revista bula
POR EM 06/11/2009 ÀS 09:03 PM

A roupa nova do rei

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Bastardos InglóriosFui ver “Bastardos Inglórios”, de Quentin Tarantino, com Brad Pitt, Christoph Waltz e Mélanie Laurent, e fiquei dividido. Por um lado, o filme entusiasma. Tem cenas fortes, atuações elogiáveis, referências cinematográficas, clima de tensão e explosões características de violência. Diversos personagens movem-se em planos diversos. É como se o diretor estivesse cada vez melhor no domínio de sua linguagem.

Mas, ele falsifica a história da Segunda Guerra Mundial, para dar um fim diferente a Hitler. E, no caminho desta falsificação, capricha em algumas tomadas repugnantes. Embrulha o estômago do espectador com papel de presente. O que nem sempre é agradável. Apesar de registrar a caçada de judeus pelos nazistas, felizmente nos poupa de visitas indesejáveis ao martírio dos campos de concentração. Também inverte os papéis e coloca um bando de judeus americanos, os Bastardos Inglórios, para escalpelar nazistas nas imediações de uma Paris ocupada pelos alemães.

Os requintes de crueldade são mostrados de lado a lado. Ingleses e americanos, naturalmente, são perdoados, pela vantagem de enfrentar vilões tatuados com a suástica na testa. A personagem francesa que encara militares germânicos sedutores é dona de um cinema, que servirá para Tarantino vender metáforas e prestar homenagens a artistas que incendiaram as telas, na época da película. Isto em plena fase do cinema digital. O que alimenta discussões metalinguísticas, intermináveis, em mesas de boteco e pizzaria, com chopp e tira-gosto.


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POR EM 04/07/2009 ÀS 06:59 PM

Dançando no escuro

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A invencível ironia é que todos conhecem o pôster de Michael Jackson e ninguém o conheceu na intimidade mais escondida

Michael Jackson morreu na esteira da ressurreição. O menino pobre seguiu o ABC da cartilha americana, enriqueceu e enlouqueceu. Não conciliou – como tantos outros – o prazer doado às multidões com a realização pessoal. Debitou o caro preço da fama na conta da infâmia. Submeteu-se à dissecação de seu cadáver ainda respirando. Consagrou-se como um débil rufião abilolado.

A genialidade artística não foi suficiente para um ego monstruoso. Ele sentiu a necessidade de contribuir com o anedotário do grotesco. Suas atitudes, valorizadas por moralistas de todos os quilates, merecem análise acurada de um psicólogo dos bons. Agora, é muito fácil prantear o mito. Difícil é aceitar as inconsistências do homem encolhido atrás da cortina espessa.

A encarquilhada figura paterna virá à tona para assombrar, de novo, a infância do Michael serelepe e castrado da irmandade Jackson Five. Talvez, alguns se incomodem com a figura do astro maquiado como pai que reserva um legado preocupante aos filhos, numa espiral com noção de continuidade. As mães são, curiosamente, reflexos pálidos e distantes de uma saga repleta de confusões traumáticas.

A teoria mais leviana diz que Michael Jackson não desejava crescer. Seu destino anunciado era ser Peter Pan. Ele morou, durante muito tempo, na Terra do Nunca. Não chegou a imaginar que o autêntico Peter Pan sempre foi Steven Spielberg, até quando ele brinca de adulto sério e compenetrado? O problema, ou a chave do problema, é que Steven Spielberg dá vazão ao seu lado infantil no cinema.

Por que Michael Jackson não conseguiu fazer o mesmo através da música ou dos clipes que ajudou a transformar, não em uma picotada forma de arte, mas numa imensa possibilidade de comunicação imediata com fãs do mundo inteiro? Será que alguém não sabe quem foi Michael Jackson no cantão da Malásia ou nos confins do Azerbaijão?

Será que a máquina insidiosa de propagação de imagens forjadas para o sonho multifacetado foi responsável, de alguma forma, pela tritura do arcabouço que mantinha de pé uma personalidade fragilizada? A invencível ironia é que todos conhecem o pôster de Michael Jackson e, provavelmente, ninguém o conheceu na intimidade mais escondida.

E estamos a falar de Michael Jackson com nenhuma autoridade, exceto a de preencher espaço no papel e na tela do computador sobre um fantasma que ainda rodopia e faz rodopiar na TV, cujas músicas estão, mais do que nunca, circulando o planeta como doidas. Estamos a falar sobre o que ele representa.

