revista bula
POR EM 08/01/2013 ÀS 02:07 PM

Eça de Queiroz, moralista ou devasso?

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Não foram poucos os críticos e leitores me­nos desatentos que viram em Eça de Quei­roz (1845-1900) um misógino de mão cheia. Motivos não faltam ao longo de sua obra e mesmo em sua correspondência com amigos, especialmente com Ramalho Orti­gão (1836-1915). De fato, em muitos de seus romances e contos, são frequentes palavras pouco lisonjeiras que dirige ao sexo feminino. Sem contar que a suas heroínas quase sempre reserva um final trágico, talvez como forma de punição a quem não soubera superar ou controlar os furores do sexo.


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POR EM 14/06/2012 ÀS 12:54 PM

Ricardo Guilherme Dicke: a reparação de uma injustiça literária

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Ricardo Guilherme Dicke, que morreu em 2008, deixou uma obra respeitada por intelectuais, mas ao mesmo tempo ignorada pelas grandes editoras e, por extensão, pelo leitor

Em algum lugar, este articulista já escreveu — e repete-o agora — que, daqui a cem anos, o historiador literário que pretender traçar um inventário da melhor literatura produzida no Brasil na segunda metade do século 20 e nas primeiras décadas do século 21 não poderá se limitar a consultar as listas dos livros mais vendidos das revistas semanais nem os catálogos das grandes editoras.
Se o fizer, correrá o risco de cometer equívocos, tal como o investigador que se satisfaz ao compulsar apenas a documentação oficial de de­ter­minado período histórico — porque acaba por ficar com a visão de apenas um lado da História e exatamente o mais forte e opressivo. Afinal, boa parte da literatura de melhor qualidade vem sendo publicada no Brasil por pequenas editoras fora do eixo São Paulo-Rio de Janeiro.

Basta ver que nenhuma das casas editoriais paulistas e cariocas de hoje ocupou o vácuo deixado pela Livraria José Olympio Editora, do Rio de Janeiro, que, da década de 1940 até meados da década de 1980, cumpriu exemplarmente o papel de incentivar os jovens talentos, revelando um grande número de romancistas, contistas e poetas que hoje fazem parte da história da literatura brasileira. Uma prova do que se escreve aqui é o romance “Deus de Caim”, de Ricardo Guilherme Dicke (1936-2008), que agora sai em terceira edição pela editora Letra Sel­vagem, de Taubaté-SP, depois de ter sido publicado pela E­dinova, do Rio de Janeiro, em 1968, e pela Gráfica Sereia, de Cuiabá, em 2006. Se tivesse sido lançado à época pela José Olympio, teria seguido um percurso natural, ganhando maior divulgação na imprensa e adquirido o foro de gran­de revelação literária. A­final, em 1967, o romance con­­quistara o 4º lugar do Prê­mio Nacional Walmap, o mais importante do País à época, depois de analisado por um júri integrado por Guimarães Rosa, Jorge A­mado e Antonio Olinto.


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POR EM 19/09/2009 ÀS 08:52 AM

O pobre na literatura brasileira: o romance de 30

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Embora a década de 30 seja marcadamente a época do romance social, de cunho neonaturalista, com o aparecimento do pobre na literatura brasileira, Bueno também detectou outra vertente de que pouco se diz, a chamada tendência intimista ou psicológica, que, de certa maneira, antecipou e preparou o terreno para o aparecimento de Clarice Lispector

Nenhuma década no século XX foi tão produtiva como a de 1930 para o romance brasileiro. O leitor pode, a princípio, contestar observação tão peremptória, mas, com certeza, haverá de concordar com ela se vier a ler “Uma História do Romance de 30”, de Luís Bueno (São Paulo/Campinas; Edusp/Editora Unicamp, 2006).  Obra de mais de 700 páginas, sua extensão é justificada: ao contrário de “De Anchieta a Euclides — Breve História da Literatura Brasileira” (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1977), de José Guilherme Merquior (1941-1991), que adotou o critério da alta seletividade para compor o que pretendia constituir um panorama dos movimentos literários no País, “Uma História do Romance de 30” parte de uma leitura exaustiva de autores que apareceram na arena literária naquela década, ainda que sem muito destaque.
 
Ao agir assim, Bueno rompeu o círculo dos “principais” autores, sempre confundidos com os “melhores”, para voltar a sua atenção para escritores que nem sempre se destacaram tanto como deveriam, muitas vezes, em razão da própria incompreensão de seus contemporâneos. Além disso, não são poucos os autores que, embora de boa qualidade, mostram-se avessos a participar de confrarias  ou mesmo promover o lançamento de seus livros, enfim, fazer a chamada política literária.
 
Hoje mesmo, boa parte da literatura brasileira da melhor qualidade não está saindo pelas editoras mais conhecidas, aquelas que dispõem de esquemas para “forçar”, de uma forma ou de outra, as páginas dos grandes jornais e revistas semanais a dedicar espaço a resenhas de seus livros. Por isso, um historiador literário que, daqui a 50 anos, pretender escrever uma aprofundada história da literatura brasileira do começo do século XXI terá muitas dificuldades para rastrear e garimpar os bons romances ou livros de contos destes dias, pois cometerá grandes injustiças, se se limitar a reproduzir os conceitos que vier a  ler nas coleções dos grandes jornais do eixo Rio-São Paulo. Ou se se deixar levar pelas aparências, vasculhando catálogos apenas das grandes editoras.
 
De fato, em todas as décadas, há preciosidades que, praticamente, ficaram relegadas ao limbo da história literária, ou porque seus autores não dispunham de acesso às grandes editoras, ou porque suas obras tiveram a má sorte de sair por editoras de fundo de quintal, dessas que nunca pagam os direitos do autor — que ainda hoje não são tão raras assim. Ou porque —  o que é mais comum —  não encontraram críticos à altura que pudessem reconhecer sua importância e qualidade.

Reverter esse status quo é o verdadeiro sentido da história literária, até porque esta constitui uma atividade que não se justifica sem abundantes pesquisas de arquivo. O oposto disso é a leviana repetição de observações que críticos fizeram à época do lançamento, às vezes, levados por algum sentimento menor, pessoal, tanto para elogiar ou desqualificar determinada obra.  Por isso, é preciso coragem e muita disposição para romper o hábito de se fazer história literária a partir dos “melhores” já consagrados pela crítica porque, afinal, é muito fácil e cômodo repetir idéias já consagradas sobre os mesmos autores.
 
Foi contra isso que se levantou Luís Bueno e o fez muito bem porque, afinal, como diz, “antes de ler efetivamente é impossível saber se, para determinado trabalho de história literária, vale a pena ou não ler esta ou aquela obra que, para alguém que trabalhou em outra perspectiva, anos antes, ficou claro que não valia”.

Se fosse seguir a tendência natural, tal como Flora Süssekind em “Tal Brasil, Qual Romance” (Rio de Janeiro, Achiamé, 1984), Bueno ter-se-ia limitado a estudar aqueles que são considerados os “grandes autores” da década, como Jorge Amado (1912-2001), José Lins do Rego (1901-1957) e Graciliano Ramos (1892-1953). Mas não. Dentro dos critérios mais amplos de Bueno, desses, apenas Graciliano Ramos poderia ser incluído entre aqueles que produziram os textos mais bem acabados do período, ao lado de Cornélio Pena (1896-1958), Dyonélio Machado (1895-1985) e Cyro dos Anjos (1906-1994), aos quais o estudioso dedicou a parte final de seu livro.
 
Embora a década de 30 seja marcadamente a época do romance social, de cunho neonaturalista, com o aparecimento do pobre na literatura brasileira, Bueno também detectou outra vertente de que pouco se diz, a chamada tendência intimista ou psicológica, que, de certa maneira, antecipou e preparou o terreno para o aparecimento de Clarice Lispector (1920-1977).
 
Bueno observa que a tendência dominante é considerar o romance de 30 como um desdobramento do Modernismo de 22, uma segunda fase da literatura surgida na Semana de Arte Moderna. E acrescenta que coube ao crítico José Luiz Lafetá (1946-1996) em “1930: A Crítica e o Modernismo” (São Paulo, Duas Cidades/Editora 34, 2ªed., 2000) estabelecer o modelo que vê o romance de 30 como parte do movimento modernista.

Mas este não é um ponto-de-vista pacífico. O poeta Lêdo Ivo e outros intelectuais oriundos do Nordeste nunca concordaram com essa argumentação, vendo nisso mais um tour de force da intelectualidade paulista ou paulistana —  especialmente, professores da Universidade de São Paulo (USP), com Antonio Candido à frente —  para dar à Semana da Arte Moderna de 1922 uma importância nacional maior do que realmente teve.

Bueno também se alinha nessa frente que prefere não atribuir tanta importância ao Modernismo, lamentando ainda que Lafetá se tenha deixado levado por certo part pris, ao condenar ao limbo da história literária um autor do quilate de Octávio de Faria (1908-1980), que, por ter sido um inveterado direitista e grande teórico do fascismo no Brasil, teria sido vítima do preconceito esquerdista. Até porque o texto de Lafetá é oriundo de uma tese defendida na USP em 1973, auge das violações dos direitos humanos cometidas por energúmenos a soldo do regime militar (1964-1985), o que, provavelmente, deve ter pesado no estado de espírito do estudioso.

Um grande romance esquecido, mas exumado por Bueno, é “Salgueiro”, segundo romance de Lúcio Cardoso (1913-1968), publicado em 1935, texto denso e complexo, em que o morro carioca, hoje mais conhecido em razão de sua escola de samba, ganha contornos de protagonista.  Nesse romance, o então jovem escritor já mostrava grande talento para a construção psicológica das personagens, técnica que haveria de aprofundar em obras-primas como “A Luz no Subsolo” (1936) e “Crônica de Uma Casa Assassinada” (1959).
 
Por isso mesmo, era um autor que vendia pouco, até porque o que oferecia era uma técnica refinada, ao contrário do romance mais ligeiro de Jorge Amado, que encontrava maior apelo popular (e o popular vai aqui como força de expressão porque, levando-se em conta os altos índices de analfabetismo no Brasil da década de 1930, como ainda no de hoje, não se pode considerar nenhum escritor como de apelo popular).  

Além disso, fazia uma literatura de inspiração católica, que sempre seduziu apenas a classe média, enquanto Amado começava já a se deixar levar pelo marxismo rasteiro e mal-digerido dos teóricos do Partido Comunista, procurando idealizar a malandragem, tendência que influenciou muitas gerações de romancistas e compositores de música popular. Basta lembrar que “Capitães de Areia” (1937) já alcançou mais de 110 edições e continua a seduzir leitores, o que no Brasil é um marco.
 
Seja como for, Lúcio Cardoso é um bom exemplo do esquecimento a que foram relegados importantes romancistas da década de 30, como Abguar Bastos (1902-1995), Jorge de Lima (1893-1953), até hoje mais lembrado como poeta por conta do poema “Nega Fulô” e por “Invenção de Orfeu” (1952), e Cordeiro de Andrade (1910-1943), autor de “Cassacos” (1934), cuja vida breve o impediu de dar vôos mais altos na literatura.

Outra descoberta que o olhar crítico de Bueno soube detectar é o aparecimento da mulher como personagem do romance brasileiro, a partir de “O Quinze” (1930), de Rachel de Queiroz (1910-2003). No caso, a mulher pobre, que, a essa época, só aparecia como prostituta ou namorada em romances escritos por homens.  Aliás, Jorge Amado iria também idealizar a mulher prostituta em boa parte de seus romances. Diz Bueno que Conceição, a personagem de Rachel de Queiroz em “O Quinze”, que não queria ser namorada nem prostituta, causou espanto e acabo sendo subvalorizada por críticos como Tristão de Athayde (1893-1983).

Bueno estabelece o período de 1933 a 1936 como o auge do romance social ou proletário (e aqui o termo compreende não só o trabalhador como o lumpen, o mendigo e o marginalizado, ou seja, o pobre em geral), com o aparecimento de “Cacau”, de Jorge Amado, “Serafim Ponte Grande” (1933), de Oswald de Andrade (1890-1954), e “Os Corumbas” (1933), de Amando Fontes (1899-1967), que provocariam grandes debates. É de 1933 também o romance “Parque Industrial”, de Patrícia Galvão, Pagu (1910-1962), que traz na capa a inscrição “romance proletário”, mas que, publicado em edição particular, não teve muita repercussão.

