revista bula
POR EM 22/06/2008 ÀS 05:44 PM

Alma de boxeador

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Na música ela encontrava sentido para a sua existência. Por isso, quando alguém lhe pergunta o que faria se não mais pudesse cantar, ela diz: "Eu não viveria"      
                                    

Em tempos de multiplicidade de mídias, quem gosta de cinema não precisa angustiar-se, como outrora, por ter perdido um filme que passou na cidade. Hoje em dia, mal o filme saiu de cartaz, o DVD já aporta nas locadoras. Piaf - Um Hino ao Amor, por exemplo, cinebiografia da cantora francesa Édith Piaf, já está disponível para quem o quiser ver ou rever. E, o que é surpreendente, a qualidade de imagem é superior à que foi vista no cinema.
      
O filme condensa a vida da cantora em uma série de episódios repassados de tensão. Seja por sofrimento, seja por júbilo. A história se inicia em 1959, quando ela desmaia no palco, em Nova York, e se fecha com o último show dela no Olympia. Entre a primeira e a última cena, o filme volta ou avança no tempo nada menos que 35 vezes.
      
Repleta de fatos trágicos e de momentos gloriosos, a vida da cantora é por si mesma melodramática. Talvez por isso os roteiristas tenham se empenhado mais para estabelecer relações entre os eventos em que ela esteve envolvida e, assim, articular um enredo extremamente acronológico. E o diretor Olivier Dahan, que teve participação no roteiro, empregou todos os recursos dramatológicos que conhece para despertar no espectador o máximo de empatia com a personagem.
      
Se bem que os eventos mostrados guardem correlação com os fatos biográficos, isso não significa que não se tenham tomado liberdades com alguns detalhamentos. Consta, por exemplo, que o memorável show no Olympia, em que ela cantou "Non, je ne regrette rien", teria ocorrido em 1961, enquanto no filme o ano é 1960; e que nos seus últimos meses ela teria sofrido lapsos de consciência, enquanto no filme ela se mantém lúcida até o final.
     
O filme é tocante e tem cenas de grande beleza, mesmo quando Piaf não está cantando. Um exemplo é o instante em que ela, criança ainda, admira uma boneca na vitrine e, sem tirar os olhos do brinquedo, vai-se abaixando à medida que a porta da loja se fecha de cima para baixo. Outro exemplo é quando, depois de árdua preparação, ela canta pela primeira vez num music hall. Não se ouve o que ela canta. Apenas se vêem sua figura iluminada, seus gestos e a reação da platéia, que aos poucos vai-se rendendo ao seu carisma.
     
Com menos de metro e meio de altura, Piaf era fisicamente frágil, motivo do apelido "la Môme Piaf" (Pequeno Pardal), que lhe deu o seu descobridor. Todavia, a crer-se no filme, ela possuía alma de boxeador. Não por acaso, o grande amor de sua vida foi o pugilista Marcel Cerdan, campeão mundial dos pesos-médios. Aos golpes que a vida lhe infligia ela revidava com a potência do seu canto.
     
Quando ela solta a voz, até as pedras se emocionam. Na última cena, quando ela canta "Non, je ne regrette rien", com toda a passionalidade de sua alma livre e desesperada, o seu canto tem qualquer coisa de mágico que avassala os ouvintes. E era na música que ela encontrava sentido para a sua existência. Por isso, quando alguém lhe pergunta o que faria se não mais pudesse cantar, ela diz: "Eu não viveria". Coerentemente, após mostrar a sua expiração, o filme termina com a canção que ela adotou como uma espécie de hino  a sugerir que ela continua viva nas canções.
     
Marion Cotillard, a intérprete de Piaf, não poupou sacrifícios para tornar sua atuação convincente. Raspou as sobrancelhas, refeitas a lápis, e parte do cabelo acima da testa, além de submeter-se a sessões de maquiagem de até cinco horas para as cenas da cantora em seus últimos dias. E o resultado é magistral, quase do nível da atuação de Jamie Foxx como Ray Charles, no filme Ray (2004). O "quase" vai por conta de Foxx ter cantado, o que Marion não fez.
     
