revista bula
POR EM 03/11/2008 ÀS 09:14 PM

A obra prima de Ibrahim Ferrer

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Cuba vende, no mercado externo, açúcar, charuto e a música da turma do Buena Vista

Por certo tempo, mais do que devia, enjoei daqueles velhinhos do Buena Vista Social Clube. Encanecidos, à espera da Velha Senhora, aquela da foice, tiraram tudo do baú e do fundo d’alma e colocaram nas discotecas. Tinham, com razão, de aproveitar o sucesso do documentário “Buena Vista Social Clube”, de Ry Cooder e Wim Wenders, e terminar os dias com certa dignidade, pois Fidel Castro, o tiranossauro rex, os condenara a uma vida de privações, inclusive da liberdade artística. Eles cantavam a vida, o belo, e os comunistas queriam que cantassem a revolução, a transformação social — quer dizer, aquilo que ninguém via e sentia. 

Depois do retorno brilhante, “mal” (ou bem, sabe-se lá) orientados, os cubanos fizeram alguns discos repetitivos e, para o ouvinte exigente, de qualidade duvidosa (exceto, talvez, o talentosíssimo Rubén González, o pianista dos dedos de diamante. Tão bom quanto os pianistas Bébo Valdez e Chucho Valdez, pai e filho). O fato é que, apesar da aparente jogada de marketing, os “velhinhos da fuzarca” eram (são) mesmo muito bons, principalmente Rubén González, Ibrahim Ferrer, Compay Segundo e Omara Portuondo (a única viva). O balanço inzoneiro de Compay é insuperável, tem uma alegria contagiante, um quê de gospel de terreiro (Compay, se brasileiro, seria sambista e baiano). Mas o grande cantor, como prova o disco “Mi Sueño”, recém-lançado no Brasil, é mesmo Ibrahim Ferrer. Depois que cessaram as pressões para repetir o “Buena Vista”, Ibrahim pôde gravar um disco só de boleros, naquele seu estilo intimista, de uma doçura ímpar. É uma maravilha. Mesmo com quase 80 anos, com uma voz ligeiramente arrastada, mas ainda apropriada para boleros, Ibrahim fez uma pequena obra-prima. Morreu feliz, por certo.
 
Ouça “Dos Almas”, “Quizás quizás” (a parceria com Omara Portuondo é mágica), “Cada noche un amor”, “Perfidia”, “Alma Libre”, entre outras, e aposto que pensará em dançar, namorar e amar. Claro, se você tiver mais de 30 anos, porque, se tiver menos, já estará acostumado com o barulho infernal das músicas de boate, que são úteis tão-somente para aumentar a surdez dos jovens e aliená-los do belo que está tão perto e tão longe. Às vezes penso que os jovens não escutem mais porque o mundo moderno misturou tudo e é impossível, aparentemente, dissociar o belo daquilo que é aceito como o que “todo mundo” gosta. Estamos nos tornando um rebanho que busca o pior capim, mesmo aquele que não é imposto pelo mercado, sim, porque o mercado da música já era. Estamos livres para escolher, e como escolhemos mal!, muito, quem sabe, por conta da televisão aberta, hoje dedicada a fazer programas para pobres e para a classe média inculta e bárbara.
 
O sucesso dos artistas cubanos, todos pré-Revolução de 1959, deve ter irritado muito Fidel e seu escravo mental Raúl Castro. Cuba vende, no mercado externo, açúcar, charuto e a música da turma do Buena Vista, ou seja, três produtos que eram fortes antes da revolução gestada por Fidel e Che Guevara. Depois da revolução, Cuba não produziu nada realmente novo, exceto o fato de ter socializado a pobreza. E não apenas em termos de economia. Os melhores escritores cubanos — Lezama Lima (um Guimarães Rosa licencioso e barroco), Alejo Carpentier, Severo Sarduy e Guillermo Cabrera Infante — são pré-revolução. Ah, no mercado interno, Cuba potencializou a prostituição. Ué, não fizeram a revolução para acabar com o balneário dos americanos ricos? “Acabaram” (esconderam, na verdade, pois prostituição é igual gripe: sempre volta), durante certo período, mas, com o fim da União Soviética, Cuba praticamente liberou a prostituição, e hoje o país é o balneário do mundo, sobretudo dos turistas europeus.

 

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POR EM 27/10/2008 ÀS 01:55 PM

Saraband, doce-amarga suíte

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Saraband (2003), palavra usada para denominar o movimento lento de uma suíte musical, é o título do último filme de Ingmar Bergman. Pretensamente a continuação de Cenas de um casamento (1973), aliás ambos foram feitos pra TV, a meu ver aproxima-se mais de Morangos silvestres (1957), na medida em que trata de duas obsessões do diretor sueco, morte e relação pai-filho, do que propriamente de casamentos (ou relações homem-mulher).

