revista bula
POR EM 04/09/2012 ÀS 10:28 PM

Por que Felipe Neto é o intelectual mais influente do Brasil

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“Se sou um elitista? Sou, sempre fui e sempre serei. O julgamento da maioria está sempre errado. O único jeito de consertar a sociedade é a pau. É preciso manter a cultura, o que resta, acima da canaille”. 

(Paulo Francis)

No longínquo ano de 2008, foi publicada na edição de agosto da revista “Playboy”, estrelada pela atriz Carol Castro, uma curiosa entrevista com Paulo Coelho. A chamada de capa é intrigante: “Sou o intelectual brasileiro mais importante”. Sensacionalismo, mas nem tanto. No recheio da revista, o leitor fica conhecendo a fala completa do “Mago”: “Sem dúvida, sou o intelectual brasileiro mais importante. Mas não queria dizer isso porque pode parecer arrogância. Refaz a frase aí de uma maneira que eu não pareça arrogante”. De alguma forma, ainda que tangencialmente, Paulo Coelho, o mesmo homem capaz de afirmar que James Joyce é nocivo para literatura, demonstrou possuir alguma mínima consciência do absurdo de sua declaração.

Era e é inconcebível que ele seja sequer candidato ao título de intelectual brasileiro mais importante. Sua produção, embora composta de uma lista de best-sellers, é culturalmente desimportante. O Brasil já gerou pensadores dignos de figurar no primeiro escalão mundial, como Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Joaquim Nabuco, Mário Ferreira dos Santos, Euclides da Cunha. Também tivemos divulgadores de altíssimo nível, como o exportado Paulo Francis e o adotado Otto Maria Carpeaux. Dentre os vivos, a coroa é disputada por medalhões do porte de Antonio Candido, Ciro Flamarion Cardoso, Roberto Machado, Oscar Niemeyer e Ferreira Gullar. Autores de obras fundamentais, já integradas ao cânone.


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POR EM 13/12/2011 ÀS 10:13 PM

Chaves do inferno

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Roberto Gómez Bolaños, apelidado, num exagero quase perdoável, de “Pequeno Shakespeare”, é o criador de uma das mais sutis, brilhantes e temíveis representações do inferno em qualquer das artes: o seriado “Chaves”
 
Sartre escreveu em sua famosa peça “Entre Quatro Paredes”, de 1945, que “o inferno são os outros”. Não existe uma definição universalmente aceita sobre o conceito de in­ferno na tradição teológica oci­dental. Segundo o historiador Jean Delumeau, no livro “Entrevistas Sobre o Fim dos Tempos”, o catolicismo tradicional, apoiando-se em Santo Agostinho, apregoava a “existência de um lugar de sofrimento eterno para aqueles que tiverem praticado um mal considerável nessa vida e dele jamais se tenha arrependido”. Essa noção, um tanto incongruente com a imagem de um Deus misericordioso, não prosperou fora do imaginário po­pular, sendo substituída pela so­lução do Purgatório, desenvolvida no século II, sobretudo, por Orígenas. Nin­guém mais estaria condenado para sempre, embora, excetuando-se os santos, todos tivessem que passar por um período variável de purificação, com a garantia da salvação ao final. Santo Irineu discordava. Para ele, “os pecadores confirmados, obstinados, se apartaram de Deus, também se apartaram da vida”. Portanto, após o julgamento final, os condenados seriam simplesmente apagados da existência. A polêmica continuou pelos séculos dos séculos, com novos debatedores: Tomás de Aquino, Lutero, Joaquim de Fiore. Na literatura, Dante e Milton criaram visões poderosas do inferno. O trio de condenados de Sartre, os cenobitas sadosmasoquistas de Clive Barker e os pecadores amaldiçoados de Roberto Bolaños são recriações contemporâneas perturbadoras. Sim, Roberto Bolaños. Não, não se trata do falecido ficcionista chileno Roberto Bolaño (1953–2003), autor do calhamaço “2666”. O Bolaños com S é um artista infinitamente superior. Refiro-me ao ator, escritor e diretor mexicano Roberto Gómez Bolaños, apelidado, num exagero quase perdoável, de Chespirito, ou “Pequeno Shakespeare” à mexicana. Ele é o criador de uma das mais sutis, brilhantes e temíveis representações do inferno em qualquer das artes: o seriado “Chaves”. Se, conforme ensinou Baudelaire, “a maior artimanha do demônio é convencer-nos de que ele não existe”, podemos concluir que esse mesmo demônio não iria apresentar seus domínios por meio de estereótipos: escuridão, chamas, tridentes, lava. Em “Chaves”, verdadeiramente, “o inferno são os outros”.
 

