revista bula
POR EM 22/08/2012 ÀS 10:49 AM

A Espanha de Javier Cercas

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O país que está nos ho­lofotes da mídia devido à crise econômica tem no seu escritor Javier Cercas um mural literário que expõe de maneira magistral a vida contemporânea pós queda de Franco. Da obra, selecionamos três grandes livros do autor que ganhou o Prêmio Nacional de Narrativa de 2010 e é um dos maiores talentos da atualidade: sua estreia em “O Motivo”, uma radical interação com o mestre Dos­toiévski; “O Ventre da Baleia”, a composição de um virtuose do romance, e seu best-seller, que virou filme, “Soldados de Sa­lamina”, o rescaldo da Guerra Ci­vil espanhola fora do engessamento da vingança e do confronto, numa árdua e inesquecível celebração da tolerância.

Dostoiévski está na raiz de “O Motivo” (Editora Francis, 118 páginas), romance escrito ainda na juventude. Surpreende que na minuciosa análise do posfácio, acusado de panegírico pela imprensa espanhola, Francisco Rico nem cite o autor russo. Mas o livro é puro “Crime e Castigo”: um ho­mem solitário premedita um crime, o assassinato de uma pessoa idosa que tem dinheiro guardado em casa, e remói seus argumentos a favor e contra esse desenlace.

Embalado pela desconstrução do romance feita pelas vanguardas do século 20, Cercas no fundo parece querer desmascarar seu mestre, pois no lugar de refletir o país onde vive com seus personagens atormentados, tudo se reduz à literatura, como se esta se bastasse e fosse um círculo de ferro onde o leitor fica encarcerado para sempre, já que o final do livro é exatamente igual ao seu início. Como em Dostoiévski, o que importa não é desvendar o crime (quem matou? Está claro que foi o escritor, esse Raskólnikov de gravata, esse personagem clonado do próprio autor). O que vale são os motivos que levam ao assassinato, aqui uma representação da trama da novela que está sendo lida.


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POR EM 15/08/2012 ÀS 09:32 PM

O Chalé da Memória, de Tony Judt

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Geralmente, a maturidade intelectual de­mora a ser alcançada e só chega após uma longa jornada de estudos e experiências pessoais, onde, não raro, pontuam o engajamento e a de­silusão. Tony Judt, historiador in­glês conhecido pelos seus estudos sobre a Europa do pós-guerra, vivia o auge da sua forma mental, após décadas de atividade intelectual incessante, quando recebeu o diagnóstico fatal de uma enfermidade neurológica mo­tora conhecida como doença de Lou Gehrig. Começava um lento calvário pessoal de perda paulatina dos movimentos físicos até o momento final, quando até mes­mo respirar torna-se im­possível sem a ajuda de aparelhos. Longe de entregar-se ao de­ses­pero, Judt dedicou-se ao trabalho de ditar seus últimos trabalhos: uma a­nálise dos desafios do tempo presente (“O Mal Ronda a Terra”), uma reflexão sobre a história recente (“Pen­­­­­­sando o Século XX”) e um be­lo tex­to memorialístico, publicado no Bra­sil pela editora Objetiva com o título de “O Chalé da Memória”.

Num mundo marcado pela fragmentação moral e pela falência das grandes narrativas ideológicas não podemos descartar o apelo à própria memória e à reflexão histórica como guias. Assim como aprendemos dolorosamente na nossa existência pessoal, com erros e desenganos, também as sociedades precisam aprender com sua trajetória coletiva. Consciente destas afirmações, Judt nos entregou um texto co­rajoso no qual o testemunho das suas experiências e das lições que extraiu de sua caminhada são incorporadas na sua maneira de encarar o ofício de historiador.


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POR EM 29/07/2012 ÀS 05:43 PM

William Faulkner e o cinema

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A literatura de James Joyce, William Faulkner (falecido há 50 anos), Gui­marães Rosa e Carlo Emilio Gadda é refratária ao cinema — dada a dificuldade em transpor para a imagem, e num tempo curto, cerca de 120 minutos, a linguagem complexa de suas escritas. Os diretores de cinema brasileiros certamente saíram-se melhor do que os adaptadores americanos. Faulkner no cinema geralmente deixa de ser Faulkner. Mas o próprio escritor encantou-se, por dinheiro ou vaidade, pelo meio cinema durante algum tempo. Os livros “A Cidade das Redes — Hollywood nos Anos 40” (Companhia das Letras, 477 páginas, tradução de Ângela Melim), de Otto Friedrich, e “Os Escritores — As Históricas Entrevistas da Paris Review” (Companhia das Letras, 327 páginas, tradução de Alberto Alexandre Martins e Beth Vieira) contam as “andanças” do autor do romance “O Som e a Fúria” e “Enquanto Agonizo” pela meca do cinema americano. Algumas, hilariantes. Na segunda obra, trata-se da entrevista do autor a Jean Stein Vanden Heuvel, da “Paris Review”.