Marianne (Liv Ullmann incrivelmente charmosa como sempre, a despeito das várias rugas que agora lhe riscam a face) resolve visitar seu ex-marido ranzinza Johan (Erland Josephson, incrivelmente velho e ainda sublime) na casa de campo em que se “esconde”. Em frente a uma mesa cheia de fotografias velhas, Marianne começa conversando com o espectador, à maneira de Bergman (fico me perguntando se a insistência nesse recurso é produtiva). Johan está mais rabugento do que nunca, não consegue segurar os comentários amargos nem nesse primeiro encontro (minha vida foi uma sucessão de erros, até nosso casamento?, até nosso casamento).

Entre voluntária e involuntariamente, Marianne presencia e participa de um pequeno pedaço da vida atormentada de Johan, seu filho tão-amargo-quanto Henrik (Börje Ahlstedt) e a neta Karin (Julia Dufvenius), único sentido da vida de ambos, Johan e Henrik. Sem qualquer esforço Marianne ganha a confiança de jovem Karin, torna-se uma espécie de avó. E aqui uma queixa: Bergman poderia dar um pouco mais de pistas quanto ao que aconteceu com os personagens, com a mãe de Henrik, por exemplo. Além do mais, em algumas cenas Börje Ahlstedt parece quase tão velho quanto Erland Josephson, tornando quase (quase!) inverossímil que sejam pai e filho. Mas, tudo bem, dá pra relevar isso.

Henrik sufoca a filha de amor após a morte da esposa, amor este que o pai Johan se negou a lhe dar.

Difícil dizer o que é mais nocivo. E impressionante ver Johan pedir notícias (!) das duas filhas pra Marianne, uma das quais internada num hospício e, algumas cenas depois tratar Henrik com um desprezo assustador e confessar pra Marianne que detestava o amor grudento que o filho lhe oferecia quando criança. Mas não chega a ser uma surpresa, vindo de Bergman, como se pode constatar logo no início de seu livro Imagens (Martins Fontes):

“Por toda essa história [Morangos silvestres] perpassa um só motivo, apresentado sob múltiplas e variadas formas: a insuficiência no jogo da vida, o vazio, a ausência de perdão. Ainda hoje não posso avaliar, e naquela altura muito menos, como eu, por meio de Morangos silvestres, estava implorando a meus pais: vejam, compreendam e, se possível, me perdoem.” (pag. 20) (...) “A força motora de Morangos Silvestres é, por conseguinte, uma tentativa desesperada de me justificar perante meus pais que me voltam as costas e a quem dera dimensões desproporcionadas, míticas, tentativa essa que estava condenada a falhar.” (pag. 22)

Tudo isso é muito comovente, até ficamos com peninha de Ingmar. Só que poucas páginas depois ele confessa:

“Vejo-me como um dos melhores artistas do mundo. (...) Mas, francamente , eu estava chegando a uma idade em que o dinheiro já perdera toda importância. Agora vivo só, depois de vários desquites que me custaram bom dinheiro. Tenho muitos filhos que mal conheço, que até desconheço em absoluto [essa é quase uma fala, letra por letra, de Johan]. Meus fiascos humanos são notáveis. Daí me esforçar por ser um artista excelente, que entretém.” (pag. 27)

Pois é. Sem comentários.

A sarabanda tocada por Karin, a pedido do pai, Henrik, é a da suíte pra violoncelo No. 5, de Bach. Belíssima, quase sensual, em suas curvas lentamente harmônicas, abraçando e entregando-se voluptuosas em um incesto permitido com a mão (mãe?) que massageia as cordas do cello em... Opa, exagerei. Até perdi o fio da meada. Ah, sim. Bach. Bergman. Doce-amargo. Na verdade, muito mais amargo do que doce. Está mais pros prelúdios atormentados das suítes 1 e 4 do que pra qualquer das sarabandas de qualquer das suítes pra violoncelo. Desaconselhável a pessoas com propensão à depressão. Aconselhável a quem estiver com a cabeça no lugar e aprecie entretenimento inteligente.

PS: Jurei que não faria isso, não citaria Woody, mas é mais forte do que eu. A cena inicial de
Maridos e esposas (1992), de Woody Allen, é uma quase cópia da cena inicial de Cenas de um casamento (1973).