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POR EM 19/09/2011 ÀS 12:14 PM

Chamem-me de gênio, por favor!

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Um diretor que luta desesperadamente para ser reconhecido como gênio, optando pelo escorregadio caminho do hermetismo

Terrence Malick

Terrence Malick, diretor do recém-lançado “A Árvore da Vida”, não frequenta festas. Essa atitude pode dizer muito sobre uma pessoa e, talvez, muito mais sobre um artista. Pauline Kael, decana da crítica cinematográfica norte-americana, desconfiava daqueles que chamam cinema de arte porque sua vasta experiência na indústria lhe mostrou que “escritores ficam em casa e trabalham; diretores de cinema vão em festas”. Portanto, se Malick não frequenta festas, nem colunas sociais, nem se deixa fotografar, nada mais natural que concluir que essa atitude reservada, quase monástica no ato de retirar-se do mundo, seria um indicativo de que ele é um raro cineasta sério, e, por conseguinte, um artista na acepção da palavra. Literalmente, um gênio.

Não se trata de nada novo. O escritor J. D. Salinger, autor do lendário romance “O Apanhador no Campo de Centeio”, é o mestre maior da fuga. Marlon Brando passou décadas recluso, superalimentando o corpo e a lenda. Howard Hughes glamorizou sua insanidade ao isolar-se em uma cobertura de Las Vegas. A esfinge nórdica Greta Garbo pediu para ser esquecida. No Brasil, o ex-presidente João Figueiredo imitou Garbo. O vampiro curitibano Dalton Trevisan e o mestre do crime Ruben Fonseca também especializaram-se em cultivar o anonimato. De todos os auto exilados no palácio da fama, o modelo de Malick parece ser Stanley Kubrick. Poucas aparições, poucos filmes, muito mistério.

O crítico de cinema ganhador do Pulitzer, Roger Ebert escreveu que “como ‘Cinzas do Paraíso’ deixou tão boa impressão, o fato do desaparecimento do diretor se tornou um mito de proporções ‘salingerianas’”. Porém, para muitos, diferente de Salinger, Brando & companhia, a reclusão de Malick é planejada demais, encenada demais, alardeada demais. Sua fuga dos holofotes seria uma muito bem pensada estratégia de marketing pessoal para transformar um diretor de inegável talento em gênio. 


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POR EM 09/04/2011 ÀS 01:46 PM

O erro de Stanley Kubrick

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"De Olhos Bem Fechados" poderia ser considerado um bom filme, se não tivesse sido dirigido por um mestre. Sendo o filme-testamento de Stanley Kubrick, é decepcionante

Stanley Kubrick “De Olhos Bem Fechados” possui algumas cenas fantásticas, a música é excepcional, a direção de arte, deliberadamente grandiloquente e cafona, é interessante. Tom Cruise está irrepreensível, no que talvez seja sua melhor atuação. Diversos coadjuvantes brilham. Por tudo isso, “De Olhos Bem Fechados” poderia ser considerado apenas um bom ou ótimo filme, se não tivesse sido dirigido por um mestre. Sendo o filme-testamento de Stanley Kubrick, é decepcionante.

Kubrick planejava adaptar “Breve Romance de Sonho”, de Arthur Schnitzler, desde 1968, ano em que usou o nome do jornalista Jay Cocks para comprar os direitos sobre a obra. Não retomou o projeto até 1994, quando convidou o escritor Frederic Raphael para co-roteirizar o trabalho com ele. A saga do difícil relacionamento criativo da dupla foi registrada no livro “De Olhos Bem Abertos”, lançado no Brasil pela Geração Editorial, escrito por Raphael. Ao longo dos anos foram escritas dezenas de versões do texto, até o início da produção, em março de 1996. As filmagens se estenderam até junho de 1998. Segundo a versão oficial, o filme estava finalizado quando Kubrick faleceu, vítima de um ataque cardíaco enquanto dormia, em 7 de março de 1999. A produtora Warner, e Tom Cruise, garantem que não mexeram em nada. Não acredito em nenhuma das afirmações.


