revista bula
POR EM 20/04/2012 ÀS 09:39 PM

Preferência não se discute; gosto, sim

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A situação da crítica literária junto a leitores, intelectuais, jornalistas, está cada dia mais irrespirável. Ser crítico literário, estudar a literatura de forma acadêmica, está se tornando algo tão complicado quanto apoiar o aborto, a legalização das drogas e a discussão a respeito do casamento gay. Politicamente correto é não se importar com a teoria, lixar-se para a tradição, mandar às favas qualquer crítica ou crítico produzido nos corredores da academia, sejam eles estruturalistas ou formalistas, ligados às teorias do imaginário ou às correntes dos estudos culturais.

Os críticos recebem as piores alcunhas: repetidores, macaqueadores, dependentes dos professores e dos grandes especialistas. Aos seus detratores a crítica é tudo, menos um ato de inteligência diante de uma obra. Os profissionais que a isso se dedicam ficam reféns da ditadura do gosto, presos nas frases feitas utilizadas como argumentos definitivos, coisas do tipo “gosto não se discute”. O que dizer diante disso?

Tentemos definir, primeiro, para que serve a crítica literária. Para que um crítico existe? Penso que o papel de um crítico é o mesmo de qualquer intelectual das ciências humanas: historiador, sociólogo, antropólogo. Des­mistifiquemos para que os que se doem não cortem seus pulsos. Não, um crítico não se julga superior aos outros leitores. Não são, nem se consideram os donos da verdade. Pelo contrário, sua obrigação, intenção e compromisso é o diálogo permanente com tudo o que já foi escrito, seja nas academias ou na solidão da criação artística verbal. Ser crítico é uma profissão como outra qualquer, como ser sociólogo também o é. A literatura não é feita para os críticos apenas, tal como a sociedade não existe para os estudos sociológicos. Essas coisas existem para a humanidade como um todo, circunscrevem-se nela, fazem parte dela. Mas nem todos têm tempo, intenção ou vocação para dedicarem sua vida exclusivamente ao estudo da literatura ou da sociedade.


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POR EM 04/01/2010 ÀS 01:17 PM

Guerra e Paz: história além da história

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TolstóiRecentemente a “Revista Bula” publicou uma lista dos cem livros mais importantes de todos os tempos. Chamou de “A lista das listas”. Dentre injustiças ou polêmicas para uns ou outros, ninguém achou loucura que “Guerra e Paz”, de Tolstói, encabeçasse essa classificação. Quem leu o livro de Tolstói pode ter outro predileto. Tenho o meu, e não é o referido volume, mas não há como negar a plausibilidade do posto. À frente de Homero? Sim. De Dante? Sim. Proust? Ok. “Guerra e Paz” é incontestável.

Depois de percorrer as duas traduções brasileiras (Oscar Mendes e João Gaspar Simões), em um intervalo de mais de dez anos entre uma leitura e outra, rendo-me — mais do que quando da primeira visita na tradução de Oscar Mendes — ao encanto dessa obra-prima. Ernest Hemingway, em brincadeira inofensiva, disse: “Comecei devagar e derrotei o Sr. Turguêniev. Treinei e derrotei o Sr. De Maupassant. Lutei dois rounds difíceis com o Sr. Stendhal e fui ligeiramente melhor do que ele. Mas ninguém nunca vai me pôr num ringue com o Sr. Tolstói, a não ser que eu enlouqueça.” Essa obra recupera nos leitores atividade hoje em dia cada vez menos executada: a de acompanhar uma história, de vermos desenvolver ante nós enredo admirável, bem executado em linguagem intensa e viva. Sim, lê-se “Guerra e Paz” por diversos motivos, mas antes de tudo, queremos ler sua história e trama que se apresentam: saber do destino de Pedro, André, da própria Rússia. Mesmo conhecendo o final, os grandes feitos, queremos assistir a como eles serão contados, em que situação se encontrarão Maria e Natasha quando o exército francês sofrer com o inverno e suas tropas estiverem desordenadas na estrada para Smolensk, como reagirá Nicolau Rostov ao incêndio de Moscou, qual reação terá Napoleão ao tomar a capital deserta, abandonada pelo seu povo. Tolstói é um grande fabulador, e encanta tanto pelo que conta, como pelo modo através do qual o faz.


