revista bula
POR EM 28/01/2013 ÀS 03:27 PM

Farpa

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Ela pousou a testa no meu ombro e eu senti seus cílios encostando na minha pele e a abracei bem forte para ter certeza de que ela não iria embora outra vez como nas outras vezes em que acordei e o lençol macio roçava meu corpo como uma farpa e eu tentava lembrar o sonho que eu tive com ela pelo menos um sonho mesmo um pedaço de sonho mas nada e só havia a foto onde ela parecia séria demais os óculos de grau e tartaruga os cabelos desalinhados a mesma boca que conheci tantos anos depois a mesma boca o retrato era tudo que eu tinha e eu tentava não chorar quando olhava pra parede o durex amarelado o rosto sério demais o casaco enorme para um corpo tão pequeno mas quando foi mesmo que ela foi embora se ao menos pudesse saber porque talvez sentisse um alívio um pequeno alívio esbarrando naquela dor claro que a culpa foi minha eu não tinha sensibilidade suficiente é isso eu não tinha sensibilidade suficiente para ler os pensamentos que faziam dela o meu amor ela era o meu amor e talvez o que eu sinto por ela tenha nascido dessa incompreensão — quem é essa mulher que me olha tão fixo a espera de respostas foi isso que eu pensei no bar enquanto ela bebia água sem gás as franjas irregulares minha boca à espera de um beijo e ela chegou tantas vezes sem malas sem roupas de frio naquele inverno úmido demais aquele gelo e nunca mais e eu acordo e durmo e tomo pílulas que me ferram por dentro olho a porta na certeza do meu amor chegar carregando seus livros suas canetas os óculos de grau e tartaruga e nem um bilhete alguma coisa que eu possa ter além da foto onde ela aparece séria demais e essa chuva na janela o último beijo que eu nunca lhe dei e os dias passam e eu durmo e acordo durmo e acordo durmo.


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POR EM 18/01/2013 ÀS 07:39 PM

Fá-bula pós-moderna: “Tatuagens Fabulosas”

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Saibam quantos lerem esta fáBULA ou dela notícias tiverem por qualquer meio nacional ou estrangeiro, eletrônico, virtual, táctil, oral, mecânico, sensitivo, caritativo ou eleitoreiro que em tempos pós-modernos há objetos,  geringonças, módulos, dispositivos, códigos de barra, tarjas, chips,  lentes, imagens e tatuagens que enxergam, espionam, filmam, gravam, mapeiam e se comunicam sem limitações de meridiano, fuso horário, idioma, emoções ou decência; e que o diálogo a seguir é de máxima boa-fé e corresponde à conversa de duas tatuagens glúteas, aqui nomeadas Libélula e Dragão, sendo as ditas cujas alocadas em usuários distintos conforme se verá:

Libélula — Finalmente o casal aí dormiu de bruços. Estava sufocada nessa cama de motel. Prazer, sou Libélula!  E você é um Dragão! Mas por que foi tatuado no glúteo desse marmanjo? Só vi dragões em espáduas, braços, ombros e peitoral dos clientes dessa periguete aí que me usa, a Rosineide...


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POR EM 11/01/2013 ÀS 05:42 PM

Quatorze

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Todas as mulheres deveriam ter quatorze anos.
Nelson Rodrigues

Fotografia: RevolvverComo era mesmo o nome dela? Lembrava da saia do colegial, dobrada na cintura para parecer mais curta, até a madre superiora aparecer do nada, “Desce a saia, arruma as meias”. Quantos anos ela teria? Quatorze. Os cabelos quase lisos desciam até os ombros, quando não estavam presos num rabo de cavalo com elásticos que ela conseguia no almoxarifado. O servente oferecia canetas, apontadores, cadernos pautados, elásticos, qualquer coisa que ela pedisse. Devia ser por causa da saia dobrada ou dos olhos castanhos amendoados. Os cílios. Em lugar do sutiã, usava uma camiseta sem mangas e, encoberta pela camisa da escola, uma medalhinha num cordão de ouro. Como era mesmo o seu nome? Ela carregava os livros e cadernos junto ao peito, antes de começar a usar fichários. Sua letra era apressada, abreviava as palavras ditadas pelo professor de ciências, mordia a ponta do lápis, fazia círculos na última página do caderno, espirais, estrelas. Eu me sentava atrás dela, ainda usava bermudas e meu rosto era coberto por um óculos de grau e meia dúzia de espinhas. Garotos assim apenas admiram e se apaixonam. E eu olhava pra ela na fila da cantina e depois quando jogava pingue pongue, a raquete e o sanduíche que ela comia pelas beiradas, virando o pão em sentido circular, hábito que, por ela, acabei adquirindo por toda à vida. Não era boa aluna, mas não acumulava notas vermelhas. 