Publicado pela Ariel, uma editora de prestígio à época, “Cacau” foi aquele que obteve maior recepção de crítica e público, até porque seria beneficiado, de maneira involuntária, pela estupidez do regime Vargas, cuja polícia proibiria a circulação do livro, o que lhe resultou em forte publicidade gratuita. Escrito sob orientação comunista, o livro trazia muitos defeitos de construção, como a falta de complexidade interior das personagens, como assinalou o crítico Fábio Lucas, mas, dentro de sua intenção doutrinária, alcançaria muito êxito, principalmente em razão de seu veio poético.

E hoje pode ser apontado como um ícone do romance social, com a entronização do pobre na literatura brasileira —  no caso específico, o trabalhador rural das plantações de cacau no Sul da Bahia, cuja situação não é muito diferente da maioria dos trabalhadores rurais do Brasil de hoje, muitos deles ainda vítimas do trabalho escravo.

É de lembrar que, a partir de 1937, o “romance proletário” começa a entrar em declínio, com o aparecimento de livros mais bem trabalhados pelo lado psicológico, como “Angústia” (1936), de Graciliano Ramos, e as estréias de Cornélio Pena e Octavio de Faria, além da cristalização de escritores como Lúcio Cardoso e José Geraldo Vieira (1897-1977). 

  


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POR EM 29/08/2009 ÀS 12:16 PM

Retrato de Machado de Assis quando jovem

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Jean-Michel Massa estudou profundamente, em viagens seguidas ao Brasil, jornais e revistas que publicaram colaborações da época dos anos verdes do escritor brasileiro, além de exumar autores secundários — hoje, praticamente, esquecidos — para recompor a paisagem literária do Rio de Janeiro e de São Paulo, quando o autor não tinha ainda adquirido grande notoriedade nos meios cultos

Jean-Michel Massa

Depois de quase quatro décadas, “A Juventude de Machado de Assis (1839-1870): Ensaio de Biografia Intelectual” (La jeunesse de Machado de Assis (1839-1870: essai de biographie intellectuelle), do professor Jean-Michel Massa (1930), finalmente, ganhou uma segunda edição revista, em publicação da Editora Unesp (Universidade Estadual Paulista), de São Paulo. Que tenha sido necessário esperar tanto tempo por isso é apenas um reflexo do descaso com que as tarefas que realmente contam para a cultura brasileira são ainda tratadas num jovem país que parece condenado a nunca ter o devido respeito por seu passado.

Um descaso — para dizer o mínimo — que talvez explique por que o professor Massa não se atirou à ingente missão de escrever o que seria a segunda parte deste livro — os anos de maturidade do maior escritor brasileiro (1871-1908) que, provavelmente, resultariam em vários volumes, tal a superabundância de materiais referentes à atividade de Machado de Assis (1839-1908).

Tivesse sido este um país mais maduro nas últimas décadas, certamente, por meio de suas instituições mais veneráveis, teria encontrando uma maneira de oferecer ao professor Massa as condições e a infra-estrutura necessária para que se atirasse à aventura de desbravar em arquivos públicos e particulares coleções, não raro incompletas e fragmentadas, que possam ainda guardar rastros de um trabalho intelectual que durou mais de meio século. Como nada disso se deu, corre-se ainda o risco de que muitos desses papéis esquecidos tenham sofrido a irreparável ação corrosiva do tempo, ficando irremediavelmente perdidos.

Publicada em 1971 pela Editora Civilização Brasileira, do Rio de Janeiro, e desde então considerada um clássico dos estudos machadianos, esta obra é resultado de uma tese de doutorado que o professor Massa apresentou em 1969 à Faculdade de Letras da Universidade Rennes, de Haute Bretagne, e incluía uma segunda parte (tese complementar), que é o ensaio “Machado de Assis Tradutor,” publicado em 2008 pela Editora Crisálida, de Belo Horizonte, acrescido de um apêndice em que o pesquisador transcreveu e anotou duas traduções inéditas de Machado de Assis: “Os burgueses de Paris” e “Tributos da mocidade”. Juntamente com uma terceira peça traduzida, “Forca por forca”, esses textos formam o corpo do livro “Três Peças Francesas Ttraduzidas por Machado de Assis”, lançado também em meados de 2009 também pela Crisálida.

Massa estudou profundamente, em viagens seguidas ao Brasil, jornais e revistas que publicaram colaborações da época dos anos verdes do escritor brasileiro, além de exumar autores secundários — hoje, praticamente, esquecidos — para recompor a paisagem literária do Rio de Janeiro e de São Paulo, quando o autor não tinha ainda adquirido grande notoriedade nos meios cultos.

Na primeira parte da obra, o biógrafo procura reconstituir — não sem muitas dificuldades — as árvores genealógicas do escritor, o que lhe exigiu, inclusive, viagens aos Açores para levantar a procedência do lado materno de Machado de Assis. E concluir que toda a família materna do escritor — procedente da ilha de São Miguel — era de tez tão clara quanto a dos Assis escura. “Eram pessoas simples, pobres, talvez bastante pobres mesmo, como se era pobre então nessa terra de emigração. Eram, sem dúvida, iletrados, como a maioria das pessoas do conhecimento deles”, diz.

Já o lado paterno descendia de escravos nascidos no Morro do Livramento. O pai de Machado de Assis, Francisco José, sabia ler e escrever e interessava-se por adquirir mais conhecimentos, como prova o fato de ter assinado o “Almanaque Laemmert”, em 1846-47, diz Massa. A respeito da mãe do escritor, Maria Leopoldina, o professor contesta Gondim da Fonseca (1899-1977), que teria exagerado bastante a sua cultura e influência sobre o filho, lembrando que quase todos os açorianos que emigraram para o Brasil eram analfabetos. Se serve para alguma coisa, este articulista pode acrescentar que, pelo lado materno, é descendente de açorianos da ilha de São Miguel que emigraram para o porto de Santos já no começo da segunda metade do século XIX — e todos eram analfabetos. Seus descendentes diretos seguiriam analfabetos ou semialfabetizados.

Ao reconstituir a infância de Machado de Assis, Massa contesta ainda Lúcia Miguel Pereira (1901-1959) e outros biógrafos que repetiram a sua afirmação segundo a qual o escritor teria sido gago e epiléptico. “Nada disso aparece por meio de nossos cotejos e pesquisas”, garante. Segundo o biógrafo, Machado de Assis, que ficou órfão aos 10 anos, viveu até então numa chácara do Morro do Livramento em meio a agregados de uma família de proprietários, como era comum na sociedade patriarcal. “Não sofreu fome, e foi querido durante os primeiros anos por uma madrinha idosa”, diz Massa, para quem o escritor recebeu da sociedade patriarcal “mais benefícios do que motivos de amargura”.

Massa destaca a importância de Francisco Gonçalves Braga (1836-1860), nascido em Braga, Norte de Portugal, e chegado ao Rio de Janeiro em 1854. Foi quem dirigiu os primeiros passos da carreira literária de Machado de Assis, levando-o a publicar seus poemas na revista “Marmota”, de Francisco de Paula Brito (1809-1861), igualmente afrodescendente. Segundo Massa, além de Braga, outros poetas influenciaram Machado de Assis — geralmente, poetas medíocres que a história literária pouco preservou cujos textos, hoje, são difíceis de localizar porque certas revistas já não podem ser encontradas, em razão da precariedade dos acervos de nossas principais bibliotecas.

A entrada definitiva de Machado de Assis na literatura brasileira como prosador Massa localiza em 1858, com a publicação de obras que viriam a anunciar o contista, o jornalista e o crítico que ele viria a ser. Aos 18 anos e meio, publicou na Marmota o seu primeiro conto, “Três tesouros perdidos”. Meses depois, participou de uma polêmica literária pela imprensa e, antes de completar 19 anos, sempre na revista de Paula Brito, deu à luz um texto sobre questões essenciais da literatura brasileira.

Por essa época, Massa ressalta a influência que teve sobre Machado de Assis a sua fugaz amizade com Charles Ribeyrolles (1812-1860), jornalista e político francês exilado por Napoleão III, chegado ao Brasil em 1858, que registrou suas impressões do país no livro “Brésil Pittoresque”, publicado à época em fascículos. Sem contar a leitura do publicista francês Eugène Pelletan (1813-1884) e de Victor Hugo (1802-1885).

Como procurou escrever o que definiu como uma “biografia intelectual, espiritual e histórica”, Massa utilizou-se de referências precisas e preciosas que levantou em suas vastas pesquisas, como amizades próximas, a atividade política e os amores do jovem Machado de Assis, como o possível envolvimento ou apenas a admiração por uma atriz de teatro, a italiana Anneta Casaloni e, principalmente, seu casamento com a portuguesa Carolina Augusta Xavier de Novais (1835-1904), irmã de seu amigo e poeta portuense Faustino Xavier de Novais (1820-1869).

De ressaltar é ainda que Massa estabelece com precisão a entrada de Machado de Assis para o “Diário do Rio de Janeiro”, no início de 1860, que marca o início de sua atuação profissional como jornalista. Até então, sua colaboração nos jornais e revistas fora gratuita. Nesse jornal, a atuação do Machado jornalista seria radical, jacobina, guiado mais pelo idealismo, imagem bem diferente da que ficou do escritor quando maduro.

Até que contrariou os interesses do diretor do jornal, Joaquim Saldanha Marinho (1816-1895), e seu grupo político. Não se sabe exatamente o que se passou, mas a verdade é que, a partir do começo de 1862, o jornalista se mostra decepcionado com a política. E passa a optar por temas mais literários. É verdade que o Brasil pode ter perdido um grande político, mas, com certeza, a literatura brasileira saiu ganhando.

O ano de 1864 marca a estréia formal de Machado de Assis como escritor com a publicação pelo editor B.L.Garnier de “Crisálidas”, coletânea de poemas, já que suas obras precedentemente impressas por Paula Brito e pelo “Diário do Rio de Janeiro” devem ter sido editadas graciosamente, sem contrato de direitos autorais. À falta de documentação precisa, Massa procurou estabelecer os passos do escritor por suas crônicas no “Diário”: no início de 1867, ele prefere desvincular-se do jornal para optar por um cargo de funcionário do Estado, que, por mais modesto que fosse, provavelmente, seria mais seguro do que a de redator de jornal. No funcionalismo, porém, ainda encontraria tempo para continuar a colaborar com seus contos no “Jornal das Famílias”, o que fazia desde 1863. Nessa publicação, aliás, há ainda nove contos, assinados com pseudônimos diversos, que têm sido atribuídos a Machado de Assis, mas cujo estabelecimento de autoria, segundo o pesquisador, não é pacífico.

O livro de Massa vai até 1870, época em que Machado de Assis já estava casado com Carolina desde 12 de novembro de 1869 e morando na rua dos Andradas, 119, perto do Morro do Livramento. Se tivesse recebido por parte da intelectualidade e das instituições brasileiras — fosse o Brasil um país mais maduro —, com certeza, Massa teria reconstituído a etapa final — e mais importante da atividade literária de Machado de Assis.

Na conclusão, o biógrafo adverte que os brasileiros da segunda metade do século XX deveriam lutar com rapidez contra os cupins, preservando jornais e revistas que ainda restam nos arquivos públicos e privados, embora tenha sido explícito ao garantir que já perdera a esperança de encontrar vários textos de Machado de Assis, notadamente aqueles publicados em revistas de vida efêmera nas quais costuma se exprimir a vida literária. Como já estamos ao final da primeira década do século XXI, há motivos de sobra para se suspeitar de que a advertência do professor não serviu para muita coisa. Infelizmente.

Massa, ao lado de Raymundo de Magalhães Júnior (1907-1981) e José Galante de Sousa (1913-1986), forma a tríade dos principais pesquisadores dos textos de Machado de Assis. Professor emérito de primeira classe de Línguas e Culturas Estrangeiras e Regionais da Universidade Rennes 2, organizou “Dispersos de Machado de Assis” (1965) e “Bibliographie descriptive, analytique et critique de Machado de Assis — 1957-1958” (1965), além de ter escrito numerosos artigos e ensaios sobre a obra machadiana, com destaque para “La bibliothèque de Machado de Assis” em que identifica 718 dos livros pertencentes à biblioteca do escritor carioca.

É também autor de estudos sobre Manuel Antônio de Almeida (1831-1861), José de Alencar (1829-1877) e outros autores do século XIX brasileiro, além de ter traduzido (edição bilíngüe) “A Reunião”, de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987). Em 1986, recebeu a Medalha Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras.

Com sua mulher Françoise Massa, organizou o “Dictionnaire Encyclopédique et Bilingue Portugais-Français des particularités de la langue portugaise”, do qual já saíram três volumes (vol. I: Guiné-Bissau; vol.II: São Tomé e Príncipe; e vol. III: Cabo Verde), que constituem dicionários da língua portuguesa escrita na África, já que, para Massa, o português nesses países é de escritores, jornalistas, alunos e funcionários públicos. Para o estudioso, aliás, não se pode falar em português falado na África, até porque a imensa maioria dos habitantes das nações que fazem parte da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) não falam o português. São lusógrafos e não lusofalantes, como observa Massa, criador do conceito de lusografia.

