revista bula
POR EM 31/12/2012 ÀS 03:09 PM

Bradaremos contra os hunos e seus obscuros festivais de cinema: ¡no pasarán!

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Retomo, tal como Sísifo, a minha tarefa de listar os melhores livros de 2012. Encerrei a parte anterior da lista com biografias e memórias; porém, mais que esses livros, é a leitura de cartas que verdadeiramente nos coloca no centro das vidas que nos interessam. Para os adeptos: “Toda a Saudade do Mundo”, correspondência entre Jorge Amado e Zélia Gattai; “Cyro & Drummond” (Globo), coletânea de cartas trocadas entre dois amigos de vida inteira, Carlos Drummond de Andrade e Cyro dos Anjos; e “Mário de Andrade e Sérgio Buarque de Holanda: Correspondência”, publicação conjunta da Companhia das Letras e da Edusp, que tem excelente estudo de Pedro Meira Monteiro sobre as cartas dos amigos paulistanos, ambos fundamentais para trazer ao século 20 o Brasil deitado eternamente em berço esplêndido.


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POR EM 27/12/2012 ÀS 08:30 PM

A história desconhecida da mãe de Barack Obama

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Como o presidente dos Estados Unidos, o reeleito Barack Obama, está mais na moda do que nunca, vale a pena ler a biografia de sua mãe, Stanley Ann Dunham, “Uma Mulher Singular” (Record, 336 páginas, tradução de Mila Burns e Francisco Quinteiro). A antropóloga, mais do que o pai, foi a principal “formatadora” do homem Obama.

A mãe de Obama era uma contestadora, e não apenas na teoria. Tanto que uniu-se a um homem negro, africano — o que, nos Estados Unidos, é, ou era, uma pequena revolução.

O presidente democrata é um político do establishment — impérios liberais não elegem homens essencialmente de esquerda para dirigi-los —, mas, mesmo assim, é diferente do republicano Mitt Romney. Este é mais radical e um filho tardio da Guerra Fria. Muitos americanos o apoiaram acreditando que, com um presidente mais enérgico, o país poderia competir de forma mais dura, e benéfica para eles, com chineses e outros players mundiais.

Obama parece acreditar, como os alemães do pós-guerra (a Alemanha, sem guerra, domina praticamente toda a Europa, que se tornou, por assim dizer, seu espaço vital — exatamente aquilo que Adolf Hitler planejou, mas com violência), que a dominação mais consensual, por intermédio da economia, é menos desgastante.


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POR EM 24/12/2012 ÀS 01:09 PM

Existem realmente nenúfares, samovares e caravançarais?

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Para Laryssa Nogueira, com esperança de que os livros de viagem me (nos) consolem pelas viagens que não fizemos.

Continuo a minha famigerada — não no sentido rosiano — lista de melhores livros de 2012. Relendo o que escrevi na primeira parte, percebo que maltratei os exauridos leitores: mais de 5 mil páginas sobre a Segunda Guerra, calhamaços como “Ulysses” e os vários volumes de “A Comédia Humana”. Bem, é preciso um refrigério, até porque dezembro, e não abril, é o mais cruel dos meses, e portanto deve-se dar rédeas à imaginação para que se possa superá-lo incólume. O negócio é o seguinte: o camarada se cansa do ramerrão das vistas da planície da prosa em excesso e resolve espairecer. Apóio a estratégia, ou, como diz um amigo, adiro ao plano. Assim, como a Companhia das Letras publicou coletâneas de Rainer Maria Rilke, Adonis e Elizabeth Bishop, recomendo esses poetas para quem quiser tomar novos ares nos píncaros da poesia (ando lendo poesia goiana, daí o uso de “píncaros”), pois não é possível viver como um Esteves sem metafísica. Àquele que não gosta de poesia, apenas digo: precisas mudar de vida.


