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POR EM 11/07/2009 ÀS 09:05 AM

O centenário de Ataulfo Alves

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Para quem gosta de boa música, a eterna, não a dos jabás de algumas rádios e tevês, 2009 é mesmo o Ano Ataulfo. A cristalização das homenagens é o livro Ataulfo Alves — Vida e Obra, do jornalista e historiador Sérgio Cabral

Ataulfo, Roberto Carlos e Caçulinha

Elegante (e magro) como Barack Obama, refinado como Louis Armstrong e genial como Noel Rosa, Ataulfo (ou Ataulpho) Alves nasceu em 2 de maio de 1909, há 100 anos, e morreu em 20 de abril de 1969, há 40 anos. 2009 bem poderia ser chamado de “Ano Ataulfo”. Para quem gosta de boa música, a eterna, não a dos jabás de algumas rádios e tevês, 2009 é mesmo o Ano Ataulfo. A cristalização das homenagens é o livro “Ataulfo Alves — Vida e Obra” (Companhia Editora Nacional e Lazuli), do jornalista e historiador Sérgio Cabral. Não li o livro, que ainda não aparece nos sites das livrarias. Nas entrevistas, o excelente pesquisador conta uma história que, se parece nova, está documentada em pelo menos dois livros: “Ataulpho Alves — Um Bamba do Samba” (edição do autor, 272 páginas, 2004), de Luizito Pereira, e “A Canção no Tempo — 85 Anos de Músicas Brasileiras, Volume 1: 1901-1957” (Editora 34, 366 páginas, 1997), de Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello.

O samba “Ai Que Saudades da Amélia”, de Mário Lago e Ataulfo, é considerado uma obra-prima por Jairo Severiano, um dos mais categorizados historiadores da música patropi, autor do seminal “Uma História da Música Popular Brasileira — Das Origens à Modernidade” (Editora 34, 501 páginas, 2008). Severiano e Zuza dizem que se trata de “primoroso poema popular, coloquial espontâneo”. “Escrito por Mário Lago, recebeu de Ataulfo Alves uma de suas melhores melodias, que expressa musicalmente o espírito da letra.” A letra de Mário Lago, compositor inspirado (e pouco comunista, apesar de ter pertencido ao Partidão), é baseada numa história real. Aníbal Alves de Almeida, conhecido como Almeidinha, irmão da cantora Araci de Almeida, é o pai não-intelectual de “Amélia”. 

“Amélia”, segundo Severiano e Zuza, “nasceu de uma brincadeira de Almeidinha, que sempre que se falava em mulher costumava brincar — ‘Qual nada, Amélia é que era mulher de verdade. Lavava, passava, cozinhava...’. Então, Mário achou que aquilo dava samba e fez a letra inicial de ‘Ai Que Saudades da Amélia’”. Os historiadores sustentam que Amélia realmente “existiu e, possivelmente, ainda vivia à época da canção. Era uma antiga lavadeira que serviu à sua família [de Almeidinha]. Morava no subúrbio do Encantado (Zona Norte do Rio) e trabalhava para sustentar uma prole de nove ou dez crianças”.

A versão de Luizito acrescenta mais molho, mas não é muito diferente da apresentada por Severiano e Zuza. Mário conta que, em 1941, enquanto conversava com Ataulfo, Frazão e Orlando Silva, no Café Nice, “o Almeidinha começou a cantarolar a história de uma mulher que era solidária ao seu homem, que passava fome ao seu lado e achava bonito não ter o que comer. Eu e Ataulfo pensamos: isso dá um samba”.

O baterista Almeidinha admirava o desprendimento de Amélia dos Santos Ferreira, empregada de Araci (ou Aracy) de Almeida. A versão de Ataulfo, transmitida por Luizito: “Tínhamos combinado fazer o samba juntos. Eu já tinha a música e pedi os versos ao Mário. Ele escreveu o poema e me deu. Em casa, meti os peitos no samba. Mudei então alguns versos. Não o sentido. Uma ou outra palavra, trocando de lugar uma frase para melhor adaptar minha música”.  

Louis Armstrong, Juscelino Kubitschek e Ataulfo

O relato de Severiano e Zuza: “Com a letra pronta, Mário pediu a Ataulfo Alves para musicá-la. O compositor executou a tarefa, mas alterou algumas palavras e aumentou o número de versos de doze para quatorze. ‘Isso é natural’ — comentava Ataulfo, em depoimento para o MIS do Rio de Janeiro, em 17 de novembro de 1965 —, ‘as composições dos parceiros que são letristas sofrem influência minha, que sou autor de letra e música. Mas o Mário não gostou. E não adiantou dizer que a música me obrigara a fazer as modificações’. De qualquer maneira, como o samba estava bom, ficaram valendo as alterações”.

Luizito registra que Mário atacou, furibundo: “Esse samba não é meu, não escrevi isso. Pode lançá-lo sozinho”. No final de 1941, serenados os ânimos, Mário decidiu “assinar o contrato para a gravação de ‘Ai Que Saudades da Amélia’, “mas”, comunista de “mercado”, “exigiu pagamento adiantado”. Vicente Vitale, apresentado por Luizito como editor-comerciante esperto, aceitou fazer o adiantamento, mas exigiu “a exclusividade da composição”. Mais tarde, Ataulfo lamentou: “A empresa Vitale só quer me dar 10% daquilo que eu julgo com direito, e por isso não recebo um vintém”.

Resolvido o impasse, com Mário aceitando que o samba e a grana eram dele, Ataulfo sugeriu que um cantor famoso gravasse a música. Ninguém queria gravá-la. Alguns disseram para Ataulfo: “O samba é bonito, mas não é carnavalesco”. Outros ficaram com receio: “A música é boa, mas, não sei, é diferente e acho que o povo não gosta disso”. Nem Orlando Silva, o Sinatra da casa grande e da senzala, ousou gravar “Amélia”.

Na falta de um grande cantor, Ataulfo decidiu gravar o samba, no fim de novembro de 1941, com o grupo Academia do Samba e, tocando cavaquinho, Jacob do Bandolim. Lançada em janeiro de 1942, a música fez sucesso, não desagradando homens e mulheres, que entenderam aquilo que Ataulfo disse numa entrevista: “Amélia é compreensão, é ternura, é vida”. Não é um hino à submissão. “Ela simboliza a companheira ideal, que luta ao lado do marido, vivendo de acordo com suas possibilidades, sem exigir o que ele não pode dar”, acrescentou o compositor-cantor. “Amélia”, pontificou Mário, era o “símbolo da mulher brasileira” (um exagero, pois as troianas, e outras, eram tão solidárias quanto).

A mulher do presidente Getúlio Vargas, Darcy, mandou executar a música no Baile de Gala do Municipal. “O cinematografista americano Orson Welles, encarregado de dirigir a filmagem de aspectos da festa, fez questão de conhecer a letra de ‘Amélia’ em versão para o inglês, cantarolando a música durante todo o carnaval”, garaante Luizito.

Indicada para a disputa do melhor samba do carnaval de 1942, “Amélia” enfrentou “Praça Onze”, sucesso de Herivelto Martins e Grande Otelo. As duas músicas empataram, por decisão do público, e levaram a grana do prêmio.
 


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POR EM 11/07/2009 ÀS 09:05 AM

D.Maria I: louca, piedosa ou uma incógnita?

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Achincalhada por historiadores republicanos, a rainha sempre foi vista como uma fanática religiosa que teria sido levada à insânia por seus conselheiros e confessores de batina

“D. Maria I a Rainha Louca”, de Luísa Viana de Paiva Boléo

Os quinze anos em que D. Maria I (1734-1816) governou efetivamente sempre foram reduzidos pelos historiadores a um “enclave” entre o reinado de seu pai, D.José I (1750-1777), dominado pela figura marcante do seu valido, o marquês de Pombal (1699-1782), e o de D.João VI (1792-1826). Achincalhada por historiadores republicanos como J.P. de Oliveira Martins (1845-1894) e outros tantos, a rainha sempre foi vista como uma fanática religiosa que teria sido levada à insânia por seus conselheiros e confessores de batina.

A historiadora Luísa Viana de Paiva Boléo em “D. Maria I a Rainha Louca” (Lisboa: A Esfera dos Livros, 2009) não refaz totalmente essa imagem, mas também não a acentua, procurando reconstituí-la com equilíbrio, reconstruindo não só o período de sua reinação como a sua vida singular. O resultado é um retrato não só inédito desta mulher aclamada rainha a 13 de maio de 1777, aos 43 anos de idade, mas fidedigno, mais condizente com o que se sabe do período e de como se comportavam as famílias reais. Sem deixar de reafirmar o seu caráter de mulher caridosa e devota, que lhe valeu também o epíteto de Piedosa, a biógrafa mostra ainda que D.Maria foi uma mulher culta, que se preocupou em promover as artes e as ciências. E que levou a sério suas funções de governante sempre em nome dos interesses de Portugal.

De sugestão fica a hipótese que a historiadora Maria Helena Carvalho dos Santos, professora jubilada da Universidade Nova de Lisboa, avança no esclarecedor prefácio que escreveu para esta obra: a de que seria interessante fazer-se uma investigação mais apurada na documentação em busca das razões que teriam levado ao impedimento de D.Maria I, lembrando que muitas intrigas na corte ocorreram em 1792 ao tempo em que foi declarado o seu afastamento sob a alegação de uma possível insanidade mental.

Talvez tenha sido coincidência, mas é, no mínimo, curioso que a debilidade real tenha se manifestado em 1792, quando o príncipe D. João já tinha 25 anos e andava cercado por uma corte ambiciosa de poder e mudanças, como assinala Luísa Boléo. É possível que a rainha apresentasse sinais de melancolia e depressão, a uma época em que não existiam tratamentos para esse tipo de doença, mas é bastante plausível também a hipótese de que o afastamento da rainha tenha sido apressado por aqueles que viam na ascensão de um príncipe jovem a oportunidade de empolgar o poder por meio de um golpe de estado palaciano, não declarado. É de lembrar que D.João só seria declarado regente em 1799, quando a rainha tinha 65 anos, e que reinou por sete anos em seu nome.

Antes disso, a rainha, desde que assumira em substituição a seu pai em 1777, nunca se mostrara incapaz ou menos disposta aos assuntos da governação, exercendo o poder em sua plenitude. Houve, inclusive, uma tentativa de levá-la a assinar um documento que absolvia os Távoras e ela não se mostrou disposta a ir contra a decisão do próprio pai e rei. Como se sabe, os Távoras estiveram implicados no atentado a d.José I em 1758 e tiveram morte atroz. Ainda influentes na corte, os partidários dos Távoras patrocinaram um processo que visava a reabilitá-los, mas que se arrastou até 1781, sem que nunca tenha tido o desfecho que esperavam.

Por essa época, a rainha teria tido uma crise de fúria, atribuída à excessiva influência religiosa que recebia, mas tudo isso também pode ser visto por outro ângulo: se estava fora de seu juízo, por que a rainha não foi declarada louca a esse tempo? E como se pode entender que o país tenha sido governado por uma pessoa insana por tantos anos? Está claro que, por trás dessa história, haveria muitos interesses subalternos em jogo que documentos pouco analisados ou mesmo desconhecidos poderiam trazer à luz.

Não se pode esquecer que D.Maria Francisca, princesa da Beira, nascida no Paço da Ribeira, filha de D.José de Bragança e de D.Mariana Vitória de Borbón, teve uma vida atribulada: viveu a catástrofe que foi o terremoto de 1755, que destruiu Lisboa e localidades vizinhas, assistiu à execução brutal de alguns nobres acusados de conspiração, sofreu perseguições por parte do marquês de Pombal, homem de confiança de seu pai, mas teve forças para assumir o cetro e, mais importante, para afastar o ministro tão logo assumiu. Em menos de dois anos, viu morrer o marido, D.Pedro III (1717-1786), seu tio, que, segundo o testemunho de estrangeiros contemporâneos, não seria uma inteligência privilegiada, pelo contrário, e seu filho primogênito, D.José (1761-1788), causada por varíola (bexigas), a uma época em que o príncipe já estava casado e pronto para sucedê-la se tivesse herdeiro. Viu ainda a morte de sua filha e de seu genro espanhol, além da de seu confessor, frei Inácio de São Caetano.

No plano externo, acompanhou com apreensão a má sorte da família real francesa depois da Revolução de 1789 e teve de enfrentar a astúcia e a ambição dos ingleses que, a pretexto de garantir a existência do pequeno reino diante do vizinho, a poderosa Espanha, o que mais faziam era saquear o país e suas colônias, especialmente o Brasil. Tantos sobressaltos em tempos tão conturbados são considerados fatores decisivos para que perdesse a paz de espírito e a sanidade mental, mas isso é apenas uma ilação sem maiores comprovações históricas e documentais.

