revista bula
POR EM 08/03/2012 ÀS 02:13 PM

O segredo de Karl Marx

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O alemão Karl Marx, que viveu como po­bre e sustentado pelo amigo Friedrich En­gels, um industrial rico, amava sua mulher, Jenny Marx, que, embora sem posses, era de origem aristocrática. Numa carta de 1856, o filósofo e economista escreveu: “Meu querido amor, tenho a imagem viva de você em minha frente, tomo você em meus braços, beijo você da cabeça aos pés, ajoelho-me diante de você e suspiro ‘Madame, eu a amo’. E eu de fato amo você mais do que o Mouro de Veneza jamais amou. (...) Mas o amor de uma querida, isto é, você, torna um homem novamente homem. De fato há muitas mulheres no mundo, e algumas delas são belas. Mas onde encontrarei outro rosto no qual cada traço, até cada ruga relembra as maiores e mais doces memórias de minha vida”. As biografias estão de acordo: Marx e Jenny viveram num am­biente de extrema penúria, às vezes sem dinheiro para comer, pagar aluguel e enterrar um filho, Edgar, de 8 anos, mas se adoravam. Eram cúmplices. Sobre a morte do filho, Marx escreveu a Ferdinand Lassalle: “Bacon diz que os ho­mens realmente importantes têm tantas relações com a natureza e o mundo que eles se recuperam facilmente de qualquer perda. Eu não pertenço a estes homens importantes. A morte de meu filho abalou profundamente meu coração e minha mente e ainda sinto a perda tão vivamente como no primeiro dia. Minha pobre esposa também está completamente abatida”. A carta é de 1855 e mostra um pai amoroso lamentando a morte de seu “único” filho homem. Mas o autor de “O Ca­pital” matou simbolicamente outro filho, Henry Frederick Demuth, o Freddy, e não se conhece algum lamento escrito de sua autoria. 


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POR EM 30/01/2012 ÀS 09:45 PM

De leitores e leituras

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Já me declarei avesso à contingência de preestabelecer e repassar “programa de leitura” a cada ano que se inicia. Até me pergunto em que, a fundo, isso possa interessar e ser útil a algum leitor, leigo que seja ou letrado em matéria literária. Alguma concreta curiosidade ou real interesse quanto a isso? Quem, realmente, quer saber o que estamos lendo, ou se interessa pelo que vamos ler? E para quê quer saber? Servirá, porventura, a algum parâmetro ou nobre propósito? Constituirá, aqui e agora ou algures, alguma espécie de farol, sinal indicativo, vetor valorativo, substancial roteiro de leitura? 

Faço as perguntas, mas não dou respostas. Deem-nas, a nós, que recorremos a vós, hipotéticos leitores, doutores em letras ou meros curiosos, senão amantes verdadeiros da arte literária, que deixa de ser arte quanto equivocada e desastrosa, por conta de limitações autorais ou de parco talento. De mãos dadas a vaidade e a chatice de professar-se também escritor (“Eu também escrevo”), o diletantismo sem futuro, pífia e patética obra dos equivocados, iludidos na senda pedregosa da literatura. Deles há com insistentes pedidos de prefácio para obras chinfrins, ingênuas porquanto imaturas, quando não alienadas. E se, por isso mesmo, você até se condoer deles, se sentirá mal por algo que não vale a pena. Literatura não é por aí.   


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POR EM 24/01/2012 ÀS 04:43 PM

40 livros PARA MORRER antes de ler

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Seguindo a ideia do post “Li­vros Para Mor­rer Antes de Ler”, publicado no site americano Good Reads, pedimos a colaboradores, leitores e seguidores, que apontassem, entre livros conhecidos de autores brasileiros ou estrangeiros, quais eram os piores que haviam lido. Das dezenas de citações que recebemos, foi elaborada uma lista sintetizando a opinião dos participantes. O resultado, embora seja uma brincadeira, não deixa de ressaltar a validade da célebre frase de Mark Twain: ”Aquele que lê maus livros não leva vantagem sobre aquele que não lê livro nenhum.” 


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POR EM 14/01/2012 ÀS 12:58 PM

Bartleby e Companhia

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Dentro do universo literário existe um fenômeno estranhíssimo, porém constante, de escritores com alta exigência literária, e com incrível capacidade de escrita, que se negam a escrever. Ou escrevem, e publicam, algumas poucas coisas e se calam para sempre. Ou, quando não se calam para sempre, ficam décadas num silêncio literário que agonia seus leitores e que deixam os críticos cismados. Esses escritores fazem parte do grupo que sofre da síndrome de bartleby.

