revista bula
POR EM 28/11/2010 ÀS 01:30 PM

Rio de Janeiro em chamas

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No Rio Maravilha, tornado balneário conflagrado por ondas de neocinismo do populismo político, e do império do tráfico, constituído como poder paralelo, por mais de trinta anos seguidos, vem chegando o tsunami do absurdo e do medo — que se consolidou como triunfo da barbárie, por mais forte que seja este termo. 

Nas cidades tornadas selvas selvagens, pelo tsunami das drogas, ninguém está a salvo: todo mundo é um alvo. Nem o papa escapou da maré escura da intolerância: levou um tiro a queima roupa, mesmo sendo mais popular do que Jesus cristo. A nau selvagem dos que se recusam a viver com amorosidade superpovoa as metrópoles ultramodernas, mas não civilizadas. 

Chegamos ao ponto de autoridades e imprensa chamarem de “cidadãos” bandidos armados até os dentes, a afrontar todas as leis, e a atropelar todos os direitos humanos — até o mais simples, como o de ir e vir, sem ter seu veículo queimado — e considerando grande sorte não ter sido morto a tiros, ou queimado junto ao seu carro, instrumento de passeio ou trabalho. Assim, tornou-se discurso comum, palatável, nas mídias da imprensa, e nas falas de autoridades militares ou políticos, considerar que a bandidagem age com violência e barbárie porque foram excluídos da sociedade. O discurso funciona quase como absolvição prévia, um “passar a mão na cabeça”, em condescendência que se tornou emblemática, quando se trata dos malfeitos de aloprados partidários.


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POR EM 22/10/2010 ÀS 02:58 PM

Algemas de cristal: ou a presença do pai ausente

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“Algemas de cristal” — Um filme dos primórdios — anos dourados? — do cinema, que passa uma mensagem válida para gerações antigas, atuais e futuras. Por que trata de um tema universal, e sempre atual: a sombra do despotismo controlador da mãe sobre os filhos. A mãe cujo marido se perdeu nas distâncias, ou buscou afastar-se cada vez mais das lembranças do lar onde a personalidade forte da companheira não lhe permitiu ter um lugar.

Assim, seu retrato na parede, e comentado às visitas como sendo a memória do homem que buscou a distância, indo sempre mais longe, não é referido como aquele que fugiu à mediocridade do conhecido, e passou o resto de seus dias a buscar os perigos do estranho e do longínquo. A mãe, figura dominadora, saudosa de uma riqueza e uma glória que só existiram em sua imaginação, vive em névoas de ilusões vazias, buscando afirmar-se no na façanha imaginária de ser originária da primeira família que desbravou aquelas bandas do Mississipi.

Ela tem dois filhos, um homem, bem dotado de físico e inteligência, e uma filha, Laura, que é manca, introspectiva, sofre de baixa auto-estima, resultante de seu problema físico, e do fato de ser esmagada pela personalidade dominadora e controladora da mãe, que regula todos os seus passos mancos, a esperar que um dia venha um grande partido, que se apaixone por sua filha, e lhe dê um futuro de riqueza e conforto, não a vidinha pobre e rasteira, acossada pelas necessidades.


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POR EM 05/09/2010 ÀS 04:27 PM

O parangolé dos insensatos

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Julgamos ser a mente o que é somente intelecto. Sendo um reflexo da mente cósmica universal, creadora de tudo o que existe, a mente humana tem vislumbres de sua perfeição e esplendor. A mente é a soma de tudo o que somos, e do que nos constitui, nos planos da consciência e no oceano infinito do inconsciente — do que advém de nossas experiências ao longo das existências, e aquele a que Jung chamou de inconsciente coletivo.

Henry Miller assinalou, a propósito: “O intelecto é produto do ego, e o ego jamais pode ser aquietado, jamais pode ser satisfeito”. A verdade vem com a rendição. E não pode ser expressa em palavras”. “Só sei que nada sei”. Assim o disse Sócrates, um que sabia muito, mas também sabia ser impossível saber tudo.

