que minhas ações estão condicionadas às necessidades de outra pessoa.


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POR EM 29/07/2008 ÀS 09:45 AM

O homem que fumou a bíblia

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Difícil alimentar o vício, principalmente nas pequenas cidades, onde a vida das gentes se nutre de outras vidas. Onde os quintais são cercados por tênues fios de arame farpado ou por muros baixos, facilmente perscrutáveis, e saltáveis por ouvidos e olhos curiosos. Com alpendres, cadeiras e línguas que se integram à paisagem das calçadas. Com praças em que aos sábados e domingos os jovens dão voltas, num antigo trotoir. Com igrejas às quais se comparece para rezar e olhar.
 
Mais difícil para Júlio, que é sobrinho do padre, que com ele habita a casa paroquial. Tinha morado na cidade grande o pobre, onde habituou a esfumaçar os pulmões e a alma. Mas quando a mãe morreu, não teve senão como mudar-se para a companhia do tio beato. Pouco durou seu estoque de sedas e quando acabou, bem que tentou comprar. De que jeito?! Socialmente, não fumava. Com o que iria justificar a compra de colomy, na padaria todos os dias? Atreveu-se uma só vez e no dia seguinte, até o pipoqueiro da praça comentava.
 
Restava-lhe então recorrer aos sanduíches nos dois superpovoados pit dogs da rua principal. Mas os proprietários, uns sovinas, ficavam com uma orelha na chapa e um nariz no porta-guardanapos. Faltava só estabelecer uma quota para cada cliente, como faziam com o ketchup e a maionese – apenas dois sachês para cada. E nada de mostarda! Deixava a boca suja para levar pelo menos um par pra casa. E nem para um dia dava.
 
Excetuadas as imperiosas obrigações e inquietudes do vício, era bom rapaz. Ajudava o tio a preparar a missa. Limpava a sacristia. Não comia as hóstias nem bebia o vinho. Não tanto por falta de vontade. Temia que a boca sangrasse, como aprendeu na primeira eucaristia. Que carência brava! Insônia! Falta de apetite!
 
Nas tardes, o tio preparava os sermões das missas, da noite e da manhã seguinte. Era criterioso. Não repetia. Lia trechos numa bonita bíblia, inscrições douradas, fita de cetim vermelha como marca-páginas e umas folhas sépias tão finas, que diante dos olhos fascinados do rapaz pareciam desvanecer como fumaça. Interpretava os textos para o sobrinho, catequizava-o, e de quebra ensaiava eloqüente para os fiéis ávidos. Júlio ficava embevecido, hipnotizado, permanecia apenas no invólucro das palavras. E quando o tio terminava, observava bem onde ficara a rubra fita.
 
O sacerdote ficou satisfeito quando também reparou melhor o sobrinho, dias passados. Havia engordado, tinha um ar meio apalermado, mas sadio. A bíblia, porém, não entendia por qual motivo, emagrecia a olhos vistos. Repentinamente achou-a a leve, mas se consolou com o pensamento de que talvez assim sentisse porque mais leves estivessem os do rebanho e os próprios pecados. Além disso, Júlio tornara-se fonte de alegrias, tal a fé que demonstrava. Deixe que guardo o sagrado livro, tio.
 
Ainda que não se confessasse, rogava que lhe desse demoradas penitências. Era para pagar adiantado. E como recitava bonito os salmos de todas as missas passadas, como se os tivesse engolido, inalado. Triste é que a bíblia desapareceu um dia. Restou apenas a capa, uma borda chamuscada. O pobre padre perdeu a fé. E Júlio pagou castigo, voltou a ser angustiado e magro.

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POR EM 08/07/2008 ÀS 09:10 AM

A despeitada

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Se não fosse assim, nem existiria Diadorim. Graças a disfarces, o personagem de Guimarães Rosa e outras figuras históricas penetraram recintos fechados do universo masculino. Foi assim com Joana D`Arc e Santa Catarina que teria se fingido de homem para integrar-se à ordem dominicana, verdade só vista quando morta, sob a larga batina.
 
Não teve igual sorte Juliana, nem nobres propósitos de guerreira e santa. Também não chegou a travestir-se. Apenas usava engrenagem poderosa comprimindo a exuberância dos peitos de melancia. A puberdade ocorreu nos anos oitenta, quando os padrões de beleza ainda mandavam ter, em vez de melões, limõezinhos.
 