As canções foram tiradas de gravações da própria Piaf, exceto "Padam" e "L'Accordéoniste", providas pela atriz Jil Aigrot. Mas a dublagem se aproximou da perfeição, a ponto de induzir à suposição de que Marion imitou até a voz dela. De fato, somente quem conhece as alterações fisiológicas causadas pelo esforço de cantar consegue perceber que Marion está dublando.
     
No cinema, a fotografia do filme apresentava indícios de degradação, com as cores diluídas, o que não seria compatível com as épocas e boa parte dos ambientes recriados. A título de comparação, tomemos o filme Um Beijo Roubado (2007), de Wong Kar-Wai. Nele, há a nítida preocupação com a desglamorização. Donde os enquadramentos e ângulos inusitados e o uso de lentes de reduzida profundidade de campo (foco curto), combinando com a época focalizada e os ambientes degradados em que as personagens transitam.
     
Quem assistir a Piaf - Um Hino ao Amor em DVD vai perceber que a iluminação das cenas denota preocupação com um visual glamoroso. As imagens, até certo ponto requintadas, têm cores bem definidas, precisas, em consonância com a época e os ambientes retratados.
     
Diante de tal constatação, os que defendem a tese de que filmes são feitos para serem vistos unicamente no cinema que nos perdoem, mas ter a mente aberta a novas mídias é fundamental. 


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POR EM 14/03/2008 ÀS 04:09 PM

A ferida na memória

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O trauma é um dos temas recorrentes e centrais das artes contemporâneas. O que se coloca é a dificuldade de apreender uma experiência terrível, como foi a do campo de concentração nazista da Segundo Guerra Mundial. Trata-se de transformar em palavras ou imagens o tormento de uma situação que se aproxima do irrepresentável. No Brasil, a vida de quem lutou contra a ditadura militar de 1964 entra na categoria da memória que é difícil de ser recuperada e incapaz de ser esquecida, sobretudo as torturas sofridas pelos militantes de esquerda.

A experiência traumática ronda “Ação Entre Amigos” (1998), de Beto Brant. Possivelmente, é o filme que melhor aprofunda as questões levantadas a partir da guerra suja entre militares e guerrilheiros de esquerda nos anos 1960 e 1970. A história se passa no presente, com quatro amigos que lutaram contra a ditadura e vão para uma pescaria de fim de semana. A surpresa será contada pelo organizador do passeio: o grupo vai na verdade ao encontro do antigo torturador, aquele sujeito que atormenta as memórias deles. A trama se desenrola na discussão do que fazer com o algoz do passado.

O filme de Brant coloca uma questão discutida anos trás por Jacques Derrida a respeito do “perdão”. Segundo o filósofo francês, as violências que atingem as sociedades encontram distintas soluções. Os nazistas foram julgados sumariamente pelo Tribunal de Nuremberg. No outro extremo, o Chile e o Brasil optaram pela anistia irrestrita aos crimes cometidos durante os períodos ditatoriais. Os dois casos geraram ressentimentos e deixaram feridas abertas. Uma solução, para Derrida, seria a adoção do tribunal como aquele criado pela África do Sul no pós-apartheid.

Os sul-africanos fizeram um tribunal sem julgamento legal. Os brancos, porém, deveriam realizar um acerto de contas com os negros e reconhecer publicamente a responsabilidade por crimes cometidos em nome do regime oficial de discriminação. No filme “Ação entre amigos”, os personagens estão no Brasil e decidem resolver por conta própria o que está preso na memória. Eles mesmos criam o seu próprio tribunal, onde também eles serão punidos. Surge uma tensão dramática que resultou num dos melhores filmes da retomada do cinema brasileiro nos anos 1990.

Outra obra a tratar desse esquecimento impossível da ditadura é “Benjamin” (2004), de Monique Gardenberg, baseado no romance homônimo de Chico Buarque. A memória vira uma alucinação do personagem Benjamin já velho nos dias atuais. Ele vive o tormento de encontrar uma mulher fisicamente muita parecida a sua namorada que foi morta pelo regime militar. É uma narrativa que reúne a nostalgia dos anos dourados da juventude, o pesadelo da perseguição política e um presente sem vida e orientado pela imagem da publicidade.


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