O negro que empalideceu. O adulto atormentado por uma fixação púbere. O artista que pariu um híbrido original de soul, funk, rock, hip hop e baladas entorpecentes, que não ultrapassou a marca de seu maior troféu, Thriller, e se reinventou como terrível matéria-prima das piores badalações da imprensa faminta por escândalos sexuais.

Ávidos momentos que soube suprir com um vasto repertório de calamidades. Negar que Michael Jackson tenha capitalizado os elementos que o perseguiam com deslumbre e nefasto rancor seria, simplesmente, incorreto. Embalado desde cedo com o vigor dos holofotes, como poderia prosseguir na ausência deles? Sua morte iluminará sua vida?

Não tenho nenhuma dúvida sobre o lançamento precoce de biografias inúteis. A máquina da popularidade não admite estancar a produção de artefatos de culto messiânico. Mas a grandeza da existência é que ela não comporta respostas definitivas. Estamos, todos, fadados a ruminar nossas pérfidas, inocentes conjecturas, com ares doutos de fajuto sabe-tudo. Melhor comentar a excelência dos discos.

Thriller é um espanto! Uma insuperável coleção de hits. Porém, Off the Wall é seu embrião subestimado. Tivesse gravado apenas essa dobradinha brilhante, Michael Jackson teria material para ser festejado como ídolo pelos séculos afora. Don´t Stop ´Til You Get Enough, enorme sucesso de Off the Wall, do tempo em que Michael Jackson ainda posava de negão, anunciava o caminho que seria desbravado a seguir.

Mas nada, na produção do artista, supera Thriller, ordenado pelo maestro Quincy Jones. Este disco é uma fábrica de impossibilidades. A começar pela faixa título, com a narração improvável do ator classe B Vincent Price. E, sobre isso, estamos conversados. Não há o que acrescentar ao tema clipe dirigido por John Landis, referência até para comercial de refrigerante.

Wanna Be Startin´ Somethin´, que expande as dicas encontradas em Don´t Stop ´Til You Get Enough, abre o disco em altíssimo astral. The Girl is Mine (improvável dueto com Paul McCartney), Beat It (com a improvável participação do guitarrista Ed Van Halen), a indefectível Billie Jean (balanço contagiante e interpretação comovente, porque livre de arroubos), Human Nature e a plácida The Lady in My Life deixam claro que não se gravam mais discos como antigamente (1982).

Digamos que apenas Baby Be Mine e P.Y.T (Pretty Young Thing) não ganharam o mundo com a intensidade das demais. Isto é o que se chama um disco cheio, que transborda. Nenhuma faixa passa batido. Feito raro! Tanto que, sim, nem Michael Jackson conseguiu superá-lo.

Com Bad, Dangerous, Invincible, os clipes ficaram cada vez mais cheios de efeitos e megalomaníacos. As canções, aparatosas, não tinham mais a célebre febre que as deixavam inesquecíveis. Salvo uma ou outra, aqui e acolá. Black or White? Unbreakable? Man in the Mirror? Os fãs de carteirinha têm preferências idiossincráticas.

Acostumamo-nos, porém, a esperar de Michael Jackson gestos meramente tresloucados, como o casamento (com pinta de armação irredutível) com Lisa Presley. A filha do rei do rock casada com o rei do pop? O delírio e a fantasia ganhavam contornos perigosamente fortes e contrastantes.

E com o imenso poder de sua imagem em ponto de mutação, não seria insensato afirmar que Michael Jackson refugiou-se num planeta insólito, de onde era chamado a comparecer a Terra pelo martelo da justiça ou pela ação dos credores. Sempre fantasiado como um príncipe de contos fantásticos e permitindo a transparência de boatos.

A ressurreição de que fala o começo deste texto refere-se aos 50 shows (um por cada ano de vida) que faria na Inglaterra, este ano, a título de uma despedida que abonasse a suposta aposentadoria. Tudo devidamente registrado em alta definição para futuros lançamentos. O que livraria a cara do astro de uma falência ultrajante.

A morte imprevista afundou o barco de muitos investidores no cais da bolsa de valores. A lotação do retorno, afinal, estava esgotada com fulminante antecedência. O Michael Jackson resgatado da apatia melancólica voltaria a luzir. Na tempestade, o lucro vem do que sobrou. Poucos discos fulgurantes, inclusive da imberbe fase black power, serão explorados à exaustão. A escalada de malogros estupendos será colocada à sombra.