Só constrangimentos em sua vida de moça peituda. Mamilos eretos a qualquer ventinho ou arrepio. Impossível praticar esportes, usar decotes; tomara-que-caia, nem que a vaca tussa. E a vaca de divinas tetas nem tossia. Só de espirrar, as bolas saltavam e doíam. Colegas de escola arremessavam contra as costas a larga alça do sutiã. Meia taça, nunca na vida. Não havia bojo que a coubesse. Apenas os gigantescos de Cicciolina. E Mimosa era seu apelido mais gracioso. Nem se pode mencionar os outros.
 
Por ironia, era inteligência para matemáticas e geometrias, embora mulheres tetudas sejam vistas como burras, dizem recentes pesquisas. A despeito da incredulidade maliciosa dos professores, cursou engenharia. E foi na faculdade que decidiu arrancar metade deles. Estava em uma festa quando dois rapazes passaram por ela e perguntaram quanto custava o litro de leite. A derradeira gota para o transbordar do balde.
 
O cirurgião plástico, porém, um visionário e escrupuloso, a dissuadiu. Além da alergia aos produtos para anestesia, a propensão para quelóides, ela deveria pensar no porvir. E por vir estava um mundo de peitos vastos, de volumosas próteses de silicone. “Vamos assistir a uma revolução nos padrões de beleza”, leu em uma revista internacional de medicina. Mas indicou onde comprar um tipo raro de sutiã, muito parecido com os espartilhos de antigamente, dotado de barbatanas de arame, capazes de achatar qualquer silhueta e torná-la, bem coberta, a mulher perfeita.
 
Eis que assim paramentada, torna-se mulher de peito, destemida, transitando com autoridade e desenvoltura pelos guetos mais masculinos e machistas: oficinas mecânicas e borracharias, canteiros de obras dos edifícios, entre pedreiros que assoviam para qualquer coisa que use saia e se excitam até com perna de mesa. Rapidamente, abriu a própria empresa de engenharia e começou a namorar um rapaz, coisa que até então não fazia.
 
Sorte não tem, todavia. Guardou-se, aos 36 anos, secretamente virgem. Até cerca de dois meses, quando se despiu diante dele. Mas o susto do rapaz foi tão forte, ele ficou de tal modo perplexo, com aqueles dois vulcões libertos, que não se operou sexo. Ela foi embora do motel em desespero. Nem se vestiu direito. Carregando as roupas amassadas, em algum ponto os perdeu da estrada. Junto perdeu toda a coragem. É hoje uma mulher despeitada, a despeito de ser invejada. E coitada, nem na seção Achados e Perdidos dos correios, Juliana conseguiu achar seu porta-seios.

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POR EM 07/06/2008 ÀS 11:25 AM

O Giocondo

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Tudo o que eu fizer depois disso
será obra menor,
capricho de artista.
Minha obra-prima já foi escrita.
 
Rima pobre
verso manco,
romance sem clímax,
Personagens planos
e líquidos.
É tudo assim ínfimo
comparado
a Fernando,
ainda quando
recém-chegado,
recendendo
a pequenino.
 
Passei quase um ano
pensando
um homem,
arquitetando, alimentando,
construindo
e deu nisso:
meu Giocondo,
enigmático,
sereno,
em seu semi-sorriso.
 
Tão perfeito
que por pouco não me gabo
de que já nasceu acabado
e que não precisa ainda
de umas lapidadas
e mãos de tinta.
 
Porém sei que um filho
não é uma obra de carne
ou arte
emoldurada e pronta,
mas uma alma em obra
pintando-se,
aperfeiçoando-se
e abrindo-se
para o infinito.
 
Resta-me agora desfazer
o principal enigma,
maior ainda que o sorriso esfinge
de Mona Lisa:
achar sabedoria
para ajudar a transformar
em espírito sólido de homem
a esboço corpóreo
do menino.
 
Aos sete dias do nascimento de Fernando.

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POR EM 25/05/2008 ÀS 05:55 PM

Sofrer para ser bela

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Amigo, nesta era de analgésicos e em que os anestesistas gerais têm a mais bem-sucedida das profissões, estejam eles atuando nos hospitais, nos canais de tevê ou nas livrarias, e em que se congelam felicidades no rosto com toxinas botulínicas, cheguei a uma filosófica conclusão: a dor é que é o santo remédio, quer dizer, o santo cosmético. E mais ainda, fazendo do sofrimento bom uso, confirmei também a máxima popular de que “azar no amor, sorte nos negócios”.
 