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POR EM 06/11/2009 ÀS 09:36 PM

Middlemarch, um romance totêmico

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MiddlemarchAliteratura feita por mulheres sempre foi um terreno delicado de ser abordado, estudado e discutido, mesmo tendo nomes de peso que povoem essa constelação, como Virgínia Woolf, George Sand, Cecília Meireles, Katherine Mansfield, Marguerite Duras, Lygia Fagundes Teles, Gertrude Stein, Clarice Lispector e muitas outras. Mas talvez a verdade seja que, quando uma escritora escreve de modo objetivo, sem sentimentalismos pertinentes aos autores românticos, quando é capaz de criar tipos e personagens fortes, contundentes, profundos e ricos psicologicamente, alguns ainda dizem: “ela escreve como um homem”. Não entrarei nesse mérito espinhoso e perigoso, mas posso afirmar que, esses que dizem isso (não é o meu caso) com certeza o diriam de George Eliot depois de lerem seu absoluto e capital romance “Middlemarch”.

Apesar do nome masculino com o qual assinava suas obras, a importante escritora inglesa (cujo nome verdadeiro era Mary Ann Evans, que tem em sua biografia uma fuga com um homem casado, o igualmente escritor George Henry Lewes), uma das maiores de todos os tempos, trás em sua literatura uma obra na qual podemos ver diversas marcas de defesa e de compreensão profunda e analítica do comportamento feminino, sempre colocando as personagens mulheres em posição de destaque, não somente isso, colocando-as como as figuras a partir das quais os destinos se fundam e estabelecem-se dentro da narrativa, povoada de homens torpes, fracos, exageradamente moralistas, derrotados pelos casamentos, apegados a conceitos de uma vida monótona, conservadora, como apregoa o subtítulo de seu romance: “Middlemarch: Um Estudo Da Vida Provinciana”. As personagens masculinas de “Middlemarch” são sempre vítimas de seus destinos, exceto Fred Vincy, que se deixa conduzir pela sublime e consciente Mary Garth, e ter sua vida desenhada pelos rumos que ela e seu pai resolvem dar a ela. Isso fica muito evidente nas quase mil páginas que constituem este livro, e mesmo sendo um romance do século XIX, rompe as barreiras de sua época, chega até nós, inteiro, universal, sólido, arrebatadoramente humano. Explico por quê.


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POR EM 01/08/2009 ÀS 11:59 AM

Mais que um mero conto de fadas

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Thomas Mann: o autor completo, consistente, tecnicamente perfeito e dotado do mais refinado tom irônico e percepção crítica da realidade. Como ele mesmo queria: um Goethe moderno

Thomas Mann

“Sua Alteza Real”, segundo romance de Thomas Mann, parece estranho a qualquer um de seus leitores mais familiarizados. O criador de “Morte em Veneza” é conhecido como um autor de decadência e realismo simbólico, mestre do uso das alegorias para analisar e dar forma a um mundo doente, não apenas nas subjetividades psicológicas, mas igualmente em suas nuances sócio-históricas. Seus principais romances (“Montanha Mágica”, “Doutor Fausto” e a tetralogia “José e Seus Irmãos” — para mim a sua grande e verdadeira obra-prima), sempre com personagens densos, grandes descrições e digressões, contrasta muito com esse “Sua Alteza Real”, que se serve de personagens simples, arquetípicos e unidimensionais. Seu formato é o de conto de fada, e dessa forma foi recebido pela crítica de sua época. O próprio Mann, na velhice, disse se tratar apenas de uma história despretensiosa, mas mesmo assim com algum charme, e sentenciou: “mas os alemães não querem saber de charme”. Ele se ressentiu com a recepção morna, para não dizer pálida, da critica à época da publicação. O problema maior estava em seu livro precedente, nada mais que o grandioso “Os Buddenbrooks”, sua estréia apoteótica, obra que lhe rendeu — a contragosto do germânico, haja vista o fato de que já havia lançado “A Montanha Mágica” — o Prêmio Nobel de Literatura. O desfecho feliz, esperançoso do romance, para muitos foi uma descida ao mundo do otimismo depois da densidade do primeiro livro.
 