O falecimento de Michael Jackson não representa o encerramento de uma era. Depois de Madonna, outra ativa perfeccionista do improvável, quem sabe a internet pulverize, de uma vez por todas, o sistema de castas amparado no vácuo das estrelas. Não será sem tempo.
 


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POR EM 02/03/2009 ÀS 06:10 PM

A encarnação do Motorhead

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Embora no papel de vira-lata, enquanto os cisnes intelectualizados eram, entre outros, Lou Reed e David Bowie, o Motorhead vestiu a armadura para combater a integração ao mercado e foi comer o pão que o diabo amassou no underground

Os shows que o Motorhead farão no Brasil, no mês de abril, confirmado no site oficial da banda inglesa, abre as portas de uma discussão que abrange, entre roqueiros, temas como fé cega e faca amolada. Fé cega entendida como idolatria, doença que leva um adulto a agir como criança. Faca amolada, como os argumentos que divergem da fé cega. Idolatria baseada no fato de que não existe Motorhead sem Lemmy Kilmister (baixo e vocal de urso).

Os clássicos do Motorhead foram gravados com Fast Eddie Clarke na guitarra e Phil Animal Taylor na bateria, de 1975 a 1982. O trio que vem ao Brasil formatou-se em 1996. Phil Campbell está com Lemmy, na guitarra, desde 1984. Mikkey Dee, na bateria, desde 1992. Campbell dividiu solos com Wurzel até 1995. Nada disso importa.

Há Sepultura sem Max Cavalera, Iron Maiden sem Bruce Dickinson, Black Sabbath sem Ozzy Osbourne e Deep Purple sem Ritchie Blackmore. Não há Motorhead sem Lemmy. Como não haveria AC/DC sem Angus Young e Nirvana sem Kurt Cobain. Não seria, portanto, exagero deixar como epitáfio para Lemmy: “aqui jaz o Motorhead”. Como poderia ser escrito no túmulo de Phil Lynott: “aqui jaz o Thin Lizzy”.

Lemmy representa o espírito incorruptível do rock. Ele foi roadie ou ajudante de palco de Jimi Hendrix e passou pelo Hawkwind antes de formar o Bastard, que virou Motorhead. Intensificou uma artimanha que deu certo em 20 discos de estúdio mais seis ao vivo. O recente “Motorizer” serve de referência para os shows no Brasil (Curitiba, dia 12, Belo Horizonte, dia 15, Recife, dia 17, e São Paulo, dia 18).

O Motorhead não muda nunca. Lemmy, sempre de preto, bigode e costeletas, menos na capa de “Overnight Sensation”, é refém de si mesmo. A incorruptibilidade o aprisiona como se fosse uma camisa de força. O herói que mostrou que é possível sobreviver sem alugar os ideais não pode, sob a condição de ser considerado um traidor, afastar-se do limite que lhe molda a vida. Lemmy, hoje, luta para conservar a fama de proscrito.

O culto à sua personalidade é um paradoxo que mantém viva a lenda e o processo de corrosão da lenda. A única saída é a aposentadoria. Lemmy gastaria os dias que lhe restam como produtor. Manteria a dignidade bebendo cerveja. Mas prefere dirigir uma das bandas mais intempestivas do mundo. Ídolo de uma legião de headbangers, na terceira idade, aos 63.

No Motorhead, o grotesco é convertido em símbolo viril. A arrogância dos manifestos bélicos, ilustrados pelo logotipo da banda (uma caveira com raiva), ganha uma aura de conversão dos valores em apelos de rebeldia. As músicas repetidas são transformadas em sinais evidentes de integridade estética. As platéias vibram com essas manifestações de adolescência tardia.

Mas a energia é canalizada para a diversão. O Motorhead não aponta caminhos, não orienta para um fim. O propósito é o escapismo. Não difere da maioria das bandas de metal pesado. As fantasias de ódio e destruição encaminham os ouvintes para a catarse coletiva. O esgotamento físico é a melhor maneira de garantir a tranqüilidade. Como num orgasmo.

Os instintos violentos são diluídos numa comunhão de intenções. Descarga de sentimentos reprimidos contra algo vago como o sistema ou alvos displicentes como bruxos, tiranos e guerreiros mitológicos. Como o desempenho do vocalista é raramente compreendido, o trovão provocado pela música introduz os cenários apocalípticos na percepção alheia.

A voz rude, áspera, apelativa e bárbara de Lemmy é o meio adequado para a condução de idéias mórbidas, emolduradas por uma instrumentação nunca menos que selvagem. A técnica é reduzida à capacidade de fazer barulho com velocidade. A isto, comumente, dá-se o nome de heavy metal.