Outro dia (há três anos; vocês não sabem, mas sou o arqueólogo oficial desse site, um caçador de textos empoeirados) o Flávio Paranhos, ilustre escritor da Bula, falava da sua recusa a escrever (e até de ler) ficção e que isso não era ocasionado pela síndrome de bartleby, que ela não causa nada, pois os escritores é que se recusam, numa espécie de abstinência consciente, ao seu ofício de escrever.

Pra mim, escritores que não escrevem é um mistério insolúvel. Como explicar o fato de Salinger, um dos maiores expoentes da literatura contemporânea, ter publicado apenas 4 livros e logo em seguida se calar, num silêncio que durou mais de 40 anos até sua morte em janeiro de 2010? Assim como Salinger, existem muitos outros bartlebys na literatura.

A síndrome de bartleby tem esse nome por causa do conto de Herman Melville, “Bartleby, o escrivão”, sobre um jovem que responde a anúncio de jornal oferecendo uma vaga de copista. No início se dedica com vigor ao seu novo emprego, sempre na ânsia de copiar algo, até que uma apatia vai tomando conta dele, a ponto de ficar dias sem fazer nada, sem se alimentar, sem sair do seu lugar, apenas olhando pela janela, e quando o dono do cartório insta-o a copiar algo, responde sem vontade: “preferia não o fazer”. E assim segue, absolutamente indiferente às coisas até seu triste fim. E, isolando a essência desse personagem, o escritor Enrique Villa-Matas escreve seu livro “Bartleby e Companhia”.


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POR EM 01/12/2011 ÀS 06:07 PM

Vida e Obra do Plagiário Paulo Francis

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Livro de Fernando Jorge diz que, além de copiar textos alheios, o jornalista cometeu vários erros de informação tanto nos jornais quanto ao participar da elaboração da Delta Larousse

Desperdício. É palavra mais precisa para definir a biografia (se é mesmo possível defini-la como biografia) “Vida e Obra do Plagiário Paulo Francis — O Mergulho da Ignorância no Poço da Estupidez”, do indefectível Fernando Jorge, que já passou a limpo a vida de Getúlio Vargas e Olavo Bilac (um estudo bem-feito). Fernando Jorge não escreve mal, mas a revisão do livro poderia ser um pouco mais cuidadosa, sobretudo porque o autor se diz tão exigente em relação ao jornalista-escritor criticado. Exemplo de desleixo: “diconário” (dicionário). Um problema, ainda que menor — numa obra de crítica tão acerba, de uma virulência implacável, Fernando Jorge mostra-se indulgente: chama dom Pedro II de “bondoso” e o Estado do Maranhão de “terra fértil sob todos os aspectos”. Só faltou chamar o senador-escritor José Sarney de Shakespeare do Nordeste. 

Este texto começa com a palavra desperdício porque, em 501 páginas (putz!), Fernando Jorge não cumpre o que promete e, assim, não desconstrói o jornalista e o escritor Paulo Francis (1930-1997). A agressividade irracional (redundância) de Fernando Jorge impede que conheçamos mais o célebre jornalista que escreveu na “Senhor”, no “Correio da Manhã”, na “Folha de S. Paulo” e em “O Estado de S. Paulo” e foi comentarista da TV Globo e debatedor do “Manhattan Connection”. O sr. Massacre perdeu uma grande oportunidade. Poderia ter provado, ou pelo menos tentado, o fracasso literário de Paulo Francis. Não mostrou nada convincente. Bastava consultar pelo menos uma crítica arrasadora de José Guilherme Merquior — infelizmente, apenas esboçada. Antes de se tornar “amigo” do jornalista, Merquior disse que, depois de “Cabeça de Negro”, o jornalista certamente publicaria o romance “Cabeça de Vento”. Paulo Francis tentou ser o Thomas Mann do Brasil, ao publicar romances de ideias, mas não chegou aos pés de Heinrich Mann. Toda a obra literária do brasileiro, descendente de alemães, não chega aos pés do menor romance de Thomas Mann. Paulo Francis tinha informação, escrevia bem, mas faltava-lhe imaginação literária. 