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POR EM 24/12/2012 ÀS 11:14 AM

A poesia completa de Marcel Proust

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Marcel Proust, autor do monumento “Em Busca do Tempo Perdido”, espécie de Louvre literário, foi também poeta de algum mérito, como mostra livro

Marcel Proust, o autor de “Em Busca do Tempo Perdido”, é universalmente conhecido. Mas sua faceta de duelista e poeta é menos conhecida. Em 1896, quando lançou seu primeiro livro, “Os Prazeres e os Dias” (Nova Fronteira, 260 páginas, tradução de Fernando Py), o crítico Jean Lorrain atacou, no “Le Journal”, com acidez: “Qualquer um, hoje, se considera escritor e vem incomodar a imprensa e a opinião púbica com sua pequena glória, a golpe de jantares, influências mundanas, pequenas intrigas de ventarolas. (...) Todos os esnobes querem ser autores. (...) ‘Os Prazeres e os Dias’, do sr. Marcel Proust: melancolias graves, frouxidões elegíacas, pequenos nadas de elegância e sutileza, ternuras vãs, flertes inanes em estilo precioso e pretensioso”. Possesso, Proust desafiou-o para um duelo. Lorrain aceitou e duelaram, em Paris, sob os olhares de uma plateia animada. Nenhum acertou os tiros e ficou por isto mesmo. Lorrain despontou para o anonimato — porque aquilo que apontava como “defeito” era “virtude” (como o estilo era praticamente desconhecido, soava estranho) — e Proust refinou a qualidade de sua literatura, que já aparecia em relances no livro criticado, e nos legou uma bíblia da sociedade francesa de seu tempo, “Em Busca do Tempo Perdido”.

Se o prosador é sobejamente conhecido, o poeta é, por assim dizer, assunto para iniciados. A faceta lírica de Proust, nota Manuel de la Fuente (jornal “ABC”, de 4 de novembro deste ano), é pouco conhecida. “Creio que os poemas de Proust são praticamente desconhecidos na França e na Espanha”, frisa o tradutor Santiago Santerbás. No Brasil, o professor Carlos Felipe Moisés traduziu, com precisão, oito poemas de Proust incrustados em “Os Prazeres e os Dias” e publicou um ensaio esplêndido, “Proust, um poeta fin-de-siècle”. Embora não se considerasse poeta, Proust publicou dezenas de poemas, que, lançados primeiramente na França, agora saem no livro “Poesía Completa” (pela editora espanhola Cátedra, 368 páginas), com tradução de Santiago R. Santerbás. 


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POR EM 15/12/2012 ÀS 08:04 PM

Se a praça é do povo e o céu é do condor, os cadernos de cultura são dos cinéfilos

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Para Bárbara Gigonzac e Heyne Leyser, ávidas leitoras.

Do alto das minhas pilhas de livros, trinta e nove anos de leituras atrasadas me contemplam. Os montes inexplorados — meus himalaias particulares — me fitam e eu, planejando viver mais oitenta e cinco invernos, peço calma a eles e paciência aos deuses para com este humilde pecador.

Meu motor de explosão necessita de livros como carburante, o que me levou a juntá-los desde criança. Lá pelos meus 10 ou 12 anos, confrontado com a dura realidade do mundo cruel, tragicamente deixei de lado um futuro como desbravador do Velho Oeste ou astronauta e passei a me dedicar a uma das poucas atividades em que tenho tido sucesso, a acumulação indiscriminada de livros (isso depois de brevemente também ter considerado tornar-me poeta tuberculoso para viver cercado de belas mulheres sempre dispostas a atender aos meus desejos de moribundo, pois que compungidas com a minha situação de artista incompreendido e privado de leituras por ter colocado os livros no prego). Aos 20 anos, a coisa já era patológica (escreveu Paul Nizan: “Eu tinha vinte anos. Não me venham dizer que é a mais bela idade da vida”). Por ter 20 anos, porém, em algum momento os livros disputaram espaço com os líquidos olhos verdes de Patrícia, mas o excesso de leituras desordenadas me deixara ciente de que eles viriam, causariam os estragos costumeiros e inescapáveis dos líquidos olhos verdes e iriam embora — portanto, a ordem natural das coisas seguiu o seu curso próprio: os olhos verdes se esfumaram, os livros permanecerem e depois houve outras Patrícias. De qualquer modo, tudo ficou ainda mais fácil quando me convenci de que, naquela trágica idade de 20 anos, já tinha os 39 que só alcancei efetivamente neste ano (e agora, supostamente com 39, sei que tenho na verdade 54 anos).


