revista bula
POR EM 05/08/2008 ÀS 11:23 AM

O Deserto Vermelho

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"O Deserto Vermelho" é o nome do filme, de 1964, do diretor italiano Michelangelo Antonioni. É o primeiro longa-metragem em cores de Antonioni - o que terá toda a importância, a partir, desde já, como veremos, do título - e com a fotografia de Carlo Di Palma. Lançado em DVD, em versão restaurada, o filme se passa na poluída Ravenna, cidade italiana, e tem a atriz Mônica Vitti no papel principal. No que segue, não tentarei resenhá-lo, mas abordá-lo de alguns pontos de vista que, se não forem os mais relevantes, foram os que me suscitou a obra quando tive a oportunidade de assisti-la recentemente.
 
Comecemos pelo final, não o do filme, mas dos extras do DVD recheados de comentários irônicos e divertidamente mundanos dos cinejornais da época que faziam a cobertura das entregas de prêmios às celebridades do cinema italiano. Em tais comentários, Antonioni é sempre retratado de forma caricatural como o “intelectual sombrio”. Mônica Vitti, por sua vez, que junto com ele formava o par “menos alegre” do cinema, na avaliação do cinejornal, era premiada pelas suas atuações “cada vez mais mudas”. Antonioni, flagrado na pré-estréia de seu outro filme, “Eclipse”, “não se rendia a nenhuma corrente, nem mesmo à elétrica”.
 
Numa espécie de contraponto “sério” a essas vinhetas cômicas, o próprio Antonioni comparece nos extras, sendo entrevistado por um repórter de um programa francês. Nessa entrevista, aliás, mostra-se muito pouco “ecológico”, para alguém cuja transformação do mundo industrial foi tido como um choque. Ficamos sabendo, pelo próprio diretor, que Deserto Vermelho “originou-se” desse choque, em uma visita do diretor a Ravenna, cidade próxima ao lugar de nascimento de Antonioni, Ferrara.
 
Somos informados também que durante as filmagens ele mandou pintar casas, árvores e até um bosque inteiro, cujo verde não lhe parecia uma cor “justa” para a impressão que queria causar no espectador. Por isso foi pintado de branco, com ajuda de uma máquina de borrifar tinta, especialmente para cena inicial do filme, uma greve na porta de uma usina. O cenário construído entretanto sequer chegou a ser utilizado. Por razões técnicas, anteriores à era Spielberg, devido ao sol, o bosque parecia preto, quando enquadrado contra a luz.
 
Se formos analisar melhor o motivo dessas intervenções visuais “corretoras”, percebemos que, no filme de Antonioni, a poluição das indústrias, com suas cores, precisa ser possuidora de uma beleza ao mesmo tempo assustadora e pungente, atrativa e horrenda, que alguns filósofos como Kant e Schiller chamariam de sublime.
 
É possível encontrar esse tipo de beleza - a câmera nos mostra, e isso é sentido por Giuliana, interpretada por Monica Vitti, a ponto de levá-la ao desespero,- nas poças esverdeadas do cais, na lama azul-petróleo do rio estagnado, nas marcas multicoloridas de ferrugem e óleo do casco das embarcações, na neblina artificial resultante da evaporação da água utilizada na usina e até mesmo na fumaça amarela e venenosa da chaminé de uma fábrica.
 
Esse é um filme em que o ambiente desempenha um papel principal, revela também o diretor italiano na entrevista. Como isso se coadunaria então, com aquele que os críticos dizem ser o grande tema de Antonioni, “a incomunicabilidade e a solidão do homem contemporâneo”?
 
Apesar de casada com o diretor da usina, Giuliana está terrivelmente só, a realidade a atinge de modo quase insuportável. A única saída para seu tormento seria se ela pudesse também “pacificar a violência” que sente, sublimando-a esteticamente, em suma, tornando-se artista, a exemplo do próprio Antonioni. Mas o que fazer quando não se é dotado de talento até mesmo para essa não-solução provisória, chamada arte?
 
No final do conto mais famoso de F. Scott Fitszgerald, encontramos a seguinte frase: “No mundo inteiro, há apenas diamantes, diamantes, e talvez a pobre dádiva da desilusão. Bem, eu tenho esta última, e farei o de sempre com ela: nada.”
 
Os personagens de Antonioni caracterizam-se quase sempre por uma espécie de inação ao final de suas vidas filmadas (final da película). Chega-se a um ponto em que não há mais nada para fazer ou dizer, a não ser aceitar a “pobre dádiva da desilusão”. Seus personagens nunca são triunfantes, mas resignados. Alguns se deixam mesmo abater pela tragédia, como no caso do final de O Grito, ou em Profissão: repórter.
 