Françoise e Jean-Michel Massa são também responsáveis pela direção científica da coleção Patrimônio Lusógrafo Africano (Patrimoine Lusographe Africain), da Universidade Rennes, que publicou relatos e testemunhos de viagens, volumes difíceis de se encontrar ou esgotados, bem como alguns textos inéditos, que foram localizados durante as pesquisas realizadas para a produção do “Dictionnaire Encyclopédique et Bilingue Portugais-Français des particularités de la langue portugaise”.

A coleção foi aberta com a publicação em 2004 de um manuscrito sobre Cabo Verde (texto inédito), “Relation journalière”, relato de duas escalas em São Vicente e Santiago e do início da uma viagem ao Brasil em 1699, acrescido de outros textos sobre Cabo Verde: o de Challes (1690), Froger (1695), Duguay-Trouin (1711) e Frézie (1717). É de lembrar que René Duguay-Trouin (1673-1736) foi o comandante da segunda invasão francesa ao Rio de Janeiro em 1711.

A segunda obra da coleção é a tese de medicina do primeiro médico-caboverdiano, Júlio José Dias (1805-1873), “Essai sur la lithotritie”, apresentada à Sorbonne em 1830. O terceiro volume da série é o primeiro guia turístico e comercial de Cabo Verde e primeiro guia sobre a África (1851). É uma edição em três línguas feita a partir da versão original redigida em inglês por John Rendall (1795-1854), cônsul inglês, com informações sobre a vida cotidiana, as potencialidades dos lugares, a navegação, os preços, questões sanitárias do arquipélago, que eram destinadas especialmente aos negociantes. Os dois livros também saíram à luz em 2004.
 


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POR EM 15/08/2009 ÀS 10:09 AM

A república de sempre: Lima Barreto e a crônica das ruas

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Lima Barreto parece que fez da escrita um refúgio que lhe servia não só para preencher o tempo ocioso como estimular a sua participação no debate público, aumentando o tom de suas críticas àqueles que se movimentavam na cena política, que pouco se diferenciavam, em seus maus costumes e práticas nefastas, dos corruptos que pululam no Brasil de hoje

Capa de "Lima Barreto: Toda Crônica" 

Quem está assustado com o nível de sentina a que chegou a politicalha nacional por estes dias não deveria deixar de ler os dois volumes de “Toda Crônica” (Rio de Janeiro: Agir, 2004), que trazem as colaborações de Lima Barreto (1881-1922) na imprensa do Rio de Janeiro de 1890 a 1922. Vai descobrir que, há um século, o cronista já via a política como “um ajuntamento de piratas mais ou menos diplomados que exploram a desgraça e a miséria dos humildes”.

Se fosse hoje, provavelmente, Lima Barreto teria substituído a condescendente maneira como se referiu aos “mais ou menos diplomados”, tal o número de semialfabetizados diplomados nas artes da esperteza e da enganação que pululam nos altos cargos da nação. Pelo menos nesse quesito para alguma coisa serviu a democracia de fancaria em que caímos.

Na crônica em que descreve a política da república de então — publicada em 19/10/1918 na  revista “A.B.C” —, o escritor, a quem não se pode chamar de monarquista, confessa ter saudade do império, embora tivesse vivido apenas os oito primeiros anos de sua vida de pobre sob aquele regime político. Dizia que pelo menos, na época do imperador, “os homens tinham elevação moral e mesmo, em alguns, havia desinteresse”.

Para quem colocasse em dúvida o que escrevia, talvez imaginando que estivesse idealizando o passado, o cronista garantia que não era mentira que a política ao tempo do império tivera alguma grandeza e beleza. “As fórmulas eram mais ou menos respeitadas”, dizia para, logo em seguida, assegurar que o que movia os políticos daqueles tempos não era a ambição do dinheiro, mas a de glória e de nome. “Tanto assim que muitos que passaram pelas maiores posições morreram pobríssimos e sua descendência só tem de fortuna o nome que recebeu”, dizia. Quem conhece hoje algum ex-ministro ou ex-deputado que esteja em má situação financeira?

Para Lima Barreto, a república, trazendo à tona dos poderes públicos a borra do Brasil, transformara completamente os nossos costumes administrativos e todos os “arrivistas” se fizeram políticos para enriquecer. “A república do Brasil é o regime da corrupção. Todas as opiniões devem, por esta ou aquela paga, ser estabelecidas pelos poderosos do dia. Ninguém admite que se divirja deles e para que não haja divergências, há a “verba secreta”, os reservados deste ou daquele ministério e os empreguinhos que os medíocres não sabem conquistar por si e com independência”, escrevia.

Se o leitor vê nessas palavras alguma semelhança com os “atos secretos” do Senado brasileiro denunciados nos últimos dias, não há, portanto, do que se espantar se há senadores e altos funcionários públicos que “esquecem” de declarar no formulário do imposto de renda residências suntuosas de milhões de reais e o fisco, ao que se saiba, nada fiscaliza, embora seja implacável com os assalariados que, por sua vez, só pagam porque, nestes tempos de informática, já não há como escapar. Ao menos, para estes coitados.

Apesar do que diz o justamente indignado Lima Barreto, esse estado de coisas não é invenção republicana — porque, ao tempo do Brasil colonial, já era “o pobre porque era pobre” que tudo pagava, como se pode ler nas “Cartas Chilenas”, de Critilo, alter ego do ouvidor e poeta Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810). E quem conhece a verdadeira história da conjuração mineira de 1789 sabe que quem arquitetou a revolta que não eclodiu foram ex-arrematantes de contratos de entradas que haviam colocado na algibeira a arrecadação dos tributos que faziam em nome da coroa, obviamente, com a conivência (bem remunerada) do capitão-general e outros graúdos do governo da capitania.

Por isso, apesar da advertência de Lima Barreto, há que se dar um pouco de desconto à idealização que ele fazia do império, mero prolongamento do regime colonial. Porque, afinal, a “comilança” de que o cronista se queixava vem de tempos imemoriais. Dizia o cronista: “Comem” os juristas, “comem” os filósofos, “comem” os médicos, “comem” os advogados, “comem” os poetas, “comem” os romancistas, “comem” os engenheiros, “comem” os jornalistas: o Brasil é uma vasta “comilança”.

Era a política da corrupção, quando não a do arrocho, constatava Lima Barreto. “Não se admite mais a independência de pensamento ou de espírito. Quando não se consegue, por dinheiro, abafa-se”, acrescentava, sem deixar de assinalar, em outra crônica, publicada em 24/6/1911 na revista  “A Estação Teatral”, que essa rapinagem não se dava apenas no campo rasteiro da política, mas também nas relações literárias que, como hoje, também passavam pelo compadrio, pelas “panelinhas”, enfim, um regime de débitos e créditos afetivos (às vezes, também pecuniários) de que o acadêmico Coelho Neto (1864-1934) seria o principal representante.

Bem situado na república das letras, o beletrista Coelho Neto, “o último dos helenos”, era tudo o que Lima Barreto odiava. Diretor do Teatro Municipal e conselheiro de editores, fazia da literatura caminho para arranjar empregos rendosos ou lugares na representação nacional para si e para seus amigos. Para piorar, Coelho Neto era ainda o grande promotor do futebol — torcedor do Fluminense e pai dos jogadores Mano e Preguinho —, esporte bretão que o cronista Lima Barreto considerava a degradação da cultura brasileira, além de difusor do racismo, já que, por aqueles tempos, só brancos entravam em campo.

Uma crônica que faz o que hoje se diria crítica da mídia é “Os nossos jornais”, publicada em 18/10/1911 na “Gazeta da Tarde”, em que Lima Barreto reclama da “indigência desoladora” que era a reportagem dos ministérios nos jornais cariocas. Queixava-se ainda do espaço exagerado que se dava às futilidades sociais que “tomam colunas e, às vezes, páginas”.

Outra coisa que não agradava ao cronista era a importância que os jornais atribuíam aos fatos policiais. “(...) não ocorre um incêndio vagabundo que não mereça as famosas três colunas — padrão de reportagem inteligente”, dizia. Para ele, os jornais desprezavam tudo o mais que formava a base da grande imprensa brasileira. “Não há as informações internacionais, não há os furos sensacionais na política, nas letras e na administração. A colaboração é uma miséria”.

Lima Barreto lamentava ainda que os donos dos jornais, embora vivessem na Europa ou levassem vida nababesca no Rio de Janeiro, não gostassem de pagar a colaboração — o que, aliás, diga-se de passagem, não mudou muito. “E, quando a pagam, fazem-no forçados por empenhos, ou obrigados pela necessidade de agradar à colônia portuguesa, em se tratando de escritores lusos”, dizia, referindo-se especificamente a “O País”, órgão ligado à burguesia portuguesa do Rio de Janeiro, que dava espaço a autores lusos. Mas a crítica estendia-se aos demais jornais, como “Correio da Manhã”, “Imprensa” e “Jornal do Commercio”.

Segundo Lima Barreto, do ponto de vista jornalístico, as folhas da tarde — “A Notícia” e a “Gazeta da Tarde” — não eram muito melhores. “Há muito que suprimir nos nossos jornais e há muito que criar”, garantia.

O segundo volume, que reúne crônicas publicadas em revistas e jornais entre 1919 e 1922, marca a etapa decisiva da breve e tumultuada vida de Lima Barreto. Foi no começo de 1919, quando tinha 37 anos, que o escritor se aposentou por invalidez da Secretaria de Guerra em consequência de uma série de internações hospitalares provocadas por alcoolismo. A essa época, porém, se não era um nome nacional, pelo menos merecia muito respeito na república das letras.

No começo de 1919, fora publicado o romance “Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá”, lançado pela “Revista do Brasil”, por iniciativa de Monteiro Lobato (1882-1948). E saía à luz de maneira profissional, sob o selo de uma editora bem conceituada. No prefácio que escreveu para o segundo volume, Beatriz Resende destaca que, a essa época, Lima Barreto passou a escrever para a revista “Careta”, recebendo salário fixo pelo trabalho, remuneração que constituiria importante complemento para seu precário equilíbrio financeiro.

Como a informação não vem abonada por nenhum documento de arquivo, é provável que não passe de mera ilação, pois, a levar-se em conta a precariedade das relações profissionais que marca a imprensa brasileira até hoje, essa remuneração deveria ser ínfima, se é que alguma vez tenha existido.

Fosse como fosse, o certo é que, sem a obrigação de comparecer à repartição pública, Lima Barreto parece que fez da escrita um refúgio que lhe servia não só para preencher o tempo ocioso como estimular a sua participação no debate público, aumentando o tom de suas críticas àqueles que se movimentavam na cena política, que pouco se diferenciavam, em seus maus costumes e práticas nefastas, dos corruptos que pululam no Brasil de hoje. Com uma diferença: comparados com os de hoje, aqueles seriam meros batedores de carteira.

Em uma dessas crônicas, “A nossa situação”, publicada na revista “A.B.C”, em 1920, ao fazer uma espécie de balanço dos 30 anos da República, o escritor condenava “a incapacidade dos dirigentes para guiar a massa da população na direção de um relativo bem-estar, a sua profunda desonestidade, os baixos ideais de sua política que, em presença de propinas e gorjetas, lucros ou quais seja em moeda, não trepidam em lançar na miséria, na mendicância, no alcouce, na taverna os seus patrícios, mesmo a atirá-los à aventura de uma guerra, quando o “pourboire”, estrangeiro em geral, é de encher os olhos”. Quer dizer: tirando um ou outro substantivo, esta seria uma frase à medida para os mandões dessa mesma República, 89 anos mais tarde, pois nunca como agora o “pourboire” — gorjeta, em francês — fez tanto sucesso.

Fazendo parte da legião de deserdados da terra brasileira, Lima Barreto não se distinguia em nada daqueles homens humildes que enchiam as ruas e os botequins do Rio de Janeiro e do Brasil, com uma diferença notável: a sua erudição, que o fazia citar autores que nem mesmo os freqüentadores das sessões da Academia Brasileira de Letras certamente haviam lido, e sua capacidade de analisar com lucidez os fatos da República dos Bruzundangas, nome-paródia que dava ao Brasil.  