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POR EM 13/12/2012 ÀS 06:50 PM

Gente Humilde — Vida e Música de Garoto

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Aníbal Augusto Sardinha, o Garoto, quase esquecido pelo público, é uma espécie de músico para músicos. João Gilberto é entusiasta da arte do compositor de “Gente humilde” ligar “os acordes por meio de belas frases musicais”. O poderoso chefão da bossa nova disse: “Garoto é um camarada esperto, ele sabe fazer aqueles encadeamentos, ele acompanha de uma forma que fica mais bonita”. Em 1991, incluiu num CD a música “Sorriu para mim”, de Garoto e Luís Cláudio (pseudônimo de Cecy, sua mulher). No livro “Chega de Saudade — A História e as Histórias da Bossa Nova” (Companhia das Letras, 461 páginas), Ruy Castro escreve: “Não havia um instrumento de corda que ele [Garoto] não dominasse à primeira vista. Dizia-se que, numa única canção, Garoto era capaz de alternar violão, guitarra, violão-tenor e cavaquinho, passando de um para o outro sem perder um compasso — e esta não era uma daqueles lendas que os músicos gostam de contar, porque ele costumava fazer isto no auditório da Rádio Nacional”. Depois de chamá-lo de “superviolonista”, o jornalista e crítico acrescenta, citando a cantora Sylvinha Telles, uma das primeiras vozes da bossa nova: “Cantar com Garoto era o máximo que uma pessoa podia querer”. Na esplêndida biografia “Carmen” (Companhia das Letras, 632 páginas), sobre a cantora Carmen Miranda, Ruy Castro aumenta o encantamento: “Aos poucos jornalistas que o procuraram, Aloysio [de Oliveira] disse que o Bando da Lua também vencera na América e que Garoto impressionara os americanos, que o chamavam de ‘Mr. Marvelous Hands’”. No livro “A Canção no Tempo — 85 Anos de Músicas Brasileiras” (Editora 34), Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello comentam: “Garoto tinha uma concepção musical diferente, acima da média de seus contemporâneos, bastando esta melodia [“Duas Contas”], com seus saltos inusitados, para comprovar este ponto de vista”. Com tantas referências positivas, de críticos e historiadores da música qualificados, compreende-se a necessidade de uma biografia detalhada do músico que mesmerizou Vinicius de Morais, Tom Jobim, João Gilberto, Chico Buarque e Baden Powell. A biografia está nas livrarias: “Gente Humilde — Vida e Música de Garoto” (Edições Sesc SP, 270 páginas), de Jorge Mello. 


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POR EM 11/12/2012 ÀS 05:11 PM

Michelet: um poeta inventa a história

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O truque narrativo de Jules Michelet no seu clássico “História da Re­volução Francesa — Da Que­da da Bastilha à Festa da Fe­deração” ainda pode ser encontrado hoje no cinema americano: o herói só radicaliza depois que sofre a brutalidade dos inimigos, depois que se decepciona, quando sua boa fé vira do avesso e se transforma em arma de guerra. Trata-se de uma visão romântica e ao mesmo tempo moderna da história, uma ciência hoje em crise de identidade, abordada neste livro com a oratória poética do mito. Lendo sua obra com olhos livres e com o apoio de Lucien Febvre e Jacques Ran­cière, pode-se identificar os elementos principais deste livro, sua gênese e atualidade. Vamos seguir o conselho de Ma­rio Quintana, que respondeu à pergunta de uma professora “O que é preciso ler para entender Shakespeare?” assim: “Leia Shakespeare”.

A razão vence a loucura

O povo foi convocado pela aristocracia para as eleições de 1789. O objetivo era servir de massa de manobra no jogo político da corte. Michelet destaca a inocência do povo, que atende ao chamado votando maciçamente, de maneira correta, nos eleitores certos, esperando deles a solução para os problemas gerais. O texto tece essa inocência para imantar o povo — que ao agir atrai para si a razão. O povo jejuava — com a crise — e aguardava pacientemente, pois tinha esperança nos Estados Gerais.