Por mais que eu chorasse – e a dor fizesse inscrever no meu rosto dois trieiros de lágrimas, como as marcas de nascença de um Pierrô (e você o único a percebê-las, você e nem a dermatologista que, como os outros, costuma confundi-las com sardas ou manchas de sol) – sempre que me reencontravam os que havia muito não me viam, diziam:
 
– Mas como você está bonita. Não mudou nada. O que você usa?
 
Antes eu não lhes respondia, ou no máximo lhes sorria um sorriso amarelo de modéstia. Mas agora que Amor deu em mim o golpe de misericórdia, ouso reconhecer:
 
– Ora! Uso Sofrer.
 
E Sofrer, como você soube de primeira mão beijada, converteu-se de verbo no infinitivo a marca de creme para a beleza, ou melhor, a uma linha completa de cosméticos para conservá-la. Assim, hoje, quando me perguntam, respondo oferecendo-lhes uma série de produtos (Sofrer n° 1, Sofrer n° 2, Sofrer n° 3, até o 10), todos à base de uma mesma substância. Princípio ativo: dor de viver, dor de amar e não ser amado, angústia, sofrimento, artérias arrebentadas.
 
Tão fácil e tão difícil obtê-la. É só chorar. E dado o meu súbito sucesso comercial, Chorar deve ser o próximo produto a ser lançado no mercado. Lágrimas em pequenos e preciosos frascos. E depois, talvez, um perfume com uma essência rara e o sugestivo nome de Soluço. Pura sinestesia!
 
Sofrer não protege contra as rugas, é certo. Dir-se-á que até as provoca um pouco. Mas esse creme milagroso, além de nos fazer entrar em roupas onde antes não cabíamos, dá ao rosto aquele aspecto de humanidade presente nas mais piedosas imagens de Nossa Senhora. Faz pelo rosto humano o mesmo que a pátina faz pelo gesso. O amarelecer sujo do tempo descrito mais uma vez por Manuel Bandeira, falando da estatuazinha de gesso que no começo “mal sugeria imagem de vida”, mas que foi impregnada pela sua “humanidade irônica de tísico” e derrubada inadvertidamente “por uma mão estúpida”: “Hoje este gessozinho comercial/ É tocante e vive, e me fez agora refletir /Que só é verdadeiramente vivo o que já sofreu”.

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POR EM 13/05/2008 ÀS 01:52 PM

Crônica contra Cronos

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Incrível como muitas pessoas enchem a boca para falar que vivem sem tempo, que ele não sobra, que estão sempre atarefadas, que trabalham demais. Que não dá. Que voa e é dinheiro. Como doentes que se orgulham da doença. Alto lá! Doença, não! A justificativa da falta de tempo é utilizada até para vender analgésico. No comercial, a atriz se divide em duas, para dar conta de tudo, afinal, não se pode perder tempo com dor de cabeça. Não se pode doer ou adoecer. Não se pode perder.
 
Há, claro, quem realmente precise trabalhar demais em um ou vários empregos, para sustentar família numerosa, sobreviver com dignidade. Existem de fato empregos que sugam, famílias que exigem, gente sobrecarregada de tarefas: trabalhar fora, cuidar da casa, dos filhos; levá-los à escola, à natação, ao inglês; freqüentar cursos, de reciclagem, especialização, pós-graduação, mestrado, pós-doutorado, línguas, oratória, pois é preciso acompanhar o ritmo vertiginoso com que o mercado se transforma, exige, não transige! Cuidar da boa forma. Assistir aos telejornais, aos lançamentos cinematográficos, ler as novidades do mercado editorial. Ufa! Uma lista imensa de afazeres para quem quer ser saudável, magro, bonito, bem-sucedido, antenado.
 
Não me refiro tanto às pessoas que, por ambição, dificuldades financeiras ou excesso de demandas, se esfalfam de trabalhar. Refiro-me antes àquelas que se deixam arrastar, inconscientes, por esse turbilhão de ânsias e ansiedades, que as conduz para o abismo da exaustão ou depressão. Às que se entregam ao trabalho e à vida como animal de tração ou em sacrifício. Automaticamente, atribuem à insuficiência das horas a culpa por todo infortúnio, por não ler bons livros, não freqüentar os amigos, não estar com os filhos.
 