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POR EM 05/01/2013 ÀS 08:07 PM

Nomes só (2)

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Samira

Ela chora muito, mal consegue falar, emocionada com a própria bondade. Funga e invoca “Jesus, nosso mestre”, para depois puxar um “Pai Nosso”, constrangendo a todos, os que seguem e os que não seguem sua religião. Adriana não reza, mas fica ali imóvel, covarde e respeitosa, de mãos dadas, enquanto a cabeça dela não para. Nalgum ponto dessa vida ela sabe que vai ter que parar de pensar e simplesmente embarcar na onda alheia.

Rita

Ela gemeu, a boca encostada na dele, os olhos abertos, fechados, abertos.

Dafne

Ela não tem idade para nada disso, entende? Para nada disso. Nem para e-mail no meio da tarde, nem para telefonemas ofegantes durante a madrugada. E antes que você comece com aquele discursinho que emprega frases edificantes como “ser jovem no coração”, vou logo avisando que ela acha que não tem mais idade para nada disso, então, fim de papo. E-mails gentis, frases espirituosas, descrições engraçadas sobre um cotidiano nem tanto — Deus, ela não precisa mesmo de nada disso. Ela tem cicatrizes.


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POR EM 02/01/2013 ÀS 05:53 PM

Nomes só: Américo

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Mudei meu caminho hoje, para encostar no seu. Acho que foi o Chico Buarque quem usou essa imagem, e o Chico Buarque tem sempre razão. Foi isso, encostei meu caminho no seu. Saí do meu compromisso e, ao invés de pular direto para a Marginal e dali para casa, adiantei meu relógio em uma ponte e cruzei o rio. Seu território. Passei pelo lugar do seu acidente. Mais adiante, em frente à velha lanchonete, quebrei à direita ali no circo que não existe mais (como nós, como nós), entrei logo ali passando pelo restaurante e pela padaria, para cair em sua rua, a rua da redenção, com a qual se eu não dividir a salvação ou sua presença, divido ao menos o sobrenome. Ela é diferente de dia. Mais rude, menos acolhedora, sem doçura alguma (como nós, de novo, como nós). É uma rua, apenas. Caminhões de entrega, babás e cães. Rodinhas de seguranças fumando numa ou noutra esquina. Seu prédio baixinho e já era a esquina e já era o final. Quase ouvi sua sonora gargalhada, mas sei que não. E não, de leve ouvi você chamar meu nome. Nem de leve.


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POR EM 08/08/2009 ÀS 01:53 PM

O proto-colo

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"Depois de ouvir da quinta secretária que entrasse para a sala seguinte, suspirou aliviado, achando que finalmente encontraria o homem. E mais aumentou sua convicção de que estava no caminho certo, porque foi recebido na porta por uma bandeja de cafezinho e em seguida perguntaram-lhe se preferia uísque escocês ou nacional"

 

O prédio da Prefeitura, construído sobre um outeiro, vigiava vinte e quatro horas por dia pelo sono da cidade. Era um edifício moderno, imponente, de linhas entre arrojadas e tímidas. Bem diferente desses vetustos edifícios públicos que andam por aí, enredados em arabescos, carcomidos pelo tempo, espiando acanhados por pequenos buracos a que davam o nome de janelas. Esse não, todo envidraçado, sem colunas dóricas ou jônicas, nem sacada tinha para o aparecimento público; aliás, coisa que vai saindo de moda, porque aos poucos se torna sinônimo de apedrejamento.

Mal abriram-se as portas de vidro em caixilhos de bronze polido, Adão entrou. O esplendor de saguão, com mármores de Carrara e lustres de cristal da Boêmia, assustou o visitante. Como saber se não estava entrando no palácio de Júpiter, no Olimpo, ou na folha de parreira — misto de agenda e bermuda — e certificou-se de que estava no lugar certo. Os olhos ainda um pouco ofuscados pelo brilho do interior, localizou, sob um letreiro a néon, a recepcionista.

— Muito bom dia, senhorita.
— Que Deus o obsequie da mesma forma, cavalheiro.

Observaram-se durante alguns segundos, até que a recepcionista tomou a iniciativa.

