revista bula
POR EM 02/10/2012 ÀS 11:03 PM

Gabriel García Márquez: o escritor em seu labirinto

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Um trabalho acadêmico sobre Gabriel García Márquez serviu para resgatar memórias pessoais e ao mesmo tempo mergulhar na representação dos mitos do heroísmo sul-americano. García Márquez, mestre em desvendar o imaginário de uma cultura pontuada pelo exagero, nos dá no seu livro “O General em Seu Labirinto” um quadro terrível de Símon Bolívar, o ex-líder que faz uma descida aos infernos ao longo de um rio. Exatamente o contrário da ascensão que sua lenda experimenta hoje, cercada de equívocos por meio de eventos políticos.

Por isso, é bom resgatar a literatura no que ela tem de mais contundente, a capacidade de nos abrir os olhos e o coração para as muitas faces da opressão.

Onde andará meu Quixote? A edição espanhola de bolso, em papel bíblia, cheia de ilustrações, que alguém me deu de presente nos anos 1960, deve andar perdido em algum canto da biblioteca improvisada ao longo do tempo na minha casa. Especialmente as ilustrações desse primoroso exem­plar são a pista fundamental para analisar o livro de García Már­quez. Um quadro representando de Bolívar deitado fez emergir na minha memória os desenhos e pinturas dessa edição comemorativa do romance de Miguel de Cervantes. Nessas imagens, o cavaleiro da triste figura jaz, no fim da vida, enlouquecido e alquebrado pelas lutas contra gigantes imaginários.


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POR EM 30/09/2012 ÀS 07:28 PM

Japoneses praticaram canibalismo na Segunda Guerra Mundial

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Antony Beevor lançou na Eu­ropa o que está sendo consi­derado um de seus mais im­portantes livros, “A Segunda Guerra Mun­dial”, com 1200 páginas. O filósofo John Gray escreveu, no “New Statesman”: “Esta é a narração mais completa e objetiva sobre o curso da guerra. E a mais comovedoramente humana que já se es­creveu”. O historiador Max Has­tings disse, no “Sunday Ti­mes”: “Ninguém sabe melhor que Beevor como traduzir a dura matéria da história militar em um drama humano vivo, co­movedor e impactante”.

Pesquisador infatigável, e não um mero consultor da bibliografia, Beevor descobriu que militares japoneses usavam prisioneiros de guerra como “gado”. Segundo resenha de Guillermo Altares, do “El País”, “eles eram mantidos com vida só para serem assassinados, um a um, com o objetivo de serem devorados”. Era “uma estratégia militar sistemática e organizada”. Não era um ato isolado. Entre as vítimas estavam papuenses, australianos e norte-americanos.

Os Aliados, embora informados da história, optaram pelo silêncio, para não chocar as fa­mílias dos militares mortos. Al­tares relata que, para Beevor, a Segunda Guerra Mundial “não começa com a invasão da Polônia, e sim um mês antes e em outra parte do mundo, em agosto de 1939, no rio Khalkin-Gol. Aquela batalha, na qual o Exército Vermelho derrotou os japoneses na Manchúria, demonstrou que Zukhov era um dos grandes generais soviéticos e significou uma grande lição para Tóquio, que abandonou a intenção de abrir uma segunda frente na Sibéria. Se Stálin tivesse que proteger sua retaguarda no Extremo Oriente, o conflito talvez tivesse sido muito diferente”.


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POR EM 18/09/2012 ÀS 04:58 PM

Goleiros — Heróis e Anti-Heróis da Camisa 1, de Paulo Guilherme

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É consensual que o maior goleiro da história do futebol brasileiro é Gil­mar dos Santos Ne­ves. Com Pelé fazendo os gols e Gilmar impedindo os gols dos adversários, o Santos ganhou títulos nacionais e internacionais, tornando-se um dos primeiros times galácticos. Na seleção era a mesma coisa: o Brasil tornou-se bicampeão com Gilmar e Pelé. Ele foi “eleito pela revista francesa ‘Paris Match’ o melhor goleiro da história do futebol mundial”, diz o jornalista Paulo Guilherme, autor do excelente livro “Goleiros — Heróis e Anti-Heróis da Camisa 1” (Alameda, 285 páginas). Sim, superou o soviético Liev Yashin, o Aranha Negra. Como era um gênio das traves, autor de pontes admiradas em todo o mundo, Gilmar era apontado como quase insubstituível. Porém, como estava “velho” e quase sempre machucado, a seleção de 1970 precisava de um “grande” goleiro. Havia Félix, que se consagrara no Fluminense, mas tinha 32 anos e “apenas” 1,76m. “Velho” e, para os padrões mesmo nacionais, “baixo”. Félix morreu há duas semanas, aos 74 anos.