Muitas vezes, no trânsito, flagro-me acelerando, presa de pressa. Aí, indago: corro por quê? Em geral, isso se dá, não porque o tempo me falte, mas porque o distribuo mal, de tal forma que preciso correr porque me atrasei na saída para o trabalho. Diante disso, deixei de usá-lo como desculpa para atrasos e adiamentos. Se não realizei até hoje projeto antigo, não finalizei um livro iniciado, não é por crueldades de relógios, mas porque pernas e humores e idéias se embaraçam nelas mesmas. Porque enveredo por túneis, porque me abandono a meus próprios precipícios de confusão e tédio.
 
Aos que buzinam e que frenéticos buscam brechas de ultrapassagem, também pergunto: ele lhes falta? Ou terão como eu sido reprovados nessa matemática? Ou, sonâmbulos, se deixaram envolver pelas tantas vozes que gritam nas multimídias: seja assim, compre isso, faça aquilo? Muitos são workaholics involuntários, dopados de desejos que não lhes pertencem, embebedados de avidez. 
 
Talvez lhes sejam necessários um pequeno estalo, um carro abalroado, o prenúncio de um infarto, de uma crise de estresse, a receita de um ansiolítico prescrita pelo psiquiatra, a carta de despedida súbita da pessoa amada, para que acordem de repente para o tempo que realmente interessa: o de dentro, o tempo do ser que é, que não tem pressa, de amar e se lapidar. Esse que não se valoriza e se desperdiça com prodigalidade. Oxalá não seja tarde. Que não esteja vazando pela ampulheta o último grão de areia. Pois só há uma hora em que o tempo realmente nos falta e importa, quando a “indesejada das gentes” bate à porta.

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POR EM 09/05/2008 ÀS 09:01 AM

Enfie esse panfleto...na rima!

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Como motorista indignada e desassossegada, estou pensando seriamente em criar uma campanha para protestar contra os panfleteiros que agem nos semáforos de Goiânia. Em adesivos para pregar no vidro do carro, pretendo estampar as seguintes palavras: Mantenha meu sossego. Enfie esse panfleto no rego. 
 
Sim, sei que a rima é pobre, que já caí do salto, que os panfleteiros temem por seus empregos e que por esse motivo mesmo seus patrões já lançaram campanha em protesto à decisão da Prefeitura de proibir sua atuação nos semáforos. Nas camisetas deles, pretas de indignação e luto, estamparam: Aceite esse panfleto. Mantenha meu emprego.
 
Então, somos nós os responsáveis por manter seus empregos? Esse argumento, oportunista e falacioso, é usado todo o tempo, para justificar toda sorte de poluição e agressão à cidade, todo tipo de contravenção e crime. Se a gente der ouvido e razão a ele, todas as ruas irão se transformar em camelódromos, afinal todo mundo precisa trabalhar, ganhar seu dinheiro. É melhor trabalhar no mercado informal do que roubar. Quer dizer, é melhor roubar do que matar. Seguindo essa lógica, a gente deve pensar também na situação do ladrão, que também precisa garantir seu feijão. E no traficante, que também garante o leite das crianças. Se a gente raciocinar por aí, deve tudo permitir e nada proibir.
 
Alguém se lembra da polêmica envolvendo os pintores de muros? Há alguns anos, o vereador Clécio Alves decidiu criar uma lei proibindo o uso de muros para publicidade. Seus próprios colegas, legislando em causa própria e a favor das próprias campanhas políticas, se revoltaram, em nome da prejudicada categoria dos pintores. E adivinhem no que deu? Basta dar uma olhadinha na cidade.
 
Algo me diz, portanto, que essa medida tomada pela Prefeitura também não vai dar em nada. O que tenho visto é que outros motoristas, não tão desassossegados quanto eu, continuam aceitando os panfletos, entre solidários e enfastiados. E Goiânia vai continuar sendo uma verdadeira feira, em que todos tentam gritar mais alto. Nos muros, nos outdoors espalhados por toda parte, nas fachadas berrantes das lojas. Ai, Curitiba, e você vai se tornando a cada dia um sonho mais distante...
 
