revista bula
POR EM 22/08/2012 ÀS 08:41 PM

Especial Samuel Fuller

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Roteirista, produtor e diretor da maioria dos seus filmes, Sa­muel Fuller é uma lenda da sétima arte, o mais cult dos cineastas americanos, celebrado no auge da crítica francesa dos “Cahiers Du Cinema” pelos jovens da Nouvelle Vague. O impacto dos seus filmes se mantém, apesar de terem sido feitos há meio século, e funciona como um soco na cara do atual bom comportamento do cinema. Fuller contraria todos os consensos, de gênero, de protagonistas, de narrativas, jogando pesado e limpo com o espectador e o confrontando com a formação e o desmascaramento dos mitos. Seus heróis, histórias, lutas, diálogos são sempre antológicos e deslumbram gerações de espectadores e de estudiosos. Neste Especial, um painel ensaísticos sobre seus principais filmes e o que eles nos deixam de herança.

Os três primeiros filmes escritos e dirigidos por Samuel Fuller — sendo que só um não foi também produzido por ele — entre 1949 e 1951 despem os mitos que o próprio cinema vestiu. O primeiro, sua grande estreia, arrasadora, “Eu Matei Jesse James”, é o contraponto entre a formação do mito (o Robin Hood heroico invencível traído pelo melhor amigo, contado pelos folhetins e imprensa e cantado pelos trovadores ambulantes) e seu antídoto (a representação do crime no teatro protagonizado pelo próprio assassino, Bob Ford, o cara que assim fica marcado para morrer, pois matá-lo daria fama ao atirador). Em tese é um faroeste, mas Fuller rompe os mitos que cercam os gêneros.


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POR EM 19/08/2012 ÀS 05:29 PM

The Lady — Além da Liberdade, de Luc Besson

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James PattersonBirmânia era uma Shan­gri-lá cheia de belezas e riquezas onde o povo vivia feliz, mas aí vieram os malvados e a destruíram. O fato de o país ter virado colônia britânica no século 19 nem  vem ao caso. A malvadeza é toda atribuída à raça malaia, mulata, ditadora e truculenta, que tiraniza seus próprios iguais e persegue a sofredora dona de casa birmanesa filha de general líder da independência que tinha sido assassinado. Por sua linhagem, serve de imã para o mo­vimento democrático que se arrastou por décadas sem impedir que os generais da atual Mianmar dominassem o tempo todo.

A Orquídea de Aço, Aung San Suu Kyi, abandonou família para abraçar esse sonho que lhe caiu no colo depois de uma vida pacata no exílio. Guindada ao primeiro plano diante das massas, envolveu-se na luta e nunca mais saiu dela. Ficou afastada dos filhos e do marido, que conseguiu colocá-la como candidata vencedora do Nobel da Paz em 1991. A comunidade internacional nunca pressionou de fato a ditadura da Birmânia, tanto é que ela se eternizou. Mas posa de politicamente correta no filme “The Lady — Além da Li­berdade” (2011), do mentiroso Luc Besson, um cineasta de ação/ficção que omitiu o principal na sua hagiografia, como bem definiu a crítica: a de que a origem do mal da Bir­mânia veio do Oci­dente, que não pode posar portanto de vestal do processo.


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POR EM 13/08/2012 ÀS 06:52 PM

Um Dia de Cão, de Sidney Lumet

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Um filme sobre um frustrado assalto a banco poderia se transformar em espetáculo de circo, palanque ideológico, programa policial e manchete noticiosa em todas as emissoras de TV? Pode. É o que prova “Dog Day Afternoon”, traduzido para o português como “Um Dia de Cão”, de 1975, do diretor Sidney Lumet.

A história conta o fatídico dia da vida de Sonny Wortzik, — interpretado por Al Pacino, em sua melhor forma — um ex-combatente do Vietnã que arranjou emprego e experiência como caixa bancário, é casado,  pai de dois filhos e tem comparsas completamente insanos para invadir um cofre — não tão cheio assim — de dinheiro.

O mais inusitado: Sonny resolve assaltar o complexo bancário para custear a cirurgia de mudança de sexo de seu “esposo”, o homossexual Leon. A história, no mínimo exótica, só poderia ter saído do melhor dos roteiristas: a realidade. 

A versão cinematográfica destes eventos que aconteceram no dia 22 de agosto de 1972 se passa em uma agência no bairro do nova-iorquino do Brooklin.

Para filmar o arrombo de frases e situações grotescas, o escalado é o cineasta Lumet com uma equipe altamente talentosa que vai de Al Pacino, John Cazale a Penelope Allen.


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POR EM 08/08/2012 ÀS 08:57 PM

O Falcão Maltês, de John Huston

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O cinema noir criou uma nova estética fílmica. A definição, criada a partir do idioma francês para definir o gênero do "filme preto”, retrata o submundo das grandes cidades e como os personagens complexos intercalam boas e más qualidades distribuídas ao longo de um roteiro sofisticado cheio de reviravoltas. Outra característica noir é o uso simbólico de sombras. 