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POR EM 17/11/2011 ÀS 11:56 AM

Nelson Motta “mata” Glauber Rocha pela segunda vez

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O mentirógrafo Nelson Motta parece acreditar em tudo que lhe contam, desde que contenha exageros capazes de escandalizar e, possivelmente, vender livros

A excelente biografia “Darwin — A Vida de um Evolucionista Atormentado”, de Adrian Desmond e James Moore, saiu com erros e a Geração Editorial encomendou uma revisão técnica, relançou o livro e fez as trocas com os leitores. Bastava levar a edição antiga às livrarias e proceder à troca. Infelizmente, a Editora Objetiva mostra-se menos responsável e decidiu, mesmo depois de dezenas de erros apontados por intelectuais baianos — e certamente há outros equívocos —, manter em circulação o livro “A Primavera do Dragão — A Juventude de Glauber Rocha”, do escritor e produtor musical Nelson Motta. A Objetiva informa que vai lançar nova edição corrigida, mas a primeira edição, verdadeiro lixo de triste figura, vai continuar nas livrarias. Quem comprou a edição eivada de falhas terá de jogá-la fora ou vendê-la em algum sebo desavisado. Os erros foram anotados e divulgados pelo repórter Claudio Leal, da “Terra Magazine”.

Depois dos problemas apontados pelo magnífico levantamento de Claudio Leal, verdadeiro serviço de utilidade pública, um leitor entrou em contato com a “Terra Magazine” e apontou mais um, diria o biógrafo Motta, probleminha. O Teatro Castro Alves, no Campo Grande, “foi construído pelo governo Antonio Balbino e, antes da inauguração, destruído por um incêndio”, corrige Claudio Leal. Motta diz que o TCA foi construído pelo reitor da Universidade da Bahia, Edgard Santos. Uma leitura mais criteriosa certamente apontará mais erros, pois há indícios de que, como pesquisador, Motta é desleixado. Ao contrário dos jornalistas Fernando Morais e Ruy Castro, autores de biografias celebradas pela precisão, Motta parece não checar as histórias que recolhe ou, quem sabe, inventa — às vezes atribuindo-as a fontes que, mortas, não podem desmenti-lo. 


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POR EM 24/10/2011 ÀS 04:39 PM

Geração zero à esquerda

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Nova coletânea de contos realça o sabor estragado da criação literária brasileira, onde a forma é o clérigo e o conteúdo, o coroinha molestado sob a batina de uma literatura superficial. Pai, perdoai-os, eles não sabem o que fazem

Bonitinha, mas ordinária. A expressão criada por Nelson Rodrigues nunca me soou tão sensata. No país da virilha que cobre a roupa, esse mero acessório, ou tapa-sexo, ou tapa-hipocrisia, a literatura segue o mesmo caminho: expõe-se até o último pelo pubiano, perturba a atenção do leitor com sua casca porque o miolo é podre ou, pior, oco. Naturalmente, esse campo dilemático do que é bom ou ruim, o quanto de consciência e inconsciência de si existe numa criação artística, não se encerra na literatura brasileira; ele é tão minado, perigoso, decisivo como a escolha de uma palavra, quanto a superestima de alguns escritores sobre seu próprio trabalho e se espalha insidiosamente como uma erva daninha pela literatura mundial. Todos podem escrever, alguns talentosos e/ou afortunados podem ser publicados, mas quantos são realmente bons? E como encontrá-los, quando são diamantes miúdos perdidos em pedras de carvão do tamanho da inépcia cultural de quem se considera escritor porque (acha que) sabe contar uma história? De quem se considera escritor porque monta uma cadeia de frases mal-escritas publicadas tão somente pela condescendência de um amigo influente? Depois de organizar e publicar duas controversas coletâneas de contos da chamada “Geração 90”, o mesmo grupo que surgiu fazendo “a nova literatura brasileira” na última década do século XX, o escritor (ou agitador de opiniões) Nelson de Oliveira acaba de fechar a trilogia de ficcionistas nacionais com o recente volume “Geração Zero Zero” (Língua Geral, 408 páginas).


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POR EM 21/10/2011 ÀS 12:13 PM

Livro diz que Lee Oswald não matou John Kennedy

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O livro “A Maldição de Edgar” (Record, 396 páginas), de Marc Dugain, apresenta a versão de que o presidente americano John Kennedy foi assassinado por um complô que envolveu a CIA, exilados anticastristas e a Máfia. “Lee Harvey Oswald, preso e executado em Dallas, nunca matou Kennedy. Nunca participou ativamente de sua eliminação física. Esse cara estava sendo preparado como cobertura há longos meses”, escreve Dugain, baseado em supostos documentos deixados por Clyde Tolson, o segundo homem do FBI e amante de J. Edgar Hoover (o escritor Truman Capote a dupla de “Johnny and Clyde”). O FBI sabia que havia uma conspirata para matar Kennedy, mas nada fez, porque Hoover, além de considerar o presidente degenerado e fraco, não o tolerava porque tentou retirá-lo do comando da polícia federal norte-americana. Dugain afirma que o objetivo maior era reduzir a força de Bob Kennedy, o secretário (ministro) de Justiça de John, depois, em 1968, também assassinado.