Pobre, não conseguiria casar e constituir família. Solitário, embora vivesse com o pai e irmãos no subúrbio de Todos os Santos, parece que não soube como lidar com a tragédia de uma vida de dificuldades. Ao final do ano de 1921, no dia seguinte ao do Natal, deu entrada no Hospício Nacional, depois de outra recaída no vício. É desse dia a foto que lhe tiraram, de fisionomia descomposta, precocemente envelhecida, que ficou guardada nos arquivos públicos por tantos anos e que, de maneira inédita, é reproduzida no segundo volume de “Toda Crônica” de uma página do livro de registro de entrada de pacientes no Hospício Nacional.

Beatriz Resende observa ainda que, obrigado a permanecer mais tempo em casa por razões de saúde, Lima Barreto ocupara-se em organizar seus manuscritos que serviriam mais tarde para facilitar o trabalho de seu biógrafo Francisco de Assis Barbosa (1914-1991) e daqueles que cuidariam da publicação de sua obra póstuma, M. Cavalcanti Proença (1905-1966) e Antonio Houaiss (1915-1999). Pela recolha das crônicas, percebe-se o cuidado de Lima Barreto não só com a sua obra ainda inédita — ou dispersa em publicações de vida efêmera — como a correta avaliação que tinha de sua importância para a história literária do País.

 


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POR EM 18/07/2009 ÀS 08:51 AM

Drummond e a política

publicado em

Drummond sempre procurou rebater a acusação de que havia trabalhado a serviço de uma ditadura, alegando que não passara de um burocrata. Não é o que os documentos mostram, embora, no fim da vida, procurasse apagar a nódoa, atribuindo a sua participação na ditadura a vínculos afetivos            

Que o poeta Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) sempre procurou passar à posteridade a imagem de um intelectual modernista, esforçando-se para apagar o seu passado de engajamento na cena política do País, não é novidade. Mas como usava, ainda que não ostensivamente, as boas relações de que desfrutava com os poderosos especialmente nas décadas de 30 e 40, isso não havia sido bem delineado até agora. É o que faz o professor Roberto Said em “A Angústia da Ação: Poesia e Política em Drummond”, ao traçar um retrato muito mais nítido, sem retoques, do homem Carlos Drummond de Andrade do que aquele que se tinha até aqui, completando, de certa maneira, a biografia que José Maria Cançado (1952-2006) escreveu, “Os Sapatos de Orfeu” (São Paulo: Página Aberta, 1993; Editora Globo, 2006), aliás, o único estudo do gênero que temos até hoje.
 
Nesse notável estudo biográfico, Cançado já havia chamado a atenção para o oxímoro “dessemelhante absoluto”, criado pelo próprio poeta, que define a personalidade dúbia e hesitante de Drummond, que parecia não pertencer a nada, mas que, por isso mesmo, mostrava-se “condenado a participar de tudo”. Com base nisso, Said procura desenvolver a ideia borgeana do duplo: assim o poeta e o funcionário público Drummond constituiriam uma dupla personalidade, embora a mão que escrevia um arrojado poema modernista fosse a mesma que preparava discursos para políticos conservadores que de modernos só tinham aquilo mesmo: o discurso. 
 
Para o leitor que desconhece a biografia de Drummond, é preciso que se diga que, mesmo em linhas gerais, o que foi a adesão do poeta ao grupo político que chegou ao poder com o golpe civil-militar de 1930, que, até hoje, alguns historiadores distraídos ainda chamam de Revolução de 30. Antes disso, porém, é preciso dizer que esse golpe nada teve de modernizante no sentido de que tenha representado uma revolução para um Brasil arcaico. Pelo contrário. Não passou de rearrumação entre elites carcomidas, pois não há nenhuma prova de que algumas das conquistas trabalhistas que viriam com a Era Vargas não teriam se dado se a velha política do café-com-leite tivesse permanecido no poder por mais uma ou duas décadas.
 
Quem já leu as crônicas de Lima Barreto (“Toda Crônica”, v. I (1890-1919), v.II (1919-1922. Rio de Janeiro: Agir, 2004) sabe como eram odiados os cafeicultores paulistas que mandaram e desmandaram durante a República Velha (1889-1930). Lá se vê, por exemplo, um cronista indignado com os “assaltos” que as elites paulistas faziam às burras do erário nacional, a pretexto de levantar subsídios e empréstimos a juros maternais, que quase sempre não pagavam, embora o café fosse considerado a grande riqueza nacional. Que riqueza era essa que necessitava de tanta subvenção?, questionava o cronista, revoltado.
 
O pretexto para o golpe foi que as eleições de 1930 teriam sido fraudadas, com a escolha do paulista Júlio Prestes (1882-1946) para suceder a Washington Luís (1869-1957). Mas o governo também fazia a mesma acusação aos oposicionistas da Aliança Liberal. E ambos os lados tinham razão. Quem podia fraudava: a contagem dos votos dependia da vontade política do manda-chuva de cada Estado ou região. Depois, em 1932, os oligarcas de São Paulo tentaram dar o contragolpe, a pretexto de defender a reforma eleitoral e a convocação de uma Assembléia Constituinte. Que 77 anos depois o governo de São Paulo ainda convoque a população para comemorar essa derrota é coisa que causa espanto e que só se explica pela necessidade que as elites têm de fabricar heróis.
 
Mesmo assim, este articulista, particularmente, acredita que, fosse como fosse, o Brasil teria tido um futuro um pouco melhor se a oligarquia paulista tivesse continuado à frente do País. Pelo menos era uma gente, ao menos em público, mais refinada e preocupada em construir um regime democrático, ainda que fosse a democracia dos que vivem no andar de cima.
 
Sem dúvida, a facção que afastou temporariamente a oligarquia paulista do poder político — mas não do poder econômico — era mais atrasada, de concepções arcaicas. Com Getúlio Vargas (1882-1954), um fazendeiro da fronteira sulina que havia sido ministro da Fazenda do governo deposto, acostumado a cometer toda a sorte de arbitrariedades, foi o Brasil profundo que se instalou no Palácio do Catete e nas demais instâncias do poder, com tudo o que isso representava: mandonismo, ditadura, perseguições, tortura dos adversários políticos.
 
Mas que isto não sirva para dourar os brasões das elites paulistas: o que unia as facções oligárquicas em luta era a avidez por propinas, lucros exorbitantes e favores do Estado, sem que se incomodassem com o fato de que essa política levava à mendicância as classes subalternas ou as atirava à aventura de uma guerra civil, se isso fosse necessário para defender seus privilégios. Tal como hoje, para essas elites, o poder sempre representou um butim a ser dividido.
 
E foi a uma dessas facções que Drummond colocou a serviço a sua pena, ajudando-a a alcançar e exercitar o poder, preparando-lhe um discurso modernizante. Estes são os fatos, ainda que os intelectuais procurem explicações mais rebuscadas para o ato. Não foi, portanto, um papel de que alguém, no fim da vida, pudesse se orgulhar. Talvez isso explique por que Drummond sempre procurou escamotear o passado, como se quisesse reescrevê-lo ou torná-lo menos importante. Mas que não foi politicamente discreto esse papel, não foi, ainda que o poeta tivesse uma personalidade tímida.
  
 
Como se sabe, Drummond era amigo de adolescência de Gustavo Capanema (1900-1985), a quem conheceu em 1916 no colégio. Foi Capanema quem o levou para o funcionalismo público em 1930 e para o Ministério da Educação e Saúde em 1934. Durante anos, Drummond foi chefe de gabinete do ministro Capanema, atuando muito mais na sombra como faz todo aquele que ocupa esse cargo.
 
Said lembra que Drummond sempre procurou rebater a acusação de que havia trabalhado a serviço de uma ditadura, alegando que não passara de um burocrata. Não é o que os documentos mostram, embora, no fim da vida, procurasse apagar a nódoa, atribuindo a sua participação na ditadura mais aos vínculos afetivos que o ligavam a Capanema.
 
Um exercício de dialética porque o poeta não seria um homem tão tolo assim que não soubesse o que faziam nos porões do governo a que servia. Até porque ninguém chega a um alto cargo estatal, se não se render às exigências do poder.
 
A importância da obra de Said está em mostrar que as “fissuras vividas” por Drummond não são externas ao seu texto poético, “mas, ao contrário, condições de possibilidade para a sua realização”. De fato, não existia até aqui uma obra que tivesse investigado tão a fundo os envolvimentos do poeta com a política, atividade que começou ainda em Belo Horizonte na década de 1920, quando foi redator-chefe do “Diário de Minas”, órgão conservador, que deixou em 1929 para dirigir a campanha da Aliança Liberal no “Minas Gerais”, jornal oficial do Estado.
 
Vitorioso o movimento golpista, Drummond tornou-se o assessor mais importante do interventor Gustavo Capanema, até que, em 1934, com a ascensão do amigo a ministro, transferiu-se para o Rio de Janeiro. Como observa Said, no centro político e cultural da Nação, o poeta iniciou uma decisiva etapa em sua vida, consolidando sua carreira no funcionalismo, além de ocupar espaço nos principais jornais da capital da República, especialmente nos Diários Associados, de Assis Chateaubriand (1892-1968), que, por influência do todo-poderoso Capanema, pagavam-lhe pela sua colaboração.
 
No Ministério da Educação, Drummond permaneceria até 1945, ano em que assumiu, por influência política, obviamente, a Diretoria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Sphan), órgão pelo qual se aposentou.  É de lembrar que, ao final da Segunda Guerra Mundial, Drummond demitiu-se do cargo, afastando-se do governo Vargas, mas sem romper com o amigo Capanema. Foi por essa época, quando havia fortes pressões em favor da redemocratização do País, que teve uma breve e tumultuada passagem pelo jornal “A Tribuna”, do Rio de Janeiro, órgão do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Como provavelmente logo concluiu que aquilo não iria levar a nada, a não ser a complicações em sua vida pessoal, retornou ao funcionalismo público, ao mesmo Sphan.  
 
Resultado de pesquisa desenvolvida junto à correspondência de Drummond no acervo da Fundação Casa de Rui Barbosa, do Rio de Janeiro, este trabalho acadêmico revela também o extenso papel político exercido pelo funcionário público, estabelecendo sua participação em favores do Estado a boa parcela de escritores e críticos do Modernismo, desde pedidos de emprego até interferência direta em projetos ou questões mais complexas, como a construção do edifício do Ministério da Educação, a cargo de Oscar Niemeyer (1907) e Lúcio Costa (1902-1998), ou na feitura dos painéis internos do mesmo prédio, entregues a Candido Portinari (1903-1962).
 
Diz Said que, ao longo dos anos de 1930 e 1940, período das cartas pesquisadas, Drummond aparece não só como o poeta de maior prestígio na literatura brasileira, “mas sobretudo como um intelectual influente, que, ao se valer de seus poderes na máquina pública, traçava em torno de si complexas relações de débitos e créditos simbólicos, revertidos, direta ou indiretamente, para o próprio Estado”. E para si mesmo, acrescente-se.
 
Mesmo assim, o poeta nunca se reconheceu como um intelectual cooptado, como membro de uma “intelligentsia” nem tampouco como mediador de projetos culturais, diz Said, deixando claro que seus argumentos convenceram até um crítico do quilate de Antonio Candido (1918) que, ao lhe conferir uma posição política progressista, defendeu que a inserção nos quadros públicos estatais não implicaria necessariamente uma submissão ideológica ao regime nem tampouco uma posição política conservadora.  Para Candido, como chefe de gabinete do ministro da Educação, Drummond teria vivido a fase mais ativa de sua militância intelectual de poeta comprometido com os ideais de esquerda.
 
Said cita também Sérgio Miceli, autor de “Intelectuais e Classe Dirigente no Brasil: 1920-1945” (São Paulo: Difel, 1979) e “Intelectuais à Brasileira” (São Paulo: Companhia das Letras, 2001), que procurou desconstruir a aura de transgressão absoluta que foi conferida ao Modernismo, defendendo que o campo literário foi cooptado pelo campo político, o que incluiria, obviamente, Drummond, apesar do esforço dialético de Antonio Candido e do próprio poeta em entrevista ao jornal “O Estado de S.Paulo” à época da publicação do primeiro livro.
 
Said, porém, preferiu não se alinhar com nenhuma das duas teses, procurando, isso sim, demonstrar como a trajetória de Drummond assinala os dilemas a que estavam submetidos os escritores de sua geração. O resultado é uma imagem de Drummond um pouco diferente daquela que costuma ter quem apenas se limita ler seus poemas. Nem melhor nem pior, porém, mais humana, ao expor suas fraquezas e contradições.    
 