“Não sou filósofo, nem sociólogo”, afirma Antonioni na entrevista. Tudo aquilo que quis dizer, segundo ele, foi dito no próprio processo de fazer o filme. A avaliação sobre o significado viria depois ou não talvez não viesse nunca. A inconclusão de suas obras é a própria inconclusão da vida - enquanto houver vida, ela não estará concluída.
 
Não sabemos o que acontece com Giuliana, o filme não nos mostra, não há uma “resolução definitiva” para o seu drama. Talvez ela permaneça apenas como um símbolo da inadequação, ao mesmo tempo extremamente receptiva, esteticamente, mas cuja resposta, em forma de ação, seja passiva. Testemunha silenciosa da passagem de um mundo naturalmente belo (que seria talvez apenas ideal) para uma realidade terrível, mas ainda assim não totalmente desprovida de encantos, com a qual é preciso de alguma forma conviver.

 

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POR EM 22/06/2008 ÀS 05:44 PM

Alma de boxeador

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Na música ela encontrava sentido para a sua existência. Por isso, quando alguém lhe pergunta o que faria se não mais pudesse cantar, ela diz: "Eu não viveria"      
                                    

Em tempos de multiplicidade de mídias, quem gosta de cinema não precisa angustiar-se, como outrora, por ter perdido um filme que passou na cidade. Hoje em dia, mal o filme saiu de cartaz, o DVD já aporta nas locadoras. Piaf - Um Hino ao Amor, por exemplo, cinebiografia da cantora francesa Édith Piaf, já está disponível para quem o quiser ver ou rever. E, o que é surpreendente, a qualidade de imagem é superior à que foi vista no cinema.
      
O filme condensa a vida da cantora em uma série de episódios repassados de tensão. Seja por sofrimento, seja por júbilo. A história se inicia em 1959, quando ela desmaia no palco, em Nova York, e se fecha com o último show dela no Olympia. Entre a primeira e a última cena, o filme volta ou avança no tempo nada menos que 35 vezes.
      
Repleta de fatos trágicos e de momentos gloriosos, a vida da cantora é por si mesma melodramática. Talvez por isso os roteiristas tenham se empenhado mais para estabelecer relações entre os eventos em que ela esteve envolvida e, assim, articular um enredo extremamente acronológico. E o diretor Olivier Dahan, que teve participação no roteiro, empregou todos os recursos dramatológicos que conhece para despertar no espectador o máximo de empatia com a personagem.
      
Se bem que os eventos mostrados guardem correlação com os fatos biográficos, isso não significa que não se tenham tomado liberdades com alguns detalhamentos. Consta, por exemplo, que o memorável show no Olympia, em que ela cantou "Non, je ne regrette rien", teria ocorrido em 1961, enquanto no filme o ano é 1960; e que nos seus últimos meses ela teria sofrido lapsos de consciência, enquanto no filme ela se mantém lúcida até o final.
     
O filme é tocante e tem cenas de grande beleza, mesmo quando Piaf não está cantando. Um exemplo é o instante em que ela, criança ainda, admira uma boneca na vitrine e, sem tirar os olhos do brinquedo, vai-se abaixando à medida que a porta da loja se fecha de cima para baixo. Outro exemplo é quando, depois de árdua preparação, ela canta pela primeira vez num music hall. Não se ouve o que ela canta. Apenas se vêem sua figura iluminada, seus gestos e a reação da platéia, que aos poucos vai-se rendendo ao seu carisma.
     
Com menos de metro e meio de altura, Piaf era fisicamente frágil, motivo do apelido "la Môme Piaf" (Pequeno Pardal), que lhe deu o seu descobridor. Todavia, a crer-se no filme, ela possuía alma de boxeador. Não por acaso, o grande amor de sua vida foi o pugilista Marcel Cerdan, campeão mundial dos pesos-médios. Aos golpes que a vida lhe infligia ela revidava com a potência do seu canto.
     
Quando ela solta a voz, até as pedras se emocionam. Na última cena, quando ela canta "Non, je ne regrette rien", com toda a passionalidade de sua alma livre e desesperada, o seu canto tem qualquer coisa de mágico que avassala os ouvintes. E era na música que ela encontrava sentido para a sua existência. Por isso, quando alguém lhe pergunta o que faria se não mais pudesse cantar, ela diz: "Eu não viveria". Coerentemente, após mostrar a sua expiração, o filme termina com a canção que ela adotou como uma espécie de hino  a sugerir que ela continua viva nas canções.
     
