revista bula
POR EM 19/12/2012 ÀS 09:28 PM

John Ford e o renascimento de uma nação

publicado em

Trata-se da América clássica, dos founders fathers, que se partiu na Guerra da Sec­essão e que em dois filmes de John Ford é recosturada por meio de princípios como a tolerância, a justiça, a paz e a coragem. Praticamente um é refilmagem do outro. Ambos têm como protagonista o judge priest (personagem do escritor Irving S. Cobb) disputando uma eleição em Kentuky, terra de linchadores e de intolerância racial. O primeiro é de 1935 e tem como título o próprio juiz, “Judge Priest”, e o segundo de 1953, com título tirado de uma canção do Sul, “O Sol Brilha” (The Sun Shines Bright).

Fiquei apavorado com a campanha difamatória contra John Ford por parte dos pseudo politicamente corretos na rede, que o acusam de tirano, invejoso e racista. É próprio da mediocridade tentar destruir o gênio, que a desmoraliza. Felizmente alguns ensaístas consideram “O Sol Brilha” mais uma obra-prima do grande cineasta. Confirmei vendo o drama de uma jovem adotada e alvo do desprezo social recuperando sua identidade e sua honra graças à ação enérgica do juiz e de todos que o admiram e seguem seus passos. Em “Judge Priest”, o foco está mais no pai da moça adotada, um herói do sul que ficou livre depois de lutar na guerra e consegue escapar de uma acusação de agressão numa briga de bar.


leia mais...
POR EM 10/12/2012 ÀS 10:40 PM

Somewhere, de Sophia Cop­pola

publicado em

“Somewhere” (“Um Lugar Qualquer”), o premiado filme de Sophia Cop­pola, é sobre os bastidores da vida de um ator célebre (Stephen Dorff, no papel exemplar do paspalho que parece ser), dividido entre festanças, entrevistas, premiações, viagens e eventos variados. A matéria-prima de um cinema de espetáculo, que por motivos misteriosos atrai multidões. Não há dúvida que é uma representação do pai ausente de Sophia, o gênio Francis Ford Coppola, que carregava os filhos pelos hotéis afora enquanto fazia obras-primas. Não tinha tempo para a família, mas até hoje paga o tributo, já que precisa render-se à sua vocação de italiano, apesar de ser essencialmente um americano (aquele tipo que expulsa os filhos de casa mal saem da puberdade). Ele é a presença constante dos filmes da filha, que já nos deu grandes obras como “Lost in Translation”.

Para onde leva esse cinema que dá voltas sobre si mesmo? Para o vazio ou para gestos pretensamente libertadores (por que, em vez de abandonar sua Ferrari no deserto depois de fechar a conta no hotel de luxo, o bobalhão não me dá as chaves do carro e do apartamento enquanto ele torra no solaço? Ora, porque tudo não passa de ficção da pior qualidade). Trata-se de uma denúncia ou de uma entrega? Acho que as duas coisas. Sophia já tinha escrito um conto de fadas da menina que era filha de pais separados ricos e a deixavam vivendo com um mordomo num hotel (“A Vida sem Zoe”, episódio dirigido pelo pai na obra coletiva de “New York Stories”). “Lost in Translation” também se passa num hotel. Ou seja, ela não sai do reduto onde foi criada.


leia mais...
POR EM 10/11/2012 ÀS 07:35 PM

Os melhores filmes de gângsters da história

publicado em

Bons filmes de gângster primam por volúpia. Toda lista ou reunião minimamente sensata passa por uma sequência bem enredada de frases e roteiros pomposos, uma violência quase estética e uma verborragia de gestos latinos e cabelos emplastados de gel. Todos eles são misturados com macheza galanteadora e com armas de todo calibre que fazem o espectador ter vontade de adentrar na­quele mundo secreto permeado de códigos e condutas másculas.


leia mais...
POR EM 08/10/2012 ÀS 07:44 PM

Intocáveis: Pretty Woman da era Facebook

publicado em

O megassucesso francês “Intocáveis” (de Olivier Nakache e Eric Toledano) tem várias sintonias com outro preferido do público: o americano “Pretty Woman” (de Garry Mar­shall). É a sempre bem aceita síndrome de Cinderela, quando alguém muito pobre tem acesso a um palácio, a um personagem rico e pinta um clima que acaba emocionando a plateia e acaba sempre bem. A prostituta (Julia Roberts) contratada como scort pelo multimilionário depredador de empresas (Richard Gere) é, na versão francesa, o afrodescendente (Omar Sy) que é escolhido como acompanhante do ricaço (François Clu­zet) com todo o perfil do nobre europeu, já que não sabemos qual a origem da sua fortuna.

