Não aprendemos afinal onde fica Samarcanda
Houve uma mulher em minha vida. Bem, houve mulheres na vida de todos os homens: nenhuma novidade aqui, nada de novo sob o sol. Mas quantos de nós reconhecemos todas as implicações desse fato? Quem, na correria da vida moderna — esse eterno clichê do qual sempre reclamamos —, pensa no que ganhou ou perdeu ao fim de uma história de amor? Pode ser até pior: quantos de nós percebemos a possibilidade de um amor quando ela surge, como as pequenas epifanias do Caio Fernando Abreu, e não a rechaçamos?
Quando eu a conheci, já era amigo de seus pais, mas não tinha ideia de sua existência. Ela morava em outro país e eles nunca mencionaram o fato de que tinham uma filha. Um dia, no nosso costumeiro encontro de sábados, cheguei ao bar de sempre e lá estava ela com os pais e os amigos comuns. E eu estava acompanhado de uma namorada quase noiva.
O que senti? Reconstruímos sempre o que passou com as sensações do presente. Mas eu, desde aquele dia, pensei muitas vezes no que ocorreu e é sempre a mesma imagem que me vem à lembrança: fiquei tomado por sua presença. Lembro-me do vestido que ela usava, o tamanho do cabelo, os gestos, o exato lugar em que se sentou. Mas não me lembro de nenhuma, absolutamente nenhuma conversa que tenha ocorrido naquela mesa: não sei o que disse a ela ou aos amigos, não sei o que ela conversou. Parece ter existido só a completude da sua existência até então desconhecida para mim e a partir dali mudando o curso de um dia — uma vida — que começara como outro qualquer.
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Sei bem que só a ideia de um leigo se propor a fornecer um guia de museus, particularmente de arte, ainda que pequeno, já soa pretensiosa para alguns, os, digamos, profissionais. Pois isso faz tanto sentido quanto dizer que apenas escritores podem opinar sobre livrarias. Então dá licença que eu quero passar com minhas opiniões.
Eu e R., cansados de tanto subir e descer ladeiras em Lisboa, pedimos um táxi para irmos ao Castelo de São Jorge. O motorista, com vastos bigodes portugueses, chama-se — é claro, pá! — Manuel. Manuel nos leva vagarosamente ao alto da colina, mais preocupado em mostrar pontos turísticos sem nada de muito especial do que com o fluxo do trânsito. Sua forma de falar é difícil de entender; para mim, o homem até merece ser estudado por causa dessa sua prosódia portuguesa mais acentuada, assim me parece, do que a dos seus conterrâneos: vogais sempre engolidas e plurais muito puxados. Em certo momento, ele atende ao telefone celular e percebemos que alguém lhe conta uma briga com outra pessoa; com certeza ouvindo o que seu interlocutor teria dito durante a discussão, ele comenta: “Finura de resposta”. Para meu deleite, repete a frase várias vezes, “Finura de resposta! Finura de resposta!”, tudo muito rápido e soando “fin’ra di rissposst’”. Seu jeito todo o torna caricatural, um tipo de português de piada. Tenho vontade de perguntar-lhe se conhece “Francisco Carlos Guedes Santos” só para ouvi-lo repetir, em dúvida e cofiando os bigodes, “Francisssco Carlusss Guedisss Santussss?”. Não é um sotaque, é uma máquina de lavar louças. Fascinado, eu percebo que o conheço desde menino: ele é o Manuel da padaria, o amigo do Joaquim e marido da Maria. Sabe aquela do assalto ao banco? Era ele. A do policial rodoviário? Também ele. Pois lá vamos nós, Manuel se alternando entre o telefone e o que considera interessante para nos apontar. Estou gostando cada vez mais da coisa. Reconheço os sinais de perigo, mas, ainda assim, sou incapaz de me conter: percebo que estou atacado por aquela doença que atinge a nós turistas e nos faz achar tudo agradável e pitoresco, tornando-nos generosos ao extremo.