Obviamente, Luísa Boléo não nos responde essas dúvidas — nem esse foi o objetivo de seu trabalho —, mas nos mostra o outro lado de uma história até hoje mal contada, desde o nascimento da rainha a 17/12/1734, passando por manobras que tentaram evitar sua presença no trono — talvez porque fosse mulher, embora em Portugal não vigorasse a lei sálica —, até a sua ascensão ao poder e o exercício de um governo que, mesmo recebendo uma herança maldita, soube como assinar a paz com a Espanha, equilibrar a economia e manter a reforma do ensino laico, embora a tenham acusado de ser uma beata, sem levar em conta que a suposta fanática religiosa nunca escolheu um eclesiástico para o seu governo nem revogou a decisão de seu pai que expulsara os jesuítas do Reino e de suas colônias.

Seja como for, o que se pode concluir é que, ao seu tempo, D.Maria foi uma rainha popular, famosa por suas atitudes de benemerência. Basta ver o que disse dela o potentado santista José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838) em elogio acadêmico, a uma época em que nem imaginava que, um dia, seria figura decisiva na separação do Brasil de Portugal e passaria para a História como o patriarca da independência: “(...) quanto mais humildes e desvalidos eram os que pediam audiências, com tanto maior gosto a Rainha ouvia as suas petições e respondia aos seus queixumes”.

Ao contrário de outros historiadores, Luísa Boléo preferiu não dar nenhum palpite sobre o número de pessoas que acompanharam o príncipe regente em sua viagem ao Brasil ao final de 1807. Nem repetiu exaustivamente os mais disparatados números exibidos por outros historiadores sem apresentar nenhuma fonte de arquivo que pudesse avalizá-los, mas reconheceu que há um exagero nas estimativas que apontam para 10, 12, 15 e até 20 mil pessoas que teriam atravessado o oceano àquela época.

Como não teve a oportunidade de compulsar os documentos de arquivo, preferiu ficar com os dados de quem realmente tem estado anos a fio em arquivos brasileiros e portugueses, o arquiteto e historiador Nireu Oliveira Cavalcanti, autor de “O Rio de Janeiro Setecentista: a Vida e Construção da Cidade da Invasão Francesa Até a Chegada da Corte” (Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2004), que aponta para cerca de 500 o número de acompanhantes. Por sugestão deste articulista, Luísa Boléo conversou pessoalmente com o historiador em Lisboa, que, mesmo com margem de erro, lhe teria admitido que até 1500 pessoas, “entre fidalgos com familiares, criados de ambos os sexos e pessoal administrativo” (pág.299), poderiam ter acompanhado o príncipe.

É verdade que citou a informação do irlandês Thomas O´Neill, tenente da esquadra inglesa que acompanhou D.João e família ao Brasil, segundo a qual teriam sido 15 mil os acompanhantes, mas para contestá-la e considerá-la um tabu de 200 anos que só recentemente um historiador, de fato, ousou colocar em xeque.

Na história do Brasil, é claro, D.Maria também nunca foi bem vista, embora tenha vivido na terra brasileira nove anos, até a morte em 1816, afastada de qualquer questão de governo ou de facções palacianas, sempre bem assistida pelo filho, o príncipe regente D.João, segundo testemunhos da época. É que em 1792 a rainha assinou a sentença que condenou à forca o alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, e ao desterro outras pessoas comprometidas com a conspiração de 1789 em Minas Gerais.

É de assinalar que Tiradentes só ascendeu a mártir nacional depois da queda da monarquia em 1889, tornando-se um ícone republicano. E que à época não haveria outro desfecho para aqueles que conspiravam contra o trono. Dos papéis, o que se conclui é que havia alguns homens de dinheiro — especialmente, ex-arrematantes de contratos endividados com a Coroa — comprometidos com a conspiração, mas que o peso maior recaiu sobre o alferes que, aliás, se não era um magnata, também não era o pobretão que comumente se imagina.

Além disso, se a conjuração mineira tivesse obtido êxito — e teve todas as possibilidades de dar certo não só em razão das circunstâncias geográficas de Minas como em função da debilidade das forças do Reino para uma reação —, provavelmente, o Brasil não seria o que hoje conhecemos e, sim, um território retalhado por pequenas repúblicas como a América espanhola.

Luísa Viana de Paiva Boléo, nascida em Coimbra, é licenciada em História e tem se destacado por sua colaboração em jornais e revistas de Portugal, como “Máxima”, “Expresso”, “Público” e “Notícias Magazine” do “Diário de Notícias”. É responsável pelo site www.leme.pt que reúne pequenas biografias de muitas mulheres e alguns homens que se notabilizaram na História portuguesa e mundial.

Foi responsável pela revista da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Gênero. É sócia da Associação Portuguesa de Estudos sobre as Mulheres (Apem) e da Sociedade Portuguesa de Estudos do Século XVIII, onde colabora nas tertúlias. Dedica-se a vários estudos de história e cultura do Brasil, tendo dado na Universidade de São Paulo uma conferência sobre “Literatura de Cordial: diferenças entre Portugal e Brasil”. Em 2004, publicou “Casa Havaneza, 140 Anos à Esquina do Chiado” (Lisboa: Dom Quixote), livro evocativo dos costumes e vivências de uma casa comercial famosa e procurada por todos os turistas e de uma localidade tradicional da capital lisboeta.
 


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POR EM 04/07/2009 ÀS 10:10 AM

A guerra dos poderosos chefinhos Puzo e Sinatra

publicado em

O livro “Confissões de Mario Puzo e Revelações Sobre o Chefão” do próprio Puzo, apesar do título estrambótico, conta os desencontros do escritor e do cantor-ator

Mario Puzo e Frank Sinatra  

Frank Sinatra é o cantor Johnny Fontane de “O Poderoso Chefão”, de Mario Puzo (livro) e de Francis Coppola (filme). Durante anos, a Máfia patrocinou o amigo Sinatra e, quando sua carreira caminhava para a decadência, mafiosos, como Sam Giancana, levantaram-na com elegância e, não menos importante, violência. Ao escrever o “Chefão”, Mario Puzo não hesitou e aproveitou a história de como Sinatra conseguiu um papel importante no filme “A Um Passo da Eternidade” (1953), dirigido por Fred Zinnemann. A Máfia “deu-lhe” o papel do simpático Angelo Maggio, um soldado rebelde. Sinatra ficou “p” da vida e prometeu vingança, a maior delas ignorar Puzo em encontros sociais.

O livro “Confissões de Mario Puzo e Revelações Sobre o Chefão” (Artenova, 271 páginas), do próprio Puzo, apesar do título estrambótico, conta os desencontros do escritor e do cantor-ator. A dona do Elaine’s de Nova York, Elaine, tentou apresentar Puzo para Sinatra. Perguntou se não havia problema, Puzo disse que não, mas Sinatra não quis conversa.

Noutra ocasião, ao participar do aniversário de um milionário, no Chasen’s, em Los Angeles, perguntaram a Puzo se queria ser apresentado a Sinatra. Escaldado, o escritor disse que não. Quando ia embora, o anfitrião e um “assecla” pegaram Puzo pelas mãos e o levaram para conhecer Sinatra.

O relato de Puzo: “O milionário fez a apresentação. Sinatra não ergueu os olhos do prato nem por um instante sequer.

— Gostaria de lhe apresentar o meu amigo Mario Puzo — disse o milionário.

— Pois eu não gostaria — retrucou Sinatra.

Diante disso comecei a me afastar. Aparentemente, contudo, o pobre milionário não havia percebido, continuando a insistir.

— Eu não quero ser apresentado a ele — repetiu Sinatra”.

Como Sinatra parece ter avaliado que Puzo pedira para ser apresentado, o autor de “O Poderoso Chefão” esclareceu: “Escute, a ideia não foi minha”. “Seguiu-se, então, a coisa mais espantosa”, relata Puzo. “Ele não entendeu nada. Imaginou que eu estaria me desculpando por causa de Johnny Fontane, o personagem do meu livro.” Sinatra perguntou: “‘Quem foi que lhe disse para botar aquilo no seu livro? O seu editor?’ — perguntou ele, com a voz quase amável”.

Puzo, que dizia não aceitar interferência de editores em seus livros, corrigiu: “Eu estava me referindo a nossa apresentação”. Ao perceber que a “arte” era mesmo de Puzo, “Sinatra pôs-se a vociferar. O pior termo que usou para me ofender foi cáften, o que de certa forma foi lisonjeiro para mim que jamais conseguira de uma namorada que aos menos espremesse os cravos das minhas costas, quanto mais que trabalhasse para mim. Lembro-me ter ele afirmado que, não fosse pelo fato de eu ser mais velho, me daria uma surra inesquecível. Acontece que eu era um garoto quando ele já cantava na Paramount. O que me magoou de verdade foi ver aquele italiano do Norte ameaçando a mim, um italiano do Sul, com violência física. Tipo da coisa que não se faz. Os italianos do Norte nunca se metem com os do Sul”. Quando Coppola foi escolhido para dirigir o filme, Sinatra disse-lhe: “Sabe, Francis, eu trabalharia em ‘O Chefão’ para você. Não o faria por aqueles caras da Paramount, mas por você, sim”. Muitos cantores foram sondados para fazer Johnny Fontane, mas a maioria não quis. O primeiro a se prontificar foi Al Martino, mas Vic Damone foi consultado primeiro. Aceitou e, depois, recusou, porque era “leal” a Sinatra ou porque a grana era curta. “Al Martino acabou conseguindo o papel e, na minha opinião, saiu-se muito bem”, conta Puzo.
 


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POR EM 27/06/2009 ÀS 09:12 AM

Mencken diz que Ambrose Bierce antecipou Zola

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Os admiradores de Edgar Allan Poe certamente não vão gostar da heresia, mas Mencken diz que Bierce “escrevia melhor”. “Tinha mais pulso sobre os personagens, era menos literário e melhor observador” 

Ambrose Bierce
 
Na apresentação de sua tradução do conto “A janela vedada” (publicado na coletânea “Contos de Horror do Século XX”, escolhidos por Alberto Manguel, Companhia das Letras), o poeta Nelson Ascher diz que, como escritor, o americano Ambrose Bierce (1842-1914?) “nunca abandonou o gosto pela linguagem precisa, observação aguda, expressão concisa e, sobretudo, pela ironia corrosiva”. Ascher escreve que “o fim do escritor não destoou do restante de sua trajetória. Em 1913, com 71 anos de idade, o gringo viejo (título também de um filme de 1989 sobre seus últimos dias [estranhamente, o tradutor não menciona o romance ‘Gringo Velho’, de Carlos Fuentes, publicado em 1985 e, de algum modo, responsável pela consolidação ou ampliação do mito do aventureiro solitário]) foi ao México, então em plena revolução, para — segundo alguns — unir-se às tropas de Pancho Villa ou — segundo outros — entrevistá-lo. Seja como for, não há, depois disso, notícias confiáveis sobre Bierce. Não se sabe onde e quando morreu”. Pode ter sido em 1913 ou 1914.
 
O escritor Braulio Tavares, na apresentação do conto “Um incidente na ponte de Owl Creek” (publicado na coletânea “Contos Fantásticos no Labirinto de Borges”, Casa da Palavra), diz que a prosa de Bierce é dotada de uma “ofuscante precisão”. Ele cita S. T. Joshi: “Nenhum escritor insistiu tanto quanto Bierce na necessidade de clareza, objetividade e racionalidade, tanto no pensamento quanto na escrita”. Apesar disso, segundo Tavares, “desprezava o Realismo, que ele definia como ‘a Natureza vista através dos olhos de uma rã’”.
 
Jacques Barzun, no seu admirável “Da Alvorada à Decadência — A História da Cultura Ocidental de 1500 aos Nossos Dias” (Editora Campus, 926 páginas), escreve: “... Ambrose Bierce, além de produzir esplêndidas histórias de guerra, escreveu prosa e verso em que os seres humanos e suas instituições são retratados como hipócritas e impostores. O seu ‘Devil’s Dictionary’ (‘Dicionário do Diabo’) fora corretamente intitulado, no começo, ‘The Cynicis Word Book’ (‘O Vocabulário do Cínico’)”.
 
A Companhia das Letras reedita o ótimo “O Livro dos Insultos” (259 páginas, seleção, tradução e posfácio de Ruy Castro), no qual o crítico americano H. L. Mencken esculhamba vacas sagradas da literatura universal. A pena de Mencken não trata Bierce mal, mas há ressalvas... precisas sobre sua prosa.
 
No ensaio, publicado em 1927 (guarda o frescor das obras que não morrem), Mencken diz que “quase todos os seus livros estão fora de circulação, exceto dois que me parecem pérolas: um deles consiste numa série de epigramas, chamado ‘O Dicionário do Diabo’; o outro consiste em algumas das melhores histórias de guerra já escritas, intitulada ‘Tales of Soldiers and Civilians’. O primeiro contém alguns dos mais brilhantes witticisms em língua inglesa; o segundo nada fica a dever a Zola, Kipling ou Ludwig Thomas”.
 