— O que posso eu fazer por você?

A recepcionista era moça elegantíssima e tinha um ar soberbo, de grande dama, aprendido na Escola Superior de Relações Públicas para Funcionárias Municipais. Adão sentiu-se, no primeiro instante, um pouco atrapalhado.

— Não vê que eu, não é, isto é, quer dizer, que na minha casa já falta água há mais de um mês. Pelo amor de deus, gentil senhorita, estou sem banho há igual tempo, e o meu pomar começa a murchar. A árvore da vida, cujo trato me é ao caro, acaba de perder todas as flores. Isso é grave, senhorita, porque sem maçã não se poderá consumar o pecado original. E a Eva já anda se esfregando até em perna de mesa.

A recepcionista abriu uma gaveta de onde retirou um bloco de papel com o brasão da Prefeitura.

— O senhor vai desculpar-nos, mas é uma formalidade desnecessária que, entretanto, nos mantém o “status” de povo civilizado.

Seu nome, por favor?

— Adão do Jardim Edênico, às suas ordens.
— Muito prazer, Eva do Jardim Botânico.

Apertarem-se as mãos efusivamente.

— Endereço?
— Jardim do Éden.

Ela escreveu repetindo pausadamente as sílabas.

— Ótimo. Agora, por favor, o senhor lave os pés ali naquela pia de bronze e suba ao primeiro andar pela escada de mármore cor-de-rosa. No fundo do corredor, à sua esquerda, o senhor vai descobrir o Protocolo.

Adão agradeceu com mesuras e palavras corteses, fascinado com tamanha gentileza.

Ao localizar, finalmente, o Protocolo, o coração de Adão pulsou aplausos de contentamento. Cansado e transpirando, escorou-se no balcão.

— Boa tarde, cavalheiro.
— Um momentinho.

O funcionário, absorto, mantinha os olhos fixos no relógio da parede. Faltavam cinco minutos para as duas. Quando enfim o ponteiro maior encaixou-se entre o um e o dois de meio-dia ou da meia-noite, o funcionário virou-se para o visitante e ordenou:

— Pode começar tudo de novo.

Encantado com tanta exatidão, o visitante sorriu, mas obedeceu.

— Boa tarde, senhor funcionário.
— Que Deus lhe dê em dobro tudo o que o senhor me desejar, senhor... como é mesmo que o senhor disse que é seu nome?
— Eu ainda não disse meu nome.
— Pois então não percamos tempo, que já são catorze horas e dois minutos e o expediente de hoje vai ser foda. Nome, por favor.
— Adão do Jardim Edênico.

O funcionário não declinou sua graça e Adão ficou decepcionado. Bem se vê, pensou ele, que é um empregado subalterno, sem as sutilezas de comportamento que só uma boa escola pode ensinar.

— Muito bem, seu Adão, e o que o traz até nós?

Nem sombra de embaraço, agora, por ser homem e demonstrar a simplicidade de quem não possui um diploma. Além do mais, o piso do primeiro andar era de cerâmica vermelha e a iluminação vinha de uma lâmpada fluorescente. Mesmo o letreiro, acima do balcão, era impresso com letras negras em uma cartolina branca. Nada do que causava a intimidação da entrada.

— Água, só água. Estamos sem água há mais de um mês, lá em casa, e o meu pomar...
— Perdão, cavalheiro, mas não tenho tempo para ouvir histórias. Quero síntese, entende? Síntese.

Adão começava a impacientar-se, por isso gritou.

— Eu vim aqui fazer uma reclamação.

O funcionário sorriu vitorioso.

— Ah, sim, agora começo a entender. O senhor veio aqui fazer uma reclamação, não é mesmo?
— Foi o que eu disse.
— E quem o mandou à nossa seção?
— Aquele monumento de mulher, que se eu não fosse casado há tanto tempo, não sei, não, mas acho que até poderia convidá-la para juntos cometermos algumas loucuras.
— Quem!? — interrompeu o funcionário, batendo o carimbo no balcão.
— A recepcionista.
— Correto. Era isso mesmo que supunha. Passe-me o papel então.
— Que papel?
— O senhor não veio até aqui entregar uma reclamação?
— Vim.
— Então, passe-me o papel.
— Mas por que um papel?

O funcionário sorriu novamente, mas agora, irônico.