Pois bem, trata-se da história do príncipe Klaus Heinrich, de um pequeno grão ducado alemão. Seu nascimento alimenta a lenda de que haveria um nobre que faria, com uma só mão mais que qualquer outro fez por aquelas terras. Klaus nasce com uma das mãos defeituosas, raquítica, que por toda sua vida tentaria esconder. Depois de a diegese do romance apresentar toda a educação moral e intelectual de Klaus e seu conseqüente crescimento e amadurecimento em mais da metade de suas 350 páginas, nas quais também o irmão mais velho de Klaus lhe passa os deveres reais — já que ele era o líder carismático e amado pelo povo, e não o mais velho —, o ducado recebe a visita de um pequeno clã multimilionário norte americano, composto pelo patriarca Spoelmann, que herdara a fortuna do pai — um grande homem de negócios de sangue mestiço —; e Imma, sua filha. Vinham com o pretexto de estarem atrás das águas medicinais do lugar: o velho bilionário queria alívio para as cólicas renais insuportáveis, por isso se instalariam na cidade. Pleiteiam e compram o Castelo Velho, uma das residências reais, vendida a fim de cobrir dívidas e despesas de um reino empobrecido e em franca decadência. Irmãos de Klaus sentem-se ofendidos: são burgueses adquirindo residência real, mas que, com o poder financeiro, poderiam reerguer o Castelo e devolver-lhe os ares de realeza. A recepção à família de estrangeiros que compram a propriedade cria a situação chave para que Klaus encante-se por Imma. O tom romântico ganha força, a narrativa, um curso fantasioso. Klaus tenta de todo modo se aproximar de Imma, a doença do pai da moça é providencial à narrativa: o velho, acamado, não poderia impedir os passeios de cavalo na companhia do jovem príncipe. Paralelamente, o reino passa por graves dificuldades financeiras, e o rumo que a relação de ambos toma, sempre definida pelo amor, é o do natural casamento. Quanto mais se agrava a crise do ducado, mais próximos estão os dois personagens. Quando Klaus é obrigado a sair do reino de fantasia de uma vida aristocrática, em pleno fim do século XIX, para tomar providências quanto à tensão financeira que atinge situação limite, os burburinhos a respeito de seu romance com a burguesa milionária coadunam-se, junto à corte e à população — que amava o carismático Klaus —, com a lenda de que o príncipe de uma só mão salvaria o estado. Assim, o casamento passa a ser a redenção desse ducado empobrecido e à beira de um colapso. Spoelmann empresta dinheiro em condições paternais, as dívidas são saudadas e a prosperidade, junto do amor, triunfa com o casal saudado na cerimônia matrimonial, como heróis de um mundo quebradiço.
 
A fragilidade da trama esconde, bem ao gosto manniano, uma mordaz crítica ao espírito e ao ócio aristocrático (no plano sócio-histórico) e a possibilidade de transmutar a vida de aparência e futilidade em uma vida constituída em experiências verazes sedimentadas pela profundidade do amor (no plano subjetivo e psicológico).

Para além da visão santificada sobre o gênio de Thomas Mann, não há como perceber a sua acidez ao fazer com que o irmão mais velho do príncipe entregue o lugar que lhe era de direito ao irmão mais novo porque o povo não o tinha escolhido como rei, e sim ao caçula, tal como acontecera em sua família com relação ao grande escritor Heinrich Mann, primogênito da família (autor do brilhante “O Anjo Azul”), cuja famosa biografia tem o curioso título de “O Irmão”. Outra referência clara é a origem mestiça de Imma: a mãe de Mann, Julia, era brasileira e também trazia consigo os traços da mestiçagem em seu sangue, e mais ainda, a própria família do escritor passara por uma decadência financeira que marcara a vida dos jovens filhos do Sr. Mann, muito bem transposta e transformada em “Os Buddenbrooks”, e nessas situações chegara à vida do autor Kátia, com quem se casaria e levaria sua vida burguesa.

Personagens alegóricas surgem no romance, e a partir delas podemos detectar a ironia ácida de Mann contra a vida de aparência, meramente representativa que tem essas figuras ocas. O grande tema que o livro traz é o da farsa, do “teatro social” para o qual nos aponta Richard Sennett em seu “O Declínio do Homem Público”, e que só pode ser vencido se atacado com coisas verdadeiras, como o amor, por exemplo, ou uma grande crise financeira (sanada por um golpe do destino amoroso de dois jovens, por que não?). O mundo velho, “ancien regime”, só trazia de si uma aparência de beleza. O castelo no qual moraria o casal seria reconstruído com o dinheiro burguês americano, e do velho, só viria a aparência, o ornamento. Diz o narrador: “Ao grande canteiro central, diante da rampa de acesso, seria transplantada a roseira do Castelo Velho, e lá, já não rodeada de muros mofados, mas com ar, sol e adubo gordo, agora veriam que rosas ela produziriam refutando as mentiras populares, se fosse suficientemente obstinada e petulante.”

