revista bula
POR EM 26/04/2011 ÀS 01:52 PM

É mentira que a morte não vem nos dias de sol

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Aí que dia 23 de abril é aniversário de morte do meu pai.
 
Anos atrás, meu pai morreu no domingo de páscoa. No meio da madrugada do sábado para o domingo, na verdade. Eu não estava em casa. Minha mãe me ligou e eu voltei de viagem com meu irmão.
 
Tínhamos um acordo, consequência dos anos de saúde frágil dele: caso ele morresse no meio da noite, ela só nos acordaria (eu e meu irmão) na manhã seguinte com a notícia. A tese é que não fazia diferença e a noite bem dormida faria falta nos dias pesados que se seguiriam.
 
Última noite de sono, quando eu ainda tinha pai. Às oito da manhã o telefone da casa de campo tocou, minha mãe muito calma disse que meu pai tinha passado mal e que estavam indo para o hospital. Era melhor então, eu e meu irmão, voltarmos mais cedo para São Paulo. Não pedi para falar com ele. Eu sabia. Fz em pouco mais de 40 minutos uma viagem que normalmente levaria 1 hora e 15 minutos, parando para trocar um pneu que furou. Cheguei e  ainda na garagem do prédio vi meu tio parando o carro. Sentei no chão e chorei. Fiquei ali quase uma hora, sem deixar ninguém falar comigo ou encostar em mim.


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POR EM 11/04/2011 ÀS 02:38 PM

Profissão: Escritora

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Gozado como as pessoas têm conceitos quase Disney a respeito das coisas. Um escritor é quem escreve livros, e só. Se você não tem um livro publicado, você não pode se dizer escritor. Você é um malemolente que leva a vida na flauta.

Eu sei que não fica nem bem dizer isto por aqui, mas um dos 6 blogs que eu escrevo era sobre o BBB. No R7. Isto dito, instantaneamente, você leitor da Bula me julgou. Eu entendo, mas me dá uma chance e continua lendo.

O ponto é que a gente vai ter que conversar. Ok, não sou a maior promessa viva da literatura nacional. Não vou mudar o mundo ou deixar um legado a ser estudado em teses e mestrados por toda a eternidade (acho). Mas escrevo. Modestamente, escrevo bem.

Espantosamente, consigo sim ganhar dinheiro escrevendo. Consigo ganhar dinheiro com meus blogs e tenho três livros escritos. Publicados? Não, ainda não. Mas estão lá, pra um-dia-quem-sabe-talvez.

Ok, sou escritora. Única atividade remunerada que eu desempenho e que me sustenta. Estou rica? Não. Nem quero (mentira), mas vivo bem. Escritora, ponto. Só. Não era atriz, não participei de BBB, não passei por guerra, não fui jornalista no Iraque, não ganhei uma medalha Olímpica, não tive um filho deficiente, não juntei fortuna, não curei o câncer, não superei síndrome de pânico, não pretendo te ajudar em nada. Sou escritora. Só.


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POR EM 03/03/2011 ÀS 02:21 PM

Programação rebelde de Carnaval

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CartolaPra explicar a importância que a MPB teve na minha infância, basta dizer que eu me chamo Carolina, e  que é sim por causa da música do Chico. Por isso, embora seja relativamente jovem, me incomoda ouvir gente usando Jorge Aragão como exemplo de "samba de raiz". Oi?

Carolina quando pequena ouvia Vinicius e Chico, e queria ser uma cabrocha. Preferia de longe ser a "mais bonita das cabrochas", do que ter os olhos tristes e guardar neles a dor de todo este mundo. Natural, não? Carolina adorava o Carnaval porque podia usar maquiagem e brincos de pressão (só me deixaram furar as orelhas aos 15 anos).

Carolina cresceu e na adolescência tentou, como a imensa maioria dos jovens, usar Carnaval como desculpa pra aprontar. E aprontou. Foi de norte a sul do Brasil com amigos, colegas de escola e amores, aprontando e colecionando histórias, de aventuras e romances de Carnaval. 