— Me diz uma coisa, seu Edênico, o senhor é daqui mesmo?
— Como, daqui?
— O senhor mora aqui na cidade?
— Bom, moro mais ou menos.
— Mais menos do que mais?
— É. Acho que é.
— Onde.
— No Jardim do Éden.
— Bem que eu vi. É gente da periferia.
— Alguma coisa de errado nisso? Não são vocês, por acaso, que garantem o abastecimento d´água no meu bairro?
— Não, não é nada disso. É que o senhor não leu o letreiro aí em cima.

A impaciência raiava à revolta

— Claro que li!
— Então, e o que está escrito?
— Protocolo.
— Aí, tá vendo? Protocolo. E o que o senhor pensa que nós fazemos aqui na seção?
— Sei lá!
— Pois eu explico.

O funcionário respirou fundo, muniu-se de paciência e começou a explicar.

— Olhe, seu Adão, no Protocolo, a seção mais importante desta Prefeitura, nós protocolamos. Sem nosso serviço, os despachos ficariam todos engavetados, os requerimentos jamais chegariam aos destinatários, as reclamações não teriam por onde entrar, as execuções ficariam paradas. Sem nós, seu Adão, a vida na cidade seria impossível. Entendeu?
— Entendi.
— Pois bem, então vamos, o papel. Sem ele eu não posso protocolar.
— Mas eu não trouxe papel nenhum.
— E onde está a reclamação, meu amigo?
— Aqui, na minha cabeça.

O funcionário coçou o queixo, olhos enviesados, coçou a cabeça, catou um piolho na barriga e mastigou mostrando os dentes alvos.. Apertou um botão do interfone e, em voz baixa, conversou por várias horas com o chefe da seção. Por fim, virou-se para Adão e jorrou peremptório.

— Impossível.
— E posso saber por quê?
— Claro. É nosso dever manter os munícipes bem informados. No dia dois de fevereiro do ano em curso, o Mui Digníssimo Senhor Prefeito Municipal assinou um projeto, em seu Gabinete do Prefeito, que enviou à Egrégia Câmara de Vereadores no dia seguinte.

Os senhores Edis Municipais, em sessão do dia treze de março, deste mesmo ano em curso, aprovaram por unanimidade e devolveram ao Gabinete do Prefeito, com o número protocolar 24.68/32, o projeto retro citado, que, no dia seguinte, depois de sancionado, passou a incorporar o Código de Posturas Municipais, sob o número 404/1313.

— Sim, mas e daí?
—Daí, que estamos, nós do Protocolo, terminantemente proibidos de protocolar sua cabeça.
— Puta que os pariu! Eu não sou personagem de romance absurdo. Eu só quero água lá em caixa!

O Chefe da seção passava, paletó no ombro, e parou surpreso.

— Parece que ouvi gritos!

O funcionário, respeitoso, perfilou-se para responder.

— Com sua permissão, senhor Chefe. É este senhor aqui, de quem já lhe falei. Ele veio fazer uma reclamação, mas não trouxe nada por escrito.

O Chefe da seção, fingindo em tudo um comportamento bem educado para que ninguém desconfiasse de que não tinha diploma e que, se ocupava o cargo, era por ser amigo do Prefeito, sacudiu a cabeça lastimando a sorte do Adão.

— Sinto muito, senhor munícipe, mas o expediente acaba de encerrar-se. Só amanhã poderemos resolver o seu caso.

Nisto de expediente encerrado, o funcionário tirou o avental branco, sumiu por instantes no banheiro e de lá voltou de paletó, penteado, um riso faceiro na cara. Estatuado, Adão fitava os pés.

— Nós precisamos fechar a Prefeitura. O senhor vai ou fica?
— Fico.

Os dois se entreolharam assombrados.

— Mas isto não pode.

Adão pressentiu que era seu momento de desforrar-se

— Como não? Me digam: qual o capítulo, o artigo, o inciso, a alínea do Código de Posturas em que se proíbe alguém de ficar?

No Protocolo, como nas demais seções, os funcionários eram obrigados a saber de cor os itens que lhes diziam respeito. A situação, assim, ficava complicada. O Chefe e seu subalterno afastaram-se cinco passos para confabular. Como nenhum dos dois conhecia o Código em sua íntegra, resolveram consultá-lo. Adão sentou-se ali mesmo, ao rés do balcão, enquanto os dois empreendiam uma exaustiva investigação.

Tarde da noite, ao virarem a última página do Código, o Chefe concluiu:

— Se não diz que não pode, é porque pode. Boa noite.