Thomas Mann, mesmo em seu conto de fada, é ainda Thomas Mann, o autor completo, consistente, tecnicamente perfeito e dotado do mais refinado tom irônico e percepção crítica da realidade. Como ele mesmo queria: um Goethe moderno. Um escritor que não consegue deixar de olhar, já que sua maldição, como ele mesmo sugere em sua novela “Tonio Kröger”, é essa, a de transformar a experiência em linguagem, sem abrir concessões.

Sua obsessão por sua arte encontra espaço em seu conto de fadas, quando Klaus, visitado por um poeta, o vê dissertar sobre a vida de um homem de letras, que é mais feita de contemplação que de vivência, ou no mínimo, de uma vivência contemplativa, como fez Rosa no sertão de Minas. Diz o poeta ao príncipe maneta: “... eu tenho de poupar, controlar-me, medroso e avarento, por motivos higiênicos. Pois é de higiene que gente como eu precisa em primeiro lugar... ela é nossa moral. Mas nada é mais anti-higiênico que a vida...”
 


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POR EM 18/07/2009 ÀS 08:51 AM

Literatura para quem?

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A recorrência à nossa subjetividade, ao nosso imaginário particular, faz da literatura a expressão legítima de arte da intimidade, e nos convida a pensar na figura impar do leitor, que renova o poema, conto, romance ou texto teatral em cada leitura

A leitura é, antes de qualquer coisa, uma atividade mental, pois embora leiamos com os olhos, não podemos atribuir à visão (exceto em experiências concretistas) a apreensão do sabor estético da literatura. Assim talvez seja porque, apesar de o som que as palavras bem colocadas que reboam em nossa mente no momento da leitura nos trazerem impressão de beleza, a visualização particular e íntima das imagens que concebemos daquilo que nos é narrado ou descrito nos remete ao nosso repertório pessoal. Fala-nos o teórico do efeito estético, Wolfgang Iser, nome grande da turma apelidada de Escola de Constança, no seu já clássico “O Ato da Leitura”, que “à medida que os vazios indicam uma relação potencial, liberam o espaço das posições denotadas pelo texto para os atos de projeção do leitor. Assim, quando tal relação se realiza, os vazios desaparecem”.

Não há como nos desvincularmos da nossa ideia de “bela casa” quando lemos uma descrição do que seria essa “bela casa” que o narrador pretende nos fazer visualizar. Talvez por isso eu atribua maior deleite à apreciação da literatura que à do cinema, já que na arte do audiovisual a imaginação está descartada, pois o repertório de imagens nos obriga a ver o que o diretor e sua equipe definem como “bela casa” ou algo que o valha. Pois bem, essa recorrência à nossa subjetividade, ao nosso imaginário particular, faz da literatura a expressão legítima de arte da intimidade, e nos convida a pensar na figura impar do leitor, que renova o poema, conto, romance ou texto teatral em cada leitura, reservada, privada, feita por um indivíduo em sua solidão, que nada tem de crepuscular ou taciturna, e se o tem, falamos das sombras a que se refere o poeta inglês John Milton, em seu grande “Paraíso Perdido”, a obscuridade chamada por ele de “clara escuridão”, já que a boa literatura mais nos leva a ler a nós mesmos que ao mundo que nos é pertinente.

Esse aprendizado do ato da leitura, essa espécie de educação sentimental pela qual deve passar o leitor, a mim parece-me mais necessária ainda na apreciação da poesia, já que o fenômeno da hipersemanticidade (hiper significação de uma palavra ou transmutação de seu sentido sintático ou morfológico dentro da obra literária) é mais comum na poesia que na narrativa, salvo em experiências como o brilhante “Casa Entre Vértebras”, de Wesley Peres, no qual a definição do que é poético e do que é narrativo fica salutarmente obscura.

Outrora chamei atenção para a dificuldade de termos leitor de poesia quando escrevi a respeito de “Trompa de Falópio”, de Valdivino Braz, no qual o fenômeno da hipersemanticidade está aliado a uma erudição singular e uma vastidão de citações e referências a figuras icônicas da cultura ocidental. Nesse ponto até mesmo a teoria do efeito estético de Wolfgang Iser, segundo a qual o leitor recorre a seu repertório idiossincrático para preencher os lugares vazios deixados pelo texto literário, parece-me problemática. A que repertório ele poderá recorrer se não tiver as leituras das obras às quais o poeta se referiu na construção de seu texto?