Ao assumir como técnico da seleção, João Saldanha bancou Félix. Nas eliminatórias, em seis jogos, o goleiro sofreu apenas dois gols. Mas o mesmo Saldanha o afastou quando a seleção perdeu para o Atlético Mineiro por 2 a 1, alegando que não era robusto o suficiente para enfrentar os fortes atacantes europeus. Ado, alto e com pinta de galã, “ga­nhou” a vaga. Entretanto, com Zagallo no comando técnico, como substituto de Saldanha, Félix foi reintegrado à equipe e se tornou titular. Zagallo ficou com sua experiência. Ado tinha 24 anos e Leão, quase 21.


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POR EM 17/09/2012 ÀS 09:23 PM

Sho­sha, de Isaac Bashevis Singer

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Todo romance é sobre literatura. Todos os que contam, pelo menos, como nos lembra “Sho­sha”, de Isaac Bashevis Singer, lançado originalmente em 1978, o mesmo ano em que o autor ganhou o Prêmio Nobel. A linhagem é conhecida. “O Qui­xote” que se debruça sobre si mesmo na segunda parte do texto de Cervantes é o exemplo canônico da ficção com autoconsciência. O jogo não tem fim e chegou ao auge com as experiências do século 20, de James Joyce a Guimarães Rosa.

Mas, longe de ameaçar a sobrevivência da arte, monumentos da conflagração literária como “Ulisses” e “Grande Sertão” be­beram na fonte dos clássicos, sinal de que a criação literária, há tempos, alimenta-se da reflexão sobre o que se escreve e dela faz sua principal trama. Nas “Mil e Uma Noi­tes”, o núcleo do drama não são as histórias contadas por Sherazade, mas sim o fato de contá-las, o que representava a anulação da pena de morte decretada pelo rei. Em Rosa, o livro é o confronto entre o contador e o ouvinte fictício. O objetivo é nobre. A arquitetura da narração, por mirar-se no espelho, torna-se real, só para contaminar os personagens. Riobaldo e Diadorim tornam-se de carne e osso, enquanto acontece o reverso no projeto, pois não existe nada mais inventado do que o doutor que chega de longe para escutar o velho jagunço. Esse é o segredo do romance, que jamais se entrega ao que quer contar, antes denuncia a sua impossibilidade. Ao desistir (sem se entregar) ele consegue atingir a essência da produção de um escritor de verdade.


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POR EM 16/09/2012 ÀS 07:05 PM

Brasil precisa editar obra-prima de Vasily Grossman

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Está passando da hora de editar no Brasil o livro “Vida e Destino”, do escritor ucraniano Vasily Grossman. Traduzo um trecho: “Entre milhões de casas russas não há nem haverá nunca duas exatamente iguais. Tudo o que vive é irrepetível. É inconcebível que dois seres humanos e duas roseiras sejam idênticos... A vida se extingue onde existe empenho para apagar as diferenças e as particularidades por intermédio da violência.” Grossman teria sido o primeiro a reportar a existência dos campos de extermínio nazistas. Stálin, adepto das teorias conspiratórias, proibiu o livro e confiscou os originais. Não satisfeito, recolheu até as fitas da máquina de escrever do escritor-jornalista.

Stálin, político astuto e atento, percebeu logo o potencial subversivo da obra. Ao falar dos campos de concentração dos alemães, Grossman estava, indiretamente, questionando o Gulag soviético. A conexão, feita por Stálin e seus pares comunistas, não estava de todo errada. O livro não faz apologia do anticomunismo, mas critica a ideia de que é possível construir uma sociedade de iguais, e à força — um dos postulados do stalinismo. O livro do autor russo-ucraniano é um libelo a favor do homem, da liberdade. Direta ou indiretamente, portanto, contra o comunismo. Grossman morreu em 1964, no ostracismo, e não pôde ver seu livro publicado, como Mikhail Bulkágov e seu romance “O Mestre e Margarida”. 