Os que nada sabem posam de donos da verdade, e senhores do conhecimento. Os que tiveram vislumbres do Grande Segredo, quando lhes perguntam o que viram, e o que conhecem sobre a experiência que produziu uma revolução em sua Consciência profunda, permanecem em silêncio. Mesmo Jesus, o Cristo, permaneceu calado, quando Pôncio Pilatos lhe perguntou: O que é a verdade? Se nem Ele respondeu, quem pode querer fazê-lo, a não ser os cegos condutores de cegos? A terra estéril dos desejos só produz frutos no terreno ilusório do futuro. No presente estamos sempre insatisfeitos. O poeta Vicente de Carvalho o expressou, com grande lucidez: imaginamos ser a felicidade uma árvore de dourados pomos, que está sempre onde a colocamos, mas nunca a pomos onde nós estamos. Não há algo a que possamos chamar de felicidade, pois que só existem momentos felizes. O tempo são estados sucessivos de consciência. A eternidade é o presente em movimento. Não existe eternidade que não ocorra no presente — o eterno agora, em que vivem as consciências despertas.


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POR EM 12/08/2010 ÀS 05:29 PM

A lanterna dos afogados

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Antes de ser doença de pessoas, o crack é reflexo de uma grave enfermidade social. Que, não sendo atendida a tempo, vem transformando-se em pandemia, atingindo jovens de famílias de todos os níveis sociais. Tal é o desastre sócio-psíquico que traz aos usuários, e às comunidades onde eles vivem, que é dito por especialistas: quem entra na droga do crack vê a sua vida como uma droga — e não precisa morrer, para conhecer o inferno.

Como se ampliou tanto esta praga, a ponto de ser calamidade pública, perante a qual autoridades da saúde e da polícia são impotentes? A doença entrou com a quebra de valores, pela qual só tem valor o que pode ser vendido ou comprado. Religiões se transformaram em competição selvagem de seitas e igrejas, na disputa pelo mercado de fiéis. Escolas foram transformadas em depósito de crianças e jovens que lá vão para merendar, bater em professores e brigar, não sendo necessário estudar, para aprovar-se coercitivamente pelo absurdo sistema de não se poder reprovar.

Com tudo sendo nivelado por baixo, o resultado poderia ser outro? A família perdeu a autoridade sobre seus filhos, o inocente tapinha pode levar pais e mães à cadeia, e à perda da guarda de seus filhos. Como se não bastasse o peso do Estado impondo sobre os cidadãos contribuintes a maior carga tributária da história da humanidade, a governança lulista ainda quer ser polícia de costumes: com leis esdrúxulas, como se estivéssemos em uma República de Aiatolás, legisla sobre costumes, substituindo e arrogando para si até mesmo a autoridade de pais e mães de família, como no caso da criminalização do tapinha. O Grande Irmão, em sua pretensão de ser o doador e fiscalizador dos Direitos Humanos, em todos os níveis, e logo irá legiferar sobre intimidades da homossexualidade, o exercício da prostituição como ofício regulamentado, casamentos gays, etc, etc, etc.


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POR EM 25/07/2010 ÀS 09:59 AM

Clariceando o mistério

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Tão estranha como foi, e estranho o olhar com que via os mistérios do mundo, que parece não ter existido, a não ser pelos estranhos personagens que inventou ou viu, nas praças e ruas de cidades do Brasil e do estrangeiro, em epifanias brotadas de uma sensibilidade antenada com o inesperado. Pois Clarice não interpelava o inesperado, aceitando-o, não como um estrangeiro atrevido, mas como um visitante familiar a si própria, e a todo e qualquer vivente desta nave planetária que habitamos. No dizer de Manoel de Barros sobre si próprio, pode-se intuir que Clarice “carregava seus primórdios num andor, e vivia a abrir descortinos para o arcano”.

Dizem que Clarice Lispector, a estranha, nascida Haia Lispector (Chechelnyk, 10 de dezembro de 1920 — Rio de Janeiro, 9 de dezembro de 1977) foi uma escritora brasileira, nascida na Ucrânia. Autora de linha introspectiva, buscava exprimir através de seus textos, as agruras e antinomias do ser. Suas obras caracterizam-se pela exacerbação do momento interior e intensa ruptura com o enredo factual, a ponto de a própria subjetividade entrar  em crise. De origem judaica, terceira filha de Pinkouss e de Mania Lispector. A família de Clarice sofreu a perseguição aos judeus, durante a Guerra Civil Russa de 1918-1921. Seu nascimento ocorreu em Chechelnyk, enquanto percorriam várias aldeias da Ucrânia, antes da viagem de emigração ao continente americano. Chegou ao Brasil quando tinha dois  anos de idade.