O filme “O Falcão Maltês”, de John Huston —  citado por muitos como o criador do gênero noir — guarda para o final o teatro de espectros, como exemplo, um elevador que lança sombras em forma de grades de cadeia no rosto da dissimulada heroína.  

Em uma tendência completamente inovadora para o gênero, o filme é feito em cenários impecavelmente arrumados, como quartos de hotéis e escritórios, muito diferente da decadência apresentada nos noir seguintes, como “Até a Vista, Querida”, de 1944,  e “À Beira do Abismo”, de 1946. O excelente protagonista, Humphrey Bogart, evolui de um cruel vilão para o durão herói na pele de Sam Spade, um detetive particular de São Francisco contratado para solucionar um misterioso caso. Sua personagem cheira a genialidade investigativa misturada a charlatanismo. Perceba a apresentação das personagens, aqui. 


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POR EM 04/08/2012 ÀS 07:20 PM

O Cavaleiro das Trevas Ressurge

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Com “O Cavaleiro das Trevas Ressurge”, Christopher Nolan encerra o tríptico iniciado em 2005 com “Batman Begins”, se­guido de “O Cavaleiro das Trevas”, em 2008. A saga do personagem criado por Bob Kane, do trauma dos anos de infância à apoteose final, cavalgando vitorioso em direção ao pôr do sol, está completa e, talvez, conclusa. O tratamento mais maduro, em oposição ao estilo fabulista de Tim Burton e ao andrógino-cafona de Joel Schumacher, outros dois diretores da “franquia”, está diretamente ligado à forma como trabalha o diretor. O resultado é um filme que herdou dos clássicos (“Lawrence da Arábia”, “A Batalha de Argel”, para citar dois) a qualidade mesmerizante que só o cinema tem.

Longe do confete de Hollywood, em silêncio, com o mesmo diretor de fotografia (o genial Wally Pfister) e o mesmo montador (Lee Smith), a esposa como produtora e o irmão como co-roteirista, Nolan não replica nenhum artifício visual ou narrativo que tenhamos visto em quaisquer outros longas de super-heróis, a começar pelo 3D, o qual recusa com veemência, preferindo o formato Imax, em gloriosos 70 milímetros. Pouco do que está na tela é gerado por computador: o Batman no alto da ponte, vigiando a cidade, é um homem real, a caráter, no alto da maldita ponte.


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POR EM 23/07/2012 ÀS 11:20 PM

Hemingway com Ava Gardner

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Ernest Hemingway é o escritor americano que melhor conceitualizou a “geração perdida” definida por Gertrude Stein. Isto porque, Hemingway descreve com extrema precisão homens que saíram das guerras e conflitos bélicos do século 20 para se embrenharem nas trevas do padecimento físico e psicológico. 

Para celebrar um tratado minúsculo em tamanho, mas grande em abrangência literária, o bom diretor Robert Siodmak fez “The Killers”, em 1946,  um filme fantástico ao estilo “noir”. Os primeiros dez minutos reproduzem quase literalmente o conto homônimo de Hemingway, escrito em 1927. 

Dois assassinos invadem uma vila adormecida no interior dos Estados Unidos para matar o recluso imigrante sueco Swede (Burt Lancaster). Estranhamente, no conto e no filme, o protagonista não esboça resistência e abraça sua morte sem pestanejar. 

O espectador fica na iminência cruel de imaginar a razão, pouco natural, para que Swede abandone o desejo de viver. Ao ser anunciado que, em poucos minutos, receberia oito tiros de revólver, ele apenas responde ao colega que trabalha com ele como frentista: “Não vou fugir. Estou cansado de me esconder”. 


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POR EM 22/07/2012 ÀS 01:43 AM

O novo velho Woody

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Recentemente, em mesa redonda sobre o filme “Crimes e Pecados”, na Universidade Federal de Goiás, fui apresentado a todos pelo professor Lisandro Nogueira como “especialista em Woody Allen”. É claro que a intenção foi a melhor possível, mas confesso que aquilo me incomodou um pouco. Achei estranho, até então não havia me dado plena conta disso.

De minha parte, não me considero tanto. É verdade que vi todos os seus filmes pelo menos duas vezes. Também é verdade que alguns eu vi incontáveis vezes (como “Crimes e Pecados”, “Stardust Memories”, “Annie Hall”, “Manhattan, “Love and Death”, “Tiros na Broadway”, “Shadows and Fog”, “Hannah e Suas Irmãs”, “Interiores”, “Setembro”). Continua sendo verdade que li e ouvi todos os seus contos, crônicas e peças (“ouvi” porque há um audiobook com a coleção completa de sua prosa, lida por ele mesmo). Todas as suas biografias, entrevistas e um bocado da literatura crítica a seu respeito. E, ok, confesso, meu livro sobre ele está empacado até hoje.