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POR EM 14/02/2011 ÀS 02:09 PM

Nem lixo, nem extraordinário

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Certa vez, do alto de sua sabedoria de Buda etílico, o grande Tim Maia afirmou que o Brasil é o único país do mundo onde cafetão sente ciúme, prostituta sente prazer e pobre é de direita. Piada tão sociologicamente correta quanto politicamente incorreta. Paradoxalmente, quase a totalidade de nossa elite intelectual e parte considerável da elite financeira simpatizam com a esquerda. Essa proximidade ideológica concretizou-se enquanto projeto em 2002, com a eleição de Lula, o que pode ser percebido nas reuniões de bastidores de campanha registradas no ótimo documentário “Entreatos” (2004), de João Moreira Salles. 
 
Ação e reação. Uma vez eleito, Lula passou de aposta partidária para mito vivo e líder carismático weberiano. A mesma massa que não votava em Lula por ele ter sido pobre passou a idolatrá-lo por ele ter sido pobre e se tornado presidente. Daí para o culto a personalidade foi um passo. O filme “Lula, o Filho do Brasil” (2010), de Fábio Barreto, deveria ser o principal subproduto desse culto. Porém, sem ritmo, mal escrito, mal dirigido e interpretado com insegurança, o melodrama fracassou nas bilheterias. Mesmo assim, apostando no prestígio internacional do operário-presidente, uma comissão do Ministério da Cultura resolveu indicá-lo como candidato nacional a uma vaga entre os finalistas ao Oscar de Filme Estrangeiro. Não deu certo. Se a inexplicável parceria de Lula com o insano presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad lhe tirou o Nobel da Paz, a qualidade duvidosa do filme de Barreto lhe tirou o Oscar. E quase tirou o Brasil do Oscar. 

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POR EM 30/01/2011 ÀS 12:07 PM

Tréplica: Pelé nunca pretendeu ser santo, aliás ser Senna

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PeléMeu ensaio Senna Não é Pelé produziu reações diversas. Vários leitores concordaram com meu raciocínio, outros discordaram parcialmente, muitos ficaram indignados, houve quem suscitasse a possibilidade de que Senna teria praticado conjunções carnais com membros do “sexo feminino” de minha família, um amigo próximo acusou-me de desonestidade intelectual, dois cavalheiros mais exaltados mandaram mensagens eletrônicas me ameaçando de morte etc, etc, etc. Em sua maioria, como imaginei, as reações foram passionais. Infelizmente, afinal, não há possibilidade de debate civilizado quando um dos lados está vermelho, arrancando os cabelos, rasgando as roupas e batendo contra o peito. Como diz a tradição: apelou perdeu, playboy! 
 
Porém, dentre os discordantes, houve notáveis exceções. Por exemplo: Renan do Couto e Joubert Barbosa procuraram responder meus argumentos com outros argumentos, não com xingamentos vazios. Rodrigo Duarte Oliveira escreveu que “um texto pode acrescentar muito ao leitor. Porém, o texto do senhor Ademir, apenas nos acrescenta informações sobre a sua personalidade, o seu apelo a autopromoção”. Um primor de elegância e minimalismo, quase irrespondível. Renato Pujol questionou-me educadamente, acrescentando ao final uma tirada impagável: “abraço de uma viúva passional agarrada ao seu lencinho”. Hilário!


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POR EM 05/12/2010 ÀS 12:45 PM

Senna não é Pelé

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Ayrton SennaFui assistir o recém-lançado documentário inglês “Senna”, de Asif Kapadia, temendo pelo pior. Esperava uma patriotada melodramática, acrítica e laudatória, como a média dos produtos ligados à marca. O cartaz de divulgação era temerário: abaixo do título lemos “o Brasileiro, o Herói, o Campeão”. Prognosticava um “Globo Repórter” em película. O fato de ser um longa-metragem sobre um piloto brasileiro, dirigido por um pouco experiente cineasta britânico de origem indiana, que admitiu conhecer pouco de Fórmula 1, não ajudava.
 