Graduado em História pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em 1996, Roberto Said tem mestrado (2002) e doutorado (2006) cursados no Programa de Pós-Gradução em Estudos Literários da Faculdade de Letras dessa instituição. Realizou estágio de doutorado na Universidade de Buenos Aires (2004). Concluiu recentemente pesquisa de pós-doutorado (2008) no Acervo de Escritores Mineiros (UFMG). Tem experiência na área de Letras, Comunicação e Cultura brasileira, com ênfase em Teoria da Literatura, Literatura Brasileira, História e Memória Cultural, atuando principalmente nos seguintes temas: literatura comparada, modernidade, pós-modernidade, filosofia, nação, biografia, memória cultural, arquivos e acervos literários. Organizou recentemente o livro “Margens Teóricas: Memória e Acervos Literários” (Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008).
 


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POR EM 11/07/2009 ÀS 09:05 AM

D.Maria I: louca, piedosa ou uma incógnita?

publicado em

Achincalhada por historiadores republicanos, a rainha sempre foi vista como uma fanática religiosa que teria sido levada à insânia por seus conselheiros e confessores de batina

“D. Maria I a Rainha Louca”, de Luísa Viana de Paiva Boléo

Os quinze anos em que D. Maria I (1734-1816) governou efetivamente sempre foram reduzidos pelos historiadores a um “enclave” entre o reinado de seu pai, D.José I (1750-1777), dominado pela figura marcante do seu valido, o marquês de Pombal (1699-1782), e o de D.João VI (1792-1826). Achincalhada por historiadores republicanos como J.P. de Oliveira Martins (1845-1894) e outros tantos, a rainha sempre foi vista como uma fanática religiosa que teria sido levada à insânia por seus conselheiros e confessores de batina.

A historiadora Luísa Viana de Paiva Boléo em “D. Maria I a Rainha Louca” (Lisboa: A Esfera dos Livros, 2009) não refaz totalmente essa imagem, mas também não a acentua, procurando reconstituí-la com equilíbrio, reconstruindo não só o período de sua reinação como a sua vida singular. O resultado é um retrato não só inédito desta mulher aclamada rainha a 13 de maio de 1777, aos 43 anos de idade, mas fidedigno, mais condizente com o que se sabe do período e de como se comportavam as famílias reais. Sem deixar de reafirmar o seu caráter de mulher caridosa e devota, que lhe valeu também o epíteto de Piedosa, a biógrafa mostra ainda que D.Maria foi uma mulher culta, que se preocupou em promover as artes e as ciências. E que levou a sério suas funções de governante sempre em nome dos interesses de Portugal.

De sugestão fica a hipótese que a historiadora Maria Helena Carvalho dos Santos, professora jubilada da Universidade Nova de Lisboa, avança no esclarecedor prefácio que escreveu para esta obra: a de que seria interessante fazer-se uma investigação mais apurada na documentação em busca das razões que teriam levado ao impedimento de D.Maria I, lembrando que muitas intrigas na corte ocorreram em 1792 ao tempo em que foi declarado o seu afastamento sob a alegação de uma possível insanidade mental.

Talvez tenha sido coincidência, mas é, no mínimo, curioso que a debilidade real tenha se manifestado em 1792, quando o príncipe D. João já tinha 25 anos e andava cercado por uma corte ambiciosa de poder e mudanças, como assinala Luísa Boléo. É possível que a rainha apresentasse sinais de melancolia e depressão, a uma época em que não existiam tratamentos para esse tipo de doença, mas é bastante plausível também a hipótese de que o afastamento da rainha tenha sido apressado por aqueles que viam na ascensão de um príncipe jovem a oportunidade de empolgar o poder por meio de um golpe de estado palaciano, não declarado. É de lembrar que D.João só seria declarado regente em 1799, quando a rainha tinha 65 anos, e que reinou por sete anos em seu nome.

Antes disso, a rainha, desde que assumira em substituição a seu pai em 1777, nunca se mostrara incapaz ou menos disposta aos assuntos da governação, exercendo o poder em sua plenitude. Houve, inclusive, uma tentativa de levá-la a assinar um documento que absolvia os Távoras e ela não se mostrou disposta a ir contra a decisão do próprio pai e rei. Como se sabe, os Távoras estiveram implicados no atentado a d.José I em 1758 e tiveram morte atroz. Ainda influentes na corte, os partidários dos Távoras patrocinaram um processo que visava a reabilitá-los, mas que se arrastou até 1781, sem que nunca tenha tido o desfecho que esperavam.

Por essa época, a rainha teria tido uma crise de fúria, atribuída à excessiva influência religiosa que recebia, mas tudo isso também pode ser visto por outro ângulo: se estava fora de seu juízo, por que a rainha não foi declarada louca a esse tempo? E como se pode entender que o país tenha sido governado por uma pessoa insana por tantos anos? Está claro que, por trás dessa história, haveria muitos interesses subalternos em jogo que documentos pouco analisados ou mesmo desconhecidos poderiam trazer à luz.

Não se pode esquecer que D.Maria Francisca, princesa da Beira, nascida no Paço da Ribeira, filha de D.José de Bragança e de D.Mariana Vitória de Borbón, teve uma vida atribulada: viveu a catástrofe que foi o terremoto de 1755, que destruiu Lisboa e localidades vizinhas, assistiu à execução brutal de alguns nobres acusados de conspiração, sofreu perseguições por parte do marquês de Pombal, homem de confiança de seu pai, mas teve forças para assumir o cetro e, mais importante, para afastar o ministro tão logo assumiu. Em menos de dois anos, viu morrer o marido, D.Pedro III (1717-1786), seu tio, que, segundo o testemunho de estrangeiros contemporâneos, não seria uma inteligência privilegiada, pelo contrário, e seu filho primogênito, D.José (1761-1788), causada por varíola (bexigas), a uma época em que o príncipe já estava casado e pronto para sucedê-la se tivesse herdeiro. Viu ainda a morte de sua filha e de seu genro espanhol, além da de seu confessor, frei Inácio de São Caetano.

No plano externo, acompanhou com apreensão a má sorte da família real francesa depois da Revolução de 1789 e teve de enfrentar a astúcia e a ambição dos ingleses que, a pretexto de garantir a existência do pequeno reino diante do vizinho, a poderosa Espanha, o que mais faziam era saquear o país e suas colônias, especialmente o Brasil. Tantos sobressaltos em tempos tão conturbados são considerados fatores decisivos para que perdesse a paz de espírito e a sanidade mental, mas isso é apenas uma ilação sem maiores comprovações históricas e documentais.

Obviamente, Luísa Boléo não nos responde essas dúvidas — nem esse foi o objetivo de seu trabalho —, mas nos mostra o outro lado de uma história até hoje mal contada, desde o nascimento da rainha a 17/12/1734, passando por manobras que tentaram evitar sua presença no trono — talvez porque fosse mulher, embora em Portugal não vigorasse a lei sálica —, até a sua ascensão ao poder e o exercício de um governo que, mesmo recebendo uma herança maldita, soube como assinar a paz com a Espanha, equilibrar a economia e manter a reforma do ensino laico, embora a tenham acusado de ser uma beata, sem levar em conta que a suposta fanática religiosa nunca escolheu um eclesiástico para o seu governo nem revogou a decisão de seu pai que expulsara os jesuítas do Reino e de suas colônias.

Seja como for, o que se pode concluir é que, ao seu tempo, D.Maria foi uma rainha popular, famosa por suas atitudes de benemerência. Basta ver o que disse dela o potentado santista José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838) em elogio acadêmico, a uma época em que nem imaginava que, um dia, seria figura decisiva na separação do Brasil de Portugal e passaria para a História como o patriarca da independência: “(...) quanto mais humildes e desvalidos eram os que pediam audiências, com tanto maior gosto a Rainha ouvia as suas petições e respondia aos seus queixumes”.

Ao contrário de outros historiadores, Luísa Boléo preferiu não dar nenhum palpite sobre o número de pessoas que acompanharam o príncipe regente em sua viagem ao Brasil ao final de 1807. Nem repetiu exaustivamente os mais disparatados números exibidos por outros historiadores sem apresentar nenhuma fonte de arquivo que pudesse avalizá-los, mas reconheceu que há um exagero nas estimativas que apontam para 10, 12, 15 e até 20 mil pessoas que teriam atravessado o oceano àquela época.

Como não teve a oportunidade de compulsar os documentos de arquivo, preferiu ficar com os dados de quem realmente tem estado anos a fio em arquivos brasileiros e portugueses, o arquiteto e historiador Nireu Oliveira Cavalcanti, autor de “O Rio de Janeiro Setecentista: a Vida e Construção da Cidade da Invasão Francesa Até a Chegada da Corte” (Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2004), que aponta para cerca de 500 o número de acompanhantes. Por sugestão deste articulista, Luísa Boléo conversou pessoalmente com o historiador em Lisboa, que, mesmo com margem de erro, lhe teria admitido que até 1500 pessoas, “entre fidalgos com familiares, criados de ambos os sexos e pessoal administrativo” (pág.299), poderiam ter acompanhado o príncipe.

É verdade que citou a informação do irlandês Thomas O´Neill, tenente da esquadra inglesa que acompanhou D.João e família ao Brasil, segundo a qual teriam sido 15 mil os acompanhantes, mas para contestá-la e considerá-la um tabu de 200 anos que só recentemente um historiador, de fato, ousou colocar em xeque.

Na história do Brasil, é claro, D.Maria também nunca foi bem vista, embora tenha vivido na terra brasileira nove anos, até a morte em 1816, afastada de qualquer questão de governo ou de facções palacianas, sempre bem assistida pelo filho, o príncipe regente D.João, segundo testemunhos da época. É que em 1792 a rainha assinou a sentença que condenou à forca o alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, e ao desterro outras pessoas comprometidas com a conspiração de 1789 em Minas Gerais.

É de assinalar que Tiradentes só ascendeu a mártir nacional depois da queda da monarquia em 1889, tornando-se um ícone republicano. E que à época não haveria outro desfecho para aqueles que conspiravam contra o trono. Dos papéis, o que se conclui é que havia alguns homens de dinheiro — especialmente, ex-arrematantes de contratos endividados com a Coroa — comprometidos com a conspiração, mas que o peso maior recaiu sobre o alferes que, aliás, se não era um magnata, também não era o pobretão que comumente se imagina.

Além disso, se a conjuração mineira tivesse obtido êxito — e teve todas as possibilidades de dar certo não só em razão das circunstâncias geográficas de Minas como em função da debilidade das forças do Reino para uma reação —, provavelmente, o Brasil não seria o que hoje conhecemos e, sim, um território retalhado por pequenas repúblicas como a América espanhola.

Luísa Viana de Paiva Boléo, nascida em Coimbra, é licenciada em História e tem se destacado por sua colaboração em jornais e revistas de Portugal, como “Máxima”, “Expresso”, “Público” e “Notícias Magazine” do “Diário de Notícias”. É responsável pelo site www.leme.pt que reúne pequenas biografias de muitas mulheres e alguns homens que se notabilizaram na História portuguesa e mundial.

Foi responsável pela revista da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Gênero. É sócia da Associação Portuguesa de Estudos sobre as Mulheres (Apem) e da Sociedade Portuguesa de Estudos do Século XVIII, onde colabora nas tertúlias. Dedica-se a vários estudos de história e cultura do Brasil, tendo dado na Universidade de São Paulo uma conferência sobre “Literatura de Cordial: diferenças entre Portugal e Brasil”. Em 2004, publicou “Casa Havaneza, 140 Anos à Esquina do Chiado” (Lisboa: Dom Quixote), livro evocativo dos costumes e vivências de uma casa comercial famosa e procurada por todos os turistas e de uma localidade tradicional da capital lisboeta.
 


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POR EM 22/05/2009 ÀS 07:31 PM

Ilações tiradas de um manual anti-tiranos

publicado em

A ti­ra­nia co­lo­ca ao po­e­ta e ao ju­ris­ta pro­ble­mas se­me­lhan­tes. Afi­nal, a ti­ra­nia não gos­ta da pa­la­vra e as­pi­ra à paz dos ce­mi­té­rios. Os ti­ra­nos só co­nhe­cem o ar­gu­men­to de sua for­ça e àque­les que não con­cor­dam com is­so só res­tam ade­são ser­vil e si­lên­cio 

 
Res­pon­da de­pres­sa: o que os po­e­tas e os ju­ris­tas têm mais em co­mum? An­tes que se­ja ne­ces­sá­rio ao lei­tor con­sul­tar di­ci­o­ná­rios ou tra­ta­dos de re­tó­ri­ca, eis aqui a res­pos­ta: res­pon­dem sem­pre à le­tra. Ou de­vem res­pon­der sem­pre que te­nham opor­tu­ni­da­de, em­bo­ra a res­pos­ta, às ve­zes, pos­sa cus­tar di­as de ca­la­bou­ço, tor­tu­ra ou de­sa­pa­re­ci­men­to no mar. Foi as­sim até há não pou­co tem­po, em­bo­ra ha­ja ho­je em dia quem di­ga que a di­ta­du­ra que vi­ve­mos de 1964 a 1985 te­nha si­do bran­da, tal­vez por­que não te­nham si­do os seus tes­tí­cu­los e unhas que fo­ram ar­ran­ca­dos.