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POR EM 22/06/2008 ÀS 05:21 PM

O Filho Bastardo

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Otto Klemperer nunca quis ser agradável, nunca submeteu a obra do mestre ao gosto da platéia. Não teve ligações com o nazismo como o filho pródigo da música erudita, pelo contrário, Klemperer foi perseguido e obrigado a exilar-se na Inglaterra 



Valney Natividade
           
Neste ano comemora-se o centenário de nascimento do idolatrado
Herbert von Karajan. Nascido, exatamente, em 05 de abril de 1908. Provavelmente, veremos as gravadoras entulharem as prateleiras das lojas de discos com velhas gravações repassadas por uma nova remasterização, talvez a terceira ou sexta.
           
Os melômanos que quiserem antecipar-se aos seus pares, olhem os sites da EMI e Deutsche Grammophon. Trata-se de uma justa homenagem ao filho pródigo que tornou a música erudita um produto vendável e aprazível para um público diverso.  Porém, neste ano completa-se 35 anos da morte do filho bastardo,
Otto Klemperer. Homem de temperamento difícil até mesmo para os seus amigos.
           
Bastardo porque não foi coroado por Mahler. Este escolheu outro, como bem disse Norman Lebrecht, sua “antítese tratável”, Bruno Walter. Walter trataria de amenizar e dar um status agradável às obras de Mahler. Os méritos da divulgação da obra de Mahler nos Estados Unidos são dele, não há como negar.
           
Mas o bastardo, quais são os seus méritos?    

Klemperer nunca quis ser agradável, nunca submeteu a obra do mestre ao gosto da platéia. Não teve ligações com o nazismo como o filho pródigo da música erudita, pelo contrário, Klemperer foi perseguido e obrigado a exilar-se na Inglaterra. Não encontrou uma orquestra pronta, foi obrigado a dar forma a uma de segunda linha. No caso, a Philharmonia Orchestra. O filho pródigo de Mahler sempre se mostrou generoso para o público, mas negava dinheiro para os amigos em apuros fugindo do nazismo.
           
O modernismo sempre esteve presente na vida de Klemperer. Ele regia a “famosa” “The Threepenny Opera” de Kurt Weill, já em 1931. Suas encenações das óperas de Wagner eram inovadoras por despojá-las de todo o luxo até então exibido. Nas obras de Mahler, poucas ficaram para posteridade em disco, há uma presença única de seu estilo de regência.
           
Amigo de Stravinsky, Klemperer não conseguia fazer-se palatável, na presença deste gênio. Robert Craft, pupilo de Stravinsky, dá-nos um relato da amargura de Klemperer:
 
“29 de outubro [1950]. I.S. completa o esboço da partitura do segundo ato e levo-o para assistir ao concerto de Klemperer na USC: Brandemburgo n.° 1, com Adolph Koldofsky tocando o violino piccolo, e n.° 5, com Alice Ehlers no teclado. Klemperer não agradece aos aplausos no início, limitando-se a lançar um olhar irritado para a platéia. No final, recusa-se a inclinar-se junto com Ehlers, executando apenas uma única mesura numa das laterais do palco. Seus andamentos são muito rápidos, mas pelo menos a música, nova na época em que foi composta, não soa artificialmente arcaica.” (Stravinsky, crônica de uma amizade.Robert Craft) 
           
A rapidez dos andamentos sempre foi uma constante de Klemperer, as suas execuções de Beethoven e Mahler são exemplares, mas o amor pela música o impedia de ser delicado com os seus solistas, e Klemperer era rápido conforme a necessidade. Veja o caso Dietrich Fischer-Dieskau e a gravação da Paixão de São Mateus de Bach. O diálogo abaixo teria ocorrido entre Klemperer e Fischer:           
           
“Dr. Klemperer!!           
‘Sim, Fischer?
           
‘Dr. Klemperer, eu tive um sonho na noite passada, e no meu sonho Johann Sebastian Bach me agradecia por cantar a Paixão, mas ele disse, ‘por que tão lento?’
           
‘Fischer?’
           
‘Sim, Dr. Klemperer.’
           
‘Eu também tive um sonho na última noite. E no meu sonho, Johann Sebastian Bach agradecia-me por conduzir esta Paixão, mas ele disse, fale-me, Dr. Klemperer – quem é esse Fischer’” ( Life and Death of Classical Music.Norman Lebrecht)
 
             
Aquela gravação está entre as melhores existentes. Não preciso falar da importância de Fischer-Dieskau, porém a presença de espírito de Klemperer é espetacular.
           
Neste ano de 2008, não quero lembrar do pródigo da indústria de discos, pois este deu muitos frutos, mas proporcionalmente muito inferiores ao do bastardo. Lamento, sim, a morte do bastardo ... Klemperer!!!!
 
 
Valney Natividade é historiador.

 

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