Para minha grata surpresa, o documentário é muito bom. A edição criativa utiliza apenas material de arquivo. Evitou-se o caminho fácil da inclusão daqueles muitas vezes anacrônicos depoimentos ao estilo “eu me lembro”. A trilha sonora, a cargo de Antonio Pinto, é um dos pontos altos da produção. Conduz brilhantemente o espectador pelas cenas, construindo climas, alternando-se de forma eloquente com o ronco dos motores. Para decepção de muitos fãs, o maestro teve o cuidado de não utilizar o “Tema da Vitória”. Foi uma boa ideia, considerando sua vulgarização pela TV. Ademais, sendo uma produção internacional, não fazia sentido incluir uma idiossincrasia conhecida apenas no Brasil.
 
O filme, sim, é apologético, mas nada exagerado. Louva seu protagonista sem endeusá-lo. Mostra um homem multifacetado, consciente do papel que desempenhava no imaginário mundial e, particularmente, brasileiro. Um atleta obstinado em alcançar a perfeição em seu esporte. Ambicioso, procurava aperfeiçoar-se sempre e quebrar recordes. Sua disciplina era espartana. Muito cuidadoso no trato com a imprensa, soube construir de forma meticulosa uma imagem pública de bom-moço, de homem de família. Sua religiosidade genuína sempre foi destacada. Ao mesmo tempo, o longa revela aspectos obscuros de sua personalidade: o quanto era orgulhoso, fanatizado e irritadiço. Não esconde que o piloto de gênio era também uma pessoal banal, desinteressada por cultura, dono de uma infindável coleção de superficiais frases de efeito, proferidas com a solenidade de quem fala verdades filosóficas definitivas. Curiosamente, essa face de homem comum falando para homens comuns aquilo que eles querem ouvir, sempre foi um dos alicerces de sua popularidade. Com habilidade, sem apelar para excessos de verborragia, deixando as imagens falar mais alto do que as palavras, Kapadia conseguiu tirar proveito desse lado “autor de autoajuda” de Senna, promovendo a identificação emocional imediata entre o espectador comum e seu protagonista. 


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POR EM 17/06/2010 ÀS 09:06 PM

Poteiro, o Velho

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Antônio PoteiroCreio que estava no início da adolescência quando vi pela primeira vez uma tela de Antônio Poteiro. Representava uma cena de festa no interior. Uma quermesse talvez. Sabia vagamente quem era o autor. Sua figura barbuda, excêntrica, meio Papai Noel, era folclórica. Lembro-me que, sendo tolo e pretensioso como quase todo adolescente, pensei algo como: “Horrível! Eu desenho melhor que ele”. Naquela ocasião não pude decodificar o sentido íntimo daqueles traços rústicos e cores fortes. Amarelo manga, vermelho sangue, verde limão maduro. A aceitação, ou compreensão, do conceito de primitivismo artístico passava longe de meu imaginário caipira de goianinho caipora, (mal) acostumado que estava com pequenos manuais de divulgação do tipo “Da Vinci por ele mesmo” ou “O pensamento vivo de Picasso”. Não tinha olhos para ver. Mas não apenas eu.

Antônio Batista de Sousa, o Poteiro, concedeu um hilário e comovente depoimento no documentário “Mudernage”, lançado no início de 2010, dirigido por Marcela Borela, onde conta como entrou no estranho mundo da arte “sofisticada”, da arte acadêmica, da arte de mercado. O filme trata da introdução da modernidade em Goiás, um Estado caracterizado pela força da tradição. Nesse sentido, devemos lembrar que o estilo primitivista só pode ser entendido como ação artística em um cenário cultural moderno, dotado de uma percepção capaz de separá-lo da simples produção artesanal. De fato, antes de estabelecer-se como artista cult, Poteiro foi um reconhecido artesão.