A que vêm es­tas re­fle­xões? Vêm a pro­pó­si­to do “Ma­nu­al An­ti-Ti­ra­nos: Re­tó­ri­ca, Po­der e Li­te­ra­tu­ra”, que Ma­ria Lu­í­sa Ma­la­to, pro­fes­so­ra dou­to­ra as­so­cia­da do De­par­ta­men­to de Es­tu­dos Por­tu­gues­es e Es­tu­dos Ro­mâ­ni­cos da Fa­cul­da­de de Le­tras da Uni­ver­si­da­de do Por­to, aca­ba de pu­bli­car pe­la Li­vra­ria do Ad­vo­ga­do Edi­to­ra, de Por­to Ale­gre, em sua co­le­ção Di­rei­to & Ar­te. Ali se lê que, di­an­te da pa­la­vra abu­si­va, ain­da que a da lei, tan­to o po­e­ta co­mo o ju­ris­ta sem­pre pen­sam na pos­si­bi­li­da­de de res­pon­der com a pa­la­vra, ain­da que sub­ver­si­va.

Diz a au­to­ra: tan­to um co­mo ou­tro sa­bem que, le­va­da aos seus li­mi­tes, a in­ter­pre­ta­ção aca­ba por con­du­zir quer à sua ne­ga­ção quer à sua ver­da­de mais pro­fun­da. “Pa­ra am­bos, o sen­ti­do do tex­to po­de an­co­rar-se sob al­ça­da de uma lei ar­bi­trá­ria, sob uma au­to­ri­da­de du­vi­do­sa ou um po­der cor­rup­to. Ou fur­tar-se a es­sa al­ça­da pa­ra de fo­ra a con­tes­tar. Nem o po­e­ta nem o ju­ris­ta se aco­mo­dam à uni­vo­ci­da­de da nor­ma e, por is­so, am­bos in­co­mo­dam”, acres­cen­ta.

É por is­so que nos de­cep­cio­na­mos quan­do ma­gis­tra­dos não exi­bem a com­pos­tu­ra que o car­go exi­ge. E se dei­xam le­var pe­los ho­lo­fo­tes da mí­dia ou pe­la vai­da­de de um efê­me­ro car­go no po­der exe­cu­ti­vo, em vez de se re­co­lhe­rem à do­ce e anô­ni­ma apo­sen­ta­do­ria. Foi o que boa par­te da so­ci­e­da­de bra­si­lei­ra — ao me­nos aque­la que pen­sa — sen­tiu quan­do há 20 anos um su­pre­mo ju­iz elei­to­ral, após ter pre­si­di­do as pri­mei­ras elei­ções li­vres do Pa­ís de­pois da du­as dé­ca­das de re­gi­me au­to­ri­tá­rio ci­vil-mi­li­tar, dei­xou-se aba­ter pe­lo la­ço do ini­mi­go ao acei­tar um car­go de mi­nis­tro no no­vo go­ver­no. Fi­cou mar­ca­do pa­ra sem­pre.

Es­pe­cia­lis­ta no sé­cu­lo XVI­II por­tu­guês, Ma­ria Lu­í­sa Ma­la­to é au­to­ra de obras fun­da­men­tais so­bre aque­le pe­rí­o­do da his­tó­ria lu­sa, co­mo “Ma­nu­el de Fi­guei­re­do: Uma Pers­pec­ti­va do Ne­o­clas­si­cis­mo Por­tu­guês — 1745-1777” (Lis­boa: Im­pren­sa Na­ci­o­nal-Ca­sa da Mo­e­da, 1995), bi­o­gra­fia do te­a­tró­lo­go Ma­nu­el de Fi­guei­re­do (1725-1801), “Por Aca­zo Hum Vi­a­jan­te: A Vi­da e a Obra de Ca­ta­ri­na de Len­cas­tre 1ª Vis­con­des­sa de Bal­se­mão — 1749-1824” (Lis­boa: Im­pren­sa Na­ci­o­nal-Ca­sa da Mo­e­da, 2008), “His­tó­ria da Li­te­ra­tu­ra Eu­ro­peia: Uma In­tro­du­ção Aos Es­tu­dos Li­te­rá­rios” (Lis­boa: Quid Ju­ris, 2008) e da edi­ção crí­ti­ca da “Obra Li­te­rá­ria de Jo­sé Anas­tá­cio da Cu­nha (1744-1787)”, em co-au­to­ria com a pro­fes­so­ra Cris­ti­na Ale­xan­dra de Ma­ri­nho, que saiu em dois vo­lu­mes (com iné­di­tos do au­tor) pe­la edi­to­ra Cam­po das Le­tras, do Por­to (v.1, 2001; v. 2, 2006).

A pro­fes­so­ra uti­li­za seu vas­to co­nhe­ci­men­to da épo­ca pa­ra mos­trar que en­tre a Li­te­ra­tu­ra, o Di­rei­to e a Re­tó­ri­ca se po­de es­ta­be­le­cer mui­tas pon­tes e uma fá­cil cum­pli­ci­da­de de re­sis­tên­cia à au­to­ri­da­de da for­ça bru­ta, fí­si­ca e des­me­su­ra­da. No “Ma­nu­al” que pre­pa­rou ali­nham-se his­tó­ri­as exem­pla­res de com­ba­te — às ve­zes, si­len­cio­so — da li­ber­da­de con­tra a ti­ra­nia, da me­mó­ria con­tra o es­que­ci­men­to. É o que es­tá por trás, por exem­plo, da fun­da­ção de aca­de­mi­as ci­en­tí­fi­cas e li­te­rá­ri­as no sé­cu­lo XVI­II, ain­da que em tem­pos de ti­ra­nia ex­plí­ci­ta. A aca­de­mia tor­nou-se uma re­pre­sen­ta­ção da Ar­cá­dia em que os aca­dê­mi­cos fa­zi­am de con­ta que eram pas­to­res — fi­si­ca­men­te oci­o­sos e men­tal­men­te ati­vos —, exer­ci­tan­do-se na­que­la po­e­sia pri­mor­di­al que era bu­có­li­ca, diz a au­to­ra. Pa­ra ter o rei ao seu la­do — que à épo­ca do ab­so­lu­tis­mo era sem­pre um ti­ra­no —, os pas­to­res tra­ta­vam de ima­gi­ná-lo tam­bém um pas­tor ar­cá­di­co e um me­ce­nas es­cla­re­ci­do. Mais: “um mo­nar­ca ilu­mi­na­do, sá­bio em su­as de­ci­sões, enér­gi­co na de­fe­sa de seus sú­di­tos e ob­ser­va­dor de sua na­tu­ral li­ber­da­de”.

Diz a in­ves­ti­ga­do­ra que a pre­sen­ça da agri­cul­tu­ra (pro­xi­mi­da­de e re­ci­pro­ci­da­de da na­tu­re­za) na po­e­sia ar­cá­di­ca ser­ve pa­ra va­lo­ri­zar a ação po­lí­ti­ca não des­pó­ti­ca, mas que de­ri­va de uma re­ci­pro­ci­da­de en­tre rei e sú­di­tos.

Se­gun­do a au­to­ra, é im­por­tan­te pa­ra o es­pí­ri­to utó­pi­co da aca­de­mia a cren­ça na imor­ta­li­da­de da po­e­sia. A imor­ta­li­da­de é na­tu­ral­men­te a fa­ma a que to­do po­e­ta (ou li­te­ra­to) as­pi­ra, ou se­ja, a gló­ria “que fi­ca, ele­va, hon­ra e con­so­la”, de que di­zia Ma­cha­do de As­sis (1839-1908). E que tam­bém tem o no­me de pos­te­ri­da­de, que, no fun­do, é uma uto­pia. Dis­se, cer­ta vez, Bo­ca­ge (1765-1805) num po­e­ma: “(...) Pos­te­ri­da­de, és mi­nha!”. É o de­se­jo utó­pi­co de ven­cer a mor­te, o tem­po, a His­tó­ria e tu­do o que ela es­que­ce ou cor­rom­pe.

Por is­so, diz a au­to­ra, o po­e­ta tor­na-se um fi­ló­so­fo, que ob­ser­va e com­pre­en­de o mun­do com o olhar: “O Pas­tor en­con­tra-se pró­xi­mo da Na­tu­re­za e, ain­da mais do que o Agri­cul­tor (que plan­ta, co­lhe, po­da, en­xer­ta), mol­da-se pas­si­va­men­te a ela, dei­xan­do que ela si­ga o seu cur­so. Guia e pro­te­ge o re­ba­nho, mas dei­xa-o fre­qüen­te­men­te em li­ber­da­de pa­ra que a na­tu­re­za cum­pra os seus rit­mos. É sá­bio, por­que ob­ser­va e não age”.

Afir­ma Ma­ria Lu­í­sa que a ti­ra­nia co­lo­ca ao po­e­ta e ao ju­ris­ta pro­ble­mas se­me­lhan­tes. Afi­nal, a ti­ra­nia não gos­ta da pa­la­vra e as­pi­ra à paz dos ce­mi­té­rios. Os ti­ra­nos só co­nhe­cem o ar­gu­men­to de sua for­ça e àque­les que não con­cor­dam com is­so só res­tam ade­são ser­vil e si­lên­cio. Por is­so, aque­les que ser­vi­ram aos ti­ra­nos têm ver­go­nha do pa­pel que de­sem­pe­nha­ram e, mais tar­de, quan­do os ti­ra­nos já es­tão mor­tos, pro­cu­ram re­es­cre­ver a his­tó­ria. É um pou­co des­sa lu­ta que ho­je se tra­va no Bra­sil. De um la­do, os ex-co­la­bo­ra­ci­o­nis­tas e mui­tos de seus des­cen­den­tes — que usu­fru­em o que aque­les ame­a­lha­ram sa­be-se lá co­mo —; e de ou­tro, os re­ma­nes­cen­tes da lu­ta po­lí­ti­ca que, ho­je, ob­via­men­te, já não são tão ide­a­lis­tas co­mo na­que­le tem­po.

Na­da dis­so, po­rém, jus­ti­fi­ca que, ao com­pa­rar o re­gi­me mi­li­tar bra­si­lei­ro às di­ta­du­ras de Chi­le, Ar­gen­ti­na e Uru­gu­ai, con­clua-se que a ver­de-ama­re­la te­nha si­do me­nos vi­o­len­ta por­que os “de­sa­pa­re­ci­dos” fo­ram em nú­me­ro bem in­fe­ri­or. Co­mo se a ig­no­mí­nia pu­des­se se re­su­mir a uma ques­tão de es­ta­tís­ti­ca. Por es­se cri­té­rio, é pos­sí­vel ima­gi­nar que, em vez de seis mi­lhões, ti­ves­sem si­do três mi­lhões os eli­mi­na­dos pe­la in­sâ­nia hit­le­ris­ta o Ho­lo­caus­to não se­ria o Ho­lo­caus­to. E as bar­ba­ri­da­des que ve­mos, por exem­plo, nos fil­mes da épo­ca que se exi­bem no Yad Vas­hem, o Mu­seu do Ho­lo­caus­to, em Je­ru­sa­lém, co­mo tra­to­res ati­ran­do cor­pos a fos­sas, te­nham si­do in­ven­ta­dos por al­gu­ma men­te te­ne­bro­sa.

Diz a au­to­ra que a ti­ra­nia se con­fun­de mui­tas ve­zes com o amor. E te­ria si­do por is­so que não pou­cos ti­ra­nos fo­ram ama­dos e lou­va­dos por mul­ti­dões. Mas, ho­je, ain­da bem, pa­re­ce que já não há es­pa­ço pa­ra es­se ti­po de ti­ra­no ca­ri­ca­to. As ti­ra­ni­as de ho­je são mais tec­no­ló­gi­cas e me­nos ide­o­ló­gi­cas.