Na “cidade do cinema”, disse Faulkner, produtores, diretores e atores “não adoram o dinheiro, adoram a morte”. Friedrich diz que o escritor detestava Hollywood, superando o ódio de Raymond Chan­dler. O escritor foi para Hollywood “porque quase ninguém comprava seus livros, nem mesmo ‘O Som e a Fúria’ (1929) e ‘Luz em Agosto” (1932). Seus quatro primeiros romances venderam uma média de 2 mil exemplares e, na época em que tentou um best seller, ‘Santuário’ (1931), seu editor foi à falência”. Por isso, assegura Frie­drich, seguiu “para Hollywood, em 1932, e assinou com a MGM um contrato de 500 dólares por semana, por ele considerado principesco”. Jean Stein pergunta: “Um escritor se compromete escrevendo para o cinema?” Resposta de Faulkner: “Sempre, porque um filme é por natureza uma colaboração, e qualquer colaboração é compromisso, porque é isso o que essa palavra significa: dar e tomar”.


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POR EM 25/07/2012 ÀS 09:12 PM

Gabriel García Márquez dissecado

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O ensaísta Enrique Krauze diz que obra do escritor colombiano falsifica a história de sua família, louva o ditador-tutor Fidel Castro e contribui para legitimar o regime comunista de Cuba

Gabriel García MárquezO nobelizado Gabriel García Márquez é uma espécie de Louis-Ferdinand Céline da esquerda. Mas há duas diferenças. Primeiro, o autor de “A Incrível e Triste História da Cândida Erêndira e Sua Avó Desalmada” não fez campanha para liquidar indivíduos ou povos. Segundo, se García Márquez usa subterfúgios para apoiar ditadores, escondendo-se atrás de textos e declarações às vezes ambíguos, Céline era preciso na sua crítica e combate aos judeus. Não sabia fingir. A anuência de Gabo com o regime serial killer de Fidel Castro e do escravo mental deste, Raul Castro, é conhecida. Quando escritores cubanos eram (e são) perseguidos pelo regime comunista, García Márquez silenciava, ao menos publicamente, como no caso do poeta Heberto Padilla. O autor colombiano diz que, em particular, “defendeu” algumas vítimas do regime. Quais, não esclarece, mas é possível que esteja dizendo a verdade. No campo estrito da literatura, não há dúvida que, se não é inventivo como James Joyce, Faul­kner, Guimarães Rosa e mesmo Julio Cortázar, e se não tem uma visão mais abrangente da sociedade, como Mario Vargas Llosa, é um excelente escritor tradicional, um Jorge Amado talvez um pouco mais raffiné ou imaginativo, um fabulista ao estilo de La Fontaine ou, quem sabe, Andersen. “Cem Anos de Solidão” e “O Amor nos Tempos do Cólera” são grandes romances, como “A Montanha Mágica”, de Thomas Mann, ainda que de escopo diferente — mais naif e menos intelectual — do livro do alemão. São clássicos que se tornaram uma espécie de imaginário coletivo. Vargas Llosa, filho de Flaubert que leu Faulkner, constrói sua obra literária com tanto refinamento que, às vezes, o leitor percebe as pilastras sólidas da arquitetura. García Márquez pratica uma literatura, digamos assim, mais “natural”, “espontânea”. Na verdade, um certo desleixo é apenas aparente, assim como a naturalidade. 


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POR EM 22/07/2012 ÀS 07:23 PM

“Tigres no Espe­lho”, de George Steiner

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“Tigres no Espe­lho” (Globo, 419 páginas, tradução de Denise Bottmann) contém ensaios de George Steiner para a revista americana “New Yorker”. Steiner é o Antonio Candido — mais importante crítico literário brasileiro — do mundo globalizado. Crítico literário com formação filosófica sólida, o parisiense-americano, de 83 anos, é conhecido pelo rigor, passível de ser verificado em “Gramáticas da Cri­ação” (muito superior ao livro aqui comentado), “Antigones” e “Depois de Babel”. Os textos de “Tigres no Espelho” às vezes roça o ensaio, mas são no geral resenhas espichadas, nas quais o autor tenta não perder a profundidade, apesar do texto relativamente curto. Fica-se com a impressão de que extraiu-se o sumo (ou a suma) de uma obra, de um autor, quando, na verdade, os “retratos”, se não apáticos, são incompletos. Ao final dos textos, perguntamos: “E aí?” Talvez seja isto mesmo: é possível que, como o espaço não era adequado — apenas alguns textos são mais amplos —, Steiner pretendeu expor ideias centrais, não raro originais, mas sem estender-se. A crítica e prosadora Susan Sontag, citada a introdução, escrita por Robert Boyers, disse, em 1980: “Ele [Steiner] pensa que existem grandes obras de arte que são claramente superiores a todas as demais em suas várias formas, que existe uma coisa chamada profunda seriedade. E as obras criadas com profunda seriedade têm, a seu ver, um direito à nossa atenção e à nossa lealdade que supera qualitativa e quantitativamente qualquer outro direito reivindicado por qualquer outra forma de arte ou de entretenimento”. Steiner e Harold Bloom, possivelmente o crítico literário mais famoso da Terra, têm em comum a paixão pela literatura, não pela crítica literária.