Marion Cotillard, a intérprete de Piaf, não poupou sacrifícios para tornar sua atuação convincente. Raspou as sobrancelhas, refeitas a lápis, e parte do cabelo acima da testa, além de submeter-se a sessões de maquiagem de até cinco horas para as cenas da cantora em seus últimos dias. E o resultado é magistral, quase do nível da atuação de Jamie Foxx como Ray Charles, no filme Ray (2004). O "quase" vai por conta de Foxx ter cantado, o que Marion não fez.
     
As canções foram tiradas de gravações da própria Piaf, exceto "Padam" e "L'Accordéoniste", providas pela atriz Jil Aigrot. Mas a dublagem se aproximou da perfeição, a ponto de induzir à suposição de que Marion imitou até a voz dela. De fato, somente quem conhece as alterações fisiológicas causadas pelo esforço de cantar consegue perceber que Marion está dublando.
     
No cinema, a fotografia do filme apresentava indícios de degradação, com as cores diluídas, o que não seria compatível com as épocas e boa parte dos ambientes recriados. A título de comparação, tomemos o filme Um Beijo Roubado (2007), de Wong Kar-Wai. Nele, há a nítida preocupação com a desglamorização. Donde os enquadramentos e ângulos inusitados e o uso de lentes de reduzida profundidade de campo (foco curto), combinando com a época focalizada e os ambientes degradados em que as personagens transitam.
     
Quem assistir a Piaf - Um Hino ao Amor em DVD vai perceber que a iluminação das cenas denota preocupação com um visual glamoroso. As imagens, até certo ponto requintadas, têm cores bem definidas, precisas, em consonância com a época e os ambientes retratados.
     
Diante de tal constatação, os que defendem a tese de que filmes são feitos para serem vistos unicamente no cinema que nos perdoem, mas ter a mente aberta a novas mídias é fundamental. 


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POR EM 14/03/2008 ÀS 04:09 PM

A ferida na memória

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O trauma é um dos temas recorrentes e centrais das artes contemporâneas. O que se coloca é a dificuldade de apreender uma experiência terrível, como foi a do campo de concentração nazista da Segundo Guerra Mundial. Trata-se de transformar em palavras ou imagens o tormento de uma situação que se aproxima do irrepresentável. No Brasil, a vida de quem lutou contra a ditadura militar de 1964 entra na categoria da memória que é difícil de ser recuperada e incapaz de ser esquecida, sobretudo as torturas sofridas pelos militantes de esquerda.

A experiência traumática ronda “Ação Entre Amigos” (1998), de Beto Brant. Possivelmente, é o filme que melhor aprofunda as questões levantadas a partir da guerra suja entre militares e guerrilheiros de esquerda nos anos 1960 e 1970. A história se passa no presente, com quatro amigos que lutaram contra a ditadura e vão para uma pescaria de fim de semana. A surpresa será contada pelo organizador do passeio: o grupo vai na verdade ao encontro do antigo torturador, aquele sujeito que atormenta as memórias deles. A trama se desenrola na discussão do que fazer com o algoz do passado.

O filme de Brant coloca uma questão discutida anos trás por Jacques Derrida a respeito do “perdão”. Segundo o filósofo francês, as violências que atingem as sociedades encontram distintas soluções. Os nazistas foram julgados sumariamente pelo Tribunal de Nuremberg. No outro extremo, o Chile e o Brasil optaram pela anistia irrestrita aos crimes cometidos durante os períodos ditatoriais. Os dois casos geraram ressentimentos e deixaram feridas abertas. Uma solução, para Derrida, seria a adoção do tribunal como aquele criado pela África do Sul no pós-apartheid.

Os sul-africanos fizeram um tribunal sem julgamento legal. Os brancos, porém, deveriam realizar um acerto de contas com os negros e reconhecer publicamente a responsabilidade por crimes cometidos em nome do regime oficial de discriminação. No filme “Ação entre amigos”, os personagens estão no Brasil e decidem resolver por conta própria o que está preso na memória. Eles mesmos criam o seu próprio tribunal, onde também eles serão punidos. Surge uma tensão dramática que resultou num dos melhores filmes da retomada do cinema brasileiro nos anos 1990.

Outra obra a tratar desse esquecimento impossível da ditadura é “Benjamin” (2004), de Monique Gardenberg, baseado no romance homônimo de Chico Buarque. A memória vira uma alucinação do personagem Benjamin já velho nos dias atuais. Ele vive o tormento de encontrar uma mulher fisicamente muita parecida a sua namorada que foi morta pelo regime militar. É uma narrativa que reúne a nostalgia dos anos dourados da juventude, o pesadelo da perseguição política e um presente sem vida e orientado pela imagem da publicidade.


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