Na manhã seguinte, o assunto já encaminhado na véspera, foi tudo bem mais simples. Resolveram que Adão não estava obrigado a protocolar coisa nenhuma e fosse conversar diretamente com o Engenheiro, atual Secretário Municipal do Abastecimento de Água e Derivados. Adão alisou a folha de parreira, que começava a murchar, e foi em busca do Gabinete do Secretário.

Depois de ouvir da quinta secretária que entrasse para a sala seguinte, suspirou aliviado, achando que finalmente encontraria o homem. E mais aumentou sua convicção de que estava no caminho certo, porque foi recebido na porta por uma bandeja de cafezinho e em seguida perguntaram-lhe se preferia uísque escocês ou nacional. Atravessou uma sala imensa e vazia, acarpetada por dez centímetros de calor, e aproximou-se da mesa de jacarandá da Bahia, móvel cujo estilo brigava com tudo que vira até ali.

— A que devemos a honra de sua visita? — gritou um homem de cabelos grisalhos.

Mesmo sem ter ouvido direito o que o outro dissera, Adão fiou-se no rosto simpático e contou sua história.

— Infelizmente este assunto não é comigo.

Desapontado, Adão consultou o relógio na parede: faltavam poucos minutos para encerrar-se o expediente.

— Com quem eu devo falar, então?
— Com o Engenheiro.
— Puxa vida, até que enfim nos entendemos. E onde eu o encontro?
— Ele saiu há quatro semanas em um périplo de vilegiatura pelos Estados Unidos.
— Porra! Como, nos Estados Unidos?!
— Sim, é lá que ele se encontra.
— E quem está no lugar dele?

O homem que o atendia, talvez um adjunto para questões eleitorais, soltou uma gargalhada.

— Seu pensamento, meu amigo, é anti... ou ante, e agora?

Ligou o interfone para a Secretária Sênior, que já se tinha ido, e contentou-se com Marina, a Secretária Júnior.

— Dona Marina, é anti ou ante?
— Depende, Doutor.
— Ora essa, mas depende do quê?

A voz eletrônica e ardida lascou sua explicação.

— A professora disse que se é antes do dilúvio, é ante-diluviano; mas se for contra veneno de cobra, é anti-ofídico.
— Ora, tenha a santa paciência, dona Marina! Não estou falando de cobra nem de dilúvio. Eu quero dizer que é contra a ciência.

O aparelho ficou mudo por alguns momentos.

— Perdão Doutor, mas disso ela nunca falou.
— Sei, sei. De qualquer forma muito obrigado.

Desligou o interfone e confidenciou a Adão:

— Estas secretárias juniores são umas mulas. Sem a sênior, não sei no que viraria isto aqui. Mas de que mesmo que estávamos falando?

Restavam apenas três minutos e Adão suava.

— O senhor dizia que o meu pensamento...
— Ah, é! Pois então, senhor Adão, o seu pensamento é contra a ciência, porque sua pergunta contraria as leis da física. Dois corpos, senhor Adão, não podem ocupar o mesmo lugar ao mesmo tempo. Ninguém pode estar no lugar do Engenheiro.

Adão arrancou desesperado os últimos fios de pentelho.

— Pois bem, se eu não posso falar com o Engenheiro, porque ele não me ouviria de tão longe, com quem mais posso falar, que resolva o meu problema.

O Doutor, já de pé, preparando-se para ir embora, ainda respondeu.

— Com Deus.
— Não, com Deus não falo. Ele já não quis me quebrar o galho por causa de uma porra de uma maçã bichada, nem pensar na ajuda dele, neste caso.
— Sinto muito. Não tenho outra sugestão.

E saiu, sem ao menos perguntar se Adão saía ou ficava.

Duas semanas circulando pelos corredores de todos os andares, abrindo e fechando portas e janelas, apresentando-se a todo ser movente que encontrava, já era amigo da cozinheira, da servente, da recepcionista, dos chefes de seção, dos sub-chefes, do caixa, dos adjuntos e adjetivos em geral, dos substantivos e subtítulos licenciados, das secretárias das secretárias, das próprias, do Vice e do Prefeito. Nada mais natural, portanto, que fosse convidado a ocupar (e aceitasse) o cargo de Secretário Municipal de Abastecimento de Água e Derivados, no lugar do Engenheiro, cujo avião, de volta ao Brasil, mergulhara no Oceano, e cujo atestado de óbito acabava de ser protocolado sob o nº 24.69/ diga 33, para posterior encaminhamento ao arquivo, morto.




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