Bierce, avaliza Mencken, “foi o primeiro escritor de ficção a tratar a guerra com realismo. Antecipou-se inclusive a Zola”. Mencken, que conheceu o escritor, assinala que “ele extraiu de sua participação na guerra [Civil Americana, 1861-1865] não foi um horror sentimental a ela, mas uma espécie de cínico deleite. (...) O mundo via a guerra como algo heróico, glorioso, idealista. Pois bem, ele iria mostrar como ela era sórdida e suja, estúpida, selvagem e degradante, embora isso não queira dizer que ele a desaprovasse. Ao contrário, Bierce via na guerra uma oportunidade de ouro para discutir com maligna satisfação sua ideia fixa: a da infinita imbecilidade do homem. Não havia uma gota de leite de gentileza humana no velho Ambrose; ele não ganhou o apelido de ‘Bitter’ (amargo) Bierce por acaso. O que mais o deliciava na vida era o espetáculo da tolice e covardia do homem, o qual ele classificava, intelectualmente, entre uma ovelha e uma vaca e, como herói, ligeiramente inferior aos ratos”.
 
As histórias de guerra de Bierce, nota Mencken, “não descrevem os soldados como heróis; mostram-nos como bobos perdidos, fazendo coisas sem sentido, submetendo-se a violências e torturas sem resistir, e finalmente morrendo como porcos. Até hoje, de fato, nunca vi um cínico tão completo quanto Bierce. Sua descrença no homem era ainda maior que a de Mark Twain. (...) O homem, para ele, podia ser o mais estúpido e ignóbil dos animais, mas era também o mais divertido. Do espetáculo da vida que o cercava, tirava uma alegria implacável e gargantuesca. A farsa obscena da política o deleitava. (...) Rolava de rir só ao pensar em professores, médicos ou maridos”.
 
O escritor tinha um gosto especial pelo macabro. “Todos os seus contos o demonstram. Adorava assistir a enforcamentos, autópsias e dissecações. A morte, para Bierce, não era algo repulsivo, mas uma espécie de comédia vulgar — o último ato de uma bufonaria esquálida e barata”. Ao sugerir que as cinzas do filho de Bierce estavam guardadas numa bela urna, Mencken recebeu uma resposta ácida: “Urna o cacete! Guardo as cinzas numa caixa de charutos”.
 
Os admiradores de Edgar Allan Poe certamente não vão gostar da heresia, mas Mencken diz que Bierce “escrevia melhor”. “Tinha mais pulso sobre os personagens, era menos literário e melhor observador.”
 
Entre os epigramas de Bierce, que Mencken julga como dos melhores já escritos, figuram: “Ah, se pudéssemos cair nos braços das mulheres sem cair em suas mãos” e “A gíria é a fala de quem assalta as latas de lixo literárias, a caminho do esgoto”.
 
Depois dos elogios, as pancadas. Mencken diz que, como crítico literário, Bierce não era “consistente”. Faltavam-lhe leituras amplas e atentas. “Pôs Longfellow acima de Whitman. (...) Seu próprio estilo era extraordinariamente tenso e pouco elástico, e seu pavor à retórica parecia tirar a vida de suas ideias. Seus contos, apesar da eficiência melodramática, começaram a parecer antigos porque pertenciam a uma época em que eram escritos como exercício de estilo, e não como uma transcrição da vida. As pessoas neles não vivem nem respiram. (...) Os contos de Bierce são lidos hoje não como literatura, mas para provocar sustos. Alguns deles merecem uma espécie de melhor de imortalidade."
 
Como crítico social, Bierce, apesar de divertido, não era profundo, mas, ressalta Mencken, “ele foi o primeiro a disparar, com o maior prazer, contra os blefes que infestavam o país. (...) Nenhuma cabeça era coroada o suficiente para escapar de suas bordoadas”.
 
 
O Mencken do aforismo
 
No romance "O Velho Gringo" ("Gringo Velho", na tradução brasileira), o escritor mexicano Carlos Fuentes diz que Bierce "entrou no México em novembro [de 1913] e nunca mais se soube nada dele. O resto é ficção". O coronel Frutos García, personagem do romance de Fuentes, diz: "O velho gringo veio ao México para morrer". Havia trabalhado como jornalista nos Estados Unidos e na Inglaterra, escreveu prosa, poesia, ensaios e aforismos.
 
Obras de Bierce traduzidas no Brasil: "O Dicionário do Diabo" (publicado por duas editoras: Mercado Aberto e Tinta da China), "Visões da Noite — Histórias de Terror Sarcástico" (Record, 222 páginas, tradução de Heloisa Seixas), “No Coração da Guerra” (Artenova, tradução de Jurema Finamour. É uma coletânea de contos sobre a Guerra Civil americana). Outras traduções podem ser encontradas no site Estante Virtual (www.estantevirtual.com.br).
 
A obra mais conhecida de Bierce é "O Dicionário do Diabo" (Mercado Aberto, páginas). São aforismos endiabrados, na linha de Karl Kraus e Nelson Rodrigues. Pode-se dizer que Bierce era o Mencken do aforismo.
 
 
O sexto sentido do prosador americano
 
No conto "A Janela Vedada", que tem um quê de conto de fada, sem fada, Ambrose Bierce relata a história de Murlock, um homem solitário que mora numa região erma. Quando sua mulher morre, Murlock prepara o corpo para enterrá-lo no dia seguinte. De repente, na escuridão da noite, aparece um vulto. O homem assusta-se mas recupera o controle ("há um ponto no qual o pavor se converte em loucura e a loucura instiga a ação") e atira. Mata a pantera que tentava carregar o corpo da mulher aparentemente morta. O narrador conta que "havia entre os dentes um pedaço da orelha do animal", como se tivesse mordido a pantera. Bierce não esclarece, ou esclarece ao seu modo, o que de fato ocorre. Como diz Nelson Ascher, a descrição é precisa. A imaginação talvez nem tanto, acrescento.
 
Outro conto célebre de Bierce, "Um incidente na ponte de Owl Creek" (publicado na coletânea "Contos Fantásticos no Labirinto de Borges", seleção e apresentação de Braulio Tavares, Editora Casa da Palavra), ganhou tradução esmerada de Heloisa Seixas (a tradução de Lourival Gomes Machado, publicada na coletânea "Contos Americanos - Os Clássicos", Ediouro, saiu com o título de "Uma ocorrência na ponte de Owl Creek").
 
Na época da Guerra Civil Americana, o fazendeiro sulista Peyton Farquhar descumpre determinação do Exército e é condenado à forca na ponte de Owl Creek. Bierce mantém a história em suspense, contada a partir do ponto de vista de Farquhar, que imagina ter caído na água e, assim, escapado de seus captores. Ocorre que o senhor de escravos do Alabama estava morto. Lembra o Machado de Assis de "Memórias Póstumas de Brás Cubas", sem o talento do brasileiro.
 
Ao contar as duas histórias, espero não ter atrapalhado o prazer dos possíveis leitores. Porque, se resumi os contos, inclusive os arremates, não dei seus detalhes. Carlos Fuentes, no romance “Gringo Velho” (página 149, edição da Dom Quixote, publicado com o título de “O Velho Gringo”), escreve: “Porque um homem pode estar ao mesmo tempo pendendo de uma ponte com uma corda ao pescoço, a morrer e a observar a sua morte do outro lado de um rio”. É uma referência ao conto citado aqui.
 

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POR EM 12/06/2009 ÀS 01:02 PM

William Faulkner em alto estilo

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William Faulkner

“Ab­sa­lão, Ab­sa­lão!”, de Wil­li­am Faulkner (1897-1962), tra­du­zi­do pe­la No­va Fron­tei­ra, não cons­ta nas li­vra­ri­as há vá­rios anos. Com sor­te, é pos­sí­vel en­con­trar uma edi­ção con­ser­va­da nos se­bos. O ro­man­ce, um dos mais im­por­tan­tes do es­cri­tor ame­ri­ca­no, ga­nha no­va edi­ção, da Co­sac­naify, es­te mês, com tra­du­ção de Cel­so Pa­cior­nik. Re­por Faulkner na pra­ça, so­bre­tu­do nas edi­ções e tra­du­ções com­pe­ten­tes da Co­sac­naify, é uma gran­de no­tí­cia cul­tu­ral. 

Trecho de “Absalão, Absalão!”

“Isso foi tudo que a cidade saberia dele por quase um mês. Aparentemente, havia chegado à cidade vindo do Sul — um homem com cerca de vinte e cinco anos, como a cidade ficou sabendo depois, porque na época sua idade não poderia ter sido adivinhada porque ele parecia um homem que estivera doente. Não como um homem que tivesse pacientemente na cama e se recuperado para se mover com uma espécie de reservado e ensaiado espanto num mundo em que ele se acreditasse prestes a submeter, mas como um homem que passara por alguma experiência solitária de fornalha que era mais do que simples febre, como diz um explorador, que não só tinha que enfrentar a dificuldade normal da busca que escolhera, mas fora tragado pelo obstáculo adicional e imprevisto da febre também e a combatera com enorme custo, menos físico do que mental, sozinho e sem ajuda e não peço impulso cego e instintivo de resistir e sobreviver, mas de ganhar e conservar para desfrutar o prêmio material pelo qual aceitara a aposta original. Um homem de compleição grande, porém agora descarnada, com uma barba curta e avermelhada que parecia um disfarce e por cima da qual seus olhos claros tinham uma qualidade ao mesmo tempo visionária e alerta, implacável e descansada, num rosto cuja carne tinha uma aparência de cerâmica, de ter sido colorido por aquela febre de forno de alma ou ambiente, mais profunda que a do sol apenas embaixo de uma superfície morta impenetrável como se de argila esmaltada. Isso foi o que eles viram, embora tenham passado anos até a cidade saber que isso era tudo o que ele possuía na época — o cavalo forte e esgotado, as roupas do corpo e um pequeno alforje onde mal cabiam uma muda de roupa branca e as navalhas, e as duas pistolas sobre as quais a srta. Coldfield já contara a Quentin, com as coronhas gastas pelo uso como cabos de picareta e que ele usava com a precisão de agulhas de tricotar; mais tarde o avô de Quentin viu Supten cavalgar num meio-galope e meter duas balas numa carta de baralho pregada numa árvore. Ele tinha um quarto na Pensão Holston, mas levava a chave consigo e toda manhã alimentava e selava o cavalo e saía cavalgando antes do dia clarear, para onde a cidade também não conseguiu saber, provavelmente pelo fato de que ele deu a demonstração de pistola no terceiro dia depois da sua chegada. Assim, eles tiveram que depender de indagações para descobrir o que pudessem sobre ele, o que necessariamente seria à noite, à mesa na sala de jantar da Pensão Holston ou no salão que ele teria que cruzar para alcançar seu quarto e trancar a porta de novo, o que ele faria tão logo terminasse de comer. O bar também dava para o salão, e esse seria ou poderia ter sido o lugar para abordá-lo e mesmo inquiri-lo, exceto pelo fato de que ele não frequentava o bar. Ele não bebia, assim disse a eles. Não disse que costumava beber e tinha parado, nem que jamais tivesse consumido álcool. Disse simplesmente que não se interessava por bebida; levou anos até o avô de Quentin (ele era jovem, então. Anos se passariam até ele se tornar o General Compson) saber que a razão por que Supten não bebia era que ele não tinha dinheiro para pagar a sua parte ou retribuir a cortesia; o General Compson foi o primeiro a perceber que nessa época Supten carecia não só de dinheiro para gastar com bebida e sociabilidade, mas também de tempo e inclinação; que ele era, nessa época, escravo absoluto de usa secreta e furiosa impaciência, da convicção que tinha adquirido sabe-se lá em que experiência recente — aquela febre mental ou física — de uma necessidade de pressa, de tempo fugindo embaixo dele, que o iria mover nos cinco anos seguintes — tal como o General Compson o computou, aproximadamente até cerca de nove meses antes de seu filho nascer.” (O trecho de “Absalão, Absalão!”, romance de William Faulkner, foi extraído da revista “Cult”. A tradução é de Celso Paciornik. A editora é a Cosacnaify.)

 

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POR EM 07/06/2009 ÀS 10:43 AM

Centenas de brasileiros lutaram ao lado dos nazistas

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Pela legislação nazista, filhos de alemães eram considerados alemães e, em tempo de guerra, eram obrigados a prestar serviço militar na Wehrmacht — forças armadas alemãs


 Dennison de Oliveira, autor de "Os Soldados Brasileiros de Hitler"

 
O mestre em ciência política e doutor em ciências sociais Dennison de Oliveira, professor da Universidade Federal do Paraná, escreveu um livro muito bom, mas ainda exploratório, sobre brasileiros, filhos de alemães, que lutaram na Segunda Guerra Mundial (1939-1945) ao lado dos nazistas de Adolf Hitler. “Os Soldados Brasileiros de Hitler” (Juruá, 122 páginas) não contém aquelas pesquisas exaustivas típicas de scholars europeus e norte-americanos. Leitores exigentes, e não apenas os do meio acadêmico, certamente estranharão o fato de que os personagens do livro, todos reais, não aparecem com seus nomes verdadeiros. Os nazistas teuto-brasileiros só falaram com o historiador com a garantia de que suas identidades seriam preservadas. Como se sabe, os caçadores de nazistas não se aposentaram e, de repente, aqueles que lutaram apenas como soldados, sem comprometimento algum com o Holocausto e os outros crimes bárbaros, podem ter suas vidas expostas e, em consequência, execradas. Para provar que os depoimentos são verdadeiros, que não há invenção literária, Dennison divulga fotografias e dados precisos sobre os militares nazistas. Um escarafunchador de arquivos e entrevistador implacável como o repórter Fernando Morais faria miséria com a história dos soldados patropis de Hitler.