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POR EM 11/07/2012 ÀS 12:32 PM

O profeta da inovação

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O ritual, toda semana, se repetia: um professor bem-humorado, em trajes elegantes, retirava suas luvas, colocava-as sobre a mesa e começava a falar, magnetizando todos que se punham atentamente a escutar aquele expositor de extraordinária didática.

O respeito dos alunos, a generosidade no trato com os seus discípulos, aproveitando sempre o que de melhor havia neles, enfim, o fervilhar de ideias enchia aquele ambiente repleto de gente brilhante.

À medida que as ideias iam surgindo, ele, no intuíto de registrar o calor das discussões, fazia algo incomum: rasgava pedaços de papel, anotava o que tinha de anotar e colocava os papeis no bolso. Fazia isso repetidas vezes. A cena, toda semana, se repetia: a entrada no recinto, a tirada das luvas, o encher dos bolsos de papeis repletos de informações.

A plateia que tudo testemunhava e de tudo participava, elevando o nível das discussões, não poderia ser de melhor qualidade. Dela faziam parte, por exemplo, alguns que seriam, mais tarde, laureados com o Prêmio Nobel de Economia. Paul Samuelson era um deles, James Tobin era outro, e a universidade não poderia ser outra: Harvard, a melhor do planeta.

O personagem de quem vos falo é o único economista que rivaliza com outro gigante, o inglês John Maynard Keynes, no patamar de maior economista do século vinte: Joseph Alois Schumpeter. É dele que falaremos a seguir.


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POR EM 01/07/2012 ÀS 06:15 PM

Tradutor tortura o Lênin de Robert Service

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Paulo Francis dizia que os filmes do Cinema Novo eram uma “merda”, mas os diretores eram “geniais”. Algo equivalente pode-se dizer do livro “Lenin — A Biografia Definitiva” (Difel, 630 páginas), do historiador inglês Robert Service.

O livro de Service é excelente, mas a tradução, assinada por Eduardo Francisco Alves, é lamentável. Apesar do descuido do tradutor, o historiador mostra, com fartura de informações e análises, as razões do fracasso do socialismo na Rússia. As razões começam com Lênin (“o profeta do amoralismo marxista”), e não com Stálin, pois aquele, e não este, foi o fundador do Estado totalitário.

Engana-se, porém, quem pensa que Lênin era igual a Stálin. Lênin, mostra Service, defendia um Estado repressor, autorizou ataques aos socialistas revolucionários (que o tradutor chama de “revolucionários socialistas”, porque, ao traduzir do inglês, não percebeu que, em português, precisava, em nome da precisão histórica, mudar a disposição das palavras), manipulava todo mundo e jogava pesadíssimo. Mas Lênin, crítico duro de alguns bolcheviques, procurava preservar seus aliados e/ou quase-aliados (pelo menos alguns deles) — e, como revela Service, a Revolução Russa de 1917 talvez não tivesse ocorrido sem sua intensa capacidade de articulação e intervenção política.


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POR EM 17/06/2012 ÀS 02:25 PM

Dublinenses “volta” ao Brasil em grande tradução

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A Editora Hedra lança uma competente tradução do livro de contos “Dublinenses” (206 páginas), de James Joyce. A tarefa de verter o texto do escritor irlandês coube a José Roberto O’Shea, também responsável por uma introdução curta mas precisa. Como “bônus”, a editora publica três cartas sobre “Dublinenses”, traduzidas por Alexandre Barbosa de Souza.

A perícia da versão de O’Shea pode ser verificada mesmo por leitores pouco afeitos à prosa inventiva de James Joyce, já presente nos contos. Não se trata, vê-se logo, de uma tradução que “atualiza” o prosador de Dublin, e sim de um texto que “restaura” a originalidade de sua linguagem.