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POR EM 14/09/2012 ÀS 07:58 PM

A epopeia de nossas depravações numa ilha deserta

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Philip Roth

A Publifolha lançou em 2003 um pequeno livro, “Ilha Deserta: Livros”, no qual sete escritores — Bernardo Ajzenberg, Carlos Heitor Cony, Contardo Calligaris, Manuel da Costa Pinto, Maria Rita Kehl, Moacyr Scliar, Nina Horta e Nuno Ramos — escolhem e comentam os dez livros que levariam para uma ilha deserta. E houve também um livro sobre discos (“Ilha Deserta: Discos”) e outro sobre filmes (“Ilha Deserta: Filmes”, é claro). O livrinho, de leitura rápida e saborosa, me fez imaginar quais livros eu levaria a uma ilha — e também me torturou: como levar apenas dez?

Pensar em livros que sejam indispensáveis numa ilha deserta é pensar em listas, e há sempre quem reclame da ideia de fazer listas de “melhores”. São uns chatos: a leitura de qualquer lista é uma das grandes diversões de um adulto, figurando entre assistir a desenhos animados e jogar “War” numa lista — mais uma — de melhores atividades. E ninguém, quando convidado a fazer a sua listinha, se furta à tarefa. Dou um exemplo: o livro “The Top Ten: Writers Pick Their Favorite Books” é uma grande coletânea de listas de melhores livros feitas por dezenas de escritores. Estão no livro alguns craques: Paul Auster, John Banville, Julian Barnes, Michael Connelly, Paula Fox, Jonathan Franzen, Norman Mailer, Joyce Carol Oates, Francine Prose, James Salter, Tom Wolfe. (Uma curiosidade: A.L. Kennedy colocou “Sargento Getúlio” em nono lugar e Michael Griffith listou “Dom Casmurro” em sétimo.)


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POR EM 12/09/2012 ÀS 09:38 PM

O livro censurado de Henry Miller

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“Pesadelo Refrigerado”, de Henry Miller, é um livro que ficou muito tempo censurado e, quando veio à tona, mostrou a América virada pelo avesso num tour radical. De olho clínico e com narração enxuta, o autor leva o leitor para o núcleo do drama — a formação de um país voltado para a dor e que tenta em vão mascarar essa evidência

Henry Miller

Não são os vestígios que importam, mas suas fontes humanas. A arqueologia não deveria se ocupar das ruínas, mas do es­plendor das mãos anterior a elas. Isso poderia tirar do estudo do passado remoto sua roupagem funerária, sua obsessão por túmulos, suas descobertas que se transformam em museus suntuosos. Descobrir um gesto numa fogueira extinta é mais importante do que ver imobilizado um trono de ouro a­companhando múmias.

A função civilizatória da arqueologia não é o deslumbramento provocado pela precocidade dos ancestrais, mas enxergar o que qualquer civilização esconde quando for comparada ao verdadeiro enigma, a natureza. O que faz o projeto esquecido de uma pirâmide no alto da montanha? Qual o sentido de uma cidade industrial americana colocada ao lado do Grand Canyon? Esses eventos poderão revelar toda a fuligem, precariedade, escândalo e horror que acompanham a modernidade?

É disso que se ocupa Henry Miller no seu clássico livro de viagens, “Pesadelo Re­frigerado” (tradução de José Rubens Si­queira, Francis, 320 páginas), um trabalho arqueológico que despreza os vestígios, a não ser que sirvam para provar sua tese sobre a sujeira da América. Ao detectar a origem do pesadelo — o divórcio entre homem e natureza no país que despreza a arte e a cultura — ele vai atrás do tesouro verdadeiro oculto a quilômetros abaixo das aparências: os gênios, anônimos ou simplesmente desprezados e perseguidos, que fazem a grandeza da sua época e que passam despercebidos pela brutalidade de uma nação que aposta nas vantagens da guerra. Esta, já estava desencadeada na Europa na época em que foi escrito o livro, mas ainda não havia o engajamento, vislumbrado como iminente, do governo Roosevelt, em 1941.


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POR EM 10/09/2012 ÀS 09:43 PM

Sai biografia de Tocqueville

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O francês Alexis de Tocqueville era um intelectual notável. Dois de seus livros se tornaram clássicos, “O Antigo Regime e a Revolução” e “A Democracia na América”. Embora seja muito estudado noutros países, no Brasil não havia nenhuma biografia. Sai agora uma obra imperdível: “Alexis de Tocqueville” (Record, 714 páginas, tradução de Mauro Pinheiro), de Hugh Brogan.