Pela legislação nazista, filhos de alemães eram considerados alemães e, em tempo de guerra, eram obrigados a prestar serviço militar na Wehrmacht (forças armadas alemãs). “Presumo que algumas centenas de brasileiros lutaram na Segunda Guerra Mundial sob a bandeira da Alemanha nazista”, escreve Dennison. O termo “presumo” significa que o assunto está à espera de uma pesquisa rigorosa, que, quem sabe, poderá ser feita pelo próprio historiador, que apurou (bem) as primeiras pistas.

Um dos primeiros entrevistados de Dennison era conhecido por seus colegas soldados como “Der Amerikaner” (o Americano), por ter nascido no Brasil. Como seu apelido era Gingo (ou Güingo, a pronúncia), o historiador usa as iniciais G. S.

Gingo (está vivo) nasceu em São Paulo, em 1925, filho de alemães que vieram para o Brasil em 1923. Em agosto de 1939, Gingo é levado para a Alemanha, para se “tratar” de febre amarela. Aos 14 anos, teve se filiar na Jungvolk, “organização juvenil controlada pelo regime nazista”. A doutrinação ideológica, segundo o entrevistado, não era fanática nem excessiva. Em 1942, aos 18 anos, foi convocado para o serviço militar. Alegou que era brasileiro e recebeu como resposta: “Se você tivesse nascido na África isso faria de você um negro?”

Enviado para a Tchecoslováquia, Gingo se tornou sargento-canhoneiro. O comando nazista decidiu enviá-lo para lutar na Itália. “Não me nego a ir ao front, mas não contra meus patrícios brasileiros”, disse ao capitão de sua unidade. Por se recusar a lutar, deveria ser fuzilado. “O sargento G. S. suava de escorrer suor pelas costas e nádegas”, mas resistiu. Um major decidiu protegê-lo, alegando que estava gravemente doente. Mais tarde, transferido para a infantaria, lutou contra o Exército Vermelho, na atual Eslováquia. Em Budapeste, “no posto de 3º sargento da infantaria, ele foi colocado no comando de um grupo de combate de sete homens, equipados com fuzis e uma única metralhadora de origem tcheca capturada aos partisans. As restrições no que se refere ao remuniciamento também eram pesadas: ele lembra de só ter disponíveis uns vinte tiros para cada arma, o que explica as limitações impostas: máximo de um ou dois disparos por arma; acima disso podia-se atirar somente com ordem superior”.

Intensamente bombardeado pelos soviéticos, o grupo de Gingo praticamente não dormia. Ele diz que às vezes dormia andando. Na região do lago Valence, G. S. se destacou nos combates e recebeu a Cruz de Ferro de Segunda Classe por bravura e foi promovido a 1º sargento. O militar conta que os húngaros temiam mais os soviéticos do que os alemães. O soviéticos estupravam meninas, mulheres adultas e idosas.

Preso pelos soviéticos, Gingo teve o relógio, presente de um padrinho brasileiro, roubado por um comissário esquerdista. Percebendo que teria um fim trágico nas mãos dos comunistas, Gingo escapou, junto com outros militares, e encontrou uma garota (os soviéticos “pregaram o avô dela com um prego pela língua” numa mesa, bateram em sua irmã, criança, e estupraram a avô e a mãe). Depois, o sargento caiu nas mãos dos americanos. “Para os soldados alemães era um alívio, um mal menor, ser prisioneiro dos americanos e não dos russos. O alemão não tinha medo, mas sim pavor do russo”, conta Gingo.

Num campo de prisioneiros, Gingo passou a fazer trabalhos braçais para os americanos. “A obra a qual foi destinado foi o desenterramento do cabo terrestre de comunicação Berlim-Roma, enterrado a três metros de profundidade, cujos condutores os americanos ambicionavam para si.” Relata o sargento G. S.: “Os soldados retornados às suas cidades recebiam as cartelas de racionamento de alimentos pelo prazo de três semanas. Mas tinham que obrigatoriamente assistir ao filme ‘Moinho do Diabo’ sobre atrocidades cometidas pelos alemães contra seus prisioneiros. De repente esse filme foi tirado de circulação, pois muitos soldados se reconheceram nesse filme como sendo eles os prisioneiros, e os Aliados, os carrascos”, conta Gingo. (Leia mais no site www.jornalopcao.com.br, na coluna Imprensa).

O sargento Gingo, deslocado para trabalhar numa pedreira, disse que era brasileiro e, por isso, perdeu o cartão de racionamento. Acusado de ser líder proeminente da Juventude Hitlerista, foi enviado para Hammelburg, um campo de concentração. Ficou três dias sem se alimentar e foi obrigado a trabalhar. “Com o tempo ele se convenceu de que havia o propósito da administração do campo em exterminar os detentos através da fome induzida. Para complementar a dieta ele teve de comer capim e cascas de árvores e lixo da cozinha”. Muitos prisioneiros morreram. Certa vez, a Cruz Vermelha enviou pacotes de alimentos e os guardas pró-americanos, supostamente filhos de judeus alemães, “colocaram os prisioneiros em forma e jogaram gasolina em cima de tudo e colocaram fogo”.

As pressões só cessaram quando o general americano George Patton visitou o campo. “Patton considerava o soldado alemão um soldado exemplar, que deveria ser respeitado”, anota o historiador. “Der Amerikaner atribui a essa visita do general americano o fato de sua vida e a de seus companheiros terem sido poupadas.”

Gingo ficou oito meses em Hammelburg e três meses em Darmstadt, “um grande campo para estrangeiros que serviram ao III Reich”. Em fevereiro de 1948, com o aval da Junta de Desnazificação e do subchefe da Missão Militar Brasileira, tenente-coronel Aurélio de Lyra Tavares, o Americano voltou ao Brasil, no navio Santarém.

A história de Fritz (pseudônimo) e seus irmãos é uma das mais interessantes do livro de Dennison. Fritz nasceu em São Paulo, em 1928. Os pais, que chegaram ao Brasil em 1923, tiveram cinco filhos, Renate, Karl e Martin, nascidos na Alemanha, e Peter e Fritz, nascidos no Brasil. Peter lutou como nazista, na frente russa, e sobreviveu, radicando-se em São Paulo.

Martin contou a Dennison a história dos irmãos Gerd Emil Brunckhorst e Paul Heinrich. O primeiro lutou na Itália, ao lado dos brasileiros. O segundo morreu no front russo, lutando como nazista.

No início da década de 1940, com 14 anos, Fritz filiou-se à Jungvolk. Em 1942, a família foi informada da morte de Karl, do Afrika Korps, na África do Norte. Lutou sob o comando do marechal Erwin Rommel. “Entre 1943 e 1944”, Fritz “entrou para a Marine-Hitlerjugend, a Juventude Hitlerista Naval.” Em 1944, foi convocado para “prestar serviço como” auxiliar “da defesa antiaérea”. Em Berlim, presenciou os ataques diurnos dos aviões Aliados. “Nunca tinha visto tantos aviões juntos de uma só vez.” Os incêndios pareciam tomar conta de toda a Berlim. Viu pessoas queimadas, desfiguradas e mortas. Na cidade de Wetzlar, no Estado de Hessen, Fritz foi “incorporado ao serviço ativo no exército alemão”. Foi enviado para lutar contra os americanos. “Seu grupo foi dizimado. Ele e mais dois colegas conseguiram ir de carona, sem terem recebido ordens para isso, num caminhão carregado de munição até a Turíngia.” Os americanos o aprisionaram em março de 1945. Passou fome durante o transporte para um campo de prisioneiros de Bad Kreuznach.

O relato de Dennison a partir dos apontamentos do ex-soldado: “Fritz lembra que ele e seu grupo foram os primeiros a entrar no campo que consistia de um descampado plano, cercado de arame farpado. Inexistiam alojamentos ou instalações sanitárias, o que obrigava os reclusos a dormirem ao relento, sob um clima úmido e extremamente frio, sempre dispondo de pouca comida. Nesse momento a fala de Fritz se torna mais contida, ao recordar o elenco de misérias e brutalidades a que foram submetidos os prisioneiros alemães. (...) Ele conta que as pessoas defecavam e urinavam em grandes fossas a céu aberto. Os mais enfraquecidos pela fome e pela doença caíam dentro dessas fossas e, sem forças para se safar, morriam afogados da maneira mais abjeta em excrementos humanos. No desespero de obterem pelo menos algum conforto, os prisioneiros chegavam a trocar suas alianças de ouro por alguns cigarros com seus guardas norte-americanos”. A história contada por Fritz raramente aparece nos livros, porque, teoricamente, muitos acreditam que, como fizeram sofrer, os alemães também deveriam sofrer. A história da internação dos alemães, no fim da guerra, é um capítulo que merece resgate mais amplo. A versão dos americanos como captores benevolentes talvez precise ser refeita, embora não fossem, é claro, tão bárbaros quanto os soviéticos.

No campo, relata Fritz, “um grupo significativo de alemães morria” todo dia. “Se você perguntar a qualquer alemão o que foi um campo de extermínio, certamente ele irá te mencionar algum desses, de prisioneiros de guerra que os americanos improvisaram”. Fritz pegou tifo no campo e passou muito mal.

Em 1945, doente, Fritz conseguiu voltar para a casa dos pais. Recebeu informações sobre os irmãos. Martin havia sido aprisionado pelos russos, na Romênia. Peter estava na zona de ocupação inglesa. Renate estava em Portugal, na Embaixada Alemã. Recuperado, Fritz trabalhou na zona de ocupação russa e, mais tarde, fugiu para o lado americano, escapando para a Holanda. Em 1947, ele e Peter voltam para o Brasil, “no navio Santarém, primeiro navio brasileiro a fazer a rota até a Alemanha, saindo de Hamburgo com escala em Lisboa”.

Como saíra jovem do Brasil, Fritz descobriu que não sabia mais falar português e teve de ser amparado pelo irmão Peter, que não havia esquecido a língua. Fritz trabalhou na fábrica de fogões Wallig, em São Paulo, e na empresa MacMillan. Foi funcionário e sócio da Jarosch & Cia, representante da fábrica de armarinhos Ipu, de Nova Friburgo.

Ao contrário de nazistas que esqueceram o nazismo, Fritz contou a Dennison que era “entusiasta do regime”. “Ele se recorda de que, ao contrário do que hoje se imagina, as preleções políticas e doutrinárias aos jovens não tinham nada de exagerado. A despeito da inexistência de qualquer esforço para ‘fanatizar’ os jovens, ele próprio manteve até o fim a fé na vitória da Alemanha sobre os seus inimigos, mesmo quando já se encontrava em um campo de prisioneiros norte-americano em março de 1945. Ele lembra que os mais velhos — cita a sua própria mãe como exemplo — eram consideravelmente mais céticos com relação ao futuro do país sob regime nacional-socialista”.

Fritz foi entrevistado por Dennison em São Paulo, em 2002, e faleceu em 2006. Estava muito doente quando conversou com o historiador.

Cruz de ferro — Martin, irmão de Fritz, foi entrevistado por Dennisson em 2002, em São Paulo. Convocado em 1941, foi enviado para Posen, “no antigo corredor polonês”. Lutou contra partisans, na Lituânia, e contra tropas soviéticas. Foi condecorado (com a cruz de ferro) pelas batalhas contra as tropas comunistas. Ferido em combate, foi levado para a França. Recuperado, voltou para a mortal frente soviética, na Ucrânia, “sem armas. Toda divisão seria reequipada e armada lá mesmo na frente russa, na região de Poltava, tendo seguido depois para as margens do Rio Dnieper ao sul de Kharkhov”. Contraiu malária e foi retirado do front. Retornou à luta em abril de 1944, na artilharia, na Romênia. Tornou-se comandante de uma bateria. “O dia mais marcante no front, segundo suas lembranças, foi 22 de agosto de 1944. Naquele dia, intenso fogo de artilharia russa engolfou as posições alemãs de norte a sul, em apoio de um grande ataque das tropas soviéticas.” Sob pressão dos soviéticos, as tropas alemãs recuaram e entupiram as estradas, em fuga. Foi ferido outra vez, pelos soviéticos.