Tradução é, de alguma forma, uma competição, sempre inglória mas necessária, com a obra original. No caso específico, percebe-se que as perdas são mínimas, porque se pode ler Joyce, no português “de” O’Shea, com grande prazer e proveito. O leitor consegue “fruir” Joyce, sua inventividade, ainda não tão radical quanto em “Ulysses” e “Finnegans Wake”. 

Noutras palavras, a tradução não diminui o autor do romance “Retrato do Artista Quando Jovem”. Ao contrário, ao recriar sua linguagem, ao torná-la inventiva em português, mas sem excessos não autorizados pelo original, O’Shea nos brinda com um Joyce de primeira. “Falando” português como se estivesse “falando” inglês.


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POR EM 14/06/2012 ÀS 12:54 PM

Ricardo Guilherme Dicke: a reparação de uma injustiça literária

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Ricardo Guilherme Dicke, que morreu em 2008, deixou uma obra respeitada por intelectuais, mas ao mesmo tempo ignorada pelas grandes editoras e, por extensão, pelo leitor

Em algum lugar, este articulista já escreveu — e repete-o agora — que, daqui a cem anos, o historiador literário que pretender traçar um inventário da melhor literatura produzida no Brasil na segunda metade do século 20 e nas primeiras décadas do século 21 não poderá se limitar a consultar as listas dos livros mais vendidos das revistas semanais nem os catálogos das grandes editoras.
Se o fizer, correrá o risco de cometer equívocos, tal como o investigador que se satisfaz ao compulsar apenas a documentação oficial de de­ter­minado período histórico — porque acaba por ficar com a visão de apenas um lado da História e exatamente o mais forte e opressivo. Afinal, boa parte da literatura de melhor qualidade vem sendo publicada no Brasil por pequenas editoras fora do eixo São Paulo-Rio de Janeiro.

Basta ver que nenhuma das casas editoriais paulistas e cariocas de hoje ocupou o vácuo deixado pela Livraria José Olympio Editora, do Rio de Janeiro, que, da década de 1940 até meados da década de 1980, cumpriu exemplarmente o papel de incentivar os jovens talentos, revelando um grande número de romancistas, contistas e poetas que hoje fazem parte da história da literatura brasileira. Uma prova do que se escreve aqui é o romance “Deus de Caim”, de Ricardo Guilherme Dicke (1936-2008), que agora sai em terceira edição pela editora Letra Sel­vagem, de Taubaté-SP, depois de ter sido publicado pela E­dinova, do Rio de Janeiro, em 1968, e pela Gráfica Sereia, de Cuiabá, em 2006. Se tivesse sido lançado à época pela José Olympio, teria seguido um percurso natural, ganhando maior divulgação na imprensa e adquirido o foro de gran­de revelação literária. A­final, em 1967, o romance con­­quistara o 4º lugar do Prê­mio Nacional Walmap, o mais importante do País à época, depois de analisado por um júri integrado por Guimarães Rosa, Jorge A­mado e Antonio Olinto.


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POR EM 14/06/2012 ÀS 12:29 PM

Adeus, Farewell — O Espião Russo Que Mudou o Curso da História

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A primeira impressão que se tem do livro “Adeus, Farewell — O Espião Russo Que Mudou o Curso da História” (Record, 446 páginas, tradução de André Telles) é que seus autores, o russo Sergueï Kostine e o francês Éric Raynaud, superlativam a importância do espião e engenheiro soviético Vladimir Vetrov (1932-1985) na derrubada do império da União Soviética. Entretanto, uma leitura atenta, sobretudo quando se verifica como os Estados Unidos trabalharam com as informações de Vetrov, sugere a conclusão de que o seu trabalho foi devastador. “Não é impossível pensar que, sem a ação solitária de Farewell, a perestroika e o fim da guerra fria poderiam muito bem ter acontecido dez, quinze ou vinte anos mais tarde”, avaliam Kostine e Raynaud. A primeira versão da pesquisa de Kostine (sem a participação de Raynaud) rendeu o filme “O Caso Farewell” (“L’Affaire Farewell”), com Diane Kruger e Willem Dafoe e dirigido por Christian Carion.

O livro tem histórias paralelas impressionantes, por exemplo sobre a escalada de um espião no KGB — o nepotismo predominava na era Brejnev —, mas, num comentário breve, vou me circunscrever à exposição central de Kostine e Raynaud. A história de Vetrov começa a ganhar corpo em 1965, quando é indicado para um cargo na embaixada soviética na França. Aos 33 anos, foi para a terra de Flaubert e Proust como representante do Ministério do Exterior, embora sua função real fosse espionar e obter segredos científico-tecnológicos do governo e das empresas franceses. Sua mulher, a belíssima Svetlana, o acompanhou. 


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