En­fim, es­te “Ma­nu­al An­ti-Ti­ra­nos” per­mi­te mui­tas ila­ções e nos aju­da a com­pre­en­der e des­co­brir ti­ra­nos por to­dos os la­dos, até mes­mo aque­les que car­re­ga­mos den­tro de nós mes­mos e que es­tão ape­nas à es­prei­ta pa­ra aflo­rar di­an­te da me­nor con­tra­ri­e­da­de. Apren­der a do­mar es­tes ti­ra­nos in­ter­nos, rin­do de nós pró­prios, é o me­lhor ca­mi­nho pa­ra quem as­pi­ra a vi­ver em paz com o seu se­me­lhan­te. Até por­que, co­mo nos en­si­na a au­to­ra, o mai­or pe­ri­go pa­ra os que ata­cam os ti­ra­nos é aca­bar por ser co­mo eles. Quan­tos não co­nhe­ce­mos que aca­ba­ram as­sim?


 

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POR EM 22/05/2009 ÀS 05:39 PM

Machado de Assis: tradutor ou recriador?

publicado em

Michel Massa rompe com alguns estereótipos em torno de Machado de Assis, como o de que dominava perfeitamente a língua inglesa, o alemão, o grego e o latim. Eis um livro importante não apenas para “machadianos”, mas também para todos os que se interessam pela história intelectual brasileira    

Jean-Michel Massa
Jean-Michel Massa, autor de "A juventude de Machado de Assis" e "Machado de Assis Tradutor"

Se Machado de Assis (1839-1908) é hoje, com certeza, o autor brasileiro mais discutido e analisado pela academia nacional, além de bastante estudado em universidades estrangeiras, é de lamentar que tenha sido necessário um período de quase quatro décadas para que “A Juventude de Machado de Assis (1839-1870): Ensaio de Biografia Intelectual” (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1971), de Jean-Michel Massa, recebesse uma nova edição, embora as livrarias do País estejam abarrotadas de obras sem a menor importância e de conteúdo duvidoso, o que é um indicador da pujança de nosso mercado editorial – que se equivaleria ao mercado de língua espanhola em termos econômicos –, mas também da indigência cultural à que a população, de um modo geral, está relegada.
 
Se “A Juventude de Machado de Assis” chega agora em junho de 2009 às livrarias em lançamento da Editora da Universidade Estadual Paulista (Unesp), é bom que o leitor saiba que, em 2008, a Crisálida Livraria e Editora, de Belo Horizonte, deu à estampa o ensaio “Machado de Assis Tradutor”, com tradução do editor Oséias Silas Ferraz, que constitui um complemento à tese de doutoramento que o professor Jean-Michel Massa defendeu em 1969 na Faculdade de Letras da Universidade de Poitiers, na França, e que resultou naquela monumental biografia.
 
Originalmente, essa tese complementar traz um apêndice com traduções (inéditas) de duas peças por Machado de Assis, “Os burgueses de Paris” e “Tributos da mocidade”, que, porém, não constam deste livro impresso. Ao lado de uma terceira peça traduzida, “Forca por forca”, essas duas peças, aliás, compõem “Três Peças Francesas Traduzidas por Machado de Assis”, com notas de Jean-Michel Massa, que, em lançamento da Crisálida, chega às livrarias juntamente que a segunda edição de “A juventude” (...). Feliz coincidência.
 
Organizador de “Dispersos de Machado de Assis” (1965) e de “Bibliographie Descriptive, Analytique et Critique de Machado de Assis” (1957-1958) e autor de numerosos artigos e ensaios sobre a produção machadiana, com destaque para “La bibliothèque de Machado de Assis”, em que identifica 718 obras que pertenceram ao acervo particular do escritor, Massa, 79 anos, é um grande estudioso da literatura brasileira dos séculos XIX e XX, com trabalhos sobre Manuel Antônio de Almeida (1831-1861), José de Alencar (1829-1877) e Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), do qual traduziu “Reunião” (1983).

Em parceria com sua mulher, a professora Françoise Massa, também organizou o “Dictionnaire Encyclopedique de la Langue Portugaise”, do qual já foram publicados três volumes: um sobre a Guiné-Bissau, outro sobre São Tomé e Príncipe e um terceiro sobre Cabo Verde.
      
Apesar de todo esse currículo, o que tornou o nome do professor Massa um pouco mais conhecido entre nós foi que, por meio de suas pesquisas, acabou por provar que Machado de Assis não era o autor de “Queda Que as Mulheres Têm Para os Tolos”, como a crítica brasileira, contra todas as evidências, assegurou por muito tempo e até recentemente por desconhecimento da própria obra do estudioso francês, que saiu no Brasil em 1971, mas que hoje constitui livro difícil de encontrar.
 
Aliás, Machado de Assis nunca disse que era autor de “Queda” (...), pois na primeira edição da obra no Brasil, em 1861, pela Tipografia de F.de Paula Brito, consta na capa com todas as letras que se trata de “tradução do snr. Machado de Assis”. Mesmo assim, não foram poucos os que insistiram que Machado seria o verdadeiro autor do opúsculo, embora Massa já tivesse localizado o original num antigo catálogo de obras anônimas da Biblioteca Nacional de Paris atribuído ao belga Victor Hénaux.
 
Se alguma contribuição este historiador literário pode dar a essa discussão depois de ter estudado a fundo as obras de dois poetas setecentistas, é que no século XVIII e, provavelmente, no XIX, não havia ainda a consciência ou o consenso de que a tradução deveria ser o mais fiel possível ao original. Pelo contrário, o comum é que o tradutor tomasse muitas liberdades -- que hoje não seriam admitidas -- em relação ao texto original. Muitas vezes, alterava tanto o original de um poema ou um trecho de prosa que acabava sentindo que fizera outro texto. Outras vezes, anunciava que fizera determinado poema “à imitação de (...)”. Ou seja, inspirava-se num poema que quase sempre seria francês para escrever outro em português. 
 
Manuel Maria de Barbosa du Bocage (1765-1805), por exemplo, traduziu muito do francês – entre outros, Grecourt, Piron, Dorat, Logouvé, Chenier, Bernard, Fontanel, Delille, Castel, segundo José Agostinho de Macedo (1761-1831) -- e sempre com excessiva liberdade (aos menos para os olhos de hoje). Em alguns poemas, valeu-se do recurso “à imitação de (...)”, como no caso do poema em que deixou explícito que imitara o francês Évariste de Parny (1753-1814). Já em outros poemas permanecem dúvidas quanto à autoria. É o caso de “Cartas de Olinda a Alzira (ilustradas), Trabalho de Alto Mérito Literário, Filosófico, Científico e Moral Atribuído ao Grande Poeta Bocage” (Porto, s/d) em que não há uma mínima referência a Portugal, o que leva à suspeita de que seja uma tradução.
 
Para reforçar a suspeição, há um manuscrito na Biblioteca Nacional de Lisboa (Reservados, códice 10576, fls.81-112) que carrega o extenso título “Miscelânea Curiosa ou Colecção de diversas Poesias & vários Autores: a maior parte de Bocage, ou traduções originais; algumas de J.A.da C. (José Anastácio da Cunha) e outras por autores incertos e que não conheço; e juntas por José Câncio Ferreira de Lima em Coimbra (acabado e revisto em Março de 1825)”, no qual se lê que “Cartas de Olinda a Alzira” foram traduzidas por Bocage de Voltaire (1694-1778). O problema é que, até hoje, não apareceu o original que seria de Voltaire. E, portanto, o poema continua a ser aceito como da lavra de Bocage. 
   
Não se quer dizer que tenha sido esse o caso de Machado de Assis, mas é provável que o jovem tradutor, que na época tinha 20 anos de idade, tenha tomado algumas liberdades em relação ao texto de Hénaux, o que, certamente, ainda oferecerá panos para manga porque sempre haverá um crítico disposto a mostrar que haveria muito mais do escritor brasileiro naquela tradução do que do autor francês. Em outras palavras: quando traduzia, dentro de Machado de Assis, a veia do escritor seria mais forte que a do tradutor.

Aliás, é o que Massa conclui quando diz na Introdução para “Machado de Assis tradutor”: “(...) o confronto entre o ponto de partida (o texto original) e o ponto de chegada (a versão brasileira) é precioso para conhecer o nível lingüístico do tradutor-escritor que pode se metamorfosear em escritor-tradutor”. Mais adiante, ele reforça essa tese, quando se refere à peça “Hoje avental, amanhã luva”, estudada em “A Juventude de Machado de Assis”, ao afirmar que, “apesar da referência explícita a um texto estrangeiro, a contribuição de Machado de Assis é tamanha que temos diante de nós uma obra repensada senão reescrita”. Em outras palavras: estaríamos diante de uma co-autoria, uma adaptação ou uma recriação. Mas, segundo Massa, não seria esse o caso de “Queda” (...), que “é pura e simplesmente uma tradução, e nada mais que isso”.
 
Mas quem vier a ler “Queda” (...), que é um texto de poucas páginas, na versão machadiana, com certeza, não vai deixar de constatar que ali já haveria muito do Machado de Assis escritor, assim como a “Capitu da praia da Glória já estava dentro da de Matacavalos”. O professor Mauro Rosso, por exemplo, que promete lançar neste ano pela Editora PUC-Rio/Edições Loyola “Queda Que as Mulheres Têm Para os Tolos: Machado de Assis, o Subterfúgio, o Feminino, a Transcendência Literária”, defende que a obra de Hénaux serviu de inspiração a Machado para a escrita de sua primeira peça teatral, de seu primeiro romance e, por fim, de sua obra definitiva e consagradora, explicando que todos esses textos têm por modelo essa teoria amorosa, a de que as mulheres dariam preferência aos tolos (ou aos imbecis) do que aos homens de espírito (os intelectuais).
 
Rosso, mesmo depois da afirmação de Massa, ainda sustenta ser “Queda” uma criação original de Machado “inspirada” na obra “De L´amour Des Femmes Pour Les Sots”, de Hénaux, acrescentando que, em todos os textos do Machado mais amadurecido, haveria essa ideologia da ambigüidade, pois todos abordam a questão da escolha que a mulher deve fazer entre um homem de espírito e um homem sem juízo. Aliás, o reflexo da tese da "queda pelos tolos" na obra de Machado de Assis foi analisado pela Eliane Fernanda Cunha Ferreira em sua tese de doutoramento “Para Traduzir o Século XIX: Machado de Assis”, publicada pela Academia Brasileira de Letras/Annablume Editora em 2004.
   
Diz Massa na segunda parte de “Machado de Assis tradutor” que, se nos deixarmos levar pelas aparências, o escritor conheceria, além do francês, os idiomas inglês e italiano. Mas, na verdade, as traduções que fazia eram sempre a partir do francês. Aqui também Bocage serve como contraponto. O poeta setubalense sempre traduziu do francês, mas há um anúncio da Oficina do Arco do Cego num livro de 1801 que prometia traduções de Bocage de “edições dos poetas gregos”, embora não se saiba que tenha algum dia aprendido a língua grega. Tratava-se, obviamente, de um exagero, uma irresponsabilidade editorial que seria comum no século XIX.
 
No caso de Machado de Assis, Massa diz que o tradutor tinha também conhecimentos do espanhol, além de ler em inglês, o que não significa que estivesse em condições de se lançar à tarefa de traduzir textos em inglês. E mostra como exemplo a tradução que fez de “Oliver Twist”, de Charles Dickens (1812-1870), cuja versão brasileira segue passo a passo uma tradução francesa. Desempenhando uma atividade mal remunerada – aspecto que, aliás, no Brasil de hoje, não mudou muito –, o jovem Machado, aparentemente, assumia muito trabalho e, às vezes, traduzia a vôo de pássaro – na maioria, trabalhos encomendados, como peças teatrais. É ao estudo destes textos que Massa dedica um capítulo de sua tese complementar.
 
É de lembrar que o escritor começou a traduzir em 1857, aos 18 anos de idade, e sua atividade nesse campo continuou até 1894, provavelmente uma época da sua vida em que, funcionário público bem situado na carreira, já não precisaria dessa remuneração-extra para manter o orçamento doméstico. Seja como for, as traduções ocupam um período bastante longo em sua carreira, como assinala o mestre francês. Seriam 44 traduções, segundo a “Bibliografia” de José Galante de Sousa (1913-1986), mas, de acordo com Massa, o número chegaria a 46, pois o estudioso localizou ainda uma tradução integrada a uma crônica e uma peça inédita.

Para quem quiser conhecer “Queda” (...), na versão machadiana, é de lembrar que há no mercado duas edições recentes. Uma é aquela que a Crisálida publicou em 2003, à qual o editor e seu organizador, Oséias Silas Ferraz, juntou outros textos de Machado: “O ideal do crítico” (1865), “Literatura Brasileira – instinto de nacionalidade” (1873), “Elogio da vaidade” (1878), “Teoria do medalhão” (1882) e o poema “À Carolina” (1906), que o autor dedicou a sua companheira de toda a vida. De assinalar é que o editor preferiu manter a grafia da época.