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POR EM 11/06/2010 ÀS 02:44 PM

1958: reis de copas

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O jornalista Milton Leite, autor do livro “As Melhores Seleções Brasileiras de Todos os Tempos” (Contexto. 223 páginas), escreveu que “a seleção que conquistou em definitivo a Taça Jules Rimet entrou para história como o melhor time já montado na história dos mundiais”. Uma opinião absolutamente crível, canônica até. É possível que os mais exaltados, resgatando a memória do comentarista esportivo Nelson Rodrigues, chamem de “óbvio ululante”. É possível, reconheço. Porém, respeitosamente, discordo. 

Em minha opinião, e não acho que seja difícil provar, a maior seleção de todos os tempos é a escrete canarinho da Copa de 1958. Os campeões de 1970 ficariam com o mais do que honroso segundo lugar, levando-se em conta que o time de 1962, vencedor no Chile, é praticamente o mesmo de quatro anos antes. Era, portanto, uma equipe já montada. 

Não tenho certeza quanto ao 3º lugar. Teoricamente, a seleção de 1982 possui todos os predicados para ocupar a posição, mas a dura verdade é que o festejado time de Telê Santana fracassou miseravelmente. O pior: fracassou duas vezes. Diferentemente de outras grandes seleções que não venceram a Copa, como a Hungria de 1954 e a Holanda de 1974, ambas derrotadas na final pela sempre combativa Alemanha, o Brasil, tanto na Espanha quanto no México, em 1986, caiu nas quartas-de-final, perdendo para seleções consideradas inferiores, respectivamente Itália (que foi campeã) e França. Nas duas ocasiões, sequer disputou a anticlimática partida pelo 3º lugar. O Brasil auto-intitulado “campeão moral” da Copa da Argentina de 1978 teve esse direito e cumpriu seu dever. A tão criticada seleção de 1974 ficou em quarto. Tanto em 1982 quanto em 1986 o Brasil amargou a 5º posição. Fracassos piores, só o 11º lugar da seleção que jogou a Copa da Inglaterra de 1966, misto de novatos inexperientes e envelhecidos veteranos do time dos sonhos de 1958, e o 9º lugar alcançado em 1990 pela turma da Era Dunga. Apesar da forma vexatória, e suspeita, como ocorreu, o vice-campeonato na França, em 1998, perdendo para a anfitriã, não foi uma posição desonrosa. A armada Brancaleone de 2006 não foi para Alemanha pensando em jogar. Sequer treinaram. Sua queda foi uma crônica de uma morte anunciada. 


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POR EM 13/03/2010 ÀS 09:39 PM

Salvem os bifes

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J. M. Coetzee O escritor sul-africano J. M. Coetzee, prêmio Nobel de Literatura de 2003, é um exímio criador de personagens. Em sua rica galeria figuram desde sua recriação de Dostoiévski, em “O Mestre de São Petersburgo”, até David Lurie, o intelectual caído em desgraça de “Desonra”. Talvez a mais célebre dentre todas seja a protagonista do romance “Elizabeth Costello”, de 2003. Mas não foi nessa obra que ocorreu sua estreia. A primeira aparição conhecida de Costello deu-se na novela “A Vida dos Animais”, de 1999.

Na verdade, “A Vida dos Animais” não é exatamente uma novela. Ou por outra, não é apenas uma novela. Trata-se da publicação conjunta de duas palestras e de quatro ensaios sobre estas palestras. Explico: quando Coetzee foi convidado a ministrar duas conferências no tradicional encontro acadêmico de Tanner Lectures, promovido pela universidade norte-americana de Princeton, optou por desenvolver uma narrativa ao invés de discorrer sobre algum problema filosófico, político ou ético, como é o mais comum nesses ciclos de debate. Inegavelmente, pouco ortodoxo. Mas o que de fato quebrou o protocolo acadêmico do encontro foi o tema escolhido pelo orador: os direitos dos animais. A surpresa motivou quatro intelectuais a produzirem comentários sobre suas reflexões acerca da saudável “descompostura” de Coetzee. Os pontos de vista são os mais diversos. Escreveram uma bióloga, uma crítica literária, uma historiadora da religião e um estudioso da zooética. A soma desses seis textos, mais a competente introdução escrita por Amy Gutman, forma o conjunto do livro. Ou seja: uma novela que já vem com parte de sua fortuna crítica acoplada. Não sei se é pós-moderno, pois nem sei se isto que chamam de pós-modernidade realmente existe, mas, sem dúvida, é original.


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