Não importa. Eu, por mim, burguesa quixotescamente solitária, vou continuar fechando ostensivamente a janela do carro, para usufruir da frescura do ar condicionado, ainda que seja considerada por isso uma madame afrescalhada – em país subdesenvolvido, o mínimo conforto é luxo. Para me defender dos inofensivos moradores ou crianças em situações de rua, que humildemente nos pedem a bolsa, o celular ou a vida, com um caco de vidro no nosso pescoço. Para não transformar meu carro num lixão sobre rodas. (Era o que acontecia antes, já que, penalizada com o solão escaldante lá fora ou farta de dizer não umas vinte vezes consecutivas, eu recolhia toda a papelada e não a atirava em seguida pela janela. Ao acolher toda aquela massa de celulose, eu padecia de angustiosa contradição, pois não somos nós mesmos que falamos em preservação do meio ambiente, em desenvolver hábitos de consumo mais conscientes?).
 
E sim, vou ignorar solenemente os simpáticos panfleteiros que quase esmurram o vidro, e saem fazendo muxoxos e dizendo palavrões, afinal nós, a elite motorizada, com nossos carros populares financiados em 36 suaves prestações, somos os grandes culpados pela pobreza, desemprego, injustiça social. Os donos dessas empresas que distribuem os panfletos e que mandaram fabricar as camisetas, os anunciantes, entre eles as construtoras, com seus miraculosos lançamentos imobiliários, as grandes redes de supermercado não têm absolutamente nada a ver com isso.

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POR EM 29/04/2008 ÀS 07:33 AM

Fora, forasteiros!

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Se a gente quiser, pode xingar os irmãos, até falar mal da própria mãe. Mas ai de quem, sem os vínculos da consangüinidade, sem pertencer à família, se atrever a criticá-los. Sentimos a ofensa nos próprios músculos. A intimidade nos dá algumas franquias, certos direitos a resmungos e críticas. Com nossa cidade também é assim.
 
Muitas vezes falo mal de Goiânia, critico seu transporte coletivo desumano, trânsito violento, calçadas irregulares, e sempre cheias de entulhos e placas para atravancar o caminho. Reclamo de sua gente e manias. Mas quando ouço alguém que não nasceu em Goiás, que chegou em busca de oportunidades ou por desvio do destino, tratá-la com empáfia e desdém, me arrepio. E com que freqüência isso acontece.
 
Nós que nascemos e sempre vivemos em Goiás, temos nossos defeitos, mas o que não se pode dizer dos goianos é que não sejam receptivos. Na maior parte do tempo, tratamos com simpatia, acolhemos bem quem vem de fora, às vezes bem até demais. Talvez porque nos sintamos um pouco menores, um tantinho quanto inferiores, na lonjura em que estamos dos grandes centros, com nossas raízes caipiras.
 
Não foi por acaso que governos lançaram até campanhas para elevar a auto-estima dos goianos. Perceberam a fragilidade de nosso amor-próprio e elaboraram anúncios sobre as belezas da terra, as qualidades da gente, as transformações da economia, que deixou de ser exclusivamente agropastoril. Surtiram algum efeito, ao menos elegeram seus criadores e de quebra ampliaram nosso orgulho. Ainda assim, continuamos permitindo que esculhambem nosso sotaque, os nomes diferentes dos nosso filhos, nossos costumes.
 
Somos tolerantes demais com os pretensiosos, com aqueles que vêm de outras partes do País, acreditando encontrar aqui, por causa de nosso jeito caipira de falar, somente analfabetos e ignorantes. Desconsideram toda a sociolingüística que demonstra não haver um registro superior. Chegam, reeditando o velho etnocentrismo, arrotando conhecimentos e competências que apenas eles crêem dominar. Como se aqui não houvesse pessoas competentes. O que talvez não tenhamos seja o zelo exagerado em exibir a própria fachada, em ser todo o tempo boa vitrine de nós mesmos. Somos acanhados, um tanto mineiros, limpamos os pés no tapete e pedimos licença pra entrar.
Aqueles que chegam com ares de superioridade e menosprezo podem ser chamados de forasteiros. E são no mínimo mal educados, ao cuspir no prato em que comem, ao escarnecer da casa e da cara do anfitrião. Não são os migrantes amorosos que adotam o lugar e se dão a adotar. Julgando-se espertalhões entre simplórios, procuram lugares de onde possam extrair oportunidades, que consigam explorar, sem compromisso ou amor pela terra que os acolhe.

A esses devemos perguntar por que, se nossa cidade e estado não são bons o bastante para eles, não dão o fora! Aliás, por que não ficaram em seus lugares de origem? Talvez porque bicudos não se biquem.Talvez porque lá tenham que viver em constante briga de arrogâncias e precisem de outra platéia para arrotar a pretensa importância.

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