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POR EM 29/06/2010 ÀS 03:31 PM

Dizeres de Estamira

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EstamiraEstamira é uma mulher do povo, catadora em um dos lixões da Baixada fluminense. Dizem que é doida de pedra, mas é de uma lucidez delirante, tem um discurso apocalíptico, o que teria um Nietzsche antes de mergulhar na escuridão, ou de um Glauber Rocha, na fase em que anunciou ao universo ser o General Golbery do Couto e Silva um gênio da raça, ou um Geraldo Vandré, ao propor uma santa como padroeira do Exército. 

Mire e veja: louco talvez seja quem assim a diz — e não é feliz. Estamira jura de pés juntos que é melhor não ser um normal, normoticamente encaixotado na vidinha hipócrita e trivial do burguês com 90% de cifras na alma enferrujada. 

Pouco e malmente esquentou bancos de escola. Menos ainda leu Clarice Lispector, nem sabe quem ela foi — nem é afeita à leitura de livros, menos ainda tem rompantes de ser leitora ou poetisa. Contudo, uma poesia alucinada brota, em cascata, por sua boca sempre sorridente, a não ser quando fica brava com a humanidade, e dana a lançar faíscas, estalos de Vieira, em frases cortantes como navalha. 

Coerência em sua fala catártica e apoplética quase não há — mas perguntar não ofende, lógica e acessibilidade à mente cartesiana e superficial também não existe nas obras de James Joyce, de  Clarice Lispector, de Guimarães Rosa, Sousândrade, e de certos poetas vanguardistas?  Como no discurso viperino, lançado às escuta impossível da cidade vertiginosa, repleto de indignação e raiva, que proferiu no lixão, diante de cineastas que a filmavam: “Existe a lucidez e a ilucidez. A gente aprende alguma coisa de tanto lucidar”. 


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POR EM 07/06/2010 ÀS 07:48 PM

Mediocridade e caráter

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O homem comum é sem caráter porque é medíocre, ou o é medíocre por que não tem caráter? A rigor, não existe, neste termo, o malsinado “mau caráter”, que vive a empestear a atmosfera mental e emocional das pessoas normais, nas favelas, condomínios de luxo, de campos e cidades. O que existe é a criatura de caráter deformado.

A diferença entre o homem de gênio e o homem medíocre é de caráter. O primeiro o tem bem formado, e o segundo também o possui, mas deformado. Pelo ambiente, pela sagrada família, ou por si próprio. Uma pergunta não quer calar em mim: o destino de uma pessoa é construído por seu caráter, ou é seu bom ou mau caráter o autor de seu destino?

Assim como for o caráter, assim será o destino. O segundo é consequência do primeiro.   Assim como existe a vocação do gênio, também há a vocação para a mediocridade. Para realizar a primeira é preciso talento, trabalho e vontade. Para sucumbir à segunda, basta sucumbir à inércia, e à lei da gravidade.

Em todos os segmentos da sociedade, e talvez principalmente no cenário onde pontificam escritores, professores pós-graduados, artistas e os deploráveis pseudos destes nichos, abundam casos de mediocridades que alcançaram a consagração dos prêmios, e o reconhecimento tanto de seus pares quanto das praças associadas.


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POR EM 27/05/2010 ÀS 04:59 PM

Delírios da mente

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São muitas as vozes a ecoar interminavelmente em nossa mente. Pensamentos replicados, distorcidos, agarrados no rabo uns dos outros (em média 60 mil pensamentos por minuto – isto nas pessoas ditas normais. Nos obsessivos, neuróticos e compulsivos, é muito mais). Na grande maioria, são vozes dementes, frutos de um pensamentar sem freio e sem consciência, como se fôssemos máquinas extraviadas da sanidade. É como escreveu o professor-poeta José Fernandes: “Se o cérebro estivesse no calcanhar, homem algum correria o risco de pegar frieira, mas a cabeça andaria de chinelos”. 