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POR EM 12/11/2012 ÀS 06:19 PM

Os melhores livros ficcionais de 2012

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Perguntamos a 20 convidados — escritores, jornalistas, professores — quais foram os melhores livros ficcionais publicados no Brasil em 2012. Os convidados poderiam escolher livros de autores brasileiros ou estrangeiros, publicados entre o meses de janeiro e outubro. “Os Ena­moramentos”, do escritor madrilenho Javier Marías foi o livro que obteve mais indicações, seguido por “Ar de Dylan”, do também espanhol Enrique Vila-Matas; e “A Borra do Café”, do uruguaio Mario Benedetti. Com­pletam a lista, “Serena”, do britânico Ian McEwan; “Chamadas Te­lefônicas”, do chileno Roberto Bolaño; “O Torreão”, da norte-americana Jennifer Egan. 


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POR EM 25/10/2012 ÀS 07:32 PM

Bakhtin Desmas­carado — História de um Men­tiroso, de uma Fraude, de um Delírio Coletivo

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Há um livro explosivo na praça, que ainda estou lendo, im­pressionado: “Bakhtin Desmas­carado — História de um Men­tiroso, de uma Fraude, de um Delírio Coletivo” (Parábola, 509 páginas, tradução de Marcos Marcionilo), de Jean-Paul Bron­ckart e Cristian Bota.

O livro tem um tom de cruzada e de guerrilha contra Mikhail M. Bakhtin e defesa radical de Valentín N. Volóshinov e Pavel Niko­laievitch Medvedev. Bron­ckart e Bota discutem aqueles que ficaram conhecidos como “textos disputados”. Publicados como “de” Volóshinov e Medvedev, seriam “de” Bakhtin.

Bronckart e Bota dizem que, ao se aproximar de Vo­lóshinov e Medvedev, Bakh­tin mudou a linha de seus estudos. Assim, embora apontados co­mo “discípulos” de Bakhtin, este é que teria se inspirado nas ideias dos estudiosos.

Numa desmitificação brutal, Bronckart e Bota afirmam que Bakhtin era “plagiário” A principal obra de Medvedev, “O Método Formal nos Estudos Literários — Introdução Crítica a uma Poética Sociológica” (Contexto, 272 páginas, tradução de Sheila Vieira de Camargo Grillo e Ekaterina Volkova Américo), tem sido apresentada, por alguns críticos, como “de” Bakhtin. Na verdade, sustentam Bronckart e Bota, é mesmo de Medvedev. Os “aliados” de Bakh­tin chegaram a caluniar Med­vedev, apresentando-o como “carreirista”, “cínico” e “mulherengo”, com o objetivo de “diminui-lo”.


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POR EM 05/10/2012 ÀS 08:31 PM

Livro cúmplice

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O livro é cúmplice quando revela o que ninguém sabe. A narrativa nos empolga porque, acreditamos, somos testemunhas de segredos só a nós revelados. É como um tesouro escondido, do qual possuímos a exclusividade do mapa. O autor dormia em seu anonimato de papel antigo até que fôssemos lá abrir uma fresta na sua solidão e degredo. Levamos esse tipo de livro de maneira disfarçada, misturado a coisas comuns, como uma revista ou um impresso qualquer. Se formos flagrados, sacudimos os ombros e pegamos a brochura na ponta dos dedos, com desdém.

Aprendemos coisas como a palavra desdém nessa literatura que não deixou marcas, essa memória oculta, essa única edição sobre o que para sempre foi perdido. Ninguém pode desconfiar do que trazemos embaixo do braço como se fosse uma côdea de pão. Exatamente, côdea é também esse tipo de palavra enterrada em páginas esquecidas. Nós, os leitores oblíquos, costumamos ler obras atiradas no tempo, antes que descubram o quanto é cult, ou importante, ou fundamental. No momento da descoberta, ninguém à vista sabe do que se trata. Você vira o mundo atrás de algumas pistas e não encontra uma só pegada de uma possível leitura. Então, satisfeito, embaixo de cobertas, na curva do quintal, na praça vazia em feriado, você abre, trêmulo, aquela mina anônima, aquele território sagrado onde somos ouvintes de sinetas, passos em castelos, sons de metralha.


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