Problema que ficou é que hoje, não consigo mais aprontar. To velha. Ou tenho histórias tão incríveis pra contar que  tentar superá-las seria imprudência e risco de vida. Corpo reclama, ressaca moral reclama, o bolso reclama. E eu fico meio contrariada, comparando a realidade atual a esbórnias de "Floripa" e cia., e bate o remorso por estar em casa quando o mundo parece estar por aí acontecendo. 

Quando eu nasci, certos blocos de genialidade já existiam. Diferente dos meus pais, que aguardavam ansiosamente o próximo lançamento do Chico Buarque, ou dos Beatles, ou do Vinicius. Nada disso. Quando eu nasci, a  maioria de todas as músicas que eu amo já estavam gravadas e haviam encontrado reconhecimento.

Cheguei onde eu queria: Meu Carnaval deixou de ser zona, e voltou a ser do samba que lamenta, que não grita, conversa. De igual pra igual. Que te diz pra puxar uma cadeira e se abrir. Ouvir.


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POR EM 03/02/2011 ÀS 11:03 AM

Cara, cadê meu ar condicionado?

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Carolina MendesNinguém estava vigiando e o mundo virou na última semana, uma imensa sauna mista. Homens e mulheres de todas as idades, sofrendo com o calor. Como se São Paulo tivesse virado uma axila: quente e úmida. Aconchegante até o limite da sudorese.

Ar parado, tempo passando devagar e a vontade de cochilar depois do almoço, cada dia mais ruidosa e incontrolável. Culpo o calor e a minha pressão arterial que despenca. E a sensação de que eu devia estar numa praia aproveitando o verão e não em São Paulo trabalhando e calculando a logística da reaplicação do meu desodorante. Sensação de que eu deveria, pelo menos, gostar de praias. Não gosto. Não mais. 

Para começar, não gosto da coisa da areia, acho inadequada como pavimento. E as pessoas suadas, ensebadas e seminuas vendendo comida. E a areia melequenta, quando a gente entra no mar, que parece areia movediça. Sim, sou insuportavelmente chata. Na questão praia só, juro. Fiquei assim depois que adolesci. Long, long time ago. Anos atrás, numa reunião de amigos em uma galeria de arte, um artista plástico do interior de São Paulo, já na faixa dos 50 anos, contou uma história destas lindas e pouco originais, de felicidade infantil, travessuras e um pé de manga. Terminada a história, ele soltou: “Sabe, não imagino felicidade maior do que comer manga  no pé.”  Eu alcoolizada e meio babaca como só os jovens alcoolizados são, soltei: “Eu imagino. Comer manga no pé, num pomar climatizado”. Na hora gargalharam. Bêbados, esses bobocas.


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POR EM 31/12/2010 ÀS 12:29 PM

Presente de fim (início) de ano

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Quando eu era pequena, bem pequena, e a cozinheira de casa fazia brigadeiros, eu ficava infernizando a pobre, até que ela me deixasse ajudar a enrolar a massa de chocolate. Evidente que eu não queria esperar estar suficientemente fria. Evidente que a manteiga que passavam nas minhas mãos para não grudar a massa na pele, somada à temperatura ainda alta da massa, tornava a moldagem das bolinhas dificílima. Mas eu insistia, e ficava com as unhas meladas de chocolate. 

Depois do começo tortuoso, a massa esfriava um pouco, e eu fazia os brigadeiros mais lindos já vistos na história da humanidade. Tamanho, cobertura de granulado e posicionamento na bandeja, irretocáveis. Até que o tempo passava e eu começava a achar aquilo infinitamente cansativo, e os brigadeiros começavam a crescer, discretamente. Inconsciente tentativa de acelerar o fim da tarefa, e ir brincar no jardim. 

Quando percebia meu cansaço, de sacanagem ou para me ensinar alguma lição, ouvia a voz da cozinheira, dizer depois de rir: "Agora você tem que terminar tudo, não insistiu pra fazer?". Aí os brigadeiros dobravam de tamanho, e eu entrava oficialmente no "modo brigadeiro grande". Seguimos. Fim de ano. Todo mundo pelas ruas fazendo brigadeiro grande. Arrumando malas, comprando comida, presentes, encerrando o ano no trabalho. Todo mundo agitado/ansioso, ainda que disfarçando loucamente essa ansiedade Natal/Reveillon, com o já tradicional "odeio essa época do ano". 


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