Capturado pelos soviéticos, Martin foi roubado. “Apesar de estar precariamente vestido, os seus captores fizeram questão de tirar-lhe os pertences pessoais, as botas, e parte das calças, estas últimas tiradas a faca pelos” soviéticos, “como resposta a sua alegação de que esta não sairia facilmente de seu corpo.” No trajeto para um campo de prisioneiros, foi novamente roubado pelos soviéticos, “que desta vez levaram-lhe as meias, que ele recorda estarem já empapadas de sangue coagulado. Quando finalmente chegou ao campo, estava descalço e seminu”.

Martin passou cinco anos em campos de prisioneiros para militares alemães. Passou fome e foi intensamente pressionado pelos soviéticos. “Em 1950 ele foi devolvido pela URSS à recém-fundada República Federal da Alemanha.” De lá, voltou ao Brasil. Mora em São Paulo e planeja escrever um livro sobre sua história.

Banzo brasileiro — Hans (pseudônimo), brasileiro que lutou como nazista, foi entrevistado por Dennison em 2002. Nasceu em São Paulo, em 1926. Os pais, austríacos, voltaram para a Europa em 1938. Na Alemanha, filiou-se à Jungvolk e, depois, à Juventude Hitlerista. Lembra-se de Hamburgo bombardeada pelos Aliados. “A fúria dos ataques aliados promovera incêndios tão extensos (e prolongados — foi em Hamburgo que se empregou pela primeira vez a tática de revezamento ininterrupto de bombardeios diurnos norte-americanos com noturnos britânicos — naquilo que era conhecido como o ‘round-o-clock bombing’) que o asfalto das ruas se derretia e neles as pessoas em fuga acabavam presas.”

Em 1944, o garoto Hans foi convocado “para prestar o serviço militar no exército”. No fim desse ano, foi enviado para a Tchecoslováquia. Em busca de alimentos, encontrou grãos de café e sentiu saudade do Brasil. Em 1945, ainda na Tchecoslováquia, quase perdeu os pés, por conta do frio. “Os médicos decidiram pela amputação de parte das extremidades dos dedos dos seus dois pés, irremediavelmente comprometidos pela gangrena. Apesar de anestesiado, no período pós-operatório delirou intensamente, xingando e praguejando o tempo todo em português, para assombro do pessoal médico que o assistia.”

Hans diz ter ficado sabendo do relacionamento entre Hitler e Eva Braun apenas em 1945, quando, prisioneiro dos americanos, leu uma reportagem num jornal do exército dos Estados Unidos. A imprensa alemã não divulgava a história.

Repatriado, Hans chegou ao Brasil em 1947 e seus pais, em 1948. “Ele lembra que foram os primeiros brasileiros a serem repatriados.” Ele vive em São Paulo.

Selvageria soviética — Filho de alemães, Max nasceu no Brasil, em Santa Leopoldina, em 1928. Quando tinha 7 anos, em 1935, os pais voltaram para a Alemanha. Aos 10 anos, em 1938, entrou para a Jungvolk. Em 1942, aos 14 anos, ingressou na MarinerHitlerJugend, o ramo da juventude hitlerista administrado pela Marinha. O irmão Hans (que não é o Hans citado anteriormente) foi morto na frente soviética.

Entre 1944 e 1945, Max “ofereceu-se como voluntário para o trabalho de cavar trincheiras antitanques perto de Bratislava, na Tchecoslováquia. (...) No início de 1945 voltou a Berlim para se alistar seguindo logo depois para Viena na Áustria. Não chegou a se envolver em operações de combate”.

Max diz que o bombardeio de Berlim foi impressionante. “Numa única noite de bombardeio todo seu bairro foi inteiramente arrasado.” No fim da guerra, ele estava em Berlim. Sua família entrou em contato com o major Rubens, do Exército brasileiro com o objetivo de voltar para o Brasil. “Nessa ocasião [Max] presenciou diversas cenas de atrocidades por parte das tropas” soviéticas “de ocupação. Ele se recorda de que o comportamento e o nível de instrução das tropas sob comando” soviético “era extremamente rude e primitivo. Ele se lembra de ter visto soldados” soviéticos “arrancarem e levarem consigo as torneiras das paredes de banheiros e cozinhas, imaginando que assim poderiam ter água em qualquer lugar... Lembra também de vários casos de violência sexual perpetrada por russos contra mulheres alemãs de todas as idades que, até onde ele pôde perceber, eram tolerados senão encorajados pelos próprios escalões superiores da hierarquia militar soviética.”

Para livrar-se dos soviéticos, Max fugiu para a zona de ocupação francesa, onde viveu até 1947. Voltou para o Brasil nesse ano. Max vive em São Paulo.

Fome e porcos — Chicco (pseudônimo) foi o último entrevistado de Dennison. Nasceu em São Paulo, em 1927, e foi enviado pelos pais para a Áustria em 1939. Ele e um irmão se filiaram à Juventude Hitlerista. Em 1943, tornou-se auxiliar da Força Aérea Alemã. Participou de treinamentos na Alemanha, na Dinamarca e na Holanda. O soldado britânico que o capturou gritou: “... um brasileiro! Pegamos um brasileiro!” Depois de interrogado, foi jogado “por seus captores num chiqueiro onde havia alguns porcos grandes e famintos. Ali ele passou o seu primeiro dia como ‘prisioneiro de guerra’”.

Como falava inglês fluentemente, Chicco trabalhou para os ingleses. Na Holanda, contou o soldado, “se passava muito frio e se sofria muita fome”. Ele relata que “presenciou vários linchamentos de soldados alemães pelos civis locais”. Em maio de 1945, quando a guerra acabou, Chicco estava na cidade de Neuburg, próximo ao Rio Reno.

Chicco “convenceu seus captores a libertá-lo, o que possibilitou viajar até Antuérpia, na Bélgica. Lá ele finalmente conseguiu ser recebido pelo vice-cônsul brasileiro que, na sua lembrança, se chamava Júlio Diogo. Ele é que providenciou seu retorno ao Brasil de navio”. O pesquisador optou por não verificar quem é Júlio Diogo. Chicco trabalhou na Volkswagen e morreu em São Paulo em 2008.

Depois da guerra, cerca de 5 mil pessoas foram “repatriadas”. O coronel Lyra Tavares contabilizou “o envio para o Brasil de 2.445 brasileiros e 2.752 estrangeiros”.
 

 


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POR EM 05/06/2009 ÀS 08:02 PM

Histórias das cicatrizes de uma Angola em transição

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Co­le­tâ­nea pu­bli­ca­da em 2001, e que só ago­ra che­ga ao lei­tor bra­si­lei­ro, en­fei­xa dez tex­tos que re­ve­lam to­do o vi­gor e ver­sa­ti­li­da­de de um es­cri­tor que traz no bo­jo de sua nar­ra­ti­va uma pro­fun­da e acu­ra­da con­sci­ên­cia es­té­ti­ca im­pul­si­o­na­da por uma vi­são so­ci­al e po­lí­ti­ca de seu Pa­ís, sem, con­tu­do, su­cum­bir às afe­ta­ções de uma pro­sa en­ga­ja­da ou aos ca­co­e­tes de um mer­gu­lho ide­o­ló­gi­co  


Con­ti­nen­te mul­ti­fa­cé­ti­co e cul­tu­ral­men­te fas­ci­nan­te, ape­sar das con­tra­di­ções vi­vi­das por um po­vo que ex­pe­ri­men­ta tan­to as guer­ras e con­fli­tos ét­ni­cos quan­to a mi­sé­ria e a po­bre­za, a Áfri­ca vem ofe­re­cen­do ao res­to do mun­do uma li­te­ra­tu­ra de qua­li­da­de in­ques­ti­o­ná­vel, se­ja na fic­ção ou na po­e­sia. Nes­se ter­ri­tó­rio ain­da es­tig­ma­ti­za­do pe­la du­re­za de uma re­a­li­da­de tão cru­ci­al e de­sa­fi­a­do­ra, tan­to no pla­no po­lí­ti­co-ide­o­ló­gi­co quan­to nos de­sa­fi­os eco­nô­mi­cos e so­ci­ais, en­con­tra­mos au­to­res que re­pre­sen­tam um mo­men­to sin­gu­lar em sua his­tó­ria li­te­rá­ria. Já não é pre­ci­so fa­lar de al­guns no­mes so­be­ja­men­te res­pei­ta­dos no ce­ná­rio in­te­lec­tu­al con­tem­po­râ­neo, cu­jas obras en­con­tram res­so­nân­cia em to­dos os con­ti­nen­tes, a exem­plo de Lo­bo An­tu­nes, Mia Cou­to, Pe­pe­te­la, Jo­sé Cra­vei­ri­nha, Lu­an­di­no Vi­ei­ra, Jo­sé Eduar­do Agua­lu­sa, Nel­son Sa­ú­te, Ondjaki, Mi­guel Gul­lan­der den­tre ou­tros. A sa­fra li­te­rá­ria de au­to­res lu­só­fo­nos dos paí­ses afri­ca­nos vem con­fir­mar não ape­nas a vi­ta­li­da­de cri­a­ti­va des­ses es­cri­to­res, co­mo a afir­ma­ção de uma li­te­ra­tu­ra de lín­gua por­tu­gue­sa que a ca­da dia mais se con­so­li­da além das fron­tei­ras lu­so-bra­si­lei­ras.

En­tre as obras que aca­bam de che­gar ao Bra­sil, “Fi­lhos da Pá­tria”, de Jo­ão Mel­lo, uma das vo­zes mais re­pre­sen­ta­ti­vas da atu­al pro­du­ção li­te­rá­ria de An­go­la, é si­nal mar­can­te des­se “bo­om” fic­cio­nal. Es­sa co­le­tâ­nea de dez con­tos pu­bli­ca­da em 2001, e que só ago­ra che­ga ao lei­tor bra­si­lei­ro, en­fei­xa dez tex­tos que re­ve­lam to­do o vi­gor e ver­sa­ti­li­da­de de um es­cri­tor que traz no bo­jo de sua nar­ra­ti­va uma pro­fun­da e acu­ra­da con­sci­ên­cia es­té­ti­ca im­pul­si­o­na­da por uma vi­são so­ci­al e po­lí­ti­ca de seu Pa­ís, sem, con­tu­do, su­cum­bir às afe­ta­ções de uma pro­sa en­ga­ja­da ou aos ca­co­e­tes de um mer­gu­lho ide­o­ló­gi­co.

Nos ex­tra­tos nar­ra­ti­vos de “Fi­lhos da Pá­tria”, a cru­e­za de uma re­a­li­da­de ca­ó­ti­ca, per­me­a­da por mi­sé­ria e con­fli­tos po­lí­ti­cos, nu­ma An­go­la que vi­veu uma tran­si­ção po­lí­ti­ca após a in­de­pen­dên­cia e uma guer­ra que du­rou qua­se três dé­ca­das e di­zi­mou mi­lha­res de pes­so­as e em­po­bre­ceu o Pa­ís, é tra­ta­da por Me­lo com de­vi­do dis­tan­ci­a­men­to, na me­di­da em que as­su­me o vi­és do hu­mor e da iro­nia pa­ra re­gis­trar o quo­ti­di­a­no e re­fle­tir so­bre as nu­an­ces his­tó­ri­cas e as lu­tas de seu po­vo. Ali­ás, es­se re­cur­so amor­ti­za, em cer­ta me­di­da, a vi­são que se pas­sa so­bre um pa­ís que vi­ve seus pro­ble­mas, ao mes­mo tem­po em que abre es­pa­ço pa­ra se dis­cu­tir e re­fle­tir so­bre o pas­sa­do e o pre­sen­te, bem co­mo so­bre ques­tões emer­gen­tes li­ga­das às agru­ras que têm afe­ta­do os an­go­la­nos, co­mo a fo­me, as epi­de­mi­as, os ví­ci­os po­lí­ti­cos, co­mo a cor­rup­ção, o pre­con­cei­tos, a pur­ga­ção das ma­ze­las em to­dos os ní­veis, a re­cons­tru­ção fí­si­ca e mo­ral do Pa­ís, a con­so­li­da­ção da de­mo­cra­cia e a afir­ma­ção da pró­pria iden­ti­da­de, que si­na­li­za tam­bém na har­mo­ni­za­ção dos in­te­res­ses po­lí­ti­cos e par­ti­dá­rios que frag­men­tam a uni­da­de na­ci­o­nal des­de 1975, quan­do o Pa­ís to­mou su­as pró­pri­as ré­de­as em meio ao fo­go cru­za­do de su­as cor­ren­tes po­lí­ti­co-ide­o­ló­gi­cas.