“Especialista” talvez não seja o caso. Fixação mórbida, talvez? Seja lá o que for, será, antes de tudo, uma maldição. Como ele está vivo e produzindo, como sempre, um por ano, todo ano sou presenteado por uma grande decepção. Que só está piorando. Desde “Cassandra’s Dream”, em Londres, até hoje, o único bom exemplar produzido foi realizado justamente em Nova York. “Whatever Works” é um Woody puro sangue. O único. Todos os outros foram concessões a quem está pagando. Alguns chegaram a ser inacreditavelmente ruins. É o caso do último, “A Roma, com Amor”. Mas voltamos a este daqui a pouco.


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POR EM 19/07/2012 ÀS 10:01 PM

Psicose, de Alfred Hitchcock: um remake sem remendo

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A indústria do cinema recicla clássicos do passado desde a década de 1920. Em regra, o original sempre supera a cópia. Mas, há exceção. E são boas exceções. Nas remontagens maiores que a própria obra de inspiração há lembranças como a famosa versão de "Ben-Hur", de 1959, que levou a histórica marca de 11 Oscars. Ele foi erguido a partir de uma versão de 1925, de Fred Niblo, que é quase desconhecia e igualmente decepcionante.

Há menções favoráveis a “Os Infiltrados”, o responsável pelo único Oscar de Martin Scorsese. O americano refaz a leitura de “Conflitos Internos”, filme feito em Hong Kong em 2002. Na película de Scorsese, a história do policial que se disfarça de bandido e o bandido que vai para dentro do departamento se passa na Nova Iorque contemporânea.

Há, porém, vertentes completamente dispares, como “Scarface, a vergonha de uma nação”, de Howard Hawks, de 1932, e a da década de 1980, versão frenética de Brian de Palma. Enquanto o primeiro — que inclusive conta como co-roteirista o famoso magnata do petróleo e da aviação, Howard Hughes — é assentado na superação pessoal e na perversão como pano de fundo do roteiro, o segundo trata do drama moral de um homem suburbano que sobe na carreira e que é tragado por ela. Enquanto o original de Hawks dá aulas de cinema, roteiro e fotografia, na versão de Brian de Palma não há nada de sutileza no que se refere à violência. No primeiro filme, cenas como o fuzilamento de adversários da máfia são mostrados apenas sob os espectros caindo no chão ou simbolicamente, quando o protagonista, baleado, tem sua sombra projetada na sarjeta como uma grande cruz. No remake, a sutileza dá espaço, literalmente, a uma luta com motosserras.


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POR EM 15/07/2012 ÀS 03:28 PM

Todos os homens contra o presidente

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Alan J. Pakula fez o melhor filme sobre investigação jornalística de todos os tempos. O é porque retrata, com precisão visceral, a apuração dos jornais sobre um fato irrelevante, espremido de fontes de tendenciosas e preenchido por ilações que gestam suposições. Estas, claro, para atender a determinado fim, a maioria das vezes, com intenção política.

São eventos que acontecem, cotidianamente, em todas as redações sérias do Planeta, desde os jornais de bairro ao “The New York Times”. No caso do Watergate, a repercussão se transformou em mantra do jornalismo contemporâneo, pois culminou na renúncia de um dos homens mais importantes do mundo.

O merecidamente premiado roteiro de Wiliam Goldman — baseado no próprio livro dos jornalistas Bob Woodward e Carl Bernstein — é a matéria prima na história que lacrou a carreira política de Nixon.

Mesmo assim, o filme de Pakula é tão simbólico, bonito e cheio de sentimentos, de todos os matizes, que a maior experiência profissional das vidas de Bob Woodward (Robert Redford) e Carl Bernstein (Dustin Hoffman) passa como um anexo para quem assiste a história eletrizante por 138 minutos interruptos.


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POR EM 12/07/2012 ÀS 07:04 PM

John Ford: o maior

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O diretor John Ford já foi descrito como o maior cineasta dos Estados Unidos. Além das inúmeras e de incontestáveis premiações em dezenas de conceituados festivais internacionais, o homem que se descrevia como “sou um fazedor de faroestes”, possui uma carreira extremamente diversificada e cheia de elementos que remetem ao modo primário de fazer cinema no Ocidente.

Os temas delimitados por Ford, bem como a forma de retratar personagens, roteiros e não sobrecarregar em movimentos de câmera pautaram todo o modo fílmico do meio-oeste dos Estados Unidos e, por muitos anos, algumas das principais obras cinematográficas da Europa.

Por colaborar tanto para escrever a “cartilha dos filmes”, os colegas norte-americanos sempre o consideraram o melhor de uma geração. Além de quatro Oscar como diretor — “O Delator”, “Como Era Verde o Meu Vale”, “Depois do Vendaval” e “Vinhas da Ira”, Ford ensinou a muitos que ficavam atrás das câmeras a fazerem o menor “barulho visual” possível.

O resultado eram filmes montados com planos secos, objetivos e diretos, uma característica que prevaleceu por décadas no subconsciente daqueles que sentavam na cadeira de diretor. O paradigma visual criado por Ford só foi rompido mais de quatro décadas depois, com o início da Nouvelle Vague e do “cinema de autor”, em especial, o criado na França no início da década de 1960.


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