Em ambos os filmes, o personagem carente acaba experimentando um banho de loja e de cultura. Até a cena da ópera é idêntica. A solenidade do evento artístico é quebrada pelo furão ignorante divertido, para espanto da seleta convivência. Há ainda o contraponto óbvio entre o vazio de quem tem di­nheiro e a alegria de viver de quem não tem. Sim, tolinhos espectadores, di­nhei­­­ro não traz felicidade a não ser que entre no circuito alguém que jamais teria acesso a tanta riqueza e faz tudo ficar com al­gum sentido. A grana, enfim, vale para alguma coisa, desde que o emergente traga de suas origens aquele visgo que só a escravatura é capaz de dar com seu rebolado e seu sapateado. E que ganha o olhar complacente dos funcionários bem postos do privilégio, como o gerente de Hotel de “Pretty Woman” ou as secretárias de “Intocáveis”, todos no papel da fada madrinha que incentiva a presença do ungido no baile.


leia mais...
POR EM 03/10/2012 ÀS 10:20 PM

Tetro, de Francis Ford Coppola

publicado em

Toda arte é a sua contingência. Transcender não é ignorar os limites, ao contrário, é ter consciência deles. Um filme não existe fora do cinema. Antes de ser um gênero, é um filme e disso ele não escapa. Seu foco é a sua própria natureza: seja qual for o desdobramento, volta para si mesmo. É preciso abordar o cinema para fazê-lo. Grandes cineastas transformam esse destino, essa camisa de força, em grande arte. Como Francis Ford Coppola, por exemplo, tanto como diretor contratado em estúdio de “O Po­deroso Chefão” quanto no independente “Tetro”. Entre esses dois polos, ele trafega entre a celebração e maldição procurando manter o foco. O gênio que acaba transgredindo faz filmes, não sucessos ou fracassos.

O que é Godfather? Cinema. Marlon Brando imita Eward G. Robinson, paradigma do chefão mafioso de Hollywood desde Little Cesar (1931), colocando bochechas falsas para convencer os chefões de que ele era o ator certo. Gestos étnicos como bater na cara do interlocutor e que são confundidos com a italianidade. O clipe do batismo coincidindo com a eliminação da concorrência. A música pontuando a narrativa. Assim também, “Tetro”, colagem cinematográfica em que o cineasta busca a própria identidade, que em vez de estar na família, está no próprio cinema. As chamadas citações de filmes fazem parte da carne de que é feito “Tetro”. Duas obras da dupla inglesa Michael Powell e Emeric Pressburger , “Red Sho­es” (1948) e “Os Contos de Hof­fmann” (1951), fazem parte da memória doméstica, mas no filme é a substância da postura artística assumida pelos Tetrocini, em que a originalidade e o talento convivem com grandes obras, da música à dança, a literatura e ao cinema. O tempo presente é em preto e branco, origem do cinema, e a memória é em cores, a ilusão de uma vida equilibrada e perfeita que se estilhaça em acidentes, concorrência, retaliações, vinganças, separações, dor e morte.


leia mais...
POR EM 30/09/2012 ÀS 06:47 PM

Os 50 melhores filmes de todos os tempos segundo a revista inglesa Sight e Sound

publicado em

O filme “Um Corpo que Cai”, de Al­fred Hitchcock, foi eleito o melhor filme de todos os tempos, em pesquisa realizada pela revista “Sight and Sound”, do British Film Institute. “Um Corpo que Cai” assumiu o lugar que há 50 anos era ocupado por “Cidadão Kane”, de Orson Welles.

Para chegar ao resultado, a publicação entrevistou 846 críticos de cinema, acadêmicos, distribuidores, roteiristas e programadores de todo o mundo. “Um Cor­po que Cai” (1958), entrou pela primeira vez na pesquisa em 1982 — dois anos depois da morte de seu diretor — e ficou na sétima posição. Em razão do corte pelo número de votos recebidos, a relação contém 52 filmes. O BFI realiza a pesquisa a cada dez anos. 


leia mais...
POR EM 27/09/2012 ÀS 08:32 PM

Ver, o verbo do cinema

publicado em

Filme é o que enxergamos, inclusive a elipse, quando a cena nos remete a algo fora da tela. O exercício de ver serve para abordar o cinema pelo que ele é, quando estão dispostos os elementos chave para decifrarmos o que é visto. Limpar a obra da Sétima Arte de intenções adventícias é uma atividade valiosa, principalmente quando assistimos o trabalho de cineastas como Kubrick, Spielberg ou Chaplin. Ou quando conseguimos nos esclarecer sobre filmes aparentemente banais que provocam insights importantes para o trabalho ensaístico. Nesta coletânea de textos, aprofundamos essa percepção sobre o que o cinema nos mostra de mais impactante.