Nes­se “gran­de cal­dei­rão de pro­ble­mas mui­to gran­des, que pa­ra nós são uma ma­té­ria-pri­ma ri­quís­si­ma”, co­mo en­fa­ti­zou Jo­ão Me­lo em re­cen­te en­tre­vis­ta con­ce­di­da ao “Cor­reio Bra­zi­li­en­se”, não fal­tam mo­ti­vos, cir­cun­stân­cias e ar­gu­men­tos pa­ra se tra­çar um pai­nel re­a­lis­ta, sin­ce­ro e ao mes­mo tem­po crí­ti­co so­bre sua An­go­la, co­mo na ten­ta­ti­va de vis­lum­brar o pró­prio lu­gar e va­lor da ar­te e da li­te­ra­tu­ra num Pa­ís que tem ou­tras pri­o­ri­da­des, co­mo en­fren­tar os gra­vís­si­mos pro­ble­mas eco­nô­mi­co-so­ci­ais e as fre­quen­tes dis­sen­sões po­lí­ti­cas. tão pre­sen­tes tam­bém na vi­da e na his­tó­ria de ou­tras na­ções afri­ca­nas. Me­lo faz um re­cor­te des­sas tra­gé­di­as co­muns a to­do o con­ti­nen­te, que têm ori­gem no pró­prio pro­ces­so de for­ma­ção das di­ver­sas na­ções e na di­ver­si­da­de de va­lo­res, cos­tu­mes e et­ni­as e que ain­da é pou­co ex­plo­ra­da pe­la li­te­ra­tu­ra, e a que che­ga até nós, mui­tas ve­zes, ali­men­ta o ima­gi­ná­rio dos lei­to­res oci­den­tais de for­ma equi­vo­ca­da, por con­ta do ape­lo ao exó­ti­co ou à ca­ri­ca­tu­ra.

Ao abrir o li­vro com uma epí­gra­fe de Ga­bri­el o Pen­sa­dor — “Es­sa é a pá­tria que me pa­riu” — Jo­ão Me­lo dá pis­tas pa­ra a com­pre­en­são de seu pro­je­to fic­cio­nal. Seus per­so­na­gens in­cor­po­ram es­se sen­ti­men­to que ao mes­mo tem­po re­pre­sen­ta o tra­ço de an­ces­tra­li­da­de, com seus to­tens, di­fe­ren­ças e re­fe­rên­cias mul­ti­cul­tu­ra­is for­tís­si­mos, e, por ou­tro, re­for­ça a ne­ces­si­da­de de va­lo­ri­za­ção des­sa mes­ma he­ran­ça, re­pre­sen­ta­ção sim­bó­li­ca de uma An­go­la que sai do abis­mo e dos con­fli­tos de sé­cu­los de opres­são e ana­cro­nis­mo e pro­cu­ra se in­se­rir na mo­der­ni­da­de sem re­ne­gar su­as ori­gens his­tó­ri­cas, mas ten­tan­do um sal­to di­a­lé­ti­co so­bre seus es­com­bros.

En­tre es­sa vi­são idí­li­ca do pas­sa­do e um pre­sen­te em cons­tru­ção — quan­do se es­bo­çam a na­ção, o pa­ís e o es­ta­do que, nos mo­men­tos con­fli­tuo­sos, pa­re­ce re­nas­cer das pró­pri­as cin­zas — seus per­so­na­gens dão voz à iden­ti­da­de de um po­vo que pro­cu­ra or­ga­ni­zar a uni­da­de den­tro de sua pró­pria di­ver­si­da­de, ape­sar dos an­ta­go­nis­mos. Nes­se des­fi­le de si­tu­a­ções en­con­tra­di­ças em qual­quer so­ci­e­da­de, e tão pe­cu­li­a­res àque­las que so­fre­ram, co­mo An­go­la, rup­tu­ras ins­ti­tu­ci­o­nais, va­mos en­con­trar uma le­gi­ão de ti­pos ca­rac­te­rís­ti­cos, uma es­pé­cie de ma­pe­a­men­to de uma épo­ca tão he­te­ro­gê­nea co­mo efer­ves­cen­te. Aí es­tão os sin­to­mas pre­sen­tes em qua­is­quer re­gi­mes, e tão ve­lhos quan­tos atu­ais: a cor­rup­ção do fun­cio­na­lis­mo pú­bli­co, o gla­mour e opor­tu­nis­mo de uma no­va eli­te que se be­ne­fi­ciou do atu­al mo­de­lo eco­nô­mi­co, os mi­se­rá­veis in­fra­to­res, o ex­cluí­dos, os apar­ta­dos so­ci­ais e po­lí­ti­cos, os apro­vei­ta­do­res e os cri­mi­no­sos cir­cun­stan­ci­ais, os des­lo­ca­dos e re­fu­gi­a­dos, co­mo em “Tio, mi dá só cem”, “Na­tas­ha”, “Ngo­la Ki­lu­an­je”, “O efei­to es­tu­fa” e “O ho­mem que nas­ceu pa­ra so­frer”, con­tos pa­ra­dig­má­ti­cos des­se li­vro. E não dou­ra a pí­lu­la ao es­bo­çar um Pa­ís de con­tras­tes, não pou­pa o lei­tor de uma vi­são eclé­ti­ca de uma na­ção es­ti­lha­ça­da por tan­tos pro­ble­mas, mas que so­bre­vi­ve es­pe­ran­ço­sa. Nes­ses con­tos po­vo­a­dos de me­mó­ria, em que Me­lo di­a­lo­ga com os uni­ver­sos po­lí­ti­co, ét­ni­co e his­tó­ri­co, to­das as clas­ses es­tão re­pre­sen­ta­das e a ma­nei­ra de con­tá-las nu­ma lin­gua­gem cau­da­lo­sa, sin­gu­lar e bem hu­mo­ra­da, que, vez ou ou­tra, ata­lha pa­ra o en­saio, abre es­pa­ço pa­ra uma su­til dis­cus­são so­bre o mo­men­to vi­vi­do pe­lo Pa­ís e seu po­vo, que per­se­guem um des­ti­no de li­ber­da­de, bem-es­tar e de­sen­vol­vi­men­to em to­dos os ní­veis.

Nas­ci­do em Lu­an­da em 1955, Jo­ão Me­lo, vi­veu no Bra­sil en­tre 1984 e 1992, ten­do mo­ra­do no Rio de Ja­nei­ro co­mo cor­res­pon­den­te da im­pren­sa an­go­la­na, pe­rí­o­do em que se gra­duou em Jor­na­lis­mo e Uni­ver­si­da­de Fe­de­ral Flu­mi­nen­se e fez Mes­tra­do em Co­mu­ni­ca­ção e Cul­tu­ral pe­la Uni­ver­si­da­de Fe­de­ral do Rio de Ja­nei­ro. Sua obra vem sen­do sis­te­ma­ti­ca­men­te es­tu­da­da nas uni­ver­si­da­des bra­si­lei­ras. Além de es­cri­tor, é jor­na­lis­ta, pro­fes­sor uni­ver­si­tá­rio, crí­ti­co e en­sa­ís­ta, tem dez li­vros pu­bli­ca­dos, en­tre po­e­sia, con­to, ro­man­ce, crí­ti­ca e en­saio. Di­vi­de-se en­tre a vi­da in­te­lec­tu­al e as ati­vi­da­des par­la­men­ta­res, exer­cen­do atu­al­men­te o man­da­to de de­pu­ta­do da As­sem­bléia Na­ci­o­nal pe­lo MPLA (Mo­vi­men­to Po­pu­lar pe­la Li­ber­ta­ção de An­go­la), par­ti­do do atu­al pre­si­den­te Jo­sé Agos­ti­nho dos San­tos, fun­da­do pe­lo lí­der Agos­ti­nho Ne­to, um dos res­pon­sá­veis pe­la in­de­pen­dên­cia do Pa­ís. Seu pai, Aní­bal de Me­lo, foi um dos lí­de­res que lu­ta­ram con­tra a co­lo­ni­za­ção por­tu­gue­sa.


Trecho de Filhos da Pátria


Tio, mi dá só cem, só cem mes­mo pra com­prar um pão, tô en­tão com fo­me, in­da não co­mi na­da des­de an­tes­don­tem, os ou­tros mi­ú­dos mi ca­çam­bu­la­ram com ele o fer­ro que um mua­ta me deu, eu lhe vi quan­do ele che­gou com a ga­ri­na, pa­re­cia en­tão fi­lha de­le, ou ne­ta, sei lá, me­teu o car­ro lá bem no fun­dão per­to das pe­dras, eu dei um tem­po, con­tei nas mãos, eu en­tão sei con­tar tio, tam­bém an­dei na es­co­la, che­guei até na quar­ta, a, bê, cê, dê, um, dois, três, qua­tro, num é as­sim tio, é as­sim sim se­nhor, não ri, foi o meu pro­fes­sor é quem dis­se, lá no ma­to adon­de eu es­ta­va an­tes de vir aqui em Lu­an­da co­mo des­lo­ca­do, uns di­zem é des­lo­ca­do, ou­tros por­que é re­fu­gi­a­do, es­sas pa­la­vras nós no ma­to na nos­sa es­co­la mes­mo nun­ca que lhes vi­mos, nem ou­vi­mos, con­tu­do, po­rém, lá no ma­to a gen­te não co­nhe­cia es­sas pa­la­vras mas tam­bém não es­ta­va a co­mer, só aqui mes­mo é que an­da­mos a co­mer, ai, es­tás a rir tio, num ri en­tão, tu não sa­bes que tem co­mi­da de re­fu­gi­a­do, de des­lo­ca­do, de ro­to e es­far­ra­pa­do, de des­gra­ça­do, lhe pro­cu­ra­mos to­das as noi­tes nos con­ten­to­res, lu­ta­mos, nos alei­ja­mos, en­con­tra­mos mes­mo bo­as coi­sas, os­sos de ga­li­nha as­sim com umas ti­ras re­ci­clá­veis, sim, tio, re­ci­clá­veis, es­ta pa­la­vra apren­di com uns mo­ços que cos­tu­mam apa­re­cer por aqui, che­gam de mo­to­re­tas, di­zem, nós so­mos da Ju­ven­tu­de Ver­de, eu acho es­qui­si­to pois no meio de­les só ve­jo, mu­la­tos, tem até uns bran­qui­nhos, di­zem te­mos aqui umas mu­das de ár­vo­res pra vo­cês plan­ta­rem, nós lhes olha­mos en­tão de uma ma­nei­ra que eles não en­ten­dem, são bur­ros, mu­xo­xa­mos en­tre nós ár­vo­res, ár­vo­res, que­re­mos ma­sé pan­car, es­ta­mos em­bo­ra com fo­me, com bué de fo­me, a nos­sa fo­me é tão gran­de que so­mos de ca­pa­zes de ma­tar es­tes mo­ços ver­des, to­dos eles bem nu­tri­dos, bo­ni­ti­nhos, bem chei­ro­sos, o me­lhor mes­mo é vol­tar a vas­cu­lhar os nos­sos con­ten­to­res, às ve­zes mes­mo en­con­tra­mos coi­sas bo­as, car­ne de va­ca moí­da que até não é pre­ci­so lhe mas­ti­gar mais, é só en­go­lir e pron­to, pe­da­ços de pão to­dos es­bu­ra­ca­dos pa­re­ce le­va­ram ti­ros, la­tas de cer­ve­ja, la­tas de ga­so­sa, la­tas de sar­di­nha, la­tas de atum, la­tas de fei­jão, la­tas de fru­tas, la­tas de do­ce, tan­tas la­tas, tan­tas, que eu acho que o mun­do é uma gran­da la­ta­ria...
 

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POR EM 05/06/2009 ÀS 07:33 PM

Quatro comentários breves sobre livros recentes

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"Eles Foram Para Petrópolis" de Ivan Lessa e Mario Sergio Conti e "Literatura Brasileira Modos de Usar" deLu­ís Au­gus­to Fis­cher


Livro mais tedioso do ano


Reli “Ligações Perigosas”, o romance epistolar de Choderlos de Laclos, na tradução magnífica de Carlos Drummond de Andrade. É uma história maravilhosa. Escrita por um cérebro de gênio.

Decidi, então, ler “Eles Foram Para Petrópolis — Uma Correspondência Virtual na Virada do Século”, cartas trocadas entre o intelectueba Ivan Lessa e o jornalista Mario Sergio Conti. Algumas cartas são engraçadinhas, principalmente as do intelectueba, mas quase todas são tediosas. A vaidade dos autores não é a dos gênios, plenamente justificada (só acredito em gente vaidosa e pretensiosa), e sim a dos néscios que querem parecer mais sábios do que o resto (isto mesmo, resto) da humanidade.

O “trabalho” de Lessa e Conti é sério candidato a pior livro do ano. Para melhorá-lo, sugiro outro título: “Eles Foram Para o Inferno e Todos Torcem Para Que Fiquem Por Lá”.