Há, no entanto, escolas de heavy metal que privilegiam o virtuosismo. O Motorhead privilegia a transmissão direta de mensagens cruas, a partir de recursos bastante simplificados. Não à toa, ele atrai para seu centro de gravidade tanto metaleiros quanto punks. Lemmy, quem diria, aglutinava bandos que costumavam se atracar.

Os punks queriam destruir o mundo. Ao contrário dos hippies, que almejavam uma felicidade lisérgica, e dos yuppies, que reivindicavam todo hedonismo que o dinheiro pudesse comprar. A nova ordem preconizada pelos punks seria alimentada pelo caos e pelo desprezo à normalidade.

Natural que o desejo infantil fosse embalado por uma espécie de anti-música, feita por quem não sabia e não queria afinar os instrumentos. Qualquer um podia montar uma banda e gritar palavras de ordem. O rock estava, novamente, ao alcance das ruas. Fator que legitimava a guerra contra as estrelas megalomaníacas das corporações musicais.

O Motorhead se apropria desse sentimento e o amplifica, junto com as lições de riffs poderosos aprendidas com o Black Sabbath, ícone maior de batalhões que marchavam pelas vias carrancudas da existência. Depois dos hippies e antes dos yuppies, a ressaca foi cruel e desumana. Aturdido pelo fim do sonho impossível, o rock passou a ser defendido por artistas que tinham uma visão pouco esperançosa do futuro.

Embora no papel de vira-lata, enquanto os cisnes intelectualizados eram, entre outros, Lou Reed e David Bowie, o Motorhead vestiu a armadura para combater a integração ao mercado e foi comer o pão que o diabo amassou no underground.

Demorou a ser aceito como um divisor de águas. Passou muito tempo ignorado, reforçando seu time de admiradores. O Motorhead, é possível admitir depois da tempestade, foi ponta de lança de subdivisões do heavy metal que sobrecarregaram as tintas do pessimismo.

Difícil não qualificá-lo como influência determinante, precursor de radicalismos como death, black, trash e congêneres. Lemmy pontifica como alguém que perseverou e ultrapassou as dificuldades até atingir o patamar histórico de desbravador. Mesmo criticado por sua uniformidade, vulgaridade e incapacidade de reagir à mudança.

Por essas e outras, os shows no Brasil, até certo ponto, é previsível. Não se espera do Motorhead o que se espera do Radiohead, que também virá ao Brasil. O Radiohead é a antítese perfeita do Motorhead. Não vale sequer a pena compará-los, para não despertar paixões ardentes e contraditórias.

Uma das bandas mais importantes da atualidade, o Radiohead sobrepõe texturas e camadas cheias de paranóias urbanas e variações de temperamento. O Motorhead é compacto, denso e inexpugnável. Seu espetáculo segue o efeito ensurdecedor do começo ao fim. Modificar o roteiro seria decepcionar o público.

A platéia do Motorhead sabe exatamente quais são os seus desejos, o que pode esperar e o que paga para receber. Não há surpresas no show do Motorhead, como há uma infinidade de possibilidades abertas no show do Radiohead. Eis a diferença entre futuro e passado, criatividade e repetição de maneirismos.

Bandas mais refinadas, na época em que o Motorhead enfrentava a negligência, apostavam em longas performances, regadas a improvisos, como forma de hipnotizar a audiência. Complicado imaginar que tipo de improviso o Motorhead poderia oferecer à turba enlouquecida. Os Ramones tampouco improvisavam. Mas os Ramones eram, pelo menos, divertidos, engraçados. O Motorhead é apenas impermeável como um búfalo.

O profissionalismo deve ser a tônica na encenação da brutalidade. Trinta anos de convivência com a turbulência preenchem o currículo do mestre. Imagino um desfile de militantes satisfeitos depois de uma belíssima e aterradora demonstração de amor à causa.

Nada que impeça de avisar que os holofotes concentrados no personagem totêmico de um líder carismático, que adora canibalizar os impulsos primitivos da multidão exaltada, remetem a perigosas alternativas de condução da massa para objetivos moralmente condenáveis. Pense nas caravanas adolescentes que irão aos shows.

Pessoas inteligentes separam fantasia da realidade. Mas como o excesso é moeda corrente no meio, tomara que nenhum recalcado seja induzido a um delírio de poder. A segurança nunca é preparada o bastante para resolver as dificuldades com diplomacia. O cheiro de sangue no ar excita os abutres. Logo, todo cuidado é pouco.
 