leia mais...
POR EM 25/09/2012 ÀS 03:40 PM

Especial cinema argentino

publicado em

“O Segredo dos Se­us Olhos”, de Juan José Cam­­panella, é a composição de uma peça clássica em três movimentos. É um filme de amor dentro dos parâmetros conhecidos, ou seja, um casal próximo demais que não consegue se tocar durante o filme todo e só encontra uma solução no final. É um filme policial seguindo os trilhos do filme noir, onde um investigador solitário procura saber algo que todos querem esconder. E é um filme político, na linhagem das grandes obras do gênero, pois denuncia a origem da injustiça nas tramas do poder, e não na natureza humana.

A demonstração de força de um assassino estuprador diante de dois funcionários da Justiça, num elevador fechado, é a cena mais assustadora do filme. O bandido foi descoberto numa investigação criminal, mas está solto graças aos bons serviços de deduragem para a ditadura argentina. Quem treme não é o criminoso, mas as pessoas pagas pelo Estado para fazer valer a lei. Essa é a fonte da tragédia: o país condena as vítimas e estimula os algozes. O resultado é uma sociedade amordaçada, amores frustrados, casamentos partidos, processos arquivados.


leia mais...
POR EM 24/09/2012 ÀS 08:36 PM

Intocáveis, de Oli­vier Naka­che e É­ric To­le­­dano

publicado em

“Intocáveis” (In­tou­chables), de Oli­vier Naka­che e É­ric To­le­­dano, foi o fenômeno absoluto de bilheteria na França em 2011, um dos filmes mais vistos na história do cinema francês, levando às salas de exibição mais de 20 milhões de pessoas. Garantia de sucesso no resto do mundo? Não necessariamente. Fenômenos comerciais, como “A Riviera Não É Aqui” (2008) e “Os Visitantes” (1993), passaram quase batidos em outros países. Os americanos, por exemplo, preferiram assistir ao horrível remake hollywoodiano de “Os Visitantes” a ver o original.

Com “Intocáveis”, a história é outra. Talvez por conta do gênero cinematográfico. Comédias francesas sempre foram melhores do que filmes de ação. “In­tocáveis” é uma comédia? A julgar apenas pela sinopse do filme a resposta é não. Afinal, no centro da história — baseada em fatos reais — está um tetraplégico. Vitimado por um acidente com parapente, ele se vê obrigado a contratar um cuidador, que vem a ser um vigarista de primeira. Digamos então que o filme está mais para uma tragicomédia do que comédia. A verdade é que “Intocáveis” apresenta uma versão otimista sobre as limitações e desafios vividos pelos dois personagens principais e é, ao mesmo tempo, humanista, tocante e muito engraçado. Tudo bem que a produção tenha uma vocação para o politicamente incorreto, mas tem o mérito de ser conduzida num tom surpreendentemente justo.


leia mais...
POR EM 19/09/2012 ÀS 08:10 PM

A ética de Don Corleone

publicado em

É plausível considerar que as duas narrativas iniciais de Francis Ford Cop­pola sobre a família Corle­one estão entre as melhores criações cinematográficas do mundo. O plano detalhe so­bre a mão do “Poderoso Pa­drinho” que afana um gato enquanto ele ouve atentamente as queixas da comunidade ítalo-americana, denotam, na mesma mesa, dois planos do enredo sofisticado do livro de Mario Puzo: o senso de justiça na terra nova e a ética brutal da máfia.

As tomadas frontais que se sucedem no mal iluminado escritório de Vito Corleone são a materialização visual dos conceitos filosóficos da teoria base de Emmanuel Kant sobre a razão prática e a liberdade. Usando a condição representativa de patriarca e núcleo da célula familiar que ele considera vital à continuidade moral e material de sua “profissão”, Vito transita – ora por um ou pelo outro – nas três interpretações do imperativo categórico.

Quando dá lições aos filhos que se desprendem dos caminhos de sua fundação normativa, Vito crê que, mantendo todos sobre seu raio de influência, eles trilharão a lei universal do poder. É assim com Santino Sonny (James Caan), uma das esperanças de Vito para restabelecer a paz entre as famílias sicilianas, e Michael Corleone (Al Pacino), o instruído oficial da Marinha que havia servido a América na guerra contra Hitler e Mussolini.


leia mais...
 1 2 3 4 5 >  Último ›
É permitida a reprodução total ou parcial sem autorização prévia dos editores, desde que citada a fonte.
© Copyright 2014 — Revista Bula — Literatura e Jornalismo Cultural — seutexto@uol.com.br
wilder morais
renovatio