 An­ti­ma­nu­al de li­te­ra­tu­ra

Lu­ís Au­gus­to Fis­cher, crí­ti­co li­te­rá­rio ga­ú­cho de 51 anos, es­cre­veu um li­vri­nho in­te­li­gen­te e po­lê­mi­co: “Li­te­ra­tu­ra Bra­si­lei­ra — Mo­dos de Usar” (L&PM, 143 pá­gi­nas). Quem tem pre­gui­ça de con­sul­tar vá­rios li­vros, ou tra­ta­dos aca­dê­mi­cos, ga­nha­rá mui­to se ler o opús­cu­lo do pro­fes­sor da Uni­ver­si­da­de Fe­de­ral do Rio Gran­de Sul. Su­as opi­ni­ões são con­tro­ver­sas, mas ele não te­me apre­sen­tá-las.

Ci­tan­do Jo­ão Ca­bral de Mel­lo Ne­to, apre­sen­ta­do co­mo nú­me­ro dois da po­e­sia bra­si­lei­ra (Car­los Drum­mond de An­dra­de é o nú­me­ro um), Fis­cher diz que há dois ti­pos de es­cri­to­res: “... os de cam­bão, que pu­xam pa­ra a fren­te, e os de coi­ce, que pre­fe­rem pa­rar; os pri­mei­ros ou­sam, os se­gun­dos tra­vam. A com­pa­ra­ção ren­de bem, es­ten­di­da so­bre a his­tó­ria da po­e­sia bra­si­lei­ra: di­ga­mos que um Sou­sân­dra­de pu­xa sem­pre pa­ra a fren­te, ao pas­so que um Bi­lac sem­pre tra­va ou pu­xa pa­ra trás”.

Não se pen­se que o li­vro, em for­ma­to de bol­so, é um ma­nu­al, da­que­les que apre­sen­tam ob­vi­e­da­des, con­cei­tos “tra­va­dos”. Na­da dis­so. Mes­mo quan­do é di­dá­ti­co, Fis­cher dis­cu­te a li­te­ra­tu­ra bra­si­lei­ra de mo­do apai­xo­na­do e, co­mo dis­se, po­lê­mi­co.
 


"Um Encontro" de Milan Kundera e “A Arte da Ficção” de David Lodge
 

Kun­de­ra des­ta­ca Gar­cía Már­quez


O tche­co Mi­lan Kun­de­ra, de 80 anos, é, além de pro­sa­dor no­tá­vel, um crí­ti­co li­te­rá­rio do pri­mei­ro ti­me. De­pois de qua­tro anos de si­lên­cio, lan­ça o li­vro “Um En­con­tro”, no qual ana­li­sa a li­te­ra­tu­ra de Dos­toi­évski, Kafka, Cé­li­ne, Beckett, Cur­zio Ma­la­par­te, Gar­cía Már­quez, Phi­lip Roth, Car­los Fu­en­tes.

Co­men­tá­rio pu­bli­ca­do no “Cla­rín” diz que Kun­de­ra com­pa­ra a ar­te de Ba­con, “cu­jos re­tra­tos ‘ques­ti­o­nam os li­mi­tes do eu’, com a li­te­ra­tu­ra de Beckett. Mas per­gun­ta se as idéi­as de Beckett não “aca­ba­ram por ma­tar sua cri­a­ção”. In­fe­liz­men­te, a pu­bli­ca­ção ar­gen­ti­na não am­plia a dis­cus­são.

“Cem Anos de So­li­dão”, do ca­na­lha (de gê­nio, es­pé­cie de Cé­li­ne da es­quer­da) Gar­cía Már­quez, é vis­to por Kun­de­ra co­mo o “fim do gran­de ro­man­ce”. Su­as pa­la­vras: “Te­nho a im­pres­são de que es­te ro­man­ce, uma apo­te­o­se li­te­rá­ria, é às ve­zes um ade­us di­ri­gi­do à era do ro­man­ce”.

Kun­de­ra afir­ma que “os pro­ta­go­nis­tas dos gran­des ro­man­ces não têm fi­lhos. Ape­nas 1% da po­pu­la­ção não tem fi­lhos, mas ao me­nos uns 50% dos gran­des per­so­na­gens no­ve­les­cos sa­em do ro­man­ce sem ha­ver re­pro­du­zi­do”. “Nem Pan­ta­gru­el nem Dom Qui­xo­te ti­ve­ram des­cen­dên­cia. Nem Val­mont, nem a mar­que­sa de Mer­teu­il, nem Wer­ther. To­dos os pro­ta­go­nis­tas de Stendhal ca­re­cem de fi­lhos, co­mo os de Bal­zac e Dos­toi­évski. E, no sé­cu­lo que aca­ba de ter­mi­nar, Mar­cel Proust e to­dos os gran­des per­so­na­gens de Mu­sil”, es­cre­ve o au­tor de “A In­sus­ten­tá­vel Le­ve­za do Ser”.

Há pou­co tem­po, dis­se­ram que Kun­de­ra ha­via, co­mo “agen­te co­mu­nis­ta”, de­nun­ci­a­do an­ti­co­mu­nis­tas. Uma men­ti­ra de per­nas cur­tís­si­mas, por­que Kun­de­ra é um crí­ti­co vis­ce­ral do to­ta­li­ta­ris­mo es­quer­dis­ta.

Da­vid Lod­ge ana­li­sa “La­ran­ja Me­câ­ni­ca”

As re­se­nhas qua­se sem­pre bri­lhan­tes de Da­vid Lod­ge sa­em em li­vro: “A Ar­te da Fic­ção” (L&PM, 245 pá­gi­nas). A es­cri­to­ra A. S. Byatt diz, com acer­to: “Os tex­tos de Lod­ge são úte­is, des­pre­ten­si­o­sos, aces­sí­veis. ‘A Ar­te da Fic­ção’ é um li­vro pa­ra se con­sul­tar mui­tas e mui­tas ve­zes”. Dis­cor­do de que se­jam “des­pre­ten­si­o­sos”, por­que, em ter­mos de li­te­ra­tu­ra, só de­vem ser le­va­dos a sé­rio tra­ba­lhos pre­ten­si­o­sos. Lod­ge exa­mi­na o ro­man­ce “La­ran­ja Me­câ­ni­ca”, de An­thony Bur­gess: “O lei­tor so­fre uma es­pé­cie de con­di­cio­na­men­to pav­lo­vi­a­no, mas com um re­for­ço po­si­ti­vo (a pos­si­bi­li­da­de de acom­pa­nhar a his­tó­ria) em vez de pu­ni­ções. A lin­gua­gem es­ti­li­za­da man­tém os cri­mes he­di­on­dos que são des­cri­tos a uma cer­ta dis­tân­cia es­té­ti­ca e evi­ta que fi­que­mos mui­to cho­ca­dos — ou mui­to em­pol­ga­dos — com a vi­o­lên­cia”. 

 

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POR EM 29/05/2009 ÀS 03:11 PM

Livro de Peter Gay sobre modernismo provoca polêmica

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O mo­der­nis­mo “deu aos ar­tis­tas a li­ber­da­de de le­var a sé­rio su­as fan­ta­si­as de in­su­bor­di­na­ção, de en­ca­rar com in­di­fe­ren­ça os câ­no­nes que por tan­tos sé­cu­los ha­vi­am di­ta­do os te­mas e as téc­ni­cas, de de­ci­dir se era o ca­so de mo­di­fi­car — ou, mais ra­di­cal­men­te, de der­ru­bar — os cri­té­rios vi­gen­tes, e que se­ri­am eles a em­pre­en­der a re­vo­lu­ção”, es­cre­ve Gay

 
O li­vro “Mo­der­nis­mo: O Fas­cí­nio da He­re­sia — De Bau­de­lai­re a Beckett e Mais um Pou­co” (Com­pa­nhia das Le­tras, 578 pá­gi­nas, tra­du­ção de De­ni­se Bottmann), de Pe­ter Gay, pro­vo­ca po­lê­mi­ca nos jor­nais pa­tro­pis. Mar­ce­lo Co­e­lho pu­bli­cou pe­tar­do, na “Fo­lha de S. Pau­lo”. O jor­na­lis­ta e mes­tre em ci­ên­cias so­ci­ais ga­ran­te que Gay não in­cor­po­ra as dis­cus­sões re­cen­tes so­bre o mo­der­nis­mo e se­ria ra­so em algumas ques­tões. Fi­co com a im­pres­são de que Co­e­lho es­tá pre­o­cu­pa­do com a crí­ti­ca (po­si­ti­va) de Gay ao ci­ne­ma. A crí­ti­ca pa­re­ceu-me re­al­men­te in­su­fi­ci­en­te, mas não pe­los mo­ti­vos apon­ta­dos pe­lo jor­na­lis­ta, e sim por con­ta de uma pai­xão tal­vez ex­ces­si­va por Or­son Wel­les (su­pe­res­ti­ma­do) e Cha­plin.

O “Es­ta­dão” en­trou na dan­ça com en­sai­os de Tei­xei­ra Co­e­lho e Fran­cis­co Alam­bert, pro­fes­so­res da USP.

O se­gun­do Co­e­lho, o Tei­xei­ra, diz que Gay de­ve­ria fa­lar em “mo­der­nis­mos” e dis­cor­da da te­se de que o mo­der­nis­mo con­ti­nua vi­vís­si­mo. “É uma fu­ra­da”, de­nun­cia, sem di­zer por quê, o mes­tre. Ou­tra im­pli­cân­cia de Co­e­lho, tal­vez jus­ta, é com a pre­fe­rên­cia de Gay por Ga­bri­el Gar­cía Már­quez (tam­bém ama­do por nin­guém me­nos do que Ge­or­ge Stei­ner) e o es­que­ci­men­to de Jor­ge Lu­is Bor­ges e Ju­lio Cor­tá­zar.

Pa­ra não pa­re­cer Po­li­car­po Qua­res­ma, Co­e­lho não ci­ta Gui­ma­rã­es Ro­sa (“Gran­de Ser­tão: Ve­re­das”), mas po­de­ria ter ci­ta­do Le­za­ma Li­ma (“Pa­ra­di­so”) ou Ale­jo Car­pen­ti­er (“O Sé­cu­lo das Lu­zes”). Le­za­ma, bar­ro­co, não se­ria mo­der­nis­ta? Tal­vez se pos­sa di­zer que se tra­ta de um mo­der­nis­ta que tam­bém é bar­ro­co. Gay es­cla­re­ce que sua pre­o­cu­pa­ção mai­or é mes­mo com a Eu­ro­pa.

Fu­ri­bun­do, Co­e­lho sus­ten­ta que o li­vro de Gay é uma es­pé­cie de “Re­a­der´s Di­gest”. Um ata­que abai­xo da li­nha de cin­tu­ra, mas, di­ga­mos, di­ver­ti­do e atra­en­te. Não ser­ve “nem pa­ra quem se ini­cia, nem pa­ra quem é ini­ci­a­do. Aci­ma de tu­do, não pa­ra o lei­tor do sé­cu­lo 21”. Pa­ra ter­mi­nar, Co­e­lho es­cre­ve o no­me de Eric Hobs­bawm (“Hobs­bawn”) er­ra­do. Não tem na­da mais mo­der­no do que o des­lei­xo com a for­ma.

Alam­bert, quem sa­be me­nos res­sen­ti­do, diz que Gay vê “coi­sas que ge­ral­men­te são omi­ti­das pe­las lei­tu­ras for­ma­lis­tas ou his­to­ri­cis­tas. Por exem­plo, o pa­pel de­sem­pe­nha­do por in­ves­ti­do­res e ga­le­ris­tas na for­ma­ção do câ­no­ne mo­der­no (e, pos­te­rior­men­te, em sua des­mon­ta­gem) e na re­cri­a­ção do sis­te­ma ca­pi­ta­lis­ta de ar­te de­pois da re­vo­lu­ção mo­der­nis­ta”.

O mes­tre, me­nos con­tun­den­te do que os Co­e­lhos, ad­mi­te que Gay é pre­ci­so ao di­zer que “o mo­der­nis­mo foi uma du­pla li­ber­ta­ção psi­co­ló­gi­ca, pa­ra os pro­du­to­res e tam­bém pa­ra os con­su­mi­do­res de al­ta cul­tu­ra” (o tex­to en­tre as­pas é de Gay). O mo­der­nis­mo “deu aos ar­tis­tas a li­ber­da­de de le­var a sé­rio su­as fan­ta­si­as de in­su­bor­di­na­ção, de en­ca­rar com in­di­fe­ren­ça os câ­no­nes que por tan­tos sé­cu­los ha­vi­am di­ta­do os te­mas e as téc­ni­cas, de de­ci­dir se era o ca­so de mo­di­fi­car — ou, mais ra­di­cal­men­te, de der­ru­bar — os cri­té­rios vi­gen­tes, e que se­ri­am eles a em­pre­en­der a re­vo­lu­ção”, es­cre­ve Gay, com o en­dos­so do his­to­ri­a­dor Alam­bert.

O mo­der­nis­mo foi gran­de­men­te in­flu­en­cia­do pe­las idéi­as de Marx, mas so­bre­tu­do pe­las de Ni­etzsche. Gay e Alam­bert con­cor­dam.