Dugain, seguindo a exposição de Tolson, diz que, quando voltou da União Soviética, Lee Oswald estava careca e, surpreendentemente, parecia menor. O escritor frisa que a União Soviética não tinha interesse em matar Kennedy, que, sempre que pressionado, atendia os líderes soviéticos. Relata que a CIA mantinha um programa de hipnose e que o trabalho de limpeza do crime contra Kennedy foi feito pela agência de espionagem. A Máfia não saberia fazer esse trabalho, avalia o Tolson de Dugain. 


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POR EM 30/09/2011 ÀS 03:21 PM

E esse tal de Saramago aí, é bom?

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José SaramagoJosé Saramago é do tipo que se alguém perguntar “você gosta de Saramago?”, as respostas serão dividas entre “Claro, ele é genial, um dos maiores escritores que eu já li na minha vida” e “Óbvio que não, comunista, ateu, sou mais o Lobo Antunes”. Não pertenço a nenhum dos dois grupos. Faço parte de um terceiro, bem raro, dos leitores que procuram a sensatez (sem modéstia alguma). Os que não gostam da obra de Saramago quase sempre alegam os mesmos motivos, ou usam argumentos assemelhados: não tenho como gostar de um escritor irregular, que apoiava ditaduras, que foi forjado por intelectuais de esquerda, que só ganhou o Nobel por causa de pressão e todo aquele blá, blá corriqueiro. Tenho percebido que na maioria das vezes, os que se dizem anti-saramaguianos usam os clássicos argumentos ad hominem para descredibilizar a obra. Acho isso de uma baixeza terrível, idiossincrasia de pessoa pretensamente cult. Mas se um leitor de bom senso for analisar o conjunto da obra do escritor lusitano, vai chegar a conclusões altamente positivas.

Os críticos de Saramago apontam um fator que é relevante: a irregularidade. Talvez essa seja uma das raras acusações que faça sentido. Faz sentido porque é o que se comprova de fato. Por exemplo: na publicação de “Terra do Pecado” (1947) Saramago escreve no estilo naturalista-realista, enquanto as tendências literárias da época estão flertando com o neorrealismo; seu primeiro romance passa merecidamente, despercebido. Ele escreve com uma linguagem que é da metade de século XIX, escreve um romance péssimo sendo obscurecido por Alves Redol, Vergílio de Ferreira e Soeiro Pereira Gomes. Ou ainda quando, depois de um grande hiato literário, ele resolve escrever poesia e publica “Os Poemas Possíveis” (1966), mais uma vez com um estilo anacrônico ao que havia de literariamente moderno, mais uma vez sendo passado para trás por outros escritores que eram “melhores” do que ele. Dessa vez foram Herberto Hélder e Cesariny. Admito isso, ele foi irregular. Escreveu coisa ruim, sim. Temos que admitir.


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POR EM 11/09/2011 ÀS 02:43 PM

Como escrever uma carta a um desafeto

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Caro Sammy,

Aquela putinha esteve aqui esta noite; você sabe, Sammy, a pequena sebenta com o corpo maravilhoso e a mente de um retardado. Entregou-me certos alegados textos supostamente escritos por você. Além do mais, afirmou que o homem da foice está vindo ceifá-lo. Sob circunstâncias normais, eu chamaria esta de uma situação trágica. Mas tendo lido a bílis que os seus manuscritos contêm, deixe-me falar para o mundo em geral e dizer imediatamente que a sua partida é uma sorte para todo mundo. Você não sabe escrever, Sammy. Sugiro que se concentre na tarefa de colocar sua alma idiota em ordem nestes últimos dias antes de deixar um mundo que vai suspirar aliviado com a sua partida. Gostaria honestamente de poder dizer que detesto vê-lo partir. Gostaria também que, como eu, você pudesse legar à posteridade algo como um monumento aos seus dias sobre a terra. Mas como isto é tão obviamente impossível, deixe-me o aconselhar a não guardar rancor nestes seus dias finais. O destino foi realmente ingrato com você. Como o resto do mundo, suponho que você também esteja contente de que muito em breve tudo estará acabado e a mancha de tinta que você deixou nunca será examinada de um ponto de vista mais amplo. Falo em nome de todos os homens sensíveis e civilizados quando o conclamo a queimar esta massa de esterco literário e depois se manter afastado de caneta e tinta. Se tiver uma máquina de escrever, o mesmo vale par ela; porque até a datilografia deste manuscrito é uma desgraça. Se, no entanto, persistir no seu lamentável desejo de escrever, de modo algum me envie a josta que você compôs. Descobri pelo menos que você é engraçado. Não deliberadamente, é claro.

Arturo Bandini


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