A outra é a edição da Editora da Unicamp lançada no ano passado, com estabelecimento do texto de Ana Cláudia Suriani da Silva, apresentação de Élide Valarini Oliver e introdução crítico-filológica de Ana Cláudia Suriani da Silva e Eliane Fernanda Cunha Ferreira. Nesse livro, Ana Cláudia e Eliane Fernanda mostram quem foi Hénaux, “um belga, jurista de profissão, que provavelmente atuava em Liège, dado serem todas as suas outras publicações relativas a essa cidade”. Elas levantaram que “De l´amour” teve repercussão na época de sua publicação na Bélgica, “uma vez que existem pelo menos quatro edições da obra, duas tendo sido publicadas num intervalo de apenas um ano”.
 
Qualquer que seja a escolha, imprescindível é ao leitor conhecer também “Machado de Assis tradutor”, de Jean-Michel Massa, não só para saber pormenores a respeito de sua versão da obra de Hénaux, mas principalmente para constatar como funcionava o trabalho de tradução do bruxo do Cosme Velho, sua capacidade e aptidões. Depois disso, só nos restaria fazer aqui um fecho à imitação de “Dom Casmurro’. Vamos à segunda edição de “A Juventude de Machado de Assis”.
 


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POR EM 08/05/2009 ÀS 04:11 PM

Menotti e a São Paulo dos anos 20

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Obra ajuda a resgatar do limbo um autor pouco estudado e até mal visto pela pesquisa acadêmica, talvez porque não só esteve ligado à oligarquia cafeeira, derrubada do poder pelo golpe civil-militar de 1930 a que chamam de Revolução de 30, como ainda acabou por se vincular a um grupo fascista nos anos 1930-1940

 
Brecheret, Di cavalcante, Menotti, Oswald, Hélio Selinger

Walter Benjamin (1892-1940) sempre considerou o cronista superior ao historiador clássico em sua capacidade de reter o tempo. Como diz o pensador alemão em “Magia e Técnica, Arte e Política” (São Paulo: Brasiliense, 1985, p.223), numa de suas famosas teses “Sobre o conceito de história”, seu último escrito, o cronista narra os acontecimentos, sem distinguir entre os grandes e os pequenos, levando em conta a verdade de que nada do que um dia aconteceu pode ser considerado perdido para a história.

Se, para Benjamin, na acepção histórica o cronista é o narrador da História, não se pode dizer que contemporaneamente tenha perdido essa condição, pois ainda hoje sua produção constitui um reflexo da rápida transformação e da fugacidade da vida moderna. Aliás, até o início da era cristã, fazer crônica era fazer história, um registro de acontecimentos ordenados em seqüência cronológica, como se lê em Massaud Moisés (“A Criação Literária. Prosa II”, São Paulo: Cultrix, 19ª ed., 2005, p.101).

Por isso, Ana Claudia Veiga de Castro, arquiteta e urbanista formada pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), mestre pela mesma instituição e professora de História da Cidade na Escola da Cidade, de São Paulo-SP, embora não tenha citado Benjamin nas referências bibliográficas de seu trabalho, andou bem em exumar as crônicas que Menotti del Picchia (1892-1988) publicou no “Correio Paulistano” na década de 1920 para escrever a sua tese de mestrado que acaba de virar livro: “A São Paulo de Menotti del Picchia: Arquitetura, Arte e Cidade Nas Crônicas de um Modernista” (São Paulo: Alameda Casa Editorial, 2008).

Embora ao final do século XIX e no decorrer do século XX já não tivesse a intenção de historiar, como em seus primórdios, a crônica, ainda que fugaz e transitória como o jornal e a revista que a publicam, constitui nas mãos do pesquisador um material de interesse para pensar a cidade, pois atua como uma forma de preservação do tempo e da memória, “um meio de representação temporal dos eventos passados, um registro da vida escoada”, como disse David Arrigucci Jr. em “Enigma e Comentário. Ensaios Sobre Literatura e Experiência”  (São Paulo: Companhia das Letras, 1987, p.51).

Dessa maneira, a partir das crônicas de Menotti del Picchia, Ana Claudia compõe um panorama dos diversos mundos de uma São Paulo que começa a se tornar metrópole, dentro de um trabalho multidisciplinar de pesquisa sobre o Modernismo e a modernização brasileira, que engloba arquitetura, jornalismo, arte, literatura e história. Ao mesmo tempo, ajuda a resgatar do limbo um autor pouco estudado e até mal visto pela pesquisa acadêmica, talvez porque não só esteve ligado à oligarquia cafeeira, derrubada do poder pelo golpe civil-militar de 1930 a que chamam de Revolução de 30, como ainda acabou por se vincular a um grupo fascista nos anos 1930-1940.

Como o livro se refere só de passagem a esse período, é preciso lembrar que, antes de ingressar no “Correio Paulistano”, em São Paulo, o jovem advogado Menotti del Picchia dirigiu a redação de “A Tribuna”, de Santos, de 1918 a 1919, época em que escreveu vários artigos defendendo a repressão policial às reivindicações dos trabalhadores da Companhia Docas e da Companhia City, empresa de capital canadense que movimentava o serviço de bondes na cidade. Essa repressão, aliás, era comandada pelo delegado regional Ibrahim Nobre (1890-1970), também poeta, que haveria de se destacar na história de São Paulo como um dos ícones da Revolução Constitucionalista de 1932, que exigiu do governo Vargas a devolução do estado de direito ao País. 

 Da mesma época, era o médico e poeta Martins Fontes (1884-1937) que, embora tivesse no plano político um comportamento revolucionário, de apoio às causas operárias, que contrariava os interesses de sua classe social, era na poesia um parnasiano, fiel até o fim à memória de seu amigo Olavo Bilac (1865-1918). Sua poesia seria desqualificada na “Revista Klaxon” (nº 8-9, 1922-1923) por Mario de Andrade (1893-1945), corifeu do movimento modernista, que considerou o seu livro “Arlequinada”  “uma porção de alexandrinos fragílimos”. E talvez por isso condenada ao ostracismo.

Já Menotti del Picchia, colaborador de “Klaxon” e um dos mais aguerridos combatentes na fase pré-revolucionária modernista e nos anos subseqüentes a 1922, tem até hoje o seu nome ligado ao Modernismo, embora, tal como Martins Fontes, tenha uma obra nitidamente vinculada à belle époque, naquilo que prolonga o Simbolismo e suas mutações. Nada disso, é claro, desqualifica a obra de Menotti del Picchia, que teve a sua importância, mas que hoje afigura-se como extremamente datada.

Com o cuidado próprio dos bons pesquisadores, Ana Claudia percorreu cerca de 1700 crônicas que Menotti del Picchia escreveu quase diariamente de 18 de setembro de 1919 a 24 de outubro de 1930, assinadas com o pseudônimo Helios sob a rubrica “Crônica Social”, procurando encontrar aqui e ali imagens de um momento de aceleração histórica em que a “cidade moderna” começava a aflorar, embora São Paulo seja hoje, com seu gigantismo e problemas sociais, um exemplo de tudo o que não deve ser uma cidade moderna.  Mas isto é outra discussão.

Ana Claudia lembra que o “Correio Paulistano”, porta-voz oficial do Partido Republicano Paulista, a principal força política do período, que representava os interesses dos oligarcas do café, era lido por parcela expressiva da população letrada, dividindo a preferência com “O Estado de S.Paulo”, que sobrevive até hoje. E as crônicas de Menotti del Picchia refletiam a construção de uma imagem de cidade que se queria moderna, mas que se revela “muitas vezes ambígua e contraditória”.

Na primeira parte do livro, Ana Claudia fez uma breve biografia de Menotti del Picchia, percorrendo sua trajetória, desde o nascimento em São Paulo, filho de um italiano da região da Toscana que viera para o Brasil não para trabalhar na lavoura, como tantos italianos contemporâneos, mas para atuar nas cidades como artesão especializado em construções, uma espécie de arquiteto sem diploma, construtor e mestre-de-obras. Depois de participar da construção do Teatro Municipal de São Paulo, seu pai transfere-se para o interior do Estado em busca de oportunidades de trabalho, a uma época em que os barões do café não só construíam grandes residências como algumas cidades tratavam de erguer seus teatros municipais.

Alfabetizado, o pai de Menotti assinava revistas estrangeiras, o que, com certeza, deve ter despertado a veia intelectual do filho. Vivendo parte de sua infância em cidades do interior, Menotti volta a São Paulo para cursar Direito na famosa Faculdade do Largo de São Francisco, onde se formou em 1913. Um ano antes, casara-se com uma namorada de infância, filha de uma tradicional família de Itapira, cidade de uma região enriquecida com o auge do café. Formado, voltou a Itapira para cuidar da fazenda da família da mulher, mas, em 1918, termina a sua carreira como fazendeiro, ao perder a safra de café depois de “uma chuva de pedra”. É, então, que decide ganhar a vida atuando como advogado e jornalista. Primeiro, em Santos, dirigindo “A Tribuna” e, depois, em São Paulo.

Na segunda parte, a partir das crônicas publicadas no “Correio Paulistano”, a pesquisadora recupera personagens que se tornam usuários privilegiados dos novos equipamentos e dos novos meios de transporte da cidade juntamente com outros que parecem pertencer a um mundo anterior, o do século XIX, que na visão do cronista mostram-se condenados a desaparecer.

Já a terceira parte concentra a discussão da imagem da cidade de São Paulo através de sua materialidade e arquitetura.  As crônicas escolhidas, segundo a estudiosa, ganham interesse porque resgatam uma discussão típica da época, em torno de uma “raça paulista”, do lugar de São Paulo e do lugar do imigrante. É dessa época, ressalte-se, a construção do mito do bandeirante por historiadores paulistas, que pouco tem a ver com os verdadeiros “aventureiros paulistas” que emergem dos documentos do século XVIII, a partir até mesmo da indumentária que vestiam.
 
Resgata a autora que Menotti del Picchia discutia a necessidade de São Paulo ter edificações mais condizentes com o desenvolvimento contemporâneo e, comparando a cidade com a capital da República, dizia que lhe faltavam imponentes palácios para dar ao visitante a noção da grandeza do Estado.
 
Tudo isso foi resultado de um contexto em que São Paulo procurava assumir-se não só como o Estado-líder da Federação, mas também como a região fundadora da nação brasileira. Portanto, não bastava apenas construir a cidade nova apagando os vestígios do passado, mas era preciso reconstruir um passado do ponto de vista épico, reinventando-o inclusive. Foi o que fez Menotti del Picchia, assumindo como cronista papel semelhante ao dos historiadores paulistas da época.
 
Como se depreende do livro de Ana Claudia, Menotti também se deixou influenciar pelas idéias do ucraniano Gregori Warchavchik (1896-1972), especialmente depois de visitar, em 1928, a casa que este mandara levantar na Rua Mello Alves, a que considerou “uma pequena maravilha”. Warchavchik defendia a beleza e a arquitetura de seu tempo como a beleza da máquina, da indústria e da objetividade, tendo conquistado a adesão de muitos jovens arquitetos para a nova concepção que se dizia modernista. Warchavchik dizia que não mais havia sentido em buscar no passado inspiração para a arquitetura do presente, como faziam então os tradicionalistas, mas sim pensar a nova arquitetura como um reflexo dos novos princípios e das necessidades do “espírito do tempo”, como observa a autora.
 
Com a chegada ao Brasil do arquiteto franco-suíço Le Corbusier (1887-1965) ao final década de 1920, a discussão sobre uma nova arquitetura ganha maior ênfase. E Warchavchik sai fortalecido em sua pregação. É a partir daí que surge a arquitetura modernista brasileira, de que Lucio Costa (1902-1908) e Oscar Niemayer (1907) seriam os maiores expoentes.
 
Mas a respeito de Warchavchik, chegado ao Brasil em 1923, ainda há muito a se descobrir e desmitificar, a partir de um depoimento que o arquiteto João Batista Artigas Vilanova (1915-1985) deu em 1983 à arquiteta Christina Bezerra de Mello Jucá, professora da Universidade de Brasília (UnB), considerando-o “moralmente meio suspeito”, pois não tinha “capacidade nenhuma para desenhar” e que “sempre contratava alguém para fazer as coisas para ele, mas para fazer tudo”.
 
É provável que tenha sido um grande falastrão e não mereça tudo o que se lhe é atribuído na concepção da arquitetura moderna no Brasil – e que também tenha levado não só Menotti del Picchia como muitos outros intelectuais modernistas no bico. Mas isso só um novo trabalho de pesquisa deverá mostrar.
 


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