Tocqueville escreveu de forma brilhante, como cronista e analista político privilegiado do antigo regime e da Revolução Francesa de 1789. Intelectual refinado, investigava, explicava e escrevia muito bem. A sobrevivência de seus textos se deve, em larga medida, à qualidade de sua prosa e à sua capacidade de observação direta (não apenas mediada por outros textos). Magistrado francês, foi para os Estados Unidos com o objetivo de estudar seu sistema “judiciário-carcerário”. O resultado foi “A Democracia Americana”, um poderoso estudo sobre a sociedade dos Estados Unidos que extrapolou, de longe, os objetivos iniciais de sua pesquisa.
 
As ideias de Tocqueville sobre os Estados Unidos influenciaram a filósofa alemã Hannah Arendt. Pode-se dizer que a intelectual judia atualizou o trabalho de pensador do francês.

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POR EM 26/08/2012 ÀS 06:20 PM

Repórter do Times exclui Elis Regina e Noel Rosa da música brasileira

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 Larry RohterO repórter do “New York Times” Larry Roh­ter não é um in­térprete do Brasil que tenha o porte e o refinamento intelectual de Gil­berto Freyre (“Casa Grande & Sen­zala”), Sérgio Buarque de Holanda (“Raízes do Brasil”), ou, para citar um brasilianista, Thomas Skidmore (“Preto no Branco — Raça e Na­cionalidade no Pensa­mento Bra­sileiro”). Deve ser citado também o grande antropólogo belga Claude Lévi-Strauss, autor de “Tristes Tró­picos”, um livro que permanece gra­ças à sua prosa  viva e perceptiva, assim como ocorre com a sociologia “romanceada” do pernambucano Gilberto Freyre. Mesmo assim, no livro “Brasil em Alta — A His­tória de um País Transformado” (Geração Editorial, 391 páginas, tradução de Paulo Schmidt e Wladir Dupont), Rohter tenta fazer um balanço da história do Brasil, com várias angulações, de Pedro Álvares Cabral, até um pouco antes, ao citar os índios, aos dias da presidente Dilma Rousseff. Há, em quase todos os capítulos, o tom do conselheiro, daquele que, de fora, parece entender tudo e, por isso, sabe quais caminhos devem ser trilhados. Con­centro-me no ensaio “Cri­atividade, cultura e ‘canibalismo’”, de 40 páginas. Curiosamente, apesar de omissões, é o texto mais interessável do livro. De cara, fica-se sabendo que Chiquinha Gonzaga, Noel Rosa, Mário Reis, Ataulpho Alves, Cartola, Jacob do Bandolim, Bidu Sayão, Guiomar Novaes, Elizeth Cardoso, Elis Regina e Dorival Caymmi não existem e, por isso, não são citados por Rohter. Se a história brasileira começa em 1500, ou antes, com os índios, como explicita Rohter, a música patropi começa na década de 1950, com a bossa nova. Por que, num livro que busca as raízes políticas do país, esquecer algumas de suas raízes culturais?

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POR EM 23/08/2012 ÀS 09:37 PM

Einstein: Uma Biografia

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Aquela seria a mais importante autópsia de toda a vida do jovem patologista americano Thomas Harvey. Ele estava absolutamente consciente disso. Valia a pena correr o risco de cometer um grave deslize ético em nome dos possíveis segredos que talvez explicassem a genialidade daquele cérebro. Não teve dúvidas ao contrariar, parcialmente, o desejo do morto, que em vida expressou o destino que deveria ser dado ao cor­po: a cremação. As cinzas deveriam ser espalhadas num lugar deserto.

O desejo do falecido era mais que justificável, pois estava ciente da sua marcante passagem pelo mundo. Não queria ser alvo do que perfeitamente poderia vir a ocorrer no futuro: o culto de sua sepultura como objeto sagrado, ponto de convergência de eternas peregrinações. Teria seu desejo integralmente respeitado, não fosse o deslize ético do patologista que, na autópsia, cortou-lhe o cérebro em duzentos fragmentos e os distribuiu em dois recipientes.

Descoberta a conduta, o patologista foi demitido, mas nada se descobriu a respeito daquele cérebro. Em vida, realizou coisas fantásticas, mas em interação com muitos outros cérebros. Fora do mundo em que ele viveu, não sobrava nada. Em vida, as façanhas desenvolvidas por esse personagem revolucionaram não só os 200 anos que alicerçavam os princípios da física de Isaac Newton, mas também várias descobertas que impulsionaram significativamente o desenvolvimento da humanidade.


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