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POR EM 03/11/2008 ÀS 10:27 PM

A dama e a vagabunda

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Gravadoras que precisam agora mais do que nunca de estrelas reluzentes, para explorar ao limite do insuportável as reservas finais de oxigênio de um negócio moribundo. Norah Jones e Amy Winehouse atenderam as solicitações como se fossem profecias de um passado longínquo
 
 
O sucesso fez mal para a intimidade de Amy Winehouse. O seu processo de autodestruição tornou-se um incômodo público. Ela não pode mais se drogar à vontade, sem ser incomodada pelos fotógrafos que a perseguem. No dia seguinte, sua imagem tatuada e bêbada será estampada nos canais sérios de notícias e outros nem tanto. O público afoito ou não por consumir esse tipo de imagem não tem lá muita escolha. Amy Winehouse tropeça na nossa frente e nós quase escorregamos nos detritos que ela deixa por onde passa. Quando era desconhecida, ela não tinha tantos problemas para se divertir ou purgar sentimentos contraditórios. Era simplesmente ignorada como junkie. Bastou seu primeiro disco estourar para que seu inferno particular atingisse dimensões extraordinárias. Amy Winehouse não pode mais definhar em paz. Ela é um alvo tão redundante e óbvio para a indignação da moral conservadora que deveria ser poupada desse tipo de constrangimento. Assim como deveria nos poupar de seus momentos trôpegos.
 
É o tipo de inconveniência que não agride Norah Jones. Esta tem o pedigree de uma paternidade nobre. Afinal, o indiano Ravi Shankar deu aulas de cítara para George Harrison. O sucesso imediato de seu lançamento como cantora não abalou os alicerces de uma vida equilibrada. Norah Jones não é vista todos os dias nem por aqueles que desejariam ardentemente provar uns nacos da sua fama internacional. Calorosa, porém discreta e absolutamente simples, ela evita os holofotes quando está fora do palco. Uma lição a ser aprendida por todos que fazem de tudo para sair na foto, inclusive cair na sarjeta.
 
Amy Winehouse e Norah Jones, confortavelmente instaladas entre os maiores vendedores de discos do planeta, ajudaram a reverter a lenda de que a música eletrônica iria acabar de uma vez por todas com o império da canção. A lenda foi plantada com outros slogans (“o rock morreu”, “o futuro chegou”) no começo dos anos 90, usurpados em nome de uma nova ordem: o dono da festa, agora, é o DJ. Entidade máxima das noites em ebulição, o DJ comandava as pistas com toca-discos, sem banda, sem instrumentos, sem composições. Sua arte, na verdade, era uma técnica, uma habilidade: costurar fragmentos de trabalhos alheios com uma base rítmica digital. Claro que extrair sonoridades esdrúxulas de expressões matemáticas é algo que vai além da mera apropriação de dados de arquivo. Mas o princípio da (re)mixagem pouco representou fora do exótico remanejamento da ordem original das coisas. E atingiu o esgotamento no caso da new bossa.
 
O hip hop, herdeiro da malandragem do funk, encarregou-se de mesclar o pancadão sintético e a extrema agilidade do equipamento com as rimas assanhadas, provenientes dos guetos. O que adubou e impulsionou uma nova geração de artistas lotados no R&B americano, o rhythm´n´blues (que, de blues, não tem nada). Foi o atalho que a música eletrônica pegou para dominar o mercado mais robusto do mundo. Só que os DJs, entronizados como demiurgos na Europa e no Brasil, tiveram que ceder os lugares para os produtores. Estes gatos pardos da música negra direcionam a carreira de pupilos que saracoteiam em coreografias elásticas durante a execução de seus números. Clipes minuciosamente encenados ao vivo servem a senha para espetáculos que padecem de uma flagrante ausência de espontaneidade.
 
O rock labutou em veredas alternativas. O grunge, como a Camélia, caiu do galho, deu dois suspiros e depois morreu. O britpop implodiu na concorrência interna para eleger a banda mais arrogante e derivativa. Os baladeiros lamentaram suas perdas em falsetes acabrunhantes. O nu-metal levou a sério, repetiu e amplificou a trombada dos galhofeiros enrugados do Aerosmith com os gordinhos de preto do Run DMC, além de costurar a palavra atitude numa etiqueta de street-wear. Os emos engrossaram o coro dos descontentes com descomunal afetação maquiada. O U2 manteve sua caravana irlandesa de hedonismo cristão para as massas em constante movimento. O Radiohead prefere agradar os leitores de Philip K. Dick a satisfazer a massa. Bjork sempre fez a alegria dos hippies estilizados. Nesse bate-cabeça, a música eletrônica, em uma década, de promessa avassaladora da mentalidade urbana cibernética refluiu para o território das raves legalizadas por patrocínios oficiais, sem caráter subversivo, clubes fechados e comerciais de rádio e TV. Descobriram sua irrevogável vocação artificial para jingles frenéticos e perecíveis num piscar de olhos.
 