Mas para além das questões teóricas e categoriais do leitor enquanto objeto de estudo acadêmico, que não é o mais relevante para o presente ensaio, lembro-me do famoso fragmento do poema “Trouxeste a chave”, de Carlos Drummond de Andrade, contido em “A Rosa Do Povo”, no qual ele, sublime, nos coloca, de chofre, ante à questão pertinente e lapidar:  “[…] / Chega mais perto e contempla as palavras. / Cada uma / tem mil faces secretas sob a face neutra / e te pergunta, sem interesse pela resposta, / pobre ou terrível, que lhe deres: / Trouxeste a chave? / Repara: / ermas de melodia e conceito / elas se refugiaram na noite, as palavras. / Ainda úmidas e impregnadas de sono, / rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.” O poeta aqui nos convida a desvendar a magia da poesia em transformar a palavra ou extrair dela, numa contemplação que nada tem de letárgica, e que, ao contrário, muito traz de ativa e astuta, o mundo que essa palavra esconde e carrega, misteriosa, em si. Portanto, mais do que o elemento que se encontra na leitura, o importante seria para o poeta o ato em si de ter a chave, desvendar o mistério, atravessar a porta que, como apregoa o poeta Carlos Willian Leite em seu recém lançado “Noves Fora: Nada”, “[...] aberta / toda porta / é viagem”.

Mas para mim, a chave drummondiana esconde uma questão mais complexa, levantada por Fernando Pessoa no poema “Liberdade”. Diz-nos Pessoa que “Grande é a poesia, a bondade e as danças... / Mas o melhor do mundo são as crianças, / Flores, música, o luar, e o sol, que peca / Só quando, em vez de criar, seca”.

Se isso nos reflete e nos explica, fazendo-nos perceber que o enigma não é a falta de leitores, mas sim esse embrutecimento da alma, talvez movido por uma cultura de mercado empobrecida e ordinária, por meios de comunicação que, numa espécie de conchavo imaginário, asfixiam a produção artística impedindo que a mesma seja ventilada; ou pela vulgarização da violência, pela escassez da delicadeza, pelo emudecer da elegância, pela falta da gentileza, pela patologia do amor mal vivido, desprovido de leveza, sorriso fácil e alma leve; pela morte das amizades puras e despojadas de apego ou instância, pela velocidade com que os gostos mudam guiados por efemeridades banais, pela morte da inocência, que nada tem a ver com alienação ou misticismo, mas sim com o que há dentro de nós que possa almejar, de algum modo, o sublime; enfim, tudo isso e mais talvez seja o mote, o problema real, a verdadeira chaga: os livros fechados tornam-se assim mera e triste consequência de um mundo tétrico, árido, estéril.

Mas se não temos mais alma, se um poema nada mais pode, se escritores escrevem para escritores, tal qual pintores para seus pares, atores montam peças para os seus iguais, pergunto-me: literatura para quem?
 


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POR EM 11/07/2009 ÀS 09:05 AM

Michael Jackson: uma figura trágica

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Como estrela maior de seu tempo, ele era fascinante, e como a figura trágica da qual temos notícias desde os anos 90, também. Ninguém subiu tão alto, e nenhum caiu de forma mais trágica, a ponto de transformar o trágico em patético

Michael Jackson

Sempre escrevi sobre literatura por ser ela o meu material de estudo. Eu estudo para ser crítico literário e sempre o farei para ser sempre crítico, já que nesse ofício nunca estamos completamente formados. Na literatura, além da forma e da sensação estética, percebo o mais profundo estudo da personalidade humana que se pode fazer. Isso, em forma de palavra, encanta-me. Como escritor romancista (tenho um romance inédito que pode sair esse ano) o comportamento humano me interessa. Parafraseio o historiador Marc Bloch: “tudo que é humano me interessa”, e sendo eu um homem que atravessou os anos oitenta e noventa assistindo a mais incrível ascensão e queda de uma figura pública, como não poderia ter me interessado por Michael Jackson, para mim, a figura mais trágica dos últimos trinta anos do século XX.