O ideal de vida seria escapar à rota de destruição da natureza, da saúde física e mental, consequências da inversão de consciência que transformou o Homo Sapiens em Homo Demens. Escapar do absurdo na jornada da lucidez, como nos diz um poema magistral de Cecília Meirelles: “Ser sempre o outro, ser sempre o mesmo, longe e dentro de tudo”. Ou seja, permanecer na lucidez do compromisso, em constante renovação e mudança, sendo parceiro de Deus no projeto da criação. O invejoso sente-se infeliz com a felicidade do outro. Só tem contentamento, ou pérfida euforia, em detrimento do bem estar da pessoa a quem inveja. Só com sua derrota e suas perdas ele se sente bem. O bem estar do outro é a causa de seu mal estar de viver. 

 


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POR EM 24/04/2010 ÀS 11:09 AM

Crimes da boa consciência

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Joseph Stálin e Adolf Hitler

O desejo dos seres humanos para estereotipar, encarcerar e desumanizar os outros repete-se em muitas sociedades, em tempo de guerra ou de paz. Este desejo perverso, muitas vezes chega às raias da barbárie, embora seja exercido em nome da boa consciência, ou tendo como justificativa a lealdade a Deus, ou o amor à Liberdade. Adolf Hitler e Joseph Stálin foram sombrios personagens desta longa história da insanidade política a lastrear toda espécie de crimes contra a humanidade. Eles representam o trágico testemunho de que, em um mundo governado pelo medo, os que tentam escapar ao rebanho dos condenados são perseguidos, deportados, ou colocados em guetos ou são levados a morrer em campos de concentração. A paranoia vigora tanto dentro do sistema quanto fora dele, na mente de quem persegue e de quem é perseguido. Ambos são vítimas, ainda que os primeiros atuem como carrascos, representando a um só tempo os poderes legislativo, judiciário e executivo, uma vez que impõe a sua lei, julga e executa aquele que escolheu para ser o bode expiatório de sua insanidade religiosa, racial ou política. Assim, todos se transformam em prisioneiros — tanto os encarcerados quanto os seus carcereiros. Os primeiros sendo encurralados pelo seu ódio, e os últimos morrendo em vida, aprisionados pelo seu medo. Os ditadores, transformados em déspotas (esclarecidos ou não) intitulam a si mesmos de guias geniais dos povos, e faróis da humanidade. Com base no método irracional de sua loucura, determinam quem tem o direito de viver ou quem deve morrer, ser feito prisioneiro, perder todos os seus direitos civis, ser privado da cidadania e do convívio com sua família. Tudo em nome da liberdade, que não suportam, e da verdade, que ignoram. O que melhor expressa essa realidade, do que os campos de extermínio de Hitler e de Stálin? A diferença é que os crimes de lesa-humanidade de Stálin contam com a complacência e até mesmo com o apoio e a simpatia dos intelectuais de esquerda e da intelligentzia encastelada nas torres de marfim das universidades.


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POR EM 09/04/2010 ÀS 09:11 AM

Cidades da perdição

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O que será das cidades, quando tiverem de enfrentar o improviso de séculos de caos planejado? Quem viverá livre de medo, quando os demônios das drogas, em hordas de bárbaros, produzirem ondas de selvagem insanidade? Então teremos saudades do tempo em que tínhamos medo de trombadinhas. Um improviso planejado não é para qualquer presidente, governador ou prefeito: é preciso muitos deles juntos, para se conseguir tamanho descalabro fazedórico. Quanto à retórica, vai bem, obrigado, e não cansa de aprimorar sua lábia malandra, em milionários congressos partidários.

Nas cidades da perdição, todos estão seguros de estarem perdidos, até mesmo os que se dão por achados, e se acham os tais — reis da cocada preta, imunes á violência,  e aos perigos da urbe trepidante. Primeiro inventaram os corredores de ônibus, para tornar mais rápido o tráfego dos novos escravos, conduzidos, aos magotes, em levas de desesperados, pelos novos navios negreiros, a cortar sobre trilhos ou rodas os rios de aço do tráfego.  Quando foi que começaram a improvisar este caos, em politiqueiro planejamento? Para onde fugirão os urbanóides normóides, quando a tsunami da violência e da criminalidade ocupar até mesmo o espaço dos sonhos, pelo qual se devaneava poder-se ter paz e segurança na vida retirada do campo? Pois o futuro das cidades conflagradas é naufragar nos desastres da tragédia anunciada.


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