O es­cri­tor Hal­ley Mar­gon V. Jr. não apro­va o que leu do li­vro de Gay. “O ca­pí­tu­lo so­bre mú­si­ca é, no mí­ni­mo, clau­di­can­te.” Hal­ley su­ge­re a lei­tu­ra de “O Res­to é Ru­í­do — Es­cu­tan­do o Sé­cu­lo XX” (Com­pa­nhia das Le­tras, 646 pá­gi­nas, tra­du­ção de Cláu­dio Ca­ri­na e Ivan Weisz), de Alex Ros­s. “É sen­sa­ci­o­nal. Pou­cas ve­zes li al­gu­ma coi­sa que é, ao mes­mo tem­po, pa­ra es­pe­cia­lis­tas e lei­gos (ou es­tú­pi­dos). É pre­ci­so, pro­fun­do e cla­ro.” O pro­mo­tor de jus­ti­ça Mar­ce­lo Fran­co es­tá en­tre os ad­mi­ra­do­res da po­lê­mi­ca obra do his­to­ri­a­dor ger­ma­no-ame­ri­ca­no. 
 
A pri­mei­ra li­te­ra­tu­ra cos­mo­po­li­ta do Oci­den­te desde a Idade Média

Na po­lê­mi­ca pro­vin­ci­al so­bre o li­vro “Mo­der­nis­mo”, de Pe­ter Gay, fo­ram ci­ta­dos obras de te­ó­ri­cos do mo­der­nis­mo e do pós-mo­der­no. Mas dei­xa­ram de ci­tar du­as obras im­por­tan­tes e com­ple­men­ta­res, tal­vez por­que mais his­tó­ri­cas do que te­ó­ri­cas. A com­pa­ra­ção ten­de a ser mais pro­du­ti­va se fei­ta com tex­tos si­mi­la­res.

“Os Pri­mei­ros Mo­der­nos — As Ori­gens do Pen­sa­men­to do Sé­cu­lo XX” (Re­cord, 571 pá­gi­nas, tra­du­ção de Cynthia Cor­tes e Pau­lo So­a­res), de Wil­li­am R. Ever­dell, é uma história alentada. “O mo­der­nis­mo na ar­te veio an­tes do mo­der­nis­mo na fic­ção e as re­a­ções a es­te (mes­mo por par­te de mo­der­nis­tas) fo­ram as mais vis­ce­ra­is.”

Co­mo Gay, Ever­dell ci­ta Knut Ham­sun e Au­gust Strindberg co­mo mo­der­nis­tas, in­de­pen­den­te­men­te de su­as opi­ni­ões po­lí­ti­cas ou mo­ra­lis­tas. O pro­fes­sor es­cre­ve que Ja­mes Joyce per­ce­beu que “a li­te­ra­tu­ra mo­der­nis­ta não era na­ci­o­nal mas eu­ro­peia, tal­vez a pri­mei­ra li­te­ra­tu­ra ver­da­dei­ra­men­te cos­mo­po­li­ta do Oci­den­te des­de a Ida­de Mé­dia”. O ca­pí­tu­lo “Ja­mes Joyce — O Des­pe­da­ça­men­to do Ro­man­ce” é do primeiro time.

“Mo­der­nis­mo: Guia Ge­ral — 1890-1930” (Com­pa­nhia das Le­tras, 556 pá­gi­nas, tra­du­ção de De­ni­se Bottmann), or­ga­ni­za­do por Mal­colm Brad­bury e Ja­mes McFar­la­ne, contém en­sai­os de vá­rios au­to­res. Al­gu­mas aná­li­ses são mais sa­tis­fa­tó­ri­as do que as de Pe­ter Gay, ain­da que me­nos po­lê­mi­cas e mais aca­dê­mi­cas. “Su­por que al­gum es­tu­do se­ja ca­paz de apre­sen­tar pa­ra um exa­me se­re­no o ti­po de sí­tio ar­que­o­ló­gi­co que re­pre­sen­ta o mo­der­nis­mo é não en­ten­der a pró­pria na­tu­re­za do fe­nô­me­no”, es­cre­vem Brad­bury e McFar­la­ne. Eles acres­cen­tam al­go que cor­ro­bo­ra, de cer­ta ma­nei­ra, a te­se de Gay de que o mo­der­nis­mo con­ti­nua e que o pós-mo­der­no é uma fic­ção: “O mo­der­nis­mo, em mui­tas ca­rac­te­rís­ti­cas su­as, ain­da é em lar­ga me­di­da a nos­sa li­te­ra­tu­ra, ain­da con­ser­va um ca­rá­ter de no­vi­da­de que sur­pre­en­de e per­tur­ba, ain­da é po­lê­mi­co, di­fí­cil nos man­ter­mos afas­ta­dos de­le, di­fí­cil fa­lar­mos so­bre ele”.

O pro­fes­sor Franz Ku­na, no be­lo tex­to “O ro­man­ce de du­pla fa­ce — Con­rad, Mu­sil, Kafka, Mann”, an­te­ci­pa Gay ao es­cre­ver: “O es­que­ma di­a­lé­ti­co ofe­re­ci­do por Ni­etzshe pa­re­ce ter-se tor­na­do o ar­ca­bou­ço, o pro­tó­ti­po es­té­ti­co pa­ra qua­se to­dos os gran­des ro­man­ces do sé­cu­lo XX. (...) Foi o ro­man­ce mo­der­no que in­cor­po­rou mais so­fre­ga­men­te a fór­mu­la ni­etzsche­a­na so­bre a du­pla fa­ce do ho­mem mo­der­no, fa­da­do a exis­tir de mo­do trá­gi­co”. O en­saio “O ro­man­ce sim­bo­lis­ta — De Huysmans a Mal­raux”, de Mel­vin J. Fri­ed­man, diz que “os ro­man­ces de [Henry] Ja­mes, [Mar­cel] Proust, [Ja­mes] Joyce, [Jo­seph] Con­rad, [Wil­li­am] Faulkner e Vir­gi­nia Wo­olf são, em cer­to sen­ti­do, her­dei­ros fic­cio­nais da po­e­sia sim­bo­lis­ta fran­ce­sa”. Fri­ed­man ana­li­sa, mui­to bem, en­tre ou­tros, o ro­man­ce “En­quan­to Ago­ni­zo”, de Faulkner. O li­vro con­tém aná­li­se per­cu­ci­en­te do mo­der­nis­mo rus­so.

O li­vro de Gay não es­go­ta o mo­der­nis­mo. Pe­lo con­trá­rio, ao his­to­riá-lo, trans­for­ma-o em pro­ble­ma, daí a po­lê­mi­ca, que cer­ta­men­te não é só bra­si­lei­ra. Ao con­trá­rio do que diz Tei­xei­ra Co­e­lho, não é ru­im, ain­da que pos­sa con­ter fa­lhas e análises controversas.

O “Es­ta­dão” en­trou na dan­ça com en­sai­os de Tei­xei­ra Co­e­lho e Fran­cis­co Alam­bert, pro­fes­so­res da USP.
 


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POR EM 22/05/2009 ÀS 08:05 PM

Livros para entender a Segunda Guerra Mundial

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Churchill, Roosevelt & Stálin

No dia 1º de setembro, numa terça-feira, faz 70 anos que começou a Segunda Guerra Mundial, terminada em maio de 1945 (no cenário europeu). Por isso as editoras brasileiras estão lançando tantos livros sobre o assunto.

“Europa na Guerra — 1939-1945” (Record, 599 páginas, tradução de Vitor Paolozzi), do historiador inglês Norman Davies, conta a história da Segunda Guerra sob novo prisma, realçando a decisiva participação dos soviéticos e a omissão dos líderes ocidentais em relação aos abusos do stalinismo. Davies apresenta, nas últimas páginas, e mesmo durante a maior parte do livro, uma discussão muito interessante sobre a historiografia da guerra.

Laurence Rees é autor do notável “Stálin, os Nazistas e o Ocidente” (Larousse, 567 páginas, tradução de Luis Fragoso). Mostra que os erros absurdos de Stálin, que, em determinado momento, teve medo de ser liquidado por seus camaradas, e a vitalidade dos soldados russos. O comprometimento de Stálin com Hitler e o nazismo foi muito maior do que em geral é descrito noutros livros de história.

Rees apresenta uma história pouco citada: quando Stálin quis matar Jukov, o exército reagiu, e o ditador apenas o transferiu para uma província distante. Rees escreve, muito bem, sobre o massacre de Katyn e outros, sobre a deportação dos tártaros, outro capítulo da Segunda Guerra pouco mencionado nos livros de história. O historiador inglês também apresenta fartos dados e prova como Churchill e Roosevelt (este provou ser indiferente ao destino dos poloneses. Harry Hopkins, um homem admirável, também fica muito mal, pois parece ter sido seduzido por Stálin) praticamente entregaram a Polônia a Stálin.

“Os Três Grandes — Churchill, Roosevelt & Stálin Ganharam Uma Guerra e Começaram Outra” (Nova Fronteira, 487 páginas, tradução de Gleuber Vieira), de Jonahtan Fenby, ainda não li, mas é um livro elogiado, talvez por ser escrito num tom mais jornalístico. Pouco citado, mas muito bom, é “Os Senhores da Guerra — Hitler, Stálin, Churchill e Roosevelt” (Record, 447 páginas, tradução de Vitor Paolozzi), de Simon Berthon e Joanna Potts.

Falta traduzir muita coisa, como “A Grande Enciclopédia Soviética”, que saiu em inglês em 1970. É um ponto de partida, segundo Davies, para conhecer a versão soviética da guerra. “The Road to Stalingrad” (de 1975) e “The Road to Berlim”, de John Erickson, são pró-soviéticos.

De Richard Evans falta publicar “The Coming of the Third Reich” (2003); de Michael Burleigh, ‘The Third Reich: A New History” (2000). Não chegou ao Brasil “The Dictators: Hitler’s Germany e Stalin’s Russia” (2004), de Richard Overy. Davies diz que o livro é “excelente”. “Ivan’s War” (2005), de Catherine Merridale, ainda não ganhou tradução. De Gerhard Weinberg falta editar “A World at Arms” (1994). Trata-se um livro importante, segundo Davies (que faz apenas uma ressalva).

Para Davies, “Armaggedon, 1944-5” (2005), de Max Hasting, é um livro importante. Hasting também é autor de “Overlord”.

Davies diz que “Stálin — A Corte do Czar Vermelho” (2003), de Simon Sebag Montefiore, “abrirá muitos olhos”. Este saiu pela Companhia das Letras. “Gulag”, de Anne Applebaum, é apresentado por Davies como “soberbo”. Saiu, no Brasil, pela Ediouro. Para quem ainda não internalizou os crimes do stalinismo como semelhantes aos crimes do nazismo, o livro de Applebaum, rigorosamente documentado, com dados recuperados nos arquivos do governo soviético, é fundamental. “The Great Terror: A Re-Assessment” (1992), de Robert Conquest, não saiu em português. Mas a versão anterior, muito boa, saiu pela Expressão e Cultura com o título de “O Grande Terror” (o leitor pode conseguir um exemplo no site www.estantevirtual.com.br). Conquest foi pioneiro na apresentação documentada dos crimes stalinistas. Foi muito atacado, mas a história deu-lhe razão.

Um dos historiadores mais elogiados por Davies é o inglês Antony Beevor, autor de vários livros publicados no Brasil. Davies cita “Stalingrado” (Record) e “Berlim 1945: A Queda” (Record, 600 páginas, tradução de Maria Beatriz de Medina). A selvageria dos soviéticos é fartamente documentada. Faltou citar o excepcional “Creta: A Batalha e Resistência na Segunda Guerra Mundial — 1941-1945” (Record, 460 páginas, tradução de Maria Beatriz de Medina, com revisão técnica de Márcio Scalercio).

“O Longo Inverno — A Batalha do Bulge e a História do Pelotão Mais Condecorado da Segunda Guerra Mundial” (Record, 347), de Alex Kershaw, é muito bom, mas, salvo engano, passou batido na mídia brasileira.

Até o fim do ano, deve sair, pela Companhia das Letras, a biografia de Hitler escrita pelo historiador Ian Kershaw. É a mais equilibrada e atualizada biografia do líder nazista. Tenho a edição espanhola, em dois volumes. Li que a Companhia das Letras vai publicar num só volume. Espero que não fique um volumão difícil de ser manuseado, com letras pequenas, sem fotografias e notas. Dois aperitivos de Kershaw: os magníficos “Hitler — Perfil do Poder” (Jorge Zahar, 254 páginas) e “Dez Decisões Que Mudaram o Mundo — 1940-1941” (Companhia das Letras, 687 páginas, tradução de Berilo Vargas, Celso Mauro Paciornik, Clóvis Marques e Fernanda Abreu).

Se o leitor quiser saber mais sobre o nazista-chefe deve consultar “O Hitler da História” (Jorge Zahar Editor, 250 páginas), de John Lukacs. Trata-se de um balanço do que se publicou de mais importante sobre Hitler.

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