Passada a fase excitante da multiplicação dos rótulos programados e da ilusão dos sentidos, ouvidos cansados voltaram seu interesse para a música de artistas de carne, osso e fragilidades, bem como virtudes, humanas, ainda que compartilhadas no universo virtual. Universo que sugou, como um buraco negro, as faíscas que cintilaram impunemente ao longo do século passado sob a lucrativa gerência das gravadoras multinacionais. Gravadoras que precisam agora mais do que nunca de estrelas reluzentes, para explorar ao limite do insuportável as reservas finais de oxigênio de um negócio moribundo. Norah Jones e Amy Winehouse atenderam as solicitações como se fossem profecias de um passado longínquo. Com uma pequena distância entre elas, a imprensa que dita a pauta para as redações periféricas flexionou os joelhos e determinou que os louvores fossem publicados com a convicção algo aparvalhada de quem mergulha num oásis depois de muito caminhar pelo deserto. As sugestões foram prontamente acatadas.
 
Unanimidades indiscutíveis, Norah Jones e Amy Winehouse trouxeram de volta para o cenário das paradas lembranças envelhecidas como harmonias e melodias, além dos ritmos, e vozes personalizadas no lugar dos tratamentos envernizados e metalizados como robôs que simulam cio. No antigo posto ocupado por uma ininterrupta freqüência de batidas sincronizadas e efeitos luminosos ensandecidos, surgem novamente em cena bandas completas e pausas providenciais entre canções de poucos minutos, capazes de abrigar o silêncio ou (heresia suprema) a comunicação com a platéia em apresentações abertas à contemplação. Não que estes ingredientes tivessem sido varridos do palco por um furacão que odiasse a música vestida em seus modelos tradicionais, mas eles foram soterrados por toneladas de pick-ups ensurdecedoras e suas variações tonitruantes e espasmódicas, que ainda providenciavam o tédio sob medida nas salas de lounge (que, como todos sabem, é um lugar que não existe).
 
Mas por que Norah Jones e não, por exemplo, Diana Krall, presente no mercado há mais tempo? E por que Amy Winehouse e não Joss Stone, que deu as caras como revelação precoce? Tenho minhas teorias fraudulentas. Diana Krall freqüenta o circuito do jazz erudito, domina o repertório, toca piano com desenvoltura e procura, deliberadamente, ouvintes ajuizados e bem servidos de informações histórias relevantes. Norah Jones navega num oceano de imprecisão. É meio jazz, meio pop, meio country, meio isso e meio aquilo. Se fosse para ser indigesto, diria que não fede nem cheira. É a namoradinha da novela das oito. Um ideal de pureza, candura e melancolia plácida. Uma sussurrante noviça new age. Não oferece nenhuma surpresa. É bem comportada às raias do enjôo. Joss Stone colheu pimenta na lavoura de seus três discos até agora. Ganhou uma feição menos juvenil e um pouco mais enfática, mas transmite a certeza de que precisa comer farinha na tentativa de chegar perto de se tornar uma cantora de soul. Amy Winehouse é da laia de Pete Doherty, Britney Spears, Courtney Love e uma vasta linhagem de rebeldes cascudos, teleguiados ou não, decadentes e debochados.
 
Ela chama atenção pelo anti-profissionalismo. Sua música fica a dever a Diana Ross, Aretha Franklin, Stevie Wonder, Ray Charles e outros gênios que procura evocar. O comportamento, no entanto, é muito parecido com certas fases degradantes dos ídolos citados. Se, como dizem, muitos assistem corridas de Fórmula 1 na esperança de ver acidentes terríveis, não seria de todo ingênuo afirmar que Amy Winehouse desperta, como José Dirceu em Roberto Jefferson, os sentimentos mais primitivos em gente frustrada. Ao contrário de Norah Jones, Amy Winehouse é um vulcão imprevisível, prestes a explodir. No caso dela, ainda podemos contar com mudanças de estilo. Já no caso dos DJs, eu espero somente manter uma distância considerável. 

 

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