Donald Prater, na biografia que escreveu sobre o Thomas Mann, diz em seu prefácio que seu retratado era fácil de admirar e difícil de amar. Para Thomas Mann – ególatra que buscou durante toda a vida correspondência entre si mesmo e Goethe, filho de família burguesa que jamais teve que “trabalhar” na concepção mais genuína da palavra, que sempre buscou a reclusão e nunca teve problemas em sacrificar quem estivesse ao seu redor por causa de sua arte e de suas idéias, e que disse, enfaticamente, certa vez ser a juventude uma farsa da qual jamais gostou e que só conhecera a felicidade na velhice –, essa frase de Prater não teria grande efeito. Mas para Michael Jackson – que nascera negro em um país no qual o racismo era muito mais declarado que no Brasil, no qual este mesmo racismo resultava não só em agressões verbais, mas também em violência física; que fora filho de um pai violento e tosco, arrimo de família aos 10 anos de idade, vítima do ciúme infantil de seus irmãos que o viam já criança roubar a cena no palco, com uma infância furtada pela própria família e consumida pelo mundo e que por isso jamais desejara crescer quando, livre do jugo do pai, teve a oportunidade de ser a criança castrada em sua natural criancice; e mais e principalmente, com um talento de gênio e alma excessivamente sensível – tal afirmação poderia ser, como lhe foi, sempre, fatal. Shmuley Boteach, rabino e mentor de Jackson por muitos anos, do qual se afastou depois de ter filmado um documentário que pretendia resgatar sua popularidade e só serviu para lhe render outro processo de abuso sexual, disse certa vez que Michael lhe declarou: “Fiz tudo o que fiz para ser amado. Não gostava do que via no espelho, meu pai, quando criança, sempre me provocava, dizia não entender como gostavam de mim sendo que, dos meus irmãos, eu era o mais feio.” Cresceu rejeitado na sua face subjetiva, carente de amor, e na sua aparência física, rejeitada pelo pai que enriquecera às suas custas.
 
Otto Maria Carpeaux, em seu ensaio “O Admirável Thomas Mann”, diz também que o escritor alemão, enquanto figura trágica era fascinante, mas enquanto escritor, o melhor dentre os de segunda classe, opinião da qual discordo, mas cuja discussão não cabe aqui, no entanto, podemos dizer que é algo que não se pode dizer de Michael Jackson, símbolo de uma arte (a música pop de mercado) que, diferentemente da literatura, tem a fugacidade como marca para a maioria dos seus nomes. Michael revolucionou essa música pop, influenciando-a e sendo seu símbolo por quase quarenta anos. Sua magnitude nesse âmbito torna-se visível se fizermos um fácil exercício: pensemos na música pop mundial das últimas décadas sem a sua presença. Essa mesma história tomaria outros rumos e seria algo diferente do que é hoje. Melhor? Pior? Não se pode saber, mas seria diferente, isso podemos afirmar com absoluta certeza.
 
Como estrela maior de seu tempo, ele era fascinante, e como a figura trágica da qual temos notícias desde os anos 90, também. Ninguém subiu tão alto, e nenhum caiu de forma mais trágica, a ponto de transformar o trágico em patético. Sua figura física tornou-se piada para todos; sua música, pouco ouvida; seus discos, pouco vendidos em relação ao que foram no passado; sua dança sumira dos palcos. O que restou dele nos últimos anos foi uma sucessão de escândalos, processos, dificuldades financeiras e atos bizarros, além de um silêncio musical tremendo.

Não teço aqui juízos a respeito da sua música por não conhecer música o suficiente para fazê-lo. Não tenho como situá-lo, criticá-lo enquanto músico. O que me interessa aqui é sua figura humana trágica. Mas hoje, depois de sua morte, comentam sua obra sem conhecê-la a fundo, sem verem a repercussão que ela teve, dizem aquilo que eu ou qualquer pessoa pode afirmar: fixam-se nos clichês que todos conhecem, e mesmo assim reconhecem sua genialidade, que foi forte e criativa em todas as coisas que almejou fazer enquanto tinha lucidez para fazê-las.

Curioso observar que o infantiloide Michael à medida que envelhecia caia mais, pelo fato óbvio de não saber ser grande, de não estar preparado para isso e de nem querer fazer isso. “Eu sou o Peter Pan”, disse ele em uma entrevista. E assim, agora que as luzes se apagam e as cortinas se fecham, esse Peter foi – não como a criança ditosa da lenda, mas ainda assim –, para a terra do nunca, na qual jamais envelhecerá, assumindo, creio, o lugar que lhe é de direito na história da música pop, que foi seu reino de fantasia e sua mais dura realidade. Para mim, o que o faz gênio é o superlativo em tudo o que fez, para o bem e para o mal, e sua influência inegável. Para Harold Bloom a influência dá lugar aos gênios na literatura, penso que se o crítico norte americano fizesse um cânone da música pop, Michael seria o centro desse cânone, pois como astro influente